
Sinara Martins
A 68ª edição do Grammy Awards aconteceu no domingo, 1 de fevereiro, em Los Angeles, reunindo os maiores nomes da música em uma noite que terminou sendo menos lembrada pelos looks do tapete vermelho e mais por discursos e protestos que ecoaram no palco. O que se viu foram escolhas seguras e cores neutras, que afastaram o foco dos figurinos e abriram espaço para uma discussão mais urgente sobre o contexto político que atravessa o momento.
No tapete vermelho, a paleta manteve uma linha discreta de tons neutros, beges e pretos que dominaram as fotos e fizeram pouco barulho estético. Entre as celebridades que seguiram essa tendência estiveram Tyla, FKA Twigs, Coco Jones e Heidi Klum, todos com produções sofisticadas, porém contidas, que não romperam com a previsibilidade visual da noite. O resultado foi um conjunto harmonioso – ainda que pouco ousado para um evento conhecido por momentos marcantes de estilo.
Ainda assim, alguns nomes conseguiram atrair olhares mesmo dentro desse cenário contido. Lady Gaga, vencedora das categorias de Melhor Álbum Vocal de Pop com Mayhem e Melhor Gravação de Pop Dance por Abracadabra, apareceu inspirada, incorporando elementos que lembram a estética de Mayhem. Olivia Dean, que conquistou o prêmio de Melhor Artista Revelação, Teyana Taylor, Rosé e Nikki Glaser também se destacaram com escolhas que, embora dentro do neutro, trouxeram personalidade.

Poucos, como Zara Larsson, Chappel Roan e Doechii, fugiram da paleta predominante e ganharam atenção justamente por ousarem cores e recortes menos previsíveis. Em um tapete vermelho marcado pela contenção, essas exceções tornaram-se pontos de contraste visual, evidenciando o quanto a moda da noite privilegiou a segurança estética.
Ao contrário do que Miuccia Prada sugeriu ao afirmar que “a moda é para quando você está feliz, quando você não tem problemas, porque no momento em que alguém tem um problema de saúde ou de guerra, a moda definitivamente não é relevante”, o Grammy mostrou que a moda ainda influencia quando colocada em segundo plano e abre espaço para outras formas de expressão.

A noite de premiações ficou marcada por protestos e posicionamentos políticos notáveis, especialmente contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA). Diversos artistas aproveitaram seus discursos de vitória para denunciar políticas de imigração severas, usando frases de impacto e símbolos como broches com a frase “ICE Out” no tapete vermelho e no palco, que contribuiu para transformar a premiação em uma plataforma de debate sobre direitos humanos e imigração, conectando a música, a moda e o ativismo de forma mais explícita que em anos anteriores.
Bad Bunny, vencedor do Álbum do Ano e também Melhor Álbum de Música Urbana com Debí Tirar Más Fotos, abriu seus discursos com críticas diretas ao ICE, defendendo solidariedade e amor ao invés de ódio. Billie Eilish, que recebeu o prêmio de Canção do Ano com Wildflower, usou sua vitória para incentivar a continuidade dos protestos e da ação coletiva. Essas falas mostraram que a música e seus protagonistas vêem o palco do evento como um lugar legítimo de mobilização e de expressão política.

Entre os homens, poucos arriscaram ousadias visuais além de Harry Styles, que optou por jeans e sensualidade discreta. Bad Bunny, além de seu posicionamento político, brilhou com um terno marcante da Schiaparelli. Outros nomes como Pharrell Williams e Jon Batiste permaneceram fiéis a estilos pessoais que, embora clássicos, reforçaram uma estética que dialoga com suas identidades.
No fim das contas, o Grammy mostrou que, mesmo com um tapete vermelho sem grandes excessos visuais, a noite foi tudo menos neutra. A moda ficou em segundo plano para dar espaço a discursos fortes e posicionamentos claros, reforçando o palco da premiação como um lugar de fala e mobilização. Entre escolhas seguras de estilo e vozes que se levantaram contra políticas injustas, a edição deixou evidente que, naquele momento, o impacto não estava no figurino, mas na mensagem que cada artista decidiu levar ao público.
