Há 20 anos, Criminal Minds mergulhava no lado mais sombrio da mente humana

Em um escritório, há 5 pessoas. Da esquerda para a direita: um homem alto com cabelo preto, um homem mais baixo com cabelo preto e barba, um homem de cabelos brancos com roupas sociais, uma mulher loira com blusa azul e uma mulher de cabelo preto e franja. A mulher loira olha para um tablet que está em sua mão. O primeiro homem também segura um tablet, mas olha para a mulher de franja, que segura um celular. Todos estão com expressões sérias. No fundo da sala há dois painéis com fotos dos crimes. Na mesa, há arquivos dos casos, fotos e tablets.
A série acumula estatuetas em premiações como People’s Choice Award, BMI TV Music Award e NAACP Image Awards, além de indicações ao Emmy (Foto: Paramount Global)

Vitória Mendes

O maior problema enfrentado pelas séries produzidas em larga escala e mantidas por décadas a fio é inovar sem perder a originalidade e a essência que as definem.  Muitas acabam com furos no roteiro, previsibilidade e narrativas inconsistentes como em Grey’s Anatomy (2005) e The Walking Dead (2010). Felizmente, Criminal Minds supera as estatísticas. Lançada em 22 de setembro de 2005, a criação de Jeff Davis, também conhecido por Teen Wolf (2011), se insere em um nicho de investigação criminal já consolidado. Ainda assim, conquista seu próprio espaço ao trazer uma nova perspectiva: a análise de perfilamento. Afinal, para capturar um criminoso, é preciso pensar como um.

A obra acompanha os agentes especiais Aaron Hotchner (Thomas Gibson), Jason Gideon (Mandy Patinkin), Derek Morgan (Shemar Moore), Spencer Reid (Matthew Gray Gubler) e Elle Greenaway (Lola Glaudini), além da coordenadora de comunicação Jennifer Jareau (A. J. Cook) e da analista técnica Penelope Garcia (Kirsten Vangsness). Eles formam uma equipe de elite da Unidade de Análise Comportamental (UAC), uma subdivisão do FBI especializada em crimes em série. Eles se apoiam na criação de perfis psicológicos que buscam entender as motivações e evitar novos ataques. A cada episódio, a equipe enfrenta o pior da natureza humana, enquanto lida com seus próprios conflitos e dilemas internos.

A abordagem de temas sombrios e a atmosfera tensa colocam o espectador em um jogo de perseguição e interpretação. O objetivo não é apenas prender o culpado, mas antecipar seus passos por meio do estudo de padrões de conduta. Apesar de seguirem uma fórmula pré-determinada, cada capitulo tem sua particularidade e reviravoltas impactantes. Além disso, a estética visual, estabelecida pelo diretor de fotografia Gregory St. Johns, intensifica a experiência e eleva a carga emocional.

Cena mostra os personagens Emily Prentiss e Spencer Reid em um ambiente claro no interior de uma casa. Emily, à esquerda, veste uma camisa azul clara e tem expressão preocupada enquanto fala com Spencer. Ele, à direita, veste um suéter verde escuro com gravata, e está com os braços cruzados e a expressão séria. Ambos estão em pé e cercados por outras pessoas sentadas.
Perda mínima, episódio 3 da temporada 4, é um dos mais angustiantes do seriado (Foto: Paramount Global)

Enquanto muitas séries policiais seguem o formato de um único herói para salvar o dia, como em CSI: Investigação Criminal (2000) e Bones (2005), também populares nos anos 2000, Criminal Minds aposta no trabalho coletivo. A trama evidencia as relações interpessoais, tanto familiares e platônicas quanto profissionais. Além disso, os antagonistas também se destacam por suas motivações que revelam os lados mais sombrios da mente humana. Muitos têm histórias complexas que geram desconforto e empatia simultaneamente como Megan Kane (Brianna Brown) e Sarah Jean (Jeannetta Arnette). Essa profundidade cria um equilíbrio no enredo e resulta em episódios memoráveis.

O elenco reúne nomes de peso e participações especiais marcantes como Bellamy Young, Evan Peters, Aubrey Plaza, Elle Fanning e Jane Lynch. A atuação é um dos fatores que torna o drama tão amado pelo público. A conexão dos atores no set reflete nos personagens e potencializa as emoções que transpassam a tela e assombram a narrativa.

Por outro lado, os escândalos nos bastidores deixaram marcas, principalmente a demissão de Cook e Brewster, que foram substituídas e deixaram os fãs frustrados com a saída. Ambas foram recontratadas e hoje protagonizam o revival. Além disso, há as lacunas deixadas pela demissão polêmica de Gibson, cujo personagem Aaron Hotchner não teve um final adequado, e pela saída e posterior contradição de Patinkin.

A cena mostra o personagem Dr. Spencer Reid com uma expressão séria e preocupada. Ele está com o rosto virado suavemente para a câmera com um olhar distante. Usa uma camisa azul clara abotoada e o cabelo ondulado está bagunçado. Atrás dele, outros dois homens aparecem desfocados e contribuem para o clima tenso da imagem. Uma luz amarelada entra pela janela lateral e retrata um ambiente isolado. O foco da foto está em Spencer e não é possível identificar os outros dois homens.
Entre perfis e perseguições, até os gênios encontram ruas sem saída (Foto: Paramount Global)

Com seus altos e baixos, o seriado construiu um legado duradouro e único no gênero policial. Para expandir o universo, foram criados os spin-offs Criminal Minds: Suspect Behavior (2011), Criminal Minds: Beyond Borders (2016), cancelados por baixa audiência. Após ser encerrada na temporada 15 com um desfecho satisfatório, a série retornou com Criminal Minds: Evolution (2022). O revival continua a trama original e acompanha a equipe enfrentando uma rede de serial killers criada durante a pandemia de covid-19. As alterações nos formatos dos episódios ainda dividem opiniões entre o público, que apesar disso, aguarda ansiosamente a produção da 19ª temporada. 

A ficção trata de temas como extrema violência, traumas psicológicos, transtornos mentais, terrorismo, fanatismo religioso e crimes de ódio de diversos tipos, alguns dos quais foram baseados em crimes reais. A produção mergulha fundo nessas questões com respeito e sensibilidade, além de explorar as nuances do comportamento humano. Ao entrar na mente de vítimas e criminosos, traz à tona discussões importantes sobre segurança, relações familiares, saúde mental e desenvolvimento psicológico.

É indispensável mencionar a evolução técnica nesses 20 anos. A cada temporada é visível o maior cuidado com as relações interpessoais, a carga emocional e os efeitos visuais, cuja maior parte foi dirigida pelo supervisor de efeitos visuais Steven Meyer. Mais do que isso, a dramaturgia se destaca ao incorporar temas contemporâneos e sociais com realismo e representatividade, sem abrir mão de sua identidade. Com encerramentos emocionantes que simbolizam a aceitação e o peso da jornada de cada personagem, a trama vai além do entretenimento. Criminal Minds deixa sua marca nas provocações e questionamentos. Afinal, compreender a mente humana é uma missão intensa e quase impossível.

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