Há 5 anos, Alta Fidelidade fala sobre amor em alto e bom som

A atriz Zoë Kravitz é produtora executiva da série ao lado das roteiristas Veronica West e Sarah Kucserka (Foto: Hulu/Disney+)

Ludmila Henrique 

Adaptando o livro homônimo de Nick Hornby, a série acompanha a vida amorosa de Robyn Brooks (Zoë Kravitz), dona de uma pequena loja de discos de vinil no Brooklyn, Nova York. Um ano após o fim de seu último relacionamento, Rob não consegue seguir em frente com os seus sentimentos e se encontra no caos pós-término, contando apenas com a companhia de seus bons e velhos amigos, Simon (David H. Holmes) e Cherise (Da’Vine Joy Randolph), além de, obviamente, a música. 

A trama começa pelo o seu encerramento. O último suspiro do laço afetivo entre Rob e Mac McCormack (Kingsley Ben-Adir), antecedendo o ato final de um relacionamento à beira do fim. Saltando um ano após do acontecimento, o seriado instiga o espectador a querer entender o que ocorreu com o casal, que anteriormente estavam noivos, para que chegassem àquele ponto de desentendimento. No exato dia em que Robyn decreta seguir em frente com a vida, ela esbarra novamente em seu antigo amor, recém-chegado de Londres para o antigo distrito. Ao recordar sentimentos passados, a cena do reencontro foi à lá Coração Valente (1995), com as entranhas sendo expostas no final, mas sem a sensação de liberdade do protagonista. 

Os roteiristas do filme ouviram aproximadamente 2000 músicas para serem incluídas na trilha sonora (Foto: Buena Vista Pictures)

High Fidelity (no original) também conquistou uma adaptação nas telas do cinema nos anos 2000, sendo dirigido por Stephen Frears e protagonizado pelo ator John Cusack. Seguindo a mesma premissa da série, o longa-metragem mostra Rob Gordon sofrendo igualmente com a solidão deixada por seus antigos relacionamentos. No entanto, existem doses de interpretação de uma obra para a outra. O seriado adaptado pela Hulu mudou pontos importantes do filme, começando pelo próprio protagonista. 

Embora ambos sejam super criteriosos e melodramáticos em relação aos seus gostos e sentimentos, a versão de Cusack configura uma característica mais cética e egoísta – por vezes machista – de suas conexões, carregando um certo desconforto ao assistir. Por outro lado, Kravitz também carrega essa personalidade individualista, colocando o próprio sentimento na frente do afeto de outras pessoas. Apesar disso, diferente do original, você não sente uma aversão completa ao personagem, conseguindo por vezes compreender e até se identificar com algumas escolhas e comportamentos da protagonista.

Obviamente a versão de Cusack foi proposital e um claro lembrete de como não agir dentro de um relacionamento. E é exatamente por isso que a sua atuação representa uma entrega espantosamente deslumbrante do ator, sendo muito enaltecida pela crítica especializada, tornando a produção um grande filme cult que vale a pena ser admirado e questionado ao longo dos anos. 

Da’Vine Joy Randolph, atriz que interpreta Cherise, ganhou destaque após conquistar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu papel em Os Rejeitados (2023) [Foto: Hulu/Disney+]
A série introduz referências e homenagens claras ao filme em sua composição. A mais notável entre elas é a escolha de Zoë Kravitz como a nova protagonista, sendo que sua mãe, Lisa Bonet, participou do longa-metragem atuando como Marie De Salle, uma cantora independente que recebeu uma reinterpretação no seriado através de Liam, personagem de Thomas Doherty. Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black) tornam-se, respectivamente, Simon e Cherise, que adquiriram uma nova roupagem e profundidade na própria trama.

Se antes esses personagens exerciam apenas o papel de suporte na história de Rob, agora eles possuem camadas e suas devidas narrativas na série. Simon, ex-parceiro de Robyn e agora seu melhor amigo, uma pessoa muito acolhedora e tranquila, vira protagonista no episódio Ballad of the Lonesome Loser (8×1), onde narra suas próprias mágoas através das melodias. Cherise, por outro lado, acompanha a mesma personalidade enérgica e carismática herdada da interpretação de Jack Black no longa, funcionando em contraste ao mau humor de Robyn, embora conquiste um lado mais sentimental ao final da temporada. 

