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	<title>Arquivos Ditadura &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Em El Conde, A Opressão é escura como o sangue</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Mar 2024 20:27:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Dias Siqueira 11 de Setembro marca o aniversário de uma das grandes tragédias ocorridas nas Américas, algo tão terrível e tão brutal que seria lembrado não só nas aulas de história, mas no profundo subconsciente de um povo inteiro. Há 50 anos, no Chile, um presidente era assassinado, o palácio presidencial bombardeado, uma ditadura &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/el-conde-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em El Conde, A Opressão é escura como o sangue"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32571" aria-describedby="caption-attachment-32571" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-32571" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image2.jpg" alt="Cena do filme El Conde(2023), O General Augusto Pinochet (Jaime Vadell), Um homem idoso, de estatura mediana está no centro de um enorme salão, ele usa uma capa longa e um quepe, a cena é em preto e branco, há uma névoa em todo o salão, que é iluminado por dois lustres, dispostos de maneira simétrica, e tem móveis muito antigos como um piano e cadeiras]" width="720" height="440" /><figcaption id="caption-attachment-32571" class="wp-caption-text">El Conde satiriza o horror da vida real usando um horror de fantasia (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Dias Siqueira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">11 de Setembro marca o aniversário de uma das grandes tragédias ocorridas nas Américas, algo tão terrível e tão brutal que seria lembrado não só nas aulas de história, mas no profundo subconsciente de um povo inteiro. Há </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=33XzDdI51-o"><span style="font-weight: 400;">50 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, no Chile, um presidente era assassinado, o palácio presidencial bombardeado, uma ditadura se iniciava e por trás dela, um homem se tornava ditador. Embora todos eles sejam, sem exceção, meros mortais feitos de carne, osso e vísceras, como todos nós, quando tomamos conhecimento das barbaridades as quais esses mesmos humanos tiveram a capacidade de perpetrar, passamos a enxergá-los como monstros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há nada mais adequado que comparar alguém que suga vidas de seus oponentes a um vampiro, na visão dos roteiristas de </span><i><span style="font-weight: 400;">El Conde</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=viOPiMBJgd0"><span style="font-weight: 400;">Pablo Larraín</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Guillermo Calderón, Augusto Pinochet é um monstro dos clássicos filmes de terror dos anos 1930. Com mais de 200 anos de vida, o general viveu assombrando revoluções por décadas ao redor do mundo até parar no Chile e lá, após acusações de crime contra a humanidade e corrupção (aparentemente ele não se incomoda tanto com a primeira) ele decide se isolar com sua família em uma fazenda.</span></p>
<p><span id="more-32569"></span></p>
<figure id="attachment_32570" aria-describedby="caption-attachment-32570" style="width: 1023px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32570" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image1.jpg" alt="Cena do filme El Conde(2023), Pinochet (Jaime Vadell) aparece no centro da imagem, de terno e óculos escuros, a sua esquerda estão sentados oficiais de alta patente, e a sua esquerda soldados uniformizados empunhando fuzis" width="1023" height="511" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image1.jpg 1023w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image1-800x400.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image1-768x384.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32570" class="wp-caption-text">Pinochet foi o líder da junta militar que governou o Chile entre 1973 e 1990 (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos dois </span><a href="https://variety.com/2023/film/reviews/the-eternal-memory-review-1235522194/"><span style="font-weight: 400;">representantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> chilenos no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2024/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">El Conde</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma obra satírica e humorística, e, apesar do enredo bastante criativo, poderia passar despercebida pela Academia, não fosse o seu imenso valor estético. A indicação a Melhor Fotografia pelo trabalho de Edward Lachman é uma recompensa justa a uma filmagem que assombra, é soturna e sabe explorar com precisão um recurso antigo &#8211; o preto e branco. No filme, o efeito é reimaginado para possuir uma certa liquidez. A ideia é que a Santiago moderna com seus arranha-céus de vidro possa parecer tão assustadora quanto um castelo medieval assombrado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa-metragem desfruta ainda do uso da simetria como uma forma de causar um certo </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=FjZXh-GB3jM"><span style="font-weight: 400;">deslumbre aterrorizante</span></a><span style="font-weight: 400;">, de dar inveja a tantos filmes de terror que pecam pela falta de sutileza. </span><i><span style="font-weight: 400;">El Conde</span></i><span style="font-weight: 400;"> explora o medo do escuro, o medo de um ser que não grita para assustar, apenas sua aparição já é o suficiente para saber que o mal encarnado está presente. A mistura de terror e comédia não é nova na Sétima Arte, porém a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rAtq79SI_Es&amp;pp=ygUTZWwgY29uZGUgZW50cmV2aXN0YQ%3D%3D"><span style="font-weight: 400;">produção</span></a><span style="font-weight: 400;"> eleva a mistura a um novo patamar, se de um lado a comédia é ácida, cítrica, o terror tem um gosto de metal enferrujado próprio do sangue.</span></p>
<figure id="attachment_32573" aria-describedby="caption-attachment-32573" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32573" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4.jpg" alt="Cena do filme El Conde(2023). A freira Carmen (Paula Luchsinger), está pairando no ar, de braços abertos, ela usa um vestido branco, é uma mulher branca de cabelos curtos, e tem uma expressão de alívio, atrás dela há instalações da fazenda, como um celeiro e galpões" width="1999" height="988" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4-800x395.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4-1024x506.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4-768x380.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4-1536x759.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image4-1200x593.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32573" class="wp-caption-text">A freira Carmen tem um papel importante na trama e com ela certos efeitos visuais têm outro tom (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Parece estranho dizer que quase em meados da década de 2020 fazer alguém voar em um filme seja algo </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bUBbN_xWnCE&amp;pp=ygUSRWwgQ29uZGUgRW50ZXJ2aWV3"><span style="font-weight: 400;">impressionante e grandioso</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas aqui os movimentos no ar podem representar um poder absoluto e apavorante ou até mesmo uma certa leveza. A mistura de capas compridas e sombrias de um vampiro, os véus ultra brancos de uma freira ou quepe de general fazem o figurino parecer pesado e inadequado, como se prendesse os personagens deslocados de seu tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tom decrépito da película também influencia a trilha sonora, planos e perspectivas das câmeras do diretor Pablo Larraín e é como um lembrete de que os horrores de uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lHqQJS9bvIo"><span style="font-weight: 400;">ditadura</span></a><span style="font-weight: 400;"> não podem ser esquecidos. É um recado de que seus algozes estão sempre à espreita, à espera da noite, da oportunidade de se levantar de um caixão. De que se na ficção eles devoram corações, na vida real, políticos populistas devoram os cérebros da população em busca de poder e dinheiro.</span></p>
<figure id="attachment_32572" aria-describedby="caption-attachment-32572" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32572" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/image3.jpg" alt=" Cena do filme El Conde(2023). Pinochet (Jaime Vadell) voa com sua capa ao vento, e um quepe na cabeça, a imagem é vista da perspectiva de uma porta e no plano há parte da fazenda e um céu acinzentado" width="600" height="337" /><figcaption id="caption-attachment-32572" class="wp-caption-text">Após 200 anos de vida, Pinochet deseja morrer (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As atuações são excelentes: Jaime Vadell faz um moribundo Pinochet cheio de vícios e que acaba se apaixonando pela freira Carmen, interpretada com bastante destreza por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KLJD5lV7olA&amp;pp=ygUSRWwgQ29uZGUgRW50ZXJ2aWV3"><span style="font-weight: 400;">Paula Luchsinger</span></a><span style="font-weight: 400;">. Um destaque curioso é a aparição de uma antiga aliada de Pinochet, a “dama de ferro” Margaret Thatcher, ex premier britânica que também tem sua versão monstruosa, interpretada por Stella Gonet.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">El Conde</span></i><span style="font-weight: 400;"> é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=txjU7CdOV4s&amp;pp=ygUhRmlsbWVzIHNvYnJlIGEgZGl0YXR1cmEgYXJnZW50aW5h"><span style="font-weight: 400;">mais uma vez</span></a><span style="font-weight: 400;"> um sucesso latino-americano ganhando destaque ao expor as veias abertas do continente. Os cineastas latinos não perdoam os vampiros autoritários que se deleitam dessas veias, diferentemente de uma certa conivência daqueles que em busca de moderação optaram por eximir de culpas os piores criminosos, que roubaram mataram e torturaram e acabaram por ser anistiados e gozaram de privilégios durante a transição para a democracia. O filme pode até estar próximo do prêmio em Hollywood, mas tem conexões profundas com o nosso Brasil. </span></p>
