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	<title>Arquivos Drive My Car &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Drive My Car &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>O Mal Não Existe coloca a natureza como uma presença que pode ser destrutiva para aqueles que a profanam</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Sep 2024 19:59:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: o texto contém spoilers. Guilherme Moraes Depois de lançar duas obras-primas, Roda do Destino (2021) e Drive My Car (2021), Ryusuke Hamaguchi retorna com O Mal Não Existe, ou melhor, Aku Wa Sonzai Shina, no original. O filme conta a história de um vilarejo que vive em harmonia com a natureza até a chegada &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-mal-nao-existe-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Mal Não Existe coloca a natureza como uma presença que pode ser destrutiva para aqueles que a profanam"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b><i>Aviso</i></b><i><span style="font-weight: 400;">: o texto contém spoilers.</span></i></p>
<figure id="attachment_34043" aria-describedby="caption-attachment-34043" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-34043" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-1-800x444.jpg" alt="Texto alternativo: Ao fundo há um rio congelado. No centro da foto há uma parte descongelada desse rio que reflete a imagem de algumas árvores. Mais próximo da câmera está o personagem Takumi, agachado, de costas para a câmera e olhando o rio." width="800" height="444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-1-800x444.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-1-1024x568.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-1-768x426.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34043" class="wp-caption-text">Em 2022, Ryusuke Hamaguchi levou o Oscar de Melhor Filme Internacional por Drive My Car (Foto: NEOPA)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Moraes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de lançar duas obras-primas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2OaAJ-OvLkM"><i><span style="font-weight: 400;">Roda do Destino</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021)</span> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JKcJAOzja8I"><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2021), Ryusuke Hamaguchi retorna com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mal Não Existe</span></i><span style="font-weight: 400;">, ou melhor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aku Wa Sonzai Shina</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">no original. O filme conta a história de um vilarejo que vive em harmonia com a natureza até a chegada de uma empresa, que pretende fazer um </span><i><span style="font-weight: 400;">camping</span></i><span style="font-weight: 400;"> em meio a floresta, o que ocasionaria em alguns problemas ambientais e afetaria a vida de todas as pessoas locais.</span></p>
<p><span id="more-34042"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra começa ao melhor estilo </span><a href="https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-741668/"><span style="font-weight: 400;">Hamaguchi</span></a><span style="font-weight: 400;">, com um plano alongado e contemplativo, observando a beleza da natureza e imergindo o espectador com apenas uma cena; ao adentrarmos, não poderemos sair mais até o final da fita e, quando sairmos, não seremos os mesmos. Na cena seguinte, o diretor mantém essa mesma ‘pegada’ mas, agora, coloca o protagonista fazendo atividades simples, como cortar madeira e pegar água no rio, porém, o alongamento dos planos traz uma valorização desses atos, como se ali houvesse equilíbrio entre o homem e a natureza, e ele a respeitasse, pegando apenas o que lhe é oferecido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, essa harmonia é quebrada com a chegada do projeto de </span><a href="https://jalapao.com/voce-sabe-o-que-e-glamping-entenda-aqui/"><i><span style="font-weight: 400;">glamping</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que não visa proteger o meio ambiente e, ainda por cima, irá prejudicar os habitantes do vilarejo. Nesse momento, o filme começa a mostrar suas críticas ao </span><a href="https://revistaogrito.com/o-mal-nao-existe-critica/"><span style="font-weight: 400;">capitalismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> – expondo como há um descaso com as vidas humanas e o meio natural – por meio da justificativa do lucro, porém, os locais não estão realmente interessados em ganhar mais, pois já vivem de maneira estável. Em uma conversa banal, Takumi diz que os cervos não oferecem perigo ao humano, a não ser que ele tenha sido baleado, e é interessante assistir como o meio reage quando o homem tenta tirar à força aquilo que não lhe é dado.</span></p>
<figure id="attachment_34044" aria-describedby="caption-attachment-34044" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34044" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-800x404.jpg" alt="À esquerda Mayuzumi está sentada com uma blusa clara e um prato com comida e um copo na sua frente. A direita Takahashi está com uma blusa azul escura e com um prato de comida e um copo na sua frente. Ambos estão de frente para a câmera." width="800" height="404" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-800x404.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-1024x517.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-768x388.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-1536x776.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2-1200x606.