Despreocupadamente talentoso, Tyler, The Creator se diverte sem reservas em DON’T TAP THE GLASS

Texto Alternativo: Capa do álbum Don’t Tap The Glass. Na imagem, Tyler, The Creator, homem negro de 34 anos, se posiciona no centro, em pé, de punhos fechados, em frente a um fundo branco com partes de seu corpo distorcidas, como nariz, olhos, boca, braços e mãos aumentados. O rapper aparece de bigode. Não usa camisa, mas veste uma calça de couro vermelha, uma corrente de ouro gigante no pescoço, brincos, óculos de armação quadrangular e transparente e um boné vermelho com o escrito ‘glass’.
DON’T TAP THE GLASS está indicado a Melhor Álbum de Música Alternativa no Grammy 2026 (Foto: Columbia Records)

André Aguiar

“Bem-vindo / Número um: movimento corporal, não fique parado / Número dois: fale apenas em glória, deixe sua bagagem em casa / Número três: não toque no vidro”. Logo em suas primeiras linhas, Tyler, The Creator esclarece o passo a passo para um ouvinte que deseja ter a experiência completa de DON’T TAP THE GLASS, seu nono álbum de estúdio. Lançado apenas oito meses após o indicado ao Grammy de Álbum do Ano CHROMAKOPIA (2024), o disco de 2025 mostra o lado mais escrachado e extrovertido do rapper. Tyler Okonma, que já é referenciado como um nerd da música e que costuma operar de forma mais solitária, entrega um produto descolado de sua obsessão pela Arte e seu vasto repertório.

A busca de Tyler pela urgência e entusiasmo vem em contraste direto à densidade temática do antecessor CHROMAKOPIA, projeto carregado de vulnerabilidade e composto pelas crises mais pessoais do produtor e compositor americano aproximando-se dos 30 anos de idade. Mesmo assim, versos em Rah Tah Tah e Sticky já sinalizavam um ‘basta’ criativo que não demoraria a ser entoado. A única preocupação de DON’T TAP THE GLASS é a diversão. Não há espaço para muitos rodeios ou enrolações, o foco é ser direto, músicas curtas, sem muitas viradas de beat, sem pontes, sem intros e outros muito longas. Na época do lançamento, Tyler deixou uma declaração um tanto honesta via X sobre o álbum: “É melhor vocês baixarem suas expectativas, isso não é nada conceitual”.

DON’T TAP THE GLASS é um disco mais focado em atmosfera do que em conteúdo. No fim das contas, não importa tanto o que Tyler está dizendo, mas como cada elemento da música colabora para gerar esse efeito contagiante e que te transporta às incontáveis referências do artista no rap. A capa e os visuais já remetem a ícones da cena americana dos anos 2000, como LL Cool J e 50 Cent. Nas faixas, o rapper mostra sua dedicação e estudo extenso do gênero nos Estados Unidos. Sucka Free, por exemplo, é uma ode à formação musical de Okonma crescendo na Califórnia. O groove solar da costa oeste americana exala a cultura hip hop que encantou o T pela primeira vez na sua infância em Hawthorne, além de referenciar a antiga Odd Future Wolf Gang na letra, o coletivo que fundou e do qual fez parte no início da carreira.

A jornada pelo rap americano no álbum continua em momentos como Don’t You Worry Baby, um Miami Bass meloso com participação de Madison McFerrin fundamentado no R&B e nos acordes hipnotizantes que já são marca registrada do produtor. No mesmo embalo, Ring Ring Ring soa como uma demo perdida de Off The Wall (1979), na qual o Tyler tímido e romântico de IGOR (2019) retorna e se envolve numa atmosfera Disco, unindo riffs de violino, sintetizadores e toques de telefone. DON’T TAP THE GLASS abre espaço para as faixas mais melódicas de Tyler, The Creator, e que geralmente são as mais bem-sucedidas, como See You Again e Like Him. A abordagem livre de regras optada pelo rapper na criação do projeto não se compromete com flows malucos ou versos muito elaborados, e essa falta de complexidade não torna a imersão menos interessante.