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		<title>Argentina, 1985 é um grito de basta às mazelas da ditadura</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Feb 2023 13:51:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gomes Santana “Eu não sou advogado de ninguém, meu papel como promotor de justiça é acusar”. Assim se impôs Julio Strassera, responsável por um dos julgamentos mais importantes para a democracia ocidental e protagonista de Argentina, 1985. Baseado em fatos reais, o longa dirigido por Santiago Mitre traz à tona o processo que condenou &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/argentina-1985-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Argentina, 1985 é um grito de basta às mazelas da ditadura"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29717" aria-describedby="caption-attachment-29717" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/image-3.png" alt="Cena do filme Argentina, 1985, em que Ocampo (à esquerda) e Strassera (à direita) se reúnem em uma lanchonete para discutir sobre as estratégias de acusação que serão utilizadas no julgamento . Na imagem podemos ver as feições de Moreno Ocampo e Júlio Strassera sentados (um de frente para o outro), lado a lado, enquanto pedem dois lanches em uma bancada de restaurante. Ocampo é um jovem branco (aparentemente com os seus 30 anos de idade), ruivo, cabelo e barba encaracolados. Strassera é um senhor no auge de seus 65 anos, branco, cabelo liso preto, possui bigode denso e usa óculos garrafais. Strassera está com um cigarro aceso em mãos fazendo gestos para chamar a atenção de seu colega promotor, Moreno Ocampo. O jovem está com o olhar fixo prestando atenção nas palavras de Júlio." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-29717" class="wp-caption-text">Mais do que um filme, Argentina, 1985 é uma aula de dever à cidadania e exemplo de compromisso público com a democracia (Foto: Prime Video)</figcaption></figure>
<p><strong>Gabriel Gomes Santana</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não sou advogado de ninguém, meu papel como promotor de justiça é acusar</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Assim se impôs Julio Strassera, responsável por um dos julgamentos mais importantes para a democracia ocidental e protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;">. Baseado em fatos reais, o longa dirigido por Santiago Mitre traz à tona o processo que condenou os crimes contra os direitos humanos cometidos pelos ex-comandantes da ditadura no País. Disponível na plataforma de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming </span></i><span style="font-weight: 400;">da </span><a href="https://www.primevideo.com/detail/0HM2CPRAN241K811SGWRRH09BF/ref=atv_dp_share_cu_r"><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a obra expõe a coragem e persistência de agentes públicos que se comprometeram a enfrentar um sistema repressivo e assassino.</span></p>
<p><span id="more-29716"></span></p>
<p><b>Ficção e realidade se misturam</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tentativa de se aproximar da realidade, o filme apresenta um panorama histórico completo e bem aprofundado sobre o período de recente democratização do país </span><i><span style="font-weight: 400;">hermano</span></i><span style="font-weight: 400;">. Instaurada na Argentina de 1976 a 1983, a </span><a href="https://paineira.usp.br/memresist/?page_id=239"><span style="font-weight: 400;">última ditadura</span></a><span style="font-weight: 400;"> que a nação enfrentou ficou marcada por um regime autoritário, repressivo, sangrento e que deixou traumas e feridas abertas até hoje. Ainda que pairasse no ar um sentimento de retomada do poder popular, já com o fim dos governos militares, todos os crimes cometidos até aquela ocasião deixavam perguntas sem respostas através de um sentimento de injustiça dominante perante a sociedade platina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como aconteceu na Segunda Guerra, no caso do imprescindível </span><a href="https://www.politize.com.br/tribunal-de-nuremberg/"><span style="font-weight: 400;">Tribunal de Nuremberg</span></a><span style="font-weight: 400;">, mais do que dar um basta à barbárie, era necessário encontrar os culpados pelas torturas, assassinatos e massacres. Afinal, não é ao acaso que a estimativa sobre o número de assassinados pelo comando militar argentino ultrapassa a casa dos </span><a href="https://operamundi.uol.com.br/hoje-na-historia/3368/hoje-na-historia-1976-golpe-militar-instaura-ditadura-na-argentina"><span style="font-weight: 400;">30 mil </span></a><span style="font-weight: 400;"> durante os sete anos de sua cruel permanência. Ainda que tentasse esconder, uma boa parcela da população ansiava por um julgamento que criminalizasse os </span><a href="https://www.scielo.br/j/civitas/a/nDGjYwxgPF6j8s5fX4fMMVK/?lang=pt&amp;format=pdf"><span style="font-weight: 400;">engenheiros deste caos</span></a><span style="font-weight: 400;">. É a partir daí que a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;"> se inicia.</span></p>
<figure id="attachment_29718" aria-describedby="caption-attachment-29718" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29718" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/image-4.png" alt="Cena do filme Argentina, 1985, em que Strassera e Ocampo conversam com uma senhora de idade, ativista do movimento das Mães da Praça de Maio. Strassera aparece apoiando seu braço em um dos bancos do público que acompanha a sessão do julgamento, enquanto uma senhora, que está sentada olhando para Strassera atentamente se inclina para escutar o que o promotor tem a dizer. Esta senhora aparenta ter uma idade avançada, na casa dos 70 anos de idade e usa um lenço típico das ativistas que protestam pelo desaparecimento de seus filhos e netos, vítimas da perseguição imposta pelo autoritarismo de Videla." width="512" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-29718" class="wp-caption-text">Nada mais desesperador do que uma mãe que clama por seu filho (Foto: Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1983, ano da retomada eleitoral argentina, o então candidato Raúl Alfonsín se elegera através de um discurso que evocava angústia sobre o desaparecimento de milhares de pessoas, tendo o apoio das </span><a href="https://www.socialistamorena.com.br/para-nao-esquecer-a-historia-das-maes-da-plaza-de-mayo-na-argentina/"><span style="font-weight: 400;">Mães da Praça de Maio</span></a><span style="font-weight: 400;">. O movimento foi crucial para que os argentinos se sensibilizassem com a dor de mães e avós que procuravam o paradeiro de seus filhos e netos (muitas continuam em busca de respostas até hoje). Quando Alfonsín assumiu a cadeira presidencial, a imprensa acreditou que, em um primeiro momento, seu governo teria um caráter conciliador, mas ele provou o contrário, sendo bastante afrontoso: colocou nove ex-comandantes militares no banco dos réus para responderem sobre crimes contra humanidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por conta desta brilhante e corajosa decisão, dois anos depois do decreto, a figura do promotor Julio Strassera se fez presente. No longa, ele nos envolve em uma aventura judicial que vai atrás de provas concretas, aliadas a fortes depoimentos de vítimas sobreviventes das sessões de torturas físicas e psicológicas empreendidas por </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/morre-aos-87-anos-o-ex-ditador-argentino-jorge-rafael-videla-eguinkcv3uy8hnirb2fzltc26/#:~:text=Videla%20governou%20o%20pa%C3%ADs%20sul,argentina%20(1976%2D1983)."><span style="font-weight: 400;">Videla</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seus sucessores. O </span><i><span style="font-weight: 400;">gran finale</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;"> estabelece um basta às atrocidades da ditadura. Pelo menos, esse é o sentimento que o filme traz e que, infelizmente, </span><a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-40-anos-lei-de-anistia-preparou-caminho-para-fim-da-ditadura"><span style="font-weight: 400;">não ocorreu da mesma maneira no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas que pôde dar luz a algumas dicotomias.</span></p>
<figure id="attachment_29721" aria-describedby="caption-attachment-29721" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29721" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/image-1.png" alt="Cena do filme Argentina, 1985, em que uma mulher é chamada para dar seu testemunho sobre a tortura que sofreu na época do regime. Ela aparece de pé em frente a dois microfones de depoimento, bem centralizada em primeiro plano da imagem. Ao fundo podemos ver a bancada das pessoas que assistem ao julgamento. Ela é uma mulher branca, magra, de cabelo curto, com uma expressão séria e com olhar fixado em direção à câmera frontal. Ela veste um blazer caramelo formal, específico dos anos 1980, junto a uma camisa social de gola V por baixo. Ela carrega uma bolsa preta no ombro esquerdo" width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-29721" class="wp-caption-text">Nada como um relato angustiante e terrível para expor os erros que não devem ser repetidos (Foto: Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A principal destas contradições diz respeito à </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/explicado/2021/02/21/Lei-de-Anistia-do-al%C3%ADvio-na-reabertura-%C3%A0-impunidade-militar"><span style="font-weight: 400;">Lei de Anistia</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma vez que livrou perseguições políticas, mas deixou as atrocidades militares por debaixo dos panos da história. A grande reflexão por trás da película diz respeito ao </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi </span></i><span style="font-weight: 400;">reforçado em não apagar memórias. À sua maneira, diversos trechos da narrativa abordam como o país consegue discutir suas dívidas com o passado, demonstrando como a defesa democrática passa, antes de tudo, por uma isonomia de direitos e respeita a atuação autônoma entre os poderes do Executivo e Judiciário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nossos </span><i><span style="font-weight: 400;">hermanos</span></i><span style="font-weight: 400;"> estão longe de ser um povo sem defeitos, mas é justamente a coragem de lidar com o desagradável e expô-lo para a opinião pública que lhes sobra resiliência para seguir em frente debatendo temas cruciais. Recentemente, a </span><a href="https://g1.globo.com/hora1/noticia/2022/09/20/as-raizes-da-crise-economica-argentina-entenda-o-historico-da-economia-no-pais.ghtml"><span style="font-weight: 400;">dura crise financeira</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o país enfrenta pode ser um exemplo disso. Apesar de todas as discussões (extremamente necessárias) acerca do cenário sociopolítico, o futebol mostrou, mais uma vez, o quanto o povo se </span><a href="https://medium.com/o-contra-ataque/de-palco-da-copa-do-mundo-a-pris%C3%A3o-pol%C3%ADtica-aee820532e94"><span style="font-weight: 400;">une em prol de um mesmo objetivo</span></a><span style="font-weight: 400;">. A cultura popular tem o papel fundamental de estímulo à superação, assim como </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985 </span></i><span style="font-weight: 400;">também cumpre essa missão ao exemplificar aquilo que jamais deve ser tolerado.</span></p>
