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	<title>Arquivos Franz Kafka &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Estante do Persona – Fevereiro de 2023</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Mar 2023 22:10:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Quantos psicólogos me tomariam por louca se eu lhes dissesse que sou afetada pelo que acontece fora de mim? Que a aceleração do desastre me petrifica? Que tenho a impressão de não ter mais controle sobre nada? &#8211; Nastassja Martin Após acompanhar o melancólico Aos prantos no mercado, de Michelle Zauner, em Fevereiro o Clube &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-fevereiro-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Fevereiro de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30623" aria-describedby="caption-attachment-30623" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-30623" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/estante_wp-768x404.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30623" class="wp-caption-text">Em Fevereiro, o Clube do Livro mergulhou em Escute as feras (Foto: Editora 34/Arte: Aryadne Xavier/Texto de abertura: Bruno Andrade)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">&#8220;Quantos psicólogos me tomariam por louca se eu lhes dissesse que sou afetada pelo que acontece fora de mim? Que a aceleração do desastre me petrifica? Que tenho a impressão de não ter mais controle sobre nada?</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8211; <span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Após acompanhar o melancólico </span><a href="https://personaunesp.com.br/em-aos-prantos-no-mercado-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Aos prantos no mercado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Michelle Zauner, em Fevereiro o Clube de Leitura do Persona deu continuidade a nossa tradição de ler autoras – nesse caso, também com uma escrita melancólica. </span><a href="https://editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Nastassja Martin, foi a escolha da vez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mergulhando nesse relato autobiográfico, narrado e construído como um texto de ficção, <a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin">Nastassja Martin</a> nos prende do inicio ao fim em seu trágico relato de quando, durante uma pesquisa de campo, foi atacada por um urso e teve parte do rosto desfigurado. No entanto, a antropóloga entende que, em sua trajetória de cura, precisa perdoar o animal e retornar à vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No único encontro do Clube, aspectos da construção textual e uma possível ligação com a autossociobiografia de <a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/">Annie Ernaux</a> – sendo as duas autoras francesas – chamou a atenção. As referências culturais, antropológicas e místicas também foram abordadas: para alguns povos originários, os quais Martin estava se dedicando a pesquisar durante o ocorrido, ser atacado por um urso e sobreviver coloca o indivíduo em um estado de &#8220;entre-vida&#8221;, habitando duas dimensões simultaneamente – o texto da autora, que <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bZps99Q5cs4">veio à Flip</a> no final de 2022, se constrói um pouco nessa dimensão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto os próximos conteúdos do mundo literário não chegam, o</span><b> Estante do Persona de Fevereiro de 2023</b><span style="font-weight: 400;"> segue com seus comentários e Dicas do Mês.</span></p>
<p><span id="more-30605"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_30611" aria-describedby="caption-attachment-30611" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-30611 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Escute as feras. A capa é toda branca com uma foto de um urso em preto e branco centralizada na porção inferior. O animal está uivando com o focinho apontado para cima. O nome da obra está escrito na parte direita superior em fonte simples na cor preta. O nome da autora aparece no lado esquerdo também na parte superior com uma fonte menor." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/escute-as-feras-1.jpg 1707w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30611" class="wp-caption-text">Sob garras e dentes, Escute as feras dilacera a animalização do ser humano (Foto: Editora 34)</figcaption></figure>
