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	<title>Arquivos Solidão &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Here olha para o que ninguém vê</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2023 20:37:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Para Bas Devos, fazer filmes é uma desculpa para ser curioso. Here, seu quarto longa-metragem, usa essa curiosidade para observar a relação de dois estranhos consigo mesmos, um com o outro e com o país que habitam, estrangeiro tanto quanto eles mesmos ali. A produção desembarcou no Brasil no 25° Festival do Rio &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/here-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Here olha para o que ninguém vê"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31715" aria-describedby="caption-attachment-31715" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31715" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4.png" alt="Cena do filme Here. A cena se passa em uma floresta, com o solo verde coberto por musgos e troncos de árvores ao fundo. Em um primeiro plano, os dois personagem estão mal iluminados e é possível ver, à esquerda, uma mulher adulta com cabelo preso em um coque, ajoelhada no chão, segurando uma planta na mão. À sua frente, à direita, é possível ver um homem curvado sobre uma pedra, encarando o que ela tem em mãos." width="1536" height="1012" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4-800x527.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4-1024x675.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4-768x506.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-4-1200x791.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31715" class="wp-caption-text">Here venceu os prêmios de Encounters e FIPRESCI do Festival de Berlim e participou do Festival do Rio 2023 na seção Expectativa (Foto: Rediance Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Bas Devos, </span><a href="http://www.sensesofcinema.com/2023/interviews/here-an-interview-with-bas-devos/"><span style="font-weight: 400;">fazer filmes</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma desculpa para ser curioso. </span><i><span style="font-weight: 400;">Here</span></i><span style="font-weight: 400;">, seu quarto longa-metragem, usa essa curiosidade para observar a relação de dois estranhos consigo mesmos, um com o outro e com o país que habitam, estrangeiro tanto quanto eles mesmos ali. A produção desembarcou no Brasil no 25° </span><a href="https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/here"><span style="font-weight: 400;">Festival do Rio</span></a><span style="font-weight: 400;"> depois de conquistar dois troféus no </span><a href="https://www.berlinale.de/en/2023/programme/202314178.html"><span style="font-weight: 400;">Festival de Berlim</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, olhando para o ordinário, torna até o comum fantástico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra, o diretor belga segue Stefan (Stefan Gota), um trabalhador romeno da </span><a href="https://personaunesp.com.br/distopia-critica/"><span style="font-weight: 400;">construção civil</span></a><span style="font-weight: 400;"> morando em Bruxelas, na Bélgica. Quando a temporada de obra acaba e ele e seus colegas &#8211; igualmente estrangeiros &#8211; poderão aproveitar as férias em seus países de origem, o protagonista encontra uma mulher que o fará pensar duas vezes se deve ou não voltar. O grande porém é que ela sequer sabe o nome dele.</span></p>
<p><span id="more-31712"></span></p>
<figure id="attachment_31714" aria-describedby="caption-attachment-31714" style="width: 1380px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31714" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5.jpg" alt="Cena do filme Here. A cena se passa durante a noite em um restaurante, onde é possível ver mesas e cadeiras vazias. Ao fundo, através de uma janela, é possível ver fachadas de outros restaurantes com as luzes acesas. No primeiro plano, à esquerda, vemos uma mulher branca, aparentando cerca de 40 anos, com cabelos castanhos na altura do ombro, sentada à mesa do restaurante com uma xícara de café a sua frente. Ela segura a mão do homem que está a sua frente, sentado na mesa à direita do quadro. Ele é branco, com cabelos curtos, aparenta ter cerca de 30 anos, tem uma xícara de café a sua frente e um casaco pendurado na cadeira." width="1380" height="921" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5.jpg 1380w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5-768x513.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-5-1200x801.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31714" class="wp-caption-text">Como em longas anteriores, Bas Devos aborda sutilmente a imigração, dessa vez de trabalhadores romenos para a Bélgica, algo que ele observou como um fenômeno no país (Foto: Rediance Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O encanto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Here </span></i><span style="font-weight: 400;">se faz na </span><a href="https://personaunesp.com.br/carvao-critica/"><span style="font-weight: 400;">simplicidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Stefan não pode ir para casa &#8211; neste caso, seu país de origem, não a residência onde mora &#8211; porque seu carro quebrou e ficará pronto em alguns dias. Nesse meio tempo, a preocupação do rapaz é cozinhar uma sopa com tudo que há na geladeira para que nada estrague. A segunda tarefa é distribuir o alimento para conhecidos, já que nem ele conseguirá consumi-lo antes de voltar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nessa normalidade que o roteiro &#8211; também confeccionado por Devos &#8211; se desenvolve: a relação do protagonista com a cidade e com as pessoas à sua volta é um exercício de enxergar a </span><a href="https://personaunesp.com.br/paloma-critica/"><span style="font-weight: 400;">humanidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Filmados poeticamente por Grimm Vandekerckhove, os altos prédios de Bruxelas, as linhas de trem e a movimentação dos transportes criam uma sensação de solitude e barulho em meio ao concreto, ressoando a condição de distanciamento, como se ali ele fosse um estrangeiro em todos os sentidos. Stefan repete a si mesmo que ali é sua casa, mas nem ele parece acreditar na afirmação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal cenário é o contrário da </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-som-do-rugido-da-onca-critica/"><span style="font-weight: 400;">natureza</span></a><span style="font-weight: 400;">. O personagem principal, assim como o diretor, é um grande curioso e, com os dias livres enquanto espera seu carro, explora os arredores da cidade. Movido por sementes que encontrou no bolso, ele visita uma horta comunitária, um bosque perto do mecânico e uma pequena floresta local. Ao contrário dos momentos no âmbito urbano, nos quais as conversas são breves e o silêncio interno prevalece, em todos os encontros cercados por natureza ele se depara com pessoas e trava diálogos tão mundanos quanto as situações ali propostas. São nesses ambientes, a princípio quietos, que a </span><a href="https://personaunesp.com.br/past-lives-critica/"><span style="font-weight: 400;">conexão humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> acontece, a grandiosidade é preenchida com vida e a sensação de pertencimento e completude impera.</span></p>
<figure id="attachment_31713" aria-describedby="caption-attachment-31713" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31713" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3.jpg" alt="Cena do filme Here. A cena se passa durante o dia em uma floresta, em que é possível ver o solo marrom, coberto por musgos verdes em alguns trechos, troncos e árvores ao fundo. Em um primeiro plano, à esquerda, vemos uma homem branco, de aparentemente 30 anos, loiro de cabelo e barba curtos, vestindo uma jaqueta azul escura, um shorts roxo e uma bota preta ajoelhado no chão, observando uma planta em suas mãos. A sua frente, há um caderno aberto apoiado no chão. A direita do quadro, observando o que há nas mãos do homem, vemos uma mulher chinesa, aparentando cerca de 30 anos, com cabelos pretos presos em um coque, vestindo uma jaqueta com estampa militar, calã jeans e bota preta, sentada no chão." width="1536" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-3-1200x800.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31713" class="wp-caption-text">Here é projetado em uma janela 4:3, menor do que o tradicional nos cinemas; para Devos, além de fugir ao que o espectador está acostumado, esse formato é o mais próximo de como ele vê a realidade (Foto: Rediance Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo muda quando Stefan conhece Shuxiu (Liyo Gong) em um restaurante chinês na cidade. Se por lá as relações são rápidas e corriqueiras, o reencontro acidental dos dois na floresta acende uma conexão instantânea enquanto observam musgos e líquens. Ela, uma professora de microbiologia e botânica descendente de chineses, parece se sentir tão alheia a um cotidiano apático e desconexo quanto ele. Em mandarim, a personagem revela ter tido um sonho, em que de uma hora para outra esquece palavras, mostrando como se sente uma forasteira ali, como ele. Ambos parecem apenas esperar por uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/her-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">conexão humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; e a encontram entre seres microscópicos no solo da mata.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por lá, os diálogos não são necessários para explicitar a ligação que passa a se desenvolver: os atores dão conta de expressar a diferença entre o </span><a href="https://personaunesp.com.br/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><span style="font-weight: 400;">estranhamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> inicial e a familiaridade que se estabelece aos poucos, se não com a cidade, um com o outro. Assim, partindo da grandiosidade da paisagem de Bruxelas e dos altos prédios em construção, a câmera se volta ao solo, ao micro dos organismos na base de tudo.</span></p>
<figure id="attachment_31716" aria-describedby="caption-attachment-31716" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31716" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5.jpg" alt="Cena do filme Here. Na imagem, vemos um zoom ou close-up de dois dedos de uma pessoa branca segurando um pequeno pedaço de planta verde." width="1536" height="1121" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5-800x584.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5-1024x747.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5-768x561.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-5-1200x876.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31716" class="wp-caption-text">Passe um café e encare os musgos de olhos bem abertos (Foto: Rediance Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A mudança do panorama macro para o micro, da vastidão para seres microscópicos, acontece de forma lenta, quase imperceptível. Porém, por mais encantador que seja, para explorar esse comum </span><a href="https://c7nema.net/entrevistas/item/119433-bas-devos-o-maior-privilegio-da-minha-vida-e-que-posso-fazer-filmes.html"><span style="font-weight: 400;">Devos</span></a><span style="font-weight: 400;"> propõem um verdadeiro exercício de paciência: se a geração atual não vive sem estímulos audiovisuais, vencer um ato completo de musgos, líquens e paisagens verdes sem nenhuma &#8211; ou pouca &#8211; troca de palavras é uma verdadeira batalha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=c-6qcdbs6os&amp;source_ve_path=MjM4NTE&amp;feature=emb_title"><i><span style="font-weight: 400;">Here</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o ordinário de Bas Devos, ampliado pela fotografia de Vandekerckhove e pela montagem mansa de Dieter Diependaele, se torna completo, mas, para isso, passa por uma calmaria beirando o entediante. Ao final, Stefan e Shuxiu parecem mais conectados após uma tarde quieta na floresta do que no diálogo completo que tiveram na cidade. Ela sequer sabe o nome dele e, quem comprar o desafio de não se render à inquietude e se entregar à tranquilidade, pode encontrar o fantástico no habitual e a beleza em um encontro mais do que comum.</span></p>
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		<title>O Essencial de Perigosas Sapatas é uma colher de chá para a solidão lésbica</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jun 2023 13:32:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Cegatti Por que estamos lutando por um pedaço de torta se a torta está podre?  &#8211; Alison Bechdel O desastre de Chernobyl, a guerra Irã-Iraque e o corte mullet foram alguns episódios hediondos que fizeram dos anos 1980 um período inesquecível para o mundo. No entanto, o posto de maior atrocidade da década foi &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-essencial-de-perigosas-sapatas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Essencial de Perigosas Sapatas é uma colher de chá para a solidão lésbica"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31167" aria-describedby="caption-attachment-31167" style="width: 2235px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31167" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa.jpg" alt="Capa do livro O Essencial de Perigosas Sapatas. Fundo amarelo na parte superior e fundo rosa mais abaixo. Na parte superior, está o título do livro com “O Essencial de” escrito em preto e “Perigosas Sapatas” escrito em vinho. Abaixo do título, à esquerda, está o escrito “Da autora de Fun Home” na cor preta, e, à direita está escrito o nome da autora “Alison Bechdel” na cor preta. Ao centro, em destaque, aparecem Mo e sua namorada. Mo é uma mulher branca, jovem, tem cabelo curto e castanho, usa óculos redondos, está usando uma blusa listrada em preto e branco e uma calça jeans azul. Ela está com as mãos nos glúteos de sua namorada, que aparece de costas. A namorada de Mo é uma mulher branca, jovem, tem cabelo curto e loiro, usa óculos redondos, está usando uma blusa marrom de gola alta e uma calça branca. Do lado esquerdo da capa, está o escrito “Estrelando” em preto, seguido por 3 círculos, um embaixo do outro. Em cada círculo, há uma ilustração de uma personagem e seu respectivo nome. Na coluna do lado esquerdo, estão as personagens Toni, Harriet e Clarice. Na coluna do lado direito, estão as personagens Lois, Ginger e Sparrow. No canto inferior esquerdo, há a logo da editora Todavia." width="2235" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa.jpg 2235w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-698x800.jpg 698w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-894x1024.jpg 894w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-768x880.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-1341x1536.jpg 1341w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31167" class="wp-caption-text">O Essencial de Perigosas Sapatas apalpa regiões sensíveis do patriarcado (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Cegatti</b></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">Por que estamos lutando por um pedaço de torta se a torta está podre?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Alison Bechdel</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O desastre de Chernobyl, a guerra Irã-Iraque e o corte </span><i><span style="font-weight: 400;">mullet </span></i><span style="font-weight: 400;">foram alguns episódios hediondos que fizeram dos anos 1980 um período inesquecível para o mundo. No entanto, o posto de maior atrocidade da década foi designado à </span><a href="https://www.hypeness.com.br/2019/04/criadora-diz-que-teste-de-bechdel-era-apenas-uma-piada-sumiria-se-nao-fossem-as-feministas-do-cinema/"><span style="font-weight: 400;">Alison Bechdel</span></a><span style="font-weight: 400;">, cartunista estadunidense que ousou ganhar as páginas dos jornais com tirinhas sobre uma ameaça maior do que qualquer explosão nuclear: lésbicas. Em uma singela homenagem, a editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Todavia </span></i><span style="font-weight: 400;">publica uma coletânea, traduzida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kovEVpNLU_c"><span style="font-weight: 400;">Carol Bensimon</span></a><span style="font-weight: 400;">, das principais histórias da série </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas</span></i><span style="font-weight: 400;">, cuja essência está em um grupo de amigas lésbicas praticando atos tenebrosos tais como trabalhar e lavar a louça. No fim, elas são perigosas para quem?</span></p>
<p><span id="more-31164"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de 40 anos, as tirinhas de Bechdel alugaram um espaço significativo tanto nas folhas impressas, quanto nas cabeças conservadoras que engoliram em seco os aperitivos da autora. Esta, por sua vez, também é o nome por trás de </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-fun-home/"><i><span style="font-weight: 400;">Fun Home</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma autobiografia vencedora do prêmio </span><a href="https://www.comic-con.org/awards/eisner-awards-current-info"><span style="font-weight: 400;">Eisner</span></a><span style="font-weight: 400;"> e adaptada aos palcos da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gputc-vy_zg"><span style="font-weight: 400;">Broadway</span></a><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Apesar dessas conquistas memoráveis, o legado de Alison Bechdel não começa em estatuetas nem termina quando as cortinas do teatro se fecham. Enquanto a maioria das pessoas encantava-se com HQs sobre homens mascarados com um bíceps relativamente grande, Bechdel era vista como figura materna, ou melhor, como uma </span><a href="https://lithub.com/on-finding-a-hero-in-alison-bechdel/"><span style="font-weight: 400;">heroína</span></a><span style="font-weight: 400;"> sem capa por garotas lésbicas.</span></p>
<figure id="attachment_31168" aria-describedby="caption-attachment-31168" style="width: 4764px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31168 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-2.jpg" alt="Foto de Alison Bechdel ao lado de uma ilustração autoral. No lado esquerdo da imagem, está um desenho de uma mulher de costas, com cabelo curto preto e um top preto. No lado direito da imagem, está Alison Bechdel, uma mulher branca adulta. Ela tem cabelo curto preto, está usando uma camisa azul e está com a mão direita levantada tocando na tela na qual está o desenho." width="4764" height="2974" /><figcaption id="caption-attachment-31168" class="wp-caption-text">Alison Bechdel usa, com propriedade, fontes da própria cabeça para escrever suas histórias (Foto: John D. &amp; Catherine T. Macarthur Foundation)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sabe-se que, em tempos recentes, a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OEWXa5bSFuE"><span style="font-weight: 400;">cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> está tentando abraçar a letra L, seja mostrando beijos homoafetivos de suma irrelevância, como em </span><a href="https://variety.com/2019/film/news/star-wars-gay-kiss-lgbtq-representation-hollywood-rise-of-skywalker-1203449661/"><i><span style="font-weight: 400;">Star Wars</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou esbanjando lésbicas brancas de </span><a href="https://medium.com/@guzinskilaura/o-apagamento-da-bandeira-l%C3%A9sbica-e-a-cria%C3%A7%C3%A3o-de-novas-bandeiras-79d3d4ddf747"><span style="font-weight: 400;">batom</span></a><span style="font-weight: 400;"> em histórias medíocres. Héteros, gays ou bissexuais podem até tentar, mas nunca entenderão, de fato, o sentimento tão vazio quanto intenso de ver uma paixão se esvaindo pela inevitável priorização de um homem e o medo instintivo de ficar sozinha e ser, consequentemente, esquecida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de parecer óbvio, é preciso reiterar que não há ninguém melhor para retratar uma mulher lésbica do que uma mulher lésbica. Dessa forma, Alison Bechdel honra a </span><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/quadrinhos-em-revista/alison-bechdel-uma-jornada-em-torno-do-eu/"><span style="font-weight: 400;">própria realidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> e coloca nada além de puro amor em cada uma das personagens, talvez com um propósito empático de resgatar um amor que nunca recebeu. A autora transforma as protagonistas Mo, Toni, Harriet, Clarice, Louis, Ginger e Sparrow em companhias propositalmente imperfeitas diante da solidão imposta à </span><a href="https://periodicos.uff.br/revistagenero/article/download/30947/18036/106213"><span style="font-weight: 400;">mulher lésbica</span></a><span style="font-weight: 400;">, que não tem o luxo de errar, ou melhor, ser bagunçada e perigosa.</span></p>
<blockquote class="instagram-media" data-instgrm-captioned data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/BNKOdSkjXzo/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14" style=" background:#FFF; border:0; border-radius:3px; box-shadow:0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width:658px; min-width:326px; padding:0; width:99.375%; width:-webkit-calc(100% - 2px); width:calc(100% - 2px);">
<div style="padding:16px;"> <a href="https://www.instagram.com/p/BNKOdSkjXzo/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" background:#FFFFFF; line-height:0; padding:0 0; text-align:center; text-decoration:none; width:100%;" target="_blank"> </p>
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<p></a></p>
<p style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; line-height:17px; margin-bottom:0; margin-top:8px; overflow:hidden; padding:8px 0 7px; text-align:center; text-overflow:ellipsis; white-space:nowrap;"><a href="https://www.instagram.com/p/BNKOdSkjXzo/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; font-style:normal; font-weight:normal; line-height:17px; text-decoration:none;" target="_blank">A post shared by @alisonbechdel</a></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">As personagens de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Essencial de Perigosas Sapatas</span></i><span style="font-weight: 400;"> são verdadeiras agentes do caos. Embora não soltem teia pela mão ou saibam voar, elas são capazes de algo ainda mais impressionante: beijar mulheres. De fato, não é um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2k7TsDwL5qk"><span style="font-weight: 400;">superpoder</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é um </span><a href="https://youtu.be/L0oeqAQ1qE8?t=75"><span style="font-weight: 400;">ato revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> cuja desenvoltura é atravessada por um eterno conflito entre o pessoal e o político. É nesse caminho contrastante e tortuoso pelo qual a protagonista Mo investiga suas facetas e as expõe de forma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g7TWm2CPZCo"><span style="font-weight: 400;">íntima</span></a><span style="font-weight: 400;"> e genuína, de tal modo que os rabiscos e as palavras parecem ganhar vida a fim de acolher as leitoras lésbicas em uma forma da obra de dizer: “eu te entendo”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No imaginário tradicional, o significado de revolução jamais recairia sobre uma mulher de óculos redondos desesperada por atos carnais. Além disso, o que as pessoas veriam de tão </span><a href="https://monografias.ufma.br/jspui/bitstream/123456789/6092/1/BrendaCarolineSantosdaSilva.pdf"><span style="font-weight: 400;">inspirador</span></a><span style="font-weight: 400;"> nessa mesma mulher cujo nome poderia ser facilmente dado a um animal de estimação? Mo não nasceu para cumprir um propósito divino de emancipação lésbica, ou seja, ela não é uma figura inalcançável ou idealizada. Aliás, a graça está na possibilidade de encontrá-la fora das páginas, seja na famosa </span><a href="https://miscelaneaecia.com.br/bares-lgbt-vila-madalena/"><span style="font-weight: 400;">Vila Madalena</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou em algum bar de esquina interiorano. Afinal, existem muitas Mos mundo afora esperando por uma chance de serem vistas, ouvidas e lidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O grande desafio de Mo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">não envolve um ato descomunal físico ou político, mas </span><a href="https://vitralizado.com/hq/papo-com-alison-bechdel-autora-de-o-segredo-da-forca-sobre-humana-o-bem-individual-e-o-bem-coletivo/"><span style="font-weight: 400;">pessoal</span></a><span style="font-weight: 400;">. A protagonista faz questão de expressar sua intelectualidade e consegue articular explicações para qualquer evento </span><a href="https://elle.com.br/materia/o-essencial-de-perigosas-sapatas-traz-o-melhor-das-tiras-de-alison-bechdel"><span style="font-weight: 400;">geopolítico</span></a><span style="font-weight: 400;">. No entanto, ela se desespera ao perceber que seu pragmatismo não passa de uma cortina de fumaça para um medo colossal do incontrolável: ter sentimentos. Assim, sua jornada é pautada pelo conflito entre conhecimento e ingenuidade, de tal modo que, eventualmente, a militante abaixa a guarda e consegue perceber o quão belo é se deixar levar pelo inexplicável.</span></p>
