
Mariana Bezerra e Stephanie Cardoso
Na noite de 28 de outubro, o Cultura Artística, em São Paulo, foi tomado por flashes, tapete vermelho e uma plateia ansiosa para a exibição de O Agente Secreto durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A sessão contou com a presença do elenco e uma recepção calorosa – um marco simbólico para um filme que já nasceu com vocação internacional. Depois de brilhar no Festival de Cannes e ser escolhido para representar o Brasil no Oscar, o novo longa de Kleber Mendonça Filho vem consolidando o diretor como uma das vozes mais originais e respeitadas do cinema contemporâneo.
A produção tem chamado a atenção da crítica por sua narrativa envolvente, que mistura fato e ficção. Desde sua estreia, o longa tem provado que o Cinema nacional consegue dialogar com grandes plateias internacionais sem perder sua identidade. Ao revisitar momentos significativos da história brasileira, a obra apresenta personagens complexos e situações que estimulam reflexão, mostrando que produções brasileiras podem ter relevância e impacto globais. A repercussão em festivais, as indicações a prêmios e o interesse crescente do público reforçam a força criativa e narrativa do Cinema do país.
No dia da coletiva de imprensa em São Paulo, o roteirista e o ator protagonista Wagner Moura foram indicados para o Gotham Awards nas categorias de Melhor Roteiro Original e Melhor Performance de Protagonista, respectivamente. Apesar de não influenciar diretamente na nomeação ao Oscar, essa premiação, cuja votação é feita por críticos e representantes do Cinema Independente, abre a temporada de premiações. Esse bom começo aliado a decisão já estabelecida pela Academia de Cinema Brasileira de que O Agente Secreto será o representante nacional no Oscar pode ser o aval, ainda que incerto, para uma visão otimista em relação a futuras nomeações.

Para o diretor Kleber Mendonça Filho, a obra vai muito além do entretenimento imediato, como comentou em entrevista ao Persona: “Para o público mais jovem, eu quero muito que vejam O Agente Secreto, mas não é só O Agente Secreto, eu quero que vejam o cinema brasileiro como um todo, porque é muito bom quando a gente se identifica com uma coisa que foi feita aqui. Quando você vê uma boa história e bem contada do Brasil, acho que isso se torna um elemento extremamente forte”. O comentário ressalta não apenas a intenção de atrair novos espectadores, mas também de fortalecer a relação do público com a cultura audiovisual nacional, mostrando que histórias locais podem ser universais em suas emoções e dilemas.
A produtora Emilie Lesclaux, compartilha essa perspectiva e acrescenta outra dimensão ao sucesso do longa: “Então, fiquei muito feliz. A gente nunca sabe, quando termina um filme, como vai ser esse encontro com o público, com a crítica e com os festivais. Já em Cannes, sentimos que havia algo acontecendo, algo bem interessante. A cada novo festival, é uma nova alegria, porque cada lugar e cada cultura se comunica de um jeito próprio”. Além disso, ela observa que o sucesso do longa de Walter Salles, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional, ajudou a preparar o público para receber esta nova produção: “Eles tratam do mesmo período, da mesma década de formas muito diferentes, mas é como se, pelo sucesso gigante de Ainda Estou Aqui (2024) muita gente já tivesse aprendido sobre essa época da história do Brasil, aqui e fora. Então, é muito interessante chegar um ano depois com essa preparação”.
O Agente Secreto é composto por um elenco de renome, à começar por Wagner Moura, que vem participando ativamente da campanha nacional e internacional de divulgação da produção. Na coletiva de imprensa em São Paulo, o ator reforçou a posição do diretor sobre a importância do cinema nacional: “Um país precisa se ver na sua cultura. Nenhum país se desenvolve sem se olhar […] O cinema brasileiro é quase documentarista, que nasce tentando entender ‘que país é esse?“. Em relação ao trabalho com KMF, o artista se mostrou realizado com o projeto: “Eu nasci para trabalhar com Kleber […] Existem diretores que são muito bons, mas que não são cinéfilos. São ótimos diretores, mas não têm a gramática do cinema. Ele [Kleber] tem”.

