
Mariana Bezerra
Diante do lançamento de Querido Tropico no Brasil, a diretora panamenha Ana Endara e a atriz chilena Paulina García estavam reunidas para mais uma rodada de entrevistas a respeito do novo filme. Elas vêm percorrendo festivais de cinema e vários países para a divulgação do longa, que chegou a fazer parte da programação do Festival do Rio em 2024 e do Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025. Essa é a primeira vez que a diretora se arrisca na direção ficcional.
Durante quase 20 anos, Endara construiu sua carreira explorando temáticas como identidade e pertencimento, especialmente, dentro da sociedade panamenha. Em Curundú (2007), ela adentrou em um bairro da Cidade do Panamá e capturou registros íntimos da população daquela região; anos depois, com Reinas (2014), continuou a explorar tradições da cultura panamenha, mas centrado o seu olhar na realidade feminina a partir do retrato de concursos de beleza tradicionais no país. Em 2025, a diretora decide mergulhar em um pouco de tudo o que já trabalhou, no entanto, ao invés de registrar o que já existe, decidiu criar uma história que expressa sentimentos e realidades tão palpáveis quanto em seus documentários.
Sua primeira obra de ficção, co-escrita por Pilar Moreno, e estrelada por Jenny Navarrete e Paulina García. A última é reconhecida internacionalmente por seus trabalhos no Teatro e no Cinema, à exemplo de Narcos (2015) e Glória (2013), que lhe rendeu o Prêmio Platino de Melhor Atriz em 2014. Com Querido Trópico, ela assumiu um novo desafio: interpretar Mercedes, uma senhora chilena abastada que vive no Panamá e sofre de demência, enquanto Navarrete dá vida a Ana María, uma imigrante colombiana, supostamente grávida, que se torna cuidadora da personagem de García. Apesar das realidades distintas, a vulnerabilidade de ambas e a conexão entre as duas é o suficiente para criar uma relação de amizade e confiança.

Como foi explorar esses temas tão delicados – imigração, condição feminina, maternidade, envelhecimento – mas agora dentro de uma ficção propriamente dita?
Ana Endara: “A resposta simples seria: eu queria tentar algo diferente. Eu queria explorar esses temas sem sair pelo mundo procurando personagens que falassem sobre isso, mas escrevendo sobre eles; transformar a escrita em um exercício, transformar a filmagem e o trabalho com as atrizes em um exercício também. Então, sim, foi um exercício de sair da zona de conforto”.
Ao assistir o filme, a sensação é que Ana decidiu se desafiar com esse projeto. No entanto, o fez sem deixar de lado as suas raízes como documentarista. A partir dos detalhes, é perceptível como a câmera se manifesta com um certo distanciamento, o que faz muito sentido nessa narrativa.
Este filme, Querido Trópico, tem passado por uma verdadeira jornada de distribuição. Qual foi o processo por trás desse percurso?
Ana Endara: “O que posso dizer é que o filme foi visto em muitas culturas e países diferentes, e eu pude testemunhar como ele se comunica com todo mundo. Ele toca as pessoas, talvez de maneiras distintas, mas ressoa com públicos muito diversos e de lugares muito diferentes”.
O retrato que foi construído de Mercedes é muito sensível. Ela sofre diversos efeitos da doença, mas sua personalidade, ainda assim, transparece. Como foi esse processo de co-escrita com Pilar Moreno para criar todas essas camadas em torno da condição dela e garantir que sua personalidade pudesse emergir, apesar do que ela estava enfrentando?
Ana Endara: “Neste roteiro, em Querido Trópico, a colaboração de Pilar pode ser percebida mais fortemente nas personagens secundárias, como Cristina, Joana ou Jimena, que aparecem pouco em cena, mas com muita verdade. Eu diria que essa foi uma contribuição muito forte de Pilar. Já a personalidade de Mercedes e de Ana María, considero que foi mais um trabalho da Paulina e da Jenny, neste caso.
O texto traz, a todo tempo, a história e ligação entre as mulheres envolvidas na história, tanto as protagonistas como as coadjuvantes, como, por exemplo, a filha de Mercedes, Jimena. Nesse sentido, apesar do menor tempo de telas, essas personagens são partes importantes da narrativa, que lida, essencialmente, com dilemas fortemente ligados às mulheres como a maternidade e o trabalho de cuidado.
