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	<title>Arquivos Melhor Ator em Série de Comédia &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Barry não redime Barry: a quarta e última temporada concebe um manifesto anti-anti-herói</title>
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					<description><![CDATA[<p>Giovanna Freisinger A quarta e última temporada de Barry responde às perguntas existenciais levantadas pela obra até então e leva a história, que parecia estar em uma rua sem saída, ao seu desfecho. Seus momentos finais a consolidam como uma das melhores produções de televisão dos anos recentes. Os fãs da série estão na torcida &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/4a-temp-barry-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Barry não redime Barry: a quarta e última temporada concebe um manifesto anti-anti-herói"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31563" aria-describedby="caption-attachment-31563" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31563" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1.png" alt="Cena da série Barry. Imagem em close do protagonista olhando para frente, dos ombros para cima e à frente de um fundo preto. O rosto dele está com sangue e machucados espalhados, além de um curativo sobre o nariz e um dos olhos inchado, quase fechado." width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1.png 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-1200x675.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31563" class="wp-caption-text">Barry chegou ao fim em uma nota fria, dura e irônica, que garantiu o lugar da série na corrida pelo Emmy 2023 (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A quarta e última temporada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry</span></i><span style="font-weight: 400;"> responde às perguntas existenciais levantadas pela obra até então e leva a história, que parecia estar em uma rua sem saída, ao seu desfecho. Seus momentos finais a consolidam como uma das melhores produções de televisão dos anos recentes. Os fãs da série estão na torcida para que esse seja o ano em que ela finalmente conquiste o título de Melhor Série de Comédia no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tudo-sobre-os-vencedores-do-emmy-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">2023, após três indicações nesta categoria, mas nenhuma vitória até então. O obstáculo é a concorrência pesadíssima da categoria, com </span><a href="https://personaunesp.com.br/abbott-elementary-2a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Abbott Elementary</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-marvelous-mrs-maisel-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Maravilhosa Sra. Maisel</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Jury Duty</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/only-murders-in-the-building-2a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Only Murders in the Building</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/ted-lasso-2a-temporada-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Ted Lasso</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-bear-1a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The Bear</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://personaunesp.com.br/wandinha-1a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Wandinha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-31562"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A premissa boba da série, sobre um assassino de aluguel que descobre uma paixão avassaladora pelo teatro, não deixa transparecer as profundidades que Bill Hader, protagonista e co-criador, é capaz de levar a narrativa nos anos seguintes. A conclusão assume um tom bem mais sombrio do que quando começou &#8211; sem clima nem para manter a música de abertura descontraída. </span><a href="https://personaunesp.com.br/barry-3a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Barry</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> aproveita ao máximo a tragédia e a comédia de seu niilismo, orquestrando metodicamente os sentimentos infligidos na audiência para transitar, de um instante para outro, dos altos da sua natureza cômica à tensão e angústia consequentes da sua violência, sem parecer apática com o conteúdo nem comprometer seu ritmo impaciente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma </span><a href="https://www.vogue.com/article/barry-season-four-bill-hader-interview"><span style="font-weight: 400;">comédia ácida</span></a><span style="font-weight: 400;">, com elementos de suspense, drama psicológico e crime, poderia facilmente se perder, mas a produção</span> <span style="font-weight: 400;">prova que revelar as nuances e contradições da vida e da condição humana, quando bem feito, pode criar algo que transcende as restrições dos gêneros narrativos. A série evoluiu ano após ano, com o estilo e o tom se tornando mais bem definidos e ambiciosos conforme progredia, caminhando em direção ao surrealismo, que acrescenta para uma experiência audiovisual ainda mais imersiva. </span></p>
<figure id="attachment_31564" aria-describedby="caption-attachment-31564" style="width: 620px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31564" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2.png" alt=" Cena da série Barry. A esquerda, Sally Reed e a direita, Barry. O casal está sentado à mesa de jantar, olhando para frente com expressões vazias. Sally está usando uma peruca de cor castanha e Barry um óculos junto a sua barba rala e grisalha." width="620" height="420" /><figcaption id="caption-attachment-31564" class="wp-caption-text">Enquanto pode parecer uma história com um rumo completamente diferente de quando começou, Barry mantém os temas originais e os explora de modo mais amplo e reflexivo do que poderia, preservando o escopo inicial (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A temporada anterior introduziu a linguagem mais introspectiva que a série adotou em diante. Isso aconteceu quando Hader começou a dirigir mais do que apenas alguns episódios e começamos a ter contato com as montagens surreais e minimalistas que ele aperfeiçoa nesse novo ano &#8211; ele dirige a totalidade dos oito capítulos. Podemos observar o diretor pegando gosto pela prática, desenvolvendo e aperfeiçoando o seu estilo próprio por trás das câmeras. Com razão, já recebeu, por </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry</span></i><span style="font-weight: 400;">, três indicações ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;"> nas categorias de Melhor Direção em Série de Comédia e Melhor Roteiro em Série de Comédia. Esse ano, ele concorre novamente às duas categorias, ambas pelo episódio final da série, </span><a href="https://youtu.be/CIBekdhTrdA?si=B6pGkPEh_rABCFOT"><span style="font-weight: 400;">wow</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A liberdade tomada por Hader com as sequências experimentais é restrita ao seu comprometimento com os 30 minutos semanais. A quarta temporada pode ser considerada apressada, por vezes até atropelada, principalmente em consequência do divisivo </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-features/barry-bill-hader-time-jump-season-4-1235481717/"><span style="font-weight: 400;">salto temporal</span></a><span style="font-weight: 400;">. No entanto, esse foi o melhor caminho para manter o passo da história e a resolução de todos os conflitos em um ritmo rápido que acompanha a urgência da narrativa. </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry </span></i><span style="font-weight: 400;">é a estreia diretorial do ator e comediante e, agora que acabou, fica a ansiedade para ver o que ele planeja fazer em seguida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa vez, a performance de Bill Hader é mais brutal do que nunca, interpretando Barry como uma bomba relógio. Com sua entrega ao personagem, o ator se provou desde o primeiro momento, foi indicado ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy </span></i><span style="font-weight: 400;">como Melhor Ator em Série de Comédia por todas as temporadas e ganhou em </span><a href="https://youtu.be/_9agY_xyuyc?si=WVGy6sbDHcTavpCJ"><span style="font-weight: 400;">2018</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://youtu.be/n0BUUGzPjIg?si=Mk3JibOm8Iw7tYax"><span style="font-weight: 400;">2019</span></a><span style="font-weight: 400;">. Agora, para fechar a série com um terceiro troféu em casa, concorre com Jason Segel (</span><i><span style="font-weight: 400;">Shrinking</span></i><span style="font-weight: 400;">), Martin Short (</span><i><span style="font-weight: 400;">Only Murders in the Building</span></i><span style="font-weight: 400;">), Jason Sudeikis (</span><i><span style="font-weight: 400;">Ted Lasso</span></i><span style="font-weight: 400;">) e Jeremy Allen White (</span><i><span style="font-weight: 400;">The Bear</span></i><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<figure id="attachment_31565" aria-describedby="caption-attachment-31565" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31565" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3.png" alt="Foto dos bastidores das filmagens. A esquerda, Bill Hader, de camiseta vermelha e máscara preta sobre a boca e o nariz, está voltado para Henry Winkler (Gene Cousineau) e com a mão sobre seu ombro. Henry está caracterizado, com uma camisa roxa e uma jaqueta cinza, e voltado para o diretor. Eles estão em uma calçada, durante o dia." width="1999" height="1333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3.png 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-1200x800.