<figure id="attachment_29720" aria-describedby="caption-attachment-29720" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29720" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/image-2.png" alt="Cena do filme ‘Argentina, 1985’ em que Strassera aparece junto de sua equipe investigadora na promoção do inquérito que reuniu as denúncias e provas contra as juntas militares argentinas. Na imagem estão presentes, além de Ocampo e Strassera, mais 8 pessoas que participam da equipe auxiliar dos promotores. As dez pessoas que aparecem nesta imagem são brancas. Destas, apenas 3 são mulheres, uma possui cabelo ruivo e cacheado. Strassera aparece centralizado e à frente dos demais colegas." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-29720" class="wp-caption-text">O sorriso daqueles que defendem a democracia é diferente (Foto: Prime Video)</figcaption></figure>
<p><b>O grande trunfo </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas produções cinematográficas apostam suas fichas em um </span><a href="https://esportes.yahoo.com/noticias/morreu-promotor-julgamento-hist%C3%B3rico-chefes-ditadura-argentina-152727144.html?guccounter=1&amp;guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&amp;guce_referrer_sig=AQAAALsKt18Xem5PEdwdAbDwVDHttWkyS4NoOaBW42RupPZJYY1PC5_QRRz0Jti5CsxRQ74UzGAo8iThEH7HHuET8Meb7Als0dUH4vnnbwqlq6hVGrAZxZctk5qOx6AjbUuDE67qgd7CpTcne7CI3i6TJQBIaCzHIBp3rEGWPARarptC"><span style="font-weight: 400;">elemento técnico que se sobressai</span></a><span style="font-weight: 400;"> com sutileza e vigor. A grosso modo, musicais, por exemplo, tendem a valorizar a escolha de uma trilha sonora de impacto e que vá de encontro com a proposta original e estética. No caso do longa, o grande trunfo se baseia na caracterização e atuação dos personagens. Interpretados por Ricardo Darín e Juan Pedro Lanzani, as figuras de Júlio Strassera e Luís Ocampo, respectivamente, são idênticas aos promotores originais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além da semelhança física com as pessoas reais que estiveram à frente do processo, é impressionante analisar o perfil satírico e dramático presentes em ambas personalidades na ficção. </span><a href="https://esportes.yahoo.com/noticias/morreu-promotor-julgamento-hist%C3%B3rico-chefes-ditadura-argentina-152727144.html?guccounter=1&amp;guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&amp;guce_referrer_sig=AQAAALsKt18Xem5PEdwdAbDwVDHttWkyS4NoOaBW42RupPZJYY1PC5_QRRz0Jti5CsxRQ74UzGAo8iThEH7HHuET8Meb7Als0dUH4vnnbwqlq6hVGrAZxZctk5qOx6AjbUuDE67qgd7CpTcne7CI3i6TJQBIaCzHIBp3rEGWPARarptC"><span style="font-weight: 400;">Strassera é um homem experiente</span></a><span style="font-weight: 400;">, com um olhar atento a tudo e a todos. Porém, seu temperamento frágil o coloca em situações embaraçosas que, embora demonstrem seriedade diante das ameaças sofridas, são um tanto quanto cômicas devido a sua reação, tentando transmitir controle e calma, só que de um jeito desgovernado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocampo, por outro lado, é o ‘aprendiz caxias’, esforçado em trazer resultados para as incógnitas complexas dos problemas apresentados pelas testemunhas. É curioso notar o quanto ele acaba quebrando a cara ao entender que nem tudo é tão simples e racional quanto parece, sobretudo diante de uma </span><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/les/article/view/7534"><span style="font-weight: 400;">sociedade ainda fragilizada pelo medo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma tirania tão influente no imaginário coletivo da época. Parente de militares, o jovem promotor adjunto representa o clichê necessário do ‘</span><a href="https://www.polifonia.com.br/blogpoli/2018/1/9/luke-skywalker-e-a-jornada-do-heri"><span style="font-weight: 400;">padawan</span></a><span style="font-weight: 400;">’ ansioso que se espelha num sábio ‘jedi’ atrapalhado. </span></p>
<figure id="attachment_29722" aria-describedby="caption-attachment-29722" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29722" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/image.png" alt="Fotografia original do julgamento que condenou os ex-generais do exército argentino no ano de 1985. Na imagem podemos ver as feições de Moreno Ocampo e Júlio Strassera sentados (ao canto direito da foto), lado a lado, enquanto encaram os militares, centralizados na imagem, que estão alinhados no banco dos réus. Ocampo é um jovem branco (aparentemente com os seus 30 anos de idade), ruivo, cabelo e barba encaracolados. Strassera é um senhor no auge de seus 65 anos, branco, cabelo liso preto, possui bigode denso e usa óculos garrafais. Os ex-comandantes que estão ao centro são todos homens brancos e, aparentemente, mais velhos." width="512" height="353" /><figcaption id="caption-attachment-29722" class="wp-caption-text">Ocampo e Strassera olhando fixamente para os responsáveis da tortura (Foto: BBC News Brasil)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O Teatro possivelmente contribuiu para uma das maiores e mais difíceis habilidades no campo da atuação: a improvisação. Mesmo que no Cinema o produto final seja gravado e editado em cortes, é possível observar quando uma equipe ensaiou uma sequência cênica e quando não. A </span><a href="https://revistadecinema.com.br/2014/08/a-importancia-dos-dialogos-para-a-narrativa-cinematografica/"><span style="font-weight: 400;">espontaneidade dos diálogos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;"> alia-se à autonomia de Mitre em escolher trechos que, assustadoramente, poderiam acontecer na vida real sem serem previamente pensados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diversas cenas do filme reproduzem o recurso da improvisação e trazem um toque magistral ao aproximar o espectador ao elenco da trama. Os relatos das vítimas e testemunhas parecem ser direcionados a quem assiste, tornando-os ainda mais comoventes e </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-convidadas-critica/"><span style="font-weight: 400;">emocionantes</span></a><span style="font-weight: 400;">. Da mesma forma são os diálogos da família Strassera, dando a impressão de que o quinto elemento participante das discussões seja a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kNKSPMj-B5w"><span style="font-weight: 400;">quarta parede</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Em nenhum momento a obra tem a intenção de quebrar essa barreira. Estes detalhes são fruto de uma qualidade fílmica ímpar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, o público tem o hábito de classificar todo longa-metragem que não tenha os padrões hollywoodianos como alternativos e </span><i><span style="font-weight: 400;">cult</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i><span style="font-weight: 400;"> está longe disso. Os parâmetros criativos adotados pelos roteiristas Santiago Mitre e Mariano Llinás, se não superam, são equivalentes a qualquer </span><a href="https://apostiladecinema.com.br/tempo-de-matar/"><span style="font-weight: 400;">clássico de embate jurídico</span></a><span style="font-weight: 400;">. Não à toa, desde que foi lançada no segundo semestre de 2022, a obra tem percorrido os principais </span><a href="https://portalpopline.com.br/campanha-filme-argentina-1985-oscar/"><span style="font-weight: 400;">festivais internacionais de Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;">, dentre eles, um dos principais: Veneza.</span></p>
<figure id="attachment_29719" aria-describedby="caption-attachment-29719" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29719" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Darin-e-Mitre.png" alt="Fotografia de Ricardo Darín (protagonista da obra) e Santiago Mitre (diretor e produtor) juntos recebendo o Globo de Ouro, prêmio do festival ‘Golden Globe Awards’. Ambos aparecem de smoking, sorridentes e abraçados. Darin está à esquerda e Mitre aparece à direita carregando a estatueta vencedora da categoria de melhor filme estrangeiro. Santiago Mitre é um homem branco, alto, de cabelo liso e barba falhada. Ao fundo da imagem há um banner de identificação do evento." width="512" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-29719" class="wp-caption-text">Vencedores do Globo de Ouro, Darín e Mitre celebraram o Globo de Ouro em clima de Copa do Mundo (Foto: Uol)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Indicado e candidato favorito ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2023</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de Melhor Filme Internacional, a obra é representatividade máxima na América Latina. O trabalho empenhado pelas lentes de Mitre não apenas foi aplaudido pelos críticos durante nove minutos, quando exibido pela primeira vez na cidade italiana, como também consagrou-se vencedor do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/globo-de-ouro/"><span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Depois da Copa do Mundo, é uma grande alegria</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, comemorou </span><a href="https://www.terra.com.br/diversao/entre-telas/filmes/ricardo-darin-comemora-globo-de-ouro-de-argentina-1985-em-clima-de-copa-do-mundo,07550f609cda05bf974e86b920ed5cf4uelgxydv.html"><span style="font-weight: 400;">Ricardo Darín</span></a><span style="font-weight: 400;">, cheio de emoção. Pode-se dizer que tal feito é semelhante à comparação do ator, uma vez que se destacou entre potentes internacionais, como </span><i><span style="font-weight: 400;">Decision to Leave</span></i><span style="font-weight: 400;"> (Coréia do Sul), </span><i><span style="font-weight: 400;">RRR </span></i><span style="font-weight: 400;">(Índia) e </span><a href="https://personaunesp.com.br/nada-de-novo-no-front-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Nada de Novo no Front</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (Alemanha).