<p><b>Nastassja Martin &#8211; Escute as feras (112 páginas, Editora 34)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A antropologia estuda o ser humano, suas origens e afirmação enquanto ser social, biológico e cultural. Para a antropóloga </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/11/nastassja-martin-vai-a-flip-elaborar-sua-metamorfose-no-urso-que-quase-a-matou.shtml"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, a busca pelas respostas se alinhou a níveis acima do esperado. Viajando pelo leste siberiano para entender os costumes dos nativos evenki, a autora enfrentou um urso em um movimento que poderia ser descrito como um ataque, mas, ao longo do texto, a palavra se mostra um equívoco. Com a mandíbula despedaçada e o osso zigomático aos frangalhos, o rosto, vítima da mordida, se choca com uma verdade dolorosa: lutar com um urso parece um abraço quando comparado ao tratamento recebido dos próprios semelhantes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir a carne se desfazendo da própria face antecipa o movimento inesperado no qual o urso desiste de tê-la como presa. Sentido como uma quase empatia da parte daquele que chamam de fera, poupá-la tem um tom que foge à crueldade e é comparar isso com os eventos vividos depois da mordida que dão origem ao livro. Sendo cambaleada entre médicos e hospitais, a mulher assiste os profissionais da saúde em momentos de verdadeira selvageria, longe da tal habilidade pacificadora de conflitos supostamente detida por eles enquanto racionais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É imerso nessa dualidade do ser e as reflexões do ponto que realmente diferencia os mamíferos chamados de homens dos demais, que </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna uma ruptura. Como uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-paixao-segundo-gh-critica/"><span style="font-weight: 400;">epifania</span></a><span style="font-weight: 400;">, a antropologia e a literatura se misturam em linhas descritivas e extremamente metafóricas para revelar que as verdadeiras feras são humanas. Virando a chave na cabeça de quem lê, Martin nos mostra que encontrar um urso pode não ser um sinal de azar. </span></p>
<hr />
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_30613" aria-describedby="caption-attachment-30613" style="width: 684px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-30613 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-684x1024.jpg" alt="A capa do livro A Metamorfose tem o fundo todo branco com o nome do autor, Franz Kafka, escrito no topo em preto e em letras grandes. Embaixo do autor há o nome do livro, A Metamorfose, também escrito em preto mas em letras menores, e, mais abaixo, riscos pretos formando um quadrado quase abstrato." width="684" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-684x1024.jpg 684w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-768x1150.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-1026x1536.jpg 1026w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL-1200x1797.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/71QLwli7GUL.jpg 1324w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30613" class="wp-caption-text">“Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã.” (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Franz Kafka &#8211; A Metamorfose (104 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao despertar, Gregor Samsa nota uma <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571646858/a-metamorfose">metamorfose</a> monstruosa ao observar seu corpo que, misteriosamente, havia perdido a humanidade. A narrativa da ficção kafkiana segue acompanhando a nova, drástica e angustiante rotina de Gregor, o jovem que teve sua dignidade roubada mas apenas conseguia se preocupar em não perder seu emprego e desapontar sua família.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A simbologia da obra pende para a comédia ao passo em que o protagonista se adapta ao novo corpo e começa a agir com uma normalidade quase absurda diante do acontecimento.  É assim que <a href="https://www.estadao.com.br/alias/franz-kafka-tem-suas-apreensoes-reveladas-na-biografia-de-reiner-stach/">Kafka</a> retrata o processo de transformação até sua conclusão, no qual a individualidade de Gregor é retirada de si completamente e o, agora, inseto gigante, deixa de ser filho e irmão e se torna apenas um animal. </span><b>&#8211; Amábile Zioli</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30610" aria-describedby="caption-attachment-30610" style="width: 661px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30610 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-661x1024.jpg" alt="A capa do livro O Amor Nos Tempos do Cólera é composta por um fundo preto sobreposto com cartas amarradas com fotos em um laço vermelho no canto superior direito e inferior esquerdo. No meio, também sobreposto e em uma espécie de papel envelhecido vemos em letras maiúsculas pretas de tamanho pequeno, o escrito “PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA” Logo abaixo, vemos “GABRIEL” em letras maiúsculas douradas e “GARCÍA MÁRQUEZ” em letras maiúsculas na cor vinho. Abaixo, em letras minúsculas cursivas, está escrito “o amor nos tempos do cólera”" width="661" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-661x1024.jpg 661w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-516x800.jpg 516w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-768x1190.