
Livia Queiroz
Em abril de 1994, o Brasil abriu uma ferida que nunca mais se fecharia, da qual apenas poderia ser amenizada pelo passar do tempo. Ayrton Senna da Silva, o herói do Brasil, morreu em um trágico acidente no Grande Prêmio de Ímola, na Itália. O piloto era um dos maiores – se não o maior – nomes do esporte brasileiro na época, e querido por todo o seu país. E para relembrar e aquecer a saudade que o povo carrega, há 15 anos, foi lançado o documentário Senna: O brasileiro, O herói, O campeão. A obra, dirigida por Asif Kapadia, venceu em 2010 o BAFTA por Melhor Documentário.
A produção surge como forma de homenagem à família, ao automobilismo e à um povo que sentia a ausência do patriotismo no esporte. Senna era, assim como o próprio documentário revela em seu título, um campeão. Apesar de não focar em toda sua carreira – inserindo o holofote apenas em sua trajetória na Fórmula 1 –, é perceptível que o atleta sempre foi focado em atingir sua melhor performance e procurava a excepcionalidade em tudo que se propunha a fazer, assim como mostrado em outra obra recente do piloto: Senna (2024). Com determinação, profissionalismo, um coração bom, agressividade nas pistas e um pouco de prepotência, atingiu a prateleira de lendas do esporte e de sua própria categoria, tornando-se um dos atletas mais conhecidos da história.

A melhor narrativa inserida no filme é a afirmação de que a Fórmula 1 é política e Senna era político. O sucesso no automobilismo sempre foi e sempre será um espaço de difícil alcance para atletas estrangeiros para além da Europa – o continente de desenvolvimento do esporte –, especialmente para os sul americanos. São dois os principais obstáculos: dinheiro, já que o rico no Brasil não tem o mesmo poder de compra de um rico na Inglaterra, e preconceito social – a velha e falsa narrativa de superioridade do europeu sob outras nacionalidades. O maior exemplo dessa afirmação era a rivalidade entre Ayrton e Jean-Marie Balestre, ex-presidente da FIA (Federação Internacional do Automobilismo). O francês, assim como evidenciado no documentário, claramente tinha problemas pessoais e sociais com Senna.
O brasileiro era muito lembrado também por sua consciência política voltada à desigualdade social que não só assola o mundo, mas a expansão e impacto desse aspecto quando se tratava de seu país. Para ele, era isso que mais importava em todas as vertentes de sua vida: o Brasil. Segundo sua irmã, Viviane Senna, ele comentava sobre suas intenções de criar projetos visando o melhor para a educação da juventude, não à toa o Senninha foi criado. Por esses motivos, em novembro de 1994, mesmo ano de sua fatalidade, a família fundou a ONG Instituto Ayrton Senna, que o representaria na memória e intenção.
As fontes escolhidas para depor dentro da obra comprovam esse ponto, resumindo sua perspectiva de vida e esporte entre a lucidez e coerência. Diante de vozes como Galvão Bueno, Ernesto Rodrigues, sua família e outras fontes indiretas, a emoção da saudade, nostalgia e despedida transpassa as telas e entrelaça o coração do telespectador. Entretanto, apesar do voiceover ser característico desse formato , somente este recurso é utilizado ao longo de sua extensão, sem margem para um visual de entrevistas com aqueles que comentam sobre Senna. Os ‘personagens’ nem são identificados quando inseridos pela primeira vez no documentário, sendo apenas possível saber sua identidade nos créditos. Este é, definitivamente, o pior aspecto dessa homenagem e que fere o interesse do público por ele.

