Do film fashion aos curtas e longas-metragem, Mathews Silva procura sempre manter a reflexão social presente

Na foto de fundo preto, um homem branco, de cabelo, barba e bigode pretos e olhos castanhos âmbar, se apresenta à câmera com um olhar sereno. Em plano de fundo, os tons de vermelho claro e escuro se encontram com o preto em um movimento degradê sem formas definidas. É também apresentado a logo do projeto Persona, um olho com pupila em formato de ‘play’ em uma íris vermelha, junto do título do quadro e o nome do entrevistado.
Em toda obra que Mathews Silva produz, é possível visualizar aspectos psicossociais da crise humana (Arte: Arthur Caires /Foto: Skybridge Films)

Livia Queiroz 

Formado em publicidade e propaganda, a paixão pelo audiovisual sempre palpitou mais no coração de Mathews Silva, ansiando pelo momento além de campanhas, aquele que o colocaria no Cinema, do qual  tinha plena consciência de que era possível e capaz de realizá-lo. Sua carreira é carregada de sucesso, tanto nas produções quanto nos personagens que passam por elas. O diretor iniciou seus projetos dentro do universo cinematográfico, como assistente de direção nas criações de ficções para curtas-metragens e séries por cinco anos. Em seguida, continuou ampliando seu mercado até chegar nos fashion films, como assistentes de publicidade, e seguiu nessa estante por um tempo. 

Depois de um acúmulo de experiências, deixou o papel secundário para tornar-se diretor de Cinema, de fato, e conquistar suas próprias obras. Desde a publicação de seu primeiro curta-metragem em 2022, Mathews abrangeu seu repositório com diversos curtas e segue com a agenda cheia, programando para 2026 a estreia de mais dois filmes de suspense psicológico, Jasmine e Vazio

“Eu tento, em todas as minhas obras, trazer um pouco dos relatos de pessoas que eu tive o grande prazer de conviver e que, repetidamente, têm suas histórias esquecidas.”

Na fotografia, duas pessoas posam lado a lado. A mulher à direita sorri com expressão leve, usando um vestido rosa com mangas bufantes e penteado elaborado e preso, enquanto o homem, branco de cabelo, barba e bigode negros, à esquerda mantém um olhar mais sereno, vestindo jaqueta jeans escura e blusa preta por baixo. Como cenário, tem-se uma iluminação rosa e arroxeada refletidas nas paredes.
Uma das obras coringa nas quais Mathews se inspira para a fotografia de suas produções é Blade Runner, sempre explorando as cores como identidade (Foto: Skybridge Films)

O ínicio da autoria 

Como foi a transição de diretor de propagandas para o cinema independente? 

Mathews Silva: Eu amo fazer publicidade – e continuo fazendo até hoje –, mas eu precisava de um momento para contar minhas histórias. Eu já estava me sentindo pronto, tinha sido assistente de direção de projetos de curtas-metragens e séries para ficções antes […] e estava sentindo falta de fazer cinema. Então tomei a decisão de fazer Passos” 

Em Passos (2022), Mathews realizou sua primeira produção autoral de curta-metragem. A obra, estrelada por Gabi Lopes e Kayky Brito, foi um grande sucesso e, para o diretor, um de seus trabalhos mais marcantes. Com uma gama de prêmios entre Melhor Roteiro e Melhor Filme no Festival de Cinema de São Paulo, Brazil New Visions e Gabi como Melhor Atriz no Madras Independent Film Festival, além de indicações em grandes reconhecimentos internacionais como LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival), o filme mistura fantasia com crítica social real de forma que o público em meio ao desenvolvimento.  

O suspense psicológico – gênero que viria a ser uma tradição de Mathews – encara a história de um sequestro infantil,  quando uma mulher acredita ser mãe de uma garota e a mantém em cativeiro enquanto seus verdadeiros pais seguem seus ‘passos’ para tentar encontrá-la. Diante de um histórico caracterizado por visualizar perspectivas invisibilizadas na sociedade e, dentro da publicidade e moda, a criação de narrativas de beleza amplas, seria evidente que sua carreira como diretor de Cinema seguiria o mesmo caminho em outras produções.

