
Eduardo Dragoneti
Em 14 de agosto de 1975, The Rocky Horror Picture Show chegava aos cinemas do Reino Unido e do mundo, provocando críticos que ainda não sabiam avaliar adequadamente um filme que viria a se tornar um dos mais cultuados da história. Singular e inclassificável em qualquer gênero, o roteiro mirabolante, as atuações propositalmente caricatas e a estética camp se uniram a músicas viciantes e temas considerados tabus, deixando o público da época perdidamente encantado entre o espanto e o fascínio.
Nascido como um fracasso, o longa foi redescoberto pouco tempo depois nas célebres sessões da meia-noite, formando uma legião de fãs ao longo das décadas. A obra é uma paródia que homenageia os filmes B de Ficção Científica e Terror dos anos de 1950 a 1970, ao mesmo tempo, em que brinca com referências óbvias à literatura do século XIX, como Frankenstein e Drácula, e ironiza símbolos associados à Segunda Guerra Mundial, seja na estética de uniformes e gestos, seja na caricatura de figuras de autoridade.

A história acompanha um casal recém-noivado — Janet Weiss (Susan Sarandon) e Brad Majors (Barry Bostwick) — que, ao procurar abrigo durante uma forte tempestade, acaba num castelo cheio de personagens excêntricos lideradas pela Dra. Frank-N-Furter (Tim Curry), uma cientista autointitulada de “a transexual da Transilvânia” (não a região na Romênia, mas sim uma galáxia ficcional) que está prestes a dar vida à sua criação perfeita: Rocky (Peter Hinwood), esculpido para satisfazer seu próprio prazer.
Muito autoconsciente do próprio ridículo, o longa explora-o ao máximo para criar uma experiência inesquecível para o espectador. Cada personagem é individualmente encantador por sua própria estranheza. Riff Raff, interpretado por Richard O’Brien — criador do musical original —, e Magenta, interpretada por Patricia Quinn — que também é a boca com batom vermelho no escuro que abre a obra —, por exemplo, são irmãos vindos da mesma galáxia que a cientista maluca. Dedicados a manter suas tradições e rituais, se voltam contra Frank quando percebem que ela se desviou dos ‘bons costumes’ da Transilvânia, e, por isso, a assassinam ao final, fugindo em seguida literalmente com o próprio castelo, que se transforma em uma nave espacial e levanta voo.

Tim Curry é, sem sombra de dúvidas, o coração do musical, que entrega em Sweet Transvestite, a quinta música do longa, uma performance que definiria sua carreira. Mais do que apenas apresentar a Dra. Frank-N-Furter, esse momento estabelece o tom de toda a narrativa, misturando o exagero com a ironia em um desejo excitante. A cada gesto, Curry parece consciente de que está criando não só uma personagem, mas um ícone. Ele escapa de qualquer classificação fácil e que se tornaria inseparável da identidade da própria obra quando entoa:
“Eu sou apenas uma doce travesti / Da Transsexual, Transilvânia.”
Frank desafia os gêneros e a moralidade, tornando impossível para o espectador desviar o olhar. Na década de 1970, uma figura como essa era impensável em um musical mainstream. Hoje, ela se tornou símbolo de resistência e liberdade, um verdadeiro ícone para a comunidade LGBTQIA+, mesmo que a obra nunca tenha se vendido como ‘militante’, mas apenas como radicalmente livre.
The Rocky Horror Picture Show exagera ao máximo o clichê e culmina em prazer, subversão e sexualidade. Janet, que começa como a virgem vulnerável, encontra nas mãos (e lábios) de Frank e Rocky sua própria libertação sexual. Brad, o marido certinho, também experimenta o desejo de forma fluida, se entregando à doutora excêntrica com quem sua esposa também se deitou. E Rocky, a ‘criatura’, é hipersexualizado como um boneco musculoso e mudo, criado para ser usado e nada mais. Tudo é proposital, tudo é provocação e tudo é transgressor.

A obra original, lançada nos palcos de Londres dois anos antes da adaptação cinematográfica, também contava com Tim Curry como a Dra. Frank N Furter. Em 2016, a personagem travesti foi interpretada por uma pessoa não-cis, quando Laverne Cox, mulher trans, assumiu o papel no remake televisivo produzido pela Fox.
Outras músicas também sustentam o peso de levantar temas tão censurados para a época. Touch-a, Touch-a, Touch Me, cantada por Janet, transforma o anseio feminino em algo, ao mesmo tempo, cômico e libertador. O refrão “Eu quero ser indecente!” marca a transição da passividade esperada de uma esposa idealizada à ação. Susan Sarandon entrega um momento de descoberta e força, onde, mesmo vulnerável, jamais deixa de perder o humor.
E claro, impossível não falar de Time Warp, a canção mais célebre do filme. Com sua coreografia icônica e letra que imita um ritual — “É só um pulo para a esquerda! E um pulo para a direita!” — a canção virou hino. O público dançava, respondia aos personagens e performava com o musical nas sessões da meia-noite, esperando também passar pela tal ‘distorção no tempo’.

Jim Sharman, diretor da obra, abriu espaço para o absurdo florescer, sem medo de confrontar o ‘politicamente correto’ da época. Dessa liberdade, assistir The Rocky Horror Picture Show transformou-se, de maneira orgânica, em um ato de expressão para a comunidade queer. O resultado é uma produção carregada de subtexto que tem o dobro da energia de muitos espetáculos clássicos e o triplo de coragem.
Mesmo que lançado há meio século, o musical ainda deixa um legado que atravessa gerações. Seja pelo seu humor ácido, erotismo ou pela estética muito diferente de qualquer outra produção audiovisual, ele segue conquistando novos espectadores. O relançamento em versão remasterizada nos cinemas em novembro de 2025, e o documentário Strange Journey: The Story of Rocky Horror estreado em março do mesmo ano, são mais do que meras homenagens de aniversário, é um retorno mais do que merecido às telonas, onde novos espectadores poderão fazer o ‘Time Warp’ pela primeira vez. Porque se tem uma coisa que The Rocky Horror Picture Show ensina é que se sentir diferente pode ser aterrorizante, mas também libertador.