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31565" class="wp-caption-text">Bill Hader dirigiu, ao todo, mais da metade dos episódios da série (Foto: Merrick Morton/HBO Max)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Barry </span></i><span style="font-weight: 400;">desenvolveu uma marca registrada com a sua </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-features/bill-hader-interview-barry-final-season-emmys-2023-1235559455/"><span style="font-weight: 400;">linguagem visual</span></a><span style="font-weight: 400;"> que prende o olhar do espectador na tela, mesmo diante de cenas violentas ou perturbadoras: uma câmera impessoal e observadora, que tende a enfatizar as reações dos personagens, independente do quão mirabolante os acontecimentos ao seu entorno sejam. Isso dá aos atores mais espaço para explorar suas performances. Grande parte do que eleva a série a algo realmente especial são as interpretações que eles entregam a essas figuras, contemplando as dualidades e conflitos internos de cada um. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse ano, Anthony Carrigan (NoHo Hank) e Henry Winkler (Gene Cousineau) disputam novamente o </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia. É a terceira indicação para ambos e Winkler levou o troféu em 2018 pela primeira temporada. Vale notar, contudo, a inexplicável insistência da Academia de Televisão em esnobar a contribuição de </span><a href="https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2023/jul/12/emmy-nominations-2023-snubs-surprises"><span style="font-weight: 400;">Sarah Goldberg</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Sally Reed), desde 2019 sem a indicar, apesar de seu imenso talento e inegável impacto para o sucesso da série. </span></p>
<figure id="attachment_31566" aria-describedby="caption-attachment-31566" style="width: 959px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31566" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4.png" alt="Cena da série Barry. Dentro de uma casa, com duas janelas amplas, à esquerda, um homem coberto inteiro de preto está parado de pé atrás da Sally Reed, a observando. Ela está de costas para o homem, olhando por uma das janelas." width="959" height="612" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4.png 959w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-800x511.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-768x490.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31566" class="wp-caption-text">Em seus episódios finais, a narrativa leva o elenco mais adentro do caminho sombrio que Barry Berkman os colocou (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A quarta temporada chegou para subverter expectativas, reunindo todos os temas abordados nos anos anteriores da obra de maneira mais audaciosa e definitiva. Sua abordagem mais intensa não vai ser para todos, mas as decisões ousadas, performances estelares e habilidades técnicas fazem desse encerramento uma inegável jogada de mestre. Os primeiros episódios demoram um pouco para pegar no embalo, mas, quando as coisas começam a sair dos eixos, a produção te prende e não solta mais. </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry </span></i><span style="font-weight: 400;">sempre foi boa em manter a audiência na beirada do sofá e, caminhando para a sua conclusão, domina isso em seu potencial máximo. Nunca se sabe qual o </span><a href="https://youtu.be/77pHZ0crXV0?si=ETm5IguSqnLmoyIG"><span style="font-weight: 400;">próximo passo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de nenhum dos personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A série rejeita as nossas tendências de simpatizar com </span><a href="https://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-ha-tantos-anti-herois-na-televisao/"><span style="font-weight: 400;">anti-heróis</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em sua reta final, apresenta uma exploração angustiante dos danos causados por um homem violento. A essa altura, Barry já não é mais o protagonista. O drama se dá ao examinar todas as vidas que ele comprometeu, direta ou indiretamente. A escolha ousada de descentralizá-lo da narrativa tem um efeito em fazer a audiência enxergá-lo por quem ele é, assim como os outros personagens começam a fazer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A angústia da história vem da vontade que o personagem expressa em mudar, mas nunca muda. No último episódio, ele enfim toma uma decisão que pode ser considerada uma mudança, mas já é tarde demais. Ele não é oferecido redenção, nem vingança: o roteiro não recompensa Barry de qualquer maneira. Há um argumento, desde a terceira temporada, de que o arrependimento, não importa o quão sincero, não têm valor algum sem </span><a href="https://www.npr.org/2019/06/20/734356166/on-hbos-barry-bill-hader-asks-can-you-change-your-nature"><span style="font-weight: 400;">mudanças de comportamento</span></a><span style="font-weight: 400;">. O protagonista cruza todos os limites que traça para si mesmo. Ele sente culpa, mas, ainda assim, prefere cometer atos injustificáveis a sacrificar a vida que reivindica para si. </span></p>
<figure id="attachment_31567" aria-describedby="caption-attachment-31567" style="width: 540px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31567" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5.png" alt="Cena da série Barry. A imagem mostra as costas de Barry, que está carregando duas armas apoiadas em seus ombros, enquanto ele anda entre corredores de uma loja cheios de brinquedos infantis." width="540" height="367" /><figcaption id="caption-attachment-31567" class="wp-caption-text">Barry nunca perde a sua comédia, com muitas de suas melhores sacadas graças às articulações visuais que Hader conquista por trás da câmera (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Barry se agarra a suas boas intenções &#8211; apesar de autocentradas &#8211; para não ter que admitir para si mesmo que tem controle sobre essas situações, e os danos que causa são uma escolha egoísta e calculada. Ele é definido por suas ações e, nesse sentido, é uma resposta a todos os anti-heróis. O </span><a href="https://www.writersroom51.com/post/diferen%C3%A7a-entre-convences-e-tropos-narrativos"><i><span style="font-weight: 400;">trope</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é dominado por histórias de homens que fazem coisas terríveis, só para depois serem representados como vítimas mal compreendidas de más circunstâncias. É nesse ponto que </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry </span></i><span style="font-weight: 400;">escolhe seguir por outro caminho e, fazendo isso, configura uma história anti-anti-heróis, que não deixa o seu protagonista, nem a audiência, escapar das duras consequências da realidade. A série finalmente responde a sua questão central: o remorso é o suficiente para a redenção? Claro que não.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final, apesar de imprevisível, é anticlimático &#8211; de propósito. Em seus últimos momentos, a série</span> <span style="font-weight: 400;">compõe sua última piada, ao mesmo tempo que consegue sintetizar a sua mensagem, retornando os temas que expandiu nesta temporada para onde tudo começou: a indústria do teatro, cinema e televisão. </span><i><span style="font-weight: 400;">Barry</span></i><span style="font-weight: 400;"> sempre usou a paixão do personagem pela atuação como sua </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/streaming/hbo-max/barry-nasceu-da-inseguranca-e-sindrome-de-impostor-de-bill-hader/"><span style="font-weight: 400;">metáfora central</span></a><span style="font-weight: 400;">, para tratar das mentiras que contamos a nós mesmos. A tese da série é expressa, surpreendentemente, por Fuches (Stephen Root), quando ele compreende que ninguém se torna melhor do que é por negar a verdade.  </span></p>
