
Stephanie Cardoso
Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, Virtuosas apresenta um retrato inquietante do conservadorismo contemporâneo. Dirigido por Cíntia Domit Bittar, a produção acompanha Virginia (Bruna Linzmeyer), uma influenciadora que defende a submissão feminina e o cuidado exclusivo com a família como forma de moralidade. Por trás da aparente devoção, a personagem busca controle absoluto: manipula, engana e silencia em nome de princípios ideológicos. Ao reunir três participantes em um retiro voltado para o aperfeiçoamento pessoal, surge um ambiente de tensão crescente, histeria e violência, onde regras de perfeição transformam-se em prisões psicológicas.
A residência isolada, com conexão limitada e atividades que simulam espiritualidade, funciona como microcosmo de poder. Lorena (Juliana Lourenção), esposa de político, lida com a pressão do cuidado constante do bebê e tenta se adaptar às normas do retiro. Germina (Maria Galant), jornalista infiltrada, mantém ceticismo absoluto e apenas finge conformidade para coletar informações. Bárbara (Sarah Motta), dona de casa e aspirante a celebridade, idolatra a influenciadora e se esforça para seguir cada instrução. Nesse cenário, a suposta devoção torna-se máscara para comportamentos opressivos, revelando uma sociedade que prefere controlar mulheres a questionar estruturas que as restringem.

O longa se conecta diretamente ao movimento Mulher Virtuosa, que ganhou relevância em redes sociais e grupos conservadores no Brasil. A ideologia prega que o ideal feminino é a docilidade, a subserviência e a dedicação exclusiva ao lar. A produção transforma essas crenças em sátiras sombrias, revelando que essas práticas ainda são celebradas em determinados círculos da sociedade. Ao mesmo tempo, evidencia o quanto toleramos passivamente a imposição de padrões antiquados e como escolhemos ignorar suas consequências na vida real.
A narrativa oscila entre ironia e terror psicológico, em alguns momentos aproximando-se do caricato. O feito nos faz lembrar dos vídeos motivacionais das redes digitais – exatamente o tipo de conteúdo que Virginia poderia produzir. Esse tom exagerado intensifica o desconforto, tornando a linha entre absurdo e realidade quase indistinta. Mesmo nas sequências mais extremas, a obra reflete a maneira como discursos moralistas moldam condutas cotidianas, transformando obediência em obrigação moral.
O roteiro, estruturado com tensão crescente e simbolismo, é elevado por interpretações brilhantes. Linzmeyer, cria uma figura sedutora e ameaçadora, cujo desejo de poder se disfarça de devoção. Juliana Lourenção, no papel de Lorena, retrata o colapso de quem tenta alcançar a perfeição a qualquer custo. Maria Galant, como Germina, equilibra sagacidade, ceticismo e vulnerabilidade, mostrando a perspectiva de quem observa a manipulação de dentro do sistema. As performances alternam entre o trágico e o absurdo com naturalidade impressionante, sustentando a tensão narrativa.

A escalada da violência, das superstições à paranoia coletiva, transforma a produção em um verdadeiro conto de horror moral. Cada elemento simbólico reforça a irracionalidade necessária para justificar comportamentos abusivos. Não há redenção nem catarse: apenas a constatação de que a busca pela virtude, quando imposta de maneira autoritária, conduz à destruição emocional. O desfecho dramático evidencia o impacto de regras arbitrárias sobre mulheres e a perversidade de uma cultura que prefere punir inocentes a confrontar falhas estruturais.
Premiado com o Prêmio Netflix, e detentor do Goes to Cannes Award, o filme confirma o reconhecimento internacional de sua força narrativa e da direção precisa. Virtuosas funciona como alerta: ao satirizar o ideal da mulher perfeita, desmonta o teatro moral e revela a hipocrisia de quem utiliza a fé como instrumento de dominação. O desconforto que provoca não surge do distanciamento, mas da proximidade com uma realidade que escolhemos ignorar, expondo limites da submissão feminina e o custo de viver sob dogmas que poucos ousam questionar.
