Há 5 anos, Zolita pintou o amor sáfico em tons sombrios em Evil Angel

Uma mulher branca e loira com um vestido branco, véu de noiva e uma coroa, está sentada em frente a um grande vitral colorido comum em igrejas da Idade Média. O vitral é arredondado e usa cores vibrantes como azul, verde e amarelo. A mulher está no centro da imagem com a cabeça levemente inclinada para o lado direito. Suas mãos estão unidas em posição de oração e sua expressão facial é séria.
A obra abraça o caos emocional e revela o lado obscuro do amor (Foto: Zolita)

Vitória Mendes

Misticismo, relacionamentos sáficos, sexualidade e a superação de términos são alguns dos temas explorados por Zolita em Evil Angel, seu álbum de estreia. Lançado de forma independente em 2020, o trabalho apresentou e consolidou a identidade musical da norte-americana como cantora, compositora e produtora de pop alternativo. Ao assumir todas essas funções, a artista foi capaz de transbordar sua essência e vulnerabilidade em cada etapa do processo, com um obra crua, sentimental, realista e identificável, especialmente para o público LGBTQIAPN+ jovem.

Explorando um gênero já conhecido, Zolita aborda o empoderamento feminino em meio a uma temática mais sombria, contrastando com a natureza angelical pressuposta no título e pela capa. A partir disso, ela segue um estilo musical parecido com outras cantoras emergentes na mesma época, como Hayley Kiyoko, King Princess e Fletcher. Também há inspirações na estética mítica de Florence + The Machine e, pela vertente dark pop, utiliza menções à bruxaria. Ainda assim, algumas características a diferenciam, como a consistência de sua estética visual e a abordagem sincera da temática queer. Apesar de não ter chegado ao mainstream, Evil Angel entrega exatamente o que promete e um pouco mais, ao considerar ser um álbum introdutório e completamente autônomo.

Com batidas envolventes, voz suave e clipes bem produzidos, o conceito do disco têm uma construção satisfatória. A maneira como a jovem explora a sexualidade e a individualidade sem focar no aspecto da autodescoberta ou rótulos pré-determinados pela indústria é, sem dúvidas, um destaque no álbum. Para ela, o que predomina é a intensidade das relações e de seus sentimentos, que vão de luxúria à raiva após o término, e à saudade subsequente. O diálogo é uma presença constante em algumas de suas faixas, como 3:33 am, que apesar de curta, complementa a proposta e reflete a identidade artística da compositora.

Uma mulher branca e loira está deitada em uma caverna escura e úmida, com uma chuva leve caindo ao redor dela. Ela está nua, com apenas as partes íntimas cobertas. Ela tem grandes asas brancas de penas nas costas, simbolizando um anjo caído, enquanto mantém uma expressão contemplativa e olhos fechados, apreciando a chuva.
Você tocou meu coração como um violino, você gosta da colisão e da queimação / Você se excita quando me machuca?” (Foto: Zolita)

Mostrando que nenhuma experiência é única, as 18 faixas – incluindo as adicionais da versão deluxe (2021) – refletem a dualidade dos vínculos amorosos e descrevem todos os estágios de um relacionamento fadado ao fracasso. A narrativa começa envolvente com Bedspell, que relata uma atração instantânea entre duas pessoas que querem permanecer presas na luxúria para sempre. Conforme o álbum avança, Zolita começa a se questionar se aquilo que sentiu realmente é amor, principalmente quando a relação se torna exaustiva, fazendo com que ela sinta-se enlouquecendo diante das manipulações descritas em Shut Up and Cry e Mad

Ao reconhecer a convivência tóxica, na faixa Evil Angel, a cantora traz uma estética obscura e religiosa – expressa com o uso do violino e elementos sacros. Em Truth Tea, as composições líricas se intensificam conforme a jovem revela a traição da ex-namorada com homens ao longo do tempo e a acusa de mentir sobre sua sexualidade apenas por publicidade. Orchard St. encerra a produção com Zolita refletindo sobre a saudade, o sentimento de estar perdida, tentativas de perdão e, por fim, o esforço para escapar do fantasma do vínculo que a moldou.

Durante toda a produção, o storytelling é fundamental e muito bem desenvolvido. Ele não só se mantém constante, mas também permite uma construção técnica e instrumental interessante. A escolha de instrumentos como guitarra e piano, foi outro acerto, pois encaixaram perfeitamente ao sentimento que cada música quer transmitir. Todas as faixas têm repetições nos refrões que, embora poucos se destaquem individualmente, funcionam bem na obra em geral. Apesar do potencial vocal da cantora não ser totalmente explorado e faltar força no tom das músicas, o conjunto é agradável de ouvir e se encaixa no estilo que propunha ser explorado.

Uma mulher loira com expressão solene está no centro da imagem. Ela usa um vestido branco comprido e segura nos braços o corpo inerte de uma mulher de cabelos escuros e longos, também vestida de branco. Ao redor da cabeça da mulher loira há uma auréola. O fundo é escuro e no chão há água, criando um contraste que remete a uma imagem divina e simbólica.
Meus amigos dizem que eu deveria ir embora / Mas estou muito presa nessa fantasia distorcida” (Foto: Zolita)

Como produção independente, não houve um investimento milionário, entretanto isso não impediu Zolita de desenvolver sua arte. Nessa fase, ela lançou um curta, também nomeado Evil Angel, que resume e aprofunda o conceito do álbum. A obra foi bem recebida pelo público-alvo, que aplaudiu o fato das narrativas não perpetuarem a fetichização ou o apagamento das relações sáficas, historicamente negligenciados pela indústria. Esse histórico, junto com a faixa Somebody I F*ucked Once, da versão deluxe, abriu espaço para suas próximas produções. A cantora se mantém no pop alternativo e inova ao trazer um conceito inspirado no cinema teen dos anos 2000, abrindo caminho para seu segundo álbum, Queen of Hearts.

Mesmo após 5 anos, Evil Angel permanece atual e marca o início da ascensão de Zolita no mundo musical. É também uma demonstração favorável das produções independentes, já que uma das marcas registradas da cantora é sua visão criativa e autoral, exposta em seus projetos. Isso raramente é visto na indústria atual e revela uma vocalista complexa, que usa sua liberdade de expressão em vários formatos. Ao dar voz às narrativas femininas, a artista reafirma seu compromisso com a autenticidade e a valorização das vivências sáficas como força legítima e diversa na música pop.

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