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		<title>The Bear: Como assim tem um urso na cozinha do Star +?</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2023 19:59:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathan Nunes Um dos reality shows mais famosos do canal Food Network é o S.O.S. Restaurante, apresentado pelo chef de cozinha Robert Irvine. Nele, o anfitrião tenta salvar restaurantes em situação crítica, seja financeira, sanitária ou emocional. O grande charme do programa é a possibilidade de imersão no cotidiano da gastronomia, nem sempre tão atrativo &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/the-bear-1a-temp-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "The Bear: Como assim tem um urso na cozinha do Star +?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29619" aria-describedby="caption-attachment-29619" style="width: 2253px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29619 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1.jpg" alt="Cena da série The Bear. No canto inferior esquerdo, temos o ator Jeremy Allen White, um homem branco de cabelos loiros escuros, vestindo camisa branca e avental azul. Ele tem tatuagens difíceis de identificar em seu braço esquerdo. No centro, temos o ator Lionel Boyce, um homem preto vestindo gorro vermelho, camisa preta e avental branco. No canto inferior direito, temos o ator Ebon Moss-Bachrach, um homem branco de cabelos curtos pretos, barba por fazer, vestindo uma camisa azul com um logotipo branco estampado no peito direito e uma blusa branca amarrada em sua cintura. Ao fundo, temos o cenário de uma despensa de alimentos de metal acinzentado, a qual Lionel está segurando a porta e Jeremy está na frente de uma estante com alimentos em caixas. A cena acontece durante o dia. " width="2253" height="1688" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1.jpg 2253w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-800x599.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-1024x767.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-768x575.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-1536x1151.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-2048x1534.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-1-1200x899.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29619" class="wp-caption-text">Assim como qualquer edição do MasterChef, The Bear mostra que a cozinha também pode ser um inferno (Foto: Star+)</figcaption></figure>
<p><b>Nathan Nunes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">reality shows</span></i><span style="font-weight: 400;"> mais famosos do canal </span><i><span style="font-weight: 400;">Food Network</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ETbifyPCBD8"><i><span style="font-weight: 400;">S.O.S. Restaurante</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, apresentado pelo chef de cozinha Robert Irvine. Nele, o anfitrião tenta salvar restaurantes em situação crítica, seja financeira, sanitária ou emocional. O grande charme do programa é a possibilidade de imersão no cotidiano da gastronomia, nem sempre tão atrativo e tampouco saudável para os profissionais quanto os pratos de comida são para nós. Felizmente, tudo dá certo ao final de cada episódio e Irvine consegue cumprir sua missão de mudar a rotina dentro desses estabelecimentos, coisa que os trabalhadores da casa de sanduíches </span><i><span style="font-weight: 400;">The Beef </span></i><span style="font-weight: 400;">provavelmente sonham desde os minutos iniciais de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Urso</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tendo Christopher Storer (</span><i><span style="font-weight: 400;">Bo Burnham: Make Happy</span></i><span style="font-weight: 400;">) como </span><i><span style="font-weight: 400;">showrunner</span></i><span style="font-weight: 400;">, a série, original da </span><i><span style="font-weight: 400;">Hulu</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos Estados Unidos e do </span><i><span style="font-weight: 400;">Star+</span></i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil, é figurinha carimbada nas premiações do começo desse ano, com projeções até mesmo para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;">. Além da indicação na categoria de Melhor Série de Comédia ou Musical, o projeto se destacou principalmente através de seu único membro vitorioso: Jeremy Allen White (</span><a href="https://personaunesp.com.br/shameless-11a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Shameless</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Homecoming</span></i><span style="font-weight: 400;">), vencedor do </span><a href="https://ovicio.com.br/o-urso-jeremy-allen-white-vence-globo-de-ouro/"><i><span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e do </span><a href="https://cinepop.com.br/critics-choice-awards-2023-jeremy-allen-white-leva-o-premio-de-melhor-ator-em-serie-de-comedia-por-o-urso-387247/"><i><span style="font-weight: 400;">Critic’s Choice</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como Melhor Ator em Série de Comédia pelo desempenho como o protagonista Carmy.</span></p>
<p><span id="more-29618"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando seu irmão Mikey (Jon Bernthal, de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Justiceiro</span></i><span style="font-weight: 400;">) se suicida, o chef de cozinha em frangalhos emocionais é incumbido da tarefa de administrar o restaurante, a contragosto do gerente de longa data Richie (Ebon Moss-Bachrach, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Star Wars:</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Andor</span></i><span style="font-weight: 400;">). O que ambos encontram, para o mínimo espanto do primeiro, é uma cozinha caótica e desorganizada, onde os nervos dos cozinheiros estão sempre à </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wGr1CDxW108&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx&amp;index=15"><span style="font-weight: 400;">flor da pele</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as contas nunca saem do vermelho.</span></p>
<figure id="attachment_29620" aria-describedby="caption-attachment-29620" style="width: 1296px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29620" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2.jpg" alt="Cena da série The Bear. No centro, temos o ator Jeremy Allen White, um homem branco de cabelos loiros escuros, vestindo camisa branca, avental azul e calças pretas. Ele está ajoelhado e esfregando o chão com um pano preto e uma tupperware transparente com água e sabão. Ao fundo, temos uma mesa com ferramentas no centro, um tanque branco sujo à esquerda e uma cômoda de madeira marrom à direita. A cena acontece durante o dia. " width="1296" height="730" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2.jpg 1296w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2-800x451.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2-1024x577.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2-768x433.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-2-1200x676.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29620" class="wp-caption-text">Se fosse um utensílio culinário, a cozinha de The Bear seria claramente uma panela de pressão (Foto: Star+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Logo à primeira vista, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Bear </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original) já evidencia a tônica </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kMGog1cU8BY&amp;t=13s"><span style="font-weight: 400;">técnica</span></a><span style="font-weight: 400;"> que pretende seguir dentro desse ambiente tão bélico. A câmera de Storer e Joanna Calo (</span><a href="https://personaunesp.com.br/hacks-2-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Hacks</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, Bojack Horseman</span></i><span style="font-weight: 400;">), por exemplo, se movimenta de forma brutal e intensa pelos espaços apertados da cozinha, além de se fechar muito nos </span><i><span style="font-weight: 400;">closes</span></i><span style="font-weight: 400;"> dos atores e nos planos-detalhe dos alimentos sendo cortados e preparados para as receitas. Enquanto isso, o que embala nossos ouvidos é uma sinfonia tóxica de gritos, xingamentos, panelas e tigelas batendo no chão, entre outras insalubridades. É curioso notar, inclusive, a linha tênue que separa a precisão dos pratos do caos dentro do restaurante, pois, a cada minuto, surgem novos obstáculos e diminui o tempo para resolvê-los.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, o grande chamariz da série é o desenvolvimento de seus personagens, com três deles se destacando em especial. A primeira é a jovem </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QCZyMHD5Xog&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx"><span style="font-weight: 400;">Sidney</span></a><span style="font-weight: 400;">, interpretada por Ayo Edebiri (</span><a href="https://personaunesp.com.br/big-mouth-5a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Big Mouth</span></i></a><span style="font-weight: 400;">). Desde o instante em que ela entra na cozinha, seu talento e determinação já são notados por Carmy, que não hesita em delegá-la a funções importantes dentro do trabalho, algo que incomoda veteranas como Tina (Liza Colón-Zayas, de </span><a href="https://personaunesp.com.br/in-treatment-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">In Treatment</span></i></a><span style="font-weight: 400;">). Nessa linha, sua história ganha importância e expansão nos cruciais episódios </span><i><span style="font-weight: 400;">Brigade</span></i><span style="font-weight: 400;">, no qual ela é encarregada de instaurar o sistema de brigada francesa entre os cozinheiros; e </span><i><span style="font-weight: 400;">Dogs</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que vemos seus esforços para conquistar o respeito dos demais, incluindo da rival. </span></p>
