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	<title>Arquivos Livro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Os dois morrem no final é uma jornada pela linha tênue entre a celebração da vida e aceitação da morte</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Jun 2024 17:00:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Luana Brusiano Imagine receber um recado da Central da Morte informando que, a qualquer momento nas próximas 24 horas, você irá morrer e não há nada que possa ser feito para reverter essa situação. Essa é exatamente a premissa de Os dois morrem no final. Escrita por Adam Silvera, a obra narra o último dia &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/os-dois-morrem-no-final-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Os dois morrem no final é uma jornada pela linha tênue entre a celebração da vida e aceitação da morte"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33636" aria-describedby="caption-attachment-33636" style="width: 243px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-33636" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-9.png" alt="Ilustração da capa do livro Os dois morrem no final. A imagem apresenta dois jovens de costas caminhando lado a lado com mochilas nas costas, sombreados em tons de azul escuro ao lado de uma grade. O chão em que os jovens pisam é branco e possui a sombra dos rapazes. Atrás da grade há prédios pintados em tons de azul escuro iguais aos dos jovens e acima dos prédios há um céu pintado por um azul mais claro. No canto superior direito há uma lua cheia na cor branca. Ao centro da ilustração consta o nome do livro em letras maiúsculas na cor branca, na parte superior do livro o nome do autor com a mesma fonte e cor. Por fim, no canto inferior direito há o logo da editora do livro intrínseca na cor de fundo preta com o nome escrito em branco." width="243" height="378" /><figcaption id="caption-attachment-33636" class="wp-caption-text">O livro Os dois morrem no final está sendo adaptado para uma série audiovisual (Foto: Editora Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>Luana Brusiano</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imagine receber um recado da Central da Morte informando que, a qualquer momento nas próximas 24 horas, você irá morrer e não há nada que possa ser feito para reverter essa situação. Essa é exatamente a premissa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os dois morrem no final</span></i><span style="font-weight: 400;">. Escrita por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=q0eluGNgos8"><span style="font-weight: 400;">Adam Silvera</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra narra o último dia de vida de Mateo Torrez e Rufus Emeterio que, em 5 de Setembro, recebem a infeliz ligação: aquele será o último dia de vida deles. Na tentativa de aproveitar ao máximo seus últimos momentos vivos, os caminhos de Mateo e Rufus se cruzam, levando-os a embarcar em uma jornada para viver uma vida inteira em um único dia.</span></p>
<p><span id="more-33635"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os dois jovens decidem criar perfis no aplicativo Último Amigo, com a finalidade de encontrarem um amigo para compartilhar os últimos momentos e, assim, se conhecem. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tN5Fd8NPEx0"><i><span style="font-weight: 400;">Os dois morrem no final</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é uma obra que prende a atenção já pelo título. A ideia do autor ao nomear o livro com o final da história é genial e gera um impacto significativo no leitor, instigando a curiosidade e despertando certa ansiedade ao acompanhar o desenvolvimento da trama, tendo conhecimento do que vai acontecer com os protagonistas no futuro, mas sem saber como. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No decorrer do</span> <a href="https://personaunesp.com.br/category/literatura/"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;">, Mateo Torrez e Rufus Emeterio passam por inúmeras experiências, enfrentando medos, inseguranças e desejos que nunca tiveram a oportunidade de realizar. Mateo, que é um garoto tímido e reservado, viveu toda a sua vida temendo as consequências de suas atitudes e, por esse mesmo motivo, se manteve recluso. Já Rufus, é caracterizado por sua personalidade impulsiva e sede por vivenciar experiências novas, mesmo após o trauma de ter perdido sua família em um acidente. Durante suas últimas vivências, os protagonistas criam um forte vínculo e passam a se apoiar e enfrentar tudo juntos.</span></p>
<figure id="attachment_33637" aria-describedby="caption-attachment-33637" style="width: 828px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33637" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-5.jpg" alt="Foto de Adam Silvera, homem branco de cabelos, barba e olhos castanhos, vestindo uma regata preta e usando um fone de ouvido branco com fio segurando ao lado de seu rosto o livro de sua autoria 0s dois morrem no final." width="828" height="944" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-5.jpg 828w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-5-702x800.jpg 702w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-5-768x876.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-33637" class="wp-caption-text">Adam Silvera afirma que a escrita foi uma forma de lidar com o próprio trauma e reimaginar como a vida poderia ter sido enquanto era adolescente (Foto: @adamsilvera via Instagram)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de ser uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/ficcao-americana-critica/"><span style="font-weight: 400;">ficção</span></a><span style="font-weight: 400;">, os pontos-chave para o entendimento do livro são as questões existenciais. A analogia com a vida real remete à única certeza que existe: a </span><a href="https://personaunesp.com.br/depois-da-morte-critica/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desse modo, é óbvio que a intenção do autor é abordar o que significa estar vivo, enfatizando a efemeridade da vida e mostrando como cada segundo de existência importa. Contendo trechos e falas que levam a reflexões profundas, a história trata a morte com uma sensibilidade que pode, até mesmo, ser considerada poética. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A complexidade das personalidades de Mateo Torrez e Rufus Emeterio, e suas camadas mais profundas também são tratadas na obra, uma vez que são completamente opostas e, ainda assim, conseguem fortalecer sua conexão diante do desespero causado pela </span><a href="https://mateusalvadori.com.br/por-que-tememos-o-inevitavel/"><span style="font-weight: 400;">inevitabilidade</span></a> <span style="font-weight: 400;">da morte e pelo fato de que as decisões que tomarem podem afetar o tempo que lhes resta. Com uma amizade que resulta em momentos emocionantes entre os jovens, é gradativamente desenvolvido um sentimento romântico entre os dois, que surge de maneira sútil e muito natural. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O medo da morte é o cerne para o desenvolvimento do livro. A incerteza do desconhecido e, até mesmo, a faísca de esperança de que a ligação efetuada pela </span><a href="https://intrinseca.com.br/blog/2023/06/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-universo-de-os-dois-morrem-no-final/"><span style="font-weight: 400;">Central da Morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> poderia ser um engano, aflige os protagonistas e se manifesta ao longo de toda a narrativa. A busca pela aceitação da morte e a coragem de confrontar a imortalidade unem esses personagens em sua luta contra o tempo. Adam Silvera explora o medo e as profundezas do psicológico humano, oferecendo uma perspectiva sensível e emocionante acerca da vulnerabilidade humana.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Passei anos vivendo com segurança para garantir uma vida mais longa e veja onde isso me levou. Estou na linha de chegada, mas nunca participei da corrida.”</span></i></p>
<p style="text-align: right;">&#8211; Os dois morrem no final (2017)</p>
</blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Os dois morrem no final</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma poderosa viagem através da exploração dos limites de Mateo e Rufus. Com uma narrativa melancólica e impactante que ressoa para além das páginas, o livro desperta a atenção dos leitores para a importância de cultuar a vida e colecionar momentos, bem como o laço da amizade e os desejos nunca antes atendidos. Adam Silvera não apenas traz uma reflexão sobre a efemeridade da existência, mas também aborda com grande sensibilidade  a descoberta da sexualidade dos personagens da comunidade </span><i><span style="font-weight: 400;">queer,</span></i><span style="font-weight: 400;"> através de uma jornada de </span><a href="https://www.psicologosberrini.com.br/blog/por-que-o-autoconhecimento-e-importante-para-a-sua-vida/"><span style="font-weight: 400;">autoconhecimento</span></a> <span style="font-weight: 400;">e aceitação. </span></p>
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		<title>Em Noite no paraíso, a vida se celebra na genuinidade do existir</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2022 19:29:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Ela foi embora. Eu me deitei na terra úmida. Estava cansada. Só queria ficar ali deitada, para sempre, e não fazer absolutamente nada.” Jamily Rigonatto&#160; Algumas palavras são capazes de encantar com a sonoridade aconchegante que têm, às vezes – se você souber usá-las – pode transformar o mundo real, cheio de sua concretude bruta, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/noite-no-paraiso-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Noite no paraíso, a vida se celebra na genuinidade do existir"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29559" aria-describedby="caption-attachment-29559" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress.jpg" class="size-full wp-image-29559" alt="" width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29559" class="wp-caption-text">Recebido do Persona na parceria da Companhia das Letras, Noite no paraíso: Mais contos reafirma o senso de humor da contista Lucia Berlin (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“Ela foi embora. Eu me deitei na terra úmida. Estava cansada. Só queria ficar ali deitada, para sempre, e não fazer absolutamente nada.”</span></p>
</blockquote>
<p><b>Jamily Rigonatto&nbsp;</b></p>
<p><span style="font-weight: 400">Algumas palavras são capazes de encantar com a sonoridade aconchegante que têm, </span>às<span style="font-weight: 400"> vezes – se você souber usá-las – pode transformar o mundo real, cheio de sua concretude bruta, em algo curioso e burlesco. É assim que Lucia Berlin desenvolve os vocábulos em </span><span style="font-weight: 400"><i>Noite no paraíso: Mais contos</i></span><span style="font-weight: 400">, livro publicado pela </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/">Companhia das Letras</a></i></span><span style="font-weight: 400"> em Agosto de 2022. No texto, a autora explora os aspectos da vida sob seu olhar singular e lança luz à vida – mesmo quando esta parece encoberta por trevas inebriantes.&nbsp;</span></p>
<p><span id="more-29552"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Os personagens de </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.publico.pt/2016/04/04/culturaipsilon/noticia/quem-e-lucia-berlin-uma-autora-que-nao-mente-1727426">Lucia</a></span><span style="font-weight: 400"> são plurais, mas visivelmente retirados de contextos reais dos quais ela fez parte. Em sua jornada de 68 anos, iniciados em 1936 e terminados em 2004, a escritora estadunidense, nascida no Alasca, repousou suas vivências no Chile, México e Estados Unidos, o que fica marcado em cada uma das grafias de suas obras. Além de passar por vários lugares, ser mãe de três filhos, ter três casamentos mal sucedidos, uma leva de empregos diversos e ainda lutar contra o alcoolismo, fazem seu olhar sobre o mundo transgredir a linha do comum.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400"><i>Noite no paraíso</i></span><span style="font-weight: 400">, assim como </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/27/cultura/1448651122_702487.html">Manual da faxineira</a></i></span><span style="font-weight: 400"> – que ganhou sua versão no Brasil em 2013 – foi publicado postumamente. Em tons irreverentes e sinceros a sua forma, o texto extrai de pessoas comuns uma individualidade apaixonante. A tradução de Sonia Moreira reafirma os aspectos boleados da linguagem e transfigura as possibilidades alvoroçadas do inglês para o português com excelência.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“Anos depois às vezes você olha para trás e diz que aquele foi o começo de… ou nós estávamos tão felizes na época… antes… depois… Ou você pensa eu vou ficar feliz quando… assim que conseguir… se nós…”&nbsp;</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Caso pessoas comuns possam – e podem – protagonizar momentos em que a singularidade encontra o acaso, Berlin constata isso com uma força ímpar. Desde garotinhas vendendo rifas a uma moça visitando pontos turísticos de Paris, tudo tem fundo em rebuliços internos ou externos. A diferenciação entre a obra e a escrita de outros cronistas e </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/as-convidadas-critica/">contistas</a></span><span style="font-weight: 400"> é que tudo é construído de maneira suave, como se mesmo o dramático estivesse em completo consentimento com as personalidades plurais.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Muito do </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Lucia-Berlin-Quando-a-historia-precisa-ser-ela-mesma87">contexto social</a></span><span style="font-weight: 400"> e político compõem as significações desses cenários, como os reflexos da Segunda Guerra Mundial desenrolando-se nos contos em que Lucha é protagonista e vive no Texas. Mesmo que de forma indireta, os elementos conseguem denunciar o contexto histórico nas narrativas sem deixar as datas explícitas. Ao fundo dos enredos centrais, existem pedaços do espaço geográfico e temporal em que as cenas ocorrem enquanto envolvem as interações entre imigrantes, a diferença econômica nos bairros centrais e os reflexos coloniais. Esse aspecto se mostra em detalhes como o programa passando na televisão, os soldados morando nas extremidades da cidade ou as mulheres de chapéu na alta sociedade.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Para além das circunstâncias, preconceitos e discriminação são expostos de forma clara. Isso é feito com total naturalidade, já que os absurdos se inserem com o peso de uma pena caindo de um prédio. Quando aborda essas ocorrências, Lucia sempre trata de introduzir um comentário </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/">ácido</a></span><span style="font-weight: 400"> ou uma atitude desaforada em algum dos sujeitos para desviar ao equilíbrio que mantém a leitura fluida e bem-humorada.&nbsp;</span></p>
<figure id="attachment_29554" aria-describedby="caption-attachment-29554" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Imagem-2-9.jpg" class="size-full wp-image-29554" alt="Foto da autora Lucia Berlin. A escritora é uma mulher branca de cabelos curtos castanhos. Ela tem olhos claros e usa uma franja na testa. Seu rosto está voltado para frente e a foto é em preto e branco." width="434" height="650"><figcaption id="caption-attachment-29554" class="wp-caption-text">Lucia Berlin é considerada uma das maiores contistas de língua inglesa (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">No </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/">conto</a></span><span style="font-weight: 400"> que dá nome ao livro se encontram os contrapontos. Ali, com celebridades na mesa de um bar e discussões acaloradas, as coisas se tornam mais próximas da extravagância. Entre alcoólicos e ilícitos, diversão e melancolia se misturam para expor fragilidades nas figuras de Elizabeth Taylor, Richard Burton e Ava Gardner. O mistério da contradição em afetos e desafetos, fins e recomeços, sobriedade e embriaguez.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Apesar de espelhada nos personagens, </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://lithub.com/lucia-berlin-writing-advice-and-more-in-this-never-before-published-interview/">Berlin</a></span><span style="font-weight: 400"> é praticamente a protagonista fixa da coletânea. Sua existência ubíqua controla as margens e linhas acessadas em cada uma das histórias, trazendo para a ponta do lápis o que esteve em sua essência. Sem precisar de linearidade ou ligação entre os contos, a autora faz do pífio um espectro da fascinação: ato de existir modulado por uma unicidade deslumbrante.&nbsp;&nbsp;</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“A cidade inteira estava louca pra ver quem era a pobre da trouxa que tinha comprado a casa. Era impossível não ficar com pena dela, apesar de a entrada ter sido só mil dólares. Claro que ela estaria rica agora se tivesse ficado com a propriedade. Qualquer um podia ter dito que a bomba estava nas últimas, avisando dos cupins da fiação. Mas nunca passou pela cabeça de ninguém que me telhado ia desabar. Era um telhado bom a beça.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">A leitura de </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://www.google.com/aclk?sa=l&#038;ai=DChcSEwjvorXbsYj8AhUC7pEKHYyLCdIYABAIGgJjZQ&#038;sig=AOD64_32G6GUunytcR8FFqDpdHW0O2za-g&#038;ctype=5&#038;q=&#038;ved=2ahUKEwjKq67bsYj8AhX1uJUCHcpdAVMQ9aACKAB6BAgGEBc&#038;adurl=">Noite no paraíso</a></i></span><span style="font-weight: 400">: </span><span style="font-weight: 400"><i>Mais Contos </i></span><span style="font-weight: 400">poderia ser definida como um afago misturado a uma sacada irônica. Quase como aquela amiga que a gente ama, mas sempre tem verdades demais para nos dizer. Aqui isso se amplifica na voz da autora, fazendo da sinceridade um universo particular. Tudo se encaixa de forma cristalina e cria narrativas – que têm fundo autobiográfico ou não – absolutamente reais.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Ler Lucia Berlin é simplesmente literal. Através de palavras muito características, o texto tem a face da escritora: franca e excepcional. Sua consagração pela crítica é tão conveniente quanto um par de patins para duas meninas explorarem caminhos curiosos em </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/notturno-critica/">1943</a></span><span style="font-weight: 400">. No viés da autenticidade, a contista dizia que o que importa é a história. Sinceramente, vale a pena ser uma observadora desta.&nbsp;</span></p>
