
Arthur Caires
Há artistas que fazem do tempo o seu principal material. Amelia Toledo foi uma delas. Em Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer, exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na seção Mostra Brasil, o diretor Hélio Goldsztejn convida o espectador a atravessar o território poroso entre Arte, Ciência e Natureza. O filme não busca apenas narrar uma trajetória, mas compreender o modo como Amelia transformava o mundo em experimento. Sua Arte não se prendia à forma: era fluxo, metamorfose, lembrança e invenção.
Pintora, desenhista, escultora e educadora, Amelia Toledo foi uma das criadoras mais inquietas e inventivas do cenário cultural brasileiro. Do desenho de joias à escultura, das chapas de metal às conchas, do acrílico às pedras, sua obra é uma espécie de inventário sensorial da matéria. Sua carreira foi marcada pela ousadia e pela recusa a fronteiras: nunca pertenceu a um grupo, porém dialogou com muitos – convivendo com nomes como Tomie Ohtake, Lygia Pape e Paulo Mendes da Rocha.
Como professora, deixou marcas em instituições como o Mackenzie e a FAAP, além de integrar a equipe fundadora da Universidade de Brasília, sob a reitoria de Darcy Ribeiro. Sua trajetória, contudo, foi interrompida pelo golpe militar de 1964, que desfez o sonho da universidade e levou a artista, por um breve período, ao exílio em Portugal.

O documentário se detém em sua capacidade de aproximar Arte e natureza, revelando uma artista que transformava minerais, pedras e cores em organismos vivos. Obras públicas como Paisagem Subterrânea, na estação Cardeal Arcoverde (Rio de Janeiro), e Caleidoscópio, na estação Brás (São Paulo), evidenciam esse fascínio pelas formas naturais em escala monumental. Sem levantar bandeiras, Amelia antecipou o diálogo entre Arte e ecologia – um gesto que, hoje, ecoa como um pressentimento de sustentabilidade, quando ainda pouco se falava em ambientalismo nas Artes Visuais brasileiras.
Goldsztejn, atento ao detalhe e à intimidade do olhar, volta às origens da artista para revelar o ponto de convergência entre ciência e sensibilidade que marcou sua formação. O pai, médico patologista, observava células ao microscópio; a mãe reproduzia-as em aquarelas, transformando o registro científico em pintura. Dessa fusão nasce a estética de Amelia – o impulso de compreender o mundo pelas formas que o constroem.

Um dos momentos mais potentes do filme surge na lembrança de sua passagem pela recém-criada Universidade de Brasília. O cineasta Jorge Bodanzky recorda o período em que Amelia levava os alunos para o meio do cerrado, uma aula sobre o gesto de observar e se misturar à paisagem. Era a tentativa de ensinar que a Arte não se limita ao ateliê, mas se expande para o ambiente, para o corpo, para o espaço que nos cerca. Porém, a experiência durou pouco: com o golpe de 1964, a UnB foi sufocada pela repressão, e o corpo docente decidiu pela demissão coletiva. Amelia partiu para Portugal, levando consigo a ferida de um país interrompido e a convicção de que a arte poderia, ainda assim, resistir ao esquecimento.
Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer não se rende à biografia pura. Goldsztejn prefere compor um retrato múltiplo, onde cada depoimento – de filhos, amigos, críticos e curadores – acrescenta uma camada de ambiguidade à figura de Amelia. Ao fim dos 82 minutos, o documentário se revela como o próprio reflexo da artista: inquieto, luminoso e resistente ao enquadramento. É uma prova de que lembrar é também uma forma de insistir na permanência, mesmo quando tudo ao redor parece destinado a desaparecer.
