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	<title>Arquivos Folclore brasileiro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O folclore sou eu: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 19:10:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Na Semana de 1922, o maestro já demonstrava seu esforço em trazer elementos do folclore brasileiro à Música Clássica Bruno Andrade No dia 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, o público acomodou-se de forma lenta e espaçada, aguardando a apresentação de um músico carioca, tido como o mais conceituado da &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/heitor-villa-lobos-e-a-musica-modernista-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O folclore sou eu: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Na Semana de 1922, o maestro já demonstrava seu esforço em trazer elementos do folclore brasileiro à Música Clássica</em></p>
<figure id="attachment_26040" aria-describedby="caption-attachment-26040" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-26040 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está sentado em um piano, com a mão direita sobre as teclas, inclinado à lateral, com a cabeça virada para a direita. Ele está com um charuto na boca. Villa-Lobos é um homem branco, veste um terno de cor cinza com listras de cor branca e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas. O piano é de cor preta." width="1500" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26040" class="wp-caption-text">Tido como o principal musicista da Semana de Arte Moderna, Heitor Villa-Lobos teve repercussão internacional, marcando-o como o maior maestro e compositor clássico brasileiro (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, o público acomodou-se de forma lenta e espaçada, aguardando a apresentação de um músico carioca, tido como o mais conceituado da </span><a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/02/11/semana-de-arte-moderna-de-22-reportagens-e-documentarios-mostram-legado-do-movimento-cultural-em-sao-paulo-e-no-brasil.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte Moderna</span></a><span style="font-weight: 400;"> e um dos maestros brasileiros mais promissores já à época do evento. O musicista fazia parte de três dias da programação da Semana, e, ao ser convidado para integrá-la, estava às vésperas de completar 35 anos. Para sua estreia no palco paulistano, ele selecionou o que de mais representativo havia produzido em </span><a href="https://souzalima.com.br/blog/o-que-e-musica-de-camara/"><span style="font-weight: 400;">música de câmara</span></a><span style="font-weight: 400;"> nos anos anteriores. Não demorou para que o compositor, vestindo casaca e calçando, em um pé, sapato, e, no outro, chinelo, surgisse no palco, seguido por vaias e urros de negação. A plateia havia interpretado o uso do chinelo como puro desrespeito; aparentemente, era apenas um machucado no dedão – mas pode bem ser que não fosse. De qualquer forma, o espetáculo pôde enfim começar: </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa11902/heitor-villa-lobos"><span style="font-weight: 400;">Heitor Villa-Lobos</span></a><span style="font-weight: 400;"> chegou.</span></p>
<p><span id="more-26038"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido em 5 de março de 1887, no Rio de Janeiro, Villa-Lobos teve sua consagração através de um esforço em integrar elementos nacionalistas e ritmos ligados à cultura afro-brasileira e indígena, jogando luz a uma faceta da cultura nacional que muitas vezes mantinha-se à margem dos musicistas clássicos. Em suas obras maiores, atingiu um tom ufanista, e misturou complexos padrões rítmicos da Música brasileira com multi-tonalidade, influenciado por </span><a href="https://www.concerto.com.br/noticias/arquivo/acervo-concerto-vida-de-igor-stravinsky"><span style="font-weight: 400;">Stravinsky</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/temas/darius-milhaud-no-brasil"><span style="font-weight: 400;">Milhaud</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, combinou elementos da Música popular e da tradição musical europeia, impulsionando, invariavelmente, o Brasil na rota da Música Clássica do século XX.</span></p>
<figure id="attachment_26041" aria-describedby="caption-attachment-26041" style="width: 1197px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-26041 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está regendo uma orquestra. Na mão direita, segura uma batuta de maestro, de cor branca, enquanto a mão esquerda faz um gesto de regência. Ele está vestindo um terno de cor preta. Villa-Lobos é um homem branco, e possui cabelos pretos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo. O fundo da imagem é preto." width="1197" height="1266" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2.jpg 1197w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-756x800.jpg 756w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-968x1024.jpg 968w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-2-768x812.