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vanguarda na arte de fazer excelentes filmes, a Argentina se destaca como um dos países que são referência quando </span><a href="https://www.institutodecinema.com.br/mais/conteudo/10-filmes-para-conhecer-o-cinema-argentino"><span style="font-weight: 400;">o assunto é Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;">. Embora cada obra, diretor, produtor e roteirista tenham perspectivas singulares e distintas, é interessante destacar como a cultura local consegue executar com maestria a transparência dos estereótipos de seu povo. O combo de ricas emoções, contradições e um jeito peculiar de dramatizar assuntos sérios através de um alívio cômico, faz do enredo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985 </span></i><span style="font-weight: 400;">o mais puro </span><a href="https://universoesporte.com.br/maradona-a-despedida-de-um-genio/"><span style="font-weight: 400;">suco argentino possível</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Maradona</span></i><span style="font-weight: 400;">, série bibliográfica sobre o grande ícone e camisa 10 </span><i><span style="font-weight: 400;">hermano</span></i><span style="font-weight: 400;"> é outro exemplo disso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez seja por essa razão que a originalidade e talento dos atores envolvidos no filme</span> <span style="font-weight: 400;">tenha atraído o carisma dos espectadores, sobretudo dos países latinos. Trazer à tona as lembranças de um passado sombrio, infelizmente comum aos países do Cone Sul, é fundamental, não apenas por uma questão de representatividade. Também, para que as sociedades civis destas nações jamais se esqueçam como se deu a </span><a href="https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2023/01/08/bolsonaristas-congresso-policia.htm"><span style="font-weight: 400;">conjuntura golpista</span></a><span style="font-weight: 400;"> que elevou as desigualdades sociais e, ainda hoje, colocam em risco a democracia. </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/12/10/E-se-o-filme-%E2%80%98Argentina-1985%E2%80%99-inspirasse-o-Brasil-de-2023"><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não traz uma história inusitada sobre uma trama de ficção. Ele simboliza o quanto o povo, quando protegido por agentes públicos sérios, é capaz de defender direitos sem passar </span><a href="https://portal.unila.edu.br/editora/livros/e-books/cinelatino.pdf"><span style="font-weight: 400;">panos quentes na história</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Na obra de Roberto Bolaño, a memória é o nosso Amuleto</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2022 19:45:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Soube que tinha de resistir. De modo que me sentei nos ladrilhos do banheiro das mulheres e aproveitei os últimos raios de luz para ler mais três poemas de Pedro Garfias, depois fechei o livro, fechei os olhos e disse para mim: Auxilio Lacouture, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista” (pág. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/amuleto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Na obra de Roberto Bolaño, a memória é o nosso Amuleto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28960" aria-describedby="caption-attachment-28960" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28960 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/CLUBE_WP-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28960" class="wp-caption-text">Com tradução de Eduardo Brandão, Amuleto, de Roberto Bolaño, foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-agosto-de-2022/">Clube do Livro do Persona</a> em Agosto de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Nathália Mendes)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Soube que tinha de resistir. De modo que me sentei nos ladrilhos do banheiro das mulheres e aproveitei os últimos raios de luz para ler mais três poemas de Pedro Garfias, depois fechei o livro, fechei os olhos e disse para mim: Auxilio Lacouture, cidadã do Uruguai, latino-americana, poeta e viajante, resista” </span><span style="font-weight: 400;"><em>(pág. 29)</em>.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">À primeira vista, </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/inimigos-imaginarios"><span style="font-weight: 400;">Roberto Bolaño</span></a><span style="font-weight: 400;"> é lembrado por dois romances – possivelmente os mais importantes da Literatura na América Latina no final do século XX e início do novo milênio: </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535908749/os-detetives-selvagens"><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1998) e </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535916485/2666"><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2003). O último – uma espécie de testamento do autor chileno, lançado postumamente e com quase mil páginas – desfez a ideia de que o apocalipse ocorrerá sob sirenes e explosões; na verdade, o fim do mundo já começou, e é tão silencioso quanto os assassinatos constantes e sigilosos dos jovens latino-americanos. Por outro lado, com seu romance de 1998, Bolaño deu vida à aura libertária das revoltas deste lado da América, sob uma perspectiva idealizada que, não obstante, é ela mesma rechaçada no livro. Ainda assim, é em </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535913637/amuleto"><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1999), lançado entre uma obra e outra, que o autor concentra magistralmente seus temas principais: a poesia, a política e a violência.</span></p>
<p><span id="more-28944"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que o pequeno romance (ou novela) tenha saído de um trecho emblemático de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;"> – se trata de uma versão “expandida” de um capítulo do livro –, a obra funciona muito bem de maneira avulsa, pois sua mensagem ressoa na forma política e no cuidado de Bolaño com a linguagem (as repetições e a poesia “proseada”). A protagonista e narradora, Auxilio Lacouture, uma imigrante uruguaia auto-denominada a “</span><i><span style="font-weight: 400;">mãe de todos os poetas</span></i><span style="font-weight: 400;">”, investiga mentalmente um crime hediondo, que será revelado próximo ao final do romance. Contudo, crimes de vários os tipos perpassam a trama, rememorados por Auxilio no banheiro feminino da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), local onde se esconde após a </span><a href="https://www.esquerda.net/artigo/mexico-o-inicio-do-movimento-estudantil-de-1968/56398"><span style="font-weight: 400;">tomada repentina da universidade pelos militares</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_28945" aria-describedby="caption-attachment-28945" style="width: 825px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28945 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1.png" alt="" width="825" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1.png 825w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-550x800.png 550w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-704x1024.png 704w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-1-1-768x1117.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28945" class="wp-caption-text">Nascido em 1953, em Santiago, Bolaño passou sua adolescência no México e retornou ao Chile após a vitória de Salvador Allende, para “ajudar a construir a revolução” (Foto: Alejandro Yofre)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em setembro de 1968, durante as semanas que Auxílio se mantém escondida, comendo papel higiênico, o pequeno espaço do banheiro se transforma em um túnel do tempo, no qual a personagem revive seus anos na Cidade do México, lembrando dos poetas </span><a href="http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/espanha/leon_felipe.html"><span style="font-weight: 400;">León Felipe</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/espanha/pedro_garfias.html"><span style="font-weight: 400;">Pedro Garfias</span></a><span style="font-weight: 400;"> – pelos quais trabalhou como doméstica, de forma voluntária, para ficar mais próxima da poesia –, e também viajando para o futuro, quando conheceu, nos anos 1970, o jovem </span><a href="https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8145/tde-01082019-164843/pt-br.php"><span style="font-weight: 400;">Arturo “Arturito” Belano</span></a><span style="font-weight: 400;"> – o alter-ego do próprio Roberto Bolaño. A forma não-linear com que se lembra dos acontecimentos talvez sintetize o trauma de Lacouture, mas mais do que isso, trata-se de um mecanismo, quase sempre utilizado pelo autor para dar vida a uma realidade fragmentada: a “real” e cotidiana, e a “subjetiva”, memorialística.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como o romance antecessor, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta o conflito do idealismo de uma geração com a realidade latino-americana. A verdade é que o ambiente claustrofóbico do banheiro se transforma, para Auxilio, em uma espécie de </span><a href="https://www.blogletras.com/2019/08/a-descoberta-da-realidade-em-o-aleph-de.html"><i><span style="font-weight: 400;">Aleph</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – do conto de </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">Jorge Luis Borges</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma das principais referências do chileno –, em que se pode, paradoxalmente, enxergar o passado, o presente e futuro de uma só vez. Mas mesmo quando seus livros se repetem – sejam em temas ou em enredo, propriamente –, Bolaño nunca deixa de acrescentar novas informações, dando vida a uma espécie de obra infinita. O título de </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, tem sua única explicação em </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;">: “</span><i><span style="font-weight: 400;">A </span></i><span style="font-weight: 400;">[avenida] </span><i><span style="font-weight: 400;">Guerrero, a essa hora, se parece mais que tudo com um cemitério </span></i><span style="font-weight: 400;">[&#8230;]</span><i><span style="font-weight: 400;">, mas com um cemitério de 2666, um cemitério escondido debaixo de uma pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo</span></i><span style="font-weight: 400;">” (pág. 65).</span></p>
