50 anos depois de seu lançamento, The Rocky Horror Picture Show ainda tem energia para fazer o Time Warp

Cena do filme The Rocky Horror Picture Show. Na imagem, da esquerda para a direita: em um palco teatral com cortinas vermelhas ao fundo, Columbia aparece ajoelhada, vestindo um figurino brilhante com lantejoulas coloridas e um chamativo chapéu dourado. Ao centro, a Dra. Frank-N-Furter está sentada de forma provocativa em um trono prateado, usando corset vermelho, meia-calça preta, luvas escuras, colar de pérolas e maquiagem marcante. Seu pé esquerdo repousa sobre a mão de Columbia. Atrás do trono, Magenta observa com um leve sorriso, visível do busto para cima, com os cabelos volumosos e ruivos. À direita, Riff Raff aparece pálido e de expressão neutra, vestindo um terno preto aberto que revela o peito e calça escura, com luvas desgastadas.
Grande parte do elenco do filme, incluindo o brilhante Tim Curry, já participava de The Rocky Horror quando a produção ainda era uma peça independente nos teatros de Londres (Foto: 20th Century Fox)

Eduardo Dragoneti

Em 14 de agosto de 1975, The Rocky Horror Picture Show chegava aos cinemas do Reino Unido e do mundo, provocando críticos que ainda não sabiam avaliar  adequadamente um filme que viria a se tornar um dos mais cultuados da história. Singular e inclassificável em qualquer gênero, o roteiro mirabolante, as atuações propositalmente caricatas e a estética camp se uniram a músicas viciantes e temas considerados tabus, deixando o público da época perdidamente encantado entre o espanto e o fascínio.

Nascido como um fracasso, o longa foi redescoberto pouco tempo depois nas célebres sessões da meia-noite, formando uma legião de fãs ao longo das décadas. A obra  é uma paródia que homenageia os filmes B de Ficção Científica e Terror dos anos de 1950 a 1970, ao mesmo tempo, em que brinca com referências óbvias à literatura do século XIX, como Frankenstein e Drácula, e ironiza símbolos associados à Segunda Guerra Mundial, seja na estética de uniformes e gestos, seja na caricatura de figuras de autoridade.

Fotografia em preto e branco da fachada de um cinema.Na calçada do Tiffany Theater, em Los Angeles, uma fila de pessoas, em sua maioria jovens com roupas típicas dos anos 1970, conversam durante as sessões da meia-noite. A marquise do cinema anuncia a exibição de Lawrence of Arabia e de The Rocky Horror Picture Show em sessões na madrugada.
As sessões da meia-noite em Hollywood, populares nos anos 1970, exibiam filmes alternativos e de baixo orçamento, atraindo jovens ligados à contracultura (Foto: Los Angeles Times)

A história acompanha um casal recém-noivado — Janet Weiss (Susan Sarandon) e Brad Majors (Barry Bostwick) — que, ao procurar abrigo durante uma forte tempestade, acaba num castelo cheio de personagens excêntricos lideradas pela Dra. Frank-N-Furter (Tim Curry), uma cientista autointitulada de “a transexual da Transilvânia” (não a região na Romênia, mas sim uma galáxia ficcional) que está prestes a dar vida à sua criação perfeita: Rocky (Peter Hinwood), esculpido para satisfazer seu próprio prazer.

Muito autoconsciente do próprio ridículo, o longa explora-o ao máximo para criar uma experiência inesquecível para o espectador. Cada personagem é individualmente encantador por sua própria estranheza. Riff Raff, interpretado por Richard O’Brien — criador do musical original —, e Magenta, interpretada por Patricia Quinn — que também é a boca com batom vermelho no escuro que abre a obra —, por exemplo, são irmãos vindos da mesma galáxia que a cientista maluca. Dedicados a manter suas tradições e rituais, se voltam contra Frank quando percebem que ela se desviou dos ‘bons costumes’ da Transilvânia, e, por isso, a assassinam ao final, fugindo em seguida literalmente com o próprio castelo, que se transforma em uma nave espacial e levanta voo.

Cena do filme The Rocky Horror Picture Show.Na imagem, da esquerda para a direita: Riff Raff, pálido enquanto canta, está parado na entrada do salão principal do castelo, vestindo um terno preto aberto que revela seu peito, calça escura e luvas desgastadas. Ao seu lado, Brad usa uma jaqueta de couro bege sobre um suéter azul claro e camisa branca, calça cinza e óculos. Janet, ao centro, veste um vestido rosa com gola, coberto por um cardigã branco, e segura uma bolsa clara. À direita, Magenta aparece com cabelos desgrenhados e expressão teatral, trajando uma clássica roupa de empregada dos anos 1950 (vestido preto com avental branco rendado). Brad e Janet estão paralisados, olhando para frente com espanto.
Nas sessões da meia-noite, os fãs de The Rocky Horror Picture Show costumavam se fantasiar com as roupas dos personagens e encenar as performances junto ao filme (Foto: 20th Century Fox)

Tim Curry é, sem sombra de dúvidas, o coração do musical, que entrega em Sweet Transvestite, a quinta música do longa, uma performance que definiria sua carreira. Mais do que apenas apresentar a Dra. Frank-N-Furter, esse momento estabelece o tom de toda a narrativa, misturando o exagero com a ironia em um desejo excitante. A cada gesto, Curry parece consciente de que está criando não só uma personagem, mas um ícone. Ele escapa de qualquer classificação fácil e que se tornaria inseparável da identidade da própria obra quando entoa:

“Eu sou apenas uma doce travesti / Da Transsexual, Transilvânia.”