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		<title>A beleza de Vinco está na incerteza de si</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2022 17:09:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori ‘‘(&#8230;) para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti.’’     – Hilda Hilst O celebrado livro Orlando, de Virginia Woolf, que de tudo tem um pouco — biografia, romance histórico e carta de amor — afirma-se na Literatura enquanto &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/vinco-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A beleza de Vinco está na incerteza de si"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29377" aria-describedby="caption-attachment-29377" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29377" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco_wordpress.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco_wordpress-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco_wordpress-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29377" class="wp-caption-text">Livro recebido através da parceria do <strong>Persona</strong> com a Companhia das Letras, Vinco é o primeiro romance da autora a ser publicado pela editora (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">‘‘(&#8230;) para lugar algum meu filho, tu podes</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">ir e ainda que se mova o trem</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">tu não te moves de ti.’’</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">    – </span><i><span style="font-weight: 400;">Hilda Hilst</span></i></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O celebrado livro </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788563560841/orlando"><i><span style="font-weight: 400;">Orlando</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">de Virginia Woolf, que de tudo tem um pouco — biografia, romance histórico e </span><a href="https://darkside.blog.br/quem-foi-vita-sackville-west-inspiracao-para-orlando/"><span style="font-weight: 400;">carta de amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> — afirma-se na Literatura enquanto um marco zero. Mesmo às lentes críticas do filósofo </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-junho-de-2022/#:~:text=do%20Persona%20%E2%80%93%20Junho,.%20%E2%80%93%20Enzo%20Caramori"><span style="font-weight: 400;">Paul B. Preciado</span></a><span style="font-weight: 400;">, que, ao ler os diários de Woolf, destaca o </span><a href="https://paroledequeer.blogspot.com/2015/07/orlando-on-road-por-paul-b-preciado.html"><span style="font-weight: 400;">caráter classicista</span></a><span style="font-weight: 400;"> da escritora, reside um deslumbramento acerca do afeto em suas palavras à transitoriedade materializada no corpo do texto. A história de personagens em estado de trânsito, seja entre diferentes espaços ou no limiar de construções como nacionalidade e gênero, são temas costurados à </span><a href="http://www.revistasisifo.com/2017/05/a-escrita-como-cuidado-de-si-na-obra.html"><span style="font-weight: 400;">escritura de si</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para narrativas como as de Orlando, </span><a href="https://laerte.art.br/tag/muriel/"><span style="font-weight: 400;">Muriel</span></a><span style="font-weight: 400;"> — alter-ego da cartunista Laerte que enquadra sua </span><a href="https://revistas.uneb.br/index.php/pontosdeint/article/view/10839"><span style="font-weight: 400;">transição social</span></a><span style="font-weight: 400;"> — e Manu, protagonista de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211791/vinco"><i><span style="font-weight: 400;">Vinco</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2022),</span> <span style="font-weight: 400;">o terceiro romance da escritora gaúcha </span><a href="https://manoelasawitzki.com/582c1-blogger-gb-about/"><span style="font-weight: 400;">Manoela Sawitzki</span></a><span style="font-weight: 400;">, Preciado possui um questionamento chave: ‘‘</span><i><span style="font-weight: 400;">O que acontece com o relato de uma vida quando é possível modificar o sexo do personagem principal?’</span></i><span style="font-weight: 400;">’</span></p>
<p><span id="more-29372"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para </span><i><span style="font-weight: 400;">Vinco</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">corpo, identidade e texto são territórios que se mesclam em acidentes, trajetórias errôneas e pontos fora da curva. Em sua não linearidade, a obra — híbrido de uma literatura de viagem e um </span><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2022/07/vinco-novo-romance-de-manoela-sawitzki-o-corpo-ao-pe-do-ouvido-cl66fmskz0016017pf51p98ad.html"><span style="font-weight: 400;">romance de formação</span></a><span style="font-weight: 400;"> — acompanha os capítulos da vida de Manu: de sua adolescência na classe média-alta carioca dos anos 90 a sua vivência em uma Paris ainda tomada pelos ares marginais de </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/o-destino-libertario-de-jean-genet/"><span style="font-weight: 400;">Jean Genet</span></a><span style="font-weight: 400;">, até chegar no dicotômico ‘sertão verde’ da cidade de Tacaratu. Na escrita de Sawitzki, essa personagem — fragmentada pelos espaços que procura pertencer, pela memória de traumas e pelos pronomes a que se refere — embarca em uma busca de si em uma narrativa que progressivamente se deslocaliza e desintegra, sendo estrangeira tanto para si mesma quanto para os lugares que transita.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As noções de estrangeiridade que ecoam no livro, advindas do pensamento de Julia Kristeva, lido pela autora em sua pesquisa de mestrado e doutorado, se iniciam justamente no lar de Manu. Nesse espaço de pressuposto pertencimento, a radiografia familiar realizada por Sawitzki a partir de uma rememoração da meninice tipicamente </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">da personagem principal </span><i><span style="font-weight: 400;">—</span></i><span style="font-weight: 400;"> ressonante do olhar da escritora a </span><a href="https://www.estadao.com.br/alias/manoela-sawitzki-elege-personagem-em-busca-de-sua-identidade-em-novo-romance/#:~:text=Ent%C3%A3o%20voltei%20%C3%A0s%20nossas%20inf%C3%A2ncias%2C%20ao%20fato%20de%20que%20Bi%C3%B1o%20havia%20sido%20uma%20crian%C3%A7a%20queer%2C%20hipercriativa%2C%20uma%20superstar%20para%20mim%2C%20num%20ambiente%20nada%20prop%C3%ADcio%20para%20isso.%20Eu%20era%20diferente%20dele%2C%20mas%20tamb%C3%A9m%20n%C3%A3o%20era%20%E2%80%9Cadequada%E2%80%9D.%20E%20ambos%20passamos%20por%20processos%20%E2%80%9Ccorretivos%E2%80%9D%2C%20experi%C3%AAncias%20deformantes."><span style="font-weight: 400;">seu próprio irmão</span></a><span style="font-weight: 400;"> — revela uma dinâmica familiar de supressões. De uma mãe controladora a um irmão violento, o ‘‘deserto afetivo’’ em que Manu tenta se situar, com o impeditivo de um traço pessoal de solitude, encontra seus oásis na figura de um pai misterioso e uma avó liberta das amarras de seus desejos. </span></p>
<figure id="attachment_29376" aria-describedby="caption-attachment-29376" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29376" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco2.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco2.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco2-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco2-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29376" class="wp-caption-text">Manoela Sawitzki, que também é roteirista e jornalista, ressalta o papel da pesquisa para sua ficção: ‘‘ (&#8230;) esses anos de pesquisa alteraram a minha voz, a minha forma de estar no mundo e de olhar para as coisas.’’ (Foto: Omar Salomão)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As palavras de Manoela que tecem a história de Manu — nessa partilha de apelidos que </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Livros/noticia/2022/08/com-o-livro-vinco-manoela-sawitski-aborda-transformacoes-e-transicoes-na-vida-de-uma-personagem-trans.html#:~:text=Assim%2C%20a%20minha%20hist%C3%B3ria%20e%20a%20de%20Manu%20teriam%20pontos%20de%20contato%20e%20de%20separa%C3%A7%C3%A3o%2C%20que%20refletem%20o%20movimento%20que%20me%20interessa%20tanto%2C%20que%20vai%20do%20eu%20pro%20outro%2C%20do%20outro%20pro%20eu%2C%20e%20assim%20por%20diante."><span style="font-weight: 400;">espelham autor e personagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> — são responsáveis pela composição ora de momentos flutuantes de beleza quanto de baques viscerais de violência e crueza. A primeira parte, justamente pelo território nebuloso e esparso da lembrança, vai de um tema a outro numa amálgama não arbitrária e contrastante. Entre pulos e retrocessos temporais, o namoro da juventude, a descoberta sexual e o governo de Fernando Collor de Mello são logo amarrados nas temáticas de morte, anedotas familiares e o impacto da Xuxa na infância do fim do milênio. Esse encadeamento, em sua falta de coesão, cheio de entradas e saídas, é justo à vastidão e à fragilidade de uma memória em movimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como no recorte da tela </span><a href="https://art-verge.com/camile-sproesser-the-slap/"><i><span style="font-weight: 400;">The Slap</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Camile Sproesser — escolhido para ilustrar a capa do livro —, no romance existe uma feminilidade simbólica, um sentimento de divergência imanente e inesperado que sobrepõe as </span><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2022/07/vinco-novo-romance-de-manoela-sawitzki-o-corpo-ao-pe-do-ouvido-cl66fmskz0016017pf51p98ad.html"><span style="font-weight: 400;">rotas de uma masculinidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> instruída à formação da protagonista. A vigilância a um corpo que, desde o início da narrativa, tenta limitar-se para ocupar os espaços de maneira limítrofe e não revelar sua dissidência, não é o bastante para protegê-lo das violências que ocorrem por uma masculinidade autoritária dentro do núcleo familiar. No entanto, tais percepções sobre a subjetividade de Manu estão em constante mutação: em Copacabana, o corpo era um esconderijo; em Paris, ele é capaz de ser um repositório de sonhos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, em uma outra experiência de alteridade, que funde nacionalidades e códigos sociais — principalmente em seu trabalho de limpeza em quartos de hotel, no qual adentra e agrega-se às intimidades dos hóspedes — Manu cruza com sujeitos que, assim como sua avó, rompem com suas raízes culturais para autenticarem o exercício de suas próprias sexualidades. Os olhares da protagonista, afetados por uma Paris da leitura de Genet, se situam (graças a materiais retirados do acervo pessoal da autora) em banheiros escuros, praças e seus perambulantes e raios de luz saídos de vitrais em escadas. São dobraduras, marcas da memória que Sawitzki, em sua escrita-viagem, deixa ao leitor em tentativa de ilustrar e mobilizar textualidades próprias das fotografias, ressonantes das imagens fincadas nos </span><a href="https://wibsson.medium.com/%C3%A9-tarde-demais-para-morrer-com-eleg%C3%A2ncia-victor-heringer-o-amor-dos-homens-avulsos-fd43f4910c2d"><span style="font-weight: 400;">parágrafos</span></a><span style="font-weight: 400;"> da prosa excepcional de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=05573"><span style="font-weight: 400;">Victor Heringer</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_29374" aria-describedby="caption-attachment-29374" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29374" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3.jpg" alt="" width="2500" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco3-1536x1152.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29374" class="wp-caption-text">Artistas como Cindy Sherman, Kazuo Ohno e Ana Mendieta são lembrados em suas práticas de desafio às fronteiras do corpo (Foto: Manoela Sawitzki)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De Paris a Tacaratu, percurso também feito pela escritora em sua encarnação das trajetórias, Manu inicia a subverter a perspectiva, fundante do livro, de omitir a si mesma pelo processo de descrever e desdobrar-se sobre o mundo que a cerca. Nisso, a prosa é afetada por uma perspectiva curiosa da </span><a href="https://manoelasawitzki.com/livros/livro-vinco/#:~:text=%E2%80%9CNeste%20momento%20delicado,e%20afetividade%20brilhantes.%E2%80%9D"><span style="font-weight: 400;">autora-pesquisadora</span></a><span style="font-weight: 400;">, que dirige a prática de descoberta da escrita à trupe de dissidentes, calorosos à estrangeira recém-chegada, e dos causos que rondam a cidadezinha nordestina, centrando esse romance de formação para além de Manu e suas inquietações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na verdade, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vinco </span></i><span style="font-weight: 400;">parece deformar as características dessa estrutura — de mergulho e introspecção na personagem adentrada em mudanças — em detrimento da promoção de um sentimento de estranheza do leitor na demora de uma formação de uma imagem de quem ele partilha a história. É como se, tanto para Sawitzki quanto para Manu, não fosse o exato momento para se definir sua aparência, pois existe um empenho muito mais árduo em tornar o mundo que a cerca menos estranho e abjeto para si. Nesse sentido, a partir da indefinição desse rosto e desse corpo, se constrói uma </span><a href="http://screamyell.com.br/site/2022/08/22/literatura-vinco-de-manoela-sawitzki-um-romance-poderoso-a-respeito-de-questoes-de-genero-e-sexualidade/"><span style="font-weight: 400;">vivência identitária</span></a><span style="font-weight: 400;"> e experimental de ser, efetivamente, outro; na tentativa de fabricar-se a partir dos deslocamentos interiores e exteriores que realiza.</span></p>