<figure id="attachment_31166" aria-describedby="caption-attachment-31166" style="width: 1098px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31166" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4.png" alt=" Ilustração da personagem Mo. Mo é uma mulher que tem cabelo curto, usa óculos redondos e uma blusa listrada. Ela está com uma expressão de confusão, com a sobrancelha direita levantada, olhos arregalados e a boca retraída." width="1098" height="645" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4.png 1098w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-800x470.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-1024x602.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-768x451.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31166" class="wp-caption-text">Mo não sabe diferenciar um encontro de um jantar entre amigas, mas mesmo assim se arrisca nas construções de intimidade (Arte: Alison Bechdel)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Do começo ao fim, o grupo protagonista não cede à imparcialidade patética da esfera sociopolítica. Verdade seja dita: é um mundo muito pequeno para as palavras “lésbica” e “imparcial” coexistirem. Querendo ou não, o lema </span><a href="https://www.queridoclassico.com/2023/02/um-teto-todo-seu-virginia-woolf.html"><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos anos 1960, “</span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/05/cultura/1562337766_757567.html"><i><span style="font-weight: 400;">o pessoal é político</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”,</span> <span style="font-weight: 400;">é uma aberração que nunca deixou de assombrar o indivíduo cujo rótulo só pode ser um: frouxo. Em suma, a autenticidade carregada por cada uma das personagens faz da obra uma bagunça linda demais para ser arrumada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante de representações miseráveis da letra L na cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">é um respiro, ainda que sua complexa doçura deixe qualquer um sem ar. Aliás, a obra reitera que ser doce não é usar esmalte ou andar de salto, isto é, Bechdel coloca uma lupa em mulheres cujos cabelos das axilas são mais longos que os da cabeça. Em suma, incluir a </span><a href="https://medium.com/@ellamouras/ser-uma-l%C3%A9sbica-desfeminilizada-%C3%A9-ser-odiada-por-todos-os-lados-e-eu-estou-exausta-23a83f0372ac"><span style="font-weight: 400;">desfeminilidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como a </span><a href="https://www.raiolaser.net/home/para-ficar-de-olho-essencialismo-e-interseccionalidade-encarando-as-perigosas-sapatas"><span style="font-weight: 400;">interseccionalidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, é um soco no estômago para quem acredita que postar “</span><i><span style="font-weight: 400;">girl power</span></i><span style="font-weight: 400;">” nas redes sociais enquanto divide quarto com racista e coleciona acusações de assédio é empoderador. </span></p>
<figure id="attachment_31165" aria-describedby="caption-attachment-31165" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31165" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5.jpg" alt="Ilustração de diversas personagens criadas por Alison Bechdel. Elas estão na fila de uma bilheteria. Da esquerda para a direita, mostra-se a cobradora da bilheteria usando um uniforme rosa e uma gravata borboleta; Harriet usando uma jaqueta amarela e uma calça azul; Mo usando uma jaqueta jeans e uma calça jeans; Ginger usando um terno roxo e uma calça azul; Clarice usando um terno listrado verde e roxo e uma saia também listrada verde e roxa; Toni usando uma jaqueta roxa e uma calça rosa, e Jezanna usando uma jaqueta rosa e uma calça branca com detalhes roxos." width="800" height="496" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5-768x476.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31165" class="wp-caption-text">As personagens de Bechdel fazem fila para espantar perrecos, ou melhor, feministas liberais (Arte: Alison Bechdel)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A lesbiandade não é um </span><a href="https://viltoreis.com/teste-de-bechdel/"><span style="font-weight: 400;">conto de fadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seria um erro retratá-la como tal. O fato é: há traições, medos e incertezas na narrativa cuja aliança com a realidade é um acerto de Alison Bechdel. Esta, em nenhum momento, abandona a verdade, de tal modo que as protagonistas da HQ estão despidas de filtros e se entrelaçam com cenários nos quais elas encaram suas interioridades e amadurecem. Em outras palavras, além das batalhas travadas com a conjuntura patriarcal e </span><a href="http://www.fg2013.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/20/1373338752_ARQUIVO_IsabellaTymburibaElian.pdf"><span style="font-weight: 400;">heteronormativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, as protagonistas enfrentam conflitos internos, mas não o fazem sozinhas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">é, sobretudo, um grito melódico o qual cumpre um nobre dever de espantar o maior medo de qualquer garota lésbica: a </span><a href="https://medium.com/revistahelenas/invisibilidade-l%C3%A9sbica-uma-arma-usada-contra-todas-n%C3%B3s-h21-2b435bea2d96"><span style="font-weight: 400;">solidão</span></a><span style="font-weight: 400;">. A obra de Bechdel é um lar que acolhe corações ansiosos por uma chance de disparar sem temor e expulsa mentes heterossexuais frustradas, as quais têm a pachorra de dizer que queriam ter nascido lésbicas. Diga-se de passagem: a obra é capaz de convencer qualquer um a dar o nome de “Mo” para o animal de estimação. No fim, ser lésbica é acordar todo dia com um impulso de sentir tudo o que há para sentir e ser perigosa é deixar o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wvsP_lzh2-8"><span style="font-weight: 400;">Sol</span></a><span style="font-weight: 400;"> entrar em um ambiente que ama o frio &#8211; e ser revolucionária é ser os dois.</span></p>
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		<title>15 anos de Na Natureza Selvagem: a felicidade compartilhada com a totalidade do nada</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Oct 2022 17:32:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Veiga Solidão. Substantivo feminino. Estado de quem está só, retirado do mundo ou de quem se sente desta forma mesmo estando rodeado por outras pessoas; isolamento. Solitude. Substantivo feminino. Condição de quem se isola propositalmente ou está em um momento de reflexão e de interiorização. Popularmente usada em oposição à solidão para indicar que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/na-natureza-selvagem-15-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "15 anos de Na Natureza Selvagem: a felicidade compartilhada com a totalidade do nada"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28872" aria-describedby="caption-attachment-28872" style="width: 1363px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28872 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816.jpg" alt="Cena do filme Na Natureza Selvagem. Nela, Alexander Supertramp, um jovem branco de cabelos volumosos e barba, ambos castanhos, está sentado em uma cadeira na frente de um ônibus nas cores verde e branca. Ele veste uma camisa xadrez nas mesmas cores que o ônibus, porém com sujeira mais visível, calça bege e galocha preta. Ele segura um caderno azul aberto, o qual está olhando. Ao redor do ônibus, há plantas e flores na cor rosa." width="1363" height="565" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816.jpg 1363w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816-800x332.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816-1024x424.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816-768x318.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-1-e1666196420816-1200x497.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28872" class="wp-caption-text">A adaptação da história de Christopher McCandless por Sean Penn é carregada de significados (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Veiga</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Solidão. Substantivo feminino. </span><span style="font-weight: 400;">Estado de quem está só, retirado do mundo ou de quem se sente desta forma mesmo estando rodeado por outras pessoas; isolamento. </span><a href="https://encenasaudemental.com/comportamento/insight/solitude-e-solidao-a-diferenciacao-do-estar-so/"><span style="font-weight: 400;">Solitude</span></a><span style="font-weight: 400;">. Substantivo feminino. Condição de quem se isola propositalmente ou está em um momento de reflexão e de interiorização.</span> <span style="font-weight: 400;">Popularmente usada em oposição à solidão para indicar que estar sozinho não implica obrigatoriamente estar em sofrimento. Associada à alegria de estar sozinho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se tudo é algo, então nada é algo. A relação entre preenchimento e vazio sempre bailou mais junta do que se imagina. Por mais que esses dois extremos estejam bastante próximos, a jornada para percepção dessa curta distância é bem trabalhosa. É essa </span><i><span style="font-weight: 400;">via-crúcis</span></i><span style="font-weight: 400;"> que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XZG1FzyB8DI&amp;ab_channel=RottenTomatoesClassicTrailers"><i><span style="font-weight: 400;">Na Natureza Selvagem</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2007), filme que completa quinze anos em 19 de Outubro de 2022, busca percorrer.</span></p>
<p><span id="more-28871"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Baseado na obra homônima de </span><a href="https://personaunesp.com.br/em-nome-do-ceu-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jon Krakauer</span></a><span style="font-weight: 400;">, que vem virando um queridinho dos roteiristas de Hollywood, o longa acompanha a verdadeira história da “morte” &#8211; social, por assim dizer &#8211; de Christopher McCandless, e o “nascimento e vida” de Alexander Supertramp. Na trama e na vida real, Chris largou sua vida promissora de jovem prodígio para buscar a completude no meio do nada. Aqui, Sean Penn, em sua espaçada carreira de diretor, dirige uma de suas melhores obras cinematográficas, garantindo duas indicações no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de 2008, além do Prêmio do Público de Melhor Longa Estrangeiro de Ficção na 31ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, em 2007.</span></p>
<figure id="attachment_28873" aria-describedby="caption-attachment-28873" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28873 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365-1024x406.jpg" alt="Cena do filme Na Natureza Selvagem, Nela, Alexander Supertramp está deitado no banco do ônibus, apontando a mão para cima e com a boca aberta, como se estivesse em seus últimos suspiros. Ele só aparece da altura dos ombros para cima e veste um caso verde, com pelagem bege ao redor da touca." width="840" height="333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365-1024x406.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365-800x318.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365-768x305.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365-1200x476.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-2-e1666196626365.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28873" class="wp-caption-text">A cena final é extremamente tocante e poética, mostrando uma competência tanto do ator principal quanto da escrita do roteiro (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><a href="https://darkside.blog.br/henry-david-thoreau-fui-para-o-bosque-porque-queria-viver-deliberadamente/"><span style="font-weight: 400;">Henry Thoreau</span></a><span style="font-weight: 400;">, um dos intelectuais que serve de estopim para o roteiro e referenciado diretamente ao longo da obra, defende o abandono das ilusões de uma vida repleta de coisas supérfluas para, daí sim, sabermos o que realmente é essencial. Seguindo radicalmente esse conceito, Supertramp enxerga a própria existência em sociedade como banal, e, assim como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Walden </span></i><span style="font-weight: 400;">(1854), um dos livros mais célebres de Thoreau, busca a contemplação de sua vida rasgando o contrato social de John Locke, a fim de viver livremente sua própria natureza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas seria muito simplista dizer que </span><i><span style="font-weight: 400;">Into the Wild</span></i><span style="font-weight: 400;"> é apenas uma nova roupagem desse conceito. Abraçando o gênero de </span><a href="https://www.teclasap.com.br/road-movie/"><i><span style="font-weight: 400;">road movie</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a obra, além da trajetória “do ponto a ao ponto b”, convida o espectador a embarcar em uma viagem reflexiva sobre o quanto estamos enraizados em nossas próprias ideias de sociedade. Isso começa com a percepção que temos de Supertramp no início, sendo muito fácil identificá-lo como um egoísta dissimulado &#8211; mesmo que, em partes, ele seja. Porém, nós e o próprio Supertramp estamos tão imersos nos ritos sociais que não é possível enxergá-lo como um desprezível desvio dessa constante, mas sim como um erro grotesco, que não se encaixa no padrão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso é muito bem colocado pelo roteiro no momento da construção do personagem de McCandless. Por ser adaptado de um livro que narra fatos, é esperado que a escrita tenha maior liberdade poética, tornando-se algo perceptível a partir do “nascimento” de Supertramp. Claro que a jornada até o Alasca é o pano de fundo, mas a história – que além da direção, tem o roteiro assinado por </span><a href="https://cineclick.uol.com.br/artistas/sean-penn"><span style="font-weight: 400;">Sean Penn</span></a> <span style="font-weight: 400;">– usa da jornada do andarilho para traçar um estudo sobre a inserção (ou não) do indivíduo no mundo contemporâneo, e faz isso de forma muito tocante.</span></p>
<figure id="attachment_28874" aria-describedby="caption-attachment-28874" style="width: 1018px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28874 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-3-e1666196728927.jpg" alt="Cena de Na Natureza Selvagem. Nela, Supertramp está em uma praia no nascer ou pôr do sol. Por conta do sol, só é possível ver sua silhueta centralizada. Ao fundo dele, no meio do mar, uma ilha e alguns pássaros à direita." width="1018" height="427" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-3-e1666196728927.jpg 1018w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-3-e1666196728927-800x336.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-3-e1666196728927-768x322.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28874" class="wp-caption-text">O longa sabe trabalhar o isolamento do ator principal em meio a imensidão do mundo (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema, historicamente, aborda a solidão e a solitude. Claro que a solidão é muito mais prática de ser transmitida, devido a sua familiaridade e violência de impacto. Podemos tirar ótimos exemplos das telas, como </span><a href="https://personaunesp.com.br/taxi-driver-completa-40-anos-permanece-extremamente-atual/"><i><span style="font-weight: 400;">Taxi Driver</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1976),</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=C3NDz_7KP2g&amp;ab_channel=HDRetroTrailers"><i><span style="font-weight: 400;">Amores Expressos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1994) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Her </span></i><span style="font-weight: 400;">(2013). Já com a solitude, o trabalho é mais minucioso, pois é um conceito embaralhado dentro de nós mesmos. Ainda assim, é possível traçar paralelos, como a simples ida ao cinema em </span><a href="https://www.omelete.com.br/series-tv/cinema-paradiso-serie"><i><span style="font-weight: 400;">Cinema Paradiso</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1988) ou o azar de ser esquecido em outro planeta em </span><a href="https://personaunesp.com.br/perdido-em-marte-o-azarao-no-oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Perdido em Marte</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2015).</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“Para chamar cada coisa pelo seu devido nome</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;"> pelo seu devido nome”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">E é aí que está o valor de </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Natureza Selvagem</span></i><span style="font-weight: 400;">: ele não é um ótimo expoente de uma dessas vertentes, mas sim das duas ao mesmo tempo, e consegue destrinchar os meandros desse nebuloso meio termo. McCandless pensa que é descolado da sociedade que o cerca, mas não. Desde a burocracia para ser reconhecido como pessoa até os momentos que ele exala euforia ao estar completamente isolado e, por conta do seu inconsciente, grita para ser ouvido por ninguém; é nesse lugar que mora a linha tênue entre solidão e solitude.</span></p>
<figure id="attachment_28875" aria-describedby="caption-attachment-28875" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28875 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4.jpg" alt="Cena de Na Natureza Selvagem. Nela vemos Supertramp ao lado de Ron, um senhor idoso branco e de cabelos brancos. Supertramp veste uma camisa branca, short preto e tênis cinza. Ron Veste uma polo azul claro, uma calça azul escura e meias e tênis pretos. Ambos estão sentados em uma montanha de pedras olhando para frente. Ao lado direito de Supertramp, sua mochila está bege e azul está caída para o lado." width="2048" height="1366" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4-1536x1025.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-4-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28875" class="wp-caption-text">A relação entre Supertramp e Ron é de longe uma das mais emocionantes da obra (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, é inegável que a solitude de Supertramp preenche toda a obra de cabo a rabo, graças à primorosa atuação de </span><a href="https://www.instagram.com/emilehirsch/"><span style="font-weight: 400;">Emile Hirsch</span></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Speed Racer</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Reis de Dogtown</span></i><span style="font-weight: 400;">). Por isso, a escrita é muito inteligente ao explorar a solidão e suas infinitas formas de dor através dos personagens secundários, com as também brilhantes atuações de, entre outros, Vince Vaughn (</span><i><span style="font-weight: 400;">Os Estagiários</span></i><span style="font-weight: 400;">), </span><a href="https://personaunesp.com.br/spencer-critica/"><span style="font-weight: 400;">Kristen Stewart</span></a><span style="font-weight: 400;"> pré-</span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-144402/"><i><span style="font-weight: 400;">Crepúsculo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, William Hurt (</span><i><span style="font-weight: 400;">O Beijo da Mulher Aranha</span></i><span style="font-weight: 400;">) e a tocante relação com Hal Holbrook (</span><i><span style="font-weight: 400;">Todos os Homens do Presidente</span></i><span style="font-weight: 400;">) no papel de Ron Franz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que um filme sobre a auto-descoberta, </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Natureza Selvagem </span></i><span style="font-weight: 400;">esconde a discussão sobre o auto-perdão e como este é importante para tal descoberta. Cada pessoa com quem Supertramp cruza, até o memorável </span><a href="https://gooutside.com.br/a-historia-do-onibus-de-na-natureza-selvagem/"><span style="font-weight: 400;">ônibus 142</span></a><span style="font-weight: 400;">, desperta esse sentimento no protagonista, em diferentes aspectos, como relacionamento, trabalho, traumas e amor familiar. A produção peca um pouco ao escancarar tanto essa virada de chave que McCandless dá nos outros personagens &#8211; salvo alguns momentos que isso é benéfico, como no diálogo com Ron -, deixando a mudança de percepção de Supertramp cozinhando na subjetividade para conseguir encaixá-la no excelente final da obra.</span></p>
<figure id="attachment_28876" aria-describedby="caption-attachment-28876" style="width: 500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28876" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-5.gif" alt="Gif do filme Na Natureza Selvagem. Nele, Supertramp está com uma camisa xadrez verde e amarela e uma camisa verde por baixo. Ele abre os braços para sentir a brisa enquanto a câmera rodopia pelo cenário, que é composto por uma cadeia de montanhas que estão em processo de degelo." width="500" height="208" /><figcaption id="caption-attachment-28876" class="wp-caption-text">A fotografia do longa entrega um Estados Unidos de paisagens incríveis (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Direção e roteiros afiados, ou um elenco impecável, não são capazes de garantir a sustentação de uma boa obra. É nessa hora que brilham alguns aspectos técnicos do longa, a começar pela sua fotografia. Embora Sean Penn tenha trazido um caráter contemplativo e carregado de filosofia para o texto, foi com Eric Gautier, experiente com </span><i><span style="font-weight: 400;">road movies</span></i><span style="font-weight: 400;"> pela jornada de Che Guevara em </span><a href="https://cinemaemcena.com.br/critica/filme/6834/diarios-de-motocicleta"><i><span style="font-weight: 400;">Diários de Motocicleta</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2004), que a escrita conseguiu ser traduzida para o gênero. A mudança entre os planos abertos nas locações, que transmitem um Estados Unidos diferente do habitual, e os planos extremamente fechados nas personas, quase que uma quebra da quarta parede simulada, mostram a ambiguidade que a história carrega.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto é a brilhante contribuição de Eddie Vedder para a trilha sonora do longa, que por si só merecia um texto à parte. Mesmo indo totalmente ao oposto do que apresenta no </span><a href="https://personaunesp.com.br/pearl-jam-ten-30-anos/"><span style="font-weight: 400;">Pearl Jam</span></a><span style="font-weight: 400;">, com o icônico dedilhado do violão, que mesmo sem assistir a obra é provável que você conheça, Vedder entrega uma das obras mais singelas e concisas de toda sua discografia. As músicas conversam totalmente com a ideia do filme e amplificam a mensagem da produção. A trilha, digna de </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, não garfou o careca dourado e levou somente o Globo de Ouro de Melhor Canção Original daquele ano para as mãos de Vedder.</span></p>
<figure id="attachment_28877" aria-describedby="caption-attachment-28877" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28877 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6.jpg" alt="Cena do filme Na Natureza Selvagem. Nela, vemos um livro em inglês. Entre o espaço de um parágrafo para o outro, uma caneta preta escreve de letras maiúsculas a palavra &quot;Happiness&quot;. A imagem é legendada com o texto em cor branca, escrito “happiness only real when shared.”" width="1280" height="624" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6-1024x499.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6-768x374.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Into-The-Wild-Imagem-6-1200x585.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28877" class="wp-caption-text">“A felicidade só é real quando compartilhada” (Foto: Paramount Vantage)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa é muito consciente ao enriquecer filosoficamente a história de Supertramp, sem correr o perigo de ser o principal difusor da imprudente decisão do andarilho. Claro que ele, de certa forma, espalha essa ideia; é inevitável, e com a obra tornando o ato algo mais </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">, pessoas se </span><a href="https://www.uol.com.br/nossa/viagem/noticias/2015/03/17/trilha-no-alasca-segue-os-passos-do-livro-e-filme-na-natureza-selvagem.htm"><span style="font-weight: 400;">inspiraram a partir dele</span></a><span style="font-weight: 400;">. A questão é que o filme tem muito mais material além disso, e o problema está longe de residir no conteúdo da mensagem, mas sim em como ele é recepcionado pelos diferentes tipos de público.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos 15 anos, ao assistir pela primeira vez, </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Natureza Selvagem</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou um dos meus favoritos, pois as concepções sobre a mensagem chegavam em alguém tão idealista e dissimulado quanto Supertramp. Revendo a obra, 15 anos depois de seu lançamento, tal visão mudou, pela única razão de que a ótica da vida também mudou. Nietzsche, outro autor que o longa chega a citar, tinha o conceito de </span><a href="https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/"><i><span style="font-weight: 400;">amor fati</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, amor ao fado (destino), ao pé da letra, cujo significado é aceitar as coisas que chegam até sua efêmera vida – o final já está decretado. E se parte da jornada é o fim, apenas aproveitar a vista seria muito clichê, então, por que não adaptar o olhar para saber quando contemplá-la, nos mais diferentes sentidos da palavra contemplar? Por que não identificar e chamar cada coisa pelo seu devido nome?</span></p>
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		<title>A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2022 20:01:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.” &#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França. Raquel Dutra Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28782" aria-describedby="caption-attachment-28782" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-28782" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28782" class="wp-caption-text">O mês de Julho foi marcado pela discussão acerca dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil e no mundo, e o Clube do Livro do Persona acompanhou o movimento com a escolha de leitura de O Acontecimento, de Annie Ernaux (Foto: Fósforo/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França.</span></em></p>
</blockquote>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao mundo a sua experiência com uma gravidez indesejada e um aborto clandestino na França de 1960, ela com certeza estava ciente da referência filosófica que marcaria a sua obra, mas não imaginava com a mesma intensidade a dimensão da sua representação – e, por consequência, o rompimento que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> provocaria com suas próprias conceituações. É que, enquanto o termo do título evoca a ideia de uma experiência de individuação (como o próprio detentor da “<a href="http://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/ricultsociedade/article/view/12998">filosofia do acontecimento</a>”definiu</span><span style="font-weight: 400;">), todo o desenvolvimento do livro trata de uma história particular vivida a nível universal (mais precisamente, presente em </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/quase-metade-das-gravidezes-no-mundo-%C3%A9-indesejada-aponta-onu/a-61322325#:~:text=A%20cada%20ano%2C%20cerca%20de,de%20acordo%20com%20o%20UNFPA."><span style="font-weight: 400;">quase metade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das vivências em questão do mundo).</span></p>