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26041" class="wp-caption-text">Villa-Lobos contrariou a vontade de sua mãe ao entrar na escola de Música, pois seu desejo era que ele se tornasse médico (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Falar de Villa-Lobos apresenta algumas dificuldades elementares, visto que sua vasta produção musical possui mais de mil obras, e algumas </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/pesquisador-encontra-obra-de-villa-lobos-dos-anos-1930-considerada-perdida/"><span style="font-weight: 400;">sequer foram executadas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao mesmo tempo, mistura-se às dificuldades encontradas em analisar a Semana de Arte Moderna, como a ausência de documentos sobre o evento e a forma destoante que foi interpretado pela sociedade. Durante a Semana, o músico se apresentou em três dias (13, 15 e 17), cujo </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60321269"><span style="font-weight: 400;">episódio marcante</span></a><span style="font-weight: 400;"> – em que surgiu no palco calçando um chinelo solitário – ocorreu somente no terceiro dia de apresentações, com a sala do Theatro Municipal mais vazia que nos dias anteriores. O jeito irreverente do compositor – era chamado pejorativamente de </span><i><span style="font-weight: 400;">“Vira-Loucos” </span></i><span style="font-weight: 400;">– põe em dúvida a existência da possível lesão no pé, mas de nenhuma forma descarta a possibilidade. Ilustra, porém, muito da personalidade de Villa-Lobos: ele foi a junção do popular e do erudito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seu pai, Raul Villa-Lobos, foi um bibliotecário e músico amador, que deu o pontapé inicial para introduzir o filho à Música Clássica, após perceber seu talento natural. Aos 6 anos de idade, Heitor já havia aprendido a tocar clarinete e violoncelo, sob supervisão do pai. Não muito tempo depois, quando o futuro maestro tinha apenas 12 anos, Raul faleceu, vítima de malária. Concomitante à morte paterna, a mãe de Villa-Lobos, Noêmia, instituiu regras bastante claras contra os interesses musicais do filho, e declarou que ele deveria se tornar médico. A História diz que, após Villa-Lobos ser proibido de tocar violão – outra de suas paixões –, passou a fugir pela noite para frequentar as rodas de </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/temas/choro"><i><span style="font-weight: 400;">choro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (nesse caso, além da proibição imposta na casa, havia também o preconceito, visto que a Música popular ainda tinha a pecha de ser dominada pelas classes mais baixas), e aprimorou-se silenciosamente no instrumento, o qual mantinha escondido embaixo da cama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Das milhares de composições de Heitor Villa-Lobos, destacam-se as 11 sinfonias, três óperas e 18 peças para quarteto de cordas, criadas sob influência do </span><i><span style="font-weight: 400;">choro</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ou </span><i><span style="font-weight: 400;">chorinho </span></i><span style="font-weight: 400;">–, gênero de Música popular e instrumental, com origem carioca em meados do século XIX, cuja personalidade de maior renome foi </span><a href="https://ims.com.br/titular-colecao/pixinguinha/"><span style="font-weight: 400;">Pixinguinha</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1897-1973). Ele também compôs nove obras intituladas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EqCj0gkbBMs&amp;ab_channel=CulturaOccidentale"><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas Brasileiras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, entre 1930 e 1945, que combinam as influências da Música brasileira e do neo-barroco, especialmente de </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/21/cultura/1553148804_091725.html"><span style="font-weight: 400;">Johann Sebastian Bach</span></a><span style="font-weight: 400;">, como seu título sugere. Nessas </span><a href="https://classicos.mus.br/generos.htm"><span style="font-weight: 400;">suítes</span></a><span style="font-weight: 400;">, Villa-Lobos fundiu de forma intensa material folclórico brasileiro – em especial a </span><a href="https://musicalidades.com.br/diferenca-musica-caipira-e-sertaneja/"><span style="font-weight: 400;">música caipira</span></a><span style="font-weight: 400;"> – à elementos clássicos, transformando esse trabalho em uma de suas principais obras. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KTKVgaY56NI&amp;ab_channel=Osesp-OrquestraSinf%C3%B4nicadoEstadodeS%C3%A3oPaulo"><i><span style="font-weight: 400;">O Trenzinho Caipira</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, parte final das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=A_KjasIEtC0&amp;ab_channel=Villa-LobosChannel"><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas No. 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é um de seus trabalhos mais populares.