Ego Death At A Bachelorette Party é o grito de independência definitivo de Hayley Williams

Texto Alternativo: Capa do álbum Ego Death At A Bachelorette Party. Na imagem em preto e branco, Hayley Williams, mulher branca vestindo um suéter, aparece com a mão no rosto e olhar sereno para frente. Há o contorno amarelo de um quadrado apenas ao redor da face de Williams. Uma sombra abrange o plano de fundo da esquerda à direita.
Hayley Williams está indicada na categoria ‘Melhor Álbum de Música Alternativa’ no Grammy 2026 com Ego Death At A Bachelorette Party (Foto: Post Atlantic Records)

André Aguiar

Em dezembro de 2024, Hayley Williams questionava suas motivações artísticas e as direções que sua carreira tomaria. Ao encerrar um contrato abusivo de 20 anos com a Atlantic Records e fundar o próprio selo independente, Post Atlantic, a artista encara uma estante repleta de possibilidades longe da banda em hiato Paramore, na qual atua como vocalista, compositora e instrumentista. Mesmo tendo o grupo de The Only Exception e Still Into You desde a adolescência como plataforma para vocalizar suas crises e triunfos enquanto mulher na indústria da música, Williams ainda carecia de liberar um brado ensurdecedor sem que ninguém a podasse.

Os primeiros trabalhos solo de Williams, Petals For Armor (2020) e FLOWERS for VASES / descansos (2021), traziam uma sonoridade seca e minimalista, mas que ainda lembrava a dos projetos da Paramore, na época, e composições não tão honestas e confessionais quanto em Ego Death. “Eu preciso ficar mais metafórica logo”, brincou a cantora durante entrevista para a Alternative Press ao comentar sobre as letras “ultra-pessoais do disco. O álbum desbrava a mente crítica e sensível de Williams em nuances que os fãs jamais esperariam conhecer, perto dos 40 anos e com uma percepção irreconhecível da realidade comparada à da jovem adulta que escreveu Misery Business.

Inicialmente, Ego Death At A Bachelorette Party teve um lançamento não muito convencional. No dia 28 de julho de 2025, através de um download por código no site oficial de Williams, o usuário recebia acesso a 17 novos singles. No dia 1 de agosto, os singles foram disponibilizados separadamente nas plataformas digitais de áudio e, ao final do mês, no dia 29, o LP completo é lançado com a ordem das músicas formada a partir de sugestões dos fãs via e-mail e com a adição da faixa Parachute. Posteriormente, Good Ol’ Days e Showbiz também compuseram a tracklist. Essa estratégia totalmente oposta às demandas da indústria refletiu o estado em que a artista se via no processo de criação, percebendo suas direções pouco a pouco e se permitindo gastar quantas palavras e ideias fossem necessárias na concepção do projeto.

Sonoramente, o álbum é plano. O produtor e colaborador de longa data, Daniel James, mantém uma atmosfera cinzenta e melancólica na maioria das canções, mas que, pontualmente, encontra nuances diferentes. Às vezes flerta com um pop amigável – como em Whim e Love Me Different – outras com um acústico etéreo e mais lento – Blood Bros e Negative Self Talk – contudo, na maior parte, é uma sonoridade linear: um pop rock alternativo estável que dá espaço para o conteúdo brilhar. A inventividade deste trabalho não é o seu som, porém isso é compensado em totalidade pelas palavras meticulosamente escolhidas, que constroem um disco afiado e genial.

Na busca por independência na adultidade, Williams se depara com milhares de dilemas em si mesma que a desafiam. Em Kill Me, por exemplo, ela reflete sobre traumas geracionais e as responsabilidades femininas em papéis diferentes. Essas não são mais dúvidas de adolescente, e sim de uma adulta que colecionou muitas frustrações e cicatrizes ao longo da vida. Glum, sob outra perspectiva, é um desabafo em torno de solidão e amadurecimento. “A caminho dos 37 anos / Eu não sei se um dia vou saber o que raios estou fazendo aqui / Alguém sabe se isso é normal?”. Infelizmente, a onisciência e a sabedoria plena não são atributos que alguém recebe logo depois dos 30, no entanto, reconhecer a ausência deles já é alguma coisa. Depois de tanto tempo, a cantora já aprendeu que ‘não saber’ pode ser um sinal de que ela percorre o caminho mais prudente.

Texto Alternativo: Fotografia de Hayley Williams. Na imagem capturada de cima para baixo, a cantora está sentada em um chão de madeira e com cabeça encostada na parede, direcionada para cima, mas seu olhar encara seu lado direito. Williams tem cabelo amarelado e a boca um pouco aberta, usa uma calça jeans e uma camiseta branca com gola magenta. O chão está manchado de poeira.
Para a Alternative Press, Williams assumiu ter tido encontros inspiradores com David Byrne (Talking Heads) em projetos colaborativos que incentivaram a produção de Ego Death At A Bachelorette Party. (Foto: Zachary Gray)

Um dos destaques do álbum é Mirtazapine, uma carta de amor da compositora direcionada ao seu antidepressivo. Ao som de um grunge vibrante, Williams narra diversas situações em que seu frasco de mirtazapina foi sua única salvação. “Aí vem meu gênio em um frasco de rolha / Para me conceder consolo temporário / Eu nunca poderia ficar sem ela / Tive que escrever uma música sobre ela / Quem sou eu sem você agora?” Além de liberdade e autonomia, crescer também significa ter algumas pílulas medicinais viajando pelo seu organismo às vezes. Na letra, usar o medicamento como alívio momentâneo pode ser uma metalinguagem sobre a própria dinâmica ambígua da canção, que mascara sua mensagem sombria sendo o pico eufórico de produção do disco. A existência deste registro revela uma verdade não muito positiva, dito isso, apenas Hayley Williams poderia fazer uma música sobre remédio ser cool.