<figure id="attachment_29373" aria-describedby="caption-attachment-29373" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29373" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4.jpg" alt="" width="2500" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco4-1536x1152.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29373" class="wp-caption-text">A cidade de Tacaratu e de Paris se refletem nesse mosaico afetivo (Foto: Manoela Sawitzki)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na paisagem do sertão nordestino, a busca por um pai distante envereda-se em uma materialização de uma </span><a href="https://www.instagram.com/p/CDuNYExji7n/?utm_source=ig_web_copy_link"><span style="font-weight: 400;">mulheridade</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Manu. </span><a href="http://zelmar.blogspot.com/2009/05/sob-o-turbante-de-simone.html"><span style="font-weight: 400;">Lenços</span></a><span style="font-weight: 400;"> que encobrem seus cabelos, falhados pela condição da alopecia — mais uma expressão dessa intrincada relação com o corpo —, e sutiãs rendados podem parecer inscrições simbólicas de sua feminilidade. Contudo, a construção desse amadurecimento nunca perpassa por dúvidas ou atritos entre esses dois polos tão demarcados pela binaridade de gênero: é como se Manu, desde o princípio, houvesse borrado as normas desse regime para construir, como cunhado por Preciado — sob a luz de </span><a href="https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/artemis/article/view/2154"><span style="font-weight: 400;">Monique Wittig</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1740575/mod_resource/content/2/BUTLER.%20Judith.%20Bodies%20that%20matter_introdu%C3%A7%C3%A3o%20em%20port.pdf"><span style="font-weight: 400;">Judith Butler</span></a><span style="font-weight: 400;"> —, uma ‘</span><a href="https://www.scielo.br/j/ref/a/NKsMXCpRB8N9ZdGdvPKqvJm/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">contrassexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;">’, que nunca toma um aspecto espetacular ou de um </span><i><span style="font-weight: 400;">plot-twist </span></i><span style="font-weight: 400;">no arco narrativo tecido por Sawitzki. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanto que, para esse </span><i><span style="font-weight: 400;">coming of age</span></i><span style="font-weight: 400;"> banhado em uma estrutura de um </span><i><span style="font-weight: 400;">road movie, </span></i><span style="font-weight: 400;">não existe a iminência de um confronto ou revelação. Diferentes de </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Livros/noticia/2022/08/com-o-livro-vinco-manoela-sawitski-aborda-transformacoes-e-transicoes-na-vida-de-uma-personagem-trans.html#:~:text=De%20que%20maneira,h%C3%A1%20tempo%20demais."><span style="font-weight: 400;">narrativas sobre transgeneridade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se utilizam muito da imagética de metamorfoses — em que se delimitam um ponto crucial que divide passado e presente — Manu prefere firmar a si mesma, assim como o texto que lhe estrutura, na condição de gerúndio, em que deita a segurança de sempre estar sendo</span> <span style="font-weight: 400;">em vez de ter sido</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">A historicidade de práticas de </span><a href="https://claudia.abril.com.br/cultura/isabelle-eberhardt-historia-inspiracao/"><i><span style="font-weight: 400;">crossdressing</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que também vincula os sujeitos, em novos espaços, a um papel de estrangeiridade, parecem inscrevê-la no seu próprio corpo, mesmo que a sutileza do texto não a explicite. As palavras de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Vinco, </span></i><span style="font-weight: 400;">em sua essência, nada destacam:</span> <span style="font-weight: 400;">funcionam como pegadas silenciosas das singelas mudanças, as quais a pureza humana do crescimento e o entendimento de si próprio conseguem ser capturados em toda sua inconstância.</span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<figure id="attachment_29375" aria-describedby="caption-attachment-29375" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29375" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5.jpg" alt="" width="2500" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/vinco5-1536x1152.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29375" class="wp-caption-text">Em sua escrita, a autora retoma uma mitologia do gênero enquanto performance (Foto: Manoela Sawitzki)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">‘‘</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ynMrgCn6498"><i><span style="font-weight: 400;">De desfazer-me eu meu, eu, eu, eu, eu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">’’. Acima de tudo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vinco</span></i><span style="font-weight: 400;"> constitui um percurso de identidade, da memória e da geografia; o qual as transformações são a proposta estética de uma narrativa que ocorre em todas direções, rasgando a condição de sujeito para buscar-se na alteridade. Enquanto em </span><i><span style="font-weight: 400;">Orlando </span></i><span style="font-weight: 400;">o poder de um corpo em fluidez consegue distender as linhas do tempo, levando à imortalidade de sua personagem, o livro de Manoela Sawitzki parece, em suas delicadas explosões, romper os limites da linearidade do texto na união do trânsito do corpo ao da escrita. A obra é um registro integral da vida, atravessada por entranhadas costuras de acontecimentos de uma identidade constituída de deslocamentos, que dão uma única certeza: </span><a href="https://manoelasawitzki.com/2022/11/03/epico-de-almas-resenha-de-luciana-tiscoski-para-o-jornal-rascunho/"><span style="font-weight: 400;">a beleza</span></a><span style="font-weight: 400;"> é vincada de incertezas.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: #210 - Bate-papo sobre &quot;Vinco&quot;, novo livro de Manoela Sawitzki" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/5npgWD9dGploFafgj8mhIx?si=Lt5lBVLwSJOq5Uz0Q9zWGg&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>O amor líquido cabe dentro de um Copo Vazio</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Nov 2022 20:32:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[2021]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Isabella Lima  Em 2004, o filósofo Zygmunt Bauman utilizou o termo “Amor líquido&#8221; para se referir aos relacionamentos constituídos na pós-modernidade, um período caracterizado pelo rápido padrão de mudança e adaptação. Coube a ele se questionar: como se dá o amor e as conexões afetivas dentro desse mundo fluido? Para essa pergunta, Bauman comenta que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/copo-vazio-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O amor líquido cabe dentro de um Copo Vazio"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29218" aria-describedby="caption-attachment-29218" style="width: 527px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-29218" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6-527x800.jpg" alt="Imagem capa do livro Copo Vazio. Composta totalmente por uma pintura. Em primeiro plano temos uma mesa cor de rosa e em cima um copo de vidro vazio. Ao fundo temos um cenário todo pintado de azul. No canto inferior direito pode-se ler “Copo Vazio e logo abaixo “Natalia Timerman”" width="527" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6-527x800.jpg 527w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6-674x1024.jpg 674w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6-768x1166.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6-1012x1536.jpg 1012w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-1-6.jpg 1686w" sizes="auto, (max-width: 527px) 85vw, 527px" /><figcaption id="caption-attachment-29218" class="wp-caption-text">Lançado em 2021 pela editora Todavia, Copo Vazio estabelece uma conversa sincera, e talvez até difícil, com todos aqueles que já foram abandonados (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Isabella Lima </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2004, o filósofo Zygmunt Bauman utilizou o termo “</span><i><span style="font-weight: 400;">Amor líquido</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; para se referir aos relacionamentos constituídos na pós-modernidade, um período caracterizado pelo rápido padrão de mudança e adaptação. Coube a ele se questionar: como se dá o amor e as conexões afetivas dentro desse mundo fluido? Para essa pergunta, Bauman comenta que a necessidade de praticidade na vida fez o amor se tornar descartável e as relações, superficiais. Queremos estar com alguém, mas, ao mesmo tempo, também não queremos o compromisso de um relacionamento profundo. Na prática, esse conceito é notório quando observamos temas sobre </span><a href="https://open.spotify.com/episode/52tEuXfgkuRmeNjiWy0pih?si=KrOYXxHwTFaaMFzFzRn6gA"><span style="font-weight: 400;">responsabilidade afetiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> ganhando cada vez mais visibilidade nas redes sociais. Entre eles, encontramos a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Copo Vazio</span></i><span style="font-weight: 400;">, livro ficcional de Natalia Timerman, escritora e psiquiatra responsável por colocar em foco uma das consequências desse amor líquido, o </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151206_ghosting_relacionamentos_fn"><i><span style="font-weight: 400;">ghosting</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-29217"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantas histórias de mulheres abandonadas já escutamos? Desde as mais antigas, como Marianne Dashwood, ignorada por Willoughby em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZVYrp35xZyg&amp;t=10s"><i><span style="font-weight: 400;">Razão e Sensibilidade</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1813), até às mais atuais, como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wq0qvFMub98&amp;t=30s"><i><span style="font-weight: 400;">Lua Nova</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2006) quando Bella Swan sofreu por meses seguidos com a partida repentina de Edward Cullen. Em </span><a href="https://escotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/livro-copo-vazio-natalia-timerman-todavia-resenha/"><i><span style="font-weight: 400;">Copo Vazio</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, conhecemos mais uma dessas personagens. Mirela é uma mulher dedicada e com perspectivas prósperas de carreira em um escritório de arquitetura em São Paulo. Um dia, por insistência de Marieta, sua irmã mais nova, a protagonista dá uma chance para os aplicativos de paquera, mesmo achando todo esse conceito errado. Ali, conhece Pedro, com quem começa a conversar e, posteriormente, engata em um relacionamento. Mirela só não contava com uma possibilidade: após alguns meses, esse homem sumiria da sua vida sem deixar explicações.</span></p>
<figure id="attachment_29221" aria-describedby="caption-attachment-29221" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29221 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-2-3.jpg" alt="Fotografia retrato da autora Natalia Timerman. Imagem no formato retangular e em preto e branco. Ao fundo, uma parede coberta por plantas. No primeiro plano está Natalia. Uma mulher branca, de cabelos curtos nas altura das orelhas, Ela veste uma blusa preta com decote no formato de um V" width="800" height="451" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-2-3.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/IMAGEM-2-3-768x433.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29221" class="wp-caption-text">Ghosting é uma palavra em Inglês derivada de ghost (fantasma); o termo é utilizado em relacionamentos em que a pessoa some de propósito para evitar a discussão do término (Foto: Renato Parada)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Pedro não atende mais o celular, para de responder as mensagens, apenas visualiza, e, em poucos dias, começa a bloquear Mirela em todas as redes sociais. A dor da protagonista é </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/como-o-amor-salva/natalia-timerman-o-amor-e-vital-nesse-cotidiano-distopico/"><span style="font-weight: 400;">semelhante à de diversas pessoas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que já se colocaram à disposição para sentir, se envolver, imaginar um possível futuro, mas depois perceberam que a paixão estava muito mais relacionada à ideia do amor do que ao sentimentor em si. O livro é composto por uma cronologia fragmentada, alternando entre o passado, presente e um possível futuro, colocando o leitor não só como receptor da história, mas também participante de todas as emoções da mulher. Nesse sentido, a escrita de Natalia é muito bem utilizada para mostrar como as consequências do </span><i><span style="font-weight: 400;">ghosting</span></i><span style="font-weight: 400;"> vão muito além de ‘levar um fora’. Esses comportamentos também resultam em problemas psicológicos como baixa autoestima e dificuldade em achar fechamento para aquele relacionamento.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Tinha uma pessoa na minha frente e agora não tem mais”</span></i><span style="font-weight: 400;">, é um dos muitos trechos em que sentimos a angústia instalada na vida de Mirela. Com isso, entendemos o porquê uma das palavras-chaves para o sucesso desse romance seja a ‘identificação’, pois entramos em contato com uma personagem repleta das reações mais humanas possíveis diante do ocorrido. Entre elas, a sensação de </span><a href="https://www.acritica.net/editorias/entretenimento/a-literatura-possibilita-outro-existir/516586/"><span style="font-weight: 400;">não ser o suficiente</span></a><span style="font-weight: 400;"> está muito presente na narrativa, como se algo convencesse, erroneamente, que a pessoa abandonada não é merecedora de amor. A exemplo disso, há uma passagem em que a protagonista questiona:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “se sou alguém a quem se pode amar por que Pedro não está aqui?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ou seja, apesar de ser uma mulher inteligente, interessante, bonita e dedicada, o abandono grita mais alto do que todas as suas qualidades, e ela não consegue entender, e até se sente violada, quando outra pessoa além de Pedro demonstra interesse por ela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua participação no </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Bom Dia, Obvious</span></i><span style="font-weight: 400;">, Natalia Timerman comentou sobre como </span><i><span style="font-weight: 400;">Copo Vazio</span></i><span style="font-weight: 400;"> vai além de um livro sobre abandono, mas também trata-se de uma história sobre a elaboração do luto. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KMsBkEo-Hp0"><span style="font-weight: 400;">O vazio após um término</span></a><span style="font-weight: 400;"> é sempre acompanhado do luto pelo futuro que se perdeu, diz a escritora, e esse vácuo acaba sendo preenchido por fantasias ou pelo questionamento “e se?”. Essa reflexão é latente na obra, uma vez que a personagem encontra dificuldade em viver no agora e, consequentemente, mergulha em fantasias pensando como seria se as coisas fossem diferentes. Uma das formas mais poéticas que Timerman encontrou para retratar isso está em um capítulo escrito utilizando somente verbos no futuro do pretérito indicativo, mostrando algo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="GHOSTING e RELACIONAMENTOS LÍQUIDOS: LIVRO &quot;COPO VAZIO&quot; de NATALIA TIMERMAN | Arte1Minuto" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/zRSlWHEmbyQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>Mas e o Pedro nessa história? Assim como para Mirela, <a href="https://www.nexojornal.com.br/externo/2022/06/25/Por-que-as-pessoas-d%C3%A3o-%E2%80%98ghosting%E2%80%99-nas-redes-sociais">ele é uma incógnita</a> para o leitor. É importante ressaltar: aqui temos acesso somente à visão da protagonista, ou seja, a parte mais envolvida no relacionamento. Dessa forma, observamos ele em cima do pedestal no qual foi colocado. Algumas vezes ele parece estar presente, em outras, distante. As vezes parece ser esquisito, em outras, pode até ser considerado bonito. Mesmo quando ainda estava dentro do relacionamento, Pedro era semelhante a uma fumaça, nunca constante. Após algum tempo, a própria Mirela constata que talvez estivesse se relacionando mais com a imagem perfeita de Pedro construída por ela, do que com ele propriamente dito.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em conjuntura, </span><i><span style="font-weight: 400;">Copo Vazio</span></i><span style="font-weight: 400;"> consegue colocar em palavras sentimentos que muitos de nós procuramos transmitir, mas não sabemos exatamente como. O livro de Natalia Timerman escancara a volatilidade dos relacionamentos em um contexto pós-moderno, cercado pelas redes sociais e pela ansiedade coletiva na qual estamos imersos. A dor de um coração partido é inevitável; No entanto, refletir e entender a situação é o primeiro passo para procurar ajuda, pois, assim como a personagem Mirela disse:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “Há tanto que poderia ter sido de outro jeito, e, no entanto, o caminho é só um,</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=nirKw3mWB3I"><i><span style="font-weight: 400;"> e sempre leva ao dia de hoje</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: #111/ o vazio de um ghosting, com Natalia Timerman" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/7uYmyozIcBJ78SawuAfs0a?si=2e49e06568374a0b&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A face por trás de Confissões de uma máscara</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 17:06:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro Yoshimatu “Pressenti então que neste mundo há um tipo de desejo semelhante à dor pungente. ‘Quero me transformar nele’ foi a vontade que me sufocou ao olhar para aquele rapaz todo sujo: ‘Quero ser ele’”. Publicado no Japão em 1949 pelo aclamado autor Yukio Mishima, Confissões de uma máscara é um interessante retrato de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/confissoes-de-uma-mascara-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A face por trás de Confissões de uma máscara"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28125" aria-describedby="caption-attachment-28125" style="width: 666px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28125 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-666x1024.jpg" alt="Capa do livro Confissões de uma máscara, do autor Yukio Mishima, retratando um leque sobre um fundo azul com o título e o nome do autor ao centro" width="666" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-666x1024.jpg 666w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-521x800.jpg 521w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-768x1180.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1000x1536.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1333x2048.jpg 1333w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1-1200x1844.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem1.jpg 1666w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28125" class="wp-caption-text">De maneira bastante intimista, Confissões de uma máscara explora temas de autoconhecimento e rejeição (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Pedro Yoshimatu</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Pressenti então que neste mundo há um tipo de desejo semelhante à dor pungente. ‘Quero me transformar nele’ foi a vontade que me sufocou ao olhar para aquele rapaz todo sujo: ‘Quero </span><span style="font-weight: 400;">ser </span><span style="font-weight: 400;">ele’”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado no Japão em 1949 pelo aclamado autor Yukio Mishima, </span><a href="https://www.amazon.com.br/Confiss%C3%B5es-uma-m%C3%A1scara-Yukio-Mishima/dp/8535904794"><i><span style="font-weight: 400;">Confissões de uma máscara</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um interessante retrato de muitas crises. A crise de seu protagonista, certamente &#8211; Koo-chan é um jovem em processo de descoberta da sua própria homossexualidade, em constante conflito com suas crenças pessoais sobre honra, valor próprio e masculinidade -, como também a crise de seu contexto histórico, marcado pela ideologia militarista do Japão Imperial e uma herança cultural em processo de transição e ressignificação. Mas é, principalmente, um livro sobre as crises de seu próprio autor, marcado pelo tom quase biográfico, uma sincera proximidade com o leitor na prosa e uma percepção bastante honesta sobre os dilemas enfrentados por um jovem LGBTQIA+ num período de grande repressão social.</span></p>
