
Arthur Caires
Há encontros que parecem ter sido marcados pela própria história. Em 2007, o cineasta Ferdinando Vicentini Orgnani cruzou o caminho de Lawrence Ferlinghetti, poeta, editor e um dos pilares da Geração Beat. Dali nasceu uma amizade, e dela, um testemunho. O filme O Último Beat, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na categoria Apresentação Especial, emerge como o registro derradeiro de um homem que fez da palavra um ato político. Mais do que um retrato biográfico, o documentário soa como um eco distante – uma reverberação tardia da utopia beat, que ainda tenta resistir ao peso do complexo militar-industrial que Ferlinghetti denunciava com ironia e lucidez.
A Geração Beat surgiu nos Estados Unidos do pós-guerra, quando um grupo de jovens escritores e poetas começou a romper com as convenções morais e literárias de seu tempo. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso escreviam em fluxo contínuo, sem filtros, misturando espiritualidade oriental, sexo, drogas e rebeldia política. Suas obras, marcadas por um impulso de liberdade absoluta, denunciaram a hipocrisia do american way of life e anteciparam o espírito contestador da contracultura dos anos 1960.
Ferlinghetti, ao publicar esses autores pela City Lights Books, transformou-se no editor de uma revolução – o elo entre o gesto poético e o gesto político que redefiniria a literatura moderna. Revisitar sua trajetória hoje, em um tempo igualmente saturado por guerras, algoritmos e ruídos, é reencontrar uma pergunta incômoda: ainda há lugar para a poesia?

Filmado entre Roma e São Francisco, o documentário costura os últimos anos de vida de Lawrence Ferlinghetti com as memórias de uma geração que se desfez no ar. O olhar de Orgnani é íntimo, quase devocional. Não há pressa nem espetáculo. Há conversa, tempo e silêncio. A câmera acompanha o poeta com uma ternura que só um bom amigo poderia registrar. É bonito perceber como o filme transforma a topografia urbana em extensão da alma do artista.
Mas, toda homenagem carrega o risco da idealização. Em O Último Beat, o gesto de afeto do diretor é também o limite da obra. A devoção que atravessa o longa o torna caloroso, mas, em certos momentos, o distancia do espectador que não partilha da mitologia beat. O documentário sugere mais do que explica, evoca mais do que apresenta. Falta-lhe, talvez, a centelha crítica que Ferlinghetti cultivava com tanta disciplina – aquela que transformava cada verso em questionamento. Ainda assim, há algo honesto nesse descompasso: a consciência de que nenhuma lente é capaz de capturar plenamente um espírito que viveu em permanente movimento.

O valor deste registro está no que ele testemunha. São raras as últimas imagens de Ferlinghetti, as conversas em que sua voz hesita entre lucidez e cansaço e os depoimentos de amigos parecem despedir-se não só de um homem, como também de uma era. O recital final, em que o poeta lê seus versos diante do público, encerra o filme com uma espécie de silêncio cósmico – não de ausência, mas de continuidade.
O título do filme, então, ganha nova espessura. O Último Beat não designa apenas o último sobrevivente de um movimento, porém a última batida dele. Lawrence Ferlinghetti foi, e ainda é, esse repórter do espaço – aquele que observa o colapso e insiste em registrar a beleza. Orgnani, ao filmá-lo, não encerra um ciclo, e sim o prolonga. Seu documentário é menos epitáfio do que eco: o som de uma geração que, mesmo perdida, continua nos lembrando que imaginar é liberdade.
