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	<title>Arquivos Prêmio São Paulo de Literatura &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2022 20:29:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sob um jaleco alvejado, A pediatra é tão humana quanto qualquer um"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29333" aria-describedby="caption-attachment-29333" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-29333 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/A_PEDIATRA_WP-768x404.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29333" class="wp-caption-text">A pediatra foi um dos finalistas da categoria de Romance Literário do Eixo de Literatura do Prêmio Jabuti 2022 (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As mulheres devem ser doces, gentis o suficiente para servirem um homem de meia idade com reclamações diárias sobre um trabalho medíocre e o resultado de um jogo de futebol igualmente irrelevante. Quanto aos filhos: a gestação é a maior benção permitida aos corpos femininos, quem não iria querer isso? Caso Cecília pudesse ser resumida a uma palavra, “antônimo” seria um termo interessante. Ela não é doce e não pretende ser, afinal açúcar é combustível diabético, afeta o funcionamento pancreático e escraviza. Seu papel em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WO0tzxpYjiQ"><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela Companhia das Letras em 2021 – é performar o descontrole da autoridade dentro de si. </span></p>
<p><span id="more-29310"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora do título, </span><a href="https://livreopiniao.com/2014/09/11/livre-opiniao-entrevista-andrea-del-fuego-a-palavra-e-uma-ponte-entre-voce-e-o-mundo/"><span style="font-weight: 400;">Andréa del Fuego</span></a><span style="font-weight: 400;">, espelha na construção da personagem alguém que enxerga a vida em linhas retas. Cecília é médica pediatra como o pai, mas ao contrário dele, não tem paixão pela profissão e muito menos pelas crianças. Talvez esse seja o cerne de sua narrativa: a ausência da paixão. Sua persona é motivada pela técnica: as coisas existem para suprir as necessidades do corpo e nada mais. Enquanto nos misturamos aos seus comportamentos milimetricamente moldados, viver parece tomar um tom tão prático que beira a arrogância.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto trabalha muito bem com a objetividade da personagem e compõe isso com uma narrativa direta &#8211; as atitudes de Cecília se alternam com seus pensamentos a todo momento. Com o passar das páginas, somos íntimos e superficiais, elementos da história com área exclusiva para o funcionamento cerebral e, ao mesmo tempo, telespectadores de uma novela do horário nobre. Assim, não há como fazer juízo de valor. </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bondade e maldade</span></a><span style="font-weight: 400;"> são veredictos permanentes demais para serem aplicados em</span><i><span style="font-weight: 400;"> A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_29313" aria-describedby="caption-attachment-29313" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-29313" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Andrea.jpg" alt="Foto em preto e branco da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos curtos, pretos e cacheados. Ela usa uma blusa de mangas longas e gola rolê e um óculos de grau. Ao fundo há o tronco de uma árvore." width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29313" class="wp-caption-text">O primeiro romance publicado por Andréa del Fuego, intitulado Os Malaquias, foi premiado com a sétima edição do Prêmio Literário José Saramago (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Independência e liberdade são pontos muito importantes para Cecília, por isso, o casamento que ela mantinha não passa das primeiras páginas. O marido tinha </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">, a necessidade de cuidado a condicionavam ao aprisionamento e limitação, e isso não era admissível. A personagem automaticamente compara relações desse tipo as que as mães com filhos diabéticos têm. Vínculos cheios de </span><a href="https://saude.ig.com.br/2019-10-08/mae-de-crianca-com-diabetes-fala-sobre-impacto-da-hipoglicemia-veja-dados.html"><span style="font-weight: 400;">preocupação</span></a><span style="font-weight: 400;">, capazes de escravizar e fazer as vidas girarem apenas sobre o controle da insulina e o medo das convulsões nas madrugadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A protagonista mantinha um </span><a href="https://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">relacionamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> extraconjugal com Celso, um homem também casado que conheceu por pura casualidade. Com seu divórcio, os amantes deixam de estar no mesmo patamar e os abalos surgem trazendo impactos. Enquanto ele tinha uma esposa grávida e uma família para manter, ela era uma profissional bem sucedida cuja maior prioridade era a própria qualidade de vida. Para ele, o caso significava insegurança; já ela, não tinha nada a perder. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas das atitudes da médica são motivadas por desejo e ego. Celso nunca significou amor ou romance, mas conseguir controlá-lo e ter suas vontades atendidas geravam um tipo de satisfação inconsciente. Ela sabe se mostrar indispensável e é assim que acaba na sala de parto de Camila – a esposa traída – como </span><a href="https://posfg.com.br/afinal-o-que-faz-o-neonatologista/#:~:text=O%20neonatologista%20%C3%A9%20o%20m%C3%A9dico,n%C3%A3o%20receber%20os%20cuidados%20necess%C3%A1rios."><span style="font-weight: 400;">neonatologista</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Bruninho. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Inaceitável que uma legião não estivesse espetando minha densidade de sobremesa, seio que criança nenhuma pisoteou até murchar, vagina nulípara, nunca posta à prova, músculo rosa, mucosa vítrea como a maçã de quermesse, eu permanecia inédita.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos a firmeza de Cecília se mostra cada vez mais bamba. Entre os conflitos que a rodeiam, a chegada de um novo médico especialista em recém nascidos na Zona Sul de São Paulo cria um ambiente competitivo. Buscando entender o sucesso do novo profissional, a protagonista se insere em seu espaço de trabalho de maneira absurda e questionável – apesar de narrada com uma objetividade ímpar. As técnicas </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1007200519.htm"><span style="font-weight: 400;">humanizadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as doulas de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46643198"><span style="font-weight: 400;">parto</span></a><span style="font-weight: 400;"> do lugar são lidas com cinismo. Para a pediatra, dramatizar a simplicidade é assumir a ineficácia como aliada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interação com sua empregada, Deyse, também acaba revelando rachaduras nos muros da médica. A jovem funcionária engravida do marido da própria irmã, constrói uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50459101"><span style="font-weight: 400;">dependência alcoólica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tem perspectivas baixas. Quanto mais Cecília a conhece, mais julgamentos desenha. A aproximação também denuncia o medo de criar vínculos, mostrar fragilidade ou ser imperfeita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma visita de Bruninho é a arma que quebra o escudo de estabilidade mantido pela personagem. A mulher, incapaz de gostar de crianças, vê naqueles dedinhos pequenos algo especial: um sentimento cheio de vulnerabilidade e falta de controle. Em pouco tempo tudo se torna uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60525984"><span style="font-weight: 400;">obsessão</span></a><span style="font-weight: 400;"> repleta de atitudes impulsivas e hiperbólicas. A adulta racional se deixa levar por algo sem explicação ou sentido, apenas atravessando qualquer limite por mais uns minutos perto do cheiro de bebê daquela criança que ela mesma ajudou a colocar no mundo. </span></p>