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1-992x1536.jpg 992w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Amor-Nos-Tempos-do-Colera-1.jpg 1603w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30610" class="wp-caption-text">Obra é a primeira do autor após o Nobel de Literatura de 1982 por Cem Anos de Solidão (Foto: Record)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel García Márquez &#8211; O Amor Nos Tempos do Cólera (492 páginas, Record)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O próprio autor já afirmava que “</span><i><span style="font-weight: 400;">todo bom romance deveria ser uma transposição poética da realidade”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nessa obra, <a href="https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/garcia-marquez-e-mais-traduzido-no-mundo-que-cervantes-no-seculo-21/">Gabriel García Márquez</a> condensa suas vivências amorosas, mesclando com a história de como seus pais se conheceram. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Amor Nos Tempos do Cólera</span></i><span style="font-weight: 400;"> aborda a jornada de Florentino Avina, um telegrafista, violinista e poeta que se apaixona perdidamente por Fermina Daza. Devido a proibição do pai da garota, Florentino passa dois anos trocando correspondências com ela, e após um último bilhete sem resposta pedindo sua mão em casamento, espera mais de meio século na esperança de reencontrar seu amor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra é uma quebra de paradigmas no seu próprio gênero. Quando se fala no romance literário, automaticamente se lembra daquelas obras que colocam borboletas no estômago e te fazem querer amar ainda mais. Em </span><a href="https://institutoling.org.br/explore/no-clube-de-leitura-um-amor-que-demorou-mais-de-cinquenta-anos-para-ser-vivido"><i><span style="font-weight: 400;">O Amor Nos Tempos do Cólera</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">o amor é cru, é nu, melancólico, demorado, angustiante, frustrante, inconstante e até não garantido. Mas, acima de tudo, ele é humano e nos faz lembrar que amar nos torna mais humanos. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30609" aria-describedby="caption-attachment-30609" style="width: 691px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30609 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-691x1024.jpg" alt="A capa do livro A Redoma de Vidro tem o fundo na cor rosa. O nome da autora, SYLVIA PLATH, posiciona-se no canto superior direito da capa na cor roxa, e no canto inferior esquerdo temos o escrito A REDOMA DE VIDRO na cor branca. Abaixo do título, há, na cor branca também, o escrito ROMANCE. Todos os escritos estão em caixa baixa e no minúsculo. Sobrepondo o título, há a ilustração de uma flor. No canto inferior esquerdo, há o logotipo da Biblioteca Azul na cor roxa. " width="691" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-691x1024.jpg 691w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-540x800.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-768x1138.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1-1037x1536.jpg 1037w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/redoma-de-vidro-1.jpg 1728w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30609" class="wp-caption-text">“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma.” (Foto: Biblioteca Azul)</figcaption></figure>
<p><b>Sylvia Plath &#8211; A Redoma de Vidro (280 páginas, Biblioteca Azul)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sylvia Plath consegue, dentro de todos os futuros que nunca serão vividos e de todos os projetos que nunca irão sair do papel, encontrar as exatas palavras para definir algumas angústias do próprio viver. Em um relato com muitas referências autobiográficas, <a href="https://deliriumnerd.com/2023/03/22/sylvia-plath-diarios-a-redoma-de-vidro/"><em>A Redoma de Vidro</em></a>, único romance da autora, é um mergulho em todas as pressões sociais, os julgamentos, as expectativas e os fracassos de uma jovem nos anos 60.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado semanas antes de sua morte, em 1963, é importante ressaltar que a história de Esther pode gerar gatilhos sobre depressão e suicídio. Ler <a href="https://www.estadao.com.br/alias/sylvia-plath-e-a-importancia-dos-diarios/">Sylvia Plath</a> é como vislumbrar todo o seu interior: seus pensamentos, tormentos, críticas, medos e felicidades que todos nós, em algum momento, já experimentamos, mas que não conseguimos encontrar as palavras exatas para definir. </span><b>&#8211; Clara Sganzerla</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30608" aria-describedby="caption-attachment-30608" style="width: 699px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30608 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-699x1024.jpg" alt="Capa do livro Rainha de Copas. No centro da imagem está uma garota branca com o cabelo ruivo preso em um penteado alto; veste um vestido vermelho com uma grande gola branca; em suas mãos há um coração. Ao fundo, é possível ver alguns galhos e folhagens de outono. Ao centro na parte superior está o nome da autora e na parte inferior o título da obra e o nome do editora" width="699" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-699x1024.jpg 699w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-546x800.jpg 546w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-768x1125.