Em Dolores, a ambição é um princípio que ultrapassa gerações

Na imagem, há três mulheres de frente a uma janela. A primeira mulher possui pele negra e cabelos cacheados presos. A segunda mulher possui pele branca e cabelos grisalhos. A terceira mulher possui pele negra e cabelos cacheados longos. Todas estão contemplando o horizonte.
Dolores é um manifesto cultural da potência do cinema brasileiro. (Foto: Dezenove Som e Imagens)

Victor Hugo Aguila

Desejar mudar sua realidade é a aposta mais arriscada e vantajosa que alguém pode ter. Na seleção da Mostra Brasil da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Dolores apresenta a história de três mulheres da mesma família, em diferentes gerações. Ao abordar o sentimento de ambição compartilhado entre neta, mãe e avó, o longa mostra uma nova maneira de enxergar a relação entre mulheres. 

Com a vontade de abrir um cassino prestes a completar 65 anos, a personagem-título, interpretada por Carla Ribas, é a representação perfeita do agridoce da impulsividade. Lutando contra o vício em apostas, a protagonista encara ao longo do filme a disputa que é desfrutar de seus desejos sem perder a racionalidade. Ainda que seja fiel a si mesma, a aniversariante peca vorazmente ao ser consumida pela ânsia e pela pressa, frustrando não apenas suas relações interpessoais, como também as expectativas que possui de si mesma. 

Na imagem, há uma mulher branca de cabelos grisalhos. Ela está com o rosto maquiado e usando um vestido colorido. Em seu pescoço, há um colar dourado.
O figurino e a maquiagem desempenham funções importantes no longa ao emoldurar as diversas facetas de Dolores. (Foto: Dezenove Som e Imagens)

Para além da individualidade das personagens, a obra expõe brilhantemente o abismo emocional que existe entre a sexagenária e Deborah (Naruna Costa), sua filha, e como os vínculos familiares refletem suas identidades. Ao ser abandonada e furtada por seu namorado, após a saída do rapaz da prisão, a primogênita se encontra em uma posição de vulnerabilidade emocional e financeira. Em análise, é perceptível como esse movimento é recorrente em sua vida, uma vez que sua mãe a coloca na mesma posição depois de vender a casa que ambas tinham sem seu consentimento. A partir disso, é destrinchado verdadeiramente o que constrói sua personalidade e como isso afeta ou não sua forma de se ver e se portar no mundo que lhe cerca. 

Duda (Ariane Aparecida), por sua vez, tenta se desvencilhar da realidade que a contempla ao acreditar nas falsas promessas de seu patrão, que desperta sua fantasia de ir morar nos Estados Unidos. A neta, com uma postura forte e audaciosa, recai na ingenuidade permeada pela idade ao aceitar fazer parte de um esquema de tráfico de armas. Ainda que a personagem represente fielmente o contexto social de muitas mulheres da periferia de São Paulo, o modo de transcrever o imaginário social ocorre de maneira delicada e potente, combinada a atuação exemplar de Ariane. 

Além dessa ótica, o enredo representa fielmente a lógica cruel e patriarcal que ainda persiste atualmente: o condicionamento de mulheres a lidar com as consequências de ações cometidas pelos homens. A presença marcante de Dona Ida (Teca Pereira), por exemplo, corrobora essa perspectiva. Ao narrar para Deborah como deixou a profissão que tanto amava por pressão do marido que a abandonou durante sua gestação  é evidenciado o apagamento da sua individualidade e do seus desejos em prol de uma relação. A obra com roteiro original de Chico Teixeira se consagra enquanto forte expoente da poesia cinematográfica a partir da abordagem séria, crítica e sutil. 

Na imagem, há três mulheres em um diálogo. Da esquerda para a direita, a primeira mulher possui pele branca e cabelos escuros. Ela está vestindo uma blusa de mangas longas marrom e calça jeans. No meio, há uma mulher branca com cabelos grisalhos, vestindo um vestido preto, branco e amarelo. Ao seu lado, há uma mulher negra com cabelos cacheados. Ela está vestindo uma camiseta regata laranja e calça branca. O ambiente é uma sala de estar, iluminado por uma coloração amarelada. No fundo, é possível ver móveis e objetos de decoração.
Marlene (Gilda Nomacce) é um alívio cômico e gentil para a tensão presente no filme. (Foto: Dezenove Som e Imagens)

Esteticamente, o filme triunfa na fotografia. Com os tons da cidade de São Paulo ao seu favor, a direção de arte, feita por Juliana Lobo, e a montagem, de Joana Luz, são os pulmões das cenas, oxigenando o espectador a cada movimento. Além desse aspecto, elementos culturais característicos da brasilidade trazem familiaridade e conforto ao serem desfrutados como a cena dos brigadeiros sendo decorados para a festa de aniversário de Dolores. O apreço em se identificar afetivamente com determinados momentos do longa demonstra a ternura para além das câmeras. 

Ainda, é primordial destacar a produção e direção enquanto algo digno de engrandecimento. Dirigido por Maria Clara Escobar, além de Marcelo Gomes, e produzido por Sara Silveira, Eliane Bandeira e Maria Ionescu, o longa abarca a representatividade feminina para além das câmeras. Ao portar figuras femininas em posições de destaque, e com orientações de outras mulheres, Dolores pode ser definido como coerente. Mais que valorizar tais vozes, é efetivada sua proposta inicial e mais importante: enxergar a mulheridade através de uma perspectiva de sujeito, e não objeto. 

Na imagem, há uma mulher negra de tranças. Ela está vestindo um casaco colorido e está em cima de uma moto. No seu colo, há uma mala grande na cor laranja. Em seu rosto, há lágrimas escorrendo e expressões que remetem a tristeza.
A ingenuidade e a busca pelo pertencimento materializam em Duda, personagem de Ariane Aparecida. (Foto: Dezenove Som e Imagens)

Sob uma perspectiva contemporânea, o filme se mostra relevante ao usar elementos da era vigente para sua composição. A presença de músicas de artistas atuais como Afreekassia transmite ao espectador a sensação de lucidez, mostrando a possível atemporalidade da obra e atestando sua permanência. Além da trilha sonora, o próprio roteiro inova ao destacar a sensualidade de Dolores, uma mulher idosa, na cena em que ela beija um homem mais novo no banheiro do cassino. Nessas construções de cena, ceder o protagonismo da sexualidade a uma mulher mais velha é, além de disruptivo, extremamente necessário. 

Dolores é um escopo magnífico e orgulhoso do cinema nacional. De um ponto de vista crítico, questões como vaidade, prazer e coragem ganham um ambiente fértil para desabrochar sem cair num conto raso e estereotipado. A partir de recursos visuais ricos e com uma estética característica e identitária, a obra garante seu prestígio ao ousar para além do texto e do que se espera de histórias contadas por e para mulheres. De maneira inata e já sendo um prodígio, o longa é o exemplo perfeito de que a cinematografia brasileira tem tudo para ser um sucesso.

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