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-2.jpg 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34044" class="wp-caption-text">Ryuji Kosaka faz a sua estreia como ator nos cinemas com o longa (Foto: NEOPA)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;">, Ryusuke Hamaguchi utilizou a natureza para potencializar a dramaticidade da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=o5Xq4dyjKDs"><span style="font-weight: 400;">catarse final</span></a><span style="font-weight: 400;"> – a neve que traz o vazio e o frio –, aqui, ele faz diferente, tornando o meio ambiente em uma presença que pode ser sentida a todo momento, trazendo consigo uma sensação de hostilidade. A maneira </span><a href="https://www.tiktok.com/@profphilippeleao/video/7143734380047944966"><span style="font-weight: 400;">voyeurística</span></a><span style="font-weight: 400;"> de como a câmera se posiciona, reforça a impressão de impotência perante o que está ocorrendo, seja a debilidade em evitar a chegada da empresa no local ou em se defender da natureza; é como se o filme nos mostrasse que somos pequenos perto dessas forças e que servimos apenas aos seus interesses.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Aku Wa Sonzai Shina</span></i><span style="font-weight: 400;"> enfatiza como Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (</span><a href="https://www.instagram.com/ayaka.shibutani/"><span style="font-weight: 400;">Ayaka Shibutani</span></a><span style="font-weight: 400;">), os representantes da empresa, têm ideias próprias que, ao entrar em contato com os moradores do vilarejo, passam a contradizer com os interesses da instituição. No entanto, mesmo com opiniões discordantes, eles ainda precisam daquele emprego para sobreviver nesse mundo, portanto, permanecem no trabalho e, dessa vez, tentando fazer uma intermediação de maneira que respeite os interesses dos locais, mas isso não é o suficiente e, no final da obra, eles pagam o preço pela empresa.</span></p>
<figure id="attachment_34045" aria-describedby="caption-attachment-34045" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34045" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-3-800x450.webp" alt="Ao fundo uma floresta que está desfocada. Ao centro, Hana está de lado para a câmera, olhando para cima, com seu gorro azul na cabeça e a câmera pegando apenas a parte superior do seu corpo." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-3-800x450.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-3-768x432.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/09/O-mal-nao-existe-3.webp 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34045" class="wp-caption-text">“A maldade existe em quase todos os momentos sociais da vida humana” (Foto: NEOPA)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A cena final bizarra com Takumi (</span><a href="https://www.instagram.com/omika.h/"><span style="font-weight: 400;">Hitoshi Omika</span></a><span style="font-weight: 400;">) matando Takahashi é de uma construção ímpar, de alguém que realmente sabe o que está fazendo. O ‘faz-tudo’ da cidade olha para o cervo baleado que o olha de volta; o animal representa a natureza e a bala a destruição. O cervo pune ele, atacando sua filha Hana (Ryô Nishikawa), por permitir que o homem urbano se aproximasse demais e não afastasse as empresas daquele lugar. Por fim, ele mata Takahashi, como forma de proteção ao meio, se tornando uma extensão da própria natureza, personificando-a.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os últimos minutos ainda deixam uma dúvida quanto a sobrevivência de Hana, que é levada para fora da floresta no colo do seu pai, com os olhos fechados e ferida. Será que ela realmente morreu como punição? Ou será que aquilo foi apenas um lembrete para que Takumi fizesse o que precisava ser feito? Hamaguchi deixa essas questões para nós mesmos interpretarmos. Nos primeiros planos, o diretor filma olhando de baixo para cima a floresta esbranquiçada de neve, clara e bela. Em paralelo a esse começo, o final fecha com esse mesmo plano, só que a partir da perspectiva de Takahashi, agora, o ambiente é escuro e ameaçador, com os galhos se fechando como se fossem uma teia, tornando o ambiente claustrofóbico, muito parecido com a </span><a href="https://www.terra.com.br/diversao/entre-telas/a-bruxa-de-blair-25-anos-depois-um-marco-de-terror-e-polemica,fd533f4c62a7b46bd461dd2d0888adadm8wzcjqr.html"><i><span style="font-weight: 400;">Bruxa de Blair</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de 1999.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O mal não existe</span></i><span style="font-weight: 400;">, Ryusuke Hamaguchi traça a relação do humano com o </span><a href="https://conectageek.com.br/critica-o-mal-nao-existe-ha-algo-desagradavel-nas-florestas-do-japao/"><span style="font-weight: 400;">mundo natural</span></a><span style="font-weight: 400;">; apesar do final violento, o próprio diretor disse para o </span><a href="https://www.dn.pt/3520596667/ryusuke-hamaguchi-a-maldade-existe-em-quase-todos-os-momentos-sociais-da-vida-humana/"><i><span style="font-weight: 400;">Diário de Notícias</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">que o nome </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mal Não Existe </span></i><span style="font-weight: 400;">se dá por causa da natureza, pois ele não vê maldade nela. O que se pode entender de tudo isso é que, apesar do encerramento trágico, o meio estava apenas se protegendo, assim como os desastres naturais são apenas consequências da destruição humana. É através dessas figuras e representações que o japonês mostra desprezo ao sistema capitalista e faz uma ode à natureza que é harmoniosa, bela e, se precisar, violenta.</span></p>