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="Bachianas Brasileiras No. 4 • Villa-Lobos • São Paulo Symphony Orchestra" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/IKjCiENbWoU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de sua apresentação na Semana de Arte Moderna – e uma estadia em Paris, de 1923 a 1925 –, sua música sofreu mudanças significativas. Na França, Villa-Lobos encontra uma vanguarda musical que contesta as ideias de </span><a href="https://classicosdosclassicos.mus.br/compositores/claude-debussy/"><span style="font-weight: 400;">Claude Debussy</span></a><span style="font-weight: 400;"> – Darius Milhaud faz parte desse grupo –, cujo interesse cultural estava lentamente transicionando para o surrealismo e o extravagante, o que influenciou o músico a apostar em formatos distantes do conservadorismo que dominava as composições clássicas. Um instrumento que ganhou destaque em muitas realizações do músico pós-Semana</span> <span style="font-weight: 400;">foi o saxofone. Ele próprio tocava clarinete e eventualmente tocava o sax. Um de seus amigos de infância, </span><a href="https://musicabrasilis.org.br/compositores/anacleto-de-medeiros"><span style="font-weight: 400;">Anacleto de Medeiros</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi um exímio saxofonista, colaborando em muitos dos trabalhos de Villa-Lobos, os quais resultaram em uma quantidade considerável de música de câmara para o instrumento, além de obras orquestrais, como a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9PbQtnubBvM&amp;ab_channel=WelleszTheatre."><i><span style="font-weight: 400;">Sinfonia No. 4</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a qual pede um quarteto de saxofones.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, embora fosse importante para Villa-Lobos, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8mFKTOQ9LLw&amp;ab_channel=Villa-LobosChannel"><i><span style="font-weight: 400;">Fantasia</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">para saxofone soprano e pequena orquestra</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é seu único trabalho </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;"> para o instrumento. A obra foi composta em 1948, e dedicada ao saxofonista francês Marcel Mule, o qual Villa-Lobos conheceu ainda em Paris. A composição foi iniciada em Nova York mas concluída somente no Rio de Janeiro, ao final daquele ano. Mule nunca chegou a tocar </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantasia</span></i><span style="font-weight: 400;">, alegando dificuldades devido a tonalidade exigir notas fora da </span><a href="https://souzalima.com.br/blog/o-que-e-tessitura/"><span style="font-weight: 400;">tessitura</span></a><span style="font-weight: 400;"> do saxofone. Foi, portanto, Waldemar Szpilman, um saxofonista polonês que se mudou para o Brasil em 1925, que estreou a obra como solista, no Rio de Janeiro, em 1951. Um fato curioso é que Waldemar era primo de </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/wladyslaw-szpilman-incrivel-historia-real-por-tras-de-o-pianista.phtml"><span style="font-weight: 400;">Władysław Szpilman</span></a><span style="font-weight: 400;">, o pianista que de forma milagrosa sobreviveu em Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, como relatado nas memórias que originaram </span><a href="https://educador.brasilescola.uol.com.br/estrategias-ensino/analise-perseguicao-aos-judeus-atraves-filme-pianista.htm"><i><span style="font-weight: 400;">O Pianista</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), filme que rendeu o </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-vencedores-do-oscar-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Ator para </span><a href="https://personaunesp.com.br/pepequeno-critica/"><span style="font-weight: 400;">Adrien Brody</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mas o mais interessante é que, paradoxalmente, após a viagem à França, Villa-Lobos entende que precisa deixar de lado as influências francesas, vistas com muito esmero pela aristocracia brasileira à época – as </span><i><span style="font-weight: 400;">Bachianas </span></i><span style="font-weight: 400;">surgem daí, num esforço em apontar Bach no cenário folclórico brasileiro.</span></p>
<figure id="attachment_26043" aria-describedby="caption-attachment-26043" style="width: 1772px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26043 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está olhando diretamente para a câmera, com seu rosto apoiado em sua mão esquerda. Na mão, há um anel de cor cinza em seu dedo mindinho. Ele está com um charuto de cor cinza na boca, e veste uma camisa social de cor branca. Villa-Lobos é um homem branco, e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo." width="1772" height="1215" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3.jpg 1772w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-800x549.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1024x702.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-768x527.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1536x1053.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-3-1200x823.