<figure id="attachment_29314" aria-describedby="caption-attachment-29314" style="width: 450px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-29314" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/a-escritora-andrea-del-fuego-1648223678210_v2_450x600.jpg" alt="Foto colorida da autora Andréa del Fuego. Andréa é uma mulher branca de cabelos cacheados castanho escuro. Ela está em frente a uma parede branca. A autora veste uma camiseta preta com bolinhas coloridas. Há também um colar na cor bronze e um óculos de grau preto." width="450" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-29314" class="wp-caption-text">A pediatra disputou o prêmio de Melhor Romance do ano de 2021 no Prêmio São Paulo de Literatura deste ano (Foto: Celso Koyama)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma nova face sem perder o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/estilo/1560957652_470106.html"><span style="font-weight: 400;">sarcasmo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cecília continua sendo para o mundo o que sempre foi, mas Bruninho ganha uma passagem para os bastidores atrás da sua mente objetiva. Ela manipula as pessoas, o espaço e as coincidências em busca do desejo de estar perto do bebê. Agora somos nós que assistimos aos passos de fora e tentamos entender os motivos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que era pura certeza passa a ter um universo próprio de contradições em um contexto explicitado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03439"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> com uma destreza impressionante. A leitura é rápida e hipnotizante, afinal, fica no ar a curiosidade e vontade de saber o que acontece nas próximas cenas. Mais que isso, os pensamentos soltos de Cecília são alvo de identificação: todo mundo guarda coisas incongruentes no burburinho da mente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a protagonista representa a assertividade, Bruninho significa fragilidade. O tipo de coisa adiada que em algum momento deixa de caber na caixa de contenção. O enredo quase novelístico do romance deixa claro que, por mais firmes que estejam os trilhos, quem decide o caminho é o condutor e não o passageiro. A vida não é lógica, prática e muito menos </span><a href="https://personaunesp.com.br/roda-do-destino-critica/"><span style="font-weight: 400;">manobrável</span></a><span style="font-weight: 400;">, as vezes, estar vivo é puramente ficcional.  </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme. Não é diferente de quem cuida de vacas porque de sua janela era o que havia, festejando o fato de que não era mais preciso caçar, apenas manter o gado.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra não precisa se pautar em um drama sintomático para nos deixar sem palavras. Entre a lógica exacerbada e a perda do equilíbrio, existe uma sinceridade fascinante. </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> introduz com sutileza reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/marte-um-critica/"><span style="font-weight: 400;">desigualdade social</span></a><span style="font-weight: 400;">, a normalização do machismo e o ideal de maternidade. Cecília e a forma como se relaciona com o mundo é um reflexo de múltiplas partes da sociedade, um quebra cabeça composto de várias vozes unificadas em uma só. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 160 páginas, Andréa compacta a complexidade de ser. Cecília foge dos padrões esperados para uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/gaslit-critica/"><span style="font-weight: 400;">mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> e isso pode fazer com que alguns a considerem uma antagonista. Não é como se as atitudes da personagem fossem mediadas pela vontade de fazer mal aos outros, terceiros são apenas figurantes de uma história individual.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais absurdos que sejam certos comportamentos da médica, suas motivações são guiadas pela fragilidade e egoísmo. E é por isso que essa leitura não permite julgamentos, só quem nunca agiu motivado por interesses próprios pode atirar a primeira pedra. Ao fim, para alguém que detesta humanização, </span><i><span style="font-weight: 400;">A pediatra</span></i><span style="font-weight: 400;"> é tão </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto qualquer um. </span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Daniel Galera</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 20:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022 Bruno Andrade  No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-daniel-galera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Daniel Galera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"><i>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022</i></span></p>
<figure id="attachment_28717" aria-describedby="caption-attachment-28717" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg" alt="Arte quadrada de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto " width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28717" class="wp-caption-text">“Minha carreira de escritor não foi exatamente uma coisa planejada desde cedo”, diz Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho e Companhia das Letras/Arte: Henrique Marinhos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni virtualmente com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://danielgalera.info/">Daniel Galera</a></span><span style="font-weight: 400;"> para bater um papo sobre sua trajetória literária e os 10 anos de lançamento de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;">, romance que ganha uma </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.amazon.com.br/Barba-ensopada-sangue-Edi%C3%A7%C3%A3o-especial/dp/6559211282/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&amp;qid=1663270910&amp;sr=8-22">edição especial comemorativa</a></span><span style="font-weight: 400;"> com lançamento previsto para 4 de Novembro de 2022. Vencedor do Prêmio Machado de Assis, duas vezes 3º colocado no Prêmio Jabuti e já publicado na prestigiosa revista </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2021/12/22/the-god-of-ferns/">The Paris Review</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, Galera desponta como um dos grandes nomes da Literatura brasileira contemporânea, relacionado a uma “nova geração de escritores”, mesmo que “nova” já não seja bem a palavra que defina sua carreira. Escrevendo e publicando desde os anos 1990, o escritor paulistano radicado em Porto Alegre construiu um sólido percurso em torno da Literatura, e veio ao </span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/">Persona Entrevista</a></b><span style="font-weight: 400;"> compartilhar suas experiências, visões de futuro e revelar mais sobre suas obras.</span></p>
<p><span id="more-28680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535921878/barba-ensopada-de-sangue">Barba ensopada de sangue</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um protagonista sem nome – por vezes chamado de “nadador” –, um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. Esse personagem possui uma condição peculiar (porém existente além da ficção): não é capaz de memorizar rostos. Sob esse contexto, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, supostamente assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. A verdade é que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba</i></span><span style="font-weight: 400;"> é um livro distinto, potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade dos indivíduos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição comemorativa do romance foi uma sugestão que o próprio autor fez à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sugeri que a editora fizesse uma edição especial, que sai em Setembro</i></span><span style="font-weight: 400;">”, revela Galera. O livro já está em </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211289/barba-ensopada-de-sangue-edicao-especial-de-10-anos">pré-venda</a></span><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;"><em>site</em></span><span style="font-weight: 400;"> da editora. Em Janeiro e Fevereiro o escritor ministrou um curso, promovido pela </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/literatura/livraria-baleia-promove-oficinas-com-daniel-galera-e-marilia-f-kosby/">Livraria Baleia</a></span><span style="font-weight: 400;">, no qual revisitou a obra em uma espécie de leitura guiada junto à companhia do autor. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Também foi uma releitura minha – a primeira vez que eu próprio reli o livro inteiro assim, atentamente, desde a época da publicação</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foi uma forma de revisitar o livro e perceber o que ele significa pra mim dez anos depois, ver o que eu penso sobre ele e compartilhar essa leitura com o grupo de participantes que se inscreveu. É um ano de comemoração desses dez anos</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete. Após uma década, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue </i></span><span style="font-weight: 400;">segue como referência na Literatura brasileira pós virada do milênio.</span></p>
<figure id="attachment_28682" aria-describedby="caption-attachment-28682" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28682" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue foi eleito o Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Em 2022, <i>Barba ensopada de sangue</i> completa 10 anos de lançamento. Qual a importância dele na sua trajetória? Considera esse livro um marco na sua carreira?</b></p>