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		<title>Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2022 19:03:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.” O mundo ficcional de Haruki Murakami se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/homens-sem-mulheres-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Homens sem mulheres e o universo melancólico de Haruki Murakami"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27538" aria-describedby="caption-attachment-27538" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27538 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27538" class="wp-caption-text">Com uma de suas narrativas adaptadas para o Cinema, Homens sem mulheres foi a leitura do mês de Março de 2022 no Clube do Livro do Persona (Foto: Alfaguara/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Como um dos homens sem mulheres, eu rezo do fundo do coração. Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar. Por enquanto. Possivelmente.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O mundo ficcional de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-marco-de-2022/"><span style="font-weight: 400;">Haruki Murakami</span></a><span style="font-weight: 400;"> se parece com o nosso, revestindo-se de uma aura melancólica e acinzentada, na qual habitam indivíduos sem rumo, quase vazios, e à deriva. Somos lembrados que estamos diante de uma obra ficcional quando encontramos vestígios desse mundo onírico em um lugar distante, semelhante a uma memória ainda não vivenciada. Em sete narrativas interligadas por perdas de vários os tipos – sentimentais, físicas, futuras e passadas –, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000054"><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">dá voz a um universo que não parece mais existir: um mundo distante, dominado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, sonhos perdidos e rostos caídos. </span></p>
<p><span id="more-27512"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido no Japão em 12 de janeiro de 1949, Haruki Murakami consolidou-se uma das vozes narrativas mais conceituadas das últimas décadas. Seus romances e contos formam um estranho universo em que o vazio existencial se expande e ressoa na mistura do real e do fantástico, característica demonstrada de forma magistral em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000151"><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1994). Após se formar na Universidade de Waseda – onde dedicou-se, sobretudo, aos Estudos Teatrais –, Murakami abriu um pequeno bar de </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;"> chamado </span><i><span style="font-weight: 400;">Peter Cat</span></i><span style="font-weight: 400;">, o qual administrou durante oito anos ao lado de sua esposa, Yoko, e chegou a traduzir para o japonês obras de seus autores favoritos: </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-apanhador-no-campo-de-centeio-70-anos/"><span style="font-weight: 400;">J.D. Salinger</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-grande-gatsby/"><span style="font-weight: 400;">F. Scott Fitzgerald</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Raymond Carver.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu primeiro livro, </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000277"><i><span style="font-weight: 400;">Ouça a canção do vento</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1978), ganhou o Prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">Gunzo </span></i><span style="font-weight: 400;">de Novos Escritores, recebendo posteriormente o Prêmio Franz Kafka e o Prêmio Jerusalém. Atualmente, o autor ostenta uma obra traduzida para mais de cinquenta idiomas; mas, diferente de seus trabalhos pregressos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">tem menos elementos surreais, e mantém os pés na realidade – mesmo que em vários momentos tente viajar através dos sentimentos.</span></p>
<figure id="attachment_27513" aria-describedby="caption-attachment-27513" style="width: 2274px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27513 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre a têmpora esquerda e seu braço direito apoiado sobre o braço esquerdo. O fundo da imagem é branco. " width="2274" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1.jpg 2274w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-711x800.jpg 711w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-910x1024.jpg 910w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-768x865.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1364x1536.jpg 1364w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1819x2048.jpg 1819w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-1-1200x1351.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27513" class="wp-caption-text">No conto Samsa apaixonado, Murakami recria A Metamorfose, de Franz Kafka, mas transforma um inseto em ser humano, subvertendo o sentido daquilo que seria a verdadeira dimensão monstruosa (Foto: Time Magazine)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na fotografia, há o conceito de “</span><a href="https://spiegato.com/pt/o-que-e-espaco-negativo"><span style="font-weight: 400;">espaço negativo</span></a><span style="font-weight: 400;">”, que diz respeito ao entorno daquilo que está devidamente enquadrado na imagem, compondo o assunto sem necessariamente ser o assunto. Neste livro, o espaço negativo são as mulheres, e, como seu título pode anunciar, retrata os relacionamentos amorosos e suas perdas, refletindo sobre isso através de uma visão muitas vezes idealizada que Murakami mantém ao retratar o gênero feminino, sempre através da perspectiva masculina – até mesmo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Sherazade</span></i><span style="font-weight: 400;">, única narrativa em que a protagonista é uma mulher, mas cujo foco está na narração em terceira pessoa do autor. Mesmo sem juízo de valor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">parece retratar mulheres que invadem a vida dos homens e desaparecem – às vezes por opção, às vezes por força maior –, e deixam uma marca na vida daqueles que as amam. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, o escritor japonês reflete mais sobre a solidão do que sobre os relacionamentos, especificamente, o que dá margem a interpretações mais amplas sobre o contexto da obra. Não espere, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres</span></i><span style="font-weight: 400;">, um clímax espalhafatoso em determinado momento. É como se todos os contos se desenrolassem em seu estado permanente, cuja construção se estabelece através das várias camadas narrativas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na premiada adaptação cinematográfica de </span><a href="https://personaunesp.com.br/drive-my-car-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – conto em que um ator precisa de um motorista e se espanta ao encontrar uma mulher para o cargo –, esses aspectos foram contemplados: a construção lenta da narrativa, as diversas camadas da história e a aura acinzentada que perpassa a vida, as memórias e a cidade dos personagens. O resultado, além do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Filme Internacional, foi a consolidação do longa como um clássico imediatamente depois de seu lançamento. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Kafuku pensou em dormir um pouco. Dormiria profundamente por um tempo e acordaria. Dez ou quinze minutos, algo assim. Em seguida voltaria ao palco para atuar. Debaixo dos holofotes, declamaria as falas determinadas. Receberia aplausos e a cortina se baixaria. Por um momento, se afastaria de si mesmo, e voltaria. Mas, para ser exato, não voltaria ao mesmo lugar de antes.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;">, vemos dois personagens, Kafuku e Misaki, que se complementam através da solidão compartilhada, mas que manifestam seus sentimentos de formas bastante distintas. Kafuku foi proibido de dirigir depois de um acidente no qual foi encontrado bêbado, e por essa razão a companhia de Teatro pela qual está interpretando </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85171"><i><span style="font-weight: 400;">Tio Vânia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Tchékhov, decide pagar pelo seu transporte durante a temporada de exibições. Ele é forçado, portanto, a encontrar um motorista – inicialmente havia planejado um homem para o cargo –, mas se surpreende ao encontrar Misaki, que foi indicada através de um conhecido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme os dias se passam, a curiosidade de Misaki aumenta, devido ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/pedregulhos-critica/"><span style="font-weight: 400;">silêncio avassalador</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kafuku durante as viagens. Ela quer saber por quais razões ele não possui amigos, então inicia o contato, fazendo-o revelar que, na verdade, estabeleceu uma amizade com um dos antigos amantes da sua esposa, morta há algum tempo. Aos poucos, o viúvo começa a ditar mais detalhes sobre sua vida íntima, e chega a contar que sempre soube das traições e sua ex-esposa também tinha consciência de que não havia mais segredo, e mesmo assim ninguém dizia nada um ao outro, pois </span><i><span style="font-weight: 400;">“todos nós interpretamos um papel”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Kafuku se reveste de uma aura de “homem racional” e luta consigo próprio para entender os eventos ocorridos, Misaki se afunda no trabalho e na introspecção para tentar esquecer seus próprios problemas, alimentando uma visão negativa de si mesma em consequência das situações em que foi submetida anteriormente (o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/"><span style="font-weight: 400;">abandono paterno</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as violências que sofreu de sua mãe). De forma lenta, Haruki Murakami constrói uma narrativa que evoca magistralmente a importância do passado para moldar nossas características atuais, nas quais sempre carregamos as mágoas ancestrais no horizonte de nossas escolhas.</span></p>
<figure id="attachment_27514" aria-describedby="caption-attachment-27514" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27514 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Na imagem, há um homem sentado em uma mesa, com uma luminária acesa à sua direita. Ele está de costas para nós. À frente, há uma janela transparente que dá vista para um mar de cor azul. As luzes do ambiente são baixas, dando um tom sombreado a todo o quarto. " width="1280" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-800x434.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-2-1200x651.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27514" class="wp-caption-text">Drive My Car, adaptação do conto homônimo feita pelo diretor Ryûsuke Hamaguchi, concorreu em quatro categorias no Oscar 2022, vencendo a de Melhor Filme Internacional (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">foi publicado pela primeira vez, em 2014, Murakami já detinha prestígio e reconhecimento internacional, principalmente pela já citada </span><i><span style="font-weight: 400;">Crônica do Pássaro de Corda </span></i><span style="font-weight: 400;">– elogiada pelo conservador crítico Harold Bloom (1930-2019) – e </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=27281428"><i><span style="font-weight: 400;">Kafka à beira-mar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2002). Mas apesar de Murakami ser um dos autores mais conceituados nos dias atuais, ainda convive à sombra dos escritores subjugados – por uma parcela ainda elitista – como “autor de entretenimento”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é uma categoria muito utilizada para tentar designar obras que não exijam esforço intelectual, que oferecem somente um espairecimento ou fuga da vida cotidiana, mas que nada criam de permanente às nossas vidas, como os grandes clássicos atemporais realmente fazem. A verdade é que qualquer coisa pode ser intensa se você olhar bem, e o fato de uma obra literária não ter sido reconhecida por sua dimensão não declarada evidencia mais suas qualidades como leitor do que as qualidades da obra. Existem livros ruins, todavia é preciso admitir a posição pessoal e imprescindível à afirmação: não representa a totalidade dos leitores da obra, e pode realmente trazer </span><a href="https://personaunesp.com.br/benedetta-critica/"><span style="font-weight: 400;">revelações profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e aumentar o entendimento do mundo de certas pessoas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“De uma forma ou de outra, você também vai ser um dos homens sem mulheres. De repente. E, uma vez que você se tornar um dos homens sem mulheres, a cor da solidão se impregnará no seu corpo. Como se fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete de cor clara.