
Gabriel Diaz
Na indústria musical, há poucas bandas que conseguem manter seu som tão atual e preservar sua relevância, principalmente no gênero do rock alternativo. Apesar disso, o Deftones não se contenta em ser uma relíquia nostálgica e se torna exceção. Enquanto seus conterrâneos da época dos anos 90, Limp Bizkit e Mudvayne, se dedicavam ao grooves de metal fundidos com o rap, a formação californiana absorvia influências do shoegaze e post-punk para criar uma forma singular de metal atmosférico.
private music, seu décimo álbum de estúdio, é a culminância de uma trajetória singular que sempre navegou pelos extremos, e chega em um momento cultural no qual a banda é, paradoxalmente, mais pública e influente do que nunca. O título, uma aparente contradição para um lançamento tão aguardado e amplamente anunciado, é a chave para decifrar a obra: não se trata de música de acesso restrito, mas daquela que ressoa nas câmaras mais privadas da experiência humana, um som que transforma um palco lotado em um espaço de intimidade coletiva.
A abertura, my mind is a mountain, é um statement visceral, um lembrete abrupto de sua potência característica. A faixa funciona como um portal, um soco sônico que não pede licença e reafirma a linguagem única da banda desde os primeiros segundos. Este não é um disco de reinvenção, e sim de consolidação e refinamento. A guitarra tectonicamente pesada de Stephen Carpenter, a bateria pulsante e intricada de Abe Cunningham, a atmosfera etérea de Frank Delgado e a base sólida de Fred Sablan: são esses os pilares do som do Deftones e todos estão presentes, porém orbitando com uma sincronia rara em torno da força gravitacional central: as palavras do vocalista Chino Moreno.

A genialidade de private music reside na maneira como o grupo manipula a dinâmica de opostos. Canções como milk of the madonna explodem com a fúria contida do nu-metal redivivo, com riffs que parecem ser esculpidos em granito, apenas para se dissiparem em paisagens sonoras, nebulosas e oníricas do tradicional shoegaze. Em um momento, o ouvinte é arremessado contra a parede por uma sequência de distorções agressivas, no seguinte é envolvido por melodias que flutuam com uma delicadeza quase celestial. Esta oscilação calculada entre o caos e a calma, a angústia e a esperança, é a alma do projeto.
O aspecto emocional é canalizado quase que inteiramente por Moreno. Aos 52 anos, sua capacidade de articular vulnerabilidades que transcendem a idade é notável. É em i think about you all the time que essa maestria emocional talvez atinja seu ápice. Diferente de um simples momento de alívio, a faixa é um pilar de constância e intimidade. Suas melodias frágeis e voz terna oferecem um porto seguro e transmitem uma saudade devotada, estabilizando o ritmo turbulento do disco ao retratar o conforto imutável de estar envolvido pela presença de alguém. As letras “Surfando na sua onda / Envolvida pela sua calma e pelos seus braços sobre a minha cabeça” evocam imagens oceânicas e sugerem um sentimento vasto e profundo, uma confiança atemporal que permanece, independente das mudanças externas.
Do ponto de vista técnico, a produção impecável de Nick Raskulinecz, em parceria com a banda após mais de uma década, merece todos os elogios. O álbum soa maciço, porém claro. Cada elemento tem seu espaço definido na mixagem e isso é evidente na crueza nítida de locked club, na qual a guitarra e os vocais sussurrados coexistem perfeitamente. A performance da rhythm section é a estrutura esquelética do disco e oferece uma base pesada que impede mesmo as investidas mais experimentais de perderem o ritmo.
A recepção do álbum é, inextricavelmente, ligada ao fenômeno de seu renascimento cultural. Durante a pandemia, a banda explodiu nas redes e se tornou um episódio viral entre a geração consumidora dos tiktoks, além de transformar seu status ‘cult’ em algo próximo a um mainstream alternativo. private music é uma daquelas produções que são concebidas sob esse novo olhar, e é fascinante perceber como ela dialoga com ambas as gerações. Para os fanáticos veteranos, soa como a culminação natural de uma jornada. Aos recentes, ecoa perfeitamente contemporâneo, com a levada quase industrial de cut hands que ressoa tão moderna quanto qualquer produção atual.
Um dos grandes trunfos é como o disco evita a armadilha da previsibilidade entre a sequência de faixas, que foi claramente pensada como uma experiência contínua. Em vez de simplesmente alternar entre pesado e suave, o Deftones funde esses elementos dentro das próprias canções. A transição entre a ambientação de souvenir, carregada de imensidão atmosférica em que camadas de som se misturam sem intervenções, e a explosão de cXz é um exemplo de fluxo orgânico ao reforçar a noção de uma jornada íntima.
Entretanto, isso é tão particular que o vocalista grita como um homem à beira do abismo em ecdysis e pondera como um filósofo existencial no épico final departing the body. O refrão expansivo de infinite source é construído sobre uma base de guitarra densa e distorcida. Esta abordagem mantém o ouvinte em um estado constante de expectativa e engajamento, onde a surpresa é uma ferramenta musical. É uma prova de maturidade artística.

private music é um testemunho do poder da autenticidade. O Deftones não correu atrás de tendências: foram elas que, muitas décadas depois, finalmente alcançaram a visão única proposta pela banda. O álbum não é um reinício, mas uma afirmação. É a combinação de sonoridades de uma formação musical totalmente confortável em sua própria pele, consciente de seu legado, porém não refém dele. Os integrantes entendem que sua força nunca veio de aderir a um gênero, surgiu de transcender quaisquer rótulos para criar uma conexão direta e, sim, profundamente privada, com quem está ouvindo.
O lançamento solidifica não apenas um projeto excepcional em um catálogo já repleto de clássicos, como também coroa um momento histórico único para a formação musical. É a prova de que a música, em sua forma mais pura, é uma experiência tanto coletiva quanto profundamente individual. O grupo não entregaria respostas fáceis, e sim ofereceria um espelho sonoro, um espaço seguro para explorar a beleza e a escuridão interna. E nesse lugar, entre o sussurro de devoção e o grito de angústia, entre o peso do início de my mind is a mountain e a leveza atemporal de i think about you all the time, eles continuam absolutamente insuperáveis.