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1-1048x1536.jpg 1048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Rainha-de-Copas-1.jpg 1747w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30608" class="wp-caption-text">Rainha de Copas traz uma nova perpetuar para um dos contos de fadas mais famosos da história (Foto: Universo dos Livros)</figcaption></figure>
<p><b>College Oakes &#8211; Rainha de Copas (216 páginas, Universo dos Livros)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Alice no País das Maravilhas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um clássico da literatura e reconhecido no mundo todo pelas aventuras mágicas vividas pela garota loira que caiu no buraco do coelho. Mas como era o País das Maravilhas antes da chegada de Alice? É exatamente isso que </span><i><span style="font-weight: 400;">Rainha de Copas</span></i><span style="font-weight: 400;"> explora, a vida da princesa Dinah antes de se tornar uma vilã sedenta pelo corte de algumas cabeças. A história é sombria e familiar na medida certa, faz o leitor mergulhar nos novos desafios e mistérios que fizeram a garota desenvolver sua personalidade explosiva. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das partes mais interessantes do livro é notar como personagens tão famosos como o Chapeleiro Maluco, o Gato de Cheshire e o Coelho Branco se desenvolvem nessa nova versão do universo de Lewis Carroll. Todos esses indivíduos têm características e vivências totalmente inéditas, mas suas personalidades marcantes se mantiveram presentes honrando a história original. </span><i><span style="font-weight: 400;">Rainha de Copas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o primeiro livro de uma trilogia intensa que promete muitas reviravoltas e um novo ponto de vista do conto que encantou gerações. </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade </b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30607" aria-describedby="caption-attachment-30607" style="width: 712px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30607 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-712x1024.jpg" alt="Capa do livro O Código da Vinci. Na imagem, um pedaço rasgado do quadro Monalisa de Leonardo da Vinci ocupa espaço no meio de um fundo vermelho. O pedaço tem a parte dos olhos da mulher, que parecem estar direcionados para a direita. O nome do livro está disposto na parte inferior da capa em letras douradas e o nome do autor aparece logo após escrito em branco." width="712" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-712x1024.jpg 712w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-768x1105.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1-1068x1536.jpg 1068w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/O-Codigo-da-Vinci-1.jpg 1780w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30607" class="wp-caption-text">Tirando o cristianismo do pedestal, O Código da Vinci performa conspiração e mistério (Foto: Arqueiro)</figcaption></figure>
<p><b>Dan Brown &#8211; O Código da Vinci (432 páginas, Arqueiro)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vinte anos após sua primeira publicação, </span><a href="https://www.legiaodosherois.com.br/2022/historia-real-o-codigo-da-vinci-fato-falso.html"><i><span style="font-weight: 400;">O Código da Vinci</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se mantém como uma das produções literárias mais polêmicas já produzidas. Descrita como um mistério, a obra mistura os traços investigativos a uma versão remodelada da história de Jesus Cristo. Enfrentar uma instituição com tanta força quanto a Igreja Católica foi uma escolha ousada da parte de Dan Brown, mas ainda assim atingiu o alvo com perfeição e, entre críticas e retaliações, o texto se destaca pelo seu tom questionador e certeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob as artimanhas de um bom suspense, o livro nos conduz pelo desejo de resolver uma incógnita que se mostra muito mais extensa do que o esperado. Através das pistas escondidas em obras do Leonardo da Vinci, toda a construção do catolicismo se revira sobre linhas ocultas. Assim, </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2018/nov/18/4am-starts-and-spinach-smoothies-da-vinci-codes-dan-brown-on-how-to-write-a-bestseller"><span style="font-weight: 400;">Brown</span></a><span style="font-weight: 400;"> foge das cadeias simplistas de detetives com charutos e bloquinhos para repousar em uma linha ficcional que quase beira uma sociedade secreta, mas ainda guarda seus graus de coerência. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Código da Vinci</span></i><span style="font-weight: 400;">, a maior obra de arte é a exposição do mais bem sucedido sistema de dominação social já visto: a igreja. </span><b>&#8211; Jamily Rigonatto</b></p>