<p><span id="more-28766"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício de desenvolver as referências filosóficas e leituras sociais de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, são ocorrências restritas ao lugar do leitor. Na linguagem da escritora e professora francesa nascida em 1940 e vista como uma das </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/conheca-annie-ernaux-que-escreveu-para-apagar-uma-traicao-e-se-tornou-best-seller.shtml"><span style="font-weight: 400;">principais vozes feministas</span></a><span style="font-weight: 400;"> da contemporaneidade, não existe nenhuma pretensão. Seu instrumento como literata é a palavra direta e substantiva (como bem traduzem os títulos de seus livros), cujo objetivo é “</span><i><span style="font-weight: 400;">resistir ao lirismo da cólera ou da dor”</span></i><span style="font-weight: 400;"> a fim de construir a verossimilhança da sua experiência, que ela transforma em livro quarenta anos depois. A partir de suas memórias do período registradas em seus diários, Ernaux retorna aos seus 23 anos, quando, depois de deixar um contexto familiar marcado pelo cotidiano interiorano da classe operária francesa do século XX, engravidou contra a sua vontade em meio aos seus estudos sobre Literatura Moderna na Universidade de Rouen, no auge de sua juventude. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas palavras da autora, uma das mais importantes da França na atualidade, a história cria o pano de fundo para um texto que se aproxima de um ensaio, tratando sobre a onipresença da lei e os imperativos que regem o corpo das mulheres ao longo dos anos. Essa prática singular em analisar as relações que existem entre o público e o privado, o concreto e o abstrato, é só o primeiro dos muitos méritos do décimo livro de Annie, que como característica principal da sua Literatura, agraciada com o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Marguerite Duras</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2008, já tem até o seu nome próprio cunhado pelos estudiosos de sua obra: </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">autosociobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em julho de 2022, cinco meses depois da publicação do livro no Brasil pela tradução de Isadora de Araújo Pontes, e quando o Clube do Livro Persona o escolheu como a sua décima leitura, nada se mostrou tão socialmente atual quanto as experiências de Ernaux em 1963.</span></p>
<p><figure id="attachment_28767" aria-describedby="caption-attachment-28767" style="width: 1640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28767 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco da autora Annie Ernaux. Ela é uma mulher de meia idade, branca, tem cabelos lisos claros. Annie está alinhada à esquerda e olha para a câmera. Sua mão direita está apoiada no rosto e ela veste uma camisa em tom médio. Ao fundo, existe uma sala desfocada." width="1640" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg 1640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1024x687.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-768x515.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1536x1030.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1200x805.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28767" class="wp-caption-text">“(&#8230;) A única escrita correta me pareceu ser a recusa de toda ficção, mais tarde chamada de ‘autosociobiografia’, porque quase sempre me baseio numa relação de mim mesma com a realidade sócio-histórica”, refletiu Annie sobre seu quarto livro, O Lugar [Foto: Babelio]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">No dia 24 de Junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos votou de maneira contrária à manutenção do entendimento do aborto como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/entenda-o-que-muda-apos-a-decisao-da-suprema-corte-dos-eua-sobre-aborto.shtml"><span style="font-weight: 400;">direito fundamental</span></a><span style="font-weight: 400;">, até então definido pela lei nacional desde 1973. Na prática, isso quer dizer que o país não tem mais o compromisso de fornecer o método como serviço de saúde pública de maneira universal, o que significa que cada estado fica livre para criar sua própria legislação e entendimento para a questão – e segundo estudos, pelo menos metade deles deve retroceder no que diz respeito à legalização do aborto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que as decisões na chamada “</span><i><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade”</span></i><span style="font-weight: 400;"> impactam os debates dos demais países do globo, mas no Brasil o assunto surgiu de maneira ainda mais urgente: por meio do jornal </span><a href="https://theintercept.com/2022/06/20/video-juiza-sc-menina-11-anos-estupro-aborto/"><i><span style="font-weight: 400;">The Intercept Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tornou-se público um caso de uma menina grávida em decorrência de um estupro aos 11 anos, que foi não só impedida de realizar um aborto legal (embora a atual legislação do país esteja sempre ameaçada), como também orientada pela juíza de seu próprio processo a desistir do procedimento.</span></p>
<p><figure id="attachment_28768" aria-describedby="caption-attachment-28768" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28768 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg" alt="Fotografia de um protesto pela legalização do aborto na Colômbia. A imagem mostra uma mulher em segundo plano segurando uma bandeira verde, que em espanhol, diz “poder decidir”" width="984" height="656" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28768" class="wp-caption-text">Na América Latina, o debate se amplia, com destaque para a recente descriminalização do aborto até a 24ª semana de gestação na Colômbia, em Janeiro deste ano, além das legislações já consolidadas da Argentina (2020) e Uruguai (2012) [Foto: Luisa Gonzalez/Reuters]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desta forma, quando a obra da autora foi colocada em foco diante do mundo novamente, especialmente por conta do sucesso da </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/premiado-em-veneza-o-acontecimento-retrata-solidao-do-aborto/"><span style="font-weight: 400;">adaptação cinematográfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigida por Audrey Diwan, o intervalo de tempo e espaço entre a experiência particular de Ernaux e o aqui e agora não apresentava diferença. Mas antes de qualquer ocorrência de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> se reproduzir na vida real, a voz do livro já identificava o tal fenômeno da atemporalidade através da permanência de suas próprias palavras.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Acabo de achar entre meus papéis essa cena, escrita há vários meses. Percebo que eu tinha usado as mesmas palavras (&#8230;). Essa impossibilidade de dizer as coisas com palavras diferentes, essa união definitiva da realidade passada e de uma imagem que exclui qualquer outra, me parecem a prova de que realmente vivi assim o acontecimento.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Como evidência da importância que a experiência tem para a história e obra autosociobiográfica de Annie Ernaux, existe a própria </span><a href="https://www.livrariamegafauna.com.br/colunistas/rita-palmeira/um-peso-no-ventre/"><span style="font-weight: 400;">presença do assunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é debatido desde a primeira vez que a autora assinou um livro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Armoires Vides</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Os Armários Vazios</span></i><span style="font-weight: 400;">, numa tradução livre), seu romance de estreia publicado na França em 1974, já trazia uma narrativa autobiográfica que introduziu os temas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> com uma conjuração temporal impressionante: um ano antes da interrupção voluntária da gravidez ser legalizada no país.</span></p>
<figure id="attachment_28769" aria-describedby="caption-attachment-28769" style="width: 1881px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28769 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg" alt="Cena do filme O Acontecimento. A imagem mostra a personagem principal esterilizando uma longa agulha com o fogo de um isqueiro. Está de noite e a chama ilumina a foto, capturada por cima do ombro da personagem. O cenário é um quarto." width="1881" height="1382" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg 1881w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-800x588.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1024x752.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-768x564.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1536x1129.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1200x882.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28769" class="wp-caption-text">Em 2021, a adaptação cinematográfica dirigida e roteirizada por Audrey Diwan foi apreciada com o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza (Foto: Zeta Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a História e a biografia já são esferas inicialmente distintas aproximadas pela Literatura de Ernaux, não é desafio nenhum para a autora mesclar um </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/annie-ernaux-escreve-autobiografia-impessoal-em-os-anos/"><span style="font-weight: 400;">caráter metalinguístico</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao livro a fim de refletir sobre seu ofício. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> parte de maneira nada linear de um lugar de observação das relações que as mulheres mantêm sobre si mesmas para analisar a dimensão de poder que a escritora constrói com seu próprio texto – pois essa é a identidade singular de Annie Ernaux, muito influenciada pelas suas formadoras francesas: observar a si mesma para melhor observar o mundo ao seu redor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A consciência direta disso vem junto das suas tomadas de conclusão mais profundas. No nível radical que o texto de Ernaux atinge com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora não só relembra com criticidade a terrível prática da Arte de seguir o hábito da sociedade de não ver valor de representação e legitimidade em determinadas histórias, como coloca toda a relevância de seu ofício justamente nesse lugar. A personagem principal </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">é ela mesma</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jovem em um processo de exercício profundo de suas liberdades, que vive em um embate com as restrições impostas a ela no mundo externo. Assim, Annie toma como trabalho o reportar essa vida de uma mulher que não corresponde aos padrões socialmente impostos ao seu gênero, desde suas motivações até seus arrependimentos.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento &#8211; que ele tenha acontecido e que eu não tenha feito nada dele. (&#8230;) Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28772" aria-describedby="caption-attachment-28772" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28772 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia de Annie Ernaux. A autora está ao centro, num sofá azul. Ela usa uma camisa preta, seus cabelos são claros e lisos. Annie sorri levemente para a foto. Ao fundo, existe uma estante de livros. " width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28772" class="wp-caption-text">No Brasil, apenas outras duas obras de Annie Ernaux foram publicadas: Os Anos e O Lugar, ambas de 2021 (Foto: Ulf Andersen/AFP)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É no ínterim de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Ernaux verbaliza e nomeia de maneira objetiva a sua própria identidade literária, mas foi em seu quarto livro que a autora consolidou sua órbita ao redor de ideais de emancipação e rompimento. </span><a href="https://www.plural.jor.br/colunas/papel-maquina/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O Lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra vencedora do prêmio Renaudot em 1983, que traz sua família para o centro da história, firmou o nome de Annie em seu lugar de relevância para a Literatura contemporânea com uma narrativa firme de distanciamento de suas raízes, um processo realizado em prol de se tornar quem se almeja ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, nenhum símbolo pode dizer mais sobre emancipação e liberdade do que o que marca a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> – não à toa, ele é nomeado assim, de maneira um pouco mais subjetiva do que os títulos costumeiros de Annie Ernaux. Muito mais do que um processo concreto que confere a uma mulher o poder sobre o seu próprio corpo, a autora insere mais uma camada à sua mistura de biografia, história e sociologia, entendo o aborto a partir de uma </span><a href="https://www.revistas.usp.br/nonplus/article/view/149189"><span style="font-weight: 400;">ótica quase filosófica</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma experiência plenamente humana, que permite acesso ao ciclo e aos extremos completo da vida, desde seu início, até o seu fim. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Sei que hoje eu precisava dessa provação e desse sacrifício para desejar ter filhos. Para aceitar essa violência da reprodução no meu corpo e me tornar, por minha vez, lugar de passagem das gerações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei de pôr em palavras isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo, da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre aspirações, significações e conclusões tão amplas sobre a sua experiência, a autora não deixa de sentir o que lhe foi particularmente marcante daquela época: </span><a href="https://revistarosa.com/5/a-dor-da-clandestinidade"><span style="font-weight: 400;">a solidão e o desamparo</span></a><span style="font-weight: 400;">, em nível legal, social, institucional e cultural. O choque vem da simples dificuldade da jovem Annie em enxergar as diferenças de gênero através de seu olhar tão livre e independente, que não vê outro lugar para si mesma se não aquele de completa igualdade com os demais. Nada disso, no entanto, define </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma vez que a obra não existe de maneira a transformar a vida de Annie Ernaux em – literalmente – um livro aberto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, é o que acontece, mas seus relatos íntimos, reflexões metalinguísticas e críticas sociais estão na obra com um objetivo bem definido: destacar a maneira como, além de tudo, essa experiência universal de desapropriação de si mesma causa uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">uniformização violenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> das nossas identidades – o que vai na direção contrária do nosso movimento de emancipação individual e coletivo. No mundo em que vivemos, nenhuma história sobre aborto é só uma história sobre aborto, e nenhuma experiência de violência de gênero </span><a href="https://diplomatique.org.br/quem-sao-elas-o-perfil-das-mulheres-que-abortam-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">é individualizada</span></a><span style="font-weight: 400;"> em seu alvo da vez. E as palavras de Annie Ernaux parecem ser as únicas possíveis para compreender que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> dela nunca foi – e nunca será – só dela.</span></p>
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		<title>star-crossed: a feliz tragédia de Kacey Musgraves</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 22:05:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra O brilho dourado da juventude, do amor e do sucesso era o que reluzia em Kacey Musgraves desde 2018. Em seu quarto disco, a artista country se aproximou do pop para louvar o auge de sua vida e oportunamente nomeou o momento de Golden Hour. Superando seu nicho e os tabus de seu &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/star-crossed-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "star-crossed: a feliz tragédia de Kacey Musgraves"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27095" aria-describedby="caption-attachment-27095" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27095" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine.jpg" alt="" width="1400" height="934" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-jasmine-1200x801.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27095" class="wp-caption-text"><i><span style="font-weight: 400;">As míseras duas indicações ao Grammy 2022 colocam o novo disco de Kacey Musgraves num lugar não tão reluzente quanto o de seu antecessor, mas para a história da artista, é uma obra perfeitamente acertada </span></i>(Foto: Jasmine Safaeian)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O brilho dourado da juventude, do amor e do sucesso era o que reluzia em Kacey Musgraves desde 2018. Em seu quarto disco, a artista </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;"> se aproximou do </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> para louvar o auge de sua vida e oportunamente nomeou o momento de </span><a href="http://musicainstantanea.com.br/resenha-golden-hour-kacey-musgraves/"><i><span style="font-weight: 400;">Golden Hour</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Superando seu nicho e <a href="https://atarde.com.br/cultura/as-mulheres-e-o-rap-sao-os-grandes-vitoriosos-do-grammy-2019-1030911">os tabus</a> de seu gênero, a glória da paixão plena e da ascensão da carreira a levou aos lugares de mais prestígio da Música, onde ela superou todas as adversidades e se consagrou como a detentora do </span><a href="https://www.omelete.com.br/musica/grammy-2019-kacey-musgraves-leva-o-premio-de-melhor-album-do-ano"><span style="font-weight: 400;">Álbum do Ano</span></a><span style="font-weight: 400;"> no </span><i><span style="font-weight: 400;">Grammy</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2019. Mas nos anos seguintes, acabou-se o que era doce. O seu relacionamento com o também cantor </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=HHKd2PcwBAM"><span style="font-weight: 400;">Ruston Kelly</span></a><span style="font-weight: 400;"> chegou ao fim em 2020 e a opulência de seu auge tão aclamado havia se desfeito na volatilidade da Indústria da Música. </span><a href="https://www.culturagenial.com/poema-e-agora-jose-carlos-drummond-de-andrade/"><i><span style="font-weight: 400;">E agora, Kacey?</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> Perguntaram-se as palavras da própria compositora, que ao fim de sua festa em 2021, assumiu para o mundo, ansioso pelo sucessor de seu melhor disco, tudo o que poderia entregar naquele momento: a sua era desafortunada. </span></p>
<p><span id="more-27093"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A decisão não é uma surpresa para a artista que desde seus primeiros discos prefere </span><a href="https://genius.com/Kacey-musgraves-pageant-material-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">perder pelo que é</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> do que ganhar pelo que não é</span></i><span style="font-weight: 400;">. Então, na mesma intensidade com que Kacey Musgraves se entregou à profundidade do amor, ela verdadeiramente encara o seu fim. Através de </span><i><span style="font-weight: 400;">“uma tragédia moderna em </span></i><a href="https://twitter.com/KaceyBrasil/status/1395395205105426432"><i><span style="font-weight: 400;">três atos</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i><span style="font-weight: 400;">, a artista apresenta uma crônica linear para o seu casamento e divórcio, que toma sua forma teatral através das 15 músicas do disco lançado no dia 10 de setembro de 2021. A partir daquele dia, o azul celeste que propagava os raios de ouro na Música de Kacey foi sucedido pelo vermelho inflamado e um tanto intimidador de seu coração pulsante. O momento é de juntar os pedaços e processar o ponto baixo da vida que veio logo depois de seu pico mais alto. Agora, o momento se chama </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27096" aria-describedby="caption-attachment-27096" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27096" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa-1.jpg" alt="" width="800" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa-1.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa-1-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/capa-1-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27096" class="wp-caption-text">A produção do álbum é assinada pela própria Kacey junto de Ian Fitchuk e Daniel Tashian, na mesma colaboração bem-sucedida de Golden Hour (Foto: UMG Recordings)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Deixe-me montar a cena</span></i><span style="font-weight: 400;">”, Kacey inicia seu trabalho de direção emocional quando as cortinas de veludo vermelho de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> são abertas através da primeira faixa do disco. Entre os arpejos dramáticos que nascem de uma harpa angelical e um violão de 12 cordas, ela suspira em cima de um grave harmonicamente áspero para apresentar o prólogo de sua narrativa: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Dois amantes rasgados no âmago/Eles acordaram do sonho perfeito/E então veio a escuridão</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Personagens em cena, ela corre com </span><a href="https://genius.com/Kacey-musgraves-star-crossed-lyrics"><span style="font-weight: 400;">o roteiro</span></a><span style="font-weight: 400;">, assina os papéis que precisam ser assinados e devolve os sobrenomes que precisam ser devolvidos, antes de completar seu primeiro ato que já entrega uma das melhores canções do disco.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando seus vocais se abrem com uma sustentação açucarada, Musgraves solta do fundo de seus pulmões a pergunta amarga de quem procura </span><i><span style="font-weight: 400;">razão nas escolhas feitas pelo coração</span></i><span style="font-weight: 400;">. “</span><a href="https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/111883-o-mito-de-icaro-como-a-falta-ou-excesso-de-seguranca-nos-atinge-hoje.htm#:~:text=D%C3%A9dalo%20avisou%20%C3%8Dcaro%20de%20que,chegando%20mais%20perto%20do%20sol."><i><span style="font-weight: 400;">Voamos alto demais</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> só para sermos queimados pelo Sol?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, indaga a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> à medida que a música se agrava com sua programação de percussão suavemente contundente. Ela continua a pedir clemência aos anjos através de seu coro e suplicar a isenção de culpa de seu antagonista. A conclusão? Cresce junto das guitarras que transformam o rumo da faixa, aparentemente &#8211; e apenas aparentemente &#8211; sobre uma tragédia amorosa. Tão paradoxalmente simples como o fim da canção, ela entende que a história chegou onde chegou porque seus personagens eram </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ah4r5XjBNRo"><i><span style="font-weight: 400;">desafortunados</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="KACEY MUSGRAVES | star-crossed : the film (official trailer)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/tLqt_6W2JXU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A canção-título que inaugura o disco, além de definir magistralmente o tom do trabalho, é só o primeiro exemplo da produção musical perfeita que pode ser encontrada em </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas o seu principal triunfo, na verdade, está em sua capacidade de atender plenamente às expectativas da grandiosa cena de abertura do álbum, que curiosamente contraria o que era esperado para a sua narrativa. Aqui, não existem traições cinematográficas, enormes segredos revelados ou grandes decepções. Surpreendentemente objetiva, Kacey Musgraves ‘apenas’ analisa as complexas tramas que compõem uma relação amorosa entre um homem e uma mulher, desde as influenciadas pelos padrões sociais de gênero até as expectativas individuais de cada um para com o outro, tratando, assim, do </span><a href="https://www.sheknows.com/feature/kacey-musgraves-ruston-kelly-divorce-details-2485187/"><span style="font-weight: 400;">melodrama mais natural</span></a><span style="font-weight: 400;"> da vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É por isso que, depois que o clímax de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> se acalma no coro angelical que encerra a faixa-título, ela nos orienta diretamente para “</span><a href="https://genius.com/Kacey-musgraves-good-wife-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">voltar ao começo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”. A narrativa, então, tem seu início oficial com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eFu1P-BPglE"><i><span style="font-weight: 400;">good wife</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que coloca Kacey Musgraves para interpretar quem ela era no início do casamento: uma jovem mulher intimidada pelos ideais do matrimônio e os padrões que envolvem o ato de ser uma boa esposa. Numa cantoria meio sufocada, ela desenvolve um fluxo de consciência em cima das expectativas, e ensaia concluir que ser disposta, compreensiva, protetora, divertida, forte e apoiadora não seria um fardo tão grande se existisse o mesmo esforço do outro lado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas ela está tão perdida que não vê como problema manter a parceria da relação sozinha, o que, por fim, rasga a sua maior vulnerabilidade diante de nós. “</span><i><span style="font-weight: 400;">E eu não quero ficar sozinha</span></i><span style="font-weight: 400;">”, Kacey desabafa em mais um clímax musical, com a coragem de verbalizar a insegurança mais recorrente e escondida de uma </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/a-historia-da-mulher-ideal-e-onde-isso-nos-coloca/"><span style="font-weight: 400;">geração de mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> treinada para subverter padrões de fragilidade e almejar a independência plena. É que ao mesmo tempo, existe a fraqueza que acomete todo ser humano dotado de emoção: </span><a href="https://twitter.com/mayarabatistas/status/1504502613240385542"><span style="font-weight: 400;">o medo da solidão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, imersa nas expectativas externas, motivações sinceras e necessidades incompreendidas, Musgraves aprofunda o significado do refrão, que com a ajuda da instrumentação mais próxima de um </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> alternativo, adquire um significado muito mais delicado e forte quando ela suplica pela última vez que só quer “</span><i><span style="font-weight: 400;">ser uma boa esposa</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<figure id="attachment_27097" aria-describedby="caption-attachment-27097" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27097" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16.jpg" alt="" width="1800" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-16-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27097" class="wp-caption-text">“Porque ser adulto é meio merda” (Foto: Jasmine Safaeian)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, Kacey chega ao </span><i><span style="font-weight: 400;">dream</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> suave de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OZ3RoAU-NZ0"><i><span style="font-weight: 400;">cherry blossom</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> pronta para confessar seu sentimento contrastante de fragilidade e florescimento diante do amor. Mas conforme o drama de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> processa o momento presente, mais a protagonista dele sente falta do passado, quando a vida acontecia fora das </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/carga-mental/"><span style="font-weight: 400;">grandes responsabilidades</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ela assumiu em sua maturidade. Aí está, então, o que gera o terceiro momento principal do disco e sustenta ainda mais o seu primeiro ato: </span><i><span style="font-weight: 400;">simple times</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os seus sentimentos tão complexos, Musgraves sente falta dos tempos mais simples. E embora suas palavras sejam sutis ao retratar </span><a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0006-59432009000200008"><span style="font-weight: 400;">o casamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> como principal sustentação dessa </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/01/politica/1551460732_315309.html"><span style="font-weight: 400;">sobrecarga emocional</span></a><span style="font-weight: 400;">, suas simbologias não poderiam ser mais representativas no vídeo da canção. Ao figurar com vestes juvenis ao lado de um grupo de amigas que passeia sem compromisso por um </span><i><span style="font-weight: 400;">shopping</span></i><span style="font-weight: 400;"> durante uma tarde qualquer, a artista referencia a adolescência como esse período de liberdade e inocência. O clímax da vez é quando ela destrói uma loja de vestidos de noiva junto de seu clã, levando a sutileza crítica da canção junto com o vidro das vitrines imaculadas.