Frank desafia os gêneros e a moralidade, tornando impossível para o espectador desviar o olhar. Na década de 1970, uma figura como essa era impensável em um musical mainstream. Hoje, ela se tornou símbolo de resistência e liberdade, um verdadeiro ícone para a comunidade LGBTQIA+, mesmo que a obra nunca tenha se vendido como ‘militante’, mas apenas como radicalmente livre.

The Rocky Horror Picture Show exagera ao máximo o clichê e culmina em prazer, subversão e sexualidade. Janet, que começa como a virgem vulnerável, encontra nas mãos (e lábios) de Frank e Rocky sua própria libertação sexual. Brad, o marido certinho, também experimenta o desejo de forma fluida, se entregando à doutora excêntrica com quem sua esposa também se deitou. E Rocky, a ‘criatura’, é hipersexualizado como um boneco musculoso e mudo, criado para ser usado e nada mais. Tudo é proposital, tudo é provocação e tudo é transgressor.

Cena do filme The Rocky Horror Picture ShowNa imagem, há uma boca com batom vermelho brilhante em close, os lábios levemente entreabertos, com dentes visíveis mordendo o lábio inferior, sobre um fundo totalmente preto.
A música de abertura homenageia diversas histórias de ficção científica das décadas de 1930, 1940 e 1950, como: Flash Gordon, King Kong e O Dia em Que a Terra Parou (Foto: 20th Century Fox)

A obra original, lançada nos palcos de Londres dois anos antes da adaptação cinematográfica, também contava com Tim Curry como a Dra. Frank N Furter. Em 2016, a personagem travesti foi interpretada por uma pessoa não-cis, quando Laverne Cox, mulher trans, assumiu o papel no remake televisivo produzido pela Fox

Outras músicas também sustentam o peso de levantar temas tão censurados para a época. Touch-a, Touch-a, Touch Me, cantada por Janet, transforma o anseio feminino em algo, ao mesmo tempo, cômico e libertador. O refrão “Eu quero ser indecente!” marca a transição da passividade esperada de uma esposa idealizada à ação. Susan Sarandon entrega um momento de descoberta e força, onde, mesmo vulnerável, jamais deixa de perder o humor.

E claro, impossível não falar de Time Warp, a canção mais célebre do filme. Com sua coreografia icônica e letra que imita um ritual — “É só um pulo para a esquerda! E um pulo para a direita!” — a canção virou hino. O público dançava, respondia aos personagens e performava com o musical nas sessões da meia-noite, esperando também passar pela tal ‘distorção no tempo’.

Cena do filme The Rocky Horror Picture ShowNa imagem, está o salão principal do castelo durante o número musical "Time Warp". Um grupo de personagens excêntricos, vestidos com smokings coloridos, cartolas e calçados de sapateado, estão com os braços erguidos em perfeita sincronia sobre um tapete vermelho central. Ao fundo, uma faixa pendurada no palco anuncia “Annual Transylvanian Convention” (“Convenção Anual da Transilvânia” em português). As cortinas vermelhas e a arquitetura do salão criam um clima teatral e decadente. À direita, Riff Raff e Magenta dançam juntos.
Durante as filmagens no inverno britânico, os atores enfrentaram frio intenso e umidade. A atriz Susan Sarandon chegou a contrair pneumonia no set (Foto: 20th Century Fox)

Jim Sharman, diretor da obra, abriu espaço para o absurdo florescer, sem medo de confrontar o ‘politicamente correto’ da época. Dessa liberdade, assistir The Rocky Horror Picture Show transformou-se, de maneira orgânica, em um ato de expressão para a comunidade queer. O resultado é uma produção carregada de subtexto que tem o dobro da energia de muitos espetáculos clássicos e o triplo de coragem.

Mesmo que lançado há meio século, o musical ainda deixa um legado que atravessa gerações. Seja pelo seu humor ácido, erotismo ou pela estética muito diferente de qualquer outra produção audiovisual, ele segue conquistando novos espectadores. O relançamento em versão remasterizada nos cinemas em novembro de 2025, e o documentário Strange Journey: The Story of Rocky Horror estreado em março do mesmo ano, são mais do que meras homenagens de aniversário, é um retorno mais do que merecido às telonas, onde novos espectadores poderão fazer o ‘Time Warp’ pela primeira vez. Porque se tem uma coisa que The Rocky Horror Picture Show ensina é que se sentir diferente pode ser aterrorizante, mas também libertador.

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