À Paisana, você pode encontrar o sentido da vida

Cena do filme À Paisana. Na imagem, há dois homens brancos se encarando através do espelho de um banheiro. O rapaz da esquerda possui cabelos castanhos escuros e utiliza um boné e moletom azuis, enquanto o homem da direita usa uma blusa vermelha com um casaco azul por cima, além de ter cabelos grisalhos, utilizar óculos e ter um bigode.
A tensão sexual entre Tom Blyth e Russell Tovey nos minutos iniciais da obra traz um misto de sensações, que serão abordadas ao longo da narrativa (Foto: Magnolia Pictures)

Guilherme Machado Leal 

A sensação de descobrir que é alguém no mundo é uma em um milhão. Antes de tudo acontecer, o indivíduo não entende muito bem qual é o seu lugar e objetivo de vida. É como se precisasse de um ponto de partida para dizer firmemente que é um ser humano. Esse momento acontece com Lucas (Tom Blyth) no dia em que conhece, no banheiro de um shopping de Nova York, o homem que o mudará. Centralizado na década de 1990, À Paisana acompanha uma tarefa policial em prol do combate ao cruising, prática também conhecida como ‘banheirão’ dependendo do local onde ocorre e que é realizada por homens queers em lugares públicos. 

Por meio de um esquema da polícia nova-iorquina, os profissionais se disfarçam àqueles que se identificam enquanto LGBTQIAPN+ com a missão de prendê-los pelo ato sexual nos sanitários. Entre eles, está o protagonista, a isca perfeita para levar os rapazes à cabine. Quando as vítimas correspondem aos olhares, elas se tornam criminosas. No entanto, a dinâmica altera o plano a partir da chegada de Andrew (Russell Tovey). Nesses espaços, nada é dito; pelo contrário, a concentração é no rosto: expressões que dão a entender algo, códigos, apertos, tudo isso somado ao desejo reprimido ou apenas à diversão, que levam ao êxtase provocado pelo contato entre seres.

O filme, presente na seção Competição Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, discorre sobre o entendimento da sexualidade a partir da visão, seja aquela que uma pessoa em construção tem de si mesma ou pelo olhar condenatório recebido. Se você é visto, você é lembrado. Por esse lado, a percepção gera uma sensação de reconhecimento; aqui, o personagem principal se sente compreendido por alguém que, à sua própria maneira, passa pelo mesmo: a vida dupla. Através das lentes estreantes de Carmen Emmi, o desespero em ser colocado como um homem gay para a sociedade do final do século XX documenta uma era tenebrosa àqueles que saem do espectro heterossexual.

Texto alternativo: Cena do filme À Paisana. Na imagem, há dois homens brancos deitados no chão e olhando para o céu. O rapaz da esquerda possui cabelos castanhos escuros, enquanto o da direita apresenta um cabelo grisalho e bigode.
Quando não estão juntos, Lucas e Andrew representam outras coerções sociais (Foto: Magnolia Pictures)

A polissemia que envolve a homossexualidade dos anos 1990 é, no mínimo, curiosa, mas não datada – ao passo que a polícia analisa o cruising como uma perversão, os lugares públicos servem aos homens um lugar de extravasamento, que reúne casados, assumidos e discretos. A vontade de mandá-los para a prisão é equivalente ao ímpeto de se encarar, ir até a cabine e abrir o zíper. É como se fosse um jogo, porém com um time claramente levando vantagem. “Só porque algo parece feio não significa que é moralmente errado”, o discurso de Lady Bird em 2017, sintetiza a humanidade em retratar o tema trazido pelo próprio cineasta, que também assina o roteiro de Plainclothes (título original).

A faísca que envolve Lucas e Andrew, no entanto, atravessa os metros quadrados dos toaletes. Se para o policial os primeiros momentos são importantes para  guardar na memória, o adepto à prática sexual lê a relação como algo puramente casual. O primeiro amor, na produção, é associado ao medo de estar fora dos eixos, algo que, de fato, acontece. O sentimento provoca uma alteração química que pode levar à ruína ou ao pertencimento. Como superar aquilo que te deu vitalidade? Ou melhor: como seguir a vida depois da primeira vez em que você finalmente se sentiu no próprio corpo? 

Pela perspectiva do diretor, apaixonar-se por um homem, sendo um, é realmente frenético. De fato, pode tirar o sono e causar obsessão. Apesar disso, também traz sentido e faz muita coisa valer a pena, ainda mais se é algo raramente experimentado pelas gerações queers. O despertar amoroso é 8 ou 80, e, para o personagem vivido por Blyth, o gay awakening, é conscientemente uma barreira e um acesso ao que ele pode ser: a versão desprovida de amarras sociais. Após desistir do trabalho – mais parecido com um método de tortura aos homens LGBT+ – o rapaz não se contenta com uma terça-feira sigilosa. Longe disso, ele precisa da semana inteira, meses ou anos.

Texto alternativo: Cena do filme À Paisana. Na imagem, há um homem branco de cabelos grisalhos, que usa uma jaqueta bege e um homem branco de cabelos castanhos escuros, que veste um moletom azul. Eles estão se beijando.
Os beijos entre os personagens principais são desconcertantes, frenéticos e cheios de vida (GIF: Magnolia Pictures)

O núcleo familiar de Lucas, que representa a vida antes de se entender gay, carrega simbolismos que acompanham a trajetória do protagonista durante os 97 minutos de Plainclothes. Para o ex-policial, a descoberta de sua sexualidade não seria vista com bons olhos pela sua mãe, Marie, vivida por Maria Dizzia. Quando conheceu Andrew, ele utilizou o apelido Gus, de seu pai morto, para não revelar o próprio nome. Entretanto, ao longo da narrativa, o amontoado de mentiras dessa relação se alastra e impacta indiretamente a vida da matriarca. Por meio da relação entre a mulher e o rapaz, há a representação do que é viver em dois mundos: aquele construído pelos entes e o que verdadeiramente gostaríamos de viver. 

Diferente de All of Us Strangers (2023), aqui a dinâmica entre pais heterossexuais e filhos queers acrescenta algo à história que Carmen conta ao espectador. Nas cenas de tensão, por exemplo, o personagem está atento minuciosamente à maneira como se expressa com os parentes. Através da direção e da montagem de Erik Vogt-Nilsen, percebemos a vida inteira do jovem homossexual em uma piscada de olhos, pois é assim que ele se enxerga: uma colcha de retalhos caracterizada por pequenos momentos que, juntos, dão forma a quem ele de fato é.

Semelhante ao que acontece com o rapaz, o amor por um homem nunca morre. Ele pode adquirir novas facetas, ser ressignificado de alguma maneira. Em À Paisana – e, de certo modo, na realidade – o sentimento se renova, ganha características diferentes, porém nunca desaparece. A repressão só faz voltar mais forte. E por isso, Emmi surpreende ao concentrar suas lentes na universalização do cotidiano gay experienciado em locais de cruising: muitas vezes moralmente questionável, e insano em certos momentos, porém, de forma alguma, superficial. É, e sempre foi, muito mais do que um banheiro. É o desejo da  casa completa. Pura e simplesmente a sensação de ter.

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