<p><span id="more-28124"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro segue a história de vida de seu protagonista, desde as particularidades de seu nascimento, passando pelas primeiras memórias de infância e experiências com a puberdade, até sua idade adulta. Nela, o personagem principal se vê em meio a um cenário politicamente tenso e socialmente conturbado, com o horror da guerra pairando sobre todos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa decisão narrativa dá à trama uma cadência natural, espelhando-se, muitas vezes, em episódios da própria </span><a href="https://www.fnac.pt/Yukio-Mishima/ia99849/biografia"><span style="font-weight: 400;">vida pessoal do autor</span></a><span style="font-weight: 400;">; Koo-chan, o protagonista, tem seu nome inspirado no diminutivo de “Kimitake”, o nome de nascimento por trás do pseudônimo Yukio Mishima. Os temas de descoberta de si mesmo enquanto LGBTQIA+ perpassam esses cenários mais históricos, mas também possuem profundidade no percurso humano do próprio protagonista.</span></p>
<figure id="attachment_28126" aria-describedby="caption-attachment-28126" style="width: 632px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28126 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-632x1024.jpg" alt="Yukio Mishima segurando um microfone enquanto discursa em um palanque, em frente a um quadro negro, com uma expressão austera" width="632" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-632x1024.jpg 632w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-494x800.jpg 494w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-768x1244.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2-948x1536.jpg 948w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem2.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28126" class="wp-caption-text">Mishima teve muito participação enquanto figura pública na política japonesa, muitas vezes de maneira controversa (Foto: Shinchosha/Japan Forward)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante pensar em como a </span><a href="https://revistas2.uepg.br/index.php/uniletras/article/view/5260"><span style="font-weight: 400;">temática e o estilo narrativo de Mishima</span></a><span style="font-weight: 400;"> se articulam. Uma questão levantada desde o início do livro é o físico do protagonista, considerado longe do modelo tido como adequado ao seu redor. Num contexto em que a masculinidade é vista como algo austero, rígido e militarizado, Koo-chan encontra grandes dificuldades em se perceber como reflexo desse ideal inalcançável. Em contrapartida, Koo-chan venera as imagens pertencentes ao tipo de masculinidade que lhe é imposto; suas primeiras experiências de atração sexual são de contemplação quase platônica de homens com corpos esbeltos e que demonstram se encaixar nesse rígido modelo de beleza e autoaceitação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um paradoxo instigante é proposto durante a sua infância: Koo-chan idealiza e se sente atraído pela imagem de um cavaleiro ocidental, vestido em uma resplandecente armadura e demonstrando, com grande ênfase, todos os </span><a href="https://www.scielo.br/j/pcp/a/7ftQZzgJTGcvJmzWDv7gD5d/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">valores masculinos</span></a><span style="font-weight: 400;"> repassados pela sociedade em seu entorno. Tal atração é posta em cheque quando uma de suas babás revela que o cavaleiro é, na verdade, Joana d’Arc, e a ideia de que uma mulher poderia utilizar vestes consideradas masculinas e desempenhar valores idealizados enoja e confunde o protagonista.</span></p>
<figure id="attachment_28127" aria-describedby="caption-attachment-28127" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28127 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3.jpg" alt="O autor Yukio Mishima sorri sem camisa sentado em um balcão, enquanto veste uma calça branca e revela o seu porte físico" width="720" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3.jpg 720w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/imagem3-640x800.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28127" class="wp-caption-text">O autor trabalhou, em seus textos e em sua vida pessoal, a questão do físico e o esforço para se adequar a um padrão (Foto: Getty Images)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1970, Yukio Mishima cometeu suicídio, após uma tentativa de golpe no governo estabelecido depois da Segunda Guerra Mundial. O método escolhido é reflexo de seu percurso em vida: o autor optou por cometer </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-era-um-ritual-de-seppuku-em-que-o-samurai-se-matava/"><i><span style="font-weight: 400;">seppuku</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o ritual tradicional de suicídio do código de honra dos samurais. Mishima foi um grande crítico de uma ocidentalização do Japão, e um fervente crítico de ideologias estrangeiras se expandindo em seu país natal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, seu contexto social é o da intensa ressignificação da identidade nacional, e nesse sentido o autor se apega a elementos fundacionais da cultura japonesa como âncoras culturais (sobretudo a tradição xintoísta, a sacralização do Imperador enquanto figura política e a valorização de ideias militares tradicionais). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tradução de Jaqueline Nabeta, </span><i><span style="font-weight: 400;">Confissões de uma máscara</span></i><span style="font-weight: 400;"> permite ao leitor interessado observar mais de perto os detalhes de uma mente literária imersa em muitos conflitos, assim como seus dispositivos para administrar as crises internas e externas. Mais do que uma leitura recomendada para todos os interessados em </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/lgbtqia/"><span style="font-weight: 400;">questões LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;">, o livro debate sobre os conflitos inerentes a processos de transição, e aponta com maestria para a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/literatura-japonesa/"><span style="font-weight: 400;">Literatura japonesa</span></a><span style="font-weight: 400;"> do século XX.</span></p>
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		<title>O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2022 19:34:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathalia Tetzner O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo físico que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27818" aria-describedby="caption-attachment-27818" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27818 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg" alt="Arte em rosa claro com a imagem do livro A Estrutura da Bolha de Sabão no centro. Capa do livro A Estrutura da Bolha de Sabão da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. Na imagem, há uma arte com diversas texturas e formatos, entre eles, contornos de flores. A arte vibra nas cores azul, vermelho, verde, marrom, roxo e rosa. No canto inferior esquerdo, um quadro branco com o nome da autora escrito em preto, o nome do livro escrito em roxo e o nome da editora, Companhia das Letras, escrito em azul. No topo à esquerda, vemos o olho do Persona com a íris rosa e no canto inferior direito está o logo do Clube do Livro do Persona." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27818" class="wp-caption-text">A Estrutura da Bolha de Sabão foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2022/">Clube do Livro do Persona</a> durante o mês de abril de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<p><b>Nathalia Tetzner</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,jean-oury-fala-sobre-jean-vigo,431566"><span style="font-weight: 400;">físico</span></a><span style="font-weight: 400;"> que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, por isso, sabe que não possui estrutura alguma. O tempo passa e quando o gato do casal sobe na mesa dela, finalmente há uma resposta para sussurrar: </span><i><span style="font-weight: 400;">“a bolha de sabão é o amor”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Nascia nesse momento </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma coletânea de contos escrita pela dama da Literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles. </span></p>
<p><span id="more-27768"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançada originalmente em 1978 sob o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filhos Pródigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra foi reeditada na década de 90 quando passou a carregar o nome do texto de maior sucesso. Em 2010, ela ganhou uma nova roupagem para uma série especial da editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, em meio às infinitas edições disponíveis no mercado, é o conteúdo que destaca a sua singularidade perante toda a bibliografia de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tgaX90Fo3YU"><span style="font-weight: 400;">Telles</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa vez, a autora conhecida por banhar os seus romances com o realismo convida o leitor para um mergulho na fantasia onde ele é sempre o último a desvendar as nuances.</span></p>
<blockquote><p>“Inclinou-se para apanhar a bolsa que caiu. Catou vacilante o pente e o espelho, quis ainda alcançar o lápis que rolou no assoalho, desistiu do lápis, Ih!&#8230;Levantou-se apertando a bolsa contra o peito, a outra mão apoiada na maçaneta da porta. Respirou penosamente, a boca aberta.</p>
<p>Encarou a mulher. Tudo bem?</p>
<p>— Tudo bem. Adriana. Tenho é muita pena desse moço. Seu noivo. Casar com uma coisa dessas, imagine.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Repleta de fluxos de consciências e ambientada com uma dose de tensão constante, a leitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é nem um pouco confortável, consequência natural da abordagem esférica da temática feminina, fator sempre presente nos escritos da autora. Banhados por uma atmosfera misteriosa, os oito contos remetem de alguma forma ao </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-4-licoes-da-obra-da-dama-da-literatura-as-mulheres.htm"><span style="font-weight: 400;">papel da mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> na sociedade. Seja na materialização de uma jovem cheia de rebeldia para a sua época ou na subjetividade presente em um diálogo entre dois homens, Lygia Fagundes Telles explora todos os tons da feminilidade com a genialidade de quem está acostumada a ser uma força em sua caminhada pessoal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terceira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras estudou Direito e Educação Física porque acreditava que não seria capaz de viver da </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/colunas/natalia-timerman/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-era-uma-mulher-escrevendo-sobre-e-como-mulher.htm"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e se negava a depender financeiramente de um matrimônio. Ela e todo o seu lirismo foram exceção em relação ao pós-modernismo, movimento literário que se deu início na década de 70, período em que a figura masculina ainda era a maioria entre os autores de grande apelo. Assim como Adriana em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XyIRQJgY3a8"><i><span style="font-weight: 400;">A Medalha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a filha subversiva à mãe e ao seu tempo farto de conservadorismos, Telles é também dona de uma trajetória transgressora e parece ter bebido da sua própria fonte para retratar com tanta fidelidade a angústia da personagem.</span></p>
<figure id="attachment_27769" aria-describedby="caption-attachment-27769" style="width: 964px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg" alt="Fotografia de Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles em preto e branco. Hilst, à esquerda, segura um cigarro com a mão enquanto sorri olhando para o lado. Telles, à direita, sorri olhando para o lado oposto. As duas são mulheres brancas de cabelos escuros." width="964" height="806" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg 964w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-800x669.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-768x642.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27769" class="wp-caption-text">Escritora do movimento pós-modernista e amiga pessoal de <a href="https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/04/03/morte-de-lygia-fagundes-telles-lembre-amizade-da-escritora-com-hilda-hilst.html">Hilda Hilst</a>, Telles abordou a feminilidade como tema central de suas obras (Foto: Acervo Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Encarregado de ser o texto mais perturbador da coletânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espartilho</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz com que o leitor se sinta sufocado pelo ambiente regrado da década de 40. Ana Luíza é o nome da protagonista que causa uma inquietação digna de filmes de terror como </span><a href="https://personaunesp.com.br/mae-filme-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Mãe!</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2017)</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que o suspense psicológico reina. O olhar de despertencimento dela ao encarar o álbum de fotos de sua família, após finalmente descobrir a verdade brutal por trás das faces pálidas apertadas por espartilhos, é estarrecedor. A experiência é um ponto fora da curva do que a escritora costuma produzir e provoca uma metáfora sensível sobre o uso de cintas modeladoras e a prisão emocional que acarreta a trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase mitológicos, os contos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Testemunha</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">A Fuga</span></i><span style="font-weight: 400;"> começam e permanecem um mistério. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vgMn9NjYYT8"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> nitidamente não se importou em deixar explícito o que cada figura de linguagem significa, há de se explorar as páginas para encontrar os sentidos do livro. De fato, a confusão mental de Miguel em busca de respostas e a insistência de Rolf em afirmar não saber de nada é, por si só, uma interessante bagunça de diálogos que acorrentam em um eterno ciclo não só os dois amigos, mas qualquer um que entra em contato com as linhas de Telles. Já no segundo texto, o clima de névoa é descrito com um intenso detalhismo que tem o poder de cegar e confundir Rafael e todo o público leitor.</span></p>
<blockquote><p>“— Não vai me dizer, Rolf?</p>
<p>— Dizer o quê rapaz?</p>
<p>— O que aconteceu ontem.</p>
<p>— Ora, o que aconteceu! Mas então você não sabe?</p>
<p>— Não, não sei. Não me lembro de nada, nada.</p>
<p>— Mas como não se lembra?</p>
<p>— Não me lembro, simplesmente não lembro — repetiu Miguel torcendo as mãos muito brancas. Fechou-as contra o peito.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há nada tão hipocritamente perfeito quanto uma coleção de páginas em que a existência de conjuntos geniais diminuem a sagacidade de outros. Esse é o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Missa do Galo </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Gaby</span></i><span style="font-weight: 400;">, a releitura do clássico de Machado de Assis e a incoerente falta de ritmo em uma conversa de bar colocam os dois contos em uma posição menos inspirada em relação aos outros momentos de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ambos são um exagero passional e, para o bem e para o mal, somente permitem concluir que não há conclusão. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vVTpCDG7LuY"><span style="font-weight: 400;">dama da Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixa neles o dito pelo não dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Confissão de Leontina</span></i><span style="font-weight: 400;"> se consagra como o maior ato da obra. Longo e profundo, a narração em primeira pessoa relata o </span><a href="https://favodomellone.com.br/a-confissao-de-leontina-de-volta-o-conto-de-lygia-fagundes-telles/"><span style="font-weight: 400;">drama</span></a><span style="font-weight: 400;"> vivido por quem deixa uma cidade pequena em busca de oportunidades nas grandes capitais do país. Sempre incompreendida, a personagem principal do conto atrai todos os olhares para o seu infortúnio, o que consequentemente resulta no sentimento de identificação com o leitor. É fácil se emocionar com as palavras certeiras escolhidas pela autora, especialista em captar com excelência os aspectos do cotidiano urbano com o papel e a caneta na mão.</span></p>