<figure id="attachment_29621" aria-describedby="caption-attachment-29621" style="width: 2387px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29621" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3.jpg" alt="Cena da série The Bear. No centro da imagem, temos a atriz Ayo Edebiri, uma mulher preta de cabelos trançados, vestindo uma durag laranja, camisa social branca e avental azul escura. Ela está segurando uma prancheta azul clara em sua mão direita, apoiando sua mão esquerda sobre ela com uma caneta cinza com tampa vermelha. Ao fundo, temos paredes iluminadas em rosa, um fliperama e uma máquina não identificada. A cena acontece durante o dia. " width="2387" height="1594" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3.jpg 2387w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-1024x684.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-768x513.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-1536x1026.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-2048x1368.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-3-1200x801.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29621" class="wp-caption-text">Quando você menos esperar, lá vai estar a Sidney querendo te mostrar os planos para o futuro do The Beef (Foto: Star+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em paralelo à jornada da aspirante, temos o arco narrativo do Richie de Bachrach, um homem que exala forte sentimento de decadência. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1nT_urmDBfo&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx&amp;index=4"><i><span style="font-weight: 400;">Ceres</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o sexto dos oito episódios da primeira temporada da série, o representa já em seus primeiros minutos de rodagem: começamos ouvindo Mikey contar uma história absurda e engraçada que empolga todos ao seu redor e terminamos com o fracasso de Richie em replicar o sentimento ao contar a mesma história para outra pessoa durante um encontro. O momento é, na superfície, corriqueiro, mas logo se expande para um reflexo das inseguranças do gerente e do peso de ‘ficar para trás’, principalmente quando ele se depara com o crescimento de Sidney. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa estratégia de progressão orgânica e bem amarrada, na qual um mero acontecimento repercute em aspectos fundamentais no futuro, e assim avança a história, não se restringe apenas a esse ponto. No mesmo episódio, por exemplo, Sidney desenvolve um prato de risoto que não agrada tanto o gosto de Carmy. A refeição vai parar nas mãos de um freguês qualquer que descobrimos ser um importante crítico gastronômico no sétimo capítulo, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1K3z62yoiOA&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx&amp;index=6"><i><span style="font-weight: 400;">Review</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, quando uma ótima resenha do restaurante é publicada e aumenta absurdamente o número das reservas de pedidos. O que se segue, a partir daí, é a tensão e animosidade da série elevada à enésima potência, conforme o chefe tem um colapso nervoso. Todos os conflitos previamente estabelecidos explodem na frente da câmera, tudo registrado em um único plano sequência a lá </span><i><span style="font-weight: 400;">Birdman </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">1917. </span></i></p>
<figure id="attachment_29622" aria-describedby="caption-attachment-29622" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29622" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-scaled.jpg" alt="Cena da série The Bear. À esquerda, temos o ator Jeremy Allen White, um homem branco de cabelos loiros escuros, vestindo camisa branca e avental azul escuro. Logo atrás dele, também à esquerda, temos a atriz Liza-Colón Zayas, uma mulher preta de cabelos cacheados, vestindo camisa e avental brancos e calça jeans azul. Também à esquerda, ao fundo, temos o ator Edwin Lee Gibson, um homem preto de cabelos curtos, vestindo avental branco e camisa laranja. No centro da imagem, temos o ator Lionel Boyce, um homem preto vestindo gorro vermelho, camisa preta e avental branco. Ele está segurando um pilar de bolo em suas mãos. Logo à direita de Boyce, temos a atriz Ayo Edebiri, uma mulher preta de cabelos trançados, vestindo uma durag laranja, camisa social branca, avental azul escuro, calça e tênis pretos. No canto inferior direito, temos o ator Ebon Moss-Bachrach, um homem branco de cabelos curtos pretos, barba por fazer, vestindo uma camisa azul com um logotipo branco estampado no peito direito, uma toalha branca amarrada em sua cintura, calça azul clara com listras amareladas e tênis brancos com meias brancas. Ele está sentado sobre um balcão. A cena acontece durante o dia. " width="2560" height="1708" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-1536x1025.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-2048x1366.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Imagem-4-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29622" class="wp-caption-text">A diversidade racial e cultural dentro da cozinha é um dos pontos altos do elenco de O Urso (Foto: Star+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando chegamos ao oitavo e último episódio da temporada, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1fjITOkFnnE&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx&amp;index=4"><i><span style="font-weight: 400;">Braciole</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o texto já começa colocando os personagens contra a parede e os forçando a lidar com os acontecimentos passados, em especial Carmy. No semblante de Jeremy Allen White e nas palavras proferidas em um forte monólogo, vemos um homem completamente em pedaços, que não consegue lidar com seus demônios pessoais. Essa dificuldade particular se relaciona perfeitamente com o título da série, pois o urso em si é uma metáfora para tudo aquilo que não é dito e confrontado pelos personagens. É um obstáculo que os impede de se reconciliar consigo mesmos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, a cozinha opera quase como um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=R17bg0NnI8Y&amp;list=PLIDyzBpnfjqlLh6LYeKgGp1ihf44Y8jLx&amp;index=9"><span style="font-weight: 400;">purgatório</span></a><span style="font-weight: 400;"> para essas pessoas. Um local que suga suas energias, mas também as externaliza quando o resultado é bem feito e claramente afeta a vida de alguém. O chef Irvine entende esse potencial em </span><i><span style="font-weight: 400;">S.O.S Restaurante</span></i><span style="font-weight: 400;"> e, não à toa, é difícil esquecer de seus esforços enquanto assistimos </span><i><span style="font-weight: 400;">The Bear</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ele nunca foi mencionado na produção, mas a noção de que vale a pena confrontar diretamente suas angústias e ansiedades para crescer dentro de um meio é notável em ambas as atrações. Aqui, é a culinária, mas, na vida real, pode ser qualquer outra.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="The Bear Season 1 Trailer | Rotten Tomatoes TV" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gBmkI4jlaIo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A fábula de Atlanta é real</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Sep 2022 18:45:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto Muita coisa mudou nos quatro anos que separam a segunda e a terceira temporada da aclamada e assustadoramente relevante série do multiartista Donald Glover. Hoje, vivemos em um mundo pós-This Is America, em que racismo nunca foi um assunto tão comentado, simultaneamente que, divididos por uma pandemia implacável e a eclosão de protestos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/atlanta-3-temp-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A fábula de Atlanta é real"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28640" aria-describedby="caption-attachment-28640" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-28640" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-1-5-800x450.