
Guilherme Machado Leal
Os últimos anos da música pop mostraram que quem espera, sempre alcança. Se em 2024, Sabrina Carpenter se tornou um dos principais nomes atuais do gênero e Charli XCX finalmente conquistou as devidas flores com o Brat, o mesmo pode ocorrer com outras cantoras. Sem investimentos da gravadora, uma fanbase não tão expressiva e uma identidade sonora inconsistente são alguns dos fatores que servem como empecilhos àqueles com desejo pelo sucesso. Era o caso de Zara Larsson: a artista sueca viu muitos de seus hits serem cantados, mas também leu declarações como: “quem está cantando essa música?”. A partir do lançamento do Midnight Sun, quinto álbum de estúdio da loira, as coisas mudaram.
Com produção de Margo XS e MNEK, a faixa título garantiu um frescor à carreira da moça de 28 anos. O sol da meia-noite em Estocolmo é algo real e que, surpreendentemente, combina com a trajetória da popstar: como ela versa na canção, o verão ainda não acabou! Há tempo de florescer e conquistar o seu espaço em uma competição tão acirrada quanto o mundo musical. Abertura do projeto, aqui há uma síntese do alcance da estrela – vocais no ponto, prolongação da nota que fecha o refrão, de fato, uma sensação de que algo novo estava por vir.
Prestes a completar 12 anos de carreira em 2026, apresentar a cantora como um novo nome na cena não é o ideal: Lush Life, o maior sucesso de Zara, obteve reconhecimento em 2015, mas foi revivido para a geração atual, que abraçou a composição em redes como o TikTok e Instagram. Para além disso, o hit tem se saído bem nas plataformas de áudio – no dia 14 de janeiro de 2026, Larsson ocupava a sexta posição (a maior até então) das 50 músicas mais escutadas mundialmente no Spotify. Por ser uma persona com um bom tempo de estrada, o trabalho não precisa e nem deve ter a intenção de exibir quem ela é.
Às vezes, o que precisamos é de um ótimo álbum pop. E parece que a sueca entendeu isso após inúmeras oportunidades perdidas por ela. Chances essas que não são pela falta de talento. Muito pelo contrário, o problema é que o mercado fonográfico, pautado pelos EUA, é imprevisível e escolhe a dedo quem ‘merece’ ter os dias de glória. Consciente do lugar que ocupa no mundo, a artista possui um posicionamento alinhado com o próprio público: no mundo colorido, vibrante e solar da performer, não há espaço para ódio contra qualquer tipo de ser humano. Em tempos de omissão político-social de algumas cantoras, deixar claro à audiência a maneira como você observa o seu redor é imprescindível aos que desejam alcançar o estrelato.

No Midnight Sun, a coesão é definida por fatores externos ao projeto: a estética da era, associada aos memes de golfinho que fizeram Symphony, parceria com a banda Clean Bandit, caírem novamente no gosto do povo. Após isso, a cantora soube usar o melhor que a gen-Z pode oferecer: dar uma nova roupagem a pessoas e obras por meio dos vídeos e conteúdos on-line. No clipe da faixa que abre o disco, por exemplo, imagens que remetem ao viral ancoradas no Y2K, um estilo do final dos anos 90 e início dos anos 2000 pautado por muito brilho, cores vibrantes e exagero.
Os anos de indústria garantiram à loira uma estratégia muito bem aplicada para, de fato, fincar o seu nome no gênero pelo qual é conhecida. Ela também trouxe a identidade para a turnê iniciada em outubro de 2025. Apostando em roupas cintilantes – com destaque para as saias e blusas regatas –, tudo que envolve esse capítulo da vida de Zara é muito contagiante e luminoso. Embora a veterana tenha ideia de como traçar o seu caminho, muitas de suas conquistas aconteceram naturalmente e no momento em que deveriam ocorrer. Depois de mais de uma década na estrada, a cantora pode versar sobre querer o namorado da amiga em Girl’s Girl. Ou botar tudo para fora, como faz na deliciosa e barulhenta Pretty Ugly.
O grande trunfo de Larsson é que é muito interessante saber mais sobre a sua trajetória artística. E nesse sentido, o documentário ZARA LARSSON – Up Close chega no tempo perfeito. Centralizado em sua maioria em 2024, antes do lançamento do quinto projeto, conhecemos a vida pessoal, as ambições e percalços de uma figura que sempre esteve ao redor. A produção de 88 minutos acerta ao passar pelos principais pontos da rotina da loira. Fã de Beyoncé, o espírito competitivo e faminto pelos detalhes técnicos de seu trabalho apenas reforçam o seu comprometimento em se tornar uma estrela pop.
Típico do formato, a obra também discorre os medos e inseguranças. Em uma cena após um show em 2024, a vocalista sente que a plateia do Rock in Rio não estava dando o seu máximo, mesmo sendo composta por brasileiros. Mesmo com a equipe tentando levantar o ânimo, a sueca está determinada em sempre entregar o melhor que pode. E, às vezes, só não é a hora certa. Em outro momento, a performer detalha a relação com as redes sociais: por ser cronicamente online, ela sabe exatamente o que as pessoas acham dela, a exemplo dos diversos vídeos que a chamam de artista subestimada ou dos tweets que ressaltam o trabalho árduo durante esses mais de 10 anos.

Documentários sobre artistas são importantes porque podem humanizá-los ou mostrar o porquê eles merecem os locais que ocupam. HOMECOMING A film by Beyoncé (2019), Katy Perry: Part of Me (2012) e Olivia Rodrigo: dirigindo até você (Sour: o filme) (2022) são três exemplos de produções que abordam épocas diferentes de cantoras pop, porém equivalentes em sua missão: apresentar para o público quem é a pessoa por trás das performances e canções que marcaram gerações. A história de Zara ainda ganha um fôlego, pois aborda as fases iniciais da concepção do quinto álbum.
Uma das cenas que exemplificam como funciona a vida de uma musicista em uma gravadora é quando a loira mostra uma das canções do novo projeto e recebe uma recepção não muito calorosa do alto escalão. Ela, então, coloca a faixa-título na reunião e observa atentamente as expressões faciais. Após o refrão – que é, provavelmente, um dos maiores acertos de sua carreira –, Larsson conquista o sorriso e empolgação daqueles que estão à mesa. Ali, todos sabiam o que era o certo: a hora dela chegou. Indicada ao Grammy 2026 em Melhor Gravação Dance Pop, a veterana caiu no boca a boca dos votantes.
Em Eurosummer – uma homenagem à icônica Stereo Love, a vocalista traz uma versão do que seria as suas influências da eurodance e do pop romênio, marcados por um solo de acordeão que fazem qualquer um saírem de suas casas e irem o mais rápido possível para uma festa. Na composição, a artista é tomada pela ânsia insaciável de viver experiências transformadoras com um amor. A verdade é que Zara nunca esteve sozinha, só esperou o tempo correto para ser encontrada e amada. Assim como o sol da meia-noite, esperamos que o sucesso da sueca seja interminável, prazeroso e iluminado, de qualquer lugar do mundo.