<figure id="attachment_28947" aria-describedby="caption-attachment-28947" style="width: 1960px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28947 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio.jpeg" alt="" width="1960" height="1331" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio.jpeg 1960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-800x543.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1024x695.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-768x522.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1536x1043.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/auxilio-1200x815.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28947" class="wp-caption-text">Alcira Scaffo, a verdadeira Auxilio Lacouture, se tornou uma lenda do movimento estudantil mexicano, após resistir à invasão militar na UNAM (Foto: Arquivo MUAC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O escritor chileno entrelaça fato e ficção de forma natural, sempre carregando uma ampla carga histórica por volta do enredo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> – assim como no capítulo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;"> –, Auxilio Lacouture é baseada em uma pessoa real: no histórico ano de </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2018/01/04/nos-50-anos-de-1968-relembre-11-fatos-que-abalaram-o-mundo"><span style="font-weight: 400;">1968</span></a><span style="font-weight: 400;">, momento em que o exército mexicano realmente reprimiu manifestantes na Cidade do México, a poetisa </span><a href="https://elpais.com/mexico/2022-06-30/el-laberinto-de-alcira-soust-scaffo.html"><span style="font-weight: 400;">Alcira Soust Scaffo</span></a><span style="font-weight: 400;"> manteve-se escondida no banheiro da UNAM, pós tomada da Cidade Universitária pelos militares. Ela sobreviveu bebendo apenas água da torneira durante os 12 dias que se manteve escondida. Assim como Auxilio, Scaffo foi amiga de León Felipe, e Bolaño a conheceu pessoalmente em 1970.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em diversos momentos, a tensão sobre a produção cultural na América Latina domina a narrativa, e, diante dos atos repressivos na trama, são construídas metaficções cujo objetivo é refletir sobre a violência e uma forma </span><a href="https://www.ndbooks.com/book/the-melancholy-of-resistance/"><span style="font-weight: 400;">melancólica de resistência</span></a><span style="font-weight: 400;">. É nesse sentido que o filósofo </span><a href="https://jacobin.com.br/2021/07/sobre-o-conceito-de-historia/"><span style="font-weight: 400;">Walter Benjamin</span></a><span style="font-weight: 400;">, através do ensaio </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre o conceito da história </span></i><span style="font-weight: 400;">(1940), ascende como referência. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve Benjamin, visto que os bens culturais são concebidos através da perspectiva do horror.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Esta será uma história de terror. Será uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz”</span><em><span style="font-weight: 400;"> (pág. 9).</span></em></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O nome de Auxilio Lacouture sinaliza para os dois objetivos de sua história, narrada por ela própria, através de um jogo de palavras que não parece coincidência. Enquanto “Auxilio” em espanhol realmente signifique “ajuda”, “Lacouture” tem uma sonoridade parecida com “</span><i><span style="font-weight: 400;">la cultura</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Assim, seria uma espécie de “pedido de socorro da Cultura”, que se vê ameaçada por forças externas, ao mesmo tempo em que Auxilio luta para não deixar que </span><a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/mnemosine/article/view/57667"><span style="font-weight: 400;">ninguém se esqueça</span></a><span style="font-weight: 400;"> daquele momento histórico. Ainda assim, Bolaño é sempre perspicaz ao deixar pistas de interpretação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O romance se abre com o aviso de que será uma história de terror, cuja afirmação ganha importância, de forma cíclica, ao final, quando – após revelado toda a barbárie – percebemos que nos deixamos levar por essa narradora pouco confiável. Não porque não seja verdadeira – ou que não queira realmente transmitir o ocorrido –, mas porque suas memórias estão em ebulição e, por isso, confusas e delirantes, de modo que a trama “</span><i><span style="font-weight: 400;">não parecerá</span></i><span style="font-weight: 400;">” uma narrativa de terror, mas uma ode à memória histórica e à poesia. O pano de fundo violento é não somente o cenário tenebroso avisado desde o ínicio, mas também é seu aviso final: </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> relembra que esquecer os horrores da </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-tio-jose-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ditadura</span></a><span style="font-weight: 400;"> leva o terror ao esquecimento, deixando à História sua inevitável repetição. Auxilio Lacouture é, sozinha, a única resistência contra as forças fascistas.</span></p>
<figure id="attachment_28948" aria-describedby="caption-attachment-28948" style="width: 747px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28948 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2.png" alt="" width="747" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2.png 747w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2-498x800.png 498w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-2-637x1024.png 637w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28948" class="wp-caption-text"><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/cultura/1504371372_289461.html">Patti Smith</a> considera 2666, de Bolaño, a “primeira obra-prima do século 21” (Foto: Basso Cannarsa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase toda a ficção de Bolaño se preocupa com a vida dos escritores, especialmente dos poetas marginais – seus “poetas-protagonistas” tendem a ser párias empobrecidos, isolados do </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;"> literário. O próprio autor se via antes de tudo como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/08/poesia-da-pre-historia-de-roberto-bolano-chega-em-edicao-arriscada.shtml"><span style="font-weight: 400;">um poeta</span></a><span style="font-weight: 400;">, e começou a escrever romances e contos porque a poesia “</span><i><span style="font-weight: 400;">não pagava as contas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Não muito diferente do que acontece com a maioria dos ficcionistas, a vida do chileno foi essencialmente sua fonte de inspiração (ele até possuía um cartão impresso com os escritos “</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1012200809.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Poeta e Vagabundo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O “Realismo Visceral”, movimento literário que Ulisses Lima e Arturo Belano fazem parte em </span><i><span style="font-weight: 400;">Os detetives selvagens</span></i><span style="font-weight: 400;">, é apenas outro nome para o “</span><a href="https://www.revistas.usp.br/clt/article/view/160695"><span style="font-weight: 400;">Infrarrealismo</span></a><span style="font-weight: 400;">”, criado por Roberto Bolaño e </span><a href="http://confrariadovento.blogspot.com/2014/04/4-poemas-de-mario-santiago-papasquiaro.html"><span style="font-weight: 400;">Mario Santiago Papasquiaro</span></a><span style="font-weight: 400;"> – a quem </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto </span></i><span style="font-weight: 400;">é dedicado – em 1975, na Cidade do México, no qual se negava nomes como </span><a href="https://www.ebiografia.com/octavio_paz/"><span style="font-weight: 400;">Octavio Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, vencedor do </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/10/06/annie-ernaux-escritora-francesa-ganha-premio-nobel-de-literatura-2022.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Nobel de Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1990 e condenado por Bolaño por ser o “</span><i><span style="font-weight: 400;">líder do </span></i><span style="font-weight: 400;">establishment </span><i><span style="font-weight: 400;">cultural mexicano</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os infrarrealistas atacavam essa ordem ideológica porque, através dela, se criou uma cisão entre a “alta cultura” e a “cultura popular”, mantendo sempre uma diferenciação na qual se classificava a “alta cultura” como única forma autêntica de manifestação artística. Por essa razão, o movimento também se notabilizou por sabotar lançamentos de livros, cerimônias de premiação e atividades literárias gerais de poetas pertencentes a esse mundo da “alta cultura”.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Pensei: a vaidade da escrita, a vaidade da destruição. Pensei: porque escrevi, resisti. Pensei: porque destruí o escrito vão me descobrir, vão me pegar, vão me violentar, vão me matar. Pensei: ambos os fatos estão relacionados, escrever e destruir, se esconder e ser descoberta. Depois me sentei no trono e fechei os olhos” </span><em><span style="font-weight: 400;">(pág. 125).