As interações entre Lorenz Hart e Elizabeth Weiland representam boa parte da comédia do filme (Foto: Sony Classics)
Guilherme Machado Leal
Como é ver o seu parceiro de longa data se saindo melhor sem você? Em Blue Moon, filme que acompanha a decaída de Lorenz Hart (Ethan Hawke), o público conhece a história de um dos letristas norte-americanos mais importantes do século XX. Ambientado em um bar na noite de 31 de março de 1943, a perspectiva de um artista derrotado pelo sucesso de seu colega, Richard Rodgers (Andrew Scott), expõe uma mágoa para além das diferenças criativas da ex-dupla.
A escolha de Richard Linklater de filmar em um cenário é o que torna a produção curiosa de experienciar: por se tratar de uma figura estadunidense, é compreensível que o espectador tenha falta de afinidade com o tema retratado. Entretanto, o cineasta, alinhado ao roteiro de Robert Kaplow, obtém êxito ao focalizar a câmera em um poeta que vê a vida passar diante de seus olhos. Pela vista do outro, o tempo dele já foi; mas o seu cérebro ainda permanece como uma maneira de catapultar o sucesso alheio. Após anos de parceria, o protagonista divide as feridas com o bartender, vivido por Bobby Cannavale, e outros funcionários do local.
Na noite de estreia de Oklahoma!, peça lançada durante a Segunda Guerra Mundial, sentimentos conflitantes surgem à cabeça do fio condutor do longa-metragem. Se por um lado ele reconhece o talento de sua alma gêmea, há também o rancor devido ao afastamento que os levaram a caminhos diferentes – tanto pessoal quanto criativamente. Em certo momento de um dos seus monólogos, o escritor propõe um debate sobre o papel da Arte: ela precisa necessariamente ser inofensiva ou pode adotar um tom provocativo?

O amor que Hart nutre por Rodgers vai muito além da relação amigável. Na verdade, a aptidão que ambos tinham com as produções musicais são daquelas sintonias vistas apenas uma vez na vida. Ao mesmo tempo que não dar o braço a torcer é uma das características que afastam aqueles ao redor de Lorenz, sua personalidade irreverente é o motivo pelo qual há o interesse de entender a cabeça de um poeta torturado pela derrocada da própria carreira. Por conta da interpretação cômica por Ethan Hawke, ter o desejo de saber mais a respeito da trajetória do letrista se torna algo natural, sem precisar de contextos externos ao filme.
Viciado no próprio sentimentalismo exacerbado – à la geração byroniana do Romantismo –, a encantadora Elizabeth Weiland (Margaret Qualley) é como uma inspiração para as palavras proferidas pelo homem, que a idolatra e a enxerga mais gentilmente do que a moça realmente é. Na casa dos 20 e poucos, os momentos ao lado do quarentão são um aprendizado, ou melhor, um retrato pintado à mão. Embora tenha um amor platônico pela jovem, é a distância de Rodgers que o deixa obcecado. Esses pensamentos são marcados por conversas sobre a relevância social e política de uma produção artística.
Oklahoma!, primeira parceria entre Richard e Oscar Hammerstein II (interpretado por Simon Delaney), possui uma conotação negativa ao protagonista: para além das críticas ao conteúdo que o poeta tem em relação ao trabalho do amigo, o sucesso da peça o afeta em níveis criativos: a audácia que caracterizava a dupla com o amado agora cede lugar à uma história mais abrangente e, pela visão do personagem, chapa branca e omissa, levando em consideração o cotidiano vivido pelos estadunidenses na década de 1940.

Um dos motivos do afastamento entre os ex-amigos é a vida pessoal do compositor de Blue Moon: viciado em álcool, a inconstância na rotina do letrista gerou o sentimento de decepção, ao passo que, profissionalmente, ele fosse inspiração para uma gama de artistas posteriores aos seus anos de ouro, que contém produções prestigiadas como Manhattan e The Lady Is a Tramp. Após a metade do longa, os dois se reencontram no bar e os fatores do fim da amizade se tornam ainda mais aparentes.
Ainda assim, o reconhecimento do papel que um teve na vida do outro continua presente no pensamento de Hart e Rodgers. Inclusive, entre conversas rápidas, a dupla combina de retomar a parceria com projetos futuros. Todavia, assim como na realidade, a sorte não acenou para Lorenz e a volta da sua relação com o ente querido nunca se consagrou: em novembro do mesmo ano, o astro morreu em decorrência de uma pneumonia.
Depois do encerramento da história, frases que resumem a trajetória dos personagens abordados contam o futuro de Richard e Oscar Hammerstein II. Os dois tiveram outros sucessos, a exemplo das composições em A Noviça Rebelde, uma das narrativas teatrais mais marcantes do século XX quando se pensa no teatro norte-americano. O protagonista pode não ter sido o maior compositor de sua época ou até mesmo ter sido superado por seus contemporâneos, mas ele conquistou algo que sucesso algum compra: o impacto cultural que atravessa gerações.