<p><b>Daniel Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sem dúvidas. Ele foi um marco no sentido de que foi meu livro mais bem recebido, desde o início. É o livro que mais vendeu, ganhou um prêmio importante, o </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/daniel-galera-e-o-grande-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-2013/">Prêmio São Paulo de Literatura</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, em 2013, e foi um livro que também foi publicado no exterior muito rapidamente, traduzido para 15 idiomas… Então, sim, no contexto da carreira de qualquer autor, é um fenômeno. Foi de longe o livro mais bem sucedido e me colocou num outro patamar de reconhecimento. Até hoje, dez anos depois, é a obra mais comentada e mais lida. A que mais é referenciada quando as pessoas falam de mim, inclusive novos leitores. Continua vendendo aos pouquinhos, mas constantemente. O primeiro capítulo do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> saiu antes do livro ficar pronto, na revista </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://granta.com/">Granta</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, na edição dos </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2012/07/06/69286-granta-divulga-selecao-de-20-escritores-brasileiros#:~:text=S%C3%A3o%20eles%20(com%20os%20respectivos,na%20pra%C3%A7a%E2%80%9D)%2C%20Emilio%20Fraia">20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2012)</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que tem fãs, pessoas que gostam muito, que entram em contato às vezes em eventos literários ou pela </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>; sei que essas pessoas existem. Tem muita gente nova que começa a me ler por causa dele, porque é um livro que as pessoas indicam umas pras outras no boca a boca também. Já os livros que eu publiquei depois do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> vão em direções diferentes; não é que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span> <span style="font-weight: 400;">ensopada de sangue </span><span style="font-weight: 400;"><i>tenha marcado o meu trabalho no sentido de eu continuar escrevendo livros como ele. Os meus livros posteriores são diferentes. É um marco, mas também não sei se em termos de estilo, de escrita, ele estabeleça um ‘antes e depois’.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28683" aria-describedby="caption-attachment-28683" style="width: 1750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma jaqueta de frio com capuz, em cor preta. " width="1750" height="1750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg 1750w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28683" class="wp-caption-text">Como tradutor, Daniel Galera já verteu para o português obras de <a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">David Foster Wallace</a>, Simon Stalenhag e Chris Ware (Foto: Tonatiuh Ambrosetti/Fondation Jan Michalski)</figcaption></figure>
<p><b>Como surgiu a ideia para o enredo do <i>Barba</i>? A condição do protagonista, por exemplo, de não reconhecer rostos, me parece algo bastante singular, algo que torna as descrições dos ambientes muito relevantes na obra. Parece haver também uma certa influência do Cormac McCarthy.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Um romance como o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>, com a extensão que ele tem, com a quantidade de assuntos, temas e elementos que estão incluídos nele, sempre tem múltiplas origens e influências; dificilmente é uma coisa só. Nesse caso, tem algumas que podem ser destacadas como as mais importantes. Talvez a maior de todas seja o fato de que, em 2008, eu fui viver em Garopaba, e isso foi determinante. Me mudei pra lá e fui morar sozinho, assim como o protagonista do livro. Quando eu me mudei, já tinha alguns dos elementos que eu estava planejando incluir no próximo romance, mas ainda não estava formado.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i> </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Antes de me mudar pra lá, ainda em 2007, eu tinha lido um livro do neurocientista português António Damásio, chamado </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925906/o-misterio-da-consciencia">O mistério da consciência</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1999)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu pela </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Nesse livro, ele trata de casos de </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/entenda-o-que-e-a-cegueira-facial-ou-prosopagnosia-que-afeta-o-ator-brad-pitt/#:~:text=A%20prosopagnosia%20%C3%A9%20um%20dist%C3%BArbio,como%20focar%20em%20sua%20voz.">prosopagnosia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que são indivíduos com uma lesão cerebral que, como resultado, não conseguem reconhecer ou gravar bem o rosto das outras pessoas e, às vezes, em casos muito severos, o próprio rosto. Eu fiquei fascinado com essa ideia. Guardei isso de um dia colocar como uma característica de algum personagem de livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ao mesmo tempo, antes de me mudar pra Garopaba, eu tinha começado a ler os livros do </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/apos-longo-hiato-cormac-mccarthy-publica-dois-romances-em-2022/">Cormac McCarthy</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, um escritor que fez muito a minha cabeça, fiquei realmente obcecado pela obra dele. Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro dele que eu li, mas foi ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556520463/todos-os-belos-cavalos">Todos os belos cavalos</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1992)</span><span style="font-weight: 400;"><i> ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788560281268/a-estrada">A estrada</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2006)</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Em Garopaba, li todos os livros dele – comprei todos em sebos e livrarias. A obra completa. O que não tinha em português, comprei em inglês. Foi uma influência muito forte, principalmente </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://open.spotify.com/episode/0dcQPLfu3FnNRyEYxukzMk?si=vePR85MDQuK0Ud0WzAST5A">A Travessia</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1994)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o segundo livro da </i></span><span style="font-weight: 400;">Trilogia da Fronteira</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://blogdoims.com.br/lost-in-translation-por-daniel-galera/">Suttree</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1979)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é um romance que não foi traduzido pro português e que, inclusive, </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://danielgalera.info/#traducoes">eu vou traduzir</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, mas no segundo semestre deste ano. Já estou em tratativas com uma editora. Esses livros foram bastante importantes também pra definir um pouco o estilo de narração do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> – o tipo de ambientação, de estilo narrativo e de linguagem. A obra do Cormac McCarthy influenciou bastante.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><figure id="attachment_28684" aria-describedby="caption-attachment-28684" style="width: 1257px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28684" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/The-Passenger-by-Cormac-McCarthy-cover.webp" alt="Foto colorida dos livros The Passenger e Stella Maris, respectivamente. Na primeira imagem vemos um céu laranja e, à borda, um rosto de criança em cor azul, com os olhos fechados. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito The Passenger. Na imagem seguinte, está em destaque o rosto em cor azul da criança, o mesmo da imagem anterior, enquanto à borda esquerda está um pedaço do céu laranja também da imagem anterior. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Stella Maris. " width="1257" height="900" /><figcaption id="caption-attachment-28684" class="wp-caption-text">Após 16 anos de hiato, Cormac McCarthy lançará em 2022 dois romances inéditos (<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521590/o-passageiro">O Passageiro</a> e <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521620/stella-maris">Stella Maris</a>), que chegarão às prateleiras brasileiras no final do ano pelo selo <a href="https://www.instagram.com/p/Ca40MAYtuCY/?igshid=YmMyMTA2M2Y=">Alfaguara</a>, do Grupo Companhia das Letras [Foto: Penguin Random House]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Um dos principais elementos que marcaram a concepção do romance – além das referências literárias e vivência do autor na cidade – foi o fato de que, embora tenha se mudado para Garopaba em 2008, Daniel Galera já conhecia o município como visitante. Seus pais, no período de juventude dos anos 1970, também frequentaram a região, e relataram experiências relacionadas às viagens. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Uma das histórias que eu me lembrava do meu pai ter falado foi que, uma vez, contaram a eles sobre uma figura da cidade que tinha causado problemas e assassinaram essa pessoa num baile dominical</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Galera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A história diz que, com todos os habitantes da pequena cidade no baile, apagaram-se as luzes e esfaquearam o indivíduo; somente depois a iluminação foi restabelecida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Isso foi uma espécie de justiçamento da comunidade</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Daniel. Não é absurdo pensar que a aura mítica em torno do protagonista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhe forma além da ficção, embora a veracidade da narrativa se perca no emaranhado de meias-verdades que constituem todas as tramas da vida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>É uma história que contaram aos meus pais, e meu pai contou pra mim – nem dá pra saber se isso realmente aconteceu ou não, pode ser um causo sem fundamento. Mas o fato é que eu guardei essa história, e quando me mudei pra Garopaba eu me lembrei dela. Comecei a imaginar, se essa história fosse real, quem teria sido a pessoa que foi morta, e o motivo de terem matado</i></span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Daniel Galera responde perguntas dos leitores" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/w65nfdv6Nkk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Juntei todos esses elementos que eu te contei e começou a vir a história desse professor de Educação Física que se muda pra cidade depois que o pai dele se mata, só que antes o pai dele conta sobre a morte do avô, morto em circunstâncias misteriosas em Garopaba, nos anos 1960. Todo esse embrião do romance, da história propriamente dita, vem dessa combinação de coisas. Aí entra o Cormac McCarthy, como um elemento de estilo, entra a prosopagnosia como uma característica definidora desse protagonista, que afeta a história tanto no nível do enredo como no nível da linguagem, do estilo como a história é contada. Como tu falou, essa atenção quase excessiva mesmo pros detalhes tem a ver com a forma desse personagem enxergar o mundo, relacionada também com a prosopagnosia.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu voltei para Porto Alegre, no final de 2009, comecei de fato a escrever o livro. Eu escrevi só o primeiro capítulo lá em Garopaba – que foi o capítulo que saiu na revista </i></span><span style="font-weight: 400;">Granta</span><span style="font-weight: 400;"><i> –, o restante do romance eu escrevi já em Porto Alegre. O resto é junção de várias histórias, coisas que eu inventei e outros interesses como questões filosóficas sobre o determinismo; meu interesse, na época, pela filosofia da religião budista; meu interesse pela natação – esse aspecto do protagonista do livro, de ser apaixonado por nadar no oceano, é uma coisa minha. Eu sempre gostei muito de fazer isso, participava de travessias e tinha uma paixão por nadar no mar… Então, é um livro que, como uma esponja, absorve dúzias e dúzias de influências, leituras, relatos de coisas que eu ouvi falar, experiências pessoais. Um romance dessa magnitude – digo de extensão, complexidade – acaba pegando elementos dos mais variados tipos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28688" aria-describedby="caption-attachment-28688" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28688" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa de cor verde com botões pretos. O fundo da imagem é cinza." width="1400" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-597x800.jpeg 597w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-765x1024.jpeg 765w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-768x1029.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1147x1536.jpeg 1147w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1200x1607.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28688" class="wp-caption-text">“Os personagens não vêm assim de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos” (Foto: Suhrkamp Verlag/The Paris Review)</figcaption></figure>
<p><b><i>Barba ensopada de sangue </i>está sendo adaptado para o Cinema pelo diretor <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/08/barba-ensopada-de-sangue-livro-de-daniel-galera-vai-ganhar-adaptacao-para-o-cinema.ghtml">Aly Muritiba</a>. No filme mais recente dele, <a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><i>Deserto Particular</i></a>, chama atenção a existência de uma certa importância das paisagens, enquanto se mantém uma violência implícita, um fundo de mistério e um tom mítico que cerca a reconstrução de histórias comuns – características que eu consigo relacionar com o <i>Barba</i>. Queria que você comentasse um pouco sobre isso e essas relações.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu não vejo muita ligação entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o trabalho anterior do Muritiba num nível de tema, de enredo, necessariamente. Mas eu acho que tem outras ligações muito interessantes de se pensar. A maneira como ele trata os personagens, e a construção de espaço que ele faz nos filmes dele, eu acho que tem muito a ver com o que acontece no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>. É algo muito interessado nessa textura da vida real e numa psicologia dos personagens que não é maniqueísta, que não busca ninguém exatamente bom ou mau. As pessoas são complicadas, e tem aspectos iluminados e bacanas, mas aspectos também sombrios e, às vezes, desagradáveis. Ele é muito bom em construir personagens desse tipo e eu fiz muito esforço pra que no romance os personagens fossem assim.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O livro tem um protagonista que não é um cara legal, em todos os aspectos. Ele é muito estranho, complicado e às vezes uma pessoa que não necessariamente causa coisas boas aos outros. Acho que o Aly tem muita sensibilidade pra ver isso. E esse aspecto do romance que tem a ver com o retrato de um lugar e dos efeitos do progresso contemporâneo, das mudanças políticas e econômicas na vida de uma comunidade pequena, é uma coisa muito importante e eu acho que o Aly é muito bom também em olhar pra isso.” </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“O que as pessoas fazem? Como elas vivem? À medida em que uma mudança ecológica, uma mudança política ou uma história do passado, uma superstição, afeta, de fato, o que as pessoas precisam fazer pra viver no seu dia a dia, pra tocar suas vidas. Eu acho que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> é muito feito dessas perguntas e desse olhar pra esses elementos da vida prática das pessoas, e acho que o Aly é muito bom nisso. Eu sou um grande fã do trabalho dele, então estou com expectativa de que ele vai produzir um ótimo filme.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28686" aria-describedby="caption-attachment-28686" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28686" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg" alt="Cena do filme Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba. Na imagem, à direita, vemos um homem branco de costas, com uma faixa branca enrolada no braço direito, vestindo camiseta e calça de cor preta. Ele está num lugar que se parece com um deserto, repleto por terra, galhos e pequenos arbustos. O céu está acizentado, e ao longe é possível ver postes de luz e fios que os interligam." width="1024" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-800x449.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-768x431.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28686" class="wp-caption-text">Exibido na <a href="https://personaunesp.com.br/tag/45-mostra/">45ª Mostra</a> Internacional de Cinema em São Paulo, Deserto Particular foi a submissão do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Tem algum trecho do <i>Barba </i>que é o seu favorito? Ou alguma característica desse romance que, como autor e escritor, você considera mais importante?</b></p>