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício literário, de alguma forma, tem a ver com caminhar por consciências alheias, com entender e compreender as angústias e segregações ligadas ao racismo na leitura de uma obra de James Baldwin, Toni Morrison ou </span><a href="https://personaunesp.com.br/quarto-de-despejo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Carolina Maria de Jesus</span></a><span style="font-weight: 400;">; analisar, através da obra de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dimensão solitária a qual somos submetidos devido a enxurrada de publicidade vazia e interesseira que recebemos diariamente; vislumbrar a longa caminhada dos dias como inerte e indiferente a nós, como Albert Camus observou; tentar se colocar no lugar de um indivíduo com problemas de vícios de todos os tipos ao ler um romance de William S. Burroughs; e ver, de alguma forma, o núcleo cinza dos dias nos contos que Murakami redige em </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres.</span></i><span style="font-weight: 400;"> De algum modo, tudo isso também tem a ver com gerar empatia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, qualquer debate sobre Arte e suas qualidades está sujeito a um emaranhado de problemas, sempre resvalando em questões de gênero, desigualdade social e elitismo. Talvez seja interessante perceber o quanto a visão publicitária tende a reduzir uma obra ficcional, uma vez que seu foco, quase sempre, está na projeção de um sentimento específico no leitor, geralmente a catarse. Quando se lê um romance cujo intuito é, deliberadamente, a criação de um ambiente em que se consolide o quanto determinado autor é genial e meu-Deus-olhe-o-que-ele-está-fazendo, o resultado é dificilmente o esperado. Isso porque obras artísticas são abertas à interpretação, como </span><a href="https://editoraperspectiva.com.br/produtos/obra-aberta-revista-e-ampliada/"><span style="font-weight: 400;">Umberto Eco</span></a><span style="font-weight: 400;"> constatou, mas principalmente porque, depois que o escritor termina e publica o livro, se torna apenas uma forma de linguagem, capaz de gerar sentidos distintos em cada um. Murakami parece ter consciência disso, e por essa razão suas histórias têm as descrições narrativas como ponto principal.</span></p>
<figure id="attachment_27515" aria-describedby="caption-attachment-27515" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27515 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg" alt="Foto em preto e branco do escritor japonês Haruki Murakami. Ele é um homem com traços asiáticos, possui cabelo e barba grisalhos, e na foto está sentado, olhando diretamente para a câmera, com a mão esquerda sobre o braço direito e seu braço direito apoiado sobre a perna esquerda. Ele veste uma camiseta preta e uma calça cinza. O fundo da imagem também é cinza." width="1024" height="810" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-800x633.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/murakami-3-768x608.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27515" class="wp-caption-text">Além de escritor, Murakami é musicólogo, e as referências a sua banda favorita, os Beatles, refletem-se ao longo da obra; os contos Drive My Car e Yesterday fazem homenagem a duas canções dos Garotos de Liverpool (Foto: Alfaguara)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilo narrativo de Murakami se estabelece através de uma prosa simples, e não há qualquer inventividade linguística em seus escritos. O ouro do autor está mais no seu domínio narrativo do que em qualquer outra coisa, cuja característica principal é sua descrição minuciosa e expositiva na medida certa, sem entregar demais e ainda assim permitindo que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">jogo ficcional</span></a><span style="font-weight: 400;"> se consolide através da imaginação dos leitores. O que torna seus livros tão atraentes é a possibilidade de largá-los e depois retornar até eles com a consciência de que haverá, no mínimo, uma boa história a ser lida, sem a necessidade de se lembrar daquilo que leu anteriormente – talvez por isso haja confusões sobre o público que Murakami quer realmente atingir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, obras também podem ser contaminadas pela visão industrial. Desse modo, surgem as obras possivelmente ruins em sua essência, trabalhos cujo aspecto fundamental seja a escalada comercial e venda em massa, o interesse puro e genuíno em se transformar em escritor como um gerente que administra uma empresa, sem considerar qualquer aspecto relacionado à Arte. Talvez o choque primordial ao ler os contos de Murakami seja a compreensão de que as coisas se desenvolvem lentamente – como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Kino</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma das maiores narrativas da coletânea e, consequentemente, uma das mais demoradas –, pois não há pressa no autor em estabelecer a ambientação de suas histórias, agindo em contraste ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/"><span style="font-weight: 400;">mundo frenético da contemporaneidade</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Os galhos de salgueiro continuavam ondulando ao vento do início de verão. Em um pequeno quarto escuro no profundo interior de Kino, a mão quente de alguém foi estendida e tentou pousar sobre a dele. Com os olhos fortemente cerrados, Kino sentiu o calor dessa mão e sua espessura macia. Era algo que fora afastado dele havia muito tempo. Sim, estou magoado. Muito, profundamente, Kino disse a si mesmo. E chorou. Nesse quarto escuro e silencioso.