Porém, não é possível negar a beleza da homenagem feita ao brasileiro. As entrevistas são escolhidas a dedo, apenas com aqueles que participaram da vida de Senna de alguma forma, seja brevemente, ou durante toda sua existência, como Viviane – que aborda a morte do irmão de forma sentimental. Toda comoção é pouca para o impacto que Ayrton Senna deixou ao mundo. Até hoje, alguns de seus maiores recordes seguem intactos. Seu apelido ‘O Rei de Mônaco’ não é em vão, Senna é o piloto com mais vitórias na prova, somadas seis de 1987 à 1993 – Schumacher e Graham Hill chegam depois com cinco. Além disso, possui o maior número de pole positions consecutivas (8) e o maior número de vitórias seguidas em um mesmo Grande Prêmio (5) – dos quais apenas Lewis Hamilton conseguiu igualar seu feito em Barcelona, no GP da Espanha. Seus três títulos mundiais carregam peso ainda maior quando se trata do modo de corrida do brasileiro, que vencia com ousadia e paixão, um ‘jogo bonito’ do automobilismo.
“Não conheço outra maneira de guiar se não de maneira arrojada. Quando é hora de ultrapassar, eu ultrapasso. Cada piloto tem seu limite, o meu está um pouco além dos outros” – Ayrton Senna
Por meio desses diálogos e entrevistas, sejam com terceiros ou recortes de Senna em entrevistas durante sua carreira, fazem com que o espectador mergulhe no storytelling que relembra o herói que ele foi. Para aumentar ainda mais a experiência, nada melhor do que ouvir o próprio piloto, narrações nostálgicas de suas corridas feitas por Galvão e os sons ambientes do espaço em que ele vivia e tanto amava. Ainda mais emocionante são os depoimentos daqueles que correram com ele; Alain Prost – seu rival mais longevo e fervoroso – lembra com extremo respeito e honra de compartilhar tanto os momentos de agressividade dentro e fora das pistas quanto sua reconciliação pós aposentadoria. Para além daqueles que conviveram em sua presença, ele segue presente em memória; Lewis Hamilton vê Senna como sua maior inspiração, sempre relembrando o legado do piloto e contribuindo para a conexão permanente dos brasileiros com a F1.

Por fim, é impossível não mencionar a era Williams de Ayrton Senna, sua última equipe pela Fórmula 1. Na época, ela tinha em mãos o melhor motor do mundo, Renault, e inovações tecnológicas como câmbio semiautomático, suspensão ativa e freio antiblocante, que lideraram Nigel Mansell ao seu título mundial em 1992 por cima de Ayrton. Após cinco anos de história e três títulos mundiais na McLaren, o brasileiro finalizou seu contrato – principalmente pelo fim da parceria com os motores Honda e o declínio competitivo do carro – e seguiu novo rumo em 1994 para a outra equipe britânica que, segundo ele, era uma “máquina de outro planeta”.
Porém, toda transição vem acompanhada de dificuldades. Em seu primeiro ano com a equipe nova, foi desenvolvido o FW16, carro criado pelos melhores projetistas do momento, Adrian Newey e Patrick Head – cérebros por trás do foguete de Mansell –, que desde seu primeiro teste apresentou diversos problemas mecânicos de aerodinâmica que tornaram o veículo quase que impraticável de se dirigir e perigoso nas pistas. Mesmo assim, o talento do campeão se sobressaiu e Senna conseguiu três poles nas três corridas da temporada, todas infelizmente não foram completadas justamente por acidentes envolvendo o carro. No final de semana de Ímola, foram três acidentes consecutivos, um de Rubinho Barrichello, que passou bem depois do atendimento médico, e dois que levaram à mortes de pilotos, Roland Ratzenberger e Senna, que, devido a uma falha na coluna de direção, teve seu carro batido no muro da curva Tamburello. O caso, posteriormente, foi levado à julgamento e considerado como homicídio culposo.
Diante desses efeitos, Senna: O brasileiro, O herói, O campeão é um compilado do enorme acervo de imagens e vídeos sobre o piloto mais memorável da F1. Entretanto, obras como essa, apesar dos erros encontrados, são um alívio para a saudade – que aperta de tempos em tempos quando se vê alguns de seus recordes serem superados – do campeão dos campeões brasileiros. Ayrton Senna foi, é e sempre será o brasileiro capaz de unir um país dividido pela política; o atleta do povo verde amarelo que conquistou recordes inimagináveis em um esporte historicamente resistente à diversidade geográfica; e um herói popular em escala mundial.
“O brasileiro só aceita título se for campeão. E eu sou brasileiro” – Ayrton Senna
