
Babystar é um filme alemão independente, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2025. No Brasil, ele foi exibido, pela primeira vez, na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como integrante competitiva na categoria Novos Diretores. O longa de Joscha Bongard mergulha no universo das redes sociais e dos influencers para construir a narrativa sobre uma família cuja vida íntima é completamente exposta, sem qualquer indício de privacidade. Com um orçamento extremamente limitado, Bongard mantém a câmera centralizada na casa desse núcleo familiar, que parece mais um estúdio do que um lar. Nela, os laços genuínos estão em guerra constante com o desejo e a necessidade de performar.
Todo o enredo que constrói essa relação da família e simultaneamente a sua relação com seus seguidores, parece absurdo. No entanto, ele escancara bastidores dos conteúdos que os usuários consomem todos os dias. Há também uma combinação precisa entre roteiro (Joscha Bongard e Nicole Rüthers) e edição (Emma Holzapfel e Wolfgang Purkhauser), que satirizam a rotina exposta nas redes sociais. Nelas, vemos vídeos curtos, dinâmicos e perfeitamente editados que transformam atos corriqueiros, como uma simples troca de roupa em uma coreografia. No filme, o público tem contato com o momento em que câmera é posicionada no ambiente e fica perceptível que ela se comporta como uma intrusa, que ganhou espaço demais e que interrompe atividades cotidianas e o que poderiam ser momentos genuínos de conexão entre familiares.
A relação entre os pais e a adolescente se confunde com a de dois chefes e com uma funcionária, uma vez que a menina já nasceu nessa condição de influenciadora. Nesse sentido, a parceria de roteiro entre o diretor e Nicole Rüthers explora muito bem a noção financeira por trás dessa dinâmica. Enquanto seus pais viveram a realidade sem privilégios de patrocínios e de publicidade, Luca nasceu em uma realidade materialista, repleta de mordomias, contudo, que tem um custo. Ainda sobre a co-autoria, Bongard comentou, em entrevista ao Persona, que era essencial que Luca fosse uma mulher criada também por uma mulher, para que o longa pudesse mergulhar com segurança em temas como padrões de beleza e os atravessamentos de gênero na era digital.

Pela perspectiva do roteiro e direção, o curso dessa história é naturalmente conturbado. No entanto, a desarmonia só é identificada na família quando os pais de Luca decidem ter outro filho e a menina se sente preterida, tanto pelo futuro irmão quanto pelo engajamento que ele vai gerar. A partir disso, a adolescente se revolta e a trilha sonora (Jonas Vogler) contribui para transmitir a carga sombria desse ambiente, por vezes com um efeito grave, que surge diversas vezes quando a câmera mostra a entrada da casa, e outras com os sons das relações sexuais dos pais que ecoam pela casa, personificando uma declaração de guerra à adolescente. Esse e outros aspectos constroem o início da indignação e revolta da jovem, o que se tornam nítidas por meio do olhar expressivo e da performance extremamente sensível de Maja, que interpreta a jovem Luca.
Quando a jovem recebe a notícia de que é uma “ex- filha única” – momento mediado por câmeras – o conflito se escala rapidamente. A reação instantânea da garota rende uma das melhores cenas, com ela se levantando da mesa do restaurante de alta classe, caminhando até o centro do salão e desamarrando seu vestido, se despindo completamente. Diante desse nítido caos psicológico enfrentado pela garota, a solução que o pai encontra é admitir que aquele ato de desespero é, também, uma performance. O homem aplaude o absurdo e apenas quando percebe que estava só em sua neurose, derruba o celular de uma mulher que gravava sua filha. Aqui, a risada é garantida com uma sátira alcançada em seu primor.

A partir desse momento, a garota sai de casa, sem que haja um arco de redenção ou algo nesse sentido. Mesmo que distante, ela continua a viver dos privilégios da vida que seus pais criaram antes mesmo de seu nascimento – um aspecto que eles insistem em reforçar. Além disso, o distanciamento da família permite a ampliação de seus relacionamentos, como com a sua namorada ou com o recepcionista do hotel em que se hospeda, com o qual tenta criar, artificialmente, uma relação sexual e amorosa. Apesar de adquirir mais liberdade, essas conexões não se aprofundam em si, apenas esclarecem a dependência emocional de Luca e o pouco crescimento pessoal que ela teve diante da grande preocupação de seus pais, que eram outros tantos milhões de seguidores.
A fragilidade da protagonista é pontualmente exposta, principalmente, quando o tema ’Inteligência Artificial’ é introduzido no longa. A figura de Luca passa a ser uma assistente virtual criada para ser amiga de seus seguidores. Cada um deles tem uma experiência personalizada, que varia de acordo com as interações com a IA. O ponto chave é que Luca parece ser a pessoa mais necessitada dessa amizade, e passa a se aconselhar consigo mesma através dessa tecnologia. É como se ela mesma fosse um corpo estranho, dissociado.

Em meio a tantos sentimentos perturbadores, Luca volta para casa e a recepção calorosa de seu pai parece ser um dos primeiros momentos felizes do filme a não ser capturado por uma lente armada. A câmera e os filtros desabam por poucos segundos, revelando o amor que vive entre eles. Para o diretor, era importante que a história partisse do núcleo familiar, uma vez que ele costuma ser o pilar das conexões humanas. No entanto, logo tudo volta a ser como antes. O parto do irmão de Luca é transmitido ao vivo, assim como o seu foi, e acontece rodeado de propagandas, um reflexo do mundo do qual sua irmã começava a entender como uma problemática.
Segundo Joscha Bongard, a ideia de Babystar surgiu a partir de sua experiência anterior com o documentário Pornfluencer (2024), no qual acompanhou a vida de um casal de influenciadores. Assim, o que os criadores realizaram não foi puramente sensacionalista, e sim realista, como toda sátira deve ser. Parece absurdo, contudo, é importante que o absurdo também seja dito e escancarado. Babystar não fala apenas sobre uma família em particular, mas sobre uma sociedade inteira. Nesse sentido, quando Luca escapa com seu irmão – mesmo que incerta do futuro –, subentende-se que todos têm uma chance de fazê-lo também.