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="KACEY MUSGRAVES - simple times (official music video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/aFDa0Qv9wXA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A essa altura da história, Kacey já sabe que a razão da sua tragédia não é </span><a href="https://www.instagram.com/p/CLccyVfjZv_/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading"><span style="font-weight: 400;">falta de amor</span></a><span style="font-weight: 400;">. Na verdade, sentimento é o que mais existe ali, e na dificuldade de lidar concretamente com tanta subjetividade, ela fantasia uma forma de salvar o seu relacionamento em </span><i><span style="font-weight: 400;">if this was a movie..</span></i><span style="font-weight: 400;">. Adicionando uma camada de metalinguagem à sua própria dramatização, ela imagina como seria se estivesse em um daqueles </span><a href="https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/5064/1/2009_KarinaGomesBarbosa.pdf"><span style="font-weight: 400;">romances </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodianos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que nos fazem acreditar que o amor é tudo o que é preciso para sustentar o relacionamento e salvar um casal em crise. Mas bom,</span> <span style="font-weight: 400;">como bem nota a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> no encerramento de seu primeiro ato, </span><i><span style="font-weight: 400;">isso não é um filme</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A canção, mergulhada numa melodia noturna e envolta em elementos eletrônicos </span><i><span style="font-weight: 400;">vintage</span></i><span style="font-weight: 400;">, é também o que finaliza a definição de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> como </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/08/26/arts/music/kacey-musgraves-star-crossed.html"><span style="font-weight: 400;">o disco mais </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> da carreira de Musgraves até o momento. A familiaridade que a artista tem com o gênero é o que expandiu o alcance do seu timbre doce e acessível, que ninguém acreditava que poderia se encaixar na rusticidade elevada do </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas acontece que Kacey não é nada rústica, como comprova </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">. Envolto numa estética refinadamente densa, criativa e mantendo sua concepção artística do início ao fim, o ponto alto do disco é sua identidade consistente, que define cada verso, cada acorde, cada tom e cada melodia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E para Musgraves, que não cometeu nenhum disco mal executado desde sua estreia em 2013 e que, desde então, já flertou com o </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;">, mergulhou em seu gênero de raiz e se mesclou ao som mais comercial da indústria, nada é impossível. Mestra em se adaptar e extrair o melhor que pode de suas eras, Kacey não deixou o </span><a href="https://www.vogue.com/slideshow/kacey-musgraves-star-crossed"><span style="font-weight: 400;">potencial narrativo e estético</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed </span></i><span style="font-weight: 400;">ser desperdiçado, transformando-o numa obra que existe entre um </span><a href="https://www.primevideo.com/dp/amzn1.dv.gti.b2b75a9b-acbc-47d3-ba0f-4a215f97e75c?autoplay=1&amp;ref_=atv_cf_strg_wb"><span style="font-weight: 400;">álbum visual</span></a><span style="font-weight: 400;"> e um curta-metragem. Na direção de Bardia Zeinali, ela estrela a sua própria história, concretizando toda a sua potencialidade artística.</span></p>
<figure id="attachment_27098" aria-describedby="caption-attachment-27098" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27098" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian.jpg" alt="" width="1800" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-Jasmine-Safaeian-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27098" class="wp-caption-text">No elenco do filme, Kacey conta com a companhia de Victoria Pedretti, Princess Nokia, Megan Stalter, Symone e Eugene Levy (Foto: Jasmine Safaeian)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas para a artista que transforma tudo em possibilidade, os </span><i><span style="font-weight: 400;">singles </span></i><span style="font-weight: 400;">do disco foram um empecilho. Como o primeiro material de divulgação de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">, lançado em 27 de agosto de 2021, </span><i><span style="font-weight: 400;">justified</span></i><span style="font-weight: 400;"> não atendeu às expectativas e não entregou o impacto prometido para o primeiro sinal da esperada nova era de Kacey Musgraves. Dentro da </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;"> completa do disco, a canção se encaixa perfeitamente como a forma de abrir a segunda parte da história, já com uma reflexão íntima sobre </span><a href="https://genius.com/Kacey-musgraves-justified-lyrics"><span style="font-weight: 400;">recuperação e perdão</span></a><span style="font-weight: 400;"> e trazendo a primeira manifestação musical mais </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;"> do quinto álbum da artista. Como faixa isolada, no entanto, sua lírica perdeu boa parte de sua força e sentido, longe de atingir a mesma sensação provocada por qualquer uma das 5 primeiras faixas, todas mantidas em segredo até o lançamento de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O mesmo acontece com a segunda faixa de divulgação do disco, promovida de uma maneira um pouco diferente depois do lançamento, já em janeiro de 2022. A balada de </span><i><span style="font-weight: 400;">camera roll</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi a escolha para a campanha de Kacey no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/grammy-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Grammy</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, onde a artista encontrou mais um obstáculo para </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">. Pelo desempenho de seu primeiro </span><i><span style="font-weight: 400;">single</span></i><span style="font-weight: 400;"> e de seu lançamento, era de se imaginar que o novo disco não teria o mesmo alcance e impacto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Golden Hour</span></i><span style="font-weight: 400;">. E com a referência firme do </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://portalpopline.com.br/concorrentes-queriam-kacey-musgraves-fora-das-categorias-country-do-grammy-diz-site/"><span style="font-weight: 400;">era difícil</span></a><span style="font-weight: 400;"> competir com as obras mais fechadas no gênero e com seus adversários, inflexíveis quanto às obras </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;"> que enfrentariam no prêmio mais importante da Música ao lado do peso do nome de Musgraves.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="KACEY MUSGRAVES - justified (official music video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/i-0PaQanGBc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, Musgraves não sabia onde se encaixar na temporada de 2022. </span><a href="https://portalpopline.com.br/grammy-2022-kacey-musgraves-e-retirada-de-categorias-country-e-comenta/"><span style="font-weight: 400;">Impedida</span></a><span style="font-weight: 400;"> de competir pelo título de Melhor Álbum </span><i><span style="font-weight: 400;">Country</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde marcava presença desde o seu segundo disco, por </span><a href="https://www.vulture.com/2021/10/kacey-musgraves-star-crossed-pop-grammys.html"><span style="font-weight: 400;">decisão da Academia</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Gravação diante da identidade </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> marcante do disco, ela teve de arriscar as abarrotadas categorias gerais e do gênero secundário, onde, infelizmente, a riqueza de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> não encontrou seu lugar. A artista se manifestou, apontando a sua ausência dentre os nomeados do gênero como um prejuízo para os avenços conquistados para as mulheres no </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;">, e alcançou apenas </span><a href="https://www.grammy.com/artists/kacey-musgraves/18025"><span style="font-weight: 400;">duas nomeações</span></a><span style="font-weight: 400;"> por </span><i><span style="font-weight: 400;">cameral roll</span></i><span style="font-weight: 400;">, como Melhor Performance </span><i><span style="font-weight: 400;">Country Solo </span></i><span style="font-weight: 400;">e Melhor Canção </span><i><span style="font-weight: 400;">Country</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de ser o centro das controvérsias e o vetor da desconsideração pelo trabalho de Musgraves, o segundo ato de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, como todo o resto do disco, repleto de joias. Na área dominada pelas letras mais reflexivas da </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">angel</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma dolorida &#8211; e portanto, perfeita &#8211; </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1jS-3q7qIfw"><span style="font-weight: 400;">balada </span><i><span style="font-weight: 400;">country pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, assim como </span><i><span style="font-weight: 400;">easier said</span></i><span style="font-weight: 400;">, que se destaca na seleção das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LGQCQ44PCpQ"><span style="font-weight: 400;">faixas confessionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> do álbum. No entanto, para perturbar ainda mais a mente dos que tentam colocar a obra de Kacey e uma única caixinha e delinear suas críticas, </span><i><span style="font-weight: 400;">breadwinner</span></i><span style="font-weight: 400;"> ascende com uma batida </span><i><span style="font-weight: 400;">soft pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> que tira sarro do frágil ego masculino.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="KACEY MUSGRAVES - breadwinner (very unofficial video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/F9T8ULeBqLY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá atrás, Kacey desabafou que a </span><i><span style="font-weight: 400;">cura não acontece de forma linear</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas depois da 10ª faixa de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela já tem o caminho de recuperação muito bem definido. De volta ao controle consciente do retrato da história, ela parece deixar </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QACXR0J-2UA"><span style="font-weight: 400;">um conselho</span></a><span style="font-weight: 400;"> através da melodia branda de </span><i><span style="font-weight: 400;">hookup scene</span></i><span style="font-weight: 400;">, dizendo que nem tudo de um cenário apaixonado é o que parece ser. Diferente das tendências autodestrutivas do início em </span><i><span style="font-weight: 400;">good wife</span></i><span style="font-weight: 400;">, agora ela reconhece que entregar tudo de melhor que tem em si mesma para um contexto que apenas </span><a href="https://www.music-news.com/news/UK/140713/Kacey-Musgraves-was-dying-inside-before-marriage-split"><span style="font-weight: 400;">te esvazia </span></a><span style="font-weight: 400;">e não te preenche não é a forma correta de se viver um amor, muito menos construir um relacionamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora apreciando a experiência de sua personagem para além de refletir sobre suas dores, Musgraves invoca a força natural de seu gênero original para encher </span><a href="https://genius.com/Kacey-musgraves-keep-lookin-up-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">keep lookin’ up</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de uma sabedoria segura. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu vi a verdade se transformar em mentira/E o verdadeiro amor se transformar em dor”</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela relembra seu cenário inicial para deixar um conselho a partir de sua vivência, no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=x1oTD_b9hyw"><span style="font-weight: 400;">melhor jeito </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;"> de ser</span></a><span style="font-weight: 400;"> e em mais um auge musical de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Continue procurando/Não deixe o mundo te derrubar/Mantenha sua cabeça nas nuvens/E seus pés no chão/Continue procurando</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E ela procura, até encontrar sua </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vRCgBRL0NUo"><span style="font-weight: 400;">luz própria</span></a><span style="font-weight: 400;"> e descobrir que pode </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CC2O5Ad7D30"><span style="font-weight: 400;">sobreviver por si mesma</span></a><span style="font-weight: 400;">. Explodindo sua recuperação em formações mais eletrônicas, ela cede a alguns clichês para louvar seu bem-estar em </span><i><span style="font-weight: 400;">there is a light </span></i><span style="font-weight: 400;">e a sua experiência em </span><i><span style="font-weight: 400;">what doesn’t kill me</span></i><span style="font-weight: 400;">. A dimensão sonora, no entanto, tem a liberdade de apresentar novidades experimentais nos últimos minutos de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">, através de percussões acústicas, instrumentos de sopro, e coros que compreendem desde uma forma mais orgânica até os mais sintéticos, algo que só confirma o sucesso da produção premiada de Kacey Musgraves ao lado de </span><a href="https://www.grammy.com/artists/ian-fitchuk/243238"><span style="font-weight: 400;">Ian Fitchuk</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.grammy.com/artists/daniel-tashian/33716"><span style="font-weight: 400;">Daniel Tashian</span></a><span style="font-weight: 400;">, prenunciada logo no início do disco.</span></p>
<figure id="attachment_27099" aria-describedby="caption-attachment-27099" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27099" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/YASI_01_5444-2.jpg" alt="" width="1200" height="1007" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/YASI_01_5444-2.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/YASI_01_5444-2-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/YASI_01_5444-2-1024x859.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/YASI_01_5444-2-768x644.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27099" class="wp-caption-text">“E se sua tragédia mais sombria se tornasse seu maior triunfo?” (Foto: Jasmine Safaeian)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A dor do fim e o prazer do recomeço se mostram os elementos paradoxalmente fundadores de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;">. E nada melhor para alinhá-los do que uma canção clássica que expressa perfeitamente os ônus e os bônus de estar </span><a href="http://historiaspeloscantos.blogspot.com/2017/07/a-historia-de-gracias-la-vida-cancao.html"><span style="font-weight: 400;">à flor da pele da vida</span></a><span style="font-weight: 400;">. Então, para o encerramento triunfal de sua obra, Kacey Musgraves aproxima sua história dos romances de novelas mexicanas e aos melodramas passionais latinoamericanos, emprestando as palavras de Violeta Parra na canção mais popular do folclore chileno, que se popularizou na voz dos artistas mais importantes da </span><a href="https://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">história da América Latina</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">gracias a la vida</span></i><span style="font-weight: 400;">, agradece a artista ao fim da sua história.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Obrigada à vida, que me tem dado tanto</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Isso me deu risadas e me fez chorar</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Então, eu distingo felicidade de tristeza</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Os dois materiais que compõem minha música</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">E a música sua que é a mesma música</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">E a música de todos é minha própria música</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Obrigada à vida”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A manifestação de </span><i><span style="font-weight: 400;">star-crossed</span></i><span style="font-weight: 400;"> não acontece plenamente no ouvinte que está preso ao que Kacey Musgraves foi. Muito pelo contrário, a obra existe justamente para compreender mais uma face intensa de suas </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/11/quem-e-kacey-musgraves-que-ganhou-o-grammy-desafiando-os-tabus-do-country.htm"><span style="font-weight: 400;">experiências como artista</span></a><span style="font-weight: 400;">. E tamanha é a sua consciência sentimental, artística e estética, que também influencia a forma como ela encara seu tema principal. Se um dia ela criou a partir do cenário mais apaixonante da vida, hoje ela se desenvolve no contexto mais hostil que nela se pode gerar. Mas não existe dor incurável para o coração corajoso que nunca foge do amor. Não existe infortúnio que não se converta em sorte, e disso, Kacey Musgraves sabe bem.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: star-crossed" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/album/6y9LbrjY2TpaLvtbE7FTkc?si=5XfxN6b5R4eypaXbFfIKkw&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Os desconfortáveis 5 anos de Fleabag</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Dec 2021 22:13:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Júlia Trevisan Séries de comédia são sempre um banquete da Televisão. Ora de aspectos feel good nos fazendo pertencer a uma família ou torcer fervorosamente para um time do futebol inglês, ora encarando o humor ácido da vida política, o gênero sempre nos permite pensar com mais leveza sobre as aleatoriedades da vida. Com &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/fleabag-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Os desconfortáveis 5 anos de Fleabag"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_25330" aria-describedby="caption-attachment-25330" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25330" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183-800x335.jpg" alt="" width="800" height="335" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183-1200x503.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/429183.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25330" class="wp-caption-text">Fleabag é um termo pejorativo no inglês britânico que significa “na lama” (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Júlia Trevisan</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Séries de comédia são sempre um banquete da Televisão. Ora de aspectos </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1436809107932073984?t=ntcSM2IUa52Dd79bHl85ZQ&amp;s=19"><i><span style="font-weight: 400;">feel good</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> nos fazendo </span><a href="https://personaunesp.com.br/modern-family-final-critica/"><span style="font-weight: 400;">pertencer a uma família</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou torcer fervorosamente para um time do </span><a href="https://personaunesp.com.br/ted-lasso-2a-temporada-critica/"><span style="font-weight: 400;">futebol inglês</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora encarando o humor ácido da vida política, o gênero sempre nos permite pensar com mais leveza sobre as aleatoriedades da vida. Com espaço de sobra para inovar, a britânica Phoebe Waller-Bridge desafia o gênero com</span><i><span style="font-weight: 400;"> Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;">. A </span><a href="https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/dramedia-o-que-e-isso/"><span style="font-weight: 400;">dramédia</span></a><span style="font-weight: 400;">, que estreou sua primeira temporada em 2016, não tem tabus para falar de solidão, saúde mental, relacionamentos, e claro, sexo. A produção ainda recebe um diferencial tornando a série tão única: todos esses aspectos são representados sob o feroz olhar e consciência feminina.</span></p>
<p><span id="more-25328"></span></p>
<p><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/18-motivos-para-conhecer-e-amar-phoebe-waller-bridge/"><span style="font-weight: 400;">Phoebe Waller-Bridge</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma atriz e escritora que usa a comédia para espalhar suas críticas sociais e políticas. Dentre incontáveis trabalhos, ela é a </span><i><span style="font-weight: 400;">showrunner</span></i><span style="font-weight: 400;"> responsável pelo glorioso primeiro ano de </span><a href="https://personaunesp.com.br/killing-eve-2a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Killing Eve</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mas foi a cirúrgica e destemida </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;">, produzida pela </span><i><span style="font-weight: 400;">BBC Three</span></i><span style="font-weight: 400;"> com coprodução do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/amazon/"><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime Video</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que arrebatou o olhar do público para o unânime e incontestável trabalho de Waller-Bridge, reconhecido com o </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Série de Comédia em 2019, com a segunda temporada da série. Além dela, a produção saiu vitoriosa em mais </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/09/23/fleabag-e-a-grande-vencedora-do-71o-emmy-game-of-thrones-e-melhor-serie-dramatica.ghtml"><span style="font-weight: 400;">três categorias</span></a><span style="font-weight: 400;">, e foi consagrada a grande </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/6-razoes-para-assistir-fleabag-vencedora-do-emmy-e-globo-de-ouro/"><span style="font-weight: 400;">vencedora do Globo de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;"> 2019.</span></p>
<figure id="attachment_25332" aria-describedby="caption-attachment-25332" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25332" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216-800x332.jpg" alt="" width="800" height="332" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216-800x332.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216-1024x426.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216-768x319.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216-1200x499.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555216.jpg 1208w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25332" class="wp-caption-text">O sexo é tema explicito em Fleabag, no entanto, não há cenas de nudez na série (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Pintada como uma série sobre uma mulher viciada em sexo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> está longe de ser meramente sobre isso. Aliás, nem realmente viciada em sexo nossa protagonista &#8211; que nunca é nomeada, adotando assim o próprio nome da série &#8211; é. Em pouco mais de vinte minutos, a produção provoca um tsunami de sentimentos. Do riso ao choro, da vergonha alheia à empatia, nada passa ileso no roteiro absorto e potente de Waller-Bridge. O sexo é sim uma das engrenagens principais da narrativa, assim como a quebra da quarta parede provoca o diferencial da produção. No entanto, o espanto pela liberdade sexual feminina vem da </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/28/cultura/1559033578_028465.html"><span style="font-weight: 400;">falta de produções que tratam da temática</span></a><span style="font-weight: 400;">. As reais peças chaves de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> são as relações interpessoais da protagonista e sua solidão.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O humor da série segue o </span><a href="https://www.ef.com.br/blog/language/humor-britanico-para-iniciantes/"><span style="font-weight: 400;">padrão britânico</span></a><span style="font-weight: 400;">: rápido e sem limites. A aura excêntrica e um tanto bagunçada da personagem principal faz com que a dinâmica de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> evolua ao passar dos episódios. Uma seriedade maior é aplicada ao enredo conforme o luto e a culpa vão ganhando mais camadas e as relações se tornam mais complexas. Entretanto, o sarcasmo se mantém por todos os episódios, fazendo com que </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> permaneça no patamar elevado em que foi colocada. As piadas ordinárias podem soar rude aos menos acostumados, mas é essa posição de público-confidente que gera o cativo pela trama, construindo seu tom pessoal que faz o telespectador gargalhar pelo inadequado.</span></p>