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Nela, o ator Bryan Tyree Henry, intérprete do personagem Alfred, encontra-se no centro, em foco. Ele é um homem negro, usando cordões de ouro no pescoço e uma camisa branca com detalhes em vermelho, verde e amarelo. O cenário é uma sala de jantar luxuosa de paredes douradas e, atrás dele, dois garçons brancos, um homem e outro mulher, estão virados para a parede, com as costas para a câmera." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-1-5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-1-5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-1-5-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-1-5.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28640" class="wp-caption-text">A terceira temporada de Atlanta aparece tímida no Emmy 2022, indicada somente a três categorias – o que reflete sua recepção mista pela audiência e crítica (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muita coisa mudou nos quatro anos que separam a segunda e a terceira temporada da aclamada e assustadoramente relevante série do multiartista Donald Glover. Hoje, vivemos em um mundo pós-</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VYOjWnS4cMY"><i><span style="font-weight: 400;">This Is America</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em que racismo nunca foi um assunto tão comentado, simultaneamente que, divididos por uma pandemia implacável e a eclosão de protestos contra a violência policial, as tensões raciais dos nossos tempos se transformaram e, sobretudo, se amplificaram. Dentro desse contexto caótico e indubitavelmente distinto de 2018, </span><a href="https://personaunesp.com.br/atlanta-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> inverte a lógica e, para transpor a realidade às telas, aguça o que a produção tem de mais fantasioso.</span></p>
<p><span id="more-28639"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso, a série chama a atenção há tempos – desde sua estreia em 2016 – por seus comentários sobre raça, fama e indústria musical. Não foi à toa a reação estarrecida quando a adaptação de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sr. e Sra. Smith</span></i><span style="font-weight: 400;"> para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Prime Video</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi anunciada </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/entretenimento/sr-sra-smith-phoebe-waller-bridge-por-que-abandonou-remake-do-filme-com-angelina-jolie-e-brad-pitt/"><span style="font-weight: 400;">primariamente</span></a><span style="font-weight: 400;"> como uma parceria entre Glover e </span><a href="https://personaunesp.com.br/fleabag-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">Phoebe Waller-Bridge</span></a><span style="font-weight: 400;">. Tanto o seriado da </span><i><span style="font-weight: 400;">FX</span></i><span style="font-weight: 400;"> quanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Fleabag</span></i><span style="font-weight: 400;"> foram lançados no mesmo ano, popularizando de vez o fenômeno moderno que cunhou-se como </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/dramedia/"><span style="font-weight: 400;">dramédia</span></a><span style="font-weight: 400;">. É claro que </span><i><span style="font-weight: 400;">takes</span></i><span style="font-weight: 400;"> tão ousados chamariam a atenção da Academia de Televisão e, desde 2017, </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> é destaque nas principais categorias de Comédia do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/emmy-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indicada 22 vezes por suas duas primeiras temporadas, o provável momento de maior brilho da obra na premiação foi em 2018, quando o episódio mais aclamado da série, </span><a href="https://www.papelpop.com/2018/09/teddy-perkins-esteve-no-emmy-2018-mas-quem-e-teddy-perkins/"><i><span style="font-weight: 400;">Teddy Perkins</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, adentrou em cinco categorias entre principais e técnicas, incluindo Melhor Direção em Série de Comédia e Melhor Edição de Som – essa, que levou para casa. O detalhe é que, ao mesmo tempo, esse episódio se distingue completamente do formato convencional da série, transportando sua linguagem excêntrica e surrealista para o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dvyoEfMZ-oY"><span style="font-weight: 400;">contexto do terror</span></a><span style="font-weight: 400;">. O terceiro ano de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> é intensamente influenciado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">feedback</span></i><span style="font-weight: 400;"> positivo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Teddy Perkins</span></i><span style="font-weight: 400;"> e decide acentuar esse experimento à décima potência, elevando-o a todo o escopo do seriado e afastando-se ainda mais das convenções de suas fases anteriores.</span></p>
<figure id="attachment_28641" aria-describedby="caption-attachment-28641" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28641 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-2-2-800x533.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Nela, Zazie Beetz, Donald Glover, Lakeith Stanfield e Bryan Tyree Henry, intérpretes dos protagonistas da obra — Van, Earn, Darius e Alfred, respectivamente —, caminham por uma rua noturna. Earn, homem negro de camisa laranja, olha para seu celular incomodado; Van, mulher negra que veste uma jaqueta vermelha e azul, olha para frente com um sorriso; Darius, homem negro de cabelo descolorido, olha para cima; e Alfred, homem negro que veste uma jaqueta preta, boné e cordões de ouro no pescoço, olha para Earn com uma das dsobrancelhas arqueadas." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-2-2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-2-2-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-2-2-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-2-2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28641" class="wp-caption-text">Hiro Murai, colaborador de longa data de Donald Glover foi indicado novamente este ano, com chances de receber seu primeiro Emmy como diretor (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O choque se inicia logo no primeiro episódio. Quem esperava ser introduzido às novas aventuras do astro do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=E-scUf3Xp9w"><span style="font-weight: 400;">Paper Boi</span></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><a href="https://personaunesp.com.br/eternos-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bryan Tyree Henry</span></a><span style="font-weight: 400;">) e sua turma foi surpreendido ao ser levado para um cenário totalmente novo. </span><i><span style="font-weight: 400;">Three Slaps</span></i><span style="font-weight: 400;">, vencedora em Melhor Fotografia em Série de Meia Hora pelo trabalho de Christian Sprenger – um repeteco de sua vitória na mesma categoria por </span><i><span style="font-weight: 400;">Teddy Perkins</span></i><span style="font-weight: 400;"> – é uma releitura do caso real de </span><a href="https://allthatsinteresting.com/devonte-hart"><span style="font-weight: 400;">Devonte Hart</span></a><span style="font-weight: 400;">, um garoto que, ao ser afastado da mãe pelo conselho tutelar, foi levado com seus irmãos para um casal de duas mulheres brancas, que eram negligentes e cometiam inúmeros abusos contra as crianças. O terror é a âncora do episódio, nos introduzindo à perturbadora residência das cuidadoras como se explorássemos os confins de uma </span><a href="https://www.rollingstone.com/tv-movies/tv-movie-recaps/atlanta-season-3-premiere-recap-three-slaps-sinterklaas-1324193/"><span style="font-weight: 400;">casa mal-assombrada</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, se a série reproduz o desfecho trágico desta ocorrência, quando as mães atiraram seu carro para um rio de um penhasco de 30 metros, com elas e os filhos dentro, Stephen Glover, irmão de Donald e roteirista do episódio, concede uma reparação. Loquareeous (Christopher Farrar), personagem inspirado em Devonte, tira as outras crianças do porta-malas e pula para fora do carro antes do pior ocorrer, conseguindo enfim voltar para casa. </span><a href="https://www.gq.com/story/atlanta-season-3-premiere-three-slaps-devonte-hart"><i><span style="font-weight: 400;">Three Slaps</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não tem conexão alguma com a narrativa original de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;">, com exceção da cena final, que mostra Earn Marks (Donald Glover) acordando em um quarto de hotel, como se tudo não passasse de um sonho ruim.</span></p>