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26043" class="wp-caption-text">5 de março é oficialmente o Dia Nacional da Música Clássica, em homenagem a Heitor Villa-Lobos (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro personagem musical relevante na Semana de Arte Moderna – naturalmente ofuscado por seu trabalho de poeta e romancista –, foi </span><a href="https://www.amazon.com.br/Macuna%C3%ADma-Her%C3%B3i-Sem-Nenhum-Car%C3%A1ter/dp/6586490472/ref=asc_df_6586490472/?tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=379715911398&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=8134830901215436604&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9100699&amp;hvtargid=pla-1785663324432&amp;psc=1"><span style="font-weight: 400;">Mário de Andrade</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1893-1945). Além de escritor, Andrade foi musicólogo, crítico musical e um relevante compositor, atuando como professor de Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP). Alguns de seus poemas, em especial os da coletânea </span><a href="https://www.infoescola.com/livros/pauliceia-desvairada/"><i><span style="font-weight: 400;">Paulicéia Desvairada</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1922), desenvolvem-se com a utilização livre das métricas, e, por conseguinte, traçam certos ideais musicais, visto que se desprendem da estrutura formal a qual vinha sendo produzida a poesia brasileira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alinhado com Villa-Lobos, o escritor defendia que a pesquisa do </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-invisivel-critica/"><span style="font-weight: 400;">folclore brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> deveria ser a principal fonte temática e técnica dos músicos eruditos – pelo menos daqueles que se propunham a criar uma música </span><i><span style="font-weight: 400;">verdadeiramente</span></i><span style="font-weight: 400;"> brasileira</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, ambos os autores ganharam notoriedade como os principais integrantes da Semana que vislumbraram um novo projeto de cultura nacional através da Música.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O folclore, na concepção mais ou menos uniforme desses autores, manifesta-se como o conjunto de relações que se originam de provérbios, histórias, danças e junção das religiões, além de elementos da música de rua. Não seria absurdo afirmar que, no fundo, a ideia defendida por Villa-Lobos e Mário de Andrade era a de que a cultura popular deveria ser o principal motor de identificação artística dos brasileiros, deixando em segundo plano as referências internacionais. Estendendo ao todo, essa também foi uma reivindicação dos demais </span><a href="https://www.todamateria.com.br/modernismo-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">modernistas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bachianas Brasileiras No. 1 • Villa-Lobos • Berlin Philharmonic" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/R0us7Zof_a0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Villa-Lobos demorou a ser consenso, e uma parcela da crítica interpretou as referências folclóricas de suas obras como apropriações; à época, esses críticos não estavam preocupados com as questões identitárias imprescindíveis a acusação, mas tinham o intuito de apontar uma falta de originalidade do compositor. Para </span><a href="http://osesp.art.br/ensaios.aspx?Ensaio=25"><span style="font-weight: 400;">Leopoldo Waizbort</span></a><span style="font-weight: 400;">, professor do Departamento de Sociologia da USP, Heitor Villa-Lobos não incorporou apenas elementos indígenas em suas composições, mas também os defeitos de gravação registrados nos </span><a href="https://amar.art.br/fonogramas-o-que-e-como-cadastrar/"><span style="font-weight: 400;">fonogramas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa forma, não seria a música indígena que estaria sendo reproduzida, mas havia, sim, algo criado a partir dela. Aí encontra-se a originalidade: a partir de elementos folclóricos, obras totalmente novas foram concebidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No documentário </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3WNDf03560c&amp;t=1518s&amp;ab_channel=fabianoborges"><i><span style="font-weight: 400;">Villa-Lobos: O Índio de Casaca</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1987), dirigido por Roberto Feith e produzido pela Rede Manchete, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tlp8iY4g--4&amp;list=RDEMaSNlR4D39GSTw_9snvHBGQ&amp;start_radio=1&amp;ab_channel=AntonioCarlosJobim-Topic"><span style="font-weight: 400;">Tom Jobim</span></a><span style="font-weight: 400;"> aparece reverenciando Villa-Lobos e demonstrando seu débito com o maestro. Nos trechos, Jobim relata os encontros que manteve com o compositor em sua residência, nos quais observava suas produções caóticas, sempre cercado por barulhos diversos – dos sons altos que saiam da TV aos músicos que ensaiavam na sala da casa. Não é difícil entender que, para Villa-Lobos, os ruídos internos e externos seguiam por caminhos diferentes, e, talvez, fossem unificados somente no resultado final de suas obras. Em seus últimos anos, Heitor Villa-Lobos consolidou-se como uma figura de importância na divulgação da Música, e seu projeto orfeônico de educação musical, iniciado ainda nos 1930, não terminou com sua morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As partituras de Villa-Lobos revelam que, além da preocupação com uma identidade nacional, mantinha-se uma inquietação quanto aos procedimentos que se tornavam acadêmicos, destituídos de significação para a música cotidiana. Um dos legados do maestro foi introduzir, na Música Clássica brasileira, uma ruptura, na qual foram promovidas