<figure id="attachment_25333" aria-describedby="caption-attachment-25333" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25333" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172-800x331.jpg" alt="" width="800" height="331" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172-800x331.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172-1024x423.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172-768x317.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172-1200x496.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551172.jpg 1210w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25333" class="wp-caption-text">Os relacionamentos de Fleabag se tornam ainda mais complicados após a morte de Boo, sua melhor amiga e sócia (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Somos colocados numa posição onde descobrimos as prestações do passado da protagonista. Logo notamos que ela está sendo </span><a href="https://sonhandoatravesdepalavras.com.br/2020/01/03/o-luto-e-a-solidao-em-fleabag/"><span style="font-weight: 400;">engolida pelo luto</span></a><span style="font-weight: 400;"> e não demora muito para entendermos que ela carrega a dor da perda da mãe e, mais recentemente, a partida da amiga. É essa dinâmica que torna a maratona de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> tão prazerosa. O espectador é confidente, e não obstante, cúmplice do roteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estamos exercendo o papel de quase irmãos siameses da protagonista. É para quem está do outro lado da tela que ela olha, fazendo caras e bocas, e é ela que as câmeras perseguem a cada cena. Estamos tão grudados que conhecemos os personagens apenas pela maneira na qual Fleabag trata eles: o Pai (Bill Paterson), o Cunhado (</span><a href="https://categorianerd.com/brett-gelman-vai-ser-personagem-recorrente-de-stranger-things-4"><span style="font-weight: 400;">Brett Gelman</span></a><span style="font-weight: 400;">), a Madrinha (Olivia Colman). Isso se dá pois o que realmente importa na narrativa é a maneira em que eles se relacionam com a protagonista. As poucas a terem nome são Claire (</span><a href="https://feitoporelas.com.br/tag/sian-clifford/"><span style="font-weight: 400;">Sian Clifford</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Boo (Jenny Rainsford), irmã e falecida melhor amiga, respectivamente.</span></p>
<figure id="attachment_25334" aria-describedby="caption-attachment-25334" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25334" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168-800x332.jpg" alt="" width="800" height="332" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168-800x332.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168-1024x425.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168-768x318.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168-1200x498.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/551168.jpg 1206w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25334" class="wp-caption-text">É na quebra da quarta parede que Fleabag perde totalmente seu filtro (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A construção da relação entre as irmãs reforça que a série trata pessoas com a saúde mental deteriorada. É na tentativa de aproximação das duas que notamos que são os vários problemas daquela irmã poderosa e controladora que a impede de se entregar verdadeiramente a momentos felizes. Isso se junta ao fato de que Fleabag está emocionalmente esgotada com seu luto e seu café &#8211; a ocupação a qual ela dedica sua vida &#8211; falido, somado a vida que vai acontecendo, os problemas de outras pessoas vão surgindo e ela vai ultrapassando os limites emocionais dela. Em cima disso, a sagaz Waller-Bridge consegue falar sobre </span><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/18/mulheres-dificeis-como-o-protagonismo-feminino-tem-mudado-series-de-tv.htm"><span style="font-weight: 400;">relacionamentos abusivos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e como qualquer um está sujeito a entrar no ciclo vicioso que te destrói aos poucos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dando um alívio na ambientação da temporada, em um dos pontos altos do primeiro ano da série, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TwWvB6lHPnY&amp;ab_channel=AmazonPrimeVideo"><span style="font-weight: 400;">Fleabag e Claire</span></a><span style="font-weight: 400;"> vão a um retiro de mulheres. A perspicácia do tema central do episódio é uma sátira à forma na qual homens e mulheres são ensinados a lidar com os próprios sentimentos. As mulheres são mostradas sendo obrigadas a reprimir suas emoções caladas e limpando o chão, enquanto os homens são incentivados a extravasar a infelicidade por meio de gritos.</span></p>
<figure id="attachment_25335" aria-describedby="caption-attachment-25335" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25335" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993-800x329.jpg" alt="" width="800" height="329" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993-800x329.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993-1024x422.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993-768x316.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993-1200x494.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/665993.jpg 1309w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25335" class="wp-caption-text">Depois do sucesso de sua primeira temporada, a série voltou para um segundo ano (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A série explora as diversas facetas do ser humano, tanto dentro como fora das telas, instigando o telespectador a refletir sobre a sociedade e os padrões de comportamento. Aqui, ninguém é ruim ao ponto de merecer um </span><a href="https://mbeck.com.br/blog/hqs/o-que-e-arco-de-personagem"><span style="font-weight: 400;">arco de redenção</span></a><span style="font-weight: 400;">.  Os perdões não são programados, muito menos forçados, e os personagens não se resumem em atitudes isoladas. Tudo é construído em um </span><i><span style="font-weight: 400;">script</span></i><span style="font-weight: 400;"> bem estruturado, que não omite sua melancólica tristeza, disfarçando-as no humor autodepreciativo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi nos palcos do teatro que </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> ganhou vida pela primeira vez. Enquanto estava em exibição, a amiga de Phoebe e premiada atriz </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-pai-critica/"><span style="font-weight: 400;">Olivia Colman</span></a><span style="font-weight: 400;"> prestigiou o espetáculo. Encantada pelo inigualável monólogo, falou à atriz que faria qualquer coisa que ela escrevesse. Dito e feito. Olivia ganhou a responsabilidade de dar vida e forma à Madrasta. A personagem que é uma das mais odiáveis da série recebe chuva de elogios pela atuação &#8211; sempre &#8211; impecável de Colman.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Madrasta é a personagem perfeita para servir de termômetro aos atos da família. É no ambiente </span><i><span style="font-weight: 400;">à la</span></i><span style="font-weight: 400;"> almoço de domingo que as cenas mais intimistas acontecem. Os diálogos passivos-agressivos, o desconforto, as cutucadas, tudo se desenvolve em ritmo crescente até chegar ao desentendimento que pauta o episódio. A personagem de Olivia parece ser uma das únicas a poder ser duramente julgada. As escolhas feitas pelos personagens durante a série refletem os </span><a href="https://valkirias.com.br/fleabag-uma-obra-sobre-solidao/"><span style="font-weight: 400;">traumas conjuntos e particulares</span></a><span style="font-weight: 400;"> que cada um carrega.</span></p>
<figure id="attachment_25336" aria-describedby="caption-attachment-25336" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-25336" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214-800x333.jpg" alt="" width="800" height="333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214-800x333.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214-1024x426.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214-768x319.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214-1200x499.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/555214.jpg 1212w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25336" class="wp-caption-text">Com o luto em voga, a cena que as irmãs se encontram no cemitério é uma das mais extraordinárias da Televisão britânica (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> vem para mostrar como somos patéticos. É tudo inteligente, estranho e desconfortável. E todo o desconforto causado nos seis episódios iniciais é carimbo de excelência no roteiro, que passa do agradável ao trágico em segundos. No capítulo final do primeiro ano, quando as peças que faltavam no quebra-cabeças aparecem, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> atinge o ápice de tudo que propôs durante a temporada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outra narrativa, o público transformaria a protagonista em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jWHH4MlyXQQ&amp;ab_channel=BiscoitoFino"><span style="font-weight: 400;">Geni</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a apedrejaria em praça pública. Mas como esta série é bem escrita e bem interligada, tudo é diferente. Quem assiste cria empatia pela protagonista e entende suas dores. Não é jogo de mocinho ou vilão. A vida não é tão simples assim. De maneira brilhante, Phoebe Waller-Bridge mostra que compreender os erros do passado não deixa ninguém imune aos erros do futuro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo é muito bem escrito, atuado e dirigido. Há cinco anos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> revolucionou o intimismo de se fazer TV. Sua proximidade que transcende as câmeras, e consegue envolver e imergir em apenas 20 minutos, é algo que acontece apenas a cada passagem do </span><a href="https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/astronomia/cometa-halley"><span style="font-weight: 400;">Cometa Halley</span></a><span style="font-weight: 400;">, como foi </span><i><span style="font-weight: 400;">Curtindo a Vida Adoidado</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos anos 80 e como, muito provavelmente, demoraremos para ver o fenômeno se repetir. </span><a href="https://personaunesp.com.br/fleabag-2a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> é coisa de gênia</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
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		<title>30: o amor é um jogo e parece que Adele finalmente aprendeu a jogar</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Dec 2021 17:13:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vinícius Santos “Muito bem, então, estou pronta.” – assim Adele termina a primeira música do seu novo álbum, 30. Acontece que, além dela, ninguém mais estava preparado para o que viria por aí. Lançado no dia 19 de novembro de 2021, este é o quarto CD da carreira da cantora britânica desde sua estreia em &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/30-adele-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "30: o amor é um jogo e parece que Adele finalmente aprendeu a jogar"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_25119" aria-describedby="caption-attachment-25119" style="width: 875px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25119" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/capa_album_30.jpg" alt="Capa do álbum 30, de Adele. Essa é uma foto quadrada. À esquerda da foto é apresentado um close-up do perfil da cantora britânica Adele que toma toda a superfície da imagem. Ela é uma mulher de idade mediana, branca, de cabelos longos e loiros e seus olhos são verde claro. Ao fundo, temos uma visão embaçada com as cores azul escuro e preto. A cantora possui um semblante neutro, sem expressões faciais." width="875" height="875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/capa_album_30.jpg 875w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/capa_album_30-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/capa_album_30-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/capa_album_30-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25119" class="wp-caption-text">Capa de 30, o quarto álbum da cantora inglesa Adele Laurie Blue Adkins (Foto: XL Recordings)</figcaption></figure>
<p><b>Vinícius Santos</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><i><span style="font-weight: 400;">Muito bem, então, estou pronta.</span></i><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i> <span style="font-weight: 400;">– </span><span style="font-weight: 400;">assim Adele termina a primeira música do seu novo álbum, </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;">. Acontece que, além dela, ninguém mais estava preparado para o que viria por aí. Lançado no dia 19 de novembro de 2021, este é o quarto CD da carreira da cantora britânica desde sua estreia em 2008 com o </span><i><span style="font-weight: 400;">19</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Aclamado pelos críticos, Adele </span><a href="https://vogue.globo.com/celebridade/noticia/2021/11/10-revelacoes-feitas-durante-entrevista-de-adele-para-oprah-winfrey.html"><span style="font-weight: 400;">contou à </span><i><span style="font-weight: 400;">Vogue</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em outubro, que a obra era sua maneira de explicar seu divórcio ao filho e estava muito perto de seu coração, dizendo que ela</span><i><span style="font-weight: 400;"> &#8220;não estava desistindo deste&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-25116"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/afp/2021/10/08/adele-quebra-cinco-anos-de-silencio-em-entrevista-confissao-para-vogue.htm"><span style="font-weight: 400;">ela não mentiu acerca do </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Não é atoa que a complexidade de cada emoção, as nuances de sua produção e os mais diversos sentimentos transmitidos em cada letra do álbum fizeram deste </span><a href="https://portalpopline.com.br/30-adele-e-aclamada-pelo-critica-especializada-com-novo-album/"><span style="font-weight: 400;">seu trabalho mais ambicioso até hoje</span></a><span style="font-weight: 400;">. Você pode pensar que esse é um discurso repetido e eu te digo que não está errado. Porém, é de se admirar a forma como Adele se reinventa a cada novo registro e traz, sempre, um novo pedaço de si. Quanto ainda falta para conhecermos 100% de Adkins? </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Adele - Easy On Me (Official Video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/U3ASj1L6_sY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Analisando todas as suas produções, até o momento, esta é a que carrega a </span><a href="https://www.metacritic.com/music/30/adele?ref=hp"><span style="font-weight: 400;">melhor nota da carreira da Adele no </span><i><span style="font-weight: 400;">Metacritic</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">88</span></a><span style="font-weight: 400;">. Anteriormente, a maior média tinha sido 76 com o seu segundo disco. Isso é um triunfo para alguém cujo trabalho lançado em 2011 foi um </span><a href="https://personaunesp.com.br/21-adele-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">recordista de prêmios e recordes</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, enquanto em </span><i><span style="font-weight: 400;">21</span></i><span style="font-weight: 400;"> Adele se esforçava para ensinar o mundo inteiro a chorar, em </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;"> ela abre sua alma e se divorcia, não só de seu ex-marido, Simon Konecki, mas também de si mesma. É isso que faz da cantora londrina uma das estrelas </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> mais admiradas universalmente – ela entrega seu coração ao ritmo e impede que ele fique preso no passado, cristalizado em âmbar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, é difícil imaginar algo mais pessoal do que as bombas de empatia que Adele normalmente deixa cair. Essa individualidade, por assim dizer, se dá pela enorme participação da cantora n</span><span style="font-weight: 400;">a</span><span style="font-weight: 400;"> escrita de todas as canções do disco, sem exceção. Mesmo assim, ela contou com a colaboração de alguns produtores e compositores, como Greg Kurstin, Max Martin e Shellback, que, inclusive, fizeram parte da produção do seu </span><a href="https://personaunesp.com.br/25-adele-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">terceiro álbum, </span><i><span style="font-weight: 400;">25</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e alguns nomes novos como o compositor e produtor de filmes </span><span style="font-weight: 400;">L</span><span style="font-weight: 400;">udwig Göransson e Inflo, além de uma forte inspiração dos </span><i><span style="font-weight: 400;">rappers </span></i><span style="font-weight: 400;">Tyler, The Creator e Skepta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como declarou a própria Adele em resposta à uma fã em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">live </span></i><span style="font-weight: 400;">do </span><i><span style="font-weight: 400;">Instagram</span></i><span style="font-weight: 400;">, esse álbum </span><i><span style="font-weight: 400;">“é sobre divórcio, babe, divórcio”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e só isso já ditou tudo o que poderia vir por aí. A cantora nos contou uma história mais inesperada sobre o amor, infligiu essa dor em sua família, reconstruiu-se a partir do zero e agora tenta amar novamente. A forma como a jovem de 33 anos interage com suas tradições e entra em sincronia com o </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> contemporâneo, </span><i><span style="font-weight: 400;">R&amp;B</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">hip-hop</span></i><span style="font-weight: 400;">, a ajudou a chegar </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2021/11/26/adele-bate-recorde-nas-paradas-britanicas-com-album-30.ghtml"><span style="font-weight: 400;">quebrando recordes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e se consolidando como o </span><a href="https://edition.cnn.com/2021/11/27/entertainment/adele-music-album-chart-fastest-sales-record-scli-intl/index.html"><span style="font-weight: 400;">álbum mais vendido de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_25117" aria-describedby="caption-attachment-25117" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25117" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2.jpg" alt=" Imagem do show especial de Adele, chamado One Night Only, em Los Angeles. Essa é uma foto retangular. No centro da foto, com um foco mais significativo, temos a cantora britânica Adele segurando um microfone e performando, com grande empenho, uma de suas músicas. Ela é uma mulher de idade mediana, branca, de cabelos longos e loiros e seus olhos são verde claro. Seus cabelos estão presos em um coque volumoso e alto com alguns fios soltos, usando um brinco grande dourado de esfera com um arco grande em volta, simulando o planeta Saturno. Ela veste um vestido preto com uma manga princesa volumosa. Ao fundo, temos uma imagem desfocada da entrada do Observatório Griffith. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Adele-CBS2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25117" class="wp-caption-text">Adele celebra o lançamento do álbum 30 com um show especial direto de Los Angeles (Foto: CBS)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Fruto de uma colaboração com Göransson, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EFIfRhk8NRc"><i><span style="font-weight: 400;">Strangers By Nature</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> abre as cortinas para o que vai ser o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">de Adele. Inspirada pelas canções de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=PSZxmZmBfnU"><span style="font-weight: 400;">Judy Garland</span></a><span style="font-weight: 400;">, a cantora sente suas relações passadas de uma forma tão dramática e desesperada que mais parece uma mistura de </span><i><span style="font-weight: 400;">Somewhere Over the Rainbow </span></i><span style="font-weight: 400;">com os choros de uma divorciada consolada. </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Vou levar flores para o cemitério do meu coração&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela lamenta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em nome de Adele, do Senhor e de seu filho Angelo, Deus abençoe a sagrada </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=U3ASj1L6_sY"><i><span style="font-weight: 400;">Easy On Me</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a balada de piano com uma abertura sublime e que mais uma vez prova que Adkins pode fazer mágica com uma única sílaba. Essa culpa e esperança de ser compreendida por seu filho, inclusive, rende um dos materiais mais ricos do disco. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zIF70l1zUKU"><i><span style="font-weight: 400;">My Little Love</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é de longe o diamante bruto do álbum – ela inclui gravações particulares de conversas ternas na hora de dormir entre Adele e Angelo à medida em que eles se ajustam ao divórcio. </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Você sente a dor do meu passado?&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela pergunta, quebrando seu coração.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é uma das cinco músicas em </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;"> que se espalham além da marca dos seis minutos. Ao final da faixa, temos a versão de Adele em uma nota de voz crua onde ela admite que, pela primeira vez em anos, se sente realmente e verdadeiramente solitária. É difícil ouvi-la assim, alguém que é facilmente capaz de superar um poço de emoções, admitindo de forma clara que está quebrada e aterrorizada.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“Estou tendo um dia ruim, um dia bastante ansioso</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Me sinto paranóica, me sinto muito estressada</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Hum, estou de ressaca, o que nunca ajuda, mas</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Eu sinto que hoje é o primeiro dia desde que fui embora que me sinto solitária</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">E eu nunca me sinto solitária, eu adoro ficar sozinha</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Eu sempre preferi ficar sozinha do que ficar com pessoas</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">E sinto que, talvez, eu esteja compensando</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Ao sair e coisas assim, para manter minha mente longe dele</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">E sinto que hoje, estou em casa, e quero estar em casa</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Eu só quero ver TV e me enrolar em uma bola</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">E ficar de pijamas e coisas assim</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Eu me sinto realmente solitária</span></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Estou com um pouco de medo de me sentir assim sempre”</span></p>
</blockquote>
<figure id="attachment_25118" aria-describedby="caption-attachment-25118" style="width: 962px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25118 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/an-audiente-with-adele.png" alt="magem do concerto especial chamado An Audience With Adele, em Londres. Essa é uma foto retangular. No centro da foto, com um foco mais significativo, temos a cantora britânica Adele com um sorriso expressivo. Ela é uma mulher de idade mediana, branca, de cabelos longos e loiros e seus olhos são verde claro. Seus cabelos estão soltos e ela usa um brinco dourado grande em forma de espiral. Ela veste um vestido preto cravejado com alguns brilhos e de manga simples. Ao fundo, temos uma imagem desfocada da parte interna do palco do London Palladium." width="962" height="462" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/an-audiente-with-adele.png 962w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/an-audiente-with-adele-800x384.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/an-audiente-with-adele-768x369.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25118" class="wp-caption-text">Adele se apresenta no London Palladium diante de uma plateia de familiares, amigos, fãs e celebridades em uma noite de música inesquecível (Foto: Canal ITV)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de todas essas reparações e desculpas, Adkins traz o que já estávamos acostumados, com duas faixas </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">mais curtas sobre relacionamento, novamente. A primeira, intitulada </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=PfwIpoVMvNs"><i><span style="font-weight: 400;">Oh My God</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mostra um refrão viciante e prova que os tiques vocais de Adele podem fazer muito para caracterizar uma canção. Certeza que você também vai se imaginar dançando em uma festa alternativa e </span><i><span style="font-weight: 400;">cult</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao som dessa faixa eletrizante. Se pode </span><a href="https://personaunesp.com.br/equals-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ed Sheeran</span></a><span style="font-weight: 400;">, por que não Adele? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Felizmente, podemos dizer o mesmo de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w6VpznmUoaM"><i><span style="font-weight: 400;">Can I Get It</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma produção um pouco fora da realidade dos profissionais Max Martin e Shellback, e com um refrão que expressa um relacionamento mal compreendido. Isso não é surpresa, já que muitas das grandes canções desse meio tratam do mesmo assunto, ainda mais em um álbum que caminha rumo à declaração de um alguém que procura entender os fenômenos e acontecimentos de toda uma história melancólica. Esta foi uma tacada certeira dos produtores, afinal, em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">track list </span></i><span style="font-weight: 400;">como a de </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;">, a faixa pode ser o pedido certo em algumas rádios </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">e talvez até </span><i><span style="font-weight: 400;">country</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Generosa, fundamentada e com uma letra abundante em clichês, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=axUh_2fTLe4"><i><span style="font-weight: 400;">I Drink Wine</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">pode muito bem ser uma canção de bar, ou até mesmo confundida com alguma produção de Elton John. Carregada de fortes tons evangélicos e um memorando de voz introspectivo no final, Adele serve a mesma receita que parece ter dado certo para a famosa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=PVjiKRfKpPI"><i><span style="font-weight: 400;">Take Me To Church</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do músico e cantor irlândes Hozier. A canção abre com um verso sobre sua infância como um meio de perspectiva sobre como ela se afastou de si mesma.</span></p>
