Entrevista feita inicialmente em inglês e traduzida por Guilherme Moraes

Guilherme Moraes
No dia 23 de Outubro, diversas figuras do Cinema mundial estiveram presentes no Anexo do Espaço Petrobrás, localizado na Rua Augusta. Produtores, cineastas e atores cederam seu tempo para fazer entrevistas com veículos de imprensa, e é claro que o Persona não ficou de fora. Dentre os convidados estava o crítico-chefe da Variety: Peter Debruge, que compôs o Júri na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Peter nos concedeu uma entrevista para falarmos sobre questões importantes dentro do meio crítico que ele tanto conhece, como a tensão entre a crítica de cinema, o jornalismo e a publicidade. Além disso, ele também falou sobre o processo de desenvolvimento do pensamento crítico e deu dicas para estudantes que estão começando a cobrir grandes festivais como a própria Mostra.

O que você, como crítico-chefe da Variety, poderia dizer para nós (críticos em formação) que estamos começando a cobrir esses eventos? O que é crucial nesse processo? O que é mais importante, na sua opinião, para construir esse senso crítico?
Peter Debruge: “Então, acho que muitos críticos, principalmente os mais jovens, são impacientes porque veem alguém como eu, que está fazendo o que sempre quis: assistir a filmes e compartilhar minhas opiniões. Mas, acho que é preciso muita prática para aprimorar a técnica. Quando releio minhas primeiras críticas, percebo quanto tempo levei para me sentir orgulhoso do resultado. Então, acho que o importante é escrever o máximo que puder”.
Além da prática constante, Peter falou como anda o cenário atual da crítica e o surgimento de novos críticos. Ele fala sobre como o mundo atual, com a internet, as redes sociais e os aplicativos de filmes, te permite opinar sobre Cinema, mesmo que não esteja dentro de um veículo.
“Existem tantas maneiras agora de fazer isso (escrever sobre Cinema) que antes você talvez pensasse: ‘Ninguém vai publicar meu texto’ ou algo do tipo. Você pode publicar suas próprias resenhas, pode colocá-las no Letterboxd, em um blog, em uma revista que ninguém lê, mas a única maneira de se tornar um escritor melhor é escrever. Esse é o meu conselho prático para qualquer jovem crítico com quem eu esteja conversando: você precisa fazer isso, não se preocupe se já está sendo pago por isso ou se essas coisas virão”.
Peter Debruge complementa, falando um pouco sobre como começar a pensar sobre filmes de uma maneira mais reflexiva, introduzindo um processo que críticos iniciantes podem abraçar para terem essa relação um pouco mais crítica com as obras.
“Quando você assiste a filmes e você cria o hábito de anotar seus pensamentos em alguns parágrafos, colocá-los em um caderno, anotá-los em algum lugar. É o hábito de processar as informações, mas, de forma mais ampla… Acho que muitos jovens críticos estão surgindo e não necessariamente entendem a Arte do Cinema… Por muito tempo, todo DVD era basicamente uma escola de cinema, com todos os extras e tudo mais. Então, tente absorver o máximo possível sobre a produção de filmes e veja o que te define”.
Essa outra pergunta é mais em relação ao meio jornalístico e a crítica. Desde que iniciamos nesse universo, sempre há o conflito entre a crítica e a publicidade. Como você faz parte de um grande veículo, gostaria de saber se isso já foi uma barreira e, caso tenha sido como você encontra o equilíbrio?
Peter Debruge: “Quer dizer, a publicidade é essencial para você como crítico, para ter acesso a filmes. Sabe, se você quer ver um filme antes da estreia, precisa ter esse tipo de relacionamento. Mas, para mim, não tem sido tão difícil. Sei que para muitas pessoas que têm seu próprio canal, como um blog, é preciso ser reconhecido e respeitado por essas pessoas (assessores de imprensa). E acho que a chave é o profissionalismo, do ponto de vista do crítico. O essencial é não comprometer suas opiniões”.
Apesar de dizer que não tem dificuldade de conciliar essas tensões, Peter faz menção de que talvez isso se deva ao veículo no qual faz parte. “Provavelmente, estou protegido. Porque a Variety é um veículo importante o suficiente para que eles não possam viver sem nós, mas definitivamente existem outros colegas que eu já vi serem retirados das listas de convidados se disserem algo, e sabe, isso é a publicidade”. Ele ainda reflete sobre esse conflito de interesses entre entre a crítica e a publicidade e qual é o movimento que as assessorias têm feito para controlar o que será publicado.
Peter Debruge: “As críticas são algo que os departamentos de marketing não conseguem controlar. Eles querem críticas para promover seus filmes, mas não conseguem controlar se serão boas ou ruins. E eles tentam ao máximo controlá-las. Então, deixam que os críticos, que são sempre os fãs – aqueles que parecem ser positivos em relação a tudo –, vejam as coisas primeiro e, às vezes, deem suas opiniões primeiro. Assim, eles criam um sistema injusto e manipulado. […] Eles trazem influenciadores porque os influenciadores também são facilmente influenciados. Mas, a única resposta para isso, na minha opinião, é manter-se firme, ou seja, permanecer o mais profissional possível. Com o tempo, com ou sem a ajuda deles, mesmo que você não tenha conseguido assistir ao filme, você compra um ingresso no dia da estreia, mesmo que a sua crítica seja publicada dois dias depois. […] E, à medida que você conquista seguidores por sua consistência, eles precisarão de você e não poderão te enganar”.

O júri da Mostra é composto por uma diversidade de funções no cinema, então temos produtores, diretores e você representa a crítica. Qual o impacto você acredita ter? Como um crítico, o que você pode trazer de diferente dos outros?
Peter Debruge: “É engraçado porque estou pensando o oposto do que você está perguntando, que é: gosto de ouvir as opiniões de pessoas envolvidas na criação de filmes também, sabe, compartilhar comigo o que elas pensam. […] Adoro conversar com os produtores e diretores do júri e entender como eles estão analisando as coisas em termos de dificuldade… a logística de filmar uma determinada cena, e isso não é algo que me preocupa. Porque apenas me preocupo se a história funciona. Se as atuações são convincentes ou não. Eu não me preocupo com a dificuldade de produção, sabe? Isso não é irrelevante, mas não é exatamente minha função. Então, estou aprendendo com meus colegas jurados”.
Entretanto, ainda que ele admita essa admiração por seus colegas que trabalham na criação dos filmes, o crítico refletiu sobre a posição que ele se encontra como um diferencial.
“O que eu provavelmente trago de diferencial, e que talvez eles estejam percebendo, é que já vi milhões de filmes. Vivo no circuito de festivais. Posso comparar se o que eles estão fazendo é algo que eu já vi, se é um clichê que eu já vi 20 vezes ou se é algo ousadamente original. Algo que valha a pena celebrar por isso, porque eu vivo, bebo e respiro cinema o tempo todo”.