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">À medida que a coletânea avança, as histórias assumem um caráter mais sombrio. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Órgão independente</span></i><span style="font-weight: 400;">, conhecemos o Dr. Tokai, um cirurgião plástico de 52 anos que nunca foi casado nem nunca desejou se casar. Ele se relaciona com diversas mulheres, sem se entregar totalmente a nenhuma delas, mas, quando se apaixona de fato, tudo se transforma em uma calamidade. Surge, através das diversas metáforas deixadas como pistas na narrativa, a possibilidade de entender o amor como uma doença incurável e violenta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com seu título retirado de um conto de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2022/04/podcast-discute-obra-de-hemingway-e-a-masculinidade-do-nosso-tempo-ouca.shtml"><span style="font-weight: 400;">Ernest Hemingway</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Homens sem mulheres </span></i><span style="font-weight: 400;">dá vida a indivíduos que optam pela solidão numa tentativa de afastar o sofrimento, mas que, inevitavelmente, intensificam as duas sensações. Ao contrário dos personagens de Hemingway, excessivamente preocupados com virilidade – seres quebrados que encontram vazão no afeto, sem deixar que isso mude seus próprios valores –, os personagens de Haruki Murakami não conseguem identificar os motivos da dor. A parte difícil é constatar, indigestamente, que não possuímos controle sobre quase nada – muitas vezes, nem sobre nós mesmos. </span></p>
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		<title>Drive My Car: nada dói mais do que a verdade não dita</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 20:01:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Desde a vitória histórica da produção sul-coreana de Bong Joon-Ho, Parasita, na categoria de Melhor Filme no Oscar 2020, a Academia tem-se tornado, ainda que bastante acanhadamente, aberta para a quebra dos paradigmas além-Hollywood. Em 2021 vimos a segunda diretora e primeira mulher não-branca, Chloé Zhao, a levar a estatueta de Melhor Direção, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/drive-my-car-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Drive My Car: nada dói mais do que a verdade não dita"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26984" aria-describedby="caption-attachment-26984" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26984" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1.jpg" alt="Cena do filme Drive My Car. Nela estão Yûsuke e Misaki sentados no banco da frente de um carro vermelho, em ordem. Yûsuke é um homem nipônico de meia-idade com cabelo curto preto. Misaki é uma jovem nipônica com cabelos pretos. O carro está andando sobre uma estrada. No fundo estão montanhas e postes de sinalização." width="1920" height="1039" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-768x416.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1536x831.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26984" class="wp-caption-text">Destaque do círculo de críticos de Cinema em 2021, Drive My Car teve estreia mundial no Festival de Cannes 2021, tornando-se a primeira produção nipônica a disputar o prêmio de Melhor Filme no Oscar, além de ser o filme japonês com mais indicações na história da cerimônia (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde a vitória histórica da produção sul-coreana de Bong Joon-Ho, </span><a href="https://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, na categoria de Melhor Filme no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2020, a Academia tem-se tornado, ainda que bastante acanhadamente, aberta para a quebra dos paradigmas além-Hollywood. Em </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-vencedores-do-oscar-2021/"><span style="font-weight: 400;">2021</span></a><span style="font-weight: 400;"> vimos a segunda diretora e primeira mulher não-branca, </span><a href="https://personaunesp.com.br/nomadland-critica/"><span style="font-weight: 400;">Chloé Zhao</span></a><span style="font-weight: 400;">, a levar a estatueta de Melhor Direção, e em 2022, parece ser a vez de </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;"> (do original </span><i><span style="font-weight: 400;">Doraibu mai kâ</span></i><span style="font-weight: 400;">, sem título traduzido no Brasil), submissão oficial do Japão indicada a quatro categorias na premiação desse ano, incluindo Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção para </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/ryusuke-hamaguchi/"><span style="font-weight: 400;">Ryûsuke Hamaguchi</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;">Melhor Roteiro Adaptado, co-escrito pelo diretor com Takamasa Oe</span><span style="font-weight: 400;">. Mas não se engane, </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é o novo </span><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i><span style="font-weight: 400;"> (!).</span></p>
<p><span id="more-26983"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os filmes compartilham nada além do fato de que ambas são produções originárias de países do leste asiático a receber a grande indicação da noite pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Apenas. A primeira evidência disso é o ritmo pacato da produção nipônica adaptada de um </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/on-the-road-ryusuke-hamaguchi-on-drive-my-car"><span style="font-weight: 400;">conto homônimo</span></a><span style="font-weight: 400;"> do escritor Haruki Murakami e com inspiração em outros dois contos do </span><a href="https://www.escritacriativa.com.br/?cid=5411&amp;wd=Reflex%F5es"><span style="font-weight: 400;">mesmo livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> – </span><i><span style="font-weight: 400;">Sherazade </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Kino</span></i><span style="font-weight: 400;">. São quase três horas de duração que, a princípio, parecem ser injustificáveis. Contudo, passados quarenta minutos do preâmbulo, o final do longo túnel começa a se revelar, sem pressa.</span></p>