<p><b>Galera:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu certamente tenho vários trechinhos que eu gosto muito até hoje, mas lembro de dois que consigo compartilhar assim, no calor da hora. Um deles é toda sequência da caminhada do protagonista pelos morros, quando ele ouve falar que o avô dele pode talvez estar vivo, como um ermitão meio louco que é visto, às vezes, nos morros da região de Garopaba, e resolve sair caminhando pra ver se por acaso encontra o avô ou pelo menos pra se sentir um pouco na pele dele. Gosto de toda a sequência dessa caminhada, que é justamente no mês de outubro de 2008, período em que houve chuvas muito fortes na região de Santa Catarina. Ele faz a caminhada bem nessa época.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>E existe um parágrafo bem curtinho do livro, não sei dizer em que página, mas que comenta sobre as matilhas de cachorros de raça, cachorros grandes, que vivem soltas em Garopaba e ficam meio que circulando à noite, como cachorros meio espectrais. É só um parágrafo curtinho e é baseado um pouco em uma coisa real também. Muitos desses cachorros grandes, de raça, estão abandonados naquela região, e deve ser uma coisa que acontece em muitas praias e locais de férias. As pessoas levam cachorros pras férias e, às vezes, aproveitam pra se livrar deles, quando não aguentam mais cuidar. Fazem a crueldade de simplesmente deixar o cachorro e ir embora.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O resultado disso é que a gente vê </i></span><span style="font-weight: 400;">rottweilers </span><span style="font-weight: 400;"><i>e pastores alemães transformados nesses cachorros meio magros, andando em matilhas. É um parágrafo só, que quem ler o livro ou procurar talvez encontre, mas é um trecho curtinho que me chamou atenção, e tem vários outros. Gosto da maioria das partes do livro. Eu mudaria algumas coisinhas pequenas, se eu fosse escrever ele hoje, mas não muito. Sou muito feliz com o resultado dele.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28687" aria-describedby="caption-attachment-28687" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28687" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg" alt="Capa da edição inglesa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem colorida, está escrito Blood drenched beard, a novel, de forma centralizada. Blood e Beard estão escritos em cor preta, e Drenched e A novel em cor vermelha. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Daniel Galera em fonte de cor branca. À direita, está o logo da editora Penguin Books, que consiste em um penguim branco e preto dentro de uma forma oval em cor laranja. O fundo da imagem é um borrão de cores cinza, azul e sépia. " width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1200x1841.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28687" class="wp-caption-text">A edição em inglês de Barba ensopada de sangue foi saudada pelo jornal <a href="https://www.nytimes.com/2015/01/20/arts/daniel-galeras-blood-drenched-beard.html">The New York Times</a> (Foto: Penguin Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As incursões literárias de Daniel Galera se iniciaram ainda nos anos 1990, como editor e colunista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines</i></span><span style="font-weight: 400;"> literários. Ele se formou em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – não porque se interessava em propaganda, mas porque, à época, era o curso que concentrava as pessoas interessadas em “</span><span style="font-weight: 400;"><i>trabalhar com Cinema, com Artes Visuais, com Design, e acabavam indo parar no curso de Publicidade porque havia menos cursos especializados nessas áreas mais artísticas ou técnicas</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Interessado em computação, o autor acreditava que seria </span><span style="font-weight: 400;"><i>web designer</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu mexia com computador, sabia usar programas de </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> gráfico, de programação de </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>, achava que seria o que na época se chamava </i></span><span style="font-weight: 400;">web designer</span><span style="font-weight: 400;"><i>, ou que trabalharia com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> de produto ou com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> visual. Era isso que eu achava que iria fazer quando prestei vestibular</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi durante o período universitário que Galera começou a lapidar seu interesse pela Literatura. Ainda na graduação, uma disciplina chamada “Criação em Língua Portuguesa” foi, na prática, uma oficina literária dada pelos professores de Letras. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Me interessei imediatamente por escrever ficção – até pra conseguir os créditos, inicialmente, mas porque era uma coisa que eu gostava. Acho que foi ali que, conhecendo esses professores e conhecendo outros alunos da faculdade que também estavam interessados por escrever ficção – mas sobretudo escrevendo e mostrando os meus textos pra colegas e professores –, percebi que achava que tinha uma vocação e um interesse muito grande em escrever Literatura</i></span><span style="font-weight: 400;">”, conta o autor.</span></p>
<div class="tumblr-post" data-href="https://embed.tumblr.com/embed/post/t:woNz66R949rnURLENv3ruQ/666662303877496832/v2" data-did="8996aefe2a1826db5133ad43955c266792b43f9b"  ><a href="https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas">https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas</a></div>
<p><script async src="https://assets.tumblr.com/post.js?_v=38df9a6ca7436e6ca1b851b0543b9f51"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meados de 1997 – momento de popularização da </span><span style="font-weight: 400;"><i>internet</i></span><span style="font-weight: 400;"> no Brasil –, Daniel Galera começou efetivamente a participar como colaborador e editor de uma série de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines </i></span><span style="font-weight: 400;">eletrônicos e revistas digitais. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“Teve uma que eu editei, chamada </i></span><span style="font-weight: 400;">Proa da Palavra</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que era só de Literatura. Pra mim, a escrita veio junto com essa prática de publicar os outros e se auto-publicar na </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span><span style="font-weight: 400;">, compartilha Galera. Então, em parceria com colegas de faculdade, criou o </span><span style="font-weight: 400;"><i>mail-zine </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://cabrapreta.org/COL/">CardosOnline</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(COL), que foi um pequeno fenômeno. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“O </i></span><span style="font-weight: 400;">CardosOnline</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi famoso na época, a gente tinha milhares de assinantes no Brasil inteiro e isso me deu um público inicial. Tinha um pessoal que acompanhava esse </i></span><span style="font-weight: 400;">fanzine</span><span style="font-weight: 400;"><i> e acompanhava o meu trabalho desde o início. Foi um incentivo grande”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco tempo depois, em 2001, em parceria com Guilherme Pilla e com o também escritor </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535922899/digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido">Daniel Pellizzari</a></span><span style="font-weight: 400;">, Galera criou a editora </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422">Livros do Mal</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. A ideia era publicar em livro “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns autores dessa nova geração que estavam surgindo na época</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Além de publicar nomes como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/o-riso-dos-ratos">Joca Reiners Terron</a></span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/paulo-scott-e-indicado-ao-international-booker-prize-por-marrom-e-amarelo.shtml">Paulo Scott</a></span><span style="font-weight: 400;">, os seus primeiros livros também saíram pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Livros do Mal</i></span><span style="font-weight: 400;">: a estreante coleção de contos </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/">Dentes Guardados</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2001) e o romance </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535909876/ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu">Até o Dia em que o Cão Morreu</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2003), que foi posteriormente relançado pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;"> e adaptado para o Cinema. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foram livros que eu publiquei de maneira independente; minha carreira começou assim. Não foi planejado, foi acontecendo organicamente. Vários caminhos e encontros que me fizeram perceber que era isso que eu queria fazer. Senti que eu tinha talento pra isso e comecei a vislumbrar que era uma profissão também</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<figure id="attachment_28685" aria-describedby="caption-attachment-28685" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28685" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-1024x1024.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera, com as duas mãos no bolso de trás de sua calça. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa xadrez em cores rosa e branco. Ao fundo vemos diversas plantas de cor verde espalhadas em vasos. " width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28685" class="wp-caption-text">“A Literatura é uma coisa da minha vida. Um gosto, um hobby, uma coisa muito importante”, compartilha Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho)</figcaption></figure>