<figure id="attachment_27770" aria-describedby="caption-attachment-27770" style="width: 940px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27770" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg" alt="Fotografia de Lygia Fagundes Telles. Na imagem, os cabelos grisalhos de Telles contam que o tempo passou para a escritora. Ela, uma mulher branca de olhos claros, direciona o seu olhar para a lente de quem a fotografa. Ao fundo, o que parece ser um ambiente aconchegante, mas desfocado" width="940" height="504" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg 940w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-800x429.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-768x412.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27770" class="wp-caption-text">A dama da Literatura nacional vive em seu <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/04/08/interna_pensar,1358573/escritoras-brasileiras-ressaltam-o-legado-de-lygia-fagundes-telles.shtml">legado</a> (Foto: Renato Parada)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, como uma coletânea de contos, a expressão artística de Lygia Fagundes Telles mais complexa e brilhante desde o lançamento de </span><a href="https://istoe.com.br/lygia-fagundes-telles-driblou-a-censura-militar-no-romance-as-meninas/"><i><span style="font-weight: 400;">As meninas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 1973. Os recursos linguísticos utilizados no romance certamente continuaram a inspirá-la até a criação do conjunto de textos. Já, como um conto, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou maior do que si mesmo. Afinal, a quem interessa estudar a estrutura de uma bolha de sabão? A falta de explicações uma vez questionada ganha sentido com o término pungente da obra de Telles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dama da Literatura brasileira descobriu em vida que a bolha de sabão é o amor e estudá-la é fundamental. Ela, incoerentemente gentil e caridosa como as ondas do mar, compartilhou a descoberta com o mundo depois de um mergulho nas profundezas do fantasioso. Lygia Fagundes Telles faleceu em </span><a href="https://jornal.unesp.br/2022/04/04/dona-de-uma-carreira-premiada-lygia-fagundes-telles-deixa-solido-legado-literario-diz-diretor-da-editora-unesp/"><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, assim como fez em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, a sua partida do mundo material somente pode significar que ela resolveu permanecer de vez ao lado da subjetividade da vida. </span></p>
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		<title>Bobbi amava Frances que ama Nick que ama Melissa</title>
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		<pubDate>Wed, 25 May 2022 20:45:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Frances e Bobbi são melhores amigas que já namoraram. Frances tem uma queda por Nick, e Bobbi, por Melissa. Nick e Melissa são casados. É partindo desse emaranhado que Sally Rooney, em seu livro Conversas entre amigos, encontra terreno fértil para dissecar relacionamentos contemporâneos e seus envolvidos, assim como as dinâmicas sociais &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/conversas-entre-amigos-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Bobbi amava Frances que ama Nick que ama Melissa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp"></div>
<figure id="attachment_27701" aria-describedby="caption-attachment-27701" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27701 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos.jpg" alt="Moldura vermelha retangular. No canto superior esquerdo e no canto inferior direito, vemos o logotipo do Persona, o desenho de um olho com um símbolo de play ao centro. Ao centro do retângulo, vemos a capa do livro Conversas entre amigos. A capa tem o fundo verde azulado. Na parte superior central, vemos a palavra &quot;conversas&quot; em uma fonte branca sem serifa, alinhada à esquerda. Abaixo, vemos a palavra &quot;entre&quot; na mesma fonte, alinhada à direita. Abaixo, vemos a palavra &quot;amigos&quot; centralizada. Centralizada na capa, vemos as palavra &quot;Sally Rooney&quot;, na mesma fonte, na cor preta. Na parte inferior da capa, vemos uma mulher branca de cabelos castanhos lisos, de costas, à esquerda. À direita, vemos uma mulher branca de cabelos pretos presos em um rabo de cavalo e usando óculos rosa, de perfil." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/conversaentreamigos-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27701" class="wp-caption-text">Lançado em 2017, Conversas entre amigos completa 5 anos no mês de lançamento da série adaptada (Foto: Editora Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitória Lopes Gomez</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Frances e Bobbi são melhores amigas que já namoraram. Frances tem uma queda por Nick, e Bobbi, por Melissa. Nick e Melissa são casados. É partindo desse emaranhado que Sally Rooney, em seu livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">encontra terreno fértil para dissecar relacionamentos contemporâneos e seus envolvidos, assim como as dinâmicas sociais e de poder das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ho5ja2trqrs&amp;t=265s"><span style="font-weight: 400;">relações interpessoais</span></a><span style="font-weight: 400;"> modernas. Se a irlandesa escreve, essencialmente, sobre pessoas normais vivendo sua realidade &#8211; mesmo que seja uma realidade inventada, somente baseada na vida real da autora ,- essa obra de estreia  mostra que, mesmo antes do fenômeno </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, Rooney já mostrava a potência de suas </span><a href="https://www.dailymail.co.uk/femail/article-10820757/How-Sally-Rooney-31-drew-experiences-growing-rural-Ireland-write-hit-novels.html"><span style="font-weight: 400;">histórias fictícias reais</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-27690"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No enredo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dupla de amigas se apresenta recitando poemas, escritos por Frances. Em um dos eventos, conhecem Melissa, uma escritora e fotógrafa bem-estabelecida, que pretende escrever um perfil sobre as duas jovens. Para isso, as convida a sua casa. Na residência de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Z1S5bOdJq3U&amp;t=0s"><span style="font-weight: 400;">classe média</span></a><span style="font-weight: 400;"> no centro de Dublin, história vem, história vai e não demora para os pares trocados se conectarem. Com Bobbi e Melissa preenchendo os espaços com suas personalidades, </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/4OobxWGzjHpUMaQnZmDvTs?si=eabd567c131a49bd"><span style="font-weight: 400;">Frances</span></a><span style="font-weight: 400;"> captura o olhar de Nick, o marido de Melissa, que parece tão perdido ao lado da mulher quanto ela com Bobbi.</span></p>
<figure id="attachment_27691" aria-describedby="caption-attachment-27691" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-27691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-800x320.jpg" alt="Foto da autora Sally Rooney. Em frente a um fundo desfocado, em que vemos um bosque com folhagens verdes e um tronco de árvore, à esquerda, vemos Rooney ao centro, do tronco para cima. Ela é uma mulher branca, de cabelos castanhos lisos na altura do ombro, aparentando cerca de 30 anos, vestindo uma camisa branca e com o rosto inclinado para a direita." width="800" height="320" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-800x320.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2-768x308.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-2.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27691" class="wp-caption-text">No Brasil, Conversas entre amigos foi publicado pela Editora Alfaguara, com tradução de Débora Landsberg (Foto: Ellius Grace)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Conversations with friends </span></i><span style="font-weight: 400;">(o título original)</span> <span style="font-weight: 400;">é o primeiro livro publicado por Sally Rooney, que estourou com seu lançamento seguinte, </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Nesse segundo, a força gravitacional que move a narrativa é o (eventual) casal Connell e Marianne. Dos 16 aos 20 e tantos anos, os dois passam da ingênua adolescência à desafiadora vida adulta um na companhia do outro, ora em um relacionamento romântico, ora aprendendo a viver sem ele. Já em </span><a href="https://personaunesp.com.br/belo-mundo-onde-voce-esta-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Belo mundo, onde você está</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o terceiro e mais recente romance da autora, Alice e Eileen são velhas amigas que se correspondem por </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mail</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com quase 30, o foco das protagonistas já não é o amadurecimento, mas outros, refletidos pelos da própria autora: vida profissional, relações românticas e de amizade menos idealizadas, capitalismo e reflexões acerca até do mercado editorial &#8211; esse, que </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/sally-rooney-lanca-belo-mundo-onde-voce-esta-avalia-impacto-de-normal-people-minha-vida-foi-dominada-pelo-sucesso-dos-meus-livros-anteriores-25182547"><span style="font-weight: 400;">Rooney está inserida</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; representam uma fase diferente da qual Connell e Marianne passaram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo antes de </span><a href="https://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo mundo</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;"> soa quase como um meio-termo entre as realidades. Aqui, as protagonistas Frances e Bobbi já deixaram para trás a inocência da adolescência, mas, nos primeiros anos da casa dos vinte, não se estabeleceram o suficiente para se sentirem parte do mundo adulto &#8211; isso, como todo jovem adulto. A autora, porém, não se preocupa em verbalizar os anseios das duas explicitamente &#8211; e, na verdade, não o fez em nenhum de seus livros. Já virou </span><a href="https://lithub.com/sally-rooney-is-the-only-novelist-on-times-list-of-most-influential-people-of-the-year/"><span style="font-weight: 400;">marca registrada</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Rooney deixar o leitor sentir por si mesmo, apresentando somente situações e diálogos tão reais e relacionáveis que não conseguimos fazer diferente de nos imaginarmos no lugar das personagens.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Bobbi disse que não achava que eu tinha uma ‘personalidade verdadeira’, mas declarou que não se tratava de um elogio. De modo geral, eu concordava com a avaliação. A qualquer instante sentia que poderia fazer ou dizer qualquer coisa, e só depois pensar: ah, então sou esse tipo de pessoa&#8221;.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Do outro lado da moeda de </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2022/may/22/sasha-lane-and-alison-oliver-on-conversations-with-friends-sally-rooney"><span style="font-weight: 400;">Frances e Bobbi</span></a><span style="font-weight: 400;">, estão Nick e Melissa. O casal é mais velho, cada um com seus 30 e poucos anos, tem um ciclo de amigos e uma casa invejável, são (aparentemente) bem resolvidos, e profissional e financeiramente estáveis. Tudo isso, coisas que as duas não são. Apesar dos mundos diferentes, a conexão das personalidades acaba sendo inevitável no decorrer dos encontros. Assim como Bobbi, Melissa é confiante, o tipo de pessoa que preenche os ambientes em que entra, e sua convicção e força são claras, até intimidadoras. Já </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YWV3GEtWvIw"><span style="font-weight: 400;">Nick</span></a><span style="font-weight: 400;"> se assemelha a Frances: ele, um ator bonito e relativamente famoso, apesar de mediano em sua carreira, serve como um marido troféu, e parece se curvar à presença imponente da esposa &#8211; da mesma forma que a protagonista se sentia em seu antigo relacionamento com a amiga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir do jantar da entrevista, o destino parece premeditado, mas nunca previsível. Bobbi, naturalmente, se conecta a Melissa e repele </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/5juZNPnXQe1DGrCHlrllPR?si=bb23a7b2582041bf"><span style="font-weight: 400;">Nick</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais escancarada e sem vergonha que seja, a queda da jovem não vai muito além disso e a relação permanece platônica. Afinal, como Bobbi sempre lembra, ela é casada. Já com Frances e Nick acontece o contrário e a conexão se constrói lentamente, com a culpa pela relação extraconjugal sempre como um empecilho entre os dois. Do ponto inicial de terem em comum somente situações em que ficam deslocados ao mesmo tempo &#8211; além, claro, das companheiras extrovertidas -, os dois passam de meros parceiros de desconforto para descobrirem um no outro uma ligação um tanto mais </span><a href="https://brasil.elpais.com/eps/2021-09-03/sally-rooney-aceitar-a-intimidade-e-aceitar-a-possibilidade-de-que-outra-pessoa-nos-magoe.html"><span style="font-weight: 400;">profunda e complicada</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27692" aria-describedby="caption-attachment-27692" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-27692" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-800x567.jpg" alt="Imagem de divulgação da série Conversas entre amigos. A foto foi tirada em uma praia e os protagonistas estão sentados em um rochedo à beira mar. Em cima do rochedo, ao centro, vemos uma mulher branca, loira, de cerca de 35 anos, vestindo um vestido branco, em pé. Ao lado dela, sentada na rocha, vemos uma mulher negra, usando uma bandana, regata, camisa e shorts de praia, aparentando cerca de 25 anos. Ao lado dela, no lado direito da foto, vemos uma mulher branca, de cabelos castanhos lisos, usando um vestido azul e branco, em pé, olhando para o lado. Ao seu lado, vemos um homem loiro, de cerca de 35 anos, usando camisa e shorts azul, sentado apoiado no rochedo." width="800" height="567" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-800x567.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1024x726.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-768x545.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1536x1089.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3-1200x851.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/sally-rooney-3.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27692" class="wp-caption-text">Assim como Pessoas normais, Conversas entre amigos ganhou uma minissérie de 12 episódios adaptada pela Hulu em parceria com a BBC (Foto: Hulu)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A verdade é que não parece haver muito ao que se apegar nessa nova relação. Quanto mais próximos Nick e Frances se tornam, mas indecifrável ele fica, e a incerteza move o relacionamento. Isso até para o leitor: com a narração da jovem protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos </span></i><span style="font-weight: 400;">se passa sob o olhar inseguro e acanhado dela. A forma com que vemos os personagens, inclusive, é sob sua visão. </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/2nM48XVy0Vf7TpLtfwLtlD?si=af029c2328504902"><span style="font-weight: 400;">Bobbi</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece a melhor pessoa do mundo à princípio, articulada, faladeira, engraçada, convicta em seus posicionamentos… até discordar das ações de Frances. Já </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Rfn1yngeXI0"><span style="font-weight: 400;">Melissa</span></a><span style="font-weight: 400;"> fica entre a megera que pisa no marido e a mulher decidida e bem-sucedida que a jovem sonha em ser. Nick, ora é indecifravelmente atraente, um mistério a ser decifrado, ora submisso e indeciso, misterioso só porque não sabe o que quer. De novo, em nenhum momento </span><a href="https://time.com/6094903/sally-rooney-millennial-novel/"><span style="font-weight: 400;">Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;"> julga seus protagonistas: eles são o que são, cada um com seus motivos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Avançando nas 264 páginas do livro, os sentimentos e emoções vêm espontaneamente, conforme os quatro personagens vivem, se relacionam e, bem, conversam. </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, como outras obras de Sally Rooney, usa do subtexto de um relacionamento &#8211; dessa vez, um fora da configuração tradicional &#8211; </span><a href="https://www.monitordooriente.com/20211025-sally-rooney-susan-sarandon-e-milhares-de-outras-estao-do-lado-certo-da-historia/"><span style="font-weight: 400;">para ir além</span></a><span style="font-weight: 400;">. Motivados pelas ações, percepções e desejos dos protagonistas, o livro discute as dinâmicas de poder dessas conexões, da monogamia à diferença de tratamento entre homens e mulheres em uma relaçãp heterossexual. Também (e, de novo, como em outras obras da irlandesa), os quatro refletem sobre novas possibilidades e dinâmicas de relacionamento, capitalismo, vida profissional, saúde mental, política e classes sociais.