<figure id="attachment_25120" aria-describedby="caption-attachment-25120" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25120" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards.jpg" alt="Imagem da apresentação de Adele na premiação NJR Music Awards que foi realizada em Cannes, na França. Essa é uma foto retangular. No centro da foto, com um foco mais significativo, temos a cantora britânica Adele performando, com grande empenho e sentimentos, sua música Easy On Me. Ela é uma mulher de idade mediana, branca, de cabelos longos e loiros e seus olhos são verde claro. Seus cabelos estão presos em um coque simples e ela usa um brinco dourado médio de pérolas. Ela veste um vestido preto de saia mediana e volumosa, sobreposto por um tecido de renda e manga longa de mesmo estilo e formato. Ao fundo, temos uma imagem desfocada da parte interna do palco do Palais des Festivals. " width="2048" height="1364" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards-1536x1023.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/njr_awards-1200x799.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25120" class="wp-caption-text">Adele performou a música Easy On Me no NRJ Music Awards 2021 na França<br />(Foto: TF1)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vjtbafmOjcY"><i><span style="font-weight: 400;">All Night Parking</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> aparenta ser, para </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;">, o mesmo que</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=TyAoW20UKGU"><i><span style="font-weight: 400;">Sweetest Devotion</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> foi para o </span><i><span style="font-weight: 400;">25. </span></i><span style="font-weight: 400;">É uma canção legal e que carrega bastante significado, mas parece que será esquecida no churrasco. Com humildade, Adele aterrissa firme e deliciosamente em uma melodia que acalma a alma </span><span style="font-weight: 400;">–</span> <i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Eu sei que é difícil, mas não é&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. Já em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jptpkiCVfAs"><i><span style="font-weight: 400;">Woman Like Me</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ela veste um tom mais sério e amoroso em um </span><i><span style="font-weight: 400;">neo-soul</span></i><span style="font-weight: 400;"> lentamente desabrochante, e acaba revelando mais sobre suas próprias prioridades. </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;A complacência é o pior traço a ter, você está louco?&#8221;,</span></i><span style="font-weight: 400;"> canta em uma voz baixa e segura, com uma pitada de decepção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=yoHS2T32Z5o"><i><span style="font-weight: 400;">Hold On</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não se tem muito o que falar. A faixa é mais uma das que se estende por mais de 6 minutos e é incrivelmente perfeita. Ao ouvir o álbum, você pode acreditar que a canção tem como objetivo o clímax emocional do </span><i><span style="font-weight: 400;">30</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém essa honra pertence à aclamada </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_dlExeOyFh4"><i><span style="font-weight: 400;">To Be Loved</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mais do que só uma música, a oração carrega uma performance vocal avassaladora, bem como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sonzlE32YVg"><i><span style="font-weight: 400;">All I Ask</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do antigo </span><i><span style="font-weight: 400;">25</span></i><span style="font-weight: 400;">. Aliás, ela declarou que não a performará ao vivo e que só a cantou algumas vezes, incluindo uma gravação de vídeo onde o poder de sua voz distorce o áudio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Co-escrita com Tobias Jesso Jr., </span><i><span style="font-weight: 400;">To Be Loved</span></i><span style="font-weight: 400;"> é cantada para um Angelo adulto como uma explicação do porquê do casamento dos pais não ter funcionado. Adkins é no início digna, depois desesperada para transmitir os altos riscos do amor, e a performance é uma maravilha de controle e fraseado que faz comparações com as grandes como </span><a href="https://www.antena1.com.br/artistas/whitney-houston"><span style="font-weight: 400;">Whitney</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://musicnonstop.uol.com.br/aretha-franklin-a-rainha-do-soul-aniversariou-esta-semana-conheca-sua-historia-enquanto-ouve-nossa-playlist-especial/"><span style="font-weight: 400;">Aretha</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isto é o que Adele faz de melhor: cria um mundo de sentimento a partir de pouco mais do que sua voz e depois o leva à beira do abismo. Ela é sábia o suficiente para oferecer um travesseiro suave com a faixa de fechamento </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oPmMUZbnc3o"><i><span style="font-weight: 400;">Love Is A Game</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mas agora o dano já está feito!</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: 30" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/album/21jF5jlMtzo94wbxmJ18aa?si=nDInXgroRSGWCXF_hgB_lQ&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Os M’s de Maid: maternidade, machismo e meritocracia</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 15:22:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathalia Tetzner e Thuani Barbosa Retratando um cenário particular que reflete as diferentes realidades da maternidade, Maid exibe com fidelidade o machismo e a falta de oportunidade vivenciada por mães que sofrem com algum tipo de violência. A minissérie original da Netflix estreou arrebatando emoções e nos obrigando a preparar os lencinhos. Jovem, Alex (Margaret &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/maid-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Os M’s de Maid: maternidade, machismo e meritocracia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24910" aria-describedby="caption-attachment-24910" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24910" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem Alex e Maddy passeiam por uma floresta. A mãe branca e de cabelo preto veste um colete de tom roxo escuro por cima de uma blusa de manga comprida no tom azul escuro. Ela também usa um gorro azul enquanto carrega a sua filha no ombro. A criança tem a pele branca e o cabelo loiro, ela veste uma jaqueta cinza com estampa infantil acompanhada de um suéter amarelo mostarda" width="1024" height="682" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-1-11-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24910" class="wp-caption-text">Em entrevista, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hDMPqh310dQ">Margaret Qualley</a> falou sobre como foi importante passar tempo com Riley além do momento das gravações, para que conseguissem capturar uma essência mais autêntica como mãe e filha (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Nathalia Tetzner e Thuani Barbosa</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Retratando um cenário particular que reflete as diferentes realidades da </span><a href="https://maesqueescrevem.com.br/maternidade-acesso-a-educacao-e-a-falacia-da-meritocracia-por-nayara-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid </span></i><span style="font-weight: 400;">exibe com fidelidade o machismo e a falta de oportunidade vivenciada por mães que sofrem com algum tipo de violência. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=M4nrGje_pyc"><span style="font-weight: 400;">minissérie</span></a><span style="font-weight: 400;"> original da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreou arrebatando emoções e nos obrigando a preparar os lencinhos. Jovem, Alex (Margaret Qualley) larga os estudos e o sonho de ser escritora para cuidar da filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet), mal sabendo que no futuro, o conjunto de registros realizados durante o seu trabalho como faxineira a salvariam. </span></p>
<p><span id="more-24909"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspirado no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother&#8217;s Will to Survive</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">que conta a história da adolescência e maternidade de Stephanie Land</span><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> o drama conta com a direção de </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-news/shameless-boss-john-wells-sets-maid-dramedy-at-netflix-1256579/"><span style="font-weight: 400;">John Wells</span></a><span style="font-weight: 400;">, produtor da aclamada série </span><a href="https://personaunesp.com.br/shameless-11a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Shameless</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> A estreia foi bem recebida pelo público, ficando vários dias entre </span><a href="https://pipocasclub.com.br/2021/11/14/maid-supera-o-gambito-da-rainha-mais-assistida/"><span style="font-weight: 400;">as mais assistidas no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. O seriado aborda as vivências de Stephanie de forma muito sensível e verdadeira, contendo cenas extremamente sentimentais e subjetivas, daquelas em que o público pode sentir o que o personagem sente, criando uma espécie de aproximação e intimidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao som da música predileta de Maddy, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4vaN01VLYSQ"><i><span style="font-weight: 400;">Shoop</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">do grupo Salt-N-Pepa, Alex e sua filha dirigem sem rumo para longe do </span><i><span style="font-weight: 400;">trailer </span></i><span style="font-weight: 400;">conturbado no meio da floresta. Graças ao roteiro de </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/series-e-tv/2021/10/criadora-de-maid-ajuda-grupos-de-apoio-a-mulheres-apos-serie"><span style="font-weight: 400;">Molly Smith Metzler</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de não conseguir tirar o refrão viciante da cabeça, a audiência também se solidariza com as personagens logo no início da trama. Fato que acaba sendo ótimo e terrível ao mesmo tempo: cada reviravolta do enredo é sentida como um soco no estômago por quem assiste.</span></p>
<figure id="attachment_24913" aria-describedby="caption-attachment-24913" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24913 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem Alex olha distraidamente para sua frente. Alex tem a pele branca, seus cabelos estão amarrados e são ondulados e de tons castanho escuro, veste blusa cinza e moleton azul escuro e brinco pequeno azul. Ao fundo, uma estante com vários produtos de limpeza e um aspirador de pó." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3481694-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24913" class="wp-caption-text">A história de Alex é similar a de muitas mulheres brasileiras; no canal do YouTube da Netflix, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=_R9Zs4-c_bw">Stephanie Land lê comentários do Twitter</a> de outras jovens que saíram de relacionamentos abusivos (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Grande parte dos episódios é dedicada a exibir as dificuldades financeiras enfrentadas por Alex, que foge de um relacionamento aprisionador que a privou de seu dinheiro e trabalho. Assim, ela recorre aos auxílios do governo, mas eles vem com toneladas de burocracia, criando uma sensação de inferioridade que a faz em certos momentos viver situações irreais onde é humilhada. Como, por exemplo, quando imagina estar sendo chamada de desempregada fracassada e inútil. Fato que se torna um ponto a menos para a </span><a href="https://brasil.elpais.com/economia/2021-07-18/a-meritocracia-e-uma-armadilha.html"><span style="font-weight: 400;">meritocracia</span></a><span style="font-weight: 400;">, já que ela precisa e realmente merece ajuda para ter uma vida melhor, mas as condições para conseguir são tão adversas que tornam a ajuda governamental despreparada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esbanjando histórias reais, a criação conta com a atuação de Margaret Qualley e Andie MacDowell (Paula), como mãe e filha. </span><span style="font-weight: 400;">Além de dividirem a tela, elas </span><a href="https://osegredo.com.br/atrizes-da-serie-maid-tambem-sao-mae-e-filha-na-vida-real-esse-foi-seu-primeiro-trabalho-juntas/]"><span style="font-weight: 400;">compartilham dos mesmos genes talentosos</span></a><span style="font-weight: 400;">, extraindo o melhor da intimidade familiar para as cenas em que contracenam</span><span style="font-weight: 400;">, por mais que vivam em pé de guerra devido a leviandade de Paula e as exigências de Alex para colocá-la na linha, mas esses podem ser considerados os menores problemas. Paula vive em constante negação sobre a violência psicológica e financeira que a consome, sempre se envolvendo em relacionamentos infundados com homens que sem real interesse nela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de uma decisão criativa assustadora, a tomada de consciência sobre o ciclo de abuso vivido por Alex ocorre com a narrativa de um ladrão que realmente existe, o </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/series-e-tv/2021/10/maid-a-historia-real-e-o-que-aconteceu-com-o-ladrao-billy"><span style="font-weight: 400;">Billy Pé Descalço</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para satisfazer o roteiro, o roubo de salgadinhos e a relação conturbada com a mãe definem o adolescente na minissérie. Obcecada em entender os cadeados e a coleção nazista do casarão que limpava, a nossa protagonista passa por um processo de identificação com Billy. Trancada no sótão do ladrão é que ela recupera a memória de se esconder nos armários da cozinha enquanto seu pai agredia a sua mãe.</span></p>
<figure id="attachment_24914" aria-describedby="caption-attachment-24914" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24914" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12.jpg" alt="Cena da série Maid, na imagem estão Alex e Paula, Alex interpretada por Margaret Qualley e Paula, interpretada por Andie MacDowell. Alex tem a pele branca, seus cabelos estão amarrados e são ondulados e de tons castanho escuro, veste suéter verde bandeira. Paula tem a pele branca, seus cabelos são cacheados, longos e estão amarrados e de tons grisalhos, veste uma bata de hospital, a imagem não mostra calças. Alex está de costas para a câmera, já Paula alimenta um sorriso aberto mas tentando passar um olhar de tranquilidade. Ao fundo, ambas estão em um quarto de hospital." width="900" height="540" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12.jpg 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-3-12-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24914" class="wp-caption-text">A cumplicidade nos olhos de Paula parece genuína quando colocada em imagens, mas ao ver a cena, percebesse uma mulher confusa e emocionalmente ferida, partindo corações na esperança que ela se encontre outra vez (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em projetos que abordam o ponto de vista feminino da sociedade, é de extrema importância saber se por trás das câmeras existe </span><a href="https://mulhernocinema.com/numeros/estudo-programas-produzidos-por-mulheres-empregam-mais-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">representação</span></a><span style="font-weight: 400;">. Quem assina a produção de </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid </span></i><span style="font-weight: 400;">é a </span><i><span style="font-weight: 400;">LuckyChap Entertainment</span></i><span style="font-weight: 400;">, empresa comandada pela atriz </span><a href="https://margotrobbie.com.br/margot-robbie-conversa-com-o-wsj-sobre-a-nova-serie-da-netflix-maid/"><span style="font-weight: 400;">Margot Robbie</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que tem como foco obras desenvolvidas por mulheres. Não por acaso, a minissérie usufrui do mesmo recurso visual presente nos filmes </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=M2LMRXkAZSY"><i><span style="font-weight: 400;">Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020)</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/bela-vinganca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020)</span></a><span style="font-weight: 400;"> da mesma equipe.</span> <span style="font-weight: 400;">Essa predileção utilizada funciona como um espelhamento de tela, mas dos pensamentos de Alex. Sempre que complicações financeiras surgem, os números de sua conta bancária ou os cálculos de seus custos aparecem na tela, aumentando ou diminuindo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de Alex e Paula, a trama conta com outras vítimas de violência doméstica, como Danielle (Aimee Carrero), </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=halfuvOMGoo"><span style="font-weight: 400;">moradora do apartamento 23</span></a><span style="font-weight: 400;"> da casa de acolhimento. Sendo sua terceira vez no abrigo, ela já conhece a burocracia e ajuda Alex a sair do fundo do poço, mostrando a jovem que precisa revidar os estigmas negativos que a sociedade e a justiça impõe às mulheres principalmente as que decidem se rebelar, taxadas como loucas, mentirosas e mães despreparadas. Denise, interpretada por BJ Harrison, é outra peça fundamental para deixar o coração do público ainda mais frágil. As conversas extremamente necessárias que ela tem com Alex servem tanto para a reflexão da protagonista quanto do espectador, acrescendo uma dose a mais de humanidade e carinho.</span></p>
<figure id="attachment_24915" aria-describedby="caption-attachment-24915" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24915" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Imagem-4.gif" alt="Gif de Alex e Maddy em um quarto infantil de tons pastéis. A mãe branca e de cabelo preto veste um colete azul por cima de um moletom cinza. Ela carrega e gira a sua filha, uma criança branca e de cabelo loiro. Maddy veste uma blusa de manga comprida cinza enquanto sorri no colo de Alex." width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-24915" class="wp-caption-text">Apesar de ser ambientada nos Estados Unidos, Maid foi gravada na <a href="https://technewsbrasil.com.br/onde-maid-da-netflix-foi-filmada/">Colúmbia Britânica</a>, uma província canadense (GIF: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Chega a ser difícil apontar defeitos na produção devido a extrema qualidade do produto, mas alguns pontos valem ser destacados: a atuação de Nick Robinson como Sean, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hDMPqh310dQ"><span style="font-weight: 400;">totalmente diferenciada de tudo que já vimos do ator</span></a><span style="font-weight: 400;">, acostumado a  trabalhar com papéis mais jovens, colegiais e com um quê de bom moço, como em </span><a href="https://personaunesp.com.br/com-amor-simon-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Com Amor, Simon</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Além de Robinson, Andie MacDowell demonstrou relutância para aceitar o papel pois via Paula como uma personagem muito desafiadora. Ainda que inesperados, ambos surpreendem em suas performances, mostrando um novo leque de possibilidades artísticas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na emocionante </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_nzgQcH0Vyc"><span style="font-weight: 400;">cena final</span></a><span style="font-weight: 400;">, a jovem mãe finalmente caminha com a sua filha até o topo de uma montanha em Missoula, cidade em que ela voltará a estudar para se tornar uma escritora. No ponto mais alto, há um M gigantesco que Alex atribui o seu significado a Maddy e esse novo mundo que será todo dela. Para nós telespectadores, a décima terceira letra do alfabeto nomeia aspectos essenciais de </span><i><span style="font-weight: 400;">Maid</span></i><span style="font-weight: 400;">: a maternidade, o </span><a href="https://www.folhape.com.br/colunistas/uma-serie-de-coisas/enredo-de-maid-destaca-ciclo-de-violencia-domestica-em-geracoes/27659/"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a meritocracia.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: This Is Paper Jackets" style="border-radius: 12px" width="100%" height="380" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/41EFpdLgoVJoyDr0qSZcFR?si=9efaedf04a944a3b&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Belo Mundo, Onde Você Está: as frustrações do mundo jovem adulto</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2021 17:54:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Isabella Siqueira Lançado em setembro de 2021, Belo Mundo, Onde Você Está (Beautiful World, Where Are You) é o terceiro romance de Sally Rooney, célebre escritora conhecida pelo sucesso Pessoas Normais. Lançado simultaneamente no Brasil, o livro discorre sobre as incertezas e inseguranças do mundo jovem adulto, assunto já consolidado na literatura da autora inglesa.  &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/belo-mundo-onde-voce-esta-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Belo Mundo, Onde Você Está: as frustrações do mundo jovem adulto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24339" aria-describedby="caption-attachment-24339" style="width: 550px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24339" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/f0b891d1-ca43-4d87-a300-a7780f649fd2.jpg" alt=" Capa do livro Belo Mundo, Onde Você Está. Na imagem, há uma capa azul, com o logo da editora Companhia das Letras na parte inferior esquerda da foto. O nome da autora, Sally Rooney, está escrito em letras maiúsculas pretas na parte central superior da página. Embaixo do nome da autora, está localizado o título da obra também em letras pretas e maiúsculas. Na foto, estão localizados quatro personagens cortados ao meio por faixas amarelas. " width="550" height="824" /><figcaption id="caption-attachment-24339" class="wp-caption-text">Belo Mundo, Onde Você Está é o terceiro romance da escritora inglesa, que lançou também os livros Pessoas Normais e Conversas Entre Amigos (Foto: Editora Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Isabella Siqueira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em setembro de 2021, </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Beautiful World, Where Are You</span></i><span style="font-weight: 400;">) é o terceiro romance de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=05555"><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;">, célebre escritora conhecida pelo sucesso </span><a href="http://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas Normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Lançado simultaneamente no Brasil, o livro discorre sobre as incertezas e inseguranças do mundo jovem adulto, assunto já consolidado na literatura da autora inglesa. </span></p>
<p><span id="more-24338"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney é um fenômeno inegável. Seus livros são tão familiares para a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57938082"><span style="font-weight: 400;">geração </span><i><span style="font-weight: 400;">millennial</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, representada no romance </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> pela melancolia que sentem. Se engana quem pensa que a obra fala sobre dois casais e suas histórias românticas ideais, Rooney se aprofunda em quatro personagens diversos, explorando suas frustrações e o caminho confuso de suas vidas sentimentais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas Normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, Sally Rooney opta por detalhar cada aspecto da rotina cotidiana, evidenciando a neurose dos jovens com a vida que levam, ao mesmo tempo dando certa densidade psicológica para o romance. A escrita clássica da autora também vai tomando outras formas, grande parte da narrativa do livro se dá em longos </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;">, que parecem terem sido escritos sem um único respiro, em uma espécie de fluxo de pensamentos interminável. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“E quem sou eu para pedir humildade e franqueza dos outros? O que eu já dei ao planeta para pedir tanto em troca? Eu poderia me desintegrar em um monte de poeira que o mundo não daria a mínima, e é assim que tem que ser.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tradução de Débora Landsberg, o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/09/novo-livro-de-sally-rooney-de-pessoas-normais-parece-escrito-para-adolescentes.shtml"><span style="font-weight: 400;">romance</span></a><span style="font-weight: 400;"> não possui uma trama definida, o leitor não recebe uma história com um caminho certo ou previsível. A história, tal qual o mundo jovem adulto na maioria dos casos, é feita de incertezas e indecisões. A trama apresenta quatro personagens principais: Alice, Felix, Eileen e Simon, jovens em seus quase 30 anos que possuem características e debates interiores sensacionais. O ponto de encontro desse grupo de pessoas é a amizade de Alice e Eileen, duas colegas de faculdade que estão distantes fisicamente, mas que permanecem em contato por meio da correspondência eletrônica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Presente no contexto editorial, Alice é uma jovem escritora assustada com o sucesso inusitado que enfrentou com o lançamento de seus dois primeiros romances. Sally Rooney opta por discutir a Literatura contemporânea pela ótica e perspectiva da personagem, que além de ser cética quanto ao rumo da coisa toda, que parece não enfrentar o mundo, também se sente intimidada com os compromissos profissionais da carreira literária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após um surto, a personagem opta por deixar para trás o universo editorial de Dublin, Nova York e Londres, se refugiando numa pequena cidade da Irlanda. É nesse cenário que Alice conhece Felix, o homem mais distante do mundo literário possível. De certa forma, ele se distancia também de todos outros protagonistas, fazendo parte da vida real. O casal se conhece pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Tinder </span></i><span style="font-weight: 400;">e, após um primeiro encontro horrendo, acabam construindo uma relação difícil de definir. </span></p>