O filme de Alta Fidelidade igualmente possui diversas cenas que foram gravadas e que não chegaram a ser incluídas no produto final, porém foram adaptadas para o seriado. Uma delas é o episódio Uptown (5×1), onde acompanhamos uma mulher recém divorciada chamada Noreen Parker (Parker Posey), que planeja vender toda a coleção de discos de vinil de seu ex-marido por um preço bem baixo para Rob, como um sinal de vingança pelo fim do casamento. Na obra original, essa personagem foi interpretada pela atriz Beverly D’Angelo

Artistas nacionais como Serguei e a antiga banda de Rita Lee, Os Mutantes, aparecem na trilha sonora da série (Foto: Hulu/Disney+)

A minissérie também é ambientada em um local diferente da produção dos anos 2000, anteriormente filmada em Chicago. Embora aconteça essa mudança de cidades, a proposta da narrativa não é exatamente falar sobre o Brooklyn e a sua relevância, mas retratar sobre a vida das pessoas que habitam aquele espaço, o que gostam de ouvir e o cenário musical na qual estão inseridas. Justamente por isso a trilha sonora de Alta Fidelidade é tão diversificada, combinando faixas menos conhecidas de grandes intérpretes, como “Prototype” do Outkast e “So Blue” do Prince, além de apresentar ao público artistas independentes que ganham um espaço único ao longo do seriado e canções inéditas,  que seguem o mesmo nível de refinamento. O resultado é uma playlist para todos os gostos, misturando soul music, rock, pop, mpb, indie e punk

É muito interessante a maneira que os sentimentos da personagem são revelados por meio das músicas. Cada canção é inserida com um propósito, e parte da narrativa é contada através delas, mostrando a qualidade do trabalho dos supervisores musicais e dos produtores executivos, que conseguiram unir perfeitamente um elemento ao outro. Não apenas no campo musical, a série também faz grandes referências ao universo pop, como Cinema, tv shows e moda. Rob e sua gangue são ponderados em relação aos seus gostos e os episódios são repletos de ‘Tops 5’: cinco melhores trilhas sonoras de filmes, cinco melhores álbuns, cinco melhores vilões de todos os tempos e por aí vai. A série é, nada mais nada menos, do que uma grande salada cultural.

Debbie Harry, vocalista da banda Blondie, faz uma pequena aparição no seriado (Foto: Hulu/Disney+)

Ao esbarrar novamente com McCormack e antigos sentimentos virem à tona, Rob entra em uma jornada pessoal para compreender o verdadeiro motivo de ficar estagnada após o fim de todos os seus relacionamentos. Com isso, ela lista os “Top 5 piores términos de todos os tempos” e entra em contato com todos os seus ex-namorados para entender se o problema era, de fato, com ela ou outras circunstâncias. O plano estava indo muito bem até o momento do diálogo com Mac McCormack, quando ela percebe que o tempo passou de forma muito mais rápida na vida dele e acaba tendo uma nova recaída.

Se aproximando de seu desfecho, quando descobrimos o verdadeiro motivo do término do noivado entre Rob e Mac, a série mergulha no processo de recuperação da protagonista, dialogando com letras de músicas e novos relacionamentos. E nesse contexto acontece a conexão entre a personagem e Clyde (Jake Lacy), figura que aparece em momentos pontuais da narrativa e que apresenta uma química incrível com Robyn, nos fazendo querer assistir, cada vez mais, cenas dos dois juntos. 

Assim como na obra original, a série utiliza da quebra da quarta parede para conversar diretamente com o público (Foto: Hulu/Disney+)

Alta Fidelidade mostra como o amor e a música andam lado a lado. Da mesma maneira que uma canção começa, alcança o seu ápice e chega ao fim, abrindo espaço para novas melodias, as relações afetivas caminham quase pelo mesmo sentido. Embora a série tenha sido cancelada logo após o lançamento da primeira temporada, há 5 anos ela segue conquistando novos públicos através de sua originalidade, narrativas reais sobre solidão e amor genuíno pela música.

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