</span></em></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Antecedendo o que seria sua obra máxima, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> insere uma protagonista feminina vítima de violência. Tempos depois, em </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">, o mote da história gira em torno do feminicídio na fronteira México-Estados Unidos, cujo assassinato de diversas mulheres em Santa Teresa levanta mistérios. Esses homicídios vêm ocorrendo há anos (o romance se passa na década de 1990), e os culpados – ou culpado – seguem desconhecidos. Santa Teresa é uma versão ficcional de Ciudad Juárez, uma verdadeira cidade fronteiriça mexicana que se tornou notória nesse período pelo grande número de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38183545"><span style="font-weight: 400;">mulheres assassinadas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por vários anos, quase semanalmente, os corpos de mulheres jovens – algumas com 11 ou 12 anos – apareciam no deserto ao redor da cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A maioria das vítimas eram trabalhadoras nas maquiladoras da cidade (fábricas de propriedade norte-americana), e muitos corpos sequer foram identificados. Embora várias prisões tenham sido feitas, nunca se estabeleceu um único assassino ou grupo de assassinos que estavam por trás dos crimes. Nos últimos anos de vida, Roberto Bolaño se tornou obcecado pela brutalidade e mistério em torno desses delitos: como algo tão bárbaro e cotidiano pode passar despercebido? Como pode se tornar habitual? Assim, ele começou a trocar correspondências com jornalistas que cobriam ou cobriram casos passados no local, pedindo aspectos específicos dos assassinatos – como os detalhes forenses –, mas também características geográficas da </span><a href="http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI205728-17737,00-JUAREZ+A+CIDADE+QUE+ODEIA+AS+MULHERES.html"><span style="font-weight: 400;">Ciudad Juárez</span></a><span style="font-weight: 400;">, reconstruídas com precisão nas páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">2666</span></i><span style="font-weight: 400;">. Essa violência, inclusive, está presente no título do próprio romance: trata-se do número da besta duas vezes – uma violência que, após se tornar naturalizada, torna-se maior que o próprio Apocalipse.</span></p>
<figure id="attachment_28950" aria-describedby="caption-attachment-28950" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28950 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3.jpg" alt="" width="1600" height="1096" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-800x548.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1024x701.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-768x526.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1536x1052.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/imagem-3-1200x822.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28950" class="wp-caption-text">Com 2666, Roberto Bolaño se tornou um dos poucos escritores latino-americanos a vencer o National Book Critics Circle Awards (Foto: Anna Oswaldo-Cruz Lehner)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;"> condensa, em pouco mais de 100 páginas, todo o interesse de Roberto Bolaño pela violência. A origem desse ímpeto está relacionada não apenas com sua própria juventude – um jovem pobre do Chile que, se não fosse escritor, seria detetive ou delegado, e que, mesmo após publicar livros, vendia bijuterias para sobreviver –, mas também com sua própria maneira de enxergar a Literatura: uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">vocação perigosa</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bolaño analisa que a América Latina é toda constituída pela concepção da violência, em suas diversas facetas, e como ele próprio profere no famoso </span><a href="https://estrelaselvagem.wordpress.com/2010/04/25/discurso-de-caracas-pt-1/"><i><span style="font-weight: 400;">Discurso de Caracas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1999), “</span><i><span style="font-weight: 400;">toda a América Latina está semeada com os ossos destes jovens esquecidos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Auxilio, “</span><i><span style="font-weight: 400;">a mãe de todos os poetas</span></i><span style="font-weight: 400;">”, é também a &#8220;mãe&#8221; da memória histórica do México e do Chile. Esquecer tudo é o maior pesadelo de Lacouture, e embora os gritos de protesto e indignação sejam aquilo que ressoa em sua memória, embora o canto das revoltas seja aquilo que ela e nós mantemos ressoando em nossas cabeças, é esse mesmo som que nos permite recordar; “</span><i><span style="font-weight: 400;">esse canto é o nosso Amuleto</span></i><span style="font-weight: 400;">” (pág. 131).</span></p>
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		<title>A arte berra em Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2021 17:06:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto “Arte não é um privilégio do artista, é um direito do ser humano”. É com essa e outras contestações que abre-se Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro, parte do acervo da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O ponto de partida é Ziraldo, “o Michelangelo da boemia carioca”, um dos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ziraldo-uma-obra-que-pede-socorro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A arte berra em Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24504" aria-describedby="caption-attachment-24504" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24504" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4.jpg" alt="Imagem retangular e colorida retirada do documentário ‘Ziraldo - Uma Obra que Pede Socorro’. Nela, vemos em foco Ziraldo, um homem de idade avançada, pele parda, cabelos e sobrancelhas brancos, que veste uma camisa branca com um colete bordado bege e preto. Ele olha para cima, pensativo, enquanto coloca o dedo indicador da mão direita sobre a boca, em sinal de reflexão." width="1600" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-800x550.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1024x704.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-768x528.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1536x1056.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1200x825.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24504" class="wp-caption-text">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro, exibido pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é a única produção da seção Apresentação Especial disponibilizada online (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Arte não é um privilégio do artista, é um direito do ser humano”</span></i><span style="font-weight: 400;">. É com essa e outras contestações que abre-se </span><a href="https://45.mostra.org/filmes/ziraldo---uma-obra-que-pede-socorro-"><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, parte do acervo da 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo. O ponto de partida é Ziraldo, </span><i><span style="font-weight: 400;">“o Michelangelo da boemia carioca”</span></i><span style="font-weight: 400;">, um dos artistas mais geniais da história contemporânea do Brasil. Aprendemos um pouco mais sobre seu talento e ofício, agora por entre lentes pouco exploradas. Todavia, o documentário vai muito além da pessoa Ziraldo. Além de um panorama singular sobre sua obra, o que se apresenta aqui é um comentário amplo sobre a urgência da atual situação das artes no Brasil e como a cultura do país é constantemente negligenciada em diferentes esferas sociais. O resultado é uma poderosa denúncia e um clamor por socorro.</span></p>
<p><span id="more-24503"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ziraldo ostenta uma </span><a href="https://www.todamateria.com.br/ziraldo/"><span style="font-weight: 400;">pluralidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> de competências, isso todo mundo sabe. Mas alguns de seus trabalhos sempre recebem maior destaque, e com razão. Seja sua atuação como escritor de Literatura infanto-juvenil, com obras como </span><a href="https://culturadoria.com.br/o-menino-maluquinho/"><i><span style="font-weight: 400;">O Menino Maluquinho</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://judao.com.br/a-mata-do-fundao-e-aqui-a-historia-da-turma-do-perere-do-ziraldo-virou-documentario/"><i><span style="font-weight: 400;">A Turma do Pererê</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que se entranharam no inconsciente cultural do país, ou suas contribuições como cartunista n’</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/lancado-ha-50-anos-pasquim-provocou-ditadura-e-costumes.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">O Pasquim</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com seu traço irreverente e humor crítico e contestador, quando também </span><a href="https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ziraldo-e-jaguar-serao-indenizados-por-periodo-militar,151420"><span style="font-weight: 400;">foi preso</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo até então regime militar em 1968. Devido a isso, pouco se discute sobre a riquíssima presença de Ziraldo nas artes plásticas, que está longe de </span><a href="http://www.achabrasilia.com/zerois/"><span style="font-weight: 400;">ser ocasional</span></a><span style="font-weight: 400;">. É, então, sabendo disso que o documentário de </span><a href="https://45.mostra.org/diretores/guga-dannemann-"><span style="font-weight: 400;">Guga Dannemann</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://guia.folha.uol.com.br/teatro/2018/07/musical-zeca-pagodinho-uma-historia-de-amor-ao-samba-narra-vida-do-sambista.shtml"><span style="font-weight: 400;">seu segundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aponta para tal caminho tão atípico.</span></p>
