
Gabriel Diaz
Há algo inevitavelmente político em qualquer tentativa de revisitar o passado colonial português – sobretudo quando essa memória é filtrada pelo olhar do envelhecimento, a doença e a solidão. Diretamente da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor António Ferreira apresenta A Memória do Cheiro das Coisas, um filme que mergulha nesse terreno delicado, tentando equilibrar a culpa histórica com o afeto cotidiano, e parte dessa convergência para construir um drama intimista que atravessa corpo e história.
Essa foi a resultante de uma obra honesta, com intenções nobres e uma sensibilidade formal notável. Contudo, ao almejar conciliar um crime inestimável, termina por exibir uma lucidez incompleta sobre o próprio racismo do qual busca criticar. Logo, a ambição de compreender o remorso histórico esbarra no risco de, ao tentar entendê-la, perpetuá-la.
O longa nos leva para um monótono cotidiano do senhor Arménio (José Martins), um ex-combatente dos conflitos portugueses contra Angola, em sua chegada a um lar de idosos. O ambiente, inicialmente duro e silencioso, revela-se um espaço intimista aos olhos exteriores. A partir desse momento, instaura-se o contraste que António Ferreira constrói sua observação sobre o tempo e a memória. A cinematografia é tão quieta que se torna aconchegante, tal como um domingo chuvoso e improdutivo. Entretanto, logo se percebe que essa quietude é apenas teórica, pois a vida de Arménio, que parecia estar no fim, ainda se mantém internamente agitada por lembranças que insistem em não serem enterradas, como se cada recordação fosse um retorno à guerra.

A chegada de Hermínia (Mina Andala), sua cuidadora negra, funciona como um catalisador, reacendendo traumas, preconceitos e fantasmas com a intensidade de uma herança passada, assim como sugere o filme ao afirmar que “as cabeças só se calam quando são espetadas por uma estaca”. Sua interpretação constrói uma personagem que escapa deliberadamente do estereótipo hollywoodiano da ‘figura redentora’ do homem branco, evidenciando que a tensão entre os dois é o motor central da narrativa. A partir disso, encontra-se nas pausas e nos silêncios uma força serena que desarma o espectador, lembrando-nos que o afeto e a dignidade profissional também podem ser formas de resistência silenciosa.
A filmografia de Ferreira permanece quase documental e tem se mostrado crescentemente interessada na tensão entre memória e esquecimento, realidade e mito. A produção audiovisual radicaliza esse gesto ao usar a decadência física do corpo como uma metáfora potente para o corpo social pós-colonial. A direção aposta numa estética contida, próxima do documentário, um recurso que reforça a intenção de homenagear os cuidadores e humanizar o cotidiano do abandono. No entanto, essa aproximação entre ficção e realidade, por vezes, soa mais ilustrativa do que orgânica, e a mise-en-scène – que pretende fundir passado e presente – ocasionalmente se perde em sua própria solenidade. Tecnicamente, o longa é um retrato preciso da fragilidade. A fotografia, com seus tons pálidos e iluminação lateral, cria uma textura quase terrosa que parece emanar dos próprios corpos dos personagens, contribuindo para uma sensação de clausura que ecoa a estrutura narrativa.

António Ferreira constrói uma ’partitura da decadência’ a partir da repetição obsessiva de ruídos cotidianos, sejam eles passos, respirações ou tosses, em que o tempo é medido pela cadência da respiração ofegante de Arménio. No entanto, a trama passa a oferecer uma forma de redenção àquele que, pela lógica da própria história, não a merece e confunde empatia com perdão e humanidade com absolvição. Em sua tentativa de reparar simbolicamente o que a História não perdoa, o longa acaba por reforçar o mesmo racismo estrutural que pretendia desarmar.
No fim, o que resta é a memória. Não a do cheiro das coisas, mas a do cheiro do próprio Cinema e da tentativa falha, porém necessária, de confrontar um passado que se recusa a passar. A produção permanece no papel de expor – com genuíno desconforto e fragilidade – a ferida ainda aberta de um país que, personificado por Arménio, ainda teme encarar a própria consciência. Poderia ser um grande filme sobre o envelhecer ou sobre os traumas íntimos da guerra. Todavia, ao tentar ser também um manifesto sobre racismo e reconciliação, termina por revelar que a verdadeira ferida é o medo da lembrança, daquilo que, mesmo esquecido, ainda exala e assombra o presente.