Ego Death também trata de questões externas que afetam a visão da vocalista quanto à política, feminilidade e a indústria e como elas refletem em sua jornada pelo autoconhecimento. Na faixa de abertura, Ice In My OJ, o elefante na sala já é endereçado: “Tenho gelo no meu suco de laranja, sou uma vadia de coração frio e duro / Muitos burros imbecis que eu tornei ricos”. O mal-estar do acordo entre Williams e a antiga gravadora foi real o suficiente para resultar numa amargura quase palpável e numa crítica assertiva. A faixa-título cutuca a mesma ferida, mas alega que o buraco é mais embaixo: Eu serei a maior estrela neste bar de cantor country racista” é a primeira frase da música que revela a frustração de Williams quanto à realidade atrasada da cena musical de Nashville, cidade conhecida por lançar a cantora e outros grandes nomes da indústria no mapa, como Morgan Wallen, o qual a artista já confirmou ser uma inspiração para a composição.

True Believer se destaca por ser um ataque explícito e afiado ao racismo e ao fanatismo político e religioso praticados por grandes grupos do sul estadunidense. Eles posam em cartões natalinos com armas do tamanho de seus filhos / Dizem que Jesus é o caminho, mas lhe deram um rosto branco / Assim eles não precisariam rezar a alguém que consideram ser inferior / O Sul não se levantará de novo”. A essa altura, é óbvio que estas composições não sofreram muita hesitação ou reparos, e nem por isso são preguiçosas, muito pelo contrário. A transparência imediata com a qual Williams aborda temas delicados como estes só a dá mais credibilidade. “Me casei uma vez usando botas de combate / Só ouvia música cheia de testosterona / Tive que matar minha feminilidade só para conseguir fazer isso”, desabafa a compositora junto às batidas eletrônicas e graves rígidos de Hard.

Toda essa honestidade lírica na criação do álbum levou Hayley Williams a experimentar uma escrita autobiográfica como nunca havia tentado. Claro que, de certa forma, sempre foi autobiográfico. No entanto, desta vez foi diferente, porque o público tinha ciência do relacionamento entre a vocalista e Taylor York, guitarrista da Paramore. O casal vivia um romance discreto, na medida do possível, desde 2022, e sofreu turbulências durante a concepção do Ego Death. Good Ol’ Days só não cita o nome de York, porém aborda todo o resto sem rodeios, com direito a linhas tão sinceras que causam até certo estranhamento vindo da artista: “Nós poderíamos sair por aí como se estivéssemos em turnê / Mesmo que você me queira só para isso / Você pode me chamar de ‘Sra. Paramore’”. A faixa também se difere por aproximar os vocais de Williams a um R&B envolvente que a serve muito bem neste caso.

Texto Alternativo: Fotografia de Hayley Williams. Na imagem, a cantora aparece sentada, com um vestido e um véu de noiva sujos de comida. A boca de Williams também está suja, ela parece mastigar algo. Ela segura um copo de bebida cheio até a metade. À esquerda, há uma mesa com embalagens de comida reviradas e espalhadas.
Durante 2024, a banda Paramore foi ato de abertura de alguns shows da The Eras Tour, de Taylor Swift, na Europa. (Foto: Zachary Gray)

O ápice confessional é Parachute, em que Williams narra o momento em que percebeu que estava com o coração partido. É a melhor música do disco e mostra como suas percepções, internas e externas, sobre a própria independência, afetam sua vida e sua relação com as pessoas. A faixa, mesmo referenciando sua relação conturbada com York, não é uma diss e não entrega conteúdo para as páginas de fofoca, mas ajusta o foco da narrativa para si mesma de maneira inimitável. A combinação do estilo de escrita diarística à la Taylor Swift, da impostação emotiva dos vocais de Williams e da ambiência reverberante do instrumental resultam no hino comovente e visceral que é Parachute, uma daquelas canções que devem ser cantadas a plenos pulmões e que elevam a cantora ao patamar de modelo e influência na comunidade artística como um todo.

Apesar de não pavimentar novas rotas, Ego Death At A Bachelorette Party percorre com destreza e elegância caminhos previamente trilhados. A inovação do terceiro – e possivelmente último – álbum solo de Hayley Williams poderia se apresentar como tiros desordenados a alvos mal estabelecidos. No seu caos, entretanto, a obra se torna o magnum opus de uma artista que descobriu a potência da própria voz ao decorrer de décadas sob o olhar obstinado da mídia e, agora, é refém somente da sua independência. A Miss Paramour faz um trabalho contemporâneo consistente e, mesmo longo, sem muitos excessos. Abrindo suas feridas ao público nas letras do disco, Williams alcança um status privilegiado na indústria, que não depende de números ou sucessos estrondosos, contudo, exige coragem e autenticidade para ser conquistado: relevância.

Deixe uma resposta