Sem figurinos memoráveis, a moda recua diante os protestos no Grammy 2026

Uma montagem horizontal apresentando cinco registros de diferentes artistas no tapete vermelho. À esquerda, a cantora Zara Larsson posa com um conjunto amarelo de top e saia com bordados de flores em relevo. Ao seu lado, a artista Tyla aparece com um vestido bege de tecido fino e detalhes em rede, apresentando uma saia longa com acabamento de penas. No centro, em destaque, Olivia Dean sorri levemente usando um vestido preto texturizado com detalhes de penas na cintura e uma saia branca volumosa. À sua direita, Teyana Taylor posa com um vestido marrom metálico de grandes recortes laterais. No canto direito, um grupo de homens, incluindo Pharrell Williams, posa usando ternos de veludo em tons de rosa e lavanda.
O grupo masculino à direita está vestindo a coleção de estreia de Pharrell Williams para a Louis Vuitton (Arte: Sinara Martins)

Sinara Martins

A 68ª edição do Grammy Awards aconteceu no domingo, 1 de fevereiro, em Los Angeles, reunindo os maiores nomes da música em uma noite que terminou sendo menos lembrada pelos looks do tapete vermelho e mais por discursos e protestos que ecoaram no palco. O que se viu foram escolhas seguras e cores neutras, que afastaram o foco dos figurinos e abriram espaço para uma discussão mais urgente sobre o contexto político que atravessa o momento.

No tapete vermelho, a paleta manteve uma linha discreta de tons neutros, beges e pretos que dominaram as fotos e fizeram pouco barulho estético. Entre as celebridades que seguiram essa tendência estiveram Tyla, FKA Twigs, Coco Jones e Heidi Klum, todos com produções sofisticadas, porém contidas, que não romperam com a previsibilidade visual da noite. O resultado foi um conjunto harmonioso – ainda que pouco ousado para um evento conhecido por momentos marcantes de estilo.

Ainda assim, alguns nomes conseguiram atrair olhares mesmo dentro desse cenário contido. Lady Gaga, vencedora das categorias de Melhor Álbum Vocal de Pop com Mayhem e Melhor Gravação de Pop Dance por Abracadabra, apareceu inspirada, incorporando elementos que lembram a estética de Mayhem. Olivia Dean, que conquistou o prêmio de Melhor Artista Revelação, Teyana Taylor, Rosé e Nikki Glaser também se destacaram com escolhas que, embora dentro do neutro, trouxeram personalidade.

Fotografia de corpo inteiro de Lady Gaga no tapete vermelho do Grammy Awards. A artista está posicionada de perfil para a câmera, olhando por cima do ombro com uma expressão séria. Ela usa um vestido longo preto composto inteiramente por penas sintéticas e tule, que criam uma textura volumosa. O vestido possui uma gola alta e detalhes que sobem como asas atrás do pescoço. A saia se estende em uma longa cauda dramática que se espalha pelo tapete vermelho. Lady Gaga está com o cabelo loiro platinado e uma maquiagem suave. O fundo apresenta o painel oficial do evento em preto e dourado com o logotipo da CBS e o símbolo do gramofone.
Para completar o visual dramático, Lady Gaga exibiu seu anel de noivado com um diamante oval em ouro branco (Foto: Lester Cohen)

Poucos, como Zara Larsson, Chappel Roan e Doechii, fugiram da paleta predominante e ganharam atenção justamente por ousarem cores e recortes menos previsíveis. Em um tapete vermelho marcado pela contenção, essas exceções tornaram-se pontos de contraste visual, evidenciando o quanto a moda da noite privilegiou a segurança estética.

Ao contrário do que Miuccia Prada sugeriu ao afirmar que “a moda é para quando você está feliz, quando você não tem problemas, porque no momento em que alguém tem um problema de saúde ou de guerra, a moda definitivamente não é relevante”, o Grammy mostrou que a moda ainda influencia quando colocada em segundo plano e abre espaço para outras formas de expressão.

À esquerda, Justin Bieber sorri levemente, vestindo um paletó preto largo sobre uma camiseta preta e um colar de diamantes; ele tem o cabelo raspado e tatuagens visíveis no pescoço. No centro, Billie Eilish inclina a cabeça para o lado com uma expressão divertida, olhando para cima; ela veste um conjunto de estilo escolar com camisa branca, gravata preta, colete preto e uma jaqueta branca e preta com um broche redondo na lapela. À direita, Hailey Bieber sorri para a câmera, usando um vestido preto tomara que caia justo, com o cabelo preso em um coque elegante, um colar tipo gargantilha e brincos de diamante. No canto superior esquerdo do seu vestido, também há um pequeno broche redondo. O fundo está levemente desfocado, mostrando a plateia e as luzes quentes de uma arena de premiação.
O broche é uma manifestação contra o Immigration and Customs Enforcement (ICE), em português Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (Foto: Kevin Mazur)

A noite de premiações ficou marcada por protestos e posicionamentos políticos notáveis, especialmente contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA). Diversos artistas aproveitaram seus discursos de vitória para denunciar políticas de imigração severas, usando frases de impacto e símbolos como broches com a frase “ICE Out” no tapete vermelho e no palco, que contribuiu para transformar a premiação em uma plataforma de debate sobre direitos humanos e imigração, conectando a música, a moda e o ativismo de forma mais explícita que em anos anteriores. 

Bad Bunny, vencedor do Álbum do Ano e também Melhor Álbum de Música Urbana com Debí Tirar Más Fotos, abriu seus discursos com críticas diretas ao ICE, defendendo solidariedade e amor ao invés de ódio. Billie Eilish, que recebeu o prêmio de Canção do Ano com Wildflower, usou sua vitória para incentivar a continuidade dos protestos e da ação coletiva. Essas falas mostraram que a música e seus protagonistas vêem o palco do evento como um lugar legítimo de mobilização e de expressão política.

À esquerda, de costas para a câmera, está o artista porto-riquenho Bad Bunny. Ele veste um luxuoso paletó de veludo preto com um detalhe marcante de amarração em "X" com cordões pretos em botões dourados que descem por toda a coluna. À direita, de frente para ele, está o cantor britânico Harry Styles. Ele tem um sorriso genuíno com os olhos fechados enquanto retribui o abraço, apoiando a mão esquerda na costela de Bad Bunny. Harry veste um blazer cinza texturizado e calça jeans azul clássica. Ao fundo, vê-se uma tela gigante com uma imagem em tons quentes do rosto de Bad Bunny, indicando que o momento ocorreu logo após o anúncio da categoria Álbum do Ano.
Bad Bunny é o primeiro artista latino a ganhar a maior categoria da premiação, Álbum do Ano, com um projeto totalmente em espanhol (Foto: Kevin Mazur)

Entre os homens, poucos arriscaram ousadias visuais além de Harry Styles, que optou por jeans e sensualidade discreta. Bad Bunny, além de seu posicionamento político, brilhou com um terno marcante da Schiaparelli. Outros nomes como Pharrell Williams e Jon Batiste permaneceram fiéis a estilos pessoais que, embora clássicos, reforçaram uma estética que dialoga com suas identidades.

No fim das contas, o Grammy mostrou que, mesmo com um tapete vermelho sem grandes excessos visuais, a noite foi tudo menos neutra. A moda ficou em segundo plano para dar espaço a discursos fortes e posicionamentos claros, reforçando o palco da premiação como um lugar de fala e mobilização. Entre escolhas seguras de estilo e vozes que se levantaram contra políticas injustas, a edição deixou evidente que, naquele momento, o impacto não estava no figurino, mas na mensagem que cada artista decidiu levar ao público.

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