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Ele tinha mais respeito por Melissa do que por mim? Gostava mais dela? Se ambas fôssemos morrer em um edifício em chamas e ele só pudesse salvar uma de nós, será que era óbvio que salvaria Melissa e não eu? Era praticamente diabólico transar com alguém que mais tarde deixaria você morrer queimada&#8221;.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse </span><i><span style="font-weight: 400;">coming-of-age</span></i><span style="font-weight: 400;"> peculiar e envolvente, não há espaços para julgamentos, não há lado certo ou errado. Definitivamente, não há moral da história. Os finais de Rooney escancaram o caráter imprevisível das relações humanas, mas também o lado esperançoso. Na tradução de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=pqWEiiELzfo"><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Débora Landsberg, que trabalhou nos três romances publicados da autora, mantém a melancolia da escrita, assim como a forma direta, objetiva e fluida da irlandesa de escrever. Na estreia de seu estilo, Sally Rooney aprofunda ainda mais seus personagens ao não indicar quem verbaliza cada coisa: os diálogos não recebem pontuação precisa e, mesmo assim, sabemos quem diz o que ao final. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Completando 5 anos de idade em 2022, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i><span style="font-weight: 400;"> ganhou sua adaptação homônima para TV, que, assim como </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, teve o </span><a href="https://www.express.co.uk/showbiz/tv-radio/1612706/Sally-Rooney-Normal-People-Conversations-With-Friends"><span style="font-weight: 400;">dedo da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> na concepção. Há meia década, porém, a primeira aparição das duas jovens rebeldes e cheias de idealizações, desconstruindo as aparências do meio adulto ao passo que tentam descobrir seu próprio lugar no mundo, não era uma projeto de comentário social para Sally Rooney. Na verdade, para ela, a situação era mais sobre </span><i><span style="font-weight: 400;"> “</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iIGSMGdgCyQ"><i><span style="font-weight: 400;">observar a textura do mundo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> em que estava habitando”</span></i><span style="font-weight: 400;">, absorvendo-o. E na vida real, sobre a qual ela tanto escreve, realmente não há moral da história. O que há são pessoas como Frances e como Bobbi, como Melissa e como Nick, que navegam seus sentimentos, desejos e as consequências de suas ações. Com sua delicadeza, honestidade e olhar apurado, Rooney simplesmente os capta e coloca em palavras.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Conversations with Friends | Official Trailer | Hulu" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/3lvxQuOvf9s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Para Sally Rooney, o mundo é repleto de Pessoas normais</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Mar 2022 16:02:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Orbitando em mundos diferentes, os estudantes do Ensino Médio acabam se esbarrando quando ele busca a mãe, que trabalha como faxineira na casa da garota. As rápidas trocas de olhares acabam se transformando em pequenas conversas sobre os livros e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Para Sally Rooney, o mundo é repleto de Pessoas normais"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26359" aria-describedby="caption-attachment-26359" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26359" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/CAPAWORDPRESSPESSOASNORMAIS.jpg" alt="Arte com fundo roxo. No canto superior esquerdo, vemos o olho do Persona com a íris da mesma cor do fundo. Ao centro, vemos a capa do livro Pessoas normais, e uma borda laranja do lado direito da capa, formando uma sombra. No canto inferior direito vemos escrito Clube do Livro Persona" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/CAPAWORDPRESSPESSOASNORMAIS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/CAPAWORDPRESSPESSOASNORMAIS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/CAPAWORDPRESSPESSOASNORMAIS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26359" class="wp-caption-text">O Clube do Livro do Persona começou 2022 acompanhado por Pessoas normais, romance escrito por Sally Rooney e traduzido por Débora Landsberg (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Júlia Trevisan)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Orbitando em mundos diferentes, os estudantes do Ensino Médio acabam se esbarrando quando ele busca a mãe, que trabalha como faxineira na casa da garota. As rápidas trocas de olhares acabam se transformando em pequenas conversas sobre os livros e os gostos pessoais um do outro. O problema é que, em público, Connell invisibiliza Marianne, por vergonha, por culpa, por egoísmo. Mas está tudo bem, afinal, eles não passam de </span><a href="http://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">pessoas normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-26305"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora Sally Rooney nunca coloca em palavras a relativização dos comportamentos de seus protagonistas imaturos, mas a sucessão de ações e reações que compõem as mais de duzentas páginas do livro não suavizam o absurdo desses </span><a href="https://personaunesp.com.br/on-the-rocks-critica/"><span style="font-weight: 400;">encontros e desencontros</span></a><span style="font-weight: 400;">, perdidos em algum lugar na tradução de um sentimento para o seguinte. Muito além de uma crônica romântica que perpassa as ondas do tempo, o romance recusa-se a ajoelhar perante ao destino. Essa dupla opera às custas de suas próprias regras e mecanismos. </span></p>
<figure id="attachment_26306" aria-describedby="caption-attachment-26306" style="width: 1654px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26306 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL.jpg" alt="Arte com fundo verde e um desenho ao centro azul e branco. O desenho mostra duas pessoas deitadas se abraçando dentro de uma lata de sardinhas aberta, com a tampa para cima e o lacre também." width="1654" height="926" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL.jpg 1654w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL-800x448.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL-1024x573.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL-768x430.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL-1536x860.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-71jrp43TCcL-1200x672.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26306" class="wp-caption-text">“A maioria das pessoas viveriam suas vidas inteiras, Marianne pensou, sem nunca se sentirem tão próximas de alguém” (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Narrativamente falando, a escrita mantém essa máxima, viajando pelos dias, semanas e meses de uma relação distante pelo calendário mas próxima pelo contato corpóreo e sentimental. Quando descreve uma simples troca entre Connell e Marianne, Rooney imprime tanta vulnerabilidade quanto precisão, afinal, que tipo de pessoa nunca </span><a href="https://personaunesp.com.br/verao-de-85-critica/"><span style="font-weight: 400;">se apaixonou</span></a><span style="font-weight: 400;"> na adolescência? Ou mesmo teve seu coração partido à beira da vida adulta?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jogando a favor das </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/71rgUemV30POf7V7aAOBdQ?si=0fab5415ecfc47cf"><span style="font-weight: 400;">memórias de seu público alvo</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;"> prefere explorar as diferentes óticas de uma relação, pulando entre os pontos de vista de Connell e Marianne, e oferecendo a quem lê evidências o bastante para que não nasçam vilões ou mocinhas. A segurança de contar uma história “normal” pode ser o principal atrativo da obra, apenas o segundo romance escrito pela irlandesa.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Ele gargalhou de verdade. Marianne, ele disse, não sou religioso, mas às vezes acho que Deus fez você para mim”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Seu primeiro trabalho na Literatura nasceu alguns anos antes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Normal People</span></i><span style="font-weight: 400;">, na forma de </span><a href="https://rizzenhas.com/2018/01/resenha-conversas-entre-amigos-de-sally-rooney/"><i><span style="font-weight: 400;">Conversas entre amigos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Naquela história, conhecemos Frances e Bobbi, duas amigas que já tiveram um relacionamento no passado, mas, agora, na flor da juventude universitária, conhecem um casal mais velho e acabam atraídas, de maneiras diferentes, por cada um de seus componentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escrito em primeira pessoa, o livro aponta uma certa jovialidade e quentura das emoções da escritora, que se apoia na negação do prazer até, no momento derradeiro, abraçar a inevitabilidade do perigo. Em contraponto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;"> parece insistir ao máximo e, então, selar a porta do “talvez”. O que não é surpresa para os que acompanham a carreira de Sally Rooney, autora </span><a href="https://radiopeaobrasil.com.br/colunistas/em-busca-do-romance-marxista/"><span style="font-weight: 400;">declaradamente marxista</span></a><span style="font-weight: 400;">, que brilhou como presidente do clube de debates da faculdade Trinity e tem </span><a href="https://literaturainglesa.com.br/sally-rooney-fala-sobre-seus-livros-favoritos/"><span style="font-weight: 400;">inspirações fortes</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Literatura de James Joyce e J.D. Salinger.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, Sally Rooney escreveu </span><a href="https://personaunesp.com.br/belo-mundo-onde-voce-esta-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Belo mundo, onde você está</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, destaque do ano de 2021, inserido em um contexto um tanto mais amadurecido que o comum para a irlandesa, narrando a casualidade da vida de duas amigas. Entre encontros românticos falidos, beijos em sapos e trocas de longos </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;">, o leitor é fisgado, mais uma vez, pelo ordinário dos acontecimentos. Nada acontece, mas tudo acontece.</span></p>
<figure id="attachment_26307" aria-describedby="caption-attachment-26307" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26307 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865.jpg" alt="Foto da autora Sally Rooney, uma mulher adulta, branca e de cabelos castanhos na altura do queixo, segurando seu livro Pessoas normais. A edição é em inglês, conta com o título Normal People, e tem a capa verde com detalhes em branco e azul." width="1200" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/1631826642865-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26307" class="wp-caption-text">“Não sei o que há de errado comigo, diz Marianne. Não sei por que não consigo ser que nem as pessoas normais” (Foto: Sally Rooney)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Falhos e suscetíveis a erros, os protagonistas de Rooney desempenham papéis de culpa e redenção com primazia. De volta à normalidade das pessoas, quando o assunto é Connell, a autora dedica boa parte de sua escrita, fina e transparente, à estudar os sentimentos do atleta. Alguém autossuficiente até a vida adulta, quando percebeu o baque que as responsabilidades, a falta de dinheiro e a ausência do afeto de Marianne, poderiam causar a sua mente e alma, blindadas, se afogou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O respirador que traz Connell de volta ao mundo dos vivos é nada menos do que a rede de proteção que antes o havia colocado no topo do Céu. Marianne, além de ser a figura mais importante de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, é também um </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-janeiro-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">farol de expectativas</span></a><span style="font-weight: 400;"> para todos ao seu redor. Para a mãe ausente, Marianne representa uma falha em expansão. Para o irmão abusivo, ela é um saco de pancadas e um obstáculo a ser ultrapassado. Para os namorados estúpidos, ela não passa de um recipiente de emoções, de desejos, de êxtase. Mas, para Connell, Sally Rooney nunca nos revela seu significado. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Como era estranho se sentir tão completamente sob o controle de outra pessoa mas, ao mesmo tempo, como era normal”.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Existem suspeitas, é claro, mas o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OuFnpmGwg5k"><span style="font-weight: 400;">cordão invisível</span></a><span style="font-weight: 400;"> que os liga existe e apenas existe. Sem explicações, sem concessões, eles têm os corações fincados um no outro, o sangue se mistura, as lágrimas são as mesmas, o suor também. Seus olhos se encontram sem dificuldades, suas respirações se equiparam sem adversidades. Seus corpos se encaixam como se Deus os tivesse moldado dessa maneira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eles são pessoas normais pois amam, erram, falham, gritam, </span><a href="https://personaunesp.com.br/we-are-who-we-are-hbo-critica/"><span style="font-weight: 400;">se arrependem</span></a><span style="font-weight: 400;">. São indivíduos que chegaram ao mundo sem manual de instruções ou bússola mágica. É no tranco e na hora do vamos ver que aprendem o andar da carruagem e a altura que a água bate na bunda. Connell e Marianne se apaixonam pois essa era a única maneira de existirem em harmonia. Rooney, astuta como é, compreende que não existe algo mais relacionável.</span></p>
<figure id="attachment_26308" aria-describedby="caption-attachment-26308" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26308 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/644e6240-4e3e-4475-841b-dfb2391fb285.jpeg" alt="Montagem do livro Normal People do lado esquerdo e da série de TV do lado direito. No limite entre as duas imagens, vemos uma figura que simboliza papel rasgado." width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/644e6240-4e3e-4475-841b-dfb2391fb285.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/644e6240-4e3e-4475-841b-dfb2391fb285-800x533.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/644e6240-4e3e-4475-841b-dfb2391fb285-1024x683.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/644e6240-4e3e-4475-841b-dfb2391fb285-768x512.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26308" class="wp-caption-text">“Marianne já não é mais vista com admiração ou desdém. As pessoas se esqueceram dela. Agora é uma pessoa normal” (Foto: Hulu)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sincero, o romance claramente expõe sem mazelas o efeito dos ruídos e dos cortes enferrujados que Marianne e Connell empunham em batalhas frias, que dilaceram mais do que a carne. Quem lê, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0WDZdT04ls4"><span style="font-weight: 400;">sente por eles</span></a><span style="font-weight: 400;">. Quem lê, vive o que eles vivem na mesma comoção e entrega. Os olhos da autora irlandesa focam no bastante para que a experiência seja revitalizante, amedrontadora e, no fim das contas, irresistível. Ao concluir sua crônica, percorrendo a linha fina entre o tempo e o destino, Sally Rooney torna tentador o ato de ser vulnerável. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Ela fecha os olhos. É provável que ele não volte, ela pondera. Ou volte, mas diferente. O que têm agora eles nunca mais poderão ter. Mas para ela a dor da solidão não vai ser nada se comparada à dor que costumava sentir, de não valer nada. Ele lhe trouxe a bondade como uma dádiva, e agora isso é parte dela. Enquanto isso, a vida se abre à frente dele em outras direções ao mesmo tempo. Fizeram muito bem um ao outro. De verdade, ela pensa, de verdade. As pessoas podem mudar as outras de verdade”.</span></p></blockquote>