Em um recorte do filme, uma mulher loira de olhos claros de vestido azul caminha à frente com expressão apreensiva olhando à sua frente, enquanto uma menina morena com presilhas no cabelo ao seu lado segura um urso de pelúcia bege, olhando para baixo. Ao fundo, uma passagem urbana sob um viaduto.
O Mathewsverse é o nome dado pelo diretor para a antologia filmográfica (Foto: Skybridge Films)

O passado

Depois do sucesso de sua primeira produção, Mathews seguiu no caminho ainda dos curtas-metragens. Em 2023, foram quatro filmes, entre eles, Em Órbita, que trouxe novamente Gabi Lopes como uma das estrelas ao lado de Victor Salomão; A Visita, ganhador de Melhor Cinematografia no Diversity Film Festival, e Bom Comportamento, um história sobre homofobia que venceu diversas premiações como Melhor Direção no LGBT+ Los Angeles Film Festival, Melhor Curta de Terror no Brazil New Visions International Film Festival e Melhor Reviravolta no Diversity Film Festival. No ano seguinte, o diretor mergulhou em mais quatro curtas – Astoria, Requiem, Replicante e O Canto –, para em seguida iniciar as gravações de seu primeiro longa, Jasmine. O cineasta apresenta, sem dúvidas, obras que devem ser reconhecidas, não só pelo aspecto vencedor, como também pelo reflexivo, no quesito social. 

Todos esses curtas têm uma conexão estrutural, formulando uma antologia. Além de terem como principal afinidade os mesmos atores de outras produções, os filmes se juntam para evidenciar os tabus de uma sociedade cada vez mais doente e ignorante. Em Órbita grita pela prevenção ao suícido; A Visita, abre portas para o entendimento da evolução humana e a perspectiva de conexão e humanidade, personificada por Cris Bonna e Ágata Boni, e Astoria, que celebra e posiciona todas as suas obras em uma só direção: a vida humana em sua essência psico fantasiosa.  

“Os nove curtas tem uma conexão indiretamente à Astoria, unindo todos esses personagens. Eu tenho o Vidro (2019) de (M. Night) Shyamalan como referência, reunindo os seus personagens ‘quebrados’. E os meus personagens são, também, psicologicamente quebrados, se unem, de alguma maneira, em Astoria. […]. São nove curtas que conversam sozinhos, mas quando chegam em Astoria eles se culminam. Porém, eu produzi de forma que mesmo se alguém queira assistir uma história isoladamente, será possível – ao mesmo tempo que conversa com outras obras – conversar entre e sobre si mesma.”

A foto apresenta um estúdio de gravação cinematográfica iluminado por luzes quentes e preenchido por técnicos e equipamentos que cercam uma mesa onde uma mulher morena sentada consulta algo. Próximo a ela, um homem de coque e jaqueta de couro observa a cena enquanto uma menina também morena, ao fundo, permanece em pé com expressão curiosa.
O primeiro curta-metragem de Mathews, Passos (2022), venceu prêmios no Festival de Cinema de São Paulo, Brazil New Visions e Madras Independent Film Festival (Foto: Skybridge Films)

O Futuro

Jasmine é um nome de origem persa que significa graça, sensualidade e beleza. Jasmine (2026), promete exalar a sensação de encanto, assim como a flor, especialmente com sua fotografia, que explora o neon e o vermelho como tons que moldam a transformação e sentimento. O filme, protagonizado pela modelo e atriz trans Gabrielle Gambine, é um alerta para o exorbitante número de mortes de pessoas transgênero no Brasil, uma estatística que torna-se cada vez mais espantosa, porém, serve como um espelho da camada enorme de conservadorismo no país. 

Neste thriller, previsto para lançamento no primeiro semestre de 2026, a protagonista Jasmine, uma artista renomada e famosa internacionalmente, é morta em meio a um show. A partir desse mistério, um complexo processo de investigação é instalado, enquanto o espectador presencia cada um dos suspeitos e seus possíveis motivos para o crime. Sua estrutura define a filmografia de Mathews, um suspense que instiga o telespectador a pensar e concluir suas suspeitas junto dos personagens. 

Na fotografia, uma mulher de vestido vermelho encara a câmera com expressão séria e contemplativa enquanto seus cabelos ondulados caem sobre os ombros e cobrem parcialmente os brincos longos usados por ela. Em segundo plano, é possível observar uma câmera preta em desfoque e um estúdio iluminado de forma suave.
Mathews, produziu campanhas publicitárias e fashions films para Puma, Calvin Klein, Vogue, Bazaar, Ford Models e muitas outras agências (Foto: Skybridge Films)

Além dele, Vazio também estreia como nova direção de Mathews Silva em 2026. Nessa jornada, protagonizada por Thais Mussin – também integrante do elenco de Astoria –, o suspense psicológico insere a ideia de cativeiro, tanto fisicamente como mentalmente. Nesse sentido, Carolina além de acordar como vítima de sequestro também se vê no papel de questionar-se internamente por respostas em meio à vozes, memórias e personas desconhecidas. 

Quais os sentimentos que você procura provocar no telespectador com Vazio? 

Mathews Silva:Eu quero mostrar um sentimento de claustrofobia, no qual a personagem está presa, de diversos aspectos, ao longo do filme. E de angústia, afinal, a obra evidencia um suspense no qual Carolina está em dúvida o tempo todo, e eu quero que quem assista também passe por essas etapas junto dela

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