<figure id="attachment_24340" aria-describedby="caption-attachment-24340" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24340" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund.jpg" alt="Na imagem, a autora Sally Rooney está posando para uma foto de perfil. Posando em um fundo que está desfocado, a escritora é uma mulher branca com cabelos castanhos e médios. Ela está posicionada com seus braços ao lado dentro de um bolso. Além disso, a autora também veste uma camisa branca, com uma saia xadrez em azul e verde, que está presa por um cinto marrom. Ao fundo está um campo com grama e árvores. " width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24340" class="wp-caption-text">Após a adaptação de Normal People como minissérie em 2020, o romance Conversas Entre Amigos será adaptado como uma série também pelo selo Hulu e BBC (Foto: Ellius Grace)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão da classe social cria tensões que não separam o casal, mas demarcam a diferença gritante entre a realidade de ambos. Felix trabalha como empacotador em depósito, um </span><a href="http://personaunesp.com.br/nomadland-critica/"><span style="font-weight: 400;">subemprego braçal</span></a><span style="font-weight: 400;"> e distante da complexidade intelectual do trabalho de Alice em seu mundo literário. Impulsivo e inquieto, o personagem possui uma tendência absurda para a autossabotagem, sempre fazendo comentários insensíveis e tomando atitudes questionáveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivendo separada da amiga em Dublin, Eileen é lembrada pela insegurança e solidão que sente. A personagem herdou essas características de suas relações familiares, com quem mantém um rancor particular, principalmente, com sua irmã Lola, cujo casamento iminente parece estressar Eileen ainda mais. Além do término recente com o namorado de longa data, a vida profissional pouco ajuda a mulher, que está muito distante do </span><i><span style="font-weight: 400;">glamour </span></i><span style="font-weight: 400;">e reconhecimento da amiga, possuindo um emprego que odeia em uma revista literária e a famosa instabilidade financeira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a fuga de sua melhor amiga, o único refúgio de Eileen se torna Simon, um amigo de infância que foi sua defesa contra o tratamento da irmã e o acolhimento precário dos pais. Por sua vez, Simon age como um salvador para as mulheres (incluindo Eileen) jovens com quem se relaciona. Apesar de parecer mais estável que os demais protagonistas, ele possui aspectos muito destoantes entre si, agindo como um </span><a href="http://personaunesp.com.br/fleabag-2a-temp-critica/"><span style="font-weight: 400;">católico meio cretino</span></a><span style="font-weight: 400;">. Sua relação devota com a religião molda em parte sua personalidade, apesar de não dispensar o sexo casual, ele opta por agir com um mártir culpado que resgata jovens moças sempre que pode, um comportamento refletido em sua profissão. Simon é um parlamentar que discute problemas sociais mas que, efetivamente, não faz nada significativo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“O que nós temos agora no lugar? Nada. E detestamos as pessoas por cometerem erros muito mais do que as amamos por fazerem o bem, portanto o jeito mais fácil de viver é não fazer nada, não dizer nada e não amar ninguém.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Narrado em terceira pessoa,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> intercala o ponto de vista entre os protagonistas, mas acaba mantendo o foco na relação entre as amigas, Eileen e Alice. Além de se passar na vida cotidiana dos personagens, a obra também carrega as mensagens e </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;"> enviados. Outro diferencial da obra de Sally Rooney é o </span><a href="https://entenderficcao.com.br/2018/06/25/vozes-narrativas-e-o-discurso-indireto-livre/"><span style="font-weight: 400;">discurso livre</span></a><span style="font-weight: 400;"> utilizado: a autora não usa pontuações e mistura os diálogos junto às descrições e parágrafos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dispensando um enredo quadrado, a inglesa não cria uma história convencional, optando por desenvolver um espaço para reflexões sobre amor, sexo, solidão e as desilusões que a entrada na vida adulta oferecem. Sem um contexto geral sobre a relação entre os personagens, a única pista sobre a história é a comunicação remota pelas duas amigas antigas, uma relação marcada pela distância física e emoções à flor da pele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O relacionamento à distância entre Alice e Eileen é o ponto central da obra, as duas amigas se sentem frustradas com o rumo que a vida tomou desde a faculdade. Alice lida com o esgotamento mental decorrente do sucesso repentino, Eileen vive um término doloroso, problemas financeiros, uma personalidade insegura e uma confusão amorosa com Simon. As pressões da vida adulta atingiram duramente as personagens, que vivem em busca de seu Belo Mundo.</span></p>
<figure id="attachment_24341" aria-describedby="caption-attachment-24341" style="width: 804px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24341 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-804x1024.jpg" alt="Foto da escritora Sally Rooney. A autora está posando de perfil, ela é uma mulher branca, os seus cabelos são castanhos médios lisos, e seus olhos são verdes. Além disso, ela veste uma blusa no estilo cacharrel na cor cinza. O fundo é uma parede clara e desfocada." width="804" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-804x1024.jpg 804w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-628x800.jpg 628w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-768x978.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1207x1536.jpg 1207w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1609x2048.jpg 1609w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1200x1528.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24341" class="wp-caption-text">A escritora irlandesa é considerada uma das <a href="https://time.com/6094903/sally-rooney-millennial-novel/">vozes da geração Millennial</a>, e suas obras já abordaram a subjugação feminina, questões de classe e violência doméstica (Foto: Linda Brownlee)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por viverem longe uma da outra, Alice e Eileen apenas se falam por longos </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;">. As personagens nos presenteiam com seu modo de enxergar o mundo em que vivem, expondo suas inseguranças, que permeiam o medo do fracasso, da solidão e as expectativas frustradas. Mas, apesar dos sentimentos sinceros que essas conversas trazem, o que chama a atenção são os ganchos para discussões profundas. As jovens falam sobre a feiura visual da vida moderna, a experiência estética </span><i><span style="font-weight: 400;">versus</span></i><span style="font-weight: 400;"> a vaidade, religião e política mundial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento interessantíssimo, Sally Rooney também engata uma discussão sobre </span><a href="https://www.culturagenial.com/livros-para-conhecer-literatura-contemporanea-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Literatura contemporânea</span></a><span style="font-weight: 400;">, explorando como são superficiais os romances sobre a vida cotidiana. Os escritores atuais se valem da aprovação da crítica euro-americana, agindo como se suas opiniões fossem relevantes, únicas e especiais. Tais autores também fazem parte de uma classe burguesa, que de livre e espontânea vontade opta por </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2021/10/07/abdulrazak-gurnah-ganha-premio-nobel-de-literatura-2021.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ignorar os problemas sociais que o mundo enfrenta</span></a><span style="font-weight: 400;">, realidades muito diferentes da que vivem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Curiosamente, essa discussão pode ser vista como uma autocrítica da própria autora, que não fala de um lugar tão distante desses escritores. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/sally-rooney-lanca-belo-mundo-onde-voce-esta-avalia-impacto-de-normal-people-minha-vida-foi-dominada-pelo-sucesso-dos-meus-livros-anteriores-25182547"><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;"> está posicionada em um espaço de conforto em que relata os traumas da burguesia, irrelevantes se comparados à miséria que outras milhões de pessoas vivem, mas ainda assim traumas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Minha própria obra é, nem preciso dizer, a mais criminosa nesse sentido. Por essa razão, acho que nunca mais vou escrever um romance.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Alice e Félix se conheceram pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Tinder</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com características distintas, ambos conseguem se encontrar numa relação sem um rótulo definido. Contudo, é doloroso ver Alice se contentando com o tratamento humilhante e as críticas que Félix faz a ela. Por sua vez, Felix também possui suas próprias inseguranças quanto ao seu passado complicado. Os dois acabam construindo uma relação nociva de gato e sapato: Felix demonstra uma superioridade sobre Alice, que finge ser submissa a suas palavras insensíveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eileen vive a procura da felicidade, que uma vez sentiu ao estar junto de Alice e Simon. Contudo, principalmente para Eileen, as mudanças foram ainda mais incisivas. Suas inseguranças e o medo do fracasso a impedem de ser feliz e conseguir novas oportunidades. É nesse turbilhão de emoções negativas que ela encontra e se desencontra com Simon. A relação de ambos é confusa, Eileen sente ser dependente de Simon, que demonstra justamente o contrário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para os que se relacionam intimamente com as angústias dos personagens, o livro é um verdadeiro soco no estômago. O período da juventude constrói expectativas e ilusões, a casa dos trinta anos entrega frustrações tardias. </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um livro que aponta decepções, principalmente, por que nos relacionamos com personagens tão sozinhos, instáveis e até abusivos consigo mesmos. Sally Rooney prova que consegue transpor uma geração com tanta honestidade que chega a incomodar.</span></p>
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		<title>Ao fim de Chegamos Sozinhos em Casa, Tuyo encontra lar no outro</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Nov 2021 15:47:17 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_24765" aria-describedby="caption-attachment-24765" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24765" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1.webp" alt="Texto alternativo: Capa do CD “Chegamos Sozinhos em Casa”, da banda Tuyo. Fotografia quadrada e colorida. Nela, vemos três pessoas em frente a um grande rancho, com telhados marrom e pintura branca. O céu é limpo e azul, e eles se apresentam em pé, num gramado verde-escuro. Os três olham para a câmera, com um semblante sério. Primeiro, à esquerda, está Jean. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos crespos da cor preta, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, que se divide em dois. Ele veste um sobretudo azul escuro, uma camiseta branca, uma calça azul-escuro e tênis brancos. Ao seu lado, no centro, está Lay. Uma mulher negra, de cabelos crespos raspados e tingidos em loiro. Ela veste uma espécie de quimono azul-escuro, com grandes ombreiras nos braços, e com uma saia que se estende apenas até as coxas. Além disso, ela também veste meias de cano longo brancas e tênis brancos. Por fim, ao lado direito, está Lio. Uma mulher negra, de cabelos crespos volumosos da cor preta. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em botões fechados. Nos pés, ela também usa tênis brancos." width="1000" height="1000" /><figcaption id="caption-attachment-24765" class="wp-caption-text">Depois dos magnânimos Pra Doer (2017) e Pra Curar (2018), Tuyo retorna com um projeto extraordinário, cuja ousadia foi contemplada por uma indicação ao Grammy Latino de 2021 [Foto: Tuyo]</figcaption></figure><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há medo mais apavorante do que o da solidão. Construímos nosso entendimento de mundo baseado em nossas conexões afetivas e, logo com a chegada da vida adulta, nos deparamos com a instância de trilhar um caminho tortuoso por conta própria. Nesse temor pelo desconhecido e por não pertencer, Machado, Lay e Lio – ou Tuyo, como os conhecemos juntos – </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=400s"><span style="font-weight: 400;">encheram sua casa</span></a><span style="font-weight: 400;"> de gente, para não se sentirem sozinhos. Diante disso, </span><a href="https://open.spotify.com/album/0mYYhNhBOsSkL7zYyvOmVg?si=4b0ySSZVQoaX9PDMQMoqLw"><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o novo projeto artístico da banda, imerge na psique de seus integrantes, explorando o instante em que essas pessoas voltam para onde vieram, ou criam seus novos espaços, e o que sobra da gente quando, enfim, estamos sós. </span></p>
<p><span id="more-24764"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma aposta ambiciosa por parte da Tuyo, que distingue-se de qualquer coisa que já fizeram, ainda que continue respirando a personalidade artística que os formaram até o presente. Um projeto </span><a href="https://www.take.net/blog/inovacao/o-que-e-transmidia/"><span style="font-weight: 400;">transmidiático</span></a><span style="font-weight: 400;">, construído no entorno de quase dois anos, e lançado pelo período de pelo menos um semestre. Consistindo em </span><a href="https://open.spotify.com/album/1MDUUXOOqEuB4opvlHISpe?si=1O9Hcp7mT_K6aunCRkKbwQ"><span style="font-weight: 400;">dois álbuns</span></a><span style="font-weight: 400;">, que se unem em uma versão </span><a href="https://open.spotify.com/album/0mYYhNhBOsSkL7zYyvOmVg?si=NEKFWWH3QjKX6Ebxpwz2ZA"><i><span style="font-weight: 400;">Deluxe</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de 19 faixas, lançada em conjunto com </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa &#8211; Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma </span><a href="https://www.papelpop.com/2021/09/tuyo-estreia-chegamos-sozinhos-em-casa-fragmentos-serie-documental-musicada/"><span style="font-weight: 400;">série documental</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://www.youtube.com/playlist?list=PLR4rrOEEvQHtvdw9twbR40GDkFm4t0mZt"><span style="font-weight: 400;">oito episódios</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicada no </span><i><span style="font-weight: 400;">YouTube</span></i><span style="font-weight: 400;">. Havia muita história para ser contada, e não é de se surpreender que a banda, que jamais poderia ser reduzida a um nicho musical, chamou a atenção no mundo inteiro. O ápice disso foi em setembro deste ano, quando eles receberam sua </span><a href="https://gshow.globo.com/RPC/noticia/banda-tuyo-comenta-sobre-indicacao-ao-grammy-latino-estamos-no-processo-de-entender-aceitar-e-comemorar.ghtml"><span style="font-weight: 400;">primeira indicação</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Grammy Latino</span></i><span style="font-weight: 400;">, pelo </span><a href="https://open.spotify.com/album/3RAsslo5W29pWGYf3lxLO1?si=GqVJy2XrTIqAwskQxO_rYQ"><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do disco, em Melhor Álbum de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pop </span></i><span style="font-weight: 400;">Contemporâneo em Língua Portuguesa.</span></p>
<figure id="attachment_24766" aria-describedby="caption-attachment-24766" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24766" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6.jpg" alt="Texto alternativo: Imagem de divulgação do Volume 1 do álbum “Chegamos Sozinhos em Casa”, da banda Tuyo. Nela, vemos três pessoas presentes em uma sala fechada, iluminada por uma luz difusa, com vários quadros pela parede e um grande sofá azul no centro. Os três olham para a câmera, sérios. Primeiro, à esquerda, está Jean. Um homem negro, de barba por fazer, com cabelos crespos, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, tingidos em loiro. Ele usa brincos prateados nas orelhas, veste uma jaqueta azul-escuro, uma calça azul-escuro e, nos pés, meias brancas de cano longo e um tênis branco. Ele senta na ponta esquerda do sofá, com as pernas cruzadas e as mãos sobre a coxa. Também sentada no sofá, à direita, está Lio. Uma mulher negra, com cabelos escuros trançados em longas box-braids com mechas da cor bege. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em um botão fechado. Nos pés, ela veste tênis brancos, e apoia seus braços no sofá, o esquerdo no encosto, e o direito no meio do móvel. Por fim, no meio deles, posicionada atrás do sofá, está Lay. Uma mulher negra, com cabelos raspados tingidos em roxo. Ela veste um blazer azul-escuro, preso em sua cintura por um laço da mesma cor. Ela também usa um top azul-escuro no dorso, e apoia os dois braços sobre o sofá." width="2560" height="1444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-800x451.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1024x578.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-768x433.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1536x866.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-2048x1155.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1200x677.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24766" class="wp-caption-text">Além disso, a Tuyo também angariou uma indicação no Prêmio Multishow 2021 pela música Sonho da Lay, na categoria Canção do Ano, acurada pelo Superjúri do evento (Foto: Juh Almeida)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3J9Ua_FU73Y"><span style="font-weight: 400;">Performances</span></a><span style="font-weight: 400;"> em eventos estrangeiros, reconhecimento em </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/03/22/arts/music/sxsw-music-festival.html"><span style="font-weight: 400;">grandes veículos</span></a><span style="font-weight: 400;"> da imprensa internacional, indicações em </span><a href="https://portalpopline.com.br/premio-multishow-confira-a-lista-completa-de-indicados/"><span style="font-weight: 400;">premiações enormes</span></a><span style="font-weight: 400;">; Tuyo já é </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;">, furou a bolha da cena independente, e agora passa a ocupar espaços que não poderia alcançar antes. Porém, ao mesmo tempo que se </span><a href="https://www.instagram.com/p/CUYkyqFLQl3/?utm_medium=copy_link"><span style="font-weight: 400;">permitem celebrar</span></a><span style="font-weight: 400;"> tais conquistas, elas não são fáceis de lidar para os membros da banda. </span><i><span style="font-weight: 400;">“[Eu tenho a impressão que] nenhum de nós, nem os nossos iguais, foram autorizados por alguém”</span></i><span style="font-weight: 400;">, diz Lio, no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">primeiro episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> da série </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Parece que tinha uma parte da cerca que estava aberta, e a gente começou a passar”</span></i><span style="font-weight: 400;">. E isso torna-se evidente quando, por exemplo, percebe-se que, na categoria em que foram indicados no </span><i><span style="font-weight: 400;">Latin Grammy Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, Lio, Lay e Machado são os únicos artistas pretos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Devido a isso, o álbum passa, em várias ocasiões, por um lugar de questionamento e hesitação, do receio que dele surge, na necessidade de confrontar um trajeto ainda inaugural e o seu destino final. Neste caso, trata-se da individualidade, do olhar para dentro, que, para a Tuyo, também é uma vivência muito nova. Usufruir da solidão e do prazer de estar só é um privilégio e uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YCF3f81pDIE"><span style="font-weight: 400;">condição elitizada</span></a><span style="font-weight: 400;">. Afinal, para quem precisa constantemente se preocupar em sobreviver, pouco espaço sobra para pensar sobre o que isso significa. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i> <span style="font-weight: 400;">reflete sobre o momento em que, após muita construção, essa experiência passa a atravessá-los, e como ela os afeta, eles vindo de onde vieram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso, portanto, que um projeto que comenta tanto sobre um processo individual e particular também seja o primeiro que a banda </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">compõe em conjunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, em um espaço compartilhado, ao invés de seus discos anteriores, em que as faixas nasciam a partir de construções mais individualizadas. O resultado disso é um processo que nasce de fora para dentro. Uma </span><a href="https://harpersbazaar.uol.com.br/cultura/trio-curitibano-tuyo-lanca-album-chegamos-sozinhos-em-casa/"><span style="font-weight: 400;">produção coletiva</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas que, por fim, se reduz a um estudo íntimo e um mergulho nas singularidades de cada uma das partes que compõem o que conhecemos como Tuyo. Cria-se um processo de desvencilhamento, para que, finalmente, eles possam se reencontrar em seu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=769s"><span style="font-weight: 400;">estado cru e pleno</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - Abismo (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/TI522R3g99I?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Posto isso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna uma ferramenta de enriquecimento desse processo. A série documental apresenta diferentes interpretações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">. Primeiro, sobre o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">conceito geral</span></a><span style="font-weight: 400;"> do disco e, mais tarde, sobre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7fKkAezFMEs"><span style="font-weight: 400;">canções específicas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Contudo, de jeito algum eles pretendem explicar sua obra e </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-babadook-critica/"><span style="font-weight: 400;">restringi-la</span></a><span style="font-weight: 400;"> a apenas uma leitura. Pelo contrário, os três constroem identidades únicas, separadas uns dos outros, e trazem suas perspectivas individuais sobre o trabalho, que se chocam e entram em divergência o tempo todo. E eles estão cientes disso. Não só cientes, como também prezam por essa dissonância. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Tá tudo dito lá, dentro do disco. Mas às vezes as pessoas querem entender os desdobramentos das metáforas, porque hoje parece que não basta a metáfora. Ou talvez ela nunca tenha bastado.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">– Lio</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso se comprova na </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando, apesar de partirem de uma composição coletiva, várias músicas irão focar em vivências e relatos próprios de cada um dos integrantes. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Pg3k_F5m7nA"><i><span style="font-weight: 400;">Vitória Vila Velha</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> trata sobre a cidade natal de Machado e a saudades que ele guarda daquelas memórias, e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ObSzUlXaO5s"><i><span style="font-weight: 400;">O Que Você Diria Agora</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> comenta </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t2UNySZwWNM"><span style="font-weight: 400;">o ressentimento e a raiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ele construiu pelo pai. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=aISS_jZXPSs"><i><span style="font-weight: 400;">Pronta Pra Cair</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qsGuJc_kMRM"><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> versam sobre a autoestima da Lay, e como isso reverbera em sua </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=05TLKf0O3LE"><span style="font-weight: 400;">autoimagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, ganhando camadas ainda mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0"><span style="font-weight: 400;">profundas e multiformes</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">. Enquanto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ITAgOK4Fnz0"><i><span style="font-weight: 400;">O Jeito É Ir Embora</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WtNgq-2mNnc"><i><span style="font-weight: 400;">Tem Dias</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> abordam experiências muito pessoais de Lio sobre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7fKkAezFMEs"><span style="font-weight: 400;">amor e desvencilhamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, em suas mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YCF3f81pDIE"><span style="font-weight: 400;">variadas formas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24767" aria-describedby="caption-attachment-24767" style="width: 1078px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24767" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5.jpg" alt="Texto alternativo: Capa do primeiro episódio da série documental “Chegamos Sozinhos em Casa - Fragmentos”, da banda Tuyo. Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos três pessoas em pé, atrás de um carro azul. As três olham seriamente para a câmera. Primeiro, do lado esquerdo, está Lio. Uma mulher negra, de cabelos crespos volumosos da cor preta. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em botões fechados. Ela se apoia no capô do carro pelo cotovelo direito. Do lado dela, no centro, está Jean. