
Flávia Ferracini
Depois do sucesso estrondoso de Flowers, faixa central de Endless Summer Vacation (2023), Miley Cyrus entrega Something Beautiful, um de seus projetos mais introspectivos até aqui. Trata-se de uma tentativa consciente de se afastar de uma performance puramente pop e se aproximar de uma experiência mais pessoal e autoral. É um trabalho que nasce menos da necessidade de reafirmação comercial e mais do desejo de realização artística – algo que a própria Miley já afirmou ser um objetivo antigo em sua carreira.
O nono álbum de estúdio da ex-disney se insere numa tradição de discos pop que buscaram expandir os limites do gênero ao flertar com o conceito de arte total: como The Fame Monster (2009), de Lady Gaga, e Ray of Light (1998), de Madonna, projetos que reposicionaram suas artistas dentro da indústria ao unir som, imagem e intenção estética. Essa ambição dialoga diretamente com os critérios da Academia do Grammy, que indicou o trabalho da artista na categoria de Melhor Álbum Pop Vocal em sua 68º edição. É um reconhecimento não apenas da sua técnica e voz, mas também de sua intenção autoral.
Em entrevistas e conversas mais íntimas com fãs, Miley revelou que este é um disco construído a partir de experiências pessoais, boas e ruins, envoltas em uma estética glamourosa, brilhante e estilizada. O incêndio de sua casa em Malibu, seguido pelo divórcio, surge como um marco simbólico desse processo: acontecimentos que, segundo a própria cantora, precisaram ocorrer para que ela chegasse ao lugar de maturidade artística e reconhecimento que hoje ocupa. Há também um atravessamento importante de sua jornada de sobriedade, que influencia diretamente a forma como ela revisita o passado: com mais consciência e menos autopunição, transformando dor em matéria-prima criativa.

Miley, que durante anos afirmou não se importar com premiações, passou a olhar para o Grammy com outros olhos após o reconhecimento tardio que recebeu por Flowers. Ainda que Something Beautiful não tenha sido concebido para charts ou números, a artista reconhece o valor simbólico desse espaço institucional, que deveria a ter prestigiado muito antes. No disco, há uma tentativa de carregar consigo toda essa bagagem: a música, os visuais, a moda e um conceito glamouroso cuidadosamente construído.
Essa ambição estética se estende para além do álbum: este também ganhou um filme que acompanha o projeto, funcionando como uma extensão simbólica de sua proposta conceitual. A obra busca ocupar o espaço do pop como arte total – som, imagem, estética e narrativa – mas acaba revelando os limites dessa ambição dentro da lógica da indústria contemporânea. Não se trata exatamente de um fracasso; ele dispõe de todos os recursos necessários. O que se percebe, porém, é uma falta de direção simbólica mais clara. O conceito existe mais no discurso e no visual do que no som, fazendo com que o visual frequentemente preceda a experiência sonora.
O disco começa de forma especialmente forte, com Prelude e a faixa-título Something Beautiful. É nesse momento que a voz de Miley encontra um espaço verdadeiramente arriscado, afastando-se do pop convencional e se aproximando da experimentação sonora. Há a sugestão de um caminho ousado e emocionalmente denso, que revela o potencial de um álbum que poderia ter sido ainda mais coeso.
Entre os destaques, End of the World apresenta um pop elegante e melancólico, no qual o hedonismo surge como uma forma consciente de sobrevivência em meio ao esgotamento emocional. Já More to Lose é um dos momentos mais vulneráveis, apostando em uma interpretação contida e madura, em que a artista canta sobre amar sabendo que sempre haverá algo a perder. Em contraste, Give Me Love funciona como um ponto de intimidade quase confessional, reduzindo o disco ao essencial: voz, sentimento e desejo por conexão.
Walk of Fame, por sua vez, assume um papel simbólico central. A faixa ultrapassou os limites do álbum e ganhou vida própria nas redes sociais, especialmente em edits (vídeos curtos criados por fãs de celebridades ou personagens) que reforçam sua mensagem sobre memória, legado e permanência. Essa circulação cultural amplia o sentido da música, que soa quase como um comentário metalinguístico sobre carreira, fama e o desejo de deixar uma marca que sobreviva ao tempo.
Já Every Girl You’ve Ever Loved, com participação de Naomi Campbell, representa um dos momentos mais performáticos do disco. A presença da supermodelo reforça o diálogo entre música, moda e imagem que Miley tenta construir ao longo do projeto. A faixa flerta com a ideia de poder, desejo e projeção feminina, funcionando como um retrato da persona pública que a artista aprendeu a dominar, ainda que, em alguns momentos, essa construção pese mais no conceito do que na musicalidade.

Assim como a própria Walk of Fame simboliza a ideia de viver para sempre, Miley Cyrus já conquistou esse espaço no imaginário cultural. Ela é uma das vozes mais icônicas de sua geração, alguém que marcou infâncias com Hannah Montana (2006), atravessou fases distintas, escândalos e reinvenções, e construiu uma carreira que nunca teve medo de se arriscar. De Dead Petz (2015) à era Plastic Hearts (2020), que a reposicionou no rock e consolidou sua versatilidade, Miley permanece relevante justamente por não se fixar em uma única identidade.
Na disputa pelo Grammy de Melhor Álbum Vocal Pop, Miley enfrenta projetos fortes e coesos de outros grandes nomes do pop contemporâneo. Ainda assim, independentemente de levar ou não a estatueta, ela já saiu vencedora. Pela coragem de experimentar, pela entrega vocal consistente e por reafirmar sua relevância artística em uma indústria que raramente permite longevidade sem reinvenção. Something Beautiful pode não ser um álbum perfeito, mas ele é honesto, ambicioso e profundamente humano. Um verso da faixa-título ajuda a amarrar esse espírito, um pedido simples, que resume a busca não por respostas grandiosas, no entanto, por sentido, beleza e permanência em meio ao caos.
“Tell me something beautiful about this world” – “Me diga algo bonito sobre este mundo.”
