Persona Entrevista: Lina Chamie

Com a restauração e exibição de seu primeiro longa de ficção na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a diretora conta sobre o sentimentalismo de reassistir Tônica Dominante

Card gráfico para a "Persona Entrevista" com Lina Chamie, parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A imagem possui um fundo verde-escuro com padrões de linhas onduladas. À direita, uma foto de Lina Chamie, uma mulher de cabelo curto e grisalho, sorrindo. À esquerda, estão os textos "Persona Entrevista" e "Lina Chamie" em branco, junto ao logo do festival.
O longa compõe as sessões Filmes Restaurados e Apresentação Especial (Arte: Arthur Caires)

Eduardo Dragoneti

O domingo, 26 de outubro, não foi um dia qualquer na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira. Na verdade, o espaço se tornou uma celebração rara na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ali, na presença de quase todo o elenco e de parte da produção, foi exibida a cópia restaurada em 4K de Tônica Dominante (2001), o primeiro longa-metragem de ficção da aclamada cineasta e musicista Lina Chamie.

Lançado originalmente em 2001, o filme é uma obra poética construída em três movimentos – tal qual um arranjo orquestral. A sessão especial não marcou apenas o resgate técnico do filme, restaurado em 4K pela Cinecolor Brasil com o som remasterizado pelo Estúdio JLS, mas também o reencontro emocionante com um verdadeiro ‘documento do tempo’. No contexto dessa redescoberta histórica, o Persona questionou Lina Chamie sobre a relevância de todo o processo de preservação no cenário audiovisual.

Um grupo numeroso de integrantes da equipe e do elenco está alinhado, com Lina Chamie no centro, à frente de uma tela de cinema que exibe a arte oficial da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Lina Chamie segura um microfone enquanto os outros a assistem com atenção.
Na exibição do filme, estavam presentes alunos de Lina Chamie da Academia Internacional de Cinema (AIC) (Foto: Cinematográfica Superfilmes) (Foto: Eduardo Dragoneti)

Para você, qual a importância das restaurações de filmes antigos (se é que 24 anos atrás faz tanto tempo assim) e de manter essa memória, em especial desse filme, viva?

Lina Chamie: “É interessante porque quando você se depara com a restauração, quando você entra nela, você começa a entender que o que tá lá é uma representação sua de alguém que você já não é mais. Então tem decisões de direção que só faziam sentido eu ter feito naquela época. Até mesmo os detalhes, como que vermelho a gente queria, que azul a gente queria [na fotografia]”.

O pensamento inicial de “fazer igual ao que era” rapidamente se choca com a impossibilidade de replicar um estado da Arte de vinte anos atrás, exigindo novas decisões de direção. O digital, segundo Chamie, cria um embate fascinante entre o original analógico e o atual, revelando uma versão que, tecnicamente, supera o que era possível na época. Ela cita o exemplo do som, que revelou um paradoxo da preservação enquanto a equipe restaurava Tônica Dominante:

Lina Chamie: “A gente queria o silêncio, que na versão restaurada ficou melhor, porque no analógico você nunca tem o silêncio para valer. Então eu estava em um impasse: ‘restauro com o chiado que tinha o analógico ou eu vou para o silêncio digital?’ Percebe? Então ao se questionar sobre fazer igual ao que era, você acaba sempre tendo que tomar uma decisão… E nós restauramos um silêncio, mais silêncio. Então ele não é exatamente igual ao que era 24 anos atrás”.

Cena do filme Tônica Dominante. Uma mulher vestindo um vestido vermelho está de braços abertos em gesto expansivo diante de uma pintura expressionista com tons de vermelho e amarelo fortes. Ela está com a boca aberta, gritando com intensidade.
Alguns momentos do filme arrancaram risadas do elenco na sala Grande Otelo, com destaque para Vera Holtz, cuja gargalhada contagiou a sala (Foto: Cinematográfica Superfilmes)

Esse casamento entre a memória e a tecnologia revela que enquanto o diretor e o elenco mudam, o filme continua ali, com a mensagem que quis passar desde o início de sua produção. A importância da restauração, ressalta a cineasta, transcende a visão pessoal e se aprofunda no campo da história e da filmografia nacional.

Lina Chamie: “A fragilidade da memória audiovisual brasileira é palpável. Filmes em película, como Tônica Dominante, rodado em 35mm, tornam-se rapidamente inacessíveis para o público. Estamos falando de um período de apenas 20 a 25 anos atrás, momento da transição para o digital. Hoje onde estão os filmes em película? Eles não estão mais acessíveis porque não tem mais o projetor, ou as cópias já não estão legais, enfim… E isso é a nossa filmografia. Nós temos que preservar”.

Cena do filme Tônica Dominante. Um jovem de cabelos escuros está sentado à frente de um piano, com as mãos cruzadas e expressão introspectiva. Em cima do instrumento há partituras e livros empilhados. Ao fundo há uma parede azul com dois quadros pendurados e 3 porta-partituras.
O filme é o primeiro longa de ficção brasileiro com a direção de fotografia assinada por uma mulher, Katia Coelho (Foto: Cinematográfica Superfilmes)

A cineasta complementa que a restauração garante que o longa, enquanto registro materializado de um momento histórico, continue a existir. Só assim, o público de hoje consegue entender o contexto cinematográfico da época:

Lina Chamie: “Independente de como o filme de 20 anos atrás vai conversar com o público de agora, é importante que este público entenda o cinema que foi feito. Só assim você tem uma ideia, não só da filmografia do país, mas dos movimentos, das intenções, das conscientizações políticas, sociais e das representações que estão nos filmes.”

Chamie conclui que o movimento de restauração, embora seja um processo muitas vezes caro, é fundamental, pois matrizes e bitolas podem ser impeditivas de um filme existir. “É a chance de resgatar a nossa memória e a preservação da história do Brasil através dos filmes”. O resgate de Tônica Dominante na 49ª Mostra reforça a ideia de que a película, como um antigo manuscrito, precisa ser traduzida e preservada em cada futuro, permitindo que outras gerações conheçam e aprendam com essas produções. A restauração se torna um presente para manter a história cinematográfica brasileira viva. “O processo é muitas vezes caro, mas prestigiar o resultado é pessoalmente e historicamente gratificante”, completa Lina Chamie.

Deixe uma resposta