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos crespos da cor preta, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, que se divide em dois. Ele veste um sobretudo azul escuro, uma camiseta branca e uma calça azul-escuro. Além disso, ele também usa um brinco prateado na orelha direita. Por fim, do lado direito, está Lay. Uma mulher negra, de cabelos crespos raspados e tingidos em loiro. Ela veste uma espécie de quimono azul-escuro, com grandes ombreiras nos braços, e com uma saia que se estende apenas até as coxas. Além disso, ela também veste meias de cano longo brancas e se apoia no capô do carro com sua mão direita. O fundo é o de uma floresta com várias árvores, e o cenário é dia." width="1078" height="765" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5.jpg 1078w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-800x568.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-1024x727.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-768x545.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24767" class="wp-caption-text">As canções em que Machado canta continuam marcando presença, mais memoráveis do que nunca, incluindo a faixa-título do projeto, o ápice emocional do final do disco (Foto: Vitor Augusto/Petrobras Cultural)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhamos o trajeto emocional de Tuyo. Porém, o que encontra-se no final dessa estrada? Eles chegam aonde? Para quem foi definido a vida inteira por uma falta de identidade, pelo não-pertencimento, esse lugar não existe. A alternativa, nesse caso, é munir-se dessa designação, ressignificá-la e torná-la tangível. Aqui, Tuyo transforma o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-20-anos/"><span style="font-weight: 400;">não-lugar</span></a><span style="font-weight: 400;"> em conceito, e se apropria dele como uma identidade totalmente nova. Se lhes foi negado o direito de pertencimento, o que restou a eles foi pavimentar essa estrada </span><a href="https://personaunesp.com.br/dolores-dala-guardiao-do-alivio-critica/"><span style="font-weight: 400;">do zero</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo é </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Musica/noticia/2021/09/tuyo-acompanhe-o-making-e-relato-exclusivo-do-visual-album-chegamos-sozinhos-em-casa-fragmentos.html"><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que está na limiar de inúmeros gêneros do audiovisual. É documentário? É drama? É performance ao vivo? A série não se preocupa em definir isso, e a direção de </span><a href="https://laisdantas.46graus.com/"><span style="font-weight: 400;">Laís Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> brinca o tempo todo com os formatos que dispõe. Ora ela irá usar uma proporção de câmera cinematográfica, com planos longos e contemplativos, ora ela irá explorar uma estética nostálgica de </span><i><span style="font-weight: 400;">videotapes</span></i><span style="font-weight: 400;"> noventistas, com as imagens de bastidores. Não há limites criativos para a produção, o que torna assistí-la uma experiência envolvente e nunca monótona.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para isso, a banda procura no passado as inspirações e influências que os moldaram no passado, a fim de compreender o presente e vislumbrar o futuro. Toda a discografia do projeto é uma amálgama das referências que formaram a sonoridade do que é hoje sua música. A Tuyo nunca se limitou pelas restrições de um gênero musical específico. Seja </span><i><span style="font-weight: 400;">folk</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">hip-hop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">indie</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou MPB, eles sempre souberam bem como apanhar os melhores elementos de cada estilo e transformá-los em um som novo, mais próximo de como se </span><a href="https://noize.com.br/entrevista-conheca-o-afrofolk-futurista-da-tuyo/"><span style="font-weight: 400;">enxergam</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do que almejam comunicar </span><a href="https://noize.com.br/entrevista-conheca-o-afrofolk-futurista-da-tuyo/"><span style="font-weight: 400;">artisticamente</span></a><span style="font-weight: 400;">. Então, misturando </span><i><span style="font-weight: 400;">beats</span></i><span style="font-weight: 400;"> com instrumentos acústicos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> extrapola esse experimento estético como nunca antes.</span></p>
<figure id="attachment_24768" aria-describedby="caption-attachment-24768" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24768" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3.jpg" alt="Imagem de bastidores da produção da série documental “Chegamos Sozinhos em Casa - Fragmentos”, da banda Tuyo. Nela, vemos um grupo de cinco pessoas dentro do sótão de madeira no andar de cima de um casarão, durante o dia. Eles se reúnem sentados no chão em roda, com diversos fios e equipamentos musicais no centro. Primeiro, no centro, está Jean. Um homem negro, de cabelos crespos escuros, com as laterais raspadas e volumoso no topo, que veste uma camisa branca. Ele está de costas para a câmera, de maneira que não podemos ver seu rosto, e segura um baixo em mãos. Todos os outros ao seu redor estão virados para a câmera, e riem enquanto olham para ele. Primeiramente, à esquerda da roda, vemos Lucas Romero. Um homem branco, de barba feita, com cabelos curtos tingidos de louro, que veste um suéter azul e uma calça branca. Ele veste óculos de armação redonda no rosto, fones de cabeça nos ouvidos e tem os joelhos apoiados no chão. Depois, seguindo o sentido horário, está Lay. Uma mulher negra de cabelos crespos escuros e raspados. Ela usa dois grandes brincos nas orelhas e um forte batom vermelho nos lábios, vestindo também uma regata branca e uma calça azul-escura. Ela senta no chão, com as duas mãos fechadas e coladas sobre suas coxas. Ao lado dela, também está Lio. Uma mulher negra, com cabelos escuros trançados sobre a raíz de seu couro cabeludo. Ela veste um top branco e um grande saia azul-escura, e se senta sobre o chão, enquanto coloca sua mão esquerda sobre a orelha. E, por fim, ao lado de Lio e Jean, fechando a roda, está Luís Fernando Diogo. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos escuros trançados em longos dreads, presos em um coque no topo de sua cabeça. Ele usa fones de cabeça nos ouvidos, vestindo uma blusa branca e calça branca." width="2500" height="1667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-2048x1366.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24768" class="wp-caption-text">“A ideia da série foi muito pautada nessa questão do espetáculo, de como é que a gente consegue replicar, de alguma forma, um pouco do que sentimos quando tá ao vivo”, diz Lio, a respeito de Chegamos Sozinhos em Casa &#8211; Fragmentos (Foto: Vitor Augusto/Petrobras Cultural)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em diversos momentos, parece haver um exercício ativo da banda de sair da sua zona de conforto. É o caso de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TbOco3aDRj8"><i><span style="font-weight: 400;">Sonho da Lay</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">singles</span></i><span style="font-weight: 400;"> de divulgação do </span><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i><span style="font-weight: 400;">. Trata-se de uma viagem cinematográfica entre os devaneios emergidos na mente de Lay, refletindo sua inquietude e vontade de desaparecer. A estrutura da faixa é de uma legítima música eletrônica, com uma construção de ambiente minuciosa no verso, para então elevar-se à uma grande catarse instrumental. É uma faixa marcante, com uma identidade própria, totalmente diferente de tudo que a Tuyo já fez, mas que ainda carrega em si a essência do trio. Já entre as referências que citam </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">terem sido</span></a><span style="font-weight: 400;"> cruciais para a concepção do disco, estão </span><a href="https://extra.globo.com/famosos/legado-marilia-mendonca-deixa-mais-de-300-musicas-projetos-serem-lancados-inspiracao-para-nova-leva-do-feminejo-25274714.html"><span style="font-weight: 400;">Marília Mendonça</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/kamasi-washington-e-rara-celebridade-no-jazz-e-refuta-a-ideia-de-crise-do-genero.shtml"><span style="font-weight: 400;">Kamasi</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NB3gWkhLkxM"><span style="font-weight: 400;">The Internet</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.omelete.com.br/linkin-park/como-hybrid-theory-mudou-apos-a-morte-de-chester-bennington"><span style="font-weight: 400;">Linkin Park</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wRwId2RfmfA"><span style="font-weight: 400;">Kirk Franklin</span></a><span style="font-weight: 400;"> e outros artistas que, à primeira vista, jamais poderiam ser fundidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, essas inspirações ultrapassam o plano das ideias e se manifestam nas colaborações vocais, que não eram do feitio da banda em projetos </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Desde os versos melodiosos e envolventes de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WISpREAkEO0"><span style="font-weight: 400;">Luccas Carlos</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/03/16/interna_diversao_arte,417672/cantor-lenine-conta-ao-correio-em-entrevista-detalhes-sobre-a-vida.shtml"><span style="font-weight: 400;">Lenine</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://todosnegrosdomundo.com.br/drik-barbosa/"><span style="font-weight: 400;">Drik Barbosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, os </span><i><span style="font-weight: 400;">backing vocals</span></i><span style="font-weight: 400;"> leves, mas poderosos de </span><a href="https://culturadoria.com.br/jaloo/"><span style="font-weight: 400;">Jaloo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/sua-alegria-foi-cancelada-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lucas Silveira</span></a><span style="font-weight: 400;"> – que também é creditado na </span><a href="https://revistabalaclava.com/lucas-silveira-feliz-divas-pop/"><span style="font-weight: 400;">produção</span></a><span style="font-weight: 400;"> do projeto –, e as rimas fortes e contundentes da lenda </span><a href="https://www.bocadaforte.com.br/materias/entrevistas/kamau-respeitar-e-meu-compromisso"><span style="font-weight: 400;">Kamau</span></a><span style="font-weight: 400;">, até os arranjos únicos que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0SJ76fOXaPg"><span style="font-weight: 400;">RDD</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/quem-e-jonathan-ferr-o-pianista-de-madureira-que-quer-tirar-o-elitismo-do-jazz.shtml"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Ferr</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Shuna (da </span><a href="https://veja.abril.com.br/blog/veja-gente/na-rua-voce-precisa-conquistar-seu-espaco-diz-dupla-youn/"><span style="font-weight: 400;">Yoùn</span></a><span style="font-weight: 400;">) oferecem, nas respectivas faixas que assinam. Todos são pessoas </span><a href="https://www.instagram.com/p/CPHUgTPLu9U/"><span style="font-weight: 400;">abertamente presentes</span></a><span style="font-weight: 400;"> na vida dos três integrantes, e os auxiliam a pincelar as arestas de sua Música.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - Sonho da Lay feat. Luccas Carlos (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/TbOco3aDRj8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Tuyo também olha para o passado de maneira mais prática. </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> versa sobre os trabalhos passados da banda, reinterpretando sua mensagem. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dPqKsoTUKkU"><i><span style="font-weight: 400;">Pra Curar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o exemplo mais explícito, recebe o nome do </span><a href="https://open.spotify.com/album/3HjKk0aYQYuMFWDBS40amc"><span style="font-weight: 400;">primeiro disco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de estúdio do trio. Porém, ao contrário do que se imaginaria, a música se coloca quase como uma sátira de seu antecessor. Se o álbum de 2018 procura encontrar esperança em um ambiente de dor, compreendendo que o caminho para alcançar a cura não é fácil, a canção de 2021 se posiciona em um </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-09/pfizer-pesquisa-revela-impacto-da-pandemia-na-saude-mental-de-jovens"><span style="font-weight: 400;">contexto catastrófico</span></a><span style="font-weight: 400;">, de completa desilusão, e abraça essa angústia. O refrão, que repete o mantra </span><i><span style="font-weight: 400;">“nenhuma dor é pra curar”</span></i><span style="font-weight: 400;">, atesta o que Lio afirmou para a </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stone</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, logo depois do lançamento do primeiro volume: </span><i><span style="font-weight: 400;">“às vezes tem processo que dói e só dói, é dor pela dor mesmo”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O movimento de revisitação proposto aqui passa, igualmente, por um território metalinguístico. Em todo episódio de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a banda apresenta um </span><i><span style="font-weight: 400;">setlist</span></i><span style="font-weight: 400;"> diferente das músicas do disco, reinterpretadas e rearranjadas. O </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">primeiro episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> chega com os dois pés na porta, entregando uma versão refrescante das principais faixas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">, em uma estética escancaradamente </span><a href="https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/afrofuturismo"><span style="font-weight: 400;">afrofuturista</span></a><span style="font-weight: 400;">, bebendo do </span><i><span style="font-weight: 400;">house</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">dance hall </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">EDM</span></i><span style="font-weight: 400;"> no melhor estilo </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/grammy-2021-conheca-kaytranada-dj-indicado-na-categoria-artista-revelacao/"><span style="font-weight: 400;">KAYTRANADA</span></a><span style="font-weight: 400;">. Outros episódios também retomam momentos anteriores da carreira da Tuyo, como no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t2UNySZwWNM"><span style="font-weight: 400;">sétimo</span></a><span style="font-weight: 400;">, quando eles performam as canções inolvidáveis da </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/acordes-locais/simonami-e-a-dor-de-uma-cancao-307sx88uiwl0tqwg19sj5aq1a/"><span style="font-weight: 400;">Simonami</span></a><span style="font-weight: 400;">, projeto musical anterior que Lay, Lio e Machado fizeram parte, ou no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0"><span style="font-weight: 400;">sexto</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que o trio interpreta </span><i><span style="font-weight: 400;">remixes</span></i><span style="font-weight: 400;"> de algumas de suas músicas, dando outra cara a elas e uma autenticidade ímpar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Compreender o lançamento dividido em dois volumes também é fundamental para assimilar o que aspira o projeto. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O primeiro volume está condensando uma demarcação bastante territorial. A gente abre o disco falando de memória, de origem, com ‘Vitória Vila Velha’, cidade natal do Machado. E, seguimos falando sobre retornos, partidas, chegadas, reencontros… o segundo volume concentra um outro aspecto menos pragmático desses ritos contemporâneos”</span></i><span style="font-weight: 400;">, comenta a banda, </span><a href="https://br.nacaodamusica.com/posts/entrevista-tuyo-chegamos-sozinhos-em-casa/"><span style="font-weight: 400;">em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o </span><i><span style="font-weight: 400;">site Nação da Música</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que ambos os volumes se oponham e inclusive se contentem sozinhos, quando se unem, alcançam a proporção exata que esse trabalho pedia.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - O Jeito É Ir Embora (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ITAgOK4Fnz0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Visto isso, em questão de temática, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é repleto de contrastes. O exemplar mais forte musicalmente são as duas colaborações de Jonathan Ferr no álbum. Ambas finalizam os dois volumes e são essencialmente instrumentais. Ao passo que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oBo4kD4VSnQ"><i><span style="font-weight: 400;">Toda Vez Que Eu Chego Em Casa</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é de longe a mais longa da </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;">, introduzindo pacientemente cada um de seus elementos e transmitindo uma energia lúdica e doce, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=etGHkE3Ykqg"><i><span style="font-weight: 400;">Pouco Espaço</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> exala uma sensação constante de claustrofobia. Ela é frenética, urgente, e grita uma necessidade de se libertar, ainda que essas amarras não tenham uma definição clara.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa oposição também se manifesta em nível emocional. Ao relatar seu processo agridoce de amadurecimento, a Tuyo não tem medo de expor essas emoções da maneira mais sincera e verdadeira possível, seja em suas boas ou más fases. Se </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WtNgq-2mNnc"><i><span style="font-weight: 400;">Tem Dias</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RGB5uHXaF-s"><i><span style="font-weight: 400;">Do Lado de Dentro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> compreendem uma perspectiva mais positiva, reafirmando o amor e o autoamor, e entendendo como tal amor molda nossa percepção do outro, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TI522R3g99I"><i><span style="font-weight: 400;">Abismo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – faixa extra da versão </span><i><span style="font-weight: 400;">Deluxe</span></i><span style="font-weight: 400;"> –, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g7TCfhVX_bQ"><i><span style="font-weight: 400;">Fracasso</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=H4LdeC5kbYg"><i><span style="font-weight: 400;">Hoje Eu Quero Chorar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> aceitam a melancolia, se fundem à dor e a assumem como parte de si. O projeto nunca confina esses pontos de vista em ideias superficiais de bem e mal, apenas os entende como sentimentos complexos e parte de um processo que muitas vezes vai muito além da nossa compreensão.</span></p>
<figure id="attachment_24769" aria-describedby="caption-attachment-24769" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5.jpeg" alt="Imagem retirada do videoclipe da música “O Jeito É Ir Embora”, da banda Tuyo. Fotografia retangular e preto e branco. Nela, vemos três pessoas rodeando um carro rústico, enquanto olham sérios para a câmera. Primeiro, apoiando seu braço sobre o capô, está Lio. Uma mulher negra, com cabelos trançados em longas box braids escuras, vestindo um largo macacão e saltos brancos nos pés. Ao seu lado, apoiando um dos braços sobre a porta aberta do carro e o outro sobre o teto, está Lay. Uma mulher negra, com cabelos curtos tingidos de uma cor clara, vestindo uma camisa de botões com manga curta, uma calça escura e tênis brancos. Por fim, ao lado dela, agachado sobre suas pernas, está Jean. Um homem negro, de barba cheia e cabelos crespos escuros, raspados nas laterais, e com um grande volume no topo, divido ao meio. Ele tem brincos de argola nas orelhas e veste uma camisa branca, uma bermuda clara e tênis brancos nos pés. Além disso, ele ainda usa um moletom escuro preso no seu torso pelas mangas longas, cruzando do seu torso até seu ombro. O cenário é uma rua arborizada, com muros pichados e árvores crescendo sobre o chão de concreto." width="2560" height="1753" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-800x548.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1024x701.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-768x526.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1536x1052.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-2048x1402.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1200x822.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24769" class="wp-caption-text">Diferente do que se esperaria de uma colaboração com Lenine, Fracasso é um R&amp;B denso com retoques de trap, evidenciando também o interesse da banda em tirar seus colaboradores de sua zona de conforto (Foto: Felipe Mazzucatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste nasce não só na ambiguidade do sentir, mas também na necessidade de se diferenciar do outro. Lio aborda isso mais assertivamente no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc"><span style="font-weight: 400;">quarto episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Parece que, não importa o que a gente tava escrevendo, a gente tava falando sobre isso. Sobre a vontade de desenhar na gente um contraste entre nós e o que acontecia ao nosso redor”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">O apogeu disso é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qsGuJc_kMRM"><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, provavelmente a peça de maior impacto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">. O ‘turvo’ do título parece se referir ao momento em que você cria uma dependência tão grande sobre quem te rodeia, que o limite entre o ‘ego’ e o ‘outro’ se confunde, ao ponto de que encontrar o ‘eu’ ali torna-se quase inconcebível. Dessa forma, a faixa – e todo o álbum, em certa medida – retrata o desespero para, nesse cenário, se localizar em si e encontrar autossuficiência.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre várias coisas, e delimitar seus significados é uma tarefa impossível. A própria Tuyo não conseguiu, ainda menos uma crítica como essa. Contudo, no fim das contas, esse é o atestado da grandiosidade do projeto. O trabalho que a banda construiu é mutável, se molda ao prisma de quem ouve e se imortaliza no coração de quem o sente. E isso também afeta a percepção de quem deu vida à obra. </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;"> narra várias situações em que algum dos três membros tiveram uma epifania sobre o sentido íntimo de uma canção, geralmente despertado por um elemento externo. É o caso de Lay com </span><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i><span style="font-weight: 400;">, quando </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0&amp;t=545s"><span style="font-weight: 400;">uma amiga</span></a><span style="font-weight: 400;"> traz à tona a questão da </span><a href="https://claudia.abril.com.br/sua-vida/a-mulher-negra-nao-e-vista-como-um-sujeito-para-ser-amado/"><span style="font-weight: 400;">solidão da mulher negra</span></a><span style="font-weight: 400;">, alterando completamente a ótica com que ela enxergava a música. E, agora, com essa perspectiva sendo exposta em tela, alterando a nossa também.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - Sem Mentir (Videoclipe Oficial)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/4-ZfX3PvnVM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Um tópico que sempre foi </span><a href="https://br.nacaodamusica.com/posts/tuyo-sonho-da-lay-luccas-carlos/"><span style="font-weight: 400;">reforçado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela banda, desde o anúncio do </span><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i><span style="font-weight: 400;">, foi a busca por democratizar a sua linguagem e expressão artística. De tornar acessível temáticas densas e difíceis, sem que elas percam sua dimensão e profundidade. E pode-se dizer que, nesse projeto, ela a alcançou. Desta vez, eles partem de uma premissa resoluta – discutir crise de identidade, e o amadurecimento que vêm com a fase adulta – ao mesmo tempo que é hermética e tridimensional. Não abandona seus floreios e lírica poética, mas sempre trata seus temas com firmeza e ternura. A Tuyo já </span><a href="https://gq.globo.com/Cultura/noticia/2019/08/conheca-tuyo-banda-curitibana-que-traduz-em-musica-um-manifesto-afrofuturista-pop.html"><span style="font-weight: 400;">conquistou o coração</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos ouvidos que passou, e sua mensagem se expandirá cada vez mais e mais, com a validação de uma </span><a href="https://www.terra.com.br/diversao/musica/grammy-latino-expoe-antigos-dilemas-culturais-entre-brasil-e-seus-vizinhos,3d7ae725e9ce1ae79dfb8891995d8406fkqtg21l.html"><span style="font-weight: 400;">premiação internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> – já conhecida pelo </span><a href="https://tracklist.com.br/racismo-xenofobia-grammy/93117"><span style="font-weight: 400;">histórico problemático</span></a><span style="font-weight: 400;"> de suas decisões – ou não.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De todo modo, pode-se dizer que </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> procura beleza na solidão. Entende que amadurecer implica que certos laços sejam desatados, para que espaços novos sejam abertos. Que é necessária a construção de um espaço particular, para que possamos nos entender como indivíduo único, dotado de autoestima, que se ama e que se basta. Mas também compreende a importância de quem nos acompanha para que esse processo de autoconhecimento ocorra – de quem segura nossas pontas até que possamos levantar voo sozinhos. Para a construção de um </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2021/06/01/interna_cultura,1272172/banda-tuyo-transforma-as-dificuldades-de-convivencia-em-disco.shtml"><span style="font-weight: 400;">vínculo saudável</span></a><span style="font-weight: 400;">, distinguir-se do outro é primordial, pois é apenas se encontrando que podemos encontrar a quem nos cerca. E é assim que Lio </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=748s"><span style="font-weight: 400;">parafraseia</span></a><span style="font-weight: 400;"> Machado, na frase que sintetiza o núcleo emocional do disco: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu acredito que a casa onde a gente chegou foi um no outro”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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