“Havia algumas orientações no roteiro, mas lembro-me de conversarmos muito sobre o passado da personagem, sobre quem ela era antes: de onde vinha no Chile, como chegou ao Panamá. Falamos um pouco sobre isso, mas foi Paulina quem trouxe grande parte desse caldo para a história que estávamos construindo juntas. Tentávamos entender: por que uma mulher chilena estaria perdida no Panamá? E então tentávamos compreender o que restava nela do Chile e o que ela havia aprendido a amar do Panamá”
Apesar de não se saber muito sobre o passado de Mercedes, ele é mencionado por ela de forma saudosista. Não é o suficiente para que compreendamos muito sobre aquela mulher, mas é uma forma de expandir, na tela, a sua personalidade, os seus desejos e uma breve lembrança de sua juventude.
“Durante as filmagens, conversávamos todos os dias sobre as cenas que estávamos prestes a rodar, buscando movimentos internos diferentes para aperfeiçoar o trabalho diariamente. E foi isso que fizemos”, acrescenta a diretora.

A sua personagem comunica muito com os olhos. Nesse filme, a expressão e linguagem corporal parecem ainda mais significativas. Mercedes é uma mulher que está vivendo um momento tão delicado da vida, passando por todos esses desafios. Como você se preparou para essa interpretação?
Paulina García: “Bem, eu também estou envelhecendo e tenho uma mãe que é muito idosa. Então, tive a oportunidade de observar o envelhecimento dela ao longo de todos esses anos e ela foi uma referência muito importante para que eu pudesse captar muitos pequenos detalhes, como na cena de aniversário, quando ela pula na cadeira, tão feliz por ser o dia do aniversário dela; ela quer comemorar com todos eles ali. Eu também tenho alguns amigos que estão passando por problemas mentais: grandes profissionais, atores, atrizes que acabaram entrando nesse processo, nessa doença. Então, eu tinha muitas referências diferentes”.
Nesse sentido, é interessante pontuar que Querido Trópico se propõe a tratar, no que se refere a demência e ao envelhecimento, temas que, apesar de estarem ganhando notoriedade na sociedade e no Cinema, ainda são grandes tabus. Assim, Paulina assume uma posição de protagonista a partir de referências próximas, mas também reafirma o seu lugar como atriz idosa que confronta estereótipos, relacionados à idade, que muitas mulheres ainda enfrentam neste mercado.
“Conversando com Anna durante os ensaios, antes das filmagens, e depois, já no set. Ela deu esse tempo para mim e para a Jenny conversarmos sobre o que estávamos buscando e até onde poderíamos levar as emoções ou a expressão dessas emoções sem perder a verdade. É isso que todos os atores procuram o tempo todo: como sermos o mais verdadeiros possível e entender o que o enquadramento permite que a gente faça”.
O que você pensou quando recebeu o roteiro e fez a primeira leitura? Como aconteceu sua conexão inicial com o projeto?
Paulina García: “Primeiro, Ana me enviou o roteiro, ou talvez tenha sido a Isabela, não me lembro exatamente. Eu li e pensei: ‘Ok, não conheço a Ana. O que ela faz?’. Então, pedi para ver um filme dela e assisti a Pela Sua Tranquilidade, Construa Seu Próprio Museu (Para Su Tranquilidad, Haga Su Propio Museo – 2021). Quando vi aquele filme incrível, eu disse para mim mesma: ‘Eu quero estar ali. Quero fazer algo com essa mulher’. Depois disso, nós nos conhecemos por Zoom e iniciamos uma espécie de amizade, uma amizade virtual. Em seguida, fomos juntas para a Colômbia em busca de Ana María. Elas me convidaram para Bogotá e ficamos lá por cerca de cinco dias. Descobrimos que nos entendíamos muito bem, e foi aí que tudo começou. Durante aqueles dias, trabalhamos bastante juntas, fizemos muitos exercícios com as outras atrizes e conversávamos o dia inteiro. Começamos a aproveitar muito a companhia uma da outra – e aqui estamos, até hoje”.
Diante do filme e do que foi compartilhado pela diretora e atriz fica a sensação de que o Querido Trópico é o resultado de um trabalho íntimo, permeado por diálogos e interações produtivas que ajudaram diretamente na construção da narrativa e dos personagens. Assim, esse parece ter sido algo pensado delicadamente para que pudesse chegar a diferentes públicos, e tocá-los com a mesma intensidade.
