Há 10 anos, era só um dia quente na previsão, mas recebemos um verão daqueles em Teen Beach 2

Cena do filme Teen Beach 2. Na imagem, há os personagens Lela, Tanner, Brady e Mack. Da esquerda para direita, a moça branca de cabelos castanhos veste um vestido azul com estampa xadrez azul quadriculada e botas brancas, o homem branco de cabelos castanho claro utiliza uma regata branca com uma blusa vermelha aberta, um short colorido e um tênis branco, o homem branco de cabelos brancos veste uma camiseta laranja e um short azul com estampas de praia e a mulher branca de cabelos castanhos veste uma blusa azul ferida, um short jeans e uma tamanca média marrom. Eles estão em movimento, assim como os figurantes do filme.
Na segunda aventura de Brady e Mack, eles precisam saber se o amor sobrevive ao fim do verão (Foto: Francisco Roman)

Guilherme Machado Leal

O verão nunca foi tão divertido como acontecia no mundo de Teen Beach Movie. O primeiro filme, lançado em 2013, trazia a rivalidade entre surfistas e motoqueiros em uma paródia proposital de Amor Sublime Amor – clássico dos anos 1960. Durante o verão, Brady (Ross Lynch) e Mack (Maia Mitchell) se teletransportaram à produção cinematográfica e tiveram férias bem diferentes daquelas que estamos acostumados a ter. Agora, na sequência de 2015, os protagonistas encaram o mundo real e o pesadelo dos estudantes: a volta às aulas.

Enquanto o loiro leva o carpe diem à risca, a jovem se preocupa com o futuro estudantil. As ocupações, as rotinas e demandas distintas são provas de que a vida é muito mais do que apenas tempo ocioso da época em que se conheceram. Criados para serem personagens carismáticos, Lela (Grace Phipps) e Tanner (Garrett Clayton) continuam reprisando seus papéis. No entanto, há algo que mudou na garota. Após a vinda dos amigos humanos, ela deseja ser mais do que um conceito criado.

A emancipação da boneca Barbie enquanto uma mulher com suas convicções e vontades no filme homônimo de 2023 é semelhante à narrativa da protagonista do longa-metragem fictício. Dessa vez, é a motoqueira quem vai até os colegas em busca da identidade e o namorado confiante a acompanha – sem concordar – com a ideia. No primeiro contato com a ‘Terra’, os choques da distância temporal os impressionam, a exemplo dos dispositivos móveis dos anos 2010. Como não existem, quando entram em chuveiros, os cabelos falsos não molham e os dentes sempre são brancos. 

Cena do filme Teen Beach 2. Na imagem, há os personagens Lela, Tanner, Brady e Mack. Da esquerda para direita, a moça branca de cabelos castanhos veste um vestido azul com estampa xadrez azul quadriculada e botas brancas, o homem branco de cabelos castanho claro utiliza uma regata branca com uma blusa vermelha aberta, um short colorido e um tênis branco, o homem branco de cabelos brancos veste uma camiseta laranja e um short azul com estampas de praia e a mulher branca de cabelos castanhos veste uma blusa azul ferida, um short jeans e uma tamanca média marrom. As meninas estão sentadas, enquanto os homens estão em pé. Eles estão em um quiosque de praia.
No primeiro longa, Brady e Mack pararam no mundo de Lela e Tanner. Agora é a vez da dupla fictícia ir para a realidade (Foto: Bob D’Amico)

Mas a vida não é assim: talvez a prática até leve a perfeição. A partir de suas interações com os signos e concepções que caracterizam um ser humano enquanto alguém que vive em sociedade, a dupla perde a própria ‘magia’, ou melhor, é como se os roteiros que continham suas histórias fossem apagados. Por outro lado, eles possuem sentimentos: preocupação, ânimo, dúvida e tristeza. Algo que, para Mack e Brady, é só mais uma segunda-feira. Assim como ocorreu em Teen Beach Movie, se algo está fora do lugar, tudo desaparece.

No número musical Silver Screen, os reais tentam convencer por meio das melodias e rimas a delícia que é ser um personagem. Nada de inquietações ou problemas a serem resolvidos, é tudo apenas uma grande encenação. E nesse jogo, Lela e Tanner são mestres, pois servem para repetir os mesmos papéis a cada vez que um novo espectador assiste a “Onda, Sublime Onda”. Então, o que a faz querer se desvencilhar de sua origem? 