<figure id="attachment_28642" aria-describedby="caption-attachment-28642" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28642 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-800x450.png" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida, mostra Christopher Farrar, intérprete de Loquareeous, um garoto negro vestindo uma jaqueta azul e chapéu de palha, sendo segurado por Jamie Neumann, intérprete de Gayle, uma mulher branca vestindo uma jaqueta vinho. Enquanto o menino tem um semblante frustrado, a mulher mantém um olhar impiedoso e implacável. Ao lado deles, vê-se uma mulher branca, de jaqueta cinza e gorro branco, com um olhar preocupado – Laure Dreyfuss, intérprete de Amber. O cenário é uma feira ao ar livre com flores, e a cena se passa de dia." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-2048x1152.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-3-1-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28642" class="wp-caption-text">Em Three Slaps, a série chega a reproduzir a famosa fotografia em que Devonte abraça um policial pedindo por ajuda (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse não é um evento à parte. Para além de uma estrutura não linear, a terceira temporada intercala sua narrativa principal com uma série de episódios com </span><a href="https://www.complex.com/pop-culture/donald-glover-wanted-to-make-black-fairytale-atlanta-season-3"><span style="font-weight: 400;">fábulas</span></a><span style="font-weight: 400;"> isoladas, em uma espécie de antologia completamente independente. Essa escolha gera dois efeitos. Por um lado, isso dá total liberdade editorial para que os roteiristas possam explorar os temas e circunstâncias mais estapafúrdios possíveis, criando histórias relevantes e provocantes que jamais poderiam ser feitas em outra conjuntura. Por outro, toda escolha é uma renúncia e, nesse caso, a consistência da temporada foi sacrificada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez, por isso mesmo, sua </span><a href="https://www.vulture.com/article/atlanta-season-three-flaws.html"><span style="font-weight: 400;">recepção</span></a><span style="font-weight: 400;"> não tenha sido das mais unânimes. Não só a crítica especializada, o que se reflete nas apenas três citações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> no </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2022, mas também grande parte do público se viu </span><a href="https://www.washingtonpost.com/tv/2022/05/20/atlanta-season-3-finale/"><span style="font-weight: 400;">frustrado</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a nova abordagem. O tempo de tela dos nossos personagens favoritos foi cortado pela metade e parte de seu progresso foi inevitavelmente perturbado graças a tais contos ‘desconexos’ que estão longe do interesse da audiência. Porém, engana-se quem pensa que estes episódios não dialogam com a </span><i><span style="font-weight: 400;">storyline</span></i><span style="font-weight: 400;"> principal. Cada uma dessas temáticas conecta-se intimamente com o núcleo emocional da obra, contudo, alicerçada sob pontos de vista únicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é então que nos deparamos com uma das escolhas mais controversas por parte dos criadores. Graças a esse acervo de fábulas, pela primeira vez, temos episódios de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> protagonizados por </span><a href="https://andscape.com/features/grappling-with-atlantas-new-villain-white-people/"><span style="font-weight: 400;">personagens caucasianos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Verdade seja dita, a série furou a bolha e, nesses quatro anos de hiato, passou a abarcar uma audiência cada vez mais branca. Todavia, ao invés de ignorar esse fato, a mesa de roteiristas opta por abraçar a contradição e </span><a href="https://www.vox.com/23032541/atlanta-afro-surrealism-donald-glover"><span style="font-weight: 400;">enfrentá-la diretamente</span></a><span style="font-weight: 400;">. Esses capítulos colocam um espelho à frente dessa parcela do público, obrigando-nos a sair do conforto da impessoalidade e confrontar nossas próprias hipocrisias. Afinal, como pode uma pessoa branca, que se diz antirracista, continuar se beneficiando e operando a favor de uma hierarquia racial conscientemente genocida?</span></p>
<figure id="attachment_28643" aria-describedby="caption-attachment-28643" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28643 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-800x533.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Nela, Justin Bartha, intérprete de Marshall, um homem branco vestindo uma jaqueta azul-escura e suéter preto, segurando seu celular e fone de ouvido no caixa de uma loja de conveniência. A cena se passa de dia." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-1536x1023.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4-1200x799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-4-4.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28643" class="wp-caption-text">Entre os episódios antológicos, The Big Payback conta uma realidade alternativa em que os EUA aplicam uma política de reparação história, indenizando famílias negras através do dinheiro de descendentes de proprietários de escravos – a fábula black-mirroniana de Atlanta (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse questionamento, evidentemente, não está tão distante quanto parece da jornada de nossos protagonistas. Isso porque, desta vez, nos afastamos das locações em Atlanta e os acompanhamos pela primeira turnê internacional de Paper Boi pelo – </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bamJ_vxlcOs"><span style="font-weight: 400;">extremamente branco</span></a><span style="font-weight: 400;"> – continente europeu. O sentimento de constante estranhamento e deslocamento dilata-se sobre um corpo social em que Earn, Alfred – nome real de Paper Boi – e Darius (Lakeith Stanfield) se vêem em ainda menor número, e que cultiva costumes excepcionalmente racistas. Não é à toa que o ano três de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> reapresenta seu microuniverso enquanto desconstrói o </span><a href="https://www.opensocietyfoundations.org/voices/black-pete-and-legacy-racism-netherlands"><i><span style="font-weight: 400;">Sinterklaas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tradição de final de ano da Holanda, semelhante ao Natal, mas que banaliza seu próprio imaginário racista ao naturalizar o uso do </span><i><span style="font-weight: 400;">blackface</span></i><span style="font-weight: 400;"> – que Alfred, claro, não deixaria barato.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha de retratar situações bizarras através de elementos da vida real ocorre porque o surrealismo da obra atua sobre outros tons. Se uma festa nacional baseada em um arquétipo racista, ou duas mães que colocam os próprios filhos adotivos para realizar trabalho infantil, parece insano, é porque é mesmo. Porém, o insano se revela ainda mais grave pela conexão desses cenários com o presente. Diferente dos ensaios de linguagem propostos por </span><a href="https://personaunesp.com.br/twin-peaks-30-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Twin Peaks</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que visavam se afastar ao máximo do que entendemos como lógico, </span><a href="https://www.vulture.com/2016/01/donald-glover-on-doing-twin-peaks-with-rappers.html"><i><span style="font-weight: 400;">Twin Peaks</span></i><span style="font-weight: 400;"> com </span><i><span style="font-weight: 400;">rappers</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> aproxima-se de suas abstrações ao replicar nossa realidade material, denunciando o absurdo inerente às violências raciais. É o </span><a href="https://medium.com/@_eusouyuri/manifesto-afro-surreal-preto-%C3%A9-o-novo-preto-um-manifesto-do-s%C3%A9culo-xxi-4b984c995b65"><span style="font-weight: 400;">afrossurealismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> em sua expressão mais pura.</span></p>