<figure id="attachment_24505" aria-describedby="caption-attachment-24505" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24505" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3.jpg" alt="Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos, da cintura para cima, Ziraldo, um homem de idade avançada, pele parda, cabelos e sobrancelhas brancos, que veste uma camisa amarela, um colete branco e uma calça jeans. Ele olha para frente, enquanto se apoia na parede, sorridente. Na parede, pode-se ver o mural do Canecão, uma das obras mais icônicas de Ziraldo. A imagem de destaque da pintura é um guerreiro em uma armadura medieval e um jacaré brindando com copos de cerveja, em cima de uma lua, com olhos, boca e nariz. O traço da obra é arredondado e geométrico." width="1140" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3.jpg 1140w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-800x487.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-1024x623.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24505" class="wp-caption-text">Ziraldo é também responsável pelo pôster e identidade visual da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, sendo homenageado em dois documentários do evento (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse âmbito, a principal referência do longa é a, considerada por muitos, obra-prima sublime de Ziraldo: a </span><a href="https://artsandculture.google.com/exhibit/mural-do-canec%C3%A3o-ziraldo/rQLimA1XhGDAKw?hl=pt-BR"><i><span style="font-weight: 400;">Santa Ceia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um enorme mural de 32 metros de largura e 6 metros de altura, que o artista pintou nas paredes do que foi uma das maiores casas de </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;"> do Rio de Janeiro: o </span><a href="https://diariodorio.com/historia-do-canecao/"><span style="font-weight: 400;">Canecão</span></a><span style="font-weight: 400;">, em Botafogo. Feito por cerca de 6 meses em 1967, em plena ditadura, o painel pretendia reconstruir e reinterpretar o afresco de Leonardo Da Vinci, </span><a href="https://istoe.com.br/20-curiosidades-sobre-a-ultima-ceia-obra-prima-de-leonardo-da-vinci/"><i><span style="font-weight: 400;">A Última Ceia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, através dos seus traços mais arredondados e cartunizados. A obra oferece uma potente riqueza estética, e bebe essencialmente da fonte do cubismo, especialmente do quadro </span><a href="https://istoe.com.br/16-coisas-que-talvez-voce-nao-saiba-sobre-guernica-obra-prima-de-picasso/"><i><span style="font-weight: 400;">Guernica</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, trabalho de Pablo Picasso, que também é referenciado com frequência durante o filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de Dannemann</span> <span style="font-weight: 400;">monta um quebra-cabeças de entrevistas feitas com especialistas e pessoas próximas de Ziraldo – </span><a href="https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2021/06/01/zuenir-ventura-chega-aos-90-anos-vacinado-celebrando-a-vida-mas-critica-era-do-cinismo-e-do-deboche.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Zuenir Ventura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://www.revistause.com.br/curitiba-pelas-maos-do-iconico-artista-plastico-juarez-machado/"><span style="font-weight: 400;">Juarez Machado</span></a><span style="font-weight: 400;"> são exemplos de figuras que marcam o filme –, além do próprio. Devido a isso, o apelo visual é mínimo, contudo, a riqueza dos relatos consegue sustentar a obra de maneira formidável. Além disso, o tom encontrado pelo documentário (</span><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo, Lifelong Work of Art Crying for Help</span></i><span style="font-weight: 400;"> em inglês) parece ideal. Geralmente descontraído, transmitindo a alegria, beleza e nostalgia das memórias do mural e do caráter comunitário e coletivo da produção, porém encontrando o perfeito equilíbrio quando demanda seriedade e concebe suas críticas.</span></p>
<figure id="attachment_24506" aria-describedby="caption-attachment-24506" style="width: 1265px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24506" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3.jpg" alt="Fotografia retangular e preto e branco. Nela está, em cima de um andaime de madeira, Ziraldo, um homem de pele parda e cabelos escuros, que veste uma camisa polo branca e uma bermuda cinza. Ele está com um cigarro na boca, e revira uma cartolina branca. Do lado dele, está uma mulher branca, de cabelos longos e escuros presos, vestindo uma camisa social branca e uma calça preta. Ela segura seu óculos na mão direita, e observa atentamente as ações de Ziraldo. Em cima do andaime, vemos uma cadeira, escada e equipamentos de pintura. Na parede, vemos parte incompleta do mural do Canecão, obra icônica de Ziraldo." width="1265" height="760" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3.jpg 1265w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-800x481.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-1200x721.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24506" class="wp-caption-text">O mural, que retratava um jantar regrado por cerveja e por um forte espírito carioca, foi alvo de críticas e considerado transgressor pelo regime militar. (Foto: Antonio Rudge)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Posto isso, nos envolvemos na história que formou o mural do Canecão e, no entanto, logo somos introduzidos ao seu lado sombrio, e a motivação real do documentário. Infelizmente, o painel não resistiu ao teste do tempo. Mas isso não veio por desgastes físicos naturais, quem dera. Visando expandir o estabelecimento, hoje fora de funcionamento, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2015-01/ufrj-cria-laboratorio-para-restaurar-mural-de-ziraldo-no-antigo-canecao"><span style="font-weight: 400;">partes do mural</span></a><span style="font-weight: 400;"> foram cobertas, apagadas ou destruídas, expressando completo desrespeito com uma das obras brasileiras mais importantes da segunda metade do século XX. A UFRJ, atual proprietária do local, aprovou um </span><a href="http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/ziraldo-celebra-restauracao-de-mural-santa-ceia-que-pintou-no-canecao.html"><span style="font-weight: 400;">projeto de restauração</span></a><span style="font-weight: 400;"> da criação de Ziraldo em 2015, mas que nunca foi efetivada por </span><a href="https://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2021/04/educacao-e-a-area-mais-atingida-pelos-cortes-orcamentarios-de-bolsonaro/"><span style="font-weight: 400;">falta de orçamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> no processo. Neste momento, a universidade cogita </span><a href="https://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2019/12/12/ufrj-planeja-conceder-predios-abandonados-para-cobrir-custos-inclusive-o-canecao.htm"><span style="font-weight: 400;">conceder o prédio</span></a><span style="font-weight: 400;"> à iniciativa privada, buscando investimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Investigando um incidente particular com a obra de um dos maiores artistas brasileiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</span></i><span style="font-weight: 400;"> descobre um fenômeno muito, muito mais grave. E que já não é mais novidade. Desde os incêndios anunciados do </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/especialistas-da-usp-avaliam-perda-com-incendio-do-museu-nacional/"><span style="font-weight: 400;">Museu Nacional do Rio de Janeiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e da </span><a href="https://www.instagram.com/p/CR-QIjphwgV/"><span style="font-weight: 400;">Cinemateca Brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;">, até a depravação e descarte de obras artísticas, como é o caso do mural do Canecão e </span><a href="https://www.artequeacontece.com.br/relembre-incendios-que-destruiram-grandes-acervos-de-arte-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">muitos outros</span></a><span style="font-weight: 400;">; são apenas sintomas de um projeto deliberado de </span><a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2021/05/oab-entra-com-acao-contra-desmonte-da-cultura-pelo-governo-bolsonaro/"><span style="font-weight: 400;">desmonte cultural</span></a><span style="font-weight: 400;">, capitaneado pelo </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/09/30/gestao-da-cultura-do-governo-bolsonaro-e-considerada-a-pior-das-ultimas-decadas-dizem-artistas"><span style="font-weight: 400;">governo Bolsonaro</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas cuja raiz surge de uma problemática estrutural. Aprendemos a desvalorizar a nossa cultura do berço, de modo que presenciamos a arte nacional ser apagada, bem diante de nossos olhos, sem que nenhuma providência seja tomada. Porém, a Arte não perece, pelo contrário, passa a berrar cada vez mais alto. E, se ela pede por socorro, talvez devêssemos atendê-lo.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TRAILER - ZIRALDO Uma Obra que pede socorro." width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/zCw40n3QKsY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Era melhor quando o Amanhecer não chegava</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Nov 2021 20:14:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez De filmes que denunciam e encaram ataques à humanidade de frente a outros que se aprofundam nas consequências sociais e emocionais, os recorrentes conflitos no Leste Europeu acharam na Arte lugar para serem refletidos e relembrados. Amanhecer, coprodução entre Croácia e Itália dirigida por Dalibor Matanic, torce a abordagem dramática em uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/amanhecer-zora-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Era melhor quando o Amanhecer não chegava"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24384" aria-describedby="caption-attachment-24384" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24384" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1.jpg" alt="Cena do filme Amanhecer. Na imagem, em uma paisagem montanhosa com uma gramado baixo e algumas árvores baixas espalhadas, vemos, ao centro, um homem branco, de cabelos lisos na altura do ombro, sem camisa e de calças jeans, sentado em uma cadeira de madeira e virado de costas para a câmera. Ao redor dele, vemos cadeiras de madeira idênticas à qual ele está sentado, caídas espalhadas pela grama." width="2048" height="858" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1-1536x644.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-1-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24384" class="wp-caption-text">Amanhecer se dividiu entre as salas de cinema e as exibições online da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na qual integrou a seção Perspectiva Internacional (Foto: Kinorama)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De filmes que denunciam e encaram </span><a href="https://personaunesp.com.br/quo-vadis-aida-critica/"><span style="font-weight: 400;">ataques à humanidade de frente</span></a><span style="font-weight: 400;"> a outros que se aprofundam nas </span><a href="https://personaunesp.com.br/colmeia-critica/"><span style="font-weight: 400;">consequências sociais e emocionais</span></a><span style="font-weight: 400;">, os recorrentes conflitos no Leste Europeu acharam na Arte lugar para serem refletidos e relembrados. </span><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer</span></i><span style="font-weight: 400;">, coprodução entre Croácia e Itália dirigida por Dalibor Matanic, torce a abordagem dramática em uma distopia fantasiosa, estreando no Brasil na 45</span><span style="font-weight: 400;">ª</span> <a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, como parte da seção Perspectiva Internacional. Usando de simbologias, significados ocultos e muito mistério, o longa-metragem exibido no Festival de Karlovy Vary, tradicional do país de origem, imagina possibilidades a partir do passado croata.</span></p>