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		<title>A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2022 20:43:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra &#8220;As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender&#8220;, define muito bem Elena Ferrante no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca, A filha perdida traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26020" aria-describedby="caption-attachment-26020" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26020 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg" alt="Imagem retangular de fundo laranja. Ao centro, foi adicionada a capa do livro A Filha Perdida, um selo escrito Clube do Livro Persona no canto direito inferior e o logo do Persona no canto esquerdo superior. A capa é repleta de casas de telhado marrom avermelhado, no estilo mediterrâneo. É possível ver o céu e o mar azuis e uma torre verde. Está escrito, em letras brancas, &quot;A FILHA PERDIDA&quot; e &quot;ELENA FERRANTE&quot;. Na parte inferior central, há o selo da Intrínseca." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26020" class="wp-caption-text">Recentemente adaptado para o cinema, A filha perdida foi a escolha para o mês de dezembro de 2021 no Clube do Livro do Persona (Foto: Intrínseca/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, define muito bem </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por sua honestidade cortante, numa proposta de encarar com honestidade o que talvez seja um dos principais aspectos da experiência da mulher na sociedade &#8211; e também </span><a href="https://blogueirasfeministas.com/2011/05/08/feminismo-maternidade-e-a-briga-nossa-de-cada-dia/"><span style="font-weight: 400;">um dos assuntos mais intocáveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde o início dos tempos -: a maternidade.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span id="more-25952"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pretexto para uma análise do lugar mais comum da formação da sociedade também deveria ser simples e acessível, numa direção completamente inversa à que sua complexidade pode sugerir. Então, assim </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">La figlia oscura</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original) o faz: o livro nos coloca para acompanhar a história de </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/cronicas-de-mae/escolhas-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">uma mãe e suas filhas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que recai também sobre a sua história com sua própria mãe e sua experiência enquanto filha. O recorte e o objeto escolhidos surgem de um período de férias de Leda, uma professora universitária de meia idade, divorciada e mãe de Bianca e Marta, de 22 e 24 anos, que procura descanso no litoral sul da Itália, próxima da cidade onde nasceu e cresceu, depois que as filhas vão morar com o pai em outro país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Elena Ferrante não permite que o mergulho da personagem fique apenas nas águas pacificamente salgadas e agradavelmente ondulosas. O que deveria ser um momento de repouso para Leda se transforma num processo intenso de autorreflexão, desencadeado a partir do momento em que a personagem repara uma família também de férias pela região. Ela estabelece uma </span><a href="https://artrianon.com/2022/01/14/a-filha-perdida-livro-e-filme-um-honesto-relato-entre-os-tabus-da-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">identificação singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Nina, a jovem mãe de Elena, que sempre se mostra um tanto deslocada do resto daquele grupo de pessoas &#8211; exceto quando exercendo passionalmente a sua maternidade. </span></p>
<figure id="attachment_25955" aria-describedby="caption-attachment-25955" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25955" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg" alt="" width="1280" height="853" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25955" class="wp-caption-text">Nos cinemas, a história foi contada por Maggie Gyllenhaal, numa estreia impressionante da diretora e roteirista, que saiu premiada do <a href="https://www.instagram.com/p/CT5ssphNzJv/">Festival de Veneza 2021</a> (Foto: Yannis Drakoulidis/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao observar as cenas protagonizadas pela família napolitana e deixar-se afetar pela maresia enquanto sozinha e longe de casa, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba em memórias que remexem sentimentos profundos sobre sua família, infância, casamento e, principalmente, o início de sua vida como mãe. Impulsionada pela imersiva escrita em primeira pessoa, Elena Ferrante é dolorosamente sincera sob o pretexto de verbalizar as emoções de Leda, dedicando-se quase compulsivamente a um livro repleto de ‘canetadas’ sobre seu complexo tema central, que é marcado por </span><a href="https://leiturinha.com.br/blog/maternidade-real/"><span style="font-weight: 400;">vivências profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de quem o experiencia, mas também alvo de uma </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,a-filha-perdida-perturba-ao-tocar-na-sacralizacao-da-maternidade,70003941704"><span style="font-weight: 400;">sacralização</span></a><span style="font-weight: 400;"> histórica vinda de quem o observa de fora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por consequência &#8211; muito bem calculada, vale ressaltar -, a única coisa que não pode ser encontrada na protagonista é o estereótipo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">amor de mãe</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Leda está completamente à vontade conversando consigo mesma, e nada esconde de quem toma parte de suas emoções, mostrando-se uma personagem que, muito longe de ser agridoce, é acidamente amarga. Mas ao contrário do que todas as suas camadas podem sugerir, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é profundamente relacionável, como o resultado de um estudo preciso da mulher que é marcada pela inevitabilidade de pelo menos uma das duas vias trabalhadas pelo romance: a experiência de uma mulher </span><a href="https://www.imagempalavramovimento.com/single-post/2016/05/06/ser-m%C3%A3e-e-ser-filha"><span style="font-weight: 400;">como filha e como mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo o caminho de forte oposição aos polidos padrões patriarcais, a linguagem de Elena Ferrante não procura atender nada que não seja a verdade de quem vive além de todas as </span><a href="https://agorasoumae.com.br/estereotipo-de-mae-como-a-sociedade-limita-a-mulher-ao-de-mae/"><span style="font-weight: 400;">expectativas impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> de benevolência, controle e sabedoria. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> não nos deixa enganar: a sinceridade de sua protagonista pode parecer autodepreciativa, mas Leda é austera demais até para o nível mais complexo de autopiedade e distanciamento da realidade. Vide os momentos mais críticos de sua história, onde é comum encontrar uma reação viciada da personagem, que como forma de se defender dos julgamentos, tentar compreender seu próprio comportamento e/ou até mesmo como forma de expressar a confusão mental que surge após relembrar memórias tão emocionalmente atribuladas, desabafa fria e sinceramente um &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Não sei o que aconteceu&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Bianca uma vez gritou para mim, aos prantos: você sempre se acha superior. E Marta: por que você quis nos ter se não faz outra coisa além de se queixar de nós? Pedaços de palavras, sílabas apenas. <strong>Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?</strong></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas se a narrativa recusa completamente o principal aspecto dos padrões maternais, outro elemento fundamental da experiência é o que mais transborda das vivências de Leda &#8211; e incomoda o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela nutre uma consciência concreta de tudo, desde o que recebeu da mãe, seus traumas, até o que deixou para as filhas e os padecimentos das garotas. Para encerrar o panorama emocional do livro, Ferrante orienta tudo isso para desencadear o sentimento mais silencioso de suas páginas reflexivamente barulhentas. E quanto à </span><a href="https://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2019/08/importancia-de-outras-maes-para-uma-maternidade-com-menos-culpa.html"><span style="font-weight: 400;">emoção mais ingrata</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma mulher que exerce o papel de mãe, não há o que ser discutido além da própria expressão da personagem: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Era o sentimento de culpa: eu achava que todo sofrimento que atingisse as minhas filhas era fruto do já comprovado fracasso do meu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É assim que </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> compõe o retrato complexo do relacionamento mãe-e-filha, aprofundando uma análise sobre relações </span><a href="https://www.32rba.abant.org.br/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjMyNDciO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiZWQyMDQ3NDQ2MDQxZWIxZWE3OTJhODg0MmEwY2ZlYTciO30%3D"><span style="font-weight: 400;">intergeracionais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Uma menina rigidamente criada em padrões de gênero se transforma em uma mulher que cria duas garotas em uma nova época, ciente dos comportamentos maternos que lhe foram traumáticos, mas que, ao mesmo tempo, ainda carrega marcas teimosas de estereótipos sexistas e misóginos. Não por acaso, a personagem carrega como certeza a ideia de que o que mais ama em suas filhas é o que é estranho à sua própria personalidade. Assim, Leda é indiscutivelmente uma filha machucada e uma mãe que machuca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre comparações, intromissões e julgamentos que orientam sua interação com Marta e Bianca, Leda constrói sua autopercepção através da visão que as filhas têm dela &#8211; ou mais precisamente, a que acredita que elas têm. Entre ser aterrorizada pela possibilidade de infelicidade das garotas e manifestar comportamentos destrutivos para aspectos importantes da vida das duas, </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/11/por-que-tantas-mulheres-repetem-na-relacao-atitudes-que-criticavam-nas-maes.htm"><span style="font-weight: 400;">a relação paradoxal entre as mães e as filhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais longe de ser um ideal. E enquanto isso, a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais próxima da realidade.</span></p>
<blockquote><p>“Nas conversas com as minhas filhas, ouço palavras ou expressões omitidas. Às vezes, elas ficam com raiva e dizem “mamãe, eu nunca falei isso, é você que está dizendo, você inventou isso”. Mas eu não invento nada, só escuto, <strong>o não dito fala mais que o não dito</strong>.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento algum, porém, a escrita de Elena Ferrante coloca a sua protagonista em vestes vilanescas. É para aprofundar ainda mais </span><a href="https://glamour.globo.com/lifestyle/noticia/2022/01/a-filha-perdida-lembra-que-maes-sao-antes-de-tudo-mulheres.ghtml"><span style="font-weight: 400;">a humanidade da personagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, aliás, que existe o gatilho da história, quando a imagem de Nina atrai o olhar de Leda. Ela já tem um histórico de encantamento por mulheres jovens manifestando felicidade e liberdade, como os devaneios do livro e algumas figurantes introduzem muito bem, mas encontrar alguém em seus </span><a href="https://www.revide.com.br/noticias/cidades/dia-das-maes-sobre-ser-mae-e-ser-jovem/"><span style="font-weight: 400;">vinte e poucos anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> (aparentemente) contente com a própria maternidade é demais para aquele psicológico, que foi pego de surpresa por um ser crescendo dentro de si quando tinha 23 anos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É que a autora de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i> <a href="https://valkirias.com.br/personagens-limitrofes-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">respeita demais suas personagens</span></a><span style="font-weight: 400;"> e nem mesmo a jovem-segunda-protagonista está ali apenas como um alvo de projeção. Não há como fugir da perspectiva das mães da história, afinal. Então, Nina também tem espaço para revelar suas questões à medida em que se aproxima de Leda. Oscilando radicalmente entre ilustrar uma mãe ideal e exemplificar a </span><a href="https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/maternidade-compuls%C3%B3ria-defini%C3%A7%C3%A3o-e-problematiza%C3%A7%C3%B5es#:~:text=De%20modo%20mais%20simples%2C%20conforme,represente%20de%20fato%20uma%20escolha.&amp;text=A%20socializa%C3%A7%C3%A3o%20feminina%20%C3%A9%20fortemente%20marcada%20pelo%20maternalismo."><span style="font-weight: 400;">maternidade compulsória</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que apreende as meninas desde o momento em que elas passam a existir neste mundo -, a relação das duas segue complexa. Assim, Ferrante traz fôlego narrativo ao livro, mais como história e menos como análise social, ao mesmo tempo em que funde as duas perspectivas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/lorena-portela/a-filha-perdida-nao-funcionaria-com-um-pai-no-papel-principal-e-isso-e-um-problema-1.3180803"><i><span style="font-weight: 400;">E cadê o pai dessas crianças?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, alguém que lê um texto sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode se perguntar. Aqui está mais um estalo genial de Elena Ferrante: a completa desnecessidade de mencionarmos o homem que concebeu as garotas junto de Leda diz muito sobre o tipo de história encontrada em </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sem precisar da representação de uma figura de paternidade totalmente ausente, o livro mostra que pouco importa sua ação dentro da narrativa. E num retrato fiel de quem absorve a ideia social de que é a principal responsável pelos filhos numa série de cuidados tidos como impossíveis de serem divididos, a amargura de Leda não o tem entre seus principais alvos.</span></p>
<blockquote><p>“Assim, aos vinte e poucos anos, qualquer outra brincadeira havia acabado para mim. O pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra. Não tinha nem tempo de reparar o que fora copiado do seu corpo, como havia resultado a reprodução. Mal olhava as duas meninas, mas dizia com ternura verdadeira: são iguaizinhas a você. Gianni é um homem gentil, nossas filhas gostam dele. <strong>Ele cuidou pouco ou nada delas, mas, quando foi necessário, fez tudo o que podia, agora também faz tudo o que pode.</strong>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Para uma história totalmente fundamentada na densidade emocional de idas e vindas de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se organiza num ritmo regular. Trazendo ordem ao caos, os capítulos de Elena Ferrante parecem seguir um padrão muito bem disfarçado, sempre desenrolando um momento presente que logo desencadeará uma reflexão íntima na personagem que narra a história. Entretanto, </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,escrever-e-como-girar-a-faca-na-ferida-revela-elena-ferrante,70003417132"><span style="font-weight: 400;">a maestria da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> não permite conclusões precipitadas: em momento algum, essa construção se transforma num defeito do romance, já que a progressão de sua trama é tão imprevisível quanto o caminho da mente desenfreada de Leda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto às polêmicas sobre a identidade por trás de um dos nomes de maior sucesso da Literatura contemporânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreita as possibilidades. A facilidade com que a autora arquiteta as digressões de Leda só pode surgir de um </span><a href="https://valkirias.com.br/as-mulheres-de-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">lugar radical de identificação e análise</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é fato que a universalidade do tema faz com que a tradução do livro não seja um ponto de complicação para </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/elena-ferrante-marcello-lino/"><span style="font-weight: 400;">Marcello Lino</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é de se questionar porque a edição brasileira não apostou numa transcrição que tivesse mais proximidade com as experiências que Elena Ferrante decidiu retratar. A impressão é de que a pessoa por trás do pseudônimo tem completa ciência de que isso poderia acontecer com as suas traduções pelo mundo, porque a objetividade de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> ancora suas leituras mais profundas em representações concretas &#8211; a boneca, a pinha, o ventre, a agulha e quem sabe até a personagem que compartilha o mesmo nome da autora.</span></p>
<blockquote><p>“As línguas, para mim, têm um veneno secreto que de vez em quando aflora e para o qual não há antídoto.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso ressaltar, no entanto, que a obra não se sufoca numa narrativa monotemática, mas ainda provoca reflexões sobre o próprio processo de formação de uma família, a cultura italiana e até observações linguísticas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> em nada é o que parece. Muito mais do que ancorar um suspense ou melodrama, o romance, de forma quase metalinguística ao trabalho de sua autora, está em algo além: </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/28/estilo/1551353871_772692.html"><span style="font-weight: 400;">o maior trabalho que se pode ter na vida</span></a><span style="font-weight: 400;"> enquanto em uma das posições mais difíceis que se pode estar dentro da sociedade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para suceder o aclamado </span><a href="https://www.instagram.com/p/COv4EEtHyKu/?utm_medium=copy_link"><i><span style="font-weight: 400;">Dias de Abandono</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), visto por boa parte da crítica literária como o seu melhor romance, Elena Ferrante voltou o seu olhar para a complexidade deste processo, envolto em estereótipos de gênero, padrões históricos de comportamento, expectativas enormes de coisas que são muito maiores do que nós. Em seus caminhos para tal, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> conclui uma observação: </span><a href="https://lunetas.com.br/a-filha-perdida/"><span style="font-weight: 400;">todas nós</span></a><span style="font-weight: 400;"> somos a filha perdida em algum aspecto. Menos a criação de Elena Ferrante, que é plenamente consciente de tudo isso, sabe onde está, e certamente saberá onde te encontrar.</span></p>