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		<title>Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2022 19:03:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.” O mundo ficcional de Haruki Murakami se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/homens-sem-mulheres-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27538" aria-describedby="caption-attachment-27538" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27538 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27538" class="wp-caption-text">Com uma de suas narrativas adaptadas para o Cinema, Homens sem mulheres foi a leitura do mês de Março de 2022 no Clube do Livro do Persona (Foto: Alfaguara/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O mundo ficcional de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">Haruki Murakami</span></a><span style="font-weight: 400;"> se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, quase vazios, e à deriva. Somos lembrados que estamos diante de uma obra ficcional quando encontramos vestígios desse mundo onírico em um lugar distante, semelhante a uma memória ainda não vivenciada. Em sete narrativas interligadas por perdas de vários os tipos – sentimentais, físicas, futuras e passadas –, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000054"><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">dá voz a um universo que não parece mais existir: um mundo distante, dominado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, sonhos perdidos e rostos caídos. </span></p>
<p><span id="more-27512"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido no Japão em 12 de janeiro de 1949, Haruki Murakami consolidou-se uma das vozes narrativas mais conceituadas das últimas décadas. Seus romances e contos formam um estranho universo em que o vazio existencial se expande e ressoa na mistura do real e do fantástico, característica demonstrada de forma magistral em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000151"><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1994). Após se formar na Universidade de Waseda – onde dedicou-se, sobretudo, aos Estudos Teatrais –, Murakami abriu um pequeno bar de </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;"> chamado </span><i><span style="font-weight: 400;">Peter Cat</span></i><span style="font-weight: 400;">, o qual administrou durante oito anos ao lado de sua esposa, Yoko, e chegou a traduzir para o japonês obras de seus autores favoritos: </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-apanhador-no-campo-de-centeio-70-anos/"><span style="font-weight: 400;">J.D. Salinger</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-grande-gatsby/"><span style="font-weight: 400;">F. Scott Fitzgerald</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Raymond Carver.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu primeiro livro, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000277"><i><span style="font-weight: 400;">Ouça a canção do vento</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1978), ganhou o Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Gunzo </span></i><span style="font-weight: 400;">de Novos Escritores, recebendo posteriormente o Prêmio Franz Kafka e o Prêmio Jerusalém. Atualmente, o autor ostenta uma obra traduzida para mais de cinquenta idiomas; mas, diferente de seus trabalhos pregressos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">tem menos elementos surreais, e mantém os pés na realidade – mesmo que em vários momentos tente viajar através dos sentimentos.</span></p>
<figure id="attachment_27513" aria-describedby="caption-attachment-27513" style="width: 2274px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27513 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre a têmpora esquerda e seu braço direito apoiado sobre o braço esquerdo. O fundo da imagem é branco. " width="2274" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg 2274w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-711x800.jpg 711w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-910x1024.jpg 910w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-768x865.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1364x1536.jpg 1364w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1819x2048.jpg 1819w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1200x1351.