<figure id="attachment_28644" aria-describedby="caption-attachment-28644" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28644 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-800x451.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular em preto-e-branco. Com o fundo inteiramente escuro, a única coisa que temos visão é um jovem mestiço, de cabelos lisos, vestindo um moletom listrado. Ele olha pra cima, enquanto é iluminado pela luz de um holofote." width="800" height="451" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-800x451.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-1024x577.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-1536x865.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3-1200x676.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-5-3.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28644" class="wp-caption-text">Glover se inspira em Passing e, no episódio Rich Wigga Poor Wigga, que trata as nuances do colorismo sob a perspectiva de um garoto mestiço, usa de fotografia em preto-e-branco para ressaltar a dubiedade entre identidades raciais (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A diferença é que, desta vez, o surreal ganha um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8rOU9wrEsoo"><span style="font-weight: 400;">aspecto metalinguístico</span></a><span style="font-weight: 400;">. Há algo de muito estranho nesse lugar e, agora, os personagens sabem disso também – de tal forma que passam a questionar seu próprio papel naquele universo. Fato é que os protagonistas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> nunca estiveram tão diferentes – e tão instáveis. Paper Boi, por exemplo, introduzido na série como um aspirante a </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> que, apesar de angariar um viral, continuava no tráfico para sobreviver, finalmente encontrou a popularidade, sucesso e fortuna que procurava.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, os problemas antigos são substituídos por novos </span><a href="https://collider.com/atlanta-season-3-identity-crisis-reasons-why/"><span style="font-weight: 400;">ainda mais conflitantes</span></a><span style="font-weight: 400;">. Alfred é incapaz de se relacionar e simpatizar com sua nova onda de fãs jovens e brancos. Ele torra seu dinheiro de olhos fechados em busca de um sentido que pensa ter perdido no decorrer de sua carreira. Assombrado por um bloqueio criativo, ele sequer consegue escrever músicas mais, enquanto é obrigado a vestir roupas e frequentar espaços que nem ao menos gosta. É como se, no processo para chegar ao topo, a fama tivesse feito permuta com sua liberdade. Se seus conflitos em temporadas anteriores eram cotidianos, dessa vez são sucedidos por dilemas sobre sua posição como artista na indústria musical e as implicações que essa posição acarreta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O episódio </span><a href="https://www.theringer.com/2022/5/6/23059790/atlanta-season-3-episode-8"><i><span style="font-weight: 400;">New Jazz</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> destaca esses reveses e evidencia a </span><a href="https://collider.com/atlanta-brian-tyree-henry-paper-boi-best-character-reasons-why/"><span style="font-weight: 400;">ambiguidade de Paper Boi</span></a><span style="font-weight: 400;">. Antes representado como sisudo, aqui ele é vulnerabilizado e colocado como mártir do nosso olhar. A câmera de </span><a href="https://www.gq.com/video/watch/iconic-characters-hiro-murai-breaks-down-his-most-iconic-music-videos"><span style="font-weight: 400;">Hiro Murai</span></a><span style="font-weight: 400;"> – indicado a Melhor Direção em Série de Comédia – se recusa a tirar o foco do protagonista, mesmo que isso signifique dispersar-se de momentos que julgaríamos mais pertinentes. Os efeitos da droga que Alfred </span><a href="https://www.rollingstone.com/tv-movies/tv-movie-recaps/atlanta-recap-new-jazz-1345751/"><span style="font-weight: 400;">consome</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Darius nos primeiros minutos são traduzidos da maneira mais sóbria possível, encaçapando o estado cíclico de inadequação que o aterroriza por toda a temporada. </span><a href="https://repeller.com/ava-grey/"><span style="font-weight: 400;">Ava Grey</span></a><span style="font-weight: 400;">, primeira atriz trans com papel de destaque em </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;">, faz uma ponta como Lorraine, encarnando as inquietações de Alfred e revelando-se ser, no fim, uma alegorização de sua própria mãe. </span></p>
<figure id="attachment_28645" aria-describedby="caption-attachment-28645" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28645 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6-800x398.png" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Nela, Ava Grey, intérprete de Lorraine, uma mulher negra vestindo um moletom bege, anda por uma rua noturna, guiando Bryan Tyree Henry, intérprete de Alfred, que usa um boné no formato do personagem Pateta, da Disney. Lorraine empolgada e Alfred contemplativo, eles são iluminados por uma luz vermelha que toma as ruas." width="800" height="398" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6-800x398.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6-1024x509.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6-768x382.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6-1200x597.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-6.png 1363w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28645" class="wp-caption-text">Atlanta ainda eleva a metalinguagem ao trazer Liam Neeson para interpretar a si mesmo, comentando um caso de racismo que o próprio cometeu na vida real (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Paper Boi lida com sua maior crise criativa, Earn nunca esteve melhor em sua carreira. Ao passo que, na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=k8_t9pWIZiE&amp;ab_channel=RoniHansen"><span style="font-weight: 400;">primeira temporada</span></a><span style="font-weight: 400;">, ele é retratado como um falido que descobre na súbita notoriedade do primo uma oportunidade de conseguir dinheiro rápido e melhorar de vida, mas frustrado por seu jeito desajeitado e sua incrível capacidade de fazer tudo sair do planejado, nesta terceira fase o personagem nunca esteve tão seguro, realizando seu papel como agente de Alfred com frieza e objetividade. Sua felicidade passa a ser a realização do </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;">, o que o faz, em consequência, perder de vista a si mesmo. Earn fica tão mergulhado no trabalho que até sua presença como ponto focal da série se esvai, fazendo com que a </span><a href="https://mashable.com/video/donald-glover-atlanta-season-3-opening"><span style="font-weight: 400;">indicação de Donald Glover</span></a><span style="font-weight: 400;"> em Melhor Ator em Série de Comédia soe somente como uma nota de rodapé.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Darius parece o único que se mantém fiel à sua persona de 2016. </span><a href="https://personaunesp.com.br/judas-e-o-messias-negro-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lakeith Stanfield</span></a><span style="font-weight: 400;"> preserva seu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fH0H8ZFIKvM"><span style="font-weight: 400;">exímio trabalho</span></a><span style="font-weight: 400;"> em materializar a completa falta de sustentáculo na realidade do personagem, que prossegue por sua busca pelo sentido da nossa existência, batendo na trave uma vez ou outra sobre viver dentro de uma obra ficcional. A função de Darius como reagente, veia cômica e suporte continua fundamental para a narrativa, e não é por acaso que ele é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bNOSyGz_4CE"><span style="font-weight: 400;">introduzido juntamente</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao arco emocional de Vanessa (</span><a href="https://personaunesp.com.br/invincible-critica/"><span style="font-weight: 400;">Zazie Beetz</span></a><span style="font-weight: 400;">) que, mesmo após o fim da temporada, ainda é cheia de perguntas.</span></p>