<p><b>Como funciona o seu processo de escrita?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Em geral, envolve um período bastante longo em que eu fico só pensando e tomando notas esporádicas dos assuntos que eu acho que podem virar ficção, um período muito longo de pensar no que escrever. Isso envolve, claro, um pouco de pesquisa, procurar leituras que tenham a ver com assuntos ou com estilos que estão me interessando, mas envolve, também, dar um tempo pra imaginação ficar gestando histórias e personagens. Os personagens não vêm de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu começo a escrever, em geral, já sei bastante bem o que eu quero fazer. A escrita do livro em si não costuma ser muito demorada, eu levo em torno de um ano pra fazer um romance. É o período que envolve escrever bastante mesmo, diariamente, e fazer bastante pesquisa que ainda não foi feita, ler muita coisa. Conversar com pessoas, visitar lugares. A gente precisa de subsídios pra aprender sobre um tema ou vivenciar algumas coisas que vão ser úteis pro processo criativo e pra composição da trama.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Digamos que, entre um livro e outro, tem um tempo médio de três, quatro anos, dos quais metade, pelo menos, eu não estou trabalhando no manuscrito, estou procurando a minha história por meio de exercício de imaginação, de anotações, de leitura, de pesquisa. É o momento que eu me encontro agora, por exemplo. Eu publiquei meu último livro </i></span><span style="font-weight: 400;">[O Deus das Avencas] </span><span style="font-weight: 400;"><i>em junho do ano passado. Desde então, não escrevi quase nada, mas estou no processo de procurar o meu próximo trabalho. Estou sempre pensando na direção de um próximo romance ou de um próximo conjunto de histórias.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28689" aria-describedby="caption-attachment-28689" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28689" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg" alt="Foto em preto e branco da escritora Hilda Hilst. Na imagem, Hilda está inclinada em uma mesa, olhando para a câmera e segurando na mão direita um cigarro aceso. Ela veste uma camisa social branca e uma calça preta. Possui cabelos loiros. Ao fundo, há uma parede branca com quadros acizentados, além de uma estante com livros." width="1200" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-768x513.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28689" class="wp-caption-text">Daniel Galera elenca Hilda Hilst como uma de suas principais referências literárias (Foto: Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><b>Você tem um livro brasileiro favorito?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Não acho que seja possível responder isso categoricamente, mas eu sou muito fã da obra da </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535930863/da-prosa">Hilda Hilst</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>. Talvez os livros de ficção dela – seus textos de ficção em prosa – estejam entre as minhas coisas favoritas escritas por uma autora ou um autor brasileiro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>A </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>, recentemente, editou a </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535928853/da-poesia">obra completa</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i> dela, em dois volumes: um de poesia e um de prosa; são duas caixas, na verdade, com dois volumes. E talvez seja o meu livro favorito. Se eu tivesse que escolher um só pra poder reler no futuro, acho que seria esse </i></span><span style="font-weight: 400;">[com toda a prosa dela]</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Já reli várias vezes os textos dela, inclusive essa edição nova tem um posfácio meu. Só me dei conta disso agora, mas fica mais um motivo aí pra quem se interessar.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><b><i><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103698">Fluxo-floema</a></i></b> <b>foi uma das coisas que fizeram a minha cabeça como leitor também. </b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ah, foi? Então tu conhece bem do que eu estou falando. Eu sou apaixonado por esses livros de prosa dela. Já reli muitas e muitas vezes e nunca perde a força. Então, se a gente entender o livro favorito da Literatura brasileira como ‘se fosse obrigado a guardar só um pra poder reler no futuro’, se ficar dessa maneira, eu colocaria a prosa reunida da Hilda Hilst como esse livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28690" aria-describedby="caption-attachment-28690" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28690" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro o deus das avencas, de Daniel Galera. Na imagem colorida vemos uma arte abstrata, em cores rosa, verde, cinza, branco e roxo, que se assemelha a uma flor. À direta, está escrito em fonte de cor branca, Daniel Galera, o deus das avencas. Acima está o logo da editora companhia das letras, também em cor branca." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28690" class="wp-caption-text">“Eu fui sentindo como o realismo acabou se revelando pra mim apenas mais um gênero, apenas mais uma convenção narrativa”, diz Daniel Galera (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fazendo um paralelo entre seu último livro e o <i>Barba ensopada de sangue</i>, parece que já havia no <i>Barba </i>uma noção de um futuro perdido, algo que paira sobre a vida do protagonista, mesmo que por razões diferentes daquelas presentes no <em>Deus das Avencas</em>. No <em>Barba</em>, parece estar presente de forma mais subjetiva, enquanto no <i>Deus</i> parece surgir, principalmente, através das condições climáticas e políticas. Você consegue enxergar essa ligação? Se sim, como você lida, nos seus escritos, com essa sensação de “<a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/">futuro perdido</a>”, algo que parece ser um horizonte mas que, no capitalismo, nunca se concretiza?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sim, eu acho que dá pra enxergar uma progressão, inclusive colocando nessa progressão o romance que está entre </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>: o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927979/meia-noite-e-vinte">Meia-noite e vinte</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu entre um e outro, em 2016. O </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi concebido pra ser algo mais atemporal, digamos assim. Ele almeja ter uma estrutura e uma concepção um pouco mítica, uma história que representa um tipo de relação humana ou de experiência da condição humana que seria atemporal, uma coisa que viria pra qualquer época – questões de família, de heroísmo, de formação de identidade, de condição humana em geral. Embora se passe num lugar muito específico, numa época muito específica – e seja um romance, em grande medida, realista –, ele busca ter esse efeito. No entanto, se a gente lê com atenção, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> tem vários elementos ali sobre política, economia e, sobretudo, questões ambientais e ecológicas, que surgem como elementos de ambientação e de construção de espaço, de cenário.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que narra, por exemplo, como os pescadores artesanais estão perdendo o seu trabalho pra pesca industrial, e todas as consequências disso pra vida deles e pra economia da cidade. Ele narra como pessoas muito ricas, principalmente, acabam invadindo e ocupando lugares da região que deveriam ser preservados por lei, construindo na cidade e impondo uma urbanização ilegal e esteticamente terrível, e a forma como isso afeta a vida da região. Tem esses elementos ali no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e enquanto eu escrevia esse romance não pensava num livro que fosse sobre esses assuntos, mas eram assuntos importantes pra aquele lugar, naquela época, então eles acabam aparecendo.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Olhando pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é o romance seguinte, que saiu quatro anos depois, já é um livro em que essa questão do fim do mundo e das catástrofes políticas e ecológicas se coloca de uma maneira muito violenta. Ele é um livro sobre isso, sobre como a sensação de que esse mundo construído pelo progresso, pela modernidade, está ruindo no novo milênio, e como isso afeta as expectativas de vida de um grupo de quatro pessoas que eram jovens na virada do milênio e agora são adultos com família, profissão e carreira estabelecida, mas que, assim como todas as expectativas e os sonhos deles pro futuro, estão sendo destruídas pelo rumo político, econômico e cultural da civilização. Então, sim, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i> já é um livro sobre esse tema, das crises contemporâneas e da destruição das noções conhecidas do futuro. Ou da substituição por outras outras visões de futuro que eram muito novas e um pouco ameaçadoras.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28691" aria-describedby="caption-attachment-28691" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Meia-noite e vinte, de Daniel Galera. Na imagem colorida, vemos um fundo borrado, em cor azul, cinza e branco. À direita, escrito em forma de pontilhado e em cor vermelha, está escrito daniel galera. Abaixo, em fonte de cor branca, está escrito Autor de Barba ensopada de sangue, seguido por Meia-noite e vinte. Mais abaixo, à direita, está o logo da editora Companhia das Letras em cor cinza." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28691" class="wp-caption-text">Meia-noite e vinte retrata com maestria a geração que cresceu nos anos 1990 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Desse romance, eu depois fui pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, publicado cinco anos depois, que é essa reunião de três novelas em que a ideia de fim do mundo e as catástrofes contemporâneas são levadas a um outro patamar, mais especulativo – ou seja, já projetando pra um futuro próximo e também não próximo, um futuro distante, no caso da terceira novela, </i></span><span style="font-weight: 400;">Bugônia</span><span style="font-weight: 400;"><i>. São possíveis desenlaces das crises do presente, ou pelo menos situações ficcionais que tentam elaborar o significado das crises do presente por meio de uma imaginação mais fantasiosa, situada num futuro distante.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Se a gente observar, tem uma progressão um pouco coerente entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte </span><span style="font-weight: 400;"><i>e </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Acho que são saltos bem longos entre um livro e outro, na abordagem desse tema das crises contemporâneas e da crise do futuro. Não foi planejada dessa forma, claro. É uma coisa que eu só consigo perceber também como tu e como outros leitores ao olhar pra trás, mas sem dúvida se vê nesses três livros o despertar do meu interesse e da minha preocupação com esses assuntos, e depois o agravamento e a elaboração cada vez mais complexa, em termos de experiência e também de conceito dessas questões, pra mim, e como isso foi se transformando em ficção ao longo desses anos.”</i></span></p>
<p><figure id="attachment_28697" aria-describedby="caption-attachment-28697" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg" alt="Fotografia colorida do rompimento da barragem em Brumadinho. Na imagem, retirada de cima, é possível ver uma área repleta por lama de cor marrom. Ao fundo, é possível ver uma enorme área verde. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28697" class="wp-caption-text">O rompimento da barragem em Brumadinho (MG), controlada pela empresa Vale – antiga Vale do Rio Doce –, caracterizou o maior acidente de trabalho na História do Brasil, e um dos maiores desastres ambientais do país [Foto: Vinícius Mendonça/Ibama]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Poucos meses depois do rompimento da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/">barragem em Brumadinho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu em janeiro de 2019, Daniel Galera teve publicado na revista </span><span style="font-weight: 400;"><i>Serrote </i></span><span style="font-weight: 400;">o ensaio </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.revistaserrote.com.br/2019/10/ondas-catastroficas-por-daniel-galera/">Ondas catastróficas</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, no qual reflete sobre a dificuldade de manter a narração realista em meio às influências das imagens de catástrofe veiculadas diariamente. No texto, o autor analisa o lugar desse “realismo” na Literatura contemporânea. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu acho que o tipo de excesso e de fenômeno complexo que a gente está vivenciando no presente – em escalas globais, planetárias e universais – acaba revelando o quanto aquilo que a gente entende como ‘realismo’ sempre foi uma convenção narrativa também. A realidade mesmo se tornou muito inapreensível, mesmo com as técnicas do realismo. Parece que tudo escapa às convenções do realismo</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhou forma como um resultado dessas reflexões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso pensar que, no mundo frenético e absurdo da contemporaneidade – em que a realidade vem competindo de igual para igual com as </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/11/imbrochavel-new-york-times-incorpora-o-vocabulario-do-governo-bolsonaro.htm">distopias</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ficção especulativa –, a noção de realismo seja colocada em xeque, devido a uma imposição quase silenciosa das interações sociais por meio da tecnologia. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>A gente vive num tempo que, pelas características culturais, tecnológicas – a própria textura do dia a dia, mediado pelas tecnologias digitais –, tudo nos força a reformular um pouco o que merece ser narrado e como merece ser narrado. Porque algumas coisas se tornaram simplesmente redundantes ou sem sentido. As comunicações pessoais, por exemplo, hoje são feitas quase estritamente por meio de </i></span><span style="font-weight: 400;">WhatsApp</span><span style="font-weight: 400;"><i>, de celulares, de computadores, de telas… Como é que a gente narra isso? Como é que a gente escreve realisticamente sobre isso?</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete o escritor.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a fantasia, a ficção científica, o horror, nos dão uma textura e um tipo de emoção e de experiência estética que captura com mais potência a experiência de viver neste presente.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse realismo – para além das convenções de escrita e de gênero literário – encontra ressonâncias no que </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://jacobin.com.br/2020/01/o-legado-anticapitalista-de-mark-fisher/">Mark Fisher</a></span><span style="font-weight: 400;"> chamou de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/">realismo capitalista</a></span><span style="font-weight: 400;">”, em sua obra homônima de 2009 na qual reflete que, sob a nova roupagem neoliberal do sistema econômico, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É sob essa perspectiva que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Tóquio</i></span><span style="font-weight: 400;">, segunda novela da coletânea </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;">, parece ganhar espaço, pois em meio às crises ambientais retratadas na trama, os indivíduos buscam uma transcendência do corpo (nesse aspecto, as similaridades com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535929843/zero-k-romance">Zero K</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> [2016], de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.terra.com.br/diversao/cinema/ruido-branco-abre-festival-de-cinema-de-veneza-com-satira-a-cultura-americana,1606d970759ddd8dfcec6c3b7b095006f6vywbup.html">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;">, também se mostram visíveis). O interessante é perceber que, mesmo retratando histórias sobre fins – de um possível bem-estar social a um mundo pós-apocalíptico –, Daniel Galera jamais recorre a clichês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela que dá título à coletânea, embora em um formato mais realista – que contempla o aspecto do trabalho anterior do autor –, foge de qualquer percepção alienada da realidade dos protagonistas Lucas e Manuela, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por fim, as reflexões sobre a representação não devem se encerrar no novo formato explorado pelo escritor: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Depois de </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, estou num impasse, porque eu não sei se dobro a aposta nesse caminho ou se eu vou pra algum lugar inteiramente novo, que não trabalhei ainda</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bate-papo sobre o livro “O deus das avencas”, com Daniel Galera e Sidarta Ribeiro" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gYZ1X0qANwA?start=2009&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2022 17:32:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto &#8220;–claro, – respondi entendendo que o tempo sempre leva as nossas coisas preferidas no mundo e nos esquece aqui olhando pra vida sem elas&#8221; Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em O peso do pássaro morto, Aline Bei &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-peso-do-passaro-morto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26736" aria-describedby="caption-attachment-26736" style="width: 709px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26736 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg" alt="Capa do livro O peso do pássaro morto. Na imagem, um fundo roxo carrega o título da obra como se as palavras estivessem apoiadas em fios elétricos pretos. No canto superior direito está grafado o nome da autora em branco, já no canto inferior esquerdo é marcada a logo da editora. Ainda há nos extremos da capa os números: 8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50, 52." width="709" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg 709w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-554x800.jpg 554w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-768x1109.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1063x1536.jpg 1063w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1418x2048.jpg 1418w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1200x1733.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1.jpg 1595w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26736" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto, publicado pela Editora Nós em 2018, é a obra de estreia de Aline Bei (Foto: Editora Nós)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;–claro, – respondi<br />
