
Ludmila Henrique
Adaptando o livro homônimo de Nick Hornby, a série acompanha a vida amorosa de Robyn Brooks (Zoë Kravitz), dona de uma pequena loja de discos de vinil no Brooklyn, Nova York. Um ano após o fim de seu último relacionamento, Rob não consegue seguir em frente com os seus sentimentos e se encontra no caos pós-término, contando apenas com a companhia de seus bons e velhos amigos, Simon (David H. Holmes) e Cherise (Da’Vine Joy Randolph), além de, obviamente, a música.
A trama começa pelo o seu encerramento. O último suspiro do laço afetivo entre Rob e Mac McCormack (Kingsley Ben-Adir), antecedendo o ato final de um relacionamento à beira do fim. Saltando um ano após do acontecimento, o seriado instiga o espectador a querer entender o que ocorreu com o casal, que anteriormente estavam noivos, para que chegassem àquele ponto de desentendimento. No exato dia em que Robyn decreta seguir em frente com a vida, ela esbarra novamente em seu antigo amor, recém-chegado de Londres para o antigo distrito. Ao recordar sentimentos passados, a cena do reencontro foi à lá Coração Valente (1995), com as entranhas sendo expostas no final, mas sem a sensação de liberdade do protagonista.

High Fidelity (no original) também conquistou uma adaptação nas telas do cinema nos anos 2000, sendo dirigido por Stephen Frears e protagonizado pelo ator John Cusack. Seguindo a mesma premissa da série, o longa-metragem mostra Rob Gordon sofrendo igualmente com a solidão deixada por seus antigos relacionamentos. No entanto, existem doses de interpretação de uma obra para a outra. O seriado adaptado pela Hulu mudou pontos importantes do filme, começando pelo próprio protagonista.
Embora ambos sejam super criteriosos e melodramáticos em relação aos seus gostos e sentimentos, a versão de Cusack configura uma característica mais cética e egoísta – por vezes machista – de suas conexões, carregando um certo desconforto ao assistir. Por outro lado, Kravitz também carrega essa personalidade individualista, colocando o próprio sentimento na frente do afeto de outras pessoas. Apesar disso, diferente do original, você não sente uma aversão completa ao personagem, conseguindo por vezes compreender e até se identificar com algumas escolhas e comportamentos da protagonista.
Obviamente a versão de Cusack foi proposital e um claro lembrete de como não agir dentro de um relacionamento. E é exatamente por isso que a sua atuação representa uma entrega espantosamente deslumbrante do ator, sendo muito enaltecida pela crítica especializada, tornando a produção um grande filme cult que vale a pena ser admirado e questionado ao longo dos anos.

Se antes esses personagens exerciam apenas o papel de suporte na história de Rob, agora eles possuem camadas e suas devidas narrativas na série. Simon, ex-parceiro de Robyn e agora seu melhor amigo, uma pessoa muito acolhedora e tranquila, vira protagonista no episódio Ballad of the Lonesome Loser (8×1), onde narra suas próprias mágoas através das melodias. Cherise, por outro lado, acompanha a mesma personalidade enérgica e carismática herdada da interpretação de Jack Black no longa, funcionando em contraste ao mau humor de Robyn, embora conquiste um lado mais sentimental ao final da temporada.
O filme de Alta Fidelidade igualmente possui diversas cenas que foram gravadas e que não chegaram a ser incluídas no produto final, porém foram adaptadas para o seriado. Uma delas é o episódio Uptown (5×1), onde acompanhamos uma mulher recém divorciada chamada Noreen Parker (Parker Posey), que planeja vender toda a coleção de discos de vinil de seu ex-marido por um preço bem baixo para Rob, como um sinal de vingança pelo fim do casamento. Na obra original, essa personagem foi interpretada pela atriz Beverly D’Angelo.

A minissérie também é ambientada em um local diferente da produção dos anos 2000, anteriormente filmada em Chicago. Embora aconteça essa mudança de cidades, a proposta da narrativa não é exatamente falar sobre o Brooklyn e a sua relevância, mas retratar sobre a vida das pessoas que habitam aquele espaço, o que gostam de ouvir e o cenário musical na qual estão inseridas. Justamente por isso a trilha sonora de Alta Fidelidade é tão diversificada, combinando faixas menos conhecidas de grandes intérpretes, como “Prototype” do Outkast e “So Blue” do Prince, além de apresentar ao público artistas independentes que ganham um espaço único ao longo do seriado e canções inéditas, que seguem o mesmo nível de refinamento. O resultado é uma playlist para todos os gostos, misturando soul music, rock, pop, mpb, indie e punk.
É muito interessante a maneira que os sentimentos da personagem são revelados por meio das músicas. Cada canção é inserida com um propósito, e parte da narrativa é contada através delas, mostrando a qualidade do trabalho dos supervisores musicais e dos produtores executivos, que conseguiram unir perfeitamente um elemento ao outro. Não apenas no campo musical, a série também faz grandes referências ao universo pop, como Cinema, tv shows e moda. Rob e sua gangue são ponderados em relação aos seus gostos e os episódios são repletos de ‘Tops 5’: cinco melhores trilhas sonoras de filmes, cinco melhores álbuns, cinco melhores vilões de todos os tempos e por aí vai. A série é, nada mais nada menos, do que uma grande salada cultural.

Ao esbarrar novamente com McCormack e antigos sentimentos virem à tona, Rob entra em uma jornada pessoal para compreender o verdadeiro motivo de ficar estagnada após o fim de todos os seus relacionamentos. Com isso, ela lista os “Top 5 piores términos de todos os tempos” e entra em contato com todos os seus ex-namorados para entender se o problema era, de fato, com ela ou outras circunstâncias. O plano estava indo muito bem até o momento do diálogo com Mac McCormack, quando ela percebe que o tempo passou de forma muito mais rápida na vida dele e acaba tendo uma nova recaída.
Se aproximando de seu desfecho, quando descobrimos o verdadeiro motivo do término do noivado entre Rob e Mac, a série mergulha no processo de recuperação da protagonista, dialogando com letras de músicas e novos relacionamentos. E nesse contexto acontece a conexão entre a personagem e Clyde (Jake Lacy), figura que aparece em momentos pontuais da narrativa e que apresenta uma química incrível com Robyn, nos fazendo querer assistir, cada vez mais, cenas dos dois juntos.

Alta Fidelidade mostra como o amor e a música andam lado a lado. Da mesma maneira que uma canção começa, alcança o seu ápice e chega ao fim, abrindo espaço para novas melodias, as relações afetivas caminham quase pelo mesmo sentido. Embora a série tenha sido cancelada logo após o lançamento da primeira temporada, há 5 anos ela segue conquistando novos públicos através de sua originalidade, narrativas reais sobre solidão e amor genuíno pela música.