<figure id="attachment_28646" aria-describedby="caption-attachment-28646" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28646 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-7-1-800x533.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos dois homens atrás da coxia de um palco, iluminados por uma intensa luz azul. Um deles, Donald Glover, intérprete de Earn, homem negro que leva na orelha direita uma escuta, olha para o palco com seriedade. O outro, Lakeith Stanfield, homem negro de cabelo descolorido, faz gestos e dança freneticamente ao fundo." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-7-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-7-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-7-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-7-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28646" class="wp-caption-text">Donald Glover já recebeu o prêmio de Melhor Ator em Série de Comédia pela primeira temporada de Atlanta, no Emmy de 2017 (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao que tudo indicava no fechamento da segunda temporada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;">, Van – a ex-namorada de Earn, com o qual compartilha uma filha e um relacionamento disfuncional – ficaria em Atlanta durante a turnê do grupo pela Europa. No entanto, sem motivo aparente, ela deixa Lottie, a filha do casal, nos EUA e surge de supetão na Holanda para acompanhá-los pela viagem. Dali em diante, a presença da personagem é como a de um fantasma, fazendo aparições pontuais de episódio em episódio, geralmente tomando alguma atitude imprudente e sumindo logo em seguida. Earn tenta </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3XgC6aClXvw"><span style="font-weight: 400;">convencê-la a se abrir</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas ela insiste em manter distância. Para nós, como público, ela se torna praticamente irreconhecível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até que chegamos a </span><i><span style="font-weight: 400;">season finale</span></i><span style="font-weight: 400;">, que prometia responder o que Van andou fazendo este tempo todo. Porém, ao invés, somos apresentados a</span> <a href="https://www.pajiba.com/tv_reviews/atlanta-season-finale-recap-tarrare-we-need-to-talk-about-vanessa.php"><i><span style="font-weight: 400;">Tarrare</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sua nova identidade francesa. Ela agora usa uma peruca curta, fala em um forte sotaque gaulês, transa e chantageia </span><a href="https://personaunesp.com.br/identidade-passing-critica/"><span style="font-weight: 400;">Alexander Skarsgard</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao mesmo tempo, faz </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UtaML9D2p8k"><span style="font-weight: 400;">baguete de arma</span></a><span style="font-weight: 400;"> e vira cozinheira de um restaurante de mãos humanas. O episódio nos dispara uma sucessão de eventos cada vez mais bizarros e aleatórios, incitando tendenciosamente nossa suspensão de descrença para o ralo. É fácil deixar a história neste instante, presumir que descaracterizaram Van e a transformaram em uma sociopata. Todavia, </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> pede para que, assim como sua melhor amiga Candace (Adriyan Rae), acreditemos no seu potencial de redenção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ponto de virada ocorre quando a amiga, que presenciou cada um desses absurdos – tão chocada quanto nós –, questiona Van sobre as decorrências dessa nova fase: “</span><i><span style="font-weight: 400;">e a Lottie? Onde ela se encaixa nisso tudo?</span></i><span style="font-weight: 400;">”. A partir disso, a personagem abandona instantâneamente o forçado sotaque e libera todo o seu sentimento reprimido. Por fim, acobertada pela impetuosa camada de delírio, jazia somente uma indagação: “</span><i><span style="font-weight: 400;">eu não sei quem eu sou</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Ela conteve por tanto tempo suas próprias vontades – seja por Earn, por Lottie ou por simples aprovação dos outros –, que acabou por tolher-se de sua própria identidade. Assim como </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-insano-apetite-de-tarrare.phtml"><span style="font-weight: 400;">Tarrare</span></a><span style="font-weight: 400;">, soldado francês que, de tanta fome, se alimentava inclusive de carne humana, Van estava faminta por propósito e, em desespero, decidiu viver todas as experiências que se privou – e todas as possibilidades de si que perdeu – de uma só vez.</span></p>
<figure id="attachment_28651" aria-describedby="caption-attachment-28651" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28651 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-800x508.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Mostra em foco Zazie Beetz, intérprete de Van, observando o seu entorno de forma contemplativa. Ela é uma mulher negra que usa uma peruca curta e um sobretudo marrom por cima de sua camiseta listrada. Nas costas, preso em sua mochila, ela carrega uma baguete. O cenário trata-se de um parque e a cena se passa durante o dia." width="800" height="508" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-800x508.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-1024x651.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-768x488.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-1536x976.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-2048x1301.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-8-2-1200x762.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28651" class="wp-caption-text">Simplesmente a maior (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Prova-se, então, que a abordagem invulgar do seriado está longe de ser uma excepcionalidade, referente apenas aos episódios antológicos, mas sim um fragmento central da trama, que </span><a href="https://www.gq.com/story/stephen-glover-atlanta-season-3-interview"><span style="font-weight: 400;">altera radicalmente</span></a><span style="font-weight: 400;"> seu </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> eleva o sarrafo da ousadia, brincando e manipulando com nossas concepções de tempo e realidade. Afinal de contas, a jornada de Van no episódio final teria de fato ocorrido ou seria fruto de sua imaginação? Seria possível que ela tivesse noivado e se tornado uma agiota francesa em poucas semanas? E Lorraine, em </span><i><span style="font-weight: 400;">New Jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, era ou não real? Teria Alfred realmente se aprisionado em um </span><i><span style="font-weight: 400;">loop</span></i><span style="font-weight: 400;"> temporal devido aos efeitos de uma droga? Nenhuma dessas respostas importa. O que importa é como esses cenários inusitados são capazes de transpor os dilemas que rondam esses personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porque, no fim das contas, todas as firulas narrativas e </span><a href="https://www.theringer.com/tv/2022/5/19/23131198/atlanta-third-season-finale-tarrare"><span style="font-weight: 400;">experimentos malucos</span></a><span style="font-weight: 400;"> com linguagem se reduzem a ferramentas de estudo de personagem, manifestando o que as correntes do realismo não são capazes de comunicar: um mergulho íntimo sob as emoções humanas mais profundas e complexas. Mesmo os contos isolados e estrutura desconexa da temporada agem em prol do arco dos personagens, espelhando suas crises existenciais e o estado de perdição que a viagem pela Europa escancarou. O argumento de que o desenvolvimento dos protagonistas foi abandonado já não vale mais.</span></p>
<figure id="attachment_28649" aria-describedby="caption-attachment-28649" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28649 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-800x450.jpg" alt="Cena do seriado de televisão Atlanta. Imagem retangular e colorida. Mostra três homens em frente a uma janela com persianas fechadas – um deles tentando observar a parte de dentro, e os outros dois se entreolhando. Quem tenta observar é Alfred, interpretado por Bryan Tyree Henry, um homem negro, usando roupas escuras e cordões de ouro no pescoço. Já os dois que se entreolham são Darius, interpretado por Lakeith Stanfield – um homem negro, de cabelos descoloridos, usando um suéter branco com cores sugestivamente natalinas – e Earn, interpretado por Donald Glover – um homem negro, que veste uma camisa escura." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/IMAGEM-9-1.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28649" class="wp-caption-text">“Racismo e capitalismo… difícil de separar, não?” (Foto: FX Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta terceira temporada tinha uma árdua missão e uma ambiciosa pergunta para responder: o que sobra de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;">? Sem as locações na cidade de Geórgia e, inclusive, sem Earn, Alfred e todos os outros personagens carismáticos que tanto aprendemos a gostar? Entre confusões e fervedouros, sua terceira fase mostrou que a essência da série está no poder de sua equipe criativa em transformar ensaios eremíticos em histórias instigantes e incisivamente sensíveis. De, explorando os afetos mais mundanos e pessoais, serem capazes de incorporar sublimemente debates sociais e raciais delicados, a partir de uma consciência coletiva vital. Com sua temporada final </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=PB-jmFA1NMk&amp;ab_channel=FXNetworks"><span style="font-weight: 400;">encaminhada</span></a><span style="font-weight: 400;"> ainda para este ano, a verdade é que </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> está mais </span><i><span style="font-weight: 400;">Atlanta</span></i><span style="font-weight: 400;"> do que nunca.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/atlanta-3-temp-critica/">A fábula de Atlanta é real</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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