
Guilherme Machado Leal
O verão nunca foi tão divertido como acontecia no mundo de Teen Beach Movie. O primeiro filme, lançado em 2013, trazia a rivalidade entre surfistas e motoqueiros em uma paródia proposital de Amor Sublime Amor – clássico dos anos 1960. Durante o verão, Brady (Ross Lynch) e Mack (Maia Mitchell) se teletransportaram à produção cinematográfica e tiveram férias bem diferentes daquelas que estamos acostumados a ter. Agora, na sequência de 2015, os protagonistas encaram o mundo real e o pesadelo dos estudantes: a volta às aulas.
Enquanto o loiro leva o carpe diem à risca, a jovem se preocupa com o futuro estudantil. As ocupações, as rotinas e demandas distintas são provas de que a vida é muito mais do que apenas tempo ocioso da época em que se conheceram. Criados para serem personagens carismáticos, Lela (Grace Phipps) e Tanner (Garrett Clayton) continuam reprisando seus papéis. No entanto, há algo que mudou na garota. Após a vinda dos amigos humanos, ela deseja ser mais do que um conceito criado.
A emancipação da boneca Barbie enquanto uma mulher com suas convicções e vontades no filme homônimo de 2023 é semelhante à narrativa da protagonista do longa-metragem fictício. Dessa vez, é a motoqueira quem vai até os colegas em busca da identidade e o namorado confiante a acompanha – sem concordar – com a ideia. No primeiro contato com a ‘Terra’, os choques da distância temporal os impressionam, a exemplo dos dispositivos móveis dos anos 2010. Como não existem, quando entram em chuveiros, os cabelos falsos não molham e os dentes sempre são brancos.

Mas a vida não é assim: talvez a prática até leve a perfeição. A partir de suas interações com os signos e concepções que caracterizam um ser humano enquanto alguém que vive em sociedade, a dupla perde a própria ‘magia’, ou melhor, é como se os roteiros que continham suas histórias fossem apagados. Por outro lado, eles possuem sentimentos: preocupação, ânimo, dúvida e tristeza. Algo que, para Mack e Brady, é só mais uma segunda-feira. Assim como ocorreu em Teen Beach Movie, se algo está fora do lugar, tudo desaparece.
No número musical Silver Screen, os reais tentam convencer por meio das melodias e rimas a delícia que é ser um personagem. Nada de inquietações ou problemas a serem resolvidos, é tudo apenas uma grande encenação. E nesse jogo, Lela e Tanner são mestres, pois servem para repetir os mesmos papéis a cada vez que um novo espectador assiste a “Onda, Sublime Onda”. Então, o que a faz querer se desvencilhar de sua origem?
À frente de seu tempo para uma obra do Disney Channel, o sonho de Mack nunca se pautou na opinião de um garoto. Ter um futuro profissional é a meta dela e isso é uma questão inegociável para o relacionamento com Brady. Por isso, quando a motoqueira reconhece na amiga a possibilidade de ser, ela encontra um refúgio. Ali, ambições são possíveis, aprendizados ocorrem e o melhor: a sensação de pertencer a algum lugar ou a um grupo. É claro que, do lado de cá, é muito mais excitante interpretar um personagem no seu filme favorito, nem que seja por um dia. Porém, o que nos distingue dentre todos é a nossa humanidade. E isso, seres fictícios não têm o poder de nos entregar.
O trabalho coreográfico na duologia é um aspecto que não envelheceu com o tempo. Depois de 10 anos do lançamento, as sincronias entre o elenco e a habilidade ímpar de Ross Lynch em imprimir em tela os passos criados por Christopher Scott – coreógrafo da sequência que substituiu o diretor Jeffrey Hornaday na função também ocupada no longa de 2013. Em Gotta Be Me, a garota centrada e o namorado descompromissado se entendem a partir do duelo que realizam na quadra do ginásio. Aqui, há a compreensão de que ela pode ser quem é e ele também. Não importa o fato de serem de mundos distintos, o laço criado durante o verão permanece em todas as estações do ano.
Teen Beach 2 tem, provavelmente, um dos desfechos mais surpreendentes para um filme infantojuvenil. Lela e Tanner decidem retornar ao conto de fadas após descobrirem que a fuga para o mundo real pode levar ao desaparecimento de seus colegas fictícios. Na despedida com Mack, ela entende que, embora volte ao filme, dessa vez, há chances de trilhar a própria jornada. Para qualquer um que era adolescente na época da estreia parecia ser impossível um mundo em que os acontecimentos do longa original não ocorressem.

Entretanto, o roteiro de Robert Horn e Vince Marcello segue esse caminho. O agridoce não é convidativo a todos, seja na vida ou nas telas, o mais palatável é o final feliz. Aqui, as conclusões saídas de uma fantasia não obtêm êxito – o que deixa a experiência, no mínimo, curiosa. Na adolescência, temos os primeiros contatos com as decepções e os imprevistos. Aos que cresceram com essas narrativas do canal, a sequência da obra de 2013 adota um tom muito mais reflexivo do que as outras produções da mesma era.
O retorno dos personagens à Onda Sublime Onda e a mudança na construção de Lela enquanto personagem realizaram alterações no mundo real: como a história fictícia teve o rumo alterado, Teen Beach Movie não ocorreu e, por isso, Mack e Brady nunca se conheceram. Na nova realidade, a garota participa da organização de uma sessão de um longa-metragem antigo: Lela, Rainha da Praia. Enquanto isso, o loiro está por perto e após interagir com ela, se interessa e fica para conferir a atração.
That’s How We Do, número de encerramento do musical, sintetiza o maior acerto da narrativa: entender que podemos ser quem quisermos, desde que tenhamos o controle total de nossas histórias. “Eu faço o meu próprio destino”, frase proferida pela dupla feminina durante a performance, soa como uma inspiração àqueles jovens que amavam se entreter por 90 e poucos minutos com uma produção do canal. Mais arriscado do que o primeiro longa, Teen Beach 2 recalcula a rota e avança em direção à vida real. Se uma personagem conseguiu encontrar o próprio rumo, você também pode.
