
Ana Beatriz Zamai
Em 1998, Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) apresentou aos telespectadores tudo sobre a vida sexual – dela e dos outros, em Nova Iorque. Sex and the City, a série, foi um sucesso que durou seis temporadas, vencendo oito Globos de Ouro e seis Emmys. Quatro anos após a finalização da produção original, a protagonista e suas três amigas retornam para um longa, Sex and the City – O Filme (2008), que se entende bem como um episódio extenso e de qualidade questionável do seriado. As personagens lidam com praticamente os mesmos problemas que enfrentaram ao longo dos seis anos, e isso inclui a relação conturbada entre a loira e Mr. Big (Chris Nott), que, enfim, se casam, mesmo depois de algumas ‘complicações’ do dia especial. E é a partir daí que Sex and the City 2 segue.
Apenas dois anos vivendo a vida de casada foi o suficiente para Bradshaw sentir o desgaste do convívio diário. Enquanto Big entende que o matrimônio é um ponto final na vida de solteiro que tinha – com festas, encontros, jantares fora, bebidas, e se torna um homem que gosta de ficar em casa assistindo televisão e pedindo delivery, Carrie, apesar de amá-lo, sente falta da agitação de ser solteira, quando encontrava seu grupo em um brunch ou drinks no meio de semana.

Possivelmente, esse comportamento já era algo esperado pelo telespectador, que acompanhou durante as seis temporadas as atitudes confusas e questionáveis da colunista. A decepção, porém, vem da percepção de que a personagem não evoluiu, muito menos aprendeu com seus erros. O esposo, por exemplo, demonstra mais maturidade, no sentido de perceber que envelheceram e não tem como a vida continuar igual.
As outras três amigas também lidam com dificuldades em suas jornadas. Entretanto, a sensação que Michael Patrick King, diretor e roteirista do filme, passa, é de que o desenvolvimento pessoal de cada uma foi feito por alguém que conhece apenas o básico da série, como se estivessem seguindo estereótipos, e não por uma pessoa já familiarizada com o universo criado. A transição da TV para o cinema deixou as personagens mais ‘vazias’, fúteis, ficando mais fácil de gostar dos personagens, visto que não tem muito a ser analisado.

Samantha (Kim Cattrall) é um grande exemplo disso. Ao longo da obra original, a profissional de relações públicas mostra-se uma mulher que pode ser enxergada como um exemplo a ser seguido, sendo completamente independente, poderosa, dona de si mesma, sexualmente ativa e, talvez por tudo isso, a que menos se relaciona emocionalmente com homens. Porém, quando se relacionou, encontrou o melhor entre todos que já apareceram na série: Smith Jerrod (Jason Lewis), que, diferente da maioria dos personagens masculinos da série, aparenta ter uma grande responsabilidade afetiva pela namorada.
Nos filmes, Jones é reduzida apenas a uma caricatura de uma mulher que tem sua vida sexual como prioridade. Esse estereótipo da executiva ser tão independente a fez terminar com Smith, o que foi uma pena, visto que a relação dos dois era a mais madura entre as personagens principais. Além disso, apesar de ser a mais velha do grupo, a loira aparenta ser imatura o suficiente a ponto de embarcar em uma ‘aventura libidinosa tropical’ na praia de Abu Dhabi, com alguém que mal conhecera, onde mulheres precisam estar sempre cobertas, ser presa por isso, e achar que está certa. Talvez durante o seriado fosse mais cômico, mas no longa, no qual a personagem já tem mais de 50 anos, chega a ser desrespeitoso com a cultura do país. Causa estranheza ao ver alguém tão dona de si não perceber que isso é vergonhoso.

Durante a série, Charlotte (Kristin Davis) sempre foi considerada a ‘princesinha’ do grupo. A mais delicada, que queria encontrar o marido perfeito, ser a esposa impecável e ter filhos encantadores. Infelizmente, seu arco no longa foi resumido apenas em sua preocupação de perder o marido para a ‘babá sem sutiã’ que cuida de suas duas filhas, seguindo seu roteiro de esposa graciosa.
Seis anos após o fim da série, a personagem não mostra ter perdido sua essência, porém, também não apresentou evolução alguma, o que talvez seja frustrante para seus fãs. No começo do seriado, vemos a garota, ainda novinha, sendo curadora de uma galeria de arte em Nova York, com sua formação em História da Arte. Entretanto, nada disso foi aproveitado ou sequer mencionado, o que é uma pena, visto que, inicialmente, a amiga de Carrie nos foi apresentada como alguém independente e certa de si mesma, e que não largaria tudo para ser ‘só’ esposa.