</span><span style="font-weight: 400;">entendendo que o tempo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sempre leva<br />
</span><span style="font-weight: 400;">as nossas coisas preferidas no mundo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">e nos esquece aqui<br />
</span><span style="font-weight: 400;">olhando pra vida<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sem elas&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto, </span></i><span style="font-weight: 400;">Aline Bei nos convida para integrar essas perguntas em sua poética questionadora, que desde o lançamento do livro em 2018, compõe o ar encantador habitante da crueldade. Em um retrato versado pelo gosto amargo de perder, a autora de </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Rua sem saída</span></i><span style="font-weight: 400;"> apoia-se em palavras duras e sinceras para explorar o ato de se despedir, com toda sua naturalidade devastadora. </span></p>
<p><span id="more-26735"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado pela Editora </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/08/13/interna_pensar,1295420/virginia-woolf-leia-entrevista-com-editora-brasileira-de-ensaios-e-diarios.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Nós</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o texto traz uma história comovente na qual a piedade fica por conta do leitor. Com uma escrita proseada e absolutamente fluida, somos  guiados pelos caminhos de uma vida marcada pela morte de flores secas, depois de abandonadas. Através de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos coloca para viajarem sonhos sem asas, dos quais a chance de voar para longe de uma grande gaiola atulhada de frustrações foi roubada pelo tempo. </span></p>
<figure id="attachment_26737" aria-describedby="caption-attachment-26737" style="width: 740px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.2.jpg" alt="Na imagem a autora Aline Bei. Aline é uma mulher branca de cabelos claros, veste uma roupa de tom quase branco com os ombros à mostra. Ela segura o livro O peso do pássaro morto próximo ao seu rosto. Ao fundo um painel vermelho e o logo da editora constituem o cenário. " width="740" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-26737" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto foi o vencedor do prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor Estreante com Menos de 40 anos (Foto: Aline Bei)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apresentada em primeira pessoa, a personagem de </span><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/Entrevista-Aline-Bei#:~:text=Na%20entrevista%20a%20seguir%2C%20Aline,O%20Peso%20do%20P%C3%A1ssaro%20Morto."><span style="font-weight: 400;">Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> não precisa revelar seu nome para nos ser tão íntima a ponto de conhecermos o mais silencioso de dentro dela. Sua urgência vive na narrativa que tem para contar. Em capítulos intitulados pelas idades em que conheceu o incontrolável ato de morrer – seja de forma literal ou na abstração –, ela desabrocha em vocábulos o tom angustiante existente em suas decepções, fracassos e traumas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo das fases do livro, a </span><a href="https://blogs.plural.jor.br/entre-mulheres/uma-entrevista-com-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> amadurece, e o que eram palavras de uma criança curiosa e cheia de perguntas carregadas de inocência, dá lugar para uma voz embargada e desesperançosa. A mudança na escolha lexical, no entusiasmo e na estrutura das frases a cada acontecimento significativo, cria uma atmosfera na qual o livro envelhece e se machuca junto de sua protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> sabe conduzir a oralidade de maneira única, e é fácil esquecer que </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> se trata de uma leitura, pois assim, o som emitido pela protagonista se solidifica. Desta forma, os vários anos parecem se condensar em um espaço pequeno, mas totalmente completo por complexidade e sentimento. As 165 páginas construtoras da dor da anônima voam tão rápido quanto os pássaros deveriam ter feito.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;voltei pra casa chamando mãe,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">– cadê o seu luís?<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ela não tinha me contado nada porque achou que era muita morte pra eu saber de uma vez só.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A</span><span style="font-weight: 400;"> menina que aos 8 encontra o significado da </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/a-dificuldade-de-falar-sobre-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fim da vida, a de 17 que encontra a morte no fim do controle de si mesma, e a de 18 que encontra a morte no começo da vida segue perdendo seus pedaços até os 52 anos. Todas as versões se cruzam para formar uma sobrevivente, e no piloto automático resiste uma mulher que, de tanto perder, abdicou do seu direito de sentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em algum ponto de </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ser dá lugar ao existir, e os gostos, as vontades e os desejos da personagem são ofuscados por acontecimentos. A pergunta deixa de ser “</span><i><span style="font-weight: 400;">quem?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e se torna “</span><i><span style="font-weight: 400;">quando?”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">onde?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Calada por um medo e vergonha que não eram seus, mas passaram a morar em seu âmago </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/11/16/luto-e-dor-invisiveis-como-o-estupro-afeta-a-saude-mental-das-vitimas.htm"><span style="font-weight: 400;">à força</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela se esconde e passa a desconhecer o amor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação com o filho é uma dos maiores conflitos abrigados pela mente da personagem, já que alguém vindo de seu sangue, na teoria da </span><a href="https://sul21.com.br/noticias/geral/2017/05/outro-lado-da-maternidade-estereotipos-expectativas-e-mitos-sao-barreiras-para-maes/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> idealizada pela sociedade, é o amor mais verdadeiro e incodicional da vida de uma mulher. Entretanto, aqui ele representa um estranho com o qual se compartilha o mesmo teto. Por trás das barreiras, há feridas tão profundas que são incapazes de esconder a extensão do desespero. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;meu filho<br />
</span><span style="font-weight: 400;">arrumou 1 Estilingue não sei onde.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">da janela do quarto<br />
</span><span style="font-weight: 400;">o lucas e os amigos<br />
</span><span style="font-weight: 400;">bolaram um plano de matar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">passarinhos,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">eles gostam de ver<br />
</span><span style="font-weight: 400;">brutalmente interrompido<br />
</span><span style="font-weight: 400;">algo delicado que estava em<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Movimento&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> está intrinsecamente ligado às </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ao movimento dos corpos femininos transformados em objetos públicos para o mundo se sentir no direito de  moldar. Em suas entrelinhas, o livro guarda a alusão a tudo que as mãos de uma mulher tem de soltar enquanto a alma carrega um peso latente e agressivo determinado pela trivialidade de ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com simplicidade e brutalidade, o texto expõe os resultados dolorosos de cortes que continuam ardendo depois de estancar o sangue. Cada parte do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EJ2TSnZjpYg"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> revela como uma pessoa pode deixar se ser inteira cedo demais de uma forma cativante e aflitiva. Assim, perder não é sobre um objeto desaparecido. É sobre vida, ingenuidade, pureza, confiança e tudo que representa a fé, sumindo como o pássaro que é acertado pela pedra de um estilingue.</span></p>
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