
Gabriel Diaz
No começo de sua carreira, Matuê era a ‘cura‘, representada pelo seu primeiro álbum de estúdio, Máquina do Tempo (2020). Agora, segundo suas próprias palavras, ele se torna a ‘peste’. É possível ler XTRANHO como uma infestação estética: um disco que deseja incomodar, provocar rejeição e instaurar ruído em um cenário cada vez mais previsível do trap mainstream. O lançamento foi tratado como um evento, tendo uma audição pública no Vale do Anhangabaú, englobada à uma identidade visual agressiva com múltiplas capas e um website interativo (indisponível para acesso). Desde o primeiro contato, fica claro que o projeto não se limita ao som, mas extrapola além do campo musical. Ainda assim, sua principal fragilidade está na distância entre a ideia de ruptura anunciada e aquilo que efetivamente se materializa durante as faixas.
Ao revisitar o passado, a produção ocupa uma posição curiosa na discografia do artista. Enquanto 333 retratava um amadurecimento artístico, com reflexões mais densas sobre fama, identidade e sucesso, XTRANHO parece dar o retorno na estrada – nele, opera-se um movimento regressivo, mais elementar e impulsivo, abandonando qualquer ambição racional. A sonoridade é como título promete: uma estranheza que abandona boa parte da singularidade construída anteriormente e se ancora em referências já consolidadas do trap experimental internacional, especialmente Travis Scott, Playboi Carti e o universo do selo Opium. Não há problema em dialogar com essas matrizes, até porque o trap sempre foi um gênero de circulação global, porém aqui a apropriação soa tardia e pouco transformadora.
O ‘estranho’ é cansativo. O sentimento prometido aparece domesticado, filtrado por fórmulas que já se tornaram comerciais, principalmente quando se trata de um artista geracional dentro do gênero. Apesar de ser caracterizado como ‘underground’, o disco esvazia qualquer pretensão de ruptura, pois não ousa realmente. O álbum mostra competência, explicada pelas produções limpas, os graves bem posicionados e as texturas densas e agressivas.

Contudo, técnica sem propósito não sustenta uma obra. A sensação constante é de que a forma tenta compensar a ausência de conteúdo numa aposta em beats distorcidos e atmosferas sufocantes como se isso, por si só, fosse sinônimo de experimentação – e, claro, não é. A sonoridade soa atual, mas também genérica, incapaz de criar momentos e refrões verdadeiramente memoráveis: acredito que repetir ‘fogo’ por milhares de vezes não soa insano, tal como FEIN (2023), outra produção que, infelizmente, envelheceu mal.
Essa fragilidade se torna ainda mais evidente no campo lírico, onde o álbum atinge seu ponto mais baixo. FACAS E MACHADOS é o símbolo mais claro do colapso discursivo desse projeto. A música constrói uma ambiência agressiva e promissora, no entanto a letra dissolve qualquer impacto ao mergulhar em um amontoado de frases desconexas, infantilizadas e sem densidade simbólica. Não se trata de fluxo de consciência sofisticado ou de nonsense intencional: é puramente vazio. São versos que conversam com o nada e não criam estranhamento poético, apenas revelam falta de elaboração. O mesmo ocorre em ALTERADO, que em sua ostentação deixa de funcionar como comentário social ou autorreflexão e passa a operar como fetiche. É um discurso que parece mirar um público adolescente, reforçando a ideia de que a provocação é mais performática do que conceitual – o que, nitidamente, está acontecendo, visto a repercussão do artista diante das críticas.
Há um cuidado evidente na criação de texturas e ambiências, sobretudo em MEU CEMITÉRIO, que executam sucessivamente o flerte entre o desconforto e a linguagem artística. Ainda assim, essa sofisticação instrumental nem sempre encontra correspondência na escrita. Em setembro deste ano, um vídeo de uma garota viralizou na internet que correspondia a uma agressão ocorrida em um show do Don Toliver, durante um moshpit no festival The Town. Num tom satírico, Matuê inclui esse áudio em sua faixa inicial, REI TUÊ, o que completa a síntese dos limites éticos e estéticos do disco. O gesto se apresenta como transgressão, mas carece de elaboração crítica, pois é o tipo de recurso que gera engajamento imediato e polarização nas redes, porém dificilmente sustenta uma leitura mais profunda. Então, reforça a impressão de que XTRANHO confunde provocação com barulho e radicalidade com mau gosto.

Por outro lado, seria reducionista tratar XTRANHO como um fracasso artístico completo. Parte da defesa do álbum se apoia na ideia de valorização da dimensão coletiva, especialmente por meio das colaborações com artistas menos conhecidos, como Kouth, Cashley e outros nomes da cena underground – o que amplia a visibilidade de vozes marginalizadas e reforça uma ideia de bando, recorrente no discurso do cantor principal. Ainda que essas parcerias possam ser lidas como um ‘selo de autenticidade’ aplicado a um projeto major, elas produzem momentos de frescor e indicam uma disposição real de diálogo com a base criativa do trap brasileiro.
A recepção polarizada do álbum também é parte fundamental de sua leitura e revela outro aspecto crucial: o papel da fanbase como escudo crítico. Nas redes, XTRANHO foi simultaneamente chamado de ‘visionário’ e ‘confuso’. O título opera como justificativa automática para qualquer falha, pois se algo não funciona, a resposta é simples: ‘é estranho mesmo’, como se qualquer fragilidade pudesse ser relativizada. Incrivelmente, a situação está pior que os fãs de diva pop, porque assim, a defesa apaixonada do álbum se confunde com a defesa de uma identidade coletiva, em oposição à crítica especializada e à mídia tradicional. O long-play, nesse sentido, produz menos como obra autônoma e mais como artefato de marketing e lealdade.
No saldo final, XTRANHO não falha por tentar algo novo e promete uma ruptura que não entrega. O disco é inconsistente e conceitualmente imaturo, sustentado mais por estética, hype e espetáculo do que por canção significativa. Para dizer que houve bons frutos, é possível dele medir o alcance simbólico do Matuê, a força de sua base e os limites entre provocação e profundidade. Dessa forma, ele expõe contradições, testa lealdades e evidencia como, no trap contemporâneo, design, marketing e identidade coletiva muitas vezes se sobrepõem à música em si. Talvez, no futuro, esse trabalho seja lembrado menos pelas faixas que o compõem e mais pelo debate que instaurou e isso, querendo ou não, também é um dado crítico a ser considerado.
