
Gabriel Diaz
Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário Michaelis, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no Canadá (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser considerada uma ruptura da estrutura social monogâmica. Porém, em Loucuras, exibido na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o conceito se converte em metáfora: não a transgressão da lei, mas a do próprio sentimento. O diretor Éric K. Boulianne, também protagonista, transforma a ideia de ‘muitos amores’ em uma tentativa desesperada de curar o vazio de um casamento esgotado.
François (Éric K. Boulianne) e Julie (Catherine Chabot) estão juntos há dezesseis anos, pais de duas filhas, e vivem um cotidiano regido mais por função do que por afeto. A trama se inicia com uma provocação: após ouvir experiências de casais adeptos de relacionamentos abertos, os dois passam a se perguntar se o que sentem ainda é amor ou apenas costume. A decisão de abrir o relacionamento nasce mais da inquietação do que da coragem, tornando-se um gesto de autopreservação que acaba expondo suas fissuras mais íntimas. Dividido em seis capítulos inspirados pela rotoscopia do Cinema da animação à mão, o longa opera quase como uma autópsia do amor: examina cada fragmento do que um dia foi vital, revelando que a proposta é também a causa da doença.

O grande mérito de Loucuras está em deslocar o debate sobre a monogamia. A fragilidade não está no formato do relacionamento, porém na forma como ele é usado para maquiar o cansaço cotidiano. O que o filme questiona, ainda que sem plena consciência, é a crença moderna de que o amor pode ser reconfigurado pela via terapêutica, seguindo o amor líquido de Zygmunt Bauman – como se abrir o relacionamento fosse um remédio contra o tédio e não uma nova forma de confinamento. Julie e François fingem neutralidade diante do desconforto, mas o corpo não mente: o constrangimento durante o sexo e as conversas constroem um retrato mais sincero do que qualquer diálogo ensaiado. A indiferença que tentam performar é apenas mais uma forma de desespero.
Catherine Chabot, no papel de Julie, entrega uma atuação delicada, oscilando entre curiosidade e repressão, enquanto Boulianne constrói um François errático e teimoso, dividido entre a vaidade ferida e a carência emocional. A química entre eles não é incendiária, todavia é justamente essa ausência de fogo que torna a obra verossímil: Loucuras é sobre a combustão que não vem, sobre o desejo que se converte em protocolo. Constantemente, as duas filhas funcionam como espelho e alívio cômico na narrativa, evidenciando o contraste entre a inocência infantil e a artificialidade adulta – apesar delas saberem mais o que estão fazendo do que os próprios pais. A família inteira, afinal, participa do experimento e é isso que torna a trama mais incômoda e honesta.
Há uma secura calculada: o longa observa o amor com a mesma frieza com que seus protagonistas vivem, de forma semelhante ao desgaste conjugal que ocorre em História de um Casamento (2019). Nas cenas, Boulianne assume discretamente um ritmo que beira a lentidão, permitindo que os silêncios e os olhares sustentem o peso do roteiro. Os tons dessaturados presentes na fotografia reforçam o confinamento emocional do casal e o humor, presente em situações cotidianas, serve mais como defesa do que como alívio.

O longa é uma comédia que tenta ser sexy, porém acaba soando melancólico. A direção articula ironia e tristeza em doses desiguais, revelando um olhar que, ainda que hesitante, é profundamente humano. O que poderia ser apenas uma pseudo-infidelidade se transforma em uma reflexão sobre o medo de desaparecer dentro da própria rotina, afetando os dois simultaneamente. As ‘loucuras’ do título, afinal, não são os encontros sexuais, mas o delírio de acreditar que o amor pode ser administrado como um experimento.
Em seu desfecho, o filme não oferece redenção e termina onde começou: na dúvida, tal qual um círculo cíclico. Aquele casal que, antes, buscava multiplicar o desejo, agora encontra apenas a confirmação de sua escassez. A poligamia, tratada como tábua de salvação, se revela apenas uma nova forma de solidão. Loucuras é, portanto, menos sobre liberdade e mais sobre o mal-estar contemporâneo, assim como Freud dizia. É sobre a tentativa de sustentar o amor com argumentos quando o corpo já desistiu de sentir, alimentando mais esse fracasso que a produção encontra sua beleza: uma crônica do esgotamento afetivo de nosso tempo, em que amar se tornou uma forma sofisticada de sobrevivência.
