Persona Entrevista: Joscha Bongard

O diretor alemão comentou sobre o processo de criação de seu novo filme Babystar em sua primeira vez no Brasil

Card gráfico de entrevista em estilo editorial. No fundo, um padrão abstrato em tons de verde escuro e turquesa cria ondas fluidas que remetem a gravuras japonesas. À esquerda, aparece o logotipo em forma de olho e os textos “Persona Entrevista” e “49ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo Int’l Film Festival”. À direita, dentro de um enquadramento de bordas arredondadas, há o retrato de um homem branco de cabelos castanhos, que utiliza uma blusa branca e está segurando as mãos. Ele está sentado em uma poltrona vermelha e olha para frente.
Joscha veio para o Brasil para a divulgação do seu novo filme, que concorreu na categoria de Novos Diretores na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Arte: Arthur Caires)

Mariana Bezerra 

Quando se pensa em um longa sobre família, é possível que venha à mente uma imagem romântica e afetuosa de pessoas com laços parentescos vivendo em harmonia, ou, pelo menos, lidando com conflitos que consideramos inerentes à vivência humana. No entanto, Joscha Bongard resolveu falar sobre essa temática em Babystar (2025) sob uma outra perspectiva.

E se você tivesse nascido com pais influencers em uma realidade completamente exposta e voltada para o lucro? Quais outros dilemas podem surgir nesse cenário construído para atrair seguidores? Aqui, Joscha e Nicole Rüthers, co-roteirista, se aproveitaram da realidade na qual vivemos, em que as redes sociais, as câmeras e as ‘vidas de aparências’ tomaram um grande espaço para mergulhar em como isso poderia se manifestar em uma esfera mais íntima.

O estreante no universo dos longas ficcionais parecia extasiado com a experiência de trazer a produção para a América Latina pela primeira vez, e por conhecer o nosso país. Ele compartilhou com o Persona o processo de criação da obra, que estreou na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e já percorreu outros festivais e cidades como Toronto, Berlim e Zurique. Apesar da universalidade do tema, o cineasta comentou que as reações fora da Europa e, especificamente, no Brasil, pareceram mais intensas. “É muito interessante sempre ir ao cinema e ouvir as reações das pessoas, e isso é a melhor experiência que você pode ter com um filmador, porque nós fazemos filmes para as pessoas, e quando elas gostam de se relacionar com o filme, é uma coisa linda”, afirma o diretor. 

Cena do filme Babystar: À esquerda, um homem de cabelo longo preso em um coque olha para uma tela. No centro, Luca, uma mulher branca e loira, de vestido vermelho amarrado ao pescoço, tira uma selfie com o celular, enquanto sua mãe, à direita, também branca e loira em um conjunto rosa, fotografa a cena com o celular. Todos estão sentados em uma mesa de jantar elegante, iluminada por luz amarela suave, com taças, guardanapos dobrados e cortinas de tons claros.
A narrativa de Babystar é centrada na relação familiar dos influenciadores (Foto: Lise Lotte Films)

Por que vocês decidiram que a família seria o centro e não apenas parte dessa narrativa?

Joscha Bongard: Eu acho que é importante chegar ao cerne humano da história e encontrar coisas que muitas pessoas poderiam se conectar. Nós todos conhecemos famílias, porque todos crescemos em uma ou na ausência dela. Nós (eu e Nicole) queríamos mostrar essa dinâmica e queríamos que isso fosse o pano de fundo emocional dessa história.

Após a sessão do longa no Instituto Moreira Salles, Joscha cumprimentou a todos que se aproximavam para elogiar e comentar sobre o filme. Nem nesse momento, nem durante a entrevista, ele carregava a pompa de um diretor internacional em um festival de cinema, mas sim a gratidão de um cineasta que parece estar se divertindo e aproveitando ao máximo essa jornada. 

Há uma discussão muito forte no filme sobre a aparência dos personagens. No caso de Luca, a adolescente, ela chega a ser questionada sobre seu peso. Para as mulheres, a pressão estética se torna ainda maior. Como foi o processo de escrever sobre esses temas juntamente com uma mulher?0

Joscha Bongard: Nós chegamos a pensar em escrever o personagem principal como um menino, mas as mulheres são ainda mais julgadas e sexualizadas, e também vendem mais online. Então, desde o início foi importante escrever com uma mulher, porque eu tenho as minhas experiências e pensei que fosse importante escrever com alguém, já que como um homem, eu não sei todas as coisas que as mulheres sabem.

De fato, essa foi uma decisão acertada; entre os problemas com os quais a protagonista lida, muitos deles estão associados a sua imagem, que é tão exposta e escancarada nas redes desde o início de sua vida. A partir dessa parceria entre a dupla, Babystar constrói um retrato doloroso de assistir de uma jovem garota que está perdendo sua juventude e sacrificando a sua saúde mental pela atenção dos pais e sucesso nas redes sociais.