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27513" class="wp-caption-text">No conto Samsa apaixonado, Murakami recria A Metamorfose, de Franz Kafka, mas transforma um inseto em ser humano, subvertendo o sentido daquilo que seria a verdadeira dimensão monstruosa (Foto: Time Magazine)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na fotografia, há o conceito de “</span><a href="https://spiegato.com/pt/o-que-e-espaco-negativo"><span style="font-weight: 400;">espaço negativo</span></a><span style="font-weight: 400;">”, que diz respeito ao entorno daquilo que está devidamente enquadrado na imagem, compondo o assunto sem necessariamente ser o assunto. Neste livro, o espaço negativo são as mulheres, e, como seu título pode anunciar, retrata os relacionamentos amorosos e suas perdas, refletindo sobre isso através de uma visão muitas vezes idealizada que Murakami mantém ao retratar o gênero feminino, sempre através da perspectiva masculina – até mesmo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Sherazade</span></i><span style="font-weight: 400;">, única narrativa em que a protagonista é uma mulher, mas cujo foco está na narração em terceira pessoa do autor. Mesmo sem juízo de valor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">parece retratar mulheres que invadem a vida dos homens e desaparecem – às vezes por opção, às vezes por força maior –, e deixam uma marca na vida daqueles que as amam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, o escritor japonês reflete mais sobre a solidão do que sobre os relacionamentos, especificamente, o que dá margem a interpretações mais amplas sobre o contexto da obra. Não espere, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i><span style="font-weight: 400;">, um clímax espalhafatoso em determinado momento. É como se todos os contos se desenrolassem em seu estado permanente, cuja construção se estabelece através das várias camadas narrativas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na premiada adaptação cinematográfica de </span><a href="https://personaunesp.com.br/drive-my-car-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – conto em que um ator precisa de um motorista e se espanta ao encontrar uma mulher para o cargo –, esses aspectos foram contemplados: a construção lenta da narrativa, as diversas camadas da história e a aura acinzentada que perpassa a vida, as memórias e a cidade dos personagens. O resultado, além do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Filme Internacional, foi a consolidação do longa como um clássico imediatamente depois de seu lançamento. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Kafuku pensou em dormir um pouco. Dormiria profundamente por um tempo e acordaria. Dez ou quinze minutos, algo assim. Em seguida voltaria ao palco para atuar. Debaixo dos holofotes, declamaria as falas determinadas. Receberia aplausos e a cortina se baixaria. Por um momento, se afastaria de si mesmo, e voltaria. Mas, para ser exato, não voltaria ao mesmo lugar de antes.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;">, vemos dois personagens, Kafuku e Misaki, que se complementam através da solidão compartilhada, mas que manifestam seus sentimentos de formas bastante distintas. Kafuku foi proibido de dirigir depois de um acidente no qual foi encontrado bêbado, e por essa razão a companhia de Teatro pela qual está interpretando </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85171"><i><span style="font-weight: 400;">Tio Vânia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Tchékhov, decide pagar pelo seu transporte durante a temporada de exibições. Ele é forçado, portanto, a encontrar um motorista – inicialmente havia planejado um homem para o cargo –, mas se surpreende ao encontrar Misaki, que foi indicada através de um conhecido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme os dias se passam, a curiosidade de Misaki aumenta, devido ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/pedregulhos-critica/"><span style="font-weight: 400;">silêncio avassalador</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kafuku durante as viagens. Ela quer saber por quais razões ele não possui amigos, então inicia o contato, fazendo-o revelar que, na verdade, estabeleceu uma amizade com um dos antigos amantes da sua esposa, morta há algum tempo. Aos poucos, o viúvo começa a ditar mais detalhes sobre sua vida íntima, e chega a contar que sempre soube das traições e sua ex-esposa também tinha consciência de que não havia mais segredo, e mesmo assim ninguém dizia nada um ao outro, pois </span><i><span style="font-weight: 400;">“todos nós interpretamos um papel”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Kafuku se reveste de uma aura de “homem racional” e luta consigo próprio para entender os eventos ocorridos, Misaki se afunda no trabalho e na introspecção para tentar esquecer seus próprios problemas, alimentando uma visão negativa de si mesma em consequência das situações em que foi submetida anteriormente (o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">abandono paterno</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as violências que sofreu de sua mãe). De forma lenta, Haruki Murakami constrói uma narrativa que evoca magistralmente a importância do passado para moldar nossas características atuais, nas quais sempre carregamos as mágoas ancestrais no horizonte de nossas escolhas.</span></p>
