
Talita Mutti
Imagine viver em um mundo feliz, sem guerras, sem qualquer tipo de preconceito e com uma consciência coletiva que trabalha em prol do bem do próximo e do planeta. Parece um sonho? Um mundo utópico que nunca será possível de alcançar? Talvez. Mas, para Carol Sturka (Rhea Seehorn), isso resume seu pior pesadelo em Pluribus, série da Apple TV lançada em novembro de 2025. Vince Gilligan, criador do seriado, conquistou o público pela trama envolvente e misteriosa e também pela ausência de respostas fáceis, fazendo com que a produção se tornasse a série mais assistida da história da plataforma. Talvez esse sucesso venha justamente do respiro em meio a alguns lançamentos do ano, que funcionam à base de explicações óbvias e finais tediosos, como Stranger Things (2016).
Após uma descoberta feita por um astrônomo, algo começa a fugir do controle e a infectar a humanidade com o que parece ser um ‘vírus da felicidade’. O planeta passa por uma mudança drástica, na qual cada ser humano passa a fazer parte de um todo. De alguma forma, todas as mentes se conectam e, a partir disso, compreendem como trabalhar por um mundo melhor. Todos compartilham conhecimentos, experiências, crenças e gostos, porém, funcionam em uníssono, sem priorizar ninguém, apenas o bem-estar do próximo. Entre bilhões de pessoas ‘infectadas’, 13 não se juntam a essa consciência única. Uma delas é a protagonista, escritora frustrada e rabugenta que perdeu a esposa no dia da infecção e que, agora, precisa conviver com essa nova realidade perturbadora.

Um dos momentos mais simbólicos acontece quando Carol e a maioria dos não infectados se reúnem à mesa para tentar entender o que aconteceu com a humanidade. Ela, a única pessoa branca entre eles, parece encarar a situação como uma afronta à própria identidade e liberdade. Já os demais, de diferentes nacionalidades e etnias não brancas, veem esse novo mundo como um espaço pacífico, no qual não existe dor, racismo ou qualquer elemento que condene a própria existência. Todos conseguem conviver com suas famílias mesmo nessa condição, menos ela e Manousos (Carlos Manuel Vesga), um homem latino que se agarra ao conservadorismo do mundo antigo e sequer se faz presente à mesa.
O cenário pós-apocalíptico é completamente diferente do que costuma aparecer em séries e filmes de ficção científica. Trata-se de um espaço organizado e limpo, que serve de palco para os movimentos orquestrados dos ‘contaminados’. O mais comum nessa temática é o questionamento sobre a origem do fenômeno, o que o causou e quem foi o responsável. Foram alienígenas? O foco da primeira temporada de Pluribus não está nisso, apesar de oferecer pequenas explicações, ainda que pouco claras.
Em determinado momento, é apresentada não apenas a perspectiva de Carol, mas também a de Manousos, que vai em busca da escritora na tentativa de reverter a situação. Um dos defeitos da trama está justamente no encontro entre eles. Algo que construiu muita expectativa, principalmente pelo fato de ambos pensarem de forma semelhante, acaba se concretizando de maneira infantil, como se fossem adolescentes desconhecidos. Além disso, o encontro não é dos mais produtivos, já que não há qualquer avanço ou tentativa real de acordo. Aqui, a acidez constante de Carol e agressividade de Manousos falam mais alto.

A atuação de Rhea Seehorn é um ponto crucial nessa teia de perguntas sem respostas, especialmente nos monólogos que revelam momentos de emoção e, ao final, apresentam pontos de virada. Algo muito característico de outros protagonistas das séries criadas por Gilligan, como em Breaking Bad (2008). Não é à toa que a atriz faturou o prêmio de Melhor Atriz de Série de Drama no Globo de Ouro e Critics Choice Awards. É possível sentir a solidão da personagem, mesmo antes do dia em que o mundo virou de ponta-cabeça. Uma escritora que enfrenta um bloqueio criativo, no entanto parece ter sentido uma faísca dentro de si em meio ao caos. Não é como se ela se sentisse viva novamente, porém ao menos passa a valorizar a própria existência e aquilo que perdeu, como a esposa. Algo que serve de estratégia para que Zosia possa se aproximar e se relacionar com Carol. É uma dinâmica estranha, considerando que todos no planeta estão ali no corpo de Zosia ao se envolver com Carol, mas, ao mesmo tempo, parece real.
Apesar de o encerramento da temporada não ter sido dos melhores, justamente por conta do encontro indiferente entre Carol e Manousos, há a abertura de caminhos que podem ser explorados na segunda temporada, já confirmada por Gilligan. O próprio diretor afirma que não há pressa para concluir o futuro da produção e que trabalhará o tempo que for necessário. Não há pontos negativos nisso. Pluribus é uma série em que cada detalhe precisa ser cuidadosamente articulado para o desenvolvimento da trama. Não são apenas easter eggs que alimentam teorias entre o público, e sim particularidades narrativas que se encaixam para construir uma contextualização o menos óbvia possível.