<p><span id="more-24383"></span></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qCTsBKyVr8U"><i><span style="font-weight: 400;">Zora</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o nome original da produção, se passa em um futuro próximo e em um </span><a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><span style="font-weight: 400;">cenário isolado</span></a><span style="font-weight: 400;"> em meio às montanhas, onde Matija (Kresimir Mikic) vive com sua mulher, Ika (Tihana Lazavic), e os dois filhos do casal. As ameaças constantes do radicalismo e do autoritarismo vigentes na região fazem com que o protagonista, assim como fizeram os seus vizinhos, queira se mudar de lá. Porém, com o relacionamento apático em crise, uma tragédia familiar não solucionada e a mudança de um misterioso homem para o terreno ao lado, os dias tediosos e os planos em andamento de Matija são revirados.</span></p>
<figure id="attachment_24385" aria-describedby="caption-attachment-24385" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24385" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-2.jpg" alt="Cena do filme Amanhecer. Em uma imagem em primeiro plano, em que os personagens aparecem dos ombros para cima, vemos, do lado esquerdo, um menino branco, de cabelos loiros curtos, vestindo um casaco azul, em desfoque e de costas para a câmera. Do lado direito, vemos um homem branco, de cabelos pretos lisos e despenteados na altura da orelha, barba comprida e grisalha, aparentando cerca de 40 anos, vestindo uma blusa azul e um casaco preto, encarando o menino e segurando o rosto dele com a mão esquerda." width="668" height="344" /><figcaption id="caption-attachment-24385" class="wp-caption-text">Sol a Pino, filme anterior do diretor Dalibor Matanic, foi exibido na mostra Un Certain Regard de Cannes, onde venceu o Prêmio do Júri (Foto: Kinorama)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De cara, a quietude e calmaria de </span><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer </span></i><span style="font-weight: 400;">são enfatizadas pela fotografia fria e estática de Marco Brdar. Em casa, nas paisagens montanhosas e até no bar local, assistimos ao cotidiano pacato dos protagonistas e o tédio vivido por eles atravessa a tela: é só depois de mais de uma hora de filme que o interesse finalmente desperta. Quando o forasteiro se instala na cidade e o maçante dia a dia de Matija é abalado, o roteiro, também responsabilidade do diretor </span><a href="https://cineuropa.org/es/interview/395564/"><span style="font-weight: 400;">Dalibor Matanic</span></a><span style="font-weight: 400;">, parece começar a engatar, e a curiosidade quanto às ameaças é amplificada pela aura misteriosa e de suspense.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O recém-chegado compartilha o nome de Matija, se muda para o terreno vizinho e passa a construir uma casa idêntica à dele. Enquanto isso, a família passa por seus próprios conflitos. As crianças, excepcionalmente interpretadas por Lara Vladovic e Maks Kleoncic, tentam não se deixar abalar pela chatice da vida que levam, Ika sofre com a perda de um dos filhos do casal e Matija aparenta só existir ali, sem demonstrar sentimentos, irritações ou qualquer reação que evoque alguma empatia ou solidariedade no espectador. Passar da primeira uma hora de </span><a href="https://www.croatiaweek.com/award-winning-croatian-film-the-dawn-to-premiere-on-hbo/"><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é um verdadeiro desafio.</span></p>
<figure id="attachment_24386" aria-describedby="caption-attachment-24386" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24386" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3.jpg" alt="Cena do filme Amanhecer. Em um cômodo que aparenta ser a sala de uma casa, com uma janela iluminada ao fundo, vemos, ao centro, uma menina branca, de cabelos castanhos lisos e longos, aparentando cerca de 10 anos, vestindo um casaco preto e usando fones de ouvido azul, pendurados no pescoço. Atrás dela, em desfoque, vemos uma mulher branca, de cabelos castanhos longos, inclinada para frente." width="2048" height="857" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3-768x321.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3-1536x643.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-3-1200x502.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24386" class="wp-caption-text">Segundo o diretor Dalibor Matanic, Amanhecer é o segundo filme da Trilogia do Sol, que começou com seu outro longa, Sol a Pino (Foto: Kinorama)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A esperança da melhora no ritmo vem quando Matija (forasteiro, não o protagonista) bate à porta de Matija (esse sim o protagonista) e o informa que tomará seu lugar, como homem, marido e pai das crianças. A partir daí, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer </span></i><span style="font-weight: 400;">finalmente começa, mas não vai muito além. Já ficou claro que o substituto do protagonista, como ele se impõe, faz parte da intimação autoritária e que há um subtexto acerca de religiões ou grupos étnicos, que remetem aos conflitos no </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/guerra-bosnia.htm"><span style="font-weight: 400;">passado da Croácia</span></a><span style="font-weight: 400;">. Só que as relações não passam da livre interpretação, já que em nenhum momento o filme traça paralelos minimamente mais claros com a realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não que a grande ameaça inspirada no real precise ser nomeada &#8211; e não é &#8211; mas as simbologias ocultas usadas pelo </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=b-UJgKEsLhY"><span style="font-weight: 400;">diretor</span></a><span style="font-weight: 400;"> tornam </span><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer </span></i><span style="font-weight: 400;">uma metáfora específica demais para se sustentar apenas por si só. Nisso, entra outra Matija na história, dessa vez uma fanática religiosa. Com isso, a distopia não necessariamente se apoiaria no radicalismo que atinge a região &#8211; esse que só é identificável porque a sinopse deu a dica -, mas a relação entre os personagens, os mistérios da trama e a tragédia familiar, que aparentemente tem dedo do caçula da família no meio, também não passam de menções e referências misteriosas.</span></p>
<figure id="attachment_24387" aria-describedby="caption-attachment-24387" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24387" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-4.jpeg" alt="Cena do filme Amanhecer. Sentados lado a lado em um banco e em frente a uma parede de madeira acinzentada, vemos, da cintura para cima, uma menina branca, de cabelos castanhos lisos e longos, aparentando cerca de 10 anos, vestindo uma touca preta, um casaco cinza e com fones de ouvidos azuis pendurados no pescoço, à esquerda, e um homem branco, de cabelos pretos lisos na altura da orelha, barba grisalha, aparentando cerca de 40 anos, vestindo um casaco preto, à direita. " width="900" height="540" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-4.jpeg 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-4-800x480.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/zora-4-768x461.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24387" class="wp-caption-text">Três Matijas são Matijas demais (Foto: Kinorama)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A reviravolta que o longa encara em seu encerramento é talvez a única parte em que uma mensagem possa ser tirada. Na confusão de cores e danças da sequência final, quando a luz do dia finalmente chega, fica claro o caráter completamente </span><a href="https://personaunesp.com.br/mar-infinito-critica/"><span style="font-weight: 400;">metafórico</span></a><span style="font-weight: 400;"> do filme, que pode querer indicar o conflito entre gerações e ideologias, tão perto, mas tão isolados naquele mesmo território. Apesar de culminar em um fechamento sem precedentes, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amanhecer </span></i><span style="font-weight: 400;">termina como começou: uma grande alegoria, livre para interpretação, </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-inventados-critica/"><span style="font-weight: 400;">aberta demais</span></a><span style="font-weight: 400;"> para conceder </span><a href="https://personaunesp.com.br/um-heroi-asghar-farhadi-critica/"><span style="font-weight: 400;">qualquer resposta</span></a><span style="font-weight: 400;">. Diferentemente da vida real, se é que a relação é tão próxima assim, era melhor quando o amanhecer não chegava. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="THE DAWN Trailer | PÖFF 2020" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/qCTsBKyVr8U?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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