<figure id="attachment_26985" aria-describedby="caption-attachment-26985" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26985" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Nela está o reflexo do olhar de Misaki pelo retrovisor. Misaki é uma jovem nipônica com cabelos pretos. O fundo do retrovisor é o céu da noite, completamente preto." width="2048" height="1094" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1-800x427.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1-1024x547.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1-768x410.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1-1536x821.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img2-1-1200x641.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26985" class="wp-caption-text">Adaptação de um conto homônimo de Haruki Murakami que faz parte da coletânea Homens Sem Mulheres, o título de Drive My Car, assim como o de Norwegian Wood, são inspirados em canções dos Beatles (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na cama, somos apresentados à dinâmica íntima do casal formado por Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um veterano ator e dramaturgo, e Oto (Reika Kirishima), uma roteirista de TV. Na cena, Oto murmura para o marido, em transe, curtas histórias inventadas por ela. Como uma </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-drive-my-car-sherazade-e-kino-de-haruki-murakami/"><span style="font-weight: 400;">Sherazade</span></a><span style="font-weight: 400;"> contemporânea, o ritual silencioso se revela um hábito pós-sexo dos cônjuges, amarrados em interdependência um ao outro na impassibilidade do cotidiano rígido. Na superfície, a vida deles juntos é tranquila e parece ser feliz; enquanto nas entranhas, borbulham ânsias reprimidas: Kafuku precisa das histórias da esposa, então convenientemente cobre a vista. Ela, as narra encarando o vazio da parede com os olhos bem abertos.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Ela inspira. Ela ouve com atenção. Ela ouve o silêncio. Um silêncio amplificado, como o som através de um aparelho auditivo, enche a sala. Ela se deita na cama de Yamaga. Ela segura a vontade de se masturbar.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela é infiel e ele sabe – ao mesmo tempo que não sabe de nada. O casamento deles se definha e como um completo mistério, prestes a encarar a verdade, Oto subitamente falece, deixando Kafuku sem qualquer resposta. A partir disso, após dois anos, se inicia de fato o caminho penoso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;">. O viúvo, ainda adormecido pela perda da esposa, chega em Hiroshima a convite, dirigindo o seu querido Saab 900 vermelho, para conduzir uma nova produção de </span><a href="https://ims.com.br/blog-do-cinema/drive-my-car-por-jose-geraldo-couto/"><i><span style="font-weight: 400;">Tio Vânia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do russo Anton Chekhov, no festival de artes da cidade.</span></p>
<figure id="attachment_26986" aria-describedby="caption-attachment-26986" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26986" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Nela estão Yûsuke e Lee Yoo-na de costas para a câmera, sobre um palco cenográfico. Yûsuke é um homem nipônico de meia-idade com cabelo curto preto. Ele está sentado e veste um paletó ocre. Lee Yoo-na é uma mulher adulta coreana com cabelos pretos. Ela está levantada atrás de Yûsuke, abraçando-o. Ela veste um vestido azul comprido com detalhes em renda. O piso do palco é de madeira e no centro está uma mesa de madeira e uma cadeira de madeira do lado direito. Na parte inferior direita estão um punhado de capim e outra mesa e cadeira de madeira. Ao fundo está a plateia de uma peça, sem iluminação." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img3-1-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26986" class="wp-caption-text">No Brasil, o longa ganhou exibição em salas de cinema selecionadas e na plataforma de streaming MUBI, exclusivamente (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com risco de perda da visão, </span><span style="font-weight: 400;">Kafuku</span><span style="font-weight: 400;">, em Hiroshima, conhece a introspectiva Misaki (Tôko Miura), jovem motorista incumbida da missão de conduzir o dramaturgo pela palidez da cidade enquadrada. Pelas vias, a companhia é assombrosamente muda. Nenhuma palavra se levanta, com exceção da voz morta de Oto que ecoa pelo automóvel através de falas de ensaio gravadas por ela como um último totem para o marido. Dentro do carro estão </span><span style="font-weight: 400;">Kafuku</span><span style="font-weight: 400;">, Misaki e o </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2022/03/14/drive-my-car-leva-japao-a-disputa-pelo-oscar-de-melhor-filme-com-olhar-sensivel-sobre-luto-g1-ja-viu.ghtml"><span style="font-weight: 400;">fantasma de Oto</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, diante do enigma interminável dos segredos sepultados pela falecida, Hamaguchi se afasta do espírito especulativo para mirar fixamente o palco no qual se dará a montagem multilíngue em produção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No reencontro com Chekhov, a atuação obriga cada protagonista a encarar as próprias emoções pelo reflexo de suas personagens a serem interpretadas. Na incomunicabilidade dos atores, a </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2022/03/the-plays-the-thing-in-ryusuke-hamaguchis-drive-my-car"><span style="font-weight: 400;">Arte</span></a><span style="font-weight: 400;"> assume o papel determinante para exteriorizar tudo aquilo que não se ousa dizer. Durante a rotina de ensaios metódicos da peça, as tramas se ramificam em expansão entre os atores: o impulsivo galã Takatsuki (Masaki Okada), que foi amante de Oto, também atormenta-se pela busca frustrada por resoluções; a atriz muda </span><span style="font-weight: 400;">Lee Yoo-na (Park Yu-rim), que para superar seus traumas com a maternidade volta a atuar, comunicando-se por sinais; até a motorista, que lida com as próprias angústias.</span></p>