<figure id="attachment_27514" aria-describedby="caption-attachment-27514" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27514 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Na imagem, há um homem sentado em uma mesa, com uma luminária acesa à sua direita. Ele está de costas para nós. À frente, há uma janela transparente que dá vista para um mar de cor azul. As luzes do ambiente são baixas, dando um tom sombreado a todo o quarto. " width="1280" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-800x434.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1200x651.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27514" class="wp-caption-text">Drive My Car, adaptação do conto homônimo feita pelo diretor Ryûsuke Hamaguchi, concorreu em quatro categorias no Oscar 2022, vencendo a de Melhor Filme Internacional (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">foi publicado pela primeira vez, em 2014, Murakami já detinha prestígio e reconhecimento internacional, principalmente pela já citada </span><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda </span></i><span style="font-weight: 400;">– elogiada pelo conservador crítico Harold Bloom (1930-2019) – e </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=27281428"><i><span style="font-weight: 400;">Kafka à beira-mar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2002). Mas apesar de Murakami ser um dos autores mais conceituados nos dias atuais, ainda convive à sombra dos escritores subjugados – por uma parcela ainda elitista – como “autor de entretenimento”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é uma categoria muito utilizada para tentar designar obras que não exijam esforço intelectual, que oferecem somente um espairecimento ou fuga da vida cotidiana, mas que nada criam de permanente às nossas vidas, como os grandes clássicos atemporais realmente fazem. A verdade é que qualquer coisa pode ser intensa se você olhar bem, e o fato de uma obra literária não ter sido reconhecida por sua dimensão não declarada evidencia mais suas qualidades como leitor do que as qualidades da obra. Existem livros ruins, todavia é preciso admitir a posição pessoal e imprescindível à afirmação: não representa a totalidade dos leitores da obra, e pode realmente trazer </span><a href="https://personaunesp.com.br/benedetta-critica/"><span style="font-weight: 400;">revelações profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e aumentar o entendimento do mundo de certas pessoas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“De uma forma ou de outra, você também vai ser um dos homens sem mulheres. De repente. E, uma vez que você se tornar um dos homens sem mulheres, a cor da solidão se impregnará no seu corpo. Como se fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete de cor clara.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício literário, de alguma forma, tem a ver com caminhar por consciências alheias, com entender e compreender as angústias e segregações ligadas ao racismo na leitura de uma obra de James Baldwin, Toni Morrison ou </span><a href="https://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;">; analisar, através da obra de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dimensão solitária a qual somos submetidos devido a enxurrada de publicidade vazia e interesseira que recebemos diariamente; vislumbrar a longa caminhada dos dias como inerte e indiferente a nós, como Albert Camus observou; tentar se colocar no lugar de um indivíduo com problemas de vícios de todos os tipos ao ler um romance de William S. Burroughs; e ver, de alguma forma, o núcleo cinza dos dias nos contos que Murakami redige em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres.</span></i><span style="font-weight: 400;"> De algum modo, tudo isso também tem a ver com gerar empatia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, qualquer debate sobre Arte e suas qualidades está sujeito a um emaranhado de problemas, sempre resvalando em questões de gênero, desigualdade social e elitismo. Talvez seja interessante perceber o quanto a visão publicitária tende a reduzir uma obra ficcional, uma vez que seu foco, quase sempre, está na projeção de um sentimento específico no leitor, geralmente a catarse. Quando se lê um romance cujo intuito é, deliberadamente, a criação de um ambiente em que se consolide o quanto determinado autor é genial e meu-Deus-olhe-o-que-ele-está-fazendo, o resultado é dificilmente o esperado. Isso porque obras artísticas são abertas à interpretação, como </span><a href="https://editoraperspectiva.com.br/produtos/obra-aberta-revista-e-ampliada/"><span style="font-weight: 400;">Umberto Eco</span></a><span style="font-weight: 400;"> constatou, mas principalmente porque, depois que o escritor termina e publica o livro, se torna apenas uma forma de linguagem, capaz de gerar sentidos distintos em cada um. Murakami parece ter consciência disso, e por essa razão suas histórias têm as descrições narrativas como ponto principal.</span></p>