<p><a href="https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6">https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6</a></p>
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		<title>O terror vem da terra em Gótico Mexicano</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2022 19:15:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos O mundo natural pode ser palco de horrores muito mais tangíveis do que qualquer assombração maligna que os Warren seriam capazes de oferecer. Apesar da natureza não poder ser medida com nossas próprias réguas morais, é impossível não reparar na peculiaridade e na diversidade das interações entre animais, plantas, fungos e outros organismos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/gotico-mexicano-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O terror vem da terra em Gótico Mexicano"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_25723" aria-describedby="caption-attachment-25723" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25723 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Gótico-Mexicano-destacada.png" alt="Recorte da capa de Gótico Mexicano. Vemos uma mulher com a pele escura bronzeada do busto até a região do nariz. Seu cabelo é curto e preto e ela usa um vestido vinho com os ombros de fora. O fundo é verde com estampas florais em tom mais escuro." width="1080" height="540" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Gótico-Mexicano-destacada.png 1080w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Gótico-Mexicano-destacada-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Gótico-Mexicano-destacada-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Gótico-Mexicano-destacada-768x384.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25723" class="wp-caption-text">Gótico Mexicano é o primeiro livro de Silvia Moreno-Garcia a ser traduzido no Brasil (Foto: DarkSide Books)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O mundo natural pode ser palco de horrores muito mais tangíveis do que qualquer assombração maligna que os </span><a href="https://personaunesp.com.br/invocacao-do-mal-3-critica/"><span style="font-weight: 400;">Warren</span></a><span style="font-weight: 400;"> seriam capazes de oferecer. Apesar da natureza não poder ser medida com nossas próprias réguas morais, é impossível não reparar na peculiaridade e na diversidade das interações entre animais, plantas, fungos e outros organismos vivos que habitam os confins do planeta Terra – fêmeas devoram machos, vespas </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/estudo-revela-acao-de-vespas-parasitoides-em-lagartas-de-borboleta-bg2266ap71n701rk9whh9hbv2/"><span style="font-weight: 400;">depositam seus ovos</span></a><span style="font-weight: 400;"> dentro do corpo de um amigo inseto desavisado, baratas são comidas vivas por </span><a href="https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2020/01/15/conheca-o-inseto-que-transforma-baratas-em-zumbis.ghtml"><span style="font-weight: 400;">vespas-esmeralda</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é partir dessa loucura ecológica que Silvia Moreno-Garcia revira a terra para dar vida ao seu </span><a href="https://darkside.blog.br/lancamento-gotico-mexicano-por-silvia-moreno-garcia/"><i><span style="font-weight: 400;">Gótico Mexicano</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, lançado pela </span><a href="https://www.darksidebooks.com.br/"><i><span style="font-weight: 400;">DarkSide Books</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2021.</span></p>
<p><span id="more-25719"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Revisitando a melancolia da </span><a href="https://homoliteratus.com/a-historia-da-literatura-gotica-obras-e-escritores/"><span style="font-weight: 400;">Literatura gótica</span></a><span style="font-weight: 400;"> originalmente inglesa, Moreno-Garcia constrói uma atmosfera densa e enevoada pelos mistérios que cercam Noemí Taboada, </span><i><span style="font-weight: 400;">socialite </span></i><span style="font-weight: 400;">da Cidade do México na década de 1950 que precisa deixar sua vida de festas e namoros de lado para ir atrás da prima Catalina que, após se casar e se mudar para o interior, envia uma carta desesperada para a família. Sem fazer ideia do que a espera, Noemí viaja até a pequena cidade de El Triunfo para buscar respostas de Virgil Doyle, o homem que levou Catalina para longe de casa com um anel de casamento no dedo.</span></p>
<figure id="attachment_25721" aria-describedby="caption-attachment-25721" style="width: 1077px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25721 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/silvia-moreno-garcia.jpg" alt="Foto horizontal de Silvia Moreno-Garcia. A autora tem a pele clara, cabelos compridos e escuros e usa óculos. Ela está no canto esquerdo da foto, sentada em um parque e olhando de lado para a câmera, sorrindo. Silvia usa uma blusa de cetim preta com mangas compridas e saia preta com desenhos coloridos." width="1077" height="646" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/silvia-moreno-garcia.jpg 1077w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/silvia-moreno-garcia-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/silvia-moreno-garcia-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/silvia-moreno-garcia-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25721" class="wp-caption-text">A autora está na porta de lançar seu oitavo livro, chamado The Daughter of Doctor Moreau, e exige que o elenco da adaptação de sua obra seja composto por atores e atrizes latinoamericanos (Foto: DarkSide Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Vinda de um centro cultural movimentado, a protagonista sente nos ossos a mudança de ares – El Triunfo é uma cidadezinha decadente que estampa apenas os resquícios de um passado glorioso, quando a mina da região jorrava prata e os britânicos se estapeavam pela mão de obra local. No entanto, no alto do morro vizinho àquele conjunto de casas mortas-vivas, os Doyle se escondem na própria história e dentro de High Place, a </span><a href="https://darkside.blog.br/mansoes-mal-assombradas/"><span style="font-weight: 400;">mansão vitoriana</span></a><span style="font-weight: 400;"> que abriga os quatro membros da família, três criados importados da Inglaterra e a jovem enferma Catalina, com seus olhos vazios e seu espírito assombrado.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“A casa pairava sobre eles como uma gárgula enorme e silenciosa. Se não estivesse tão desgastado, o lugar teria parecido agourento, evocando imagens de fantasmas e casas assombradas, com sarrafos faltando das venezianas, o ébano do alpendre rangendo à medida que eles subiam a escada até a porta, que exibia uma aldrava prateada no formato de um punho que pendia de um círculo.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Se não fosse pelo carisma infinito e o humor irreverente da protagonista, </span><a href="https://www.omelete.com.br/terror/gotico-mexicano-veredito-omeletv"><i><span style="font-weight: 400;">Gótico Mexicano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> seria engolido por uma tensão sufocante do início ao fim, mas é a </span><i><span style="font-weight: 400;">socialite</span></i><span style="font-weight: 400;"> quem encaminha a narrativa a um balanceamento ideal entre o sombrio e o cômico. Acostumada a ter tudo o que quer, Noemí se depara com uma família inglesa fria, eugenista, excepcionalmente pálida e para lá de suspeita quanto ao tratamento de Catalina. Escuras e sem vida, as paredes de High Place esmagam a visitante indesejada como que tentando descobrir se ela é uma ameaça. Diante desse cenário, não é preciso muito para que a desconfiança invada o coração da jovem.</span></p>
<figure id="attachment_25725" aria-describedby="caption-attachment-25725" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25725 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/gotico-mexicano.jpg" alt="Divulgação da capa de Gótico Mexicano. O livro está no centro da imagem. Sua capa estampa uma mulher de pele escura, com vestido vinho e flores amarelas nas mãos. O fundo da imagem é preto e cogumelos amarelos crescem na base." width="1000" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/gotico-mexicano.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/gotico-mexicano-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/gotico-mexicano-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25725" class="wp-caption-text">A história se baseia na cidade de Real del Monte, no centro do México, também explorada por britânicos (Foto: DarkSide Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Como um bom romance gótico, </span><a href="https://darkside.blog.br/mulheres-inspiradoras-folclore-mexicano-marcam-obra-silvia-moreno-garcia/"><span style="font-weight: 400;">o livro de Silvia Moreno-Garcia</span></a><span style="font-weight: 400;"> abusa das assombrações e dos cemitérios cheios de nevoeiros enquanto dispensa resoluções previsíveis aos seus mistérios. No entanto, o que refresca a narrativa da mexicana é a </span><a href="https://www.fangoria.com/original/silvia-moreno-garcia-on-mexican-gothic/"><span style="font-weight: 400;">releitura decolonial</span></a><span style="font-weight: 400;"> do gênero e a escrita obstinada em enfrentar a opressão colonizadora que pairou sobre a América Latina ao longo da História. El Triunfo e seus moradores nunca esqueceram de seus mineiros desprezados, inferiorizados e despejados em valas coletivas – seja por mãos espanholas ou inglesas. O acerto de contas pode se materializar na presença de Noemí, mas é </span><a href="https://abibliotecanoturna.com/2021/03/08/o-feminino-assombrado-10-autoras-e-suas-obras-arrepiantes/"><span style="font-weight: 400;">a caneta</span></a><span style="font-weight: 400;"> por trás da personagem que dá o verdadeiro passo dentro dessa longa batalha cultural.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é por isso que, durante </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/gotico-mexicano-atualiza-o-genero-de-frankenstein-com-incesto-xenofobia-e-canibais.shtml"><span style="font-weight: 400;">as 288 páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Gótico Mexicano</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a sensação de perigo iminente se intensifica quando algum Doyle está por perto. Com ideias racistas e um sorriso predatório, é Howard, o ancião da família e pai de Virgil, quem mais desperta o incômodo e a náusea de Noemí. Apesar de pouco aparecer em cena, sua figura parasita persegue a protagonista em seus sonhos, tão palpável quanto a casa que o patriarca trouxe diretamente de sua terra natal, e é ao redor da sua carcaça podre e decrépita que o </span><i><span style="font-weight: 400;">plot</span></i><span style="font-weight: 400;"> fúngico do livro dá as caras.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Uma mulher que não é querida é considerada uma megera, e uma megera não pode fazer quase nada, pois todas as portas estão fechadas para ela.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Por integrar a alta elite mexicana, </span><a href="https://www.momentumsaga.com/2021/03/resenha-gotico-mexicano-de-silvia-moreno-garcia.html"><span style="font-weight: 400;">Noemí ainda foca em manter a pose</span></a><span style="font-weight: 400;"> diante dos confrontos em que se insere. Suas visitas obstinadas até El Triunfo em busca dos rumores que cercam High Place são recebidas com reprimendas violentas e insultos misóginos por parte da governanta Florence, assim como sua insistência em fornecer a Catalina tratamento psiquiátrico adequado desperta a fúria do marido da prima. Apesar de um ótimo personagem, Virgil se segura pelas beiradas para manter com firmeza o título de vilão – título esse que seu pai carrega sem muito esforço. A relação ora cordial ora arisca entre Noemí e o severo Doyle se torna cansativa às vistas, sempre entregando os mesmos conflitos e incorporando os argumentos anteriormente utilizados.</span></p>
<figure id="attachment_25720" aria-describedby="caption-attachment-25720" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25720 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-1024x764.jpeg" alt="Poster de Gótico Mexicano. Vemos o desenho de uma mulher no canto direito, com uma lamparina na mão. Ao fundo, vemos uma grande mansão no topo de uma colina, tudo banhado em luz azul. O céu é vermelho e as palavras MEXICAN GOTHIC está em amarelo." width="840" height="627" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-1024x764.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-800x597.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-768x573.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-1536x1147.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2-1200x896.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/01/mg2.jpeg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25720" class="wp-caption-text">A arte que entrou em uma das edições de Gótico Mexicano no exterior recria pôsteres de giallos dos anos 70 e capas antigas de livros góticos (Foto: Mia Araujo/<a href="https://twitter.com/mllemiaaraujo">@mllemiaaraujo</a>)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de um romance mal engatado e de um ou outro personagem sem final, </span><i><span style="font-weight: 400;">Gótico Mexicano </span></i><span style="font-weight: 400;">consegue manter uma estabilidade temática que surpreende e encanta os apaixonados pelo gênero. Noemí, que ganhou o sobrenome em homenagem a </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/carlos-enrique-taboada"><span style="font-weight: 400;">Carlos Enrique Taboada</span></a><span style="font-weight: 400;">, cineasta mexicano de Terror dos anos 70, é uma protagonista a altura da história em que está inserida, dialogando com a autonomia das </span><a href="https://personaunesp.com.br/shirley-critica/"><span style="font-weight: 400;">presenças femininas</span></a><span style="font-weight: 400;"> na </span><a href="https://fahrenheitmagazine.com/pt/arte/letras/shirley-jackson-a-senhora-da-literatura-de-terror"><span style="font-weight: 400;">Literatura de Shirley Jackson</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ciente da sua própria força e com confiança de sobra em sua inteligência, nem mesmo a visão de High Place no melhor estilo </span><a href="https://www.jornadageek.com.br/novidades/a-queda-da-casa-de-usher-minisserie/"><i><span style="font-weight: 400;">A Queda da Casa de Usher</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> a levou de volta para casa. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“A criação de uma vida após a morte fornecida a partir da medula, dos ossos e dos neurônios de uma mulher feita de caules e esporos.” </span></p></blockquote>
<p><a href="https://silviamoreno-garcia.com/"><span style="font-weight: 400;">Silva Moreno-Garcia</span></a><span style="font-weight: 400;"> cria um universo coerente e representativo, salpicando elementos da </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-noite-do-fogo-critica/"><span style="font-weight: 400;">cultura mexicana</span></a><span style="font-weight: 400;"> de forma que os acostumados com a visão estereotipada do país amarelado e árido dos filmes estadunidenses se espantem com a chuva fina, a neblina e os montes de lama que castigam os pobres saltos-agulha de Noemí Taboada. Graças a tradução de Marcia Heloisa e Nilsen Silva, os termos utilizados para descrever o vestuário, a culinária e até as figuras latinoamericanas citadas pela mente antropóloga da protagonista são devidamente esclarecidos pelas notas de rodapé para os que não são familiarizados com a vastidão de espaços presentes no México.</span></p>
<p><a href="https://darkside.blog.br/mexican-gothic-silvia-moreno-garcia-comenta-sobre-adaptacao-do-livro/"><span style="font-weight: 400;">Com série confirmada</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-handmaids-tale-4a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Hulu</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e produção-executiva da própria autora, </span><a href="https://valkirias.com.br/gotico-mexicano/"><i><span style="font-weight: 400;">Mexican Gothic</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> mistura discussões raciais e coloniais com uma narrativa repleta de incesto, canibalismo e cogumelos – tudo isso sob uma escrita tenaz e uma gama de descrições assustadoramente deliciosas. Renovando e subvertendo os clichês dos romances góticos, o sexto livro de Moreno-Garcia é uma criação astuta e determinada sobre o que os vários passados têm a contar a respeito da grande, colorida e pulsante cicatriz que é a América Latina. E que fique claro: seja utilizando caravanas, intervenções militares ou bloqueios econômicos, os intrusos são, e sempre foram, eles.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Mexican Gothic by Silvia Moreno-Garcia" width="100%" height="380" style="[object Object]" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/233O4CcNUXQIJjqcHlsHqj?go=1&#038;sp_cid=e7e2949fd55bd18274b3b13c9de671cf&#038;utm_source=oembed&#038;utm_medium=desktop&#038;nd=1"></iframe></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/gotico-mexicano-critica/">O terror vem da terra em Gótico Mexicano</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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