Além disso, Moura ressaltou algo que vem abordando em entrevistas recentes: esse é seu primeiro filme, em 12 anos, falando em português. Ele definiu o processo de não apenas atuar em seu idioma, mas de fazê-lo em Recife como um dos mais felizes de sua vida profissional; “Resumindo: foi massa”, completou o ator. Durante o evento, a relação entre o elenco pareceu, de fato, ter surgido de uma experiência feliz, especialmente entre Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana, e Wagner, a quem ela chamou de ‘professor’. Com pouco tempo de experiência nas telas, o nome da potiguar surgiu na lista da Variety de possíveis indicações ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Dona Tânia, como ficou conhecida após o sucesso nas redes sociais – e na crítica – comentou que Kleber, como diretor, é ‘incomparável’.
Segundo análise feita pela Folha de S. Paulo, em 2023, a média de idade das atrizes indicadas ao Oscar vem aumentando gradativamente nas últimas cinco décadas. É nesse contexto otimista, porém, ainda desafiador, que Dona Tânia se insere; a artista de 78 anos teve a sua estreia na atuação em Bacurau (2019), outro filme de Mendonça. Nesse sentido, a sua jornada se torna inspiradora para colegas de profissão, como Alice Carvalho, a Fátima de O Agente Secreto: “Eu tô com 29 anos, tenho algumas amigas com 38, 40, 41, 42 [anos] que são, muitas vezes, tomadas pelo sentimento de que a carreira acabou […] E pra mim, tem um valor imenso estar aqui nessa sala com vocês querendo saber quem é Dona Tânia. E tenho certeza que ela vai fazer um monte de filme daqui pra frente e isso vai ser muito importante para a minha geração e das meninas [outras atrizes] que estão aqui”.
Carvalho, durante o Tapete Vermelho, também comentou, em entrevista ao Persona sobre o sentimento em relação a esse projeto: “Quando eu assisti em Cannes, fiquei tão orgulhosa e tão feliz do tamanho da pessoa que Kleber é, porque tem que ser uma pessoa muito grande para fazer um filme como esse. Para ser um grande artista tem que ser uma grande pessoa. E fiquei muito orgulhosa de estar dentro disso”. A atriz acrescentou que não imaginava a tamanha proporção que a popularidade da produção iria ganhar e que acredita que a obra cumpriu o seu papel de se comunicar com as massas.

Representando os antagonistas da trama, estavam no evento Gregório Graziosi, Robério Diógenes e Gabriel Leone. O último falou sobre o desafio de interpretar Bobbi, um assassino de aluguel contratado para matar Marcelo, o personagem de Wagner Moura: “Para mim, enquanto ator, é um barato, porque você constrói um outro lado, um lado que, obviamente, eu não me identifico. Mas é o tipo de desafio que eu gosto, que é de você entender que aquele cara ali, como tantos que existiam na época e tantos que existem, com comportamentos e com uma cabeça semelhante à do meu personagem”. Leone se refere a atividade criminosa de seu personagem, mas também ao alinhamento dele com figuras que simbolizam a discriminação é xenofobia no filme. “Para mim, enquanto ator, é isso que me interessa: investigar, encontrar o ser humano por trás daquilo; as sutilezas e os detalhes. Isso para um ator é sempre muito interessante”, acrescenta.
Também marcaram presença nesse evento os atores Geane Albuquerque, Suzy Lopes, Laura Lufési, Isadora Ruppert, o preparador de elenco Leonardo Lacca, entre outros membros da equipe. Outra figura importante que estava tanto no tapete vermelho, como na coletiva foi a ‘perna cabeluda’, uma lenda urbana pernambucana que faz parte da história de O Agente Secreto. O filme estreou no dia 6 de novembro nacionalmente e também em cinemas da Alemanha e de Portugal.
