
Gabriel Diaz
Desde o fenômeno de Parasita (2019) nas grandes premiações, a indústria cinematográfica parecia não ter reencontrado outro produto audiovisual sul-coreano capaz de ocupar o mesmo impacto de precisão formal e consciência narrativa – até surgir, neste ano, No Other Choice. Enquanto Bong Joon-ho explorava a estratificação social por meio do coletivismo, o conterrâneo investe na patologia individual horizontal em um corporativismo predatório e nos apresenta um homem que decide cavar o próprio nível até não restar ninguém além dele.
Há 25 anos, Yoo Man-soo (Lee Byung-hun) construiu uma carreira sólida em uma empresa de celulóide – o papel e seus derivados são, para ele, uma paixão única. Casado, pai de dois filhos e dono de dois cães, vive na casa dos sonhos conquistada com esforço. No entanto, sua estabilidade começa a ruir quando a empresa é comprada por um conglomerado norte-americano e anuncia uma reestruturação no quadro de funcionários. A demissão o motivou a seguir na procura de um novo emprego, porém a escolha de uma única vaga fez com que o transfigurasse num assassino em série, deixando a entender que eliminar a concorrência deixa de ser metáfora para se tornar instrução literal.
A genialidade por trás do filme, que consta na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, se estende na indissociação entre o riso e a tragédia, refletindo uma trama que não teme o desconforto. A transformação do cotidiano em espetáculo possui nome e sobrenome: Park Chan-wook, idealizador de um Cinema que retoma não apenas o que representa o mundo corporativo, mas aquilo que o tensiona. A proposta do diretor se centraliza no olhar meticuloso sobre o desespero e isso não se reflete no espectador devido ao tom humorístico que torna o longa extremamente hilário. A ironia é o seu idioma, a ambiguidade o seu método.

As cenas são rítmicas e parecem durar mais do que deveriam, na possibilidade de que o tempo hesitasse diante do ridículo humano. Não é fácil transformar o ordinário em ameaça, Chan-wook filma o trabalho e o tédio com o mesmo rigor, alternando planos estáticos e movimentos lentos que sublinham o vazio das ações. Cada enquadramento se comporta como uma moldura que aprisiona o corpo e todos os silêncios se transformam em respiros negados. A direção não quer fomentar o espanto diante das ações, e sim o estranhamento. O cotidiano é filmado como se fosse ficção científica – algo quase indecifrável.
É nesse intervalo entre o real e o absurdo que o ápice da produção se instala: o humor ácido. No Other Choice é engraçado, porém nunca leve. A sátira não nasce de piadas, e sim da repetição: o indivíduo que insiste, o gesto que retorna, a reunião que se reencena. Há algo de cruel em perceber o quão previsível é a autodestruição do próprio ser, buscando a vida ou a morte em prol da empregabilidade. Chan-wook domina com maestria o tempo da ironia, construindo uma cumplicidade perversa com o espectador, pois ele ri e reconhece simultaneamente o desconforto. Um mesmo sistema que nos premia por sermos competitivos é o que nos condena quando levamos essa competição às últimas consequências, mostrando que o homem é o lobo do próprio homem.
A atuação de Lee Byung-hun supera seus trabalhos anteriores, até mesmo o conhecido Front Man, de Round 6 (2021), que se assemelha nos aspectos sanguinários. Ele constrói um protagonista fragmentado entre o riso nervoso e o olhar exausto, sustenta o tom tragicômico da narrativa. Há uma precisão quase cruel na sua performance: Man-soo não é vítima nem algoz, é apenas alguém tentando se manter de pé dentro de um sistema de aparências. Ao seu lado, Son Ye-jin interpreta a esposa Yoo Mi-ri com uma serenidade que disfarça o cansaço. O casal encarna o que há de mais devastador no longa: a incapacidade de comunicar o próprio desespero. Tudo se torna um diálogo interrompido.

No Other Choice é, em última instância, sobre o gesto de continuar – mesmo quando nada mais se sustenta. O título soa bastante como um epitáfio: talvez, na realidade, nunca houvesse outra escolha. Chan-wook retrata um homem comum que se torna monstro não por maldade inata, mas porque o sistema recompensa a monstruosidade. Então, o registro da persistência humana diante do colapso se torna diferencial entre outros produtos do gênero, pois reafirma o Cinema sul-coreano como espaço de invenção.
O longa foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Toronto como a escolha do público, considerada a melhor produção deste ano, e agora representa a Coreia do Sul na corrida pelo Oscar 2026. Isso é apenas o resultado de um autor que compreende o horror como continuidade ao invés de uma ruptura. A mentalidade do caos, aqui, é método – e a lucidez, a forma mais elegante de loucura.