À frente de seu tempo para uma obra do Disney Channel, o sonho de Mack nunca se pautou na opinião de um garoto. Ter um futuro profissional é a meta dela e isso é uma questão inegociável para o relacionamento com Brady. Por isso, quando a motoqueira reconhece na amiga a possibilidade de ser, ela encontra um refúgio. Ali, ambições são possíveis, aprendizados ocorrem e o melhor: a sensação de pertencer a algum lugar ou a um grupo. É claro que, do lado de cá, é muito mais excitante interpretar um personagem no seu filme favorito, nem que seja por um dia. Porém, o que nos distingue dentre todos é a nossa humanidade. E isso, seres fictícios não têm o poder de nos entregar.

O trabalho coreográfico na duologia é um aspecto que não envelheceu com o tempo. Depois de 10 anos do lançamento, as sincronias entre o elenco e a habilidade ímpar de Ross Lynch em imprimir em tela os passos criados por Christopher Scott – coreógrafo da sequência que substituiu o diretor Jeffrey Hornaday na função também ocupada no longa de 2013. Em Gotta Be Me, a garota centrada e o namorado descompromissado se entendem a partir do duelo que realizam na quadra do ginásio. Aqui, há a compreensão de que ela pode ser quem é e ele também. Não importa o fato de serem de mundos distintos, o laço criado durante o verão permanece em todas as estações do ano. 

Teen Beach 2 tem, provavelmente, um dos desfechos mais surpreendentes para um filme infantojuvenil. Lela e Tanner decidem retornar ao conto de fadas após descobrirem que a fuga para o mundo real pode levar ao desaparecimento de seus colegas fictícios. Na despedida com Mack, ela entende que, embora volte ao filme, dessa vez, há chances de trilhar a própria jornada. Para qualquer um que era adolescente na época da estreia parecia ser impossível um mundo em que os acontecimentos do longa original não ocorressem. 

 Cena do filme Teen Beach 2. Na imagem, há os personagens Lela, Tanner, Brady e Mack na praia à noite. Da esquerda para a direita, a moça branca de cabelos castanhos veste uma camisa xadrez quadriculada rosa e azul com um shorts preto, o homem branco de cabelos castanhos veste uma camisa branca abotoada com estampas, o homem branco de cabelos loiros veste uma camiseta branca estampada e a mulher branca de cabelos castanhos usa um vestido rosa com listras brancas. Os quatro estão em frente a uma prancha.
Mean to Be, faixa marcante do primeiro longa, ganha uma versão delicada e emocionante com o contexto do final de Teen Beach 2 (Foto: Disney Channel)

Entretanto, o roteiro de Robert Horn e Vince Marcello segue esse caminho. O agridoce não é convidativo a todos, seja na vida ou nas telas, o mais palatável é o final feliz. Aqui, as conclusões saídas de uma fantasia não obtêm êxito – o que deixa a experiência, no mínimo, curiosa. Na adolescência, temos os primeiros contatos com as decepções e os imprevistos. Aos que cresceram com essas narrativas do canal, a sequência da obra de 2013 adota um tom muito mais reflexivo do que as outras produções da mesma era. 

O retorno dos personagens à Onda Sublime Onda e a mudança na construção de Lela enquanto personagem realizaram alterações no mundo real: como a história fictícia teve o rumo alterado, Teen Beach Movie não ocorreu e, por isso, Mack e Brady nunca se conheceram. Na nova realidade, a garota participa da organização de uma sessão de um longa-metragem antigo: Lela, Rainha da Praia. Enquanto isso, o loiro está por perto e após interagir com ela, se interessa e fica para conferir a atração.

That’s How We Do, número de encerramento do musical, sintetiza o maior acerto da narrativa: entender que podemos ser quem quisermos, desde que tenhamos o controle total de nossas histórias. “Eu faço o meu próprio destino”, frase proferida pela dupla feminina durante a performance, soa como uma inspiração àqueles jovens que amavam se entreter por 90 e poucos minutos com uma produção do canal. Mais arriscado do que o primeiro longa, Teen Beach 2 recalcula a rota e avança em direção à vida real. Se uma personagem conseguiu encontrar o próprio rumo, você também pode.

 

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