<figure id="attachment_27515" aria-describedby="caption-attachment-27515" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27515 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está sentado, olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre o braço direito e seu braço direito apoiado sobre a perna esquerda. Ele veste uma camiseta preta e uma calça cinza. O fundo da imagem também é cinza." width="1024" height="810" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-800x633.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-768x608.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27515" class="wp-caption-text">Além de escritor, Murakami é musicólogo, e as referências a sua banda favorita, os Beatles, refletem-se ao longo da obra; os contos Drive My Car e Yesterday fazem homenagem a duas canções dos Garotos de Liverpool (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilo narrativo de Murakami se estabelece através de uma prosa simples, e não há qualquer inventividade linguística em seus escritos. O ouro do autor está mais no seu domínio narrativo do que em qualquer outra coisa, cuja característica principal é sua descrição minuciosa e expositiva na medida certa, sem entregar demais e ainda assim permitindo que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">jogo ficcional</span></a><span style="font-weight: 400;"> se consolide através da imaginação dos leitores. O que torna seus livros tão atraentes é a possibilidade de largá-los e depois retornar até eles com a consciência de que haverá, no mínimo, uma boa história a ser lida, sem a necessidade de se lembrar daquilo que leu anteriormente – talvez por isso haja confusões sobre o público que Murakami quer realmente atingir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, obras também podem ser contaminadas pela visão industrial. Desse modo, surgem as obras possivelmente ruins em sua essência, trabalhos cujo aspecto fundamental seja a escalada comercial e venda em massa, o interesse puro e genuíno em se transformar em escritor como um gerente que administra uma empresa, sem considerar qualquer aspecto relacionado à Arte. Talvez o choque primordial ao ler os contos de Murakami seja a compreensão de que as coisas se desenvolvem lentamente – como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Kino</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma das maiores narrativas da coletânea e, consequentemente, uma das mais demoradas –, pois não há pressa no autor em estabelecer a ambientação de suas histórias, agindo em contraste ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/"><span style="font-weight: 400;">mundo frenético da contemporaneidade</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Os galhos de salgueiro continuavam ondulando ao vento do início de verão. Em um pequeno quarto escuro no profundo interior de Kino, a mão quente de alguém foi estendida e tentou pousar sobre a dele. Com os olhos fortemente cerrados, Kino sentiu o calor dessa mão e sua espessura macia. Era algo que fora afastado dele havia muito tempo. Sim, estou magoado. Muito, profundamente, Kino disse a si mesmo. E chorou. Nesse quarto escuro e silencioso.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">À medida que a coletânea avança, as histórias assumem um caráter mais sombrio. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Órgão independente</span></i><span style="font-weight: 400;">, conhecemos o Dr. Tokai, um cirurgião plástico de 52 anos que nunca foi casado nem nunca desejou se casar. Ele se relaciona com diversas mulheres, sem se entregar totalmente a nenhuma delas, mas, quando se apaixona de fato, tudo se transforma em uma calamidade. Surge, através das diversas metáforas deixadas como pistas na narrativa, a possibilidade de entender o amor como uma doença incurável e violenta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu título retirado de um conto de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2022/04/podcast-discute-obra-de-hemingway-e-a-masculinidade-do-nosso-tempo-ouca.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ernest Hemingway</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">dá vida a indivíduos que optam pela solidão numa tentativa de afastar o sofrimento, mas que, inevitavelmente, intensificam as duas sensações. Ao contrário dos personagens de Hemingway, excessivamente preocupados com virilidade – seres quebrados que encontram vazão no afeto, sem deixar que isso mude seus próprios valores –, os personagens de Haruki Murakami não conseguem identificar os motivos da dor. A parte difícil é constatar, indigestamente, que não possuímos controle sobre quase nada – muitas vezes, nem sobre nós mesmos. </span></p>
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