<figure id="attachment_26987" aria-describedby="caption-attachment-26987" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26987" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1.png" alt="Cena do filme Drive My Car. Nela está Takatsuki, um jovem nipônico com cabelo curto preto. Ele está dentro de um carro completamente preto pela sombra da noite. A única fonte de luz vem da janela, fraca e em tom esverdeado. O rosto de Takatsuki está em foco, quase se esvaindo pela escuridão das sombras. Ele encara a câmera." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img4-1-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26987" class="wp-caption-text">No mesmo ano de Drive My Car, Hamaguchi também dirigiu Roda do Destino, que chegou a integrar a 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com palavras ditas ou não, cada sentença de </span><i><span style="font-weight: 400;">Tio Vânia</span></i><span style="font-weight: 400;"> processa os traumas de cada agente da peça. O idioma dos atores vai do japonês, inglês, mandarim, coreano, russo até língua coreana de sinais </span><span style="font-weight: 400;">– n</span><span style="font-weight: 400;">enhum ator fala a mesma língua. Essa barreira linguística, porém, é burlada pela atuação e pela universalidade da Arte como uma </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/drive-my-car-constroi-em-hiroshima-um-belo-monumento-a-destruicao.shtml"><span style="font-weight: 400;">Torre de Babel</span></a><span style="font-weight: 400;"> bem-sucedida. No palco, cada fala de Chekhov dita “</span><i><span style="font-weight: 400;">arrasta o verdadeiro você</span></i><span style="font-weight: 400;">”, comunicando toda a confusão, raiva, lamentação sobre o tempo perdido que jamais será reconquistado e, em contrapartida, à redenção exorcizante dos demônios montados sobre as costas dos protagonistas.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i> <a href="https://veja.abril.com.br/coluna/isabela-boscov/drive-my-car-filme-japones-no-oscar-tem-3-horas-que-valem-cada-minuto/"><span style="font-weight: 400;">não se apressa</span></a><span style="font-weight: 400;">, esbarrando, gradativamente, por breves relances de beleza encontrados pelo ordinário da paisagem acinzentada. Dentro do carro, o tempo para. O aparato avermelhado dilata os limites do espaço-tempo, transfigurando-se em um confessionário para as almas solitárias que ousam sentar-se nos seus quatro bancos. Nele, em uma longa sequência claustrofóbica, Takatsuki conta para </span><span style="font-weight: 400;">Kafuku</span><span style="font-weight: 400;">, a </span><a href="https://www.b9.com.br/158023/drive-my-car-critica-review-hamaguchi-mubi-o2-play/"><span style="font-weight: 400;">última história</span></a><span style="font-weight: 400;"> narrada por Oto. Atravessando um túnel em um duelo taciturno, viúvo e amante se confrontam, para que a escuridão quase total da noite permitisse penetrar-se por feixes de luz esmaecidos, próximos do fim do caminho.</span></p>
<figure id="attachment_26988" aria-describedby="caption-attachment-26988" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26988" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1.png" alt="Cena de Drive My Car. Nela estão duas mãos, cada uma segurando um cigarro aceso para fora do teto solar de um carro. O fundo é o céu da noite preta com feixes de luz arredondados." width="1920" height="1041" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1-800x434.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1-1536x833.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/img5-1-1200x651.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26988" class="wp-caption-text">Sem nenhuma indicação para o elenco nas grandes premiações, as atuações em Drive My Car potencializam sublimemente o espaço negativo preenchido pelo silêncio (Foto: C&amp;I Entertainment/MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E revelado o mistério, pela primeira vez, </span><span style="font-weight: 400;">Kafuku </span><span style="font-weight: 400;">ultrapassa a </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/on-the-road-ryusuke-hamaguchi-on-drive-my-car"><span style="font-weight: 400;">barreira invisível</span></a><span style="font-weight: 400;"> que separa o banco do motorista com o do passageiro. Assim, desafiados os limites e sozinhos no carro, os estranhos podem finalmente compartilhar um fugaz momento de calor. Duas mãos se levantam para o teto solar a 10 centímetros uma da outra. E por mais singelo que o enquadramento pareça, ele é carregado de ânsia. Uma ânsia angustiante de se conectar entre o oceano de desconhecidos, nem que esse momento dure curtos trinta segundos. Para aqueles que sobrevivem pensando nos mortos, com o tempo, </span><i><span style="font-weight: 400;">tudo passará</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Drive My Car</span></i><span style="font-weight: 400;"> a verdade dói, mas nada dói mais do que a verdade não dita.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Drive My Car | 17 de março nos cinemas, 1 de abril na Mubi" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/GEXNQMMj0_4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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