Virtuosas nos mostra uma realidade escondida, porém em ascensão 

Cena do filme Virtuosas (2025). Na imagem, uma mulher está em um ambiente interno, iluminado por uma luz suave. Ela tem o cabelo curto, de um tom loiro meio escuro e veste uma blusa branca de gola alta. Seu olhar está atento e suas mãos estão erguidas
No filme nos é apresentado o movimento Virtuosas, que vem crescendo dentro do conservadorismo feminino (Foto: Novelo Filmes)

Stephanie Cardoso

Exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, Virtuosas apresenta um retrato inquietante do conservadorismo contemporâneo. Dirigido por Cíntia Domit Bittar, a produção acompanha Virginia (Bruna Linzmeyer), uma influenciadora que defende a submissão feminina e o cuidado exclusivo com a família como forma de moralidade. Por trás da aparente devoção, a personagem busca controle absoluto: manipula, engana e silencia em nome de princípios ideológicos. Ao reunir três participantes em um retiro voltado para o aperfeiçoamento pessoal, surge um ambiente de tensão crescente, histeria e violência, onde regras de perfeição transformam-se em prisões psicológicas.

A residência isolada, com conexão limitada e atividades que simulam espiritualidade, funciona como microcosmo de poder. Lorena (Juliana Lourenção), esposa de político, lida com a pressão do cuidado constante do bebê e tenta se adaptar às normas do retiro. Germina (Maria Galant), jornalista infiltrada, mantém ceticismo absoluto e apenas finge conformidade para coletar informações. Bárbara (Sarah Motta), dona de casa e aspirante a celebridade, idolatra a influenciadora e se esforça para seguir cada instrução. Nesse cenário, a suposta devoção torna-se máscara para comportamentos opressivos, revelando uma sociedade que prefere controlar mulheres a questionar estruturas que as restringem.

Cena do filme Virtuosas. Uma jovem mulher de cabelos castanhos escuros e lisos usa uma faixa clara na cabeça e uma blusa bege de mangas bufantes. Ela sorri levemente, com os braços erguidos e as mãos abertas, em um ambiente interno com iluminação suave
Germina vai fazer de tudo pela sua matéria, até se infiltrar em um retiro nada convencional – mesmo que isso a deixe em perigo (Foto: Novelo Filmes)

O longa se conecta diretamente ao movimento Mulher Virtuosa, que ganhou relevância em redes sociais e grupos conservadores no Brasil. A ideologia prega que o ideal feminino é a docilidade, a subserviência e a dedicação exclusiva ao lar. A produção transforma essas crenças em sátiras sombrias, revelando que essas práticas ainda são celebradas em determinados círculos da sociedade. Ao mesmo tempo, evidencia o quanto toleramos passivamente a imposição de padrões antiquados e como escolhemos ignorar suas consequências na vida real.

A narrativa oscila entre ironia e terror psicológico, em alguns momentos aproximando-se do caricato. O feito nos faz lembrar dos vídeos motivacionais das redes digitais – exatamente o tipo de conteúdo que Virginia poderia produzir. Esse tom exagerado intensifica o desconforto, tornando a linha entre absurdo e realidade quase indistinta. Mesmo nas sequências mais extremas, a obra reflete a maneira como discursos moralistas moldam condutas cotidianas, transformando obediência em obrigação moral.

O roteiro, estruturado com tensão crescente e simbolismo, é elevado por interpretações brilhantes. Linzmeyer, cria uma figura sedutora e ameaçadora, cujo desejo de poder se disfarça de devoção. Juliana Lourenção, no papel de Lorena, retrata o colapso de quem tenta alcançar a perfeição a qualquer custo. Maria Galant, como Germina, equilibra sagacidade, ceticismo e vulnerabilidade, mostrando a perspectiva de quem observa a manipulação de dentro do sistema. As performances alternam entre o trágico e o absurdo com naturalidade impressionante, sustentando a tensão narrativa.

Cena dos bastidores do filme Virtuosas (2025). Três mulheres estão posicionadas lado a lado, enquanto uma claquete é segurada à frente delas. A mulher à esquerda veste um cardigã rosa e um colar de pérolas; a do centro, uma blusa branca de gola alta; e a da direita, um vestido rosa claro com uma tiara. Elas olham concentradas para alguém fora do quadro, em um ambiente elegante e bem iluminado, sugerindo um momento de preparação para a gravação
O filme desmonta o mito da mulher virtuosa com o fio afiado do horror psicológico (Foto: Novelo Filmes)

A escalada da violência, das superstições à paranoia coletiva, transforma a produção em um verdadeiro conto de horror moral. Cada elemento simbólico reforça a irracionalidade necessária para justificar comportamentos abusivos. Não há redenção nem catarse: apenas a constatação de que a busca pela virtude, quando imposta de maneira autoritária, conduz à destruição emocional. O desfecho dramático evidencia o impacto de regras arbitrárias sobre mulheres e a perversidade de uma cultura que prefere punir inocentes a confrontar falhas estruturais.

Premiado com o Prêmio Netflix, e detentor do Goes to Cannes Award, o filme confirma o reconhecimento internacional de sua força narrativa e da direção precisa. Virtuosas funciona como alerta: ao satirizar o ideal da mulher perfeita, desmonta o teatro moral e revela a hipocrisia de quem utiliza a fé como instrumento de dominação. O desconforto que provoca não surge do distanciamento, mas da proximidade com uma realidade que escolhemos ignorar, expondo limites da submissão feminina e o custo de viver sob dogmas que poucos ousam questionar.

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