Texto Alternativo: Fotografia de Tyler, The Creator. Na imagem, o rapper veste um conjunto azul de couro, camiseta branca, correntes de ouro, um cinto com a palavra ‘glass’ gravada, boné vermelho, óculos transparente e brincos. Ele está em pé, com a mão esquerda no bolso. Atrás do artista, um painel de tiras de madeira verticais e sequenciais.
O lançamento de DON’T TAP THE GLASS aconteceu durante a turnê do álbum CHROMAKOPIA, em julho de 2025. Aos poucos, o rapper foi inserindo músicas do novo disco na setlist original do show. (Foto: Apple Music)

I’ll Take Care of You é um dos momentos mais experimentais do disco. Aqui, o Creator desmancha as estruturas que estava acostumado a seguir e constrói um dos atos mais tocantes da sua carreira, não só pela mensagem, mas principalmente pela sensibilidade da produção e composição da faixa. Yebba colabora com vocais angelicais cantando o singelo refrão “Eu vou cuidar de você”, enquanto samples dos versos de Killa C e Princess em Knuck If You Buck, do grupo Crime Mob, trazem uma rítmica envolvente para o cenário orquestrado na música. Além desses samples, o artista reutiliza o beat da faixa-título de seu próprio álbum, Cherry Bomb (2015), incompreendido na época de seu lançamento, mas redimido em partes através da aparição bem-vinda aqui.

Outro lado de DON’T TAP THE GLASS conta com as rimas debochadas e divertidas do compositor marcando presença. Você pode pegar um treino, mas não na academia / Não precisa mentir, nós podemos sentir o cheiro de Ozempic”, na faixa que dá nome ao projeto, por exemplo, mostra o quão pouco preocupado o rapper se encontra em compor letras pessoais e profundas nesta era, e isso passa longe de ser algo ruim. Tyler comenta para a Apple Music que este álbum é só ele “sendo bobo” e rimando piadas internas de seus amigos. Depois de dar sangue e suor em trabalhos extensos e viscerais, Okonma parte para o retorno à forma e para os tesouros que o fizeram se apaixonar pelo rap em primeiro lugar.

Em entrevista para a HOT 97, o T assumiu que não considera este um projeto de dance music, uma vez que o rótulo é associado a gêneros como techno e house. Entretanto, houve um esforço na criação do disco em fazer os ouvintes dançarem – como o artista ordena na abertura – e se entregarem ao caos hipnotizante que guia esta tracklist. Esse objetivo é plenamente alcançado na potente Sugar On My Tongue, o ponto mais enérgico do álbum. Oito batidas marcam o início da música que tem um drop de fazer qualquer um mover os pés instantaneamente no ritmo. Ao som de um instrumental que lembra uma SexyBack acelerada, o Tyler veste a camisa pop numa letra sensual e charmosa. “Me dê um pedaço de creme, é seu aniversário? / Eu tenho um pincel, me dê suas paredes e eu vou pintá-las / Não preciso de ar, eu fico aqui até desmaiar”. É uma explosão irresistível.

Com DON’T TAP THE GLASS, Tyler, The Creator redefine o imediatismo e a urgência contemporânea em um ‘falso conceito’ libertador e refrescante. É um álbum criado para agradar o pequeno Tyler Okonma pré-adolescente, fã de Usher e Pharrell Williams, fissurado pelos discos de seus artistas e grupos favoritos e por curtir boa música. Aos 34 anos, o rapper espreme todo o suco de suas paixões e o resultado é um corpo de trabalho extravagante e cheio de repertório. Mesmo que,  intencionalmente, ele tente não levar sua Arte tão a sério aqui, a qualidade de seus projetos mais aclamados ainda ecoa em frequências camufladas. Cuidado! Não toque no vidro, porque do outro lado há um criador livre e talentoso demais.

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