
Gabriel Diaz
Era uma vez… um território que só conhecia ruínas. Era uma vez, também, o Cinema que tenta recontar suas próprias feridas. A fórmula clássica dos títulos que começam com ‘Once Upon a Time’ sempre carregou o peso de um mito. De Sergio Leone a Quentin Tarantino, é a indústria que fala de um tempo inventado, quase mítico, em que o real e a fábula se confundem. Era Uma Vez em Gaza, dirigido pelos irmãos Arab e Tarzan Nasser, adota esse mesmo artifício, mas o subverte.
Dessa vez, o ‘conto de fadas’ não inaugura uma epopeia de heróis, porém o epitáfio de um povo em colapso. Um western feito da poeira do bloqueio e da comédia amarga que só sobrevive quando tudo o resto já morreu. Gaza se torna mais um palco de uma Hollywood às avessas – um grotesco ‘Gazawood’, onde as estrelas brilham à luz de drones e as histórias são rodadas entre escombros.
Quando filmado sobre a catástrofe, o humor se transforma em resistência. Misturando a estrutura de um faroeste clássico com o ritmo nervoso de uma comédia negra, o longa revisita o ano de 2007 – o qual o cerco israelense se consolidou e o território passou a viver em confinamento permanente. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a obra reafirma a vocação de olhar o absurdo com lucidez, devolvendo à imagem o poder de testemunhar sem ceder à dor.

Entre as bancas de falafel e os becos de um cotidiano saturado de vigilância, são apresentados Yahya (Nader Abd Alhay) e Osama (Majd Eid), dois traficantes que tentam sobreviver com a ingenuidade e o desespero dos que já não têm saída. A droga escondida nos sanduíches é só um disfarce para a verdade maior: todos, em Gaza, estão contrabandeando algum tipo de esperança.
Dentro da produção de Christophe Graillot, há um destaque maior para a câmera que circula os personagens com a precisão de um duelo, alternando entre planos abertos que revelam o isolamento do território e closes que aprisionam seus rostos como se cada gesto fosse vigiado. Há uma plasticidade árida, porém com uma textura documental – a areia e o concreto parecem reais demais para pertencerem à ficção. Essa fusão entre gêneros cria uma tensão visual constante de que Gaza é cenário e personagem, ferida e espelho.
Ademais, as ruas poeirentas e os interiores decadentes são invadidos por cartazes de propaganda e retratos de líderes políticos, evocando um realismo simbólico que lembra o cinema de Emir Kusturica. Tudo é exagerado, quase teatral, mas profundamente verdadeiro. Quando Yahya é escolhido para protagonizar o primeiro filme de ação filmado em Gaza, a sátira se completa, em que o Cinema dentro do Cinema transforma o horror em espetáculo, questionando a própria forma como o Ocidente consome a tragédia palestina. É a Hollywood invertida, feita sob a mira de checkpoints e drones em que o termo ‘Gazawood’, inserido durante o longa, surge como metáfora e denúncia – um lembrete de que até a ficção palestina é um ato de sobrevivência.

O roteiro se equilibra entre o absurdo e o trágico, evitando o panfleto político. O humor existente não suaviza a violência, mas a amplifica. Os diálogos são secos, diretos, e ganham força no silêncio, principalmente nos momentos em que nada é dito – sendo eles os que mais pesam. A cada sequência, o espectador é arrastado para dentro de uma Gaza que oscila entre o riso e o desespero, entre o Cinema e a vida. É nessa irregularidade que o filme encontra sua coerência, não havendo ritmo possível onde não há normalidade.
Contudo, existem momentos em que a metáfora se torna excessiva. O jogo do ‘filme dentro do filme’ poderia se sustentar com menos sobrecarga simbólica e, por vezes, a fábula ameaça engolir o real. Ainda assim, é precisamente esse risco que dá ao longa sua ousadia estética. Os diretores não capturam o cenário de guerra como uma reportagem nem como um manifesto, e sim como um terreno de invenção, no que transforma a obra numa recusa a linearidade – como se dissesse que o Cinema palestino não pode mais contar histórias ‘comuns’, porque a normalidade lhe foi negada. O artifício de um western serve, então, como armadura narrativa: o duelo moral, o herói trágico e o vilão corrupto se tornam alegorias da própria sobrevivência.
Quando comparado a Gaza, Meu Amor (2020), Era Uma Vez em Gaza soa menos lírico e mais corrosivo. Se o anterior abordava o amor tardio como gesto de resistência, este revela o humor como último refúgio. Tarzan e Arab amadurecem ao compreender que a ironia é uma forma de fé e que gargalhar do horror é insistir na vida. Suas coroações na premiação de Cannes, em Melhor Direção na seção Un Certain Regard, não são um gesto de exotismo, e sim o reconhecimento de uma linguagem cinematográfica que desafia o formato e o discurso. Em seus olhares, há sempre o mesmo dilema: rir ou resistir. E o espectador, cúmplice desse impasse, descobre que talvez o riso seja a única forma possível de resistência em Gaza.

Em última instância, Era Uma Vez em Gaza sempre deixou claro o seu propósito de representar uma produção sobre o ato de filmar. E além, sobre o gesto de inventar uma imagem quando todas as figuras mundiais insistem em te apagar. A questão não é filtrar a dor de um povo para que ela seja compreendida, e sim filmá-la para que ela não seja esquecida. Se Hollywood criou mitos sobre o heroísmo americano, ‘Gazawood’ cria fábulas sobre a sobrevivência palestina e reafirma a Sétima Arte como uma forma de continuar existindo quando já não há lugar no mundo.
O ‘Era uma vez’ é o tempo verbal da sobrevivência. E talvez seja nesse paradoxo que o filme finaliza sua grandeza ao transformar a dor em fábula e a ruína em Cinema. Os irmãos Nasser fazem de Gaza não apenas um território sitiado, mas um território de criação. Um western sem cavalo, uma comédia sem riso, uma história que ainda resiste ao fim.