 Lucas, uma menina branca de cabelos loiros aparece deitada de braços abertos em um chão vermelho. Ela veste uma camisa larga azul e amarela.
Luca (Maja Bons) encarna uma adolescente que cresceu em uma realidade de constante disputa da atenção dos pais com os seus seguidores (Foto: LIse Lotte Films)

Por que a personagem escolhida para confrontar esse sistema imposto por seus pais foi uma, especificamente, uma adolescente?

Joscha Bongard: Se você está crescendo nessa família que é quase um culto, você não sabe realmente como seria ter uma vida normal. Se ela fosse mais nova, ela não pensaria tanto sobre esse sistema. Nós pensamos em duas possibilidades para o final; por um lado, é uma garota de 16 anos. Nós queríamos que ela saísse desse mundo e, para isso, ela precisaria ter uma determinada idade.

A relação entre Luca e seus pais é muito delicada. O que vocês pensaram ao construir esses personagens: eles tinham noção sobre o quão destrutiva era a dinâmica entre eles?

Joscha Bongard: Nós sempre tentamos não mostrá-los como vilões, mas todo mundo que leu o roteiro os odiaram. Eu os amo. Você tem que amar os seus personagens. A vida deles os fez quem eles são. Claro que eles estão fazendo algo incorreto tirando vantagem da própria filha, mas acho que todo mundo tenta criar algo positivo e eu realmente penso que eles acreditam que criaram algo incrível. Eles conhecem uma vida anterior, porque antes não tinham muito dinheiro

Durante a história, percebe-se que a questão financeira era algo essencial para os pais de Luca, não apenas em se tratando de luxo ou ostentação. Os personagens fazem menções à vida antes do trabalho da internet e ressaltam como a filha nasceu em uma realidade privilegiada. 

Anteriormente, você trabalhou com criadores de conteúdo do Youtube. Teve algo nessa experiência que o alarmou e o inspirou a fazer Babystar?

Joscha Bongard:O que me chamou atenção foi que todos eles eram muito novos e que todos eles tiveram um ótimo sustento disso (do trabalho com Youtube). É muito bom que as pessoas tenham essa chance de ascender socialmente e ganhar mais dinheiro do que poderiam normalmente. Mas, por outro lado, ser influenciador é um trabalho 24 horas por dia, 7 dias da semana. Tudo o que você vê e vive, tem que virar conteúdo. Eu penso que essa experiência foi essencial para Babystar e para Porninfluencer

Babystar veio a calhar muito bem no contexto sócio-político brasileiro, uma vez que o ano de 2025 foi marcado pela discussão da adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais, o que abriu espaço para reflexão a respeito da exposição desses jovens, de maneira geral, nas mídias. Nesse sentido, o longa parece cada vez mais próximo da realidade. Até porque, como explica Bongard, a obra surgiu a partir das cenas reais que observou.

Joscha Bongard, um homem branco de cabelo escuro veste uma camisa preta. Ao seu lado, está uma mulher branca de cabelo escuro segurando um microfone. Eles estão em uma sala de cinema e ao fundo aparece a tela com a ilustração e logo da 49ª edição da Mostra.
Joscha Bongard no início da sessão de Babystar no Instituto Moreira Salles ( Foto: Mariana Bezerra)

Você percebeu diferentes reações ao filme nos lugares em que percorreu com esse filme? 

Joscha Bongard: Eu diria que a reação no Brasil foi incrível, e muitas pessoas gostaram. Claro, há sempre pessoas que podem não se relacionar com o filme. Diferentes pessoas têm diferentes visões, mas eu diria que, interessantemente, as reações europeias não são tão fortes do que fora da Europa, talvez porque nós usamos as redes sociais de maneiras diferentes do que nos EUA, ou no Brasil, ou no Canadá.

Após a última sessão de Babystar no festival, o diretor estava do lado de fora da sala interagindo com o público e perguntou “As pessoas riram? Cada sessão é muito diferente”. É um questionamento interessante, uma vez que a produção é carregada de situações que apelam para o ridículo e se tornam extremamente constrangedoras, que a transformam em uma sátira. Ainda assim, esses elementos não são necessariamente óbvios e são percebidos de formas diferentes por cada espectador. 

E como você vem lidando com o uso das redes sociais ultimamente?

Joscha Bongard: Esse é um grande dilema, porque também dependo de promover o filme nas redes sociais. Mas, nos últimos anos tenho tentado ficar menos online, ler mais e focar mais em outras coisas. É claro que as redes sociais sempre foram algo muito importante na minha vida; conheci tantas pessoas nelas. No fim, apesar de achar que estamos em um momento muito ruim em relação a essas mídias, sempre há uma parte positiva. Sempre vai haver prós e contras“.

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