Já Miranda (Cynthia Nixon) aparenta ser a única a ter algumas mudanças corajosas. Na primeira parte, assistimos o inesperado (ou não!) casamento de Stanford (Willie Garson) e Anthony (Mario Cantone), os melhores amigos gays de Carrie e Charlotte, respectivamente. Na cerimônia, a advogada está como sempre vimos – pensando em trabalho, deixando seus prazeres pessoais para resolver pendências com seu chefe através do celular, presa em sua obsessão pelo dever profissional, como uma verdadeira workaholic. Porém, com o crescimento de seu filho Brady (Joseph Pupo), que, inclusive, é pouco explorado pelos roteiristas, ela percebe que pode perder a vida – e de sua família – por trabalhar demais, e toma uma atitude fora do seu padrão: sai da empresa que não a respeita como mulher, mãe e funcionária, para uma em que é valorizada. É um ato inesperado que evidencia desenvolvimento em meio a tantos personagens estagnados.
Por fim, ela, a nossa estrela: Carrie Bradshaw. A protagonista sempre foi uma personagem complexa, o que torna difícil ter uma opinião concreta e absoluta sobre a sua personalidade. Ora sentimos pena, ora sentimos raiva, ora amamos e ora odiamos. No filme, mais uma vez, a colunista oscila entre o trágico e o irritante. Dá para sentir pena, porque depois de seis temporadas, Carrie tem o que queria: o amor de Mr. Big. Mas também dá para ter raiva porque a personagem não sabe o que fazer com isso.

A loira passou a série em um vai e vem com Mr. Big. Experimentou, enfim, o casamento no primeiro longa, mas descobriu que a vida à dois com o homem misterioso que tanto se humilhou para ter não era bem o que ela pensava. Eles tinham pensamentos diferentes sobre o que significava essa cumplicidade, e a ideia do marido – terem dois dias de ‘folga’ da aliança, é tão absurda quanto conveniente para os dois, já que o companheiro poderia fazer o que a jornalista não gostava (ficar no sofá comendo delivery) e ela o que sentia falta: sair com as amigas.
Talvez de forma previsível, a primeira preocupação da colunista não foi pensar que ela e seu amado não combinassem tanto assim, e sim em como ela iria contar isso para as meninas, já sabendo que pessoas normais não tiram férias do casamento (toda semana!). Ela mesma sabe, pelo seu histórico de situações duvidosas, que as amigas iriam julgar.
Em um dado momento, Carrie comenta que “nunca se sentiu tão longe de casa, ou de si mesma”. Na verdade, a personagem estava sendo tão ela quanto sempre foi: insatisfeita em seu relacionamento com Big, tendo discordância com as amigas, pensando apenas em si mesma e tomando decisões impulsivas. A cereja do bolo neste filme de terror foi quando, no meio de um mercado de temperos em Abu Dhabi, a mais de mil quilômetros de distância, Carrie encontra Aidan (John Corbett), seu antigo namorado. Adicionando mais uma decisão questionável para sua lista, a jornalista decide sair com o ex e eles acabam se beijando.

Esse ‘detalhe’ foi mais um fator desnecessário, já que não teve desdobramentos – Carrie e Aidan não ficaram juntos, Big e a colunista não brigaram, foi um acontecimento sem desenvolvimentos ou consequências. Serviu apenas para reafirmar o padrão Carrie de decisões: faz algo no impulso, se arrepende e não tem nenhuma consequência. A incapacidade dela de lidar com a estabilidade que tanto dizia querer é notório.
Para além do desenvolvimento das personagens, ou a falta dele, a produção também peca em diversos sentidos. Sex and the City sempre foi lembrado por seus looks estonteantes, com roupas de grife e sapatos caríssimos. Dessa vez, porém, é uma das questões mais chamativas, só que de forma negativa. Patricia Field foi a responsável pelo guarda-roupa da obra, assim como da série e do longa anterior, mas deixou muito a desejar. Roupas extremamente bregas, com muitas (muitas!) estampas e acessórios fazendo hora extra.

Outro fator negativo foi a mudança de cenários tão abrupta. A primeira ambientação foi o casamento de Anthony e Stanford, que, inclusive, contou com a participação especial completamente aleatória de Liza Minnelli, o que deve ter aumentado o orçamento, assim como a de Miley Cyrus, ambas legais, mesmo que desnecessárias. De repente, a obra vira de cabeça para baixo e o segundo cenário é nos Emirados Árabes Unidos, graças às parcerias de Samantha e sua formação em relações públicas. Fez-se uma grande piada: desde comentários irônicos sobre as roupas e a cultura do local, a apreciação sutil dos Estados Unidos ou o desrespeito com as regras do país, tudo pareceu errado.
Sex and the City 2 nos deixa com a sensação de que os produtores não souberam a hora de parar. Como na famosa citação de Batman: O cavaleiro das trevas (2008), “Ou você morre como herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”, a série era o herói, e deveria ter morrido ali. Tudo que veio depois – os dois longas-metragens e a série And Just Like That — são os vilões, e mal construídos por sinal.