ideias revolucionárias que, à época, soaram absurdas. Esse rompimento foi totalmente absorvido pelos movimentos contraculturais no Brasil, em especial o </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/tropicalismo.htm"><span style="font-weight: 400;">Tropicalismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seus ideais foram tão difundidos que é difícil não enxergar Villa-Lobos em toda a Música brasileira – ele está na </span><a href="https://personaunesp.com.br/maria-rita-elo-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">MPB</span></a><span style="font-weight: 400;">, na </span><a href="https://personaunesp.com.br/infinito-particular-e-universo-ao-meu-redor-15-anos/"><span style="font-weight: 400;">Bossa Nova</span></a><span style="font-weight: 400;">, e até nos atos de revolta de bandas de </span><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2016/06/em-show-dado-villa-lobos-interpreta-obras-de-seu-tio-avo-5860657.html"><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">nacionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> (considerando, também, que o musicista possui uma extensa composição para instrumentos de corda, inclusive o violão). </span><span style="font-weight: 400;">No entanto, a maneira mais fácil de prestar homenagem a Villa-Lobos é imaginar o quanto o Brasil teria sido mais pobre sem ele.</span></p>
<figure id="attachment_26044" aria-describedby="caption-attachment-26044" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26044 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4.jpg" alt="Foto em preto e branco do maestro Heitor Villa-Lobos. Na foto, Heitor Villa-Lobos está sentado em um piano, tocando-o com as duas mãos. Ele está com um charuto na boca. Villa-Lobos é um homem branco, veste um roupão de cor preta, e possui cabelos pretos e lisos com mechas grisalhas, em decorrência do tempo. O piano é também de cor preta. " width="1000" height="661" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4-800x529.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/villalobos-4-768x508.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26044" class="wp-caption-text">Em 1945, Heitor Villa-Lobos fundou a Academia Brasileira de Música, sendo também o primeiro presidente da instituição (Foto: Acervo Museu Villa-Lobos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma viagem à Europa, ao ser questionado sobre as </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=flqxy_ccU84&amp;ab_channel=IREETV"><span style="font-weight: 400;">influências folclóricas</span></a><span style="font-weight: 400;"> em suas obras, Villa-Lobos respondeu, impaciente: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não uso o folclore, eu sou o folclore.” </span></i><span style="font-weight: 400;">Essa afirmação aponta dois caminhos possíveis de interpretação: 1) como compositor brasileiro motivado pela criação de uma identidade cultural, sua própria história se entrelaça com a do folclore nacional, e suas obras podem ser vistas como continuações da cultura popular; 2) Villa-Lobos foi tão grande e inigualável a ponto de fazer, ele próprio, parte dos mitos que circundam o folclore brasileiro. Levando em conta o senso de humor característico do maestro e os motivos pelos quais refletimos sobre o seu legado 100 anos depois de sua apresentação na Semana de Arte Moderna, é bem provável que fosse a segunda opção.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Heitor Villa-Lobos e a Música Modernista" width="100%" height="380" style="[object Object]" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/4L2dTHIhb8jIUsSMphfYrc?si=4e530401b91740ee&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Em tempos de amnésia seletiva, Cidade Invisível entrega esperança e suscita discussões</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2021 15:58:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Júlia Paes de Arruda Como seria se o nosso folclore se materializasse e convivesse todos os dias conosco, com seus personagens despercebidos e infiltrados na sociedade? Se as histórias de infância fossem realmente verdade? Essa é a proposta de Carlos Saldanha (diretor das franquias Rio e A Era do Gelo) em Cidade Invisível. Diferentemente do &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/cidade-invisivel-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em tempos de amnésia seletiva, Cidade Invisível entrega esperança e suscita discussões"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_18845" aria-describedby="caption-attachment-18845" style="width: 793px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18845" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-1.jpg" alt="Cena da série Cidade Invisível. Fotografia retangular do ator Marcos Pigossi, dos ombros até o topo da cabeça. Ele é um homem de cabelos castanhos, barba e bigode. Ele está sentado numa poltrona azul claro e possui uma borboleta sobre os olhos. Ela é roxa azulada com manchas pretas nas bordas das asas. Na parte inferior de cada asa, tem um círculo branco com um círculo roxo dentro, imitando dois olhos. Marcos possui a boca semiaberta, com a parte debaixo dos dentes da frente aparecendo, como se estivesse num cochilo. Ao fundo, há um aparador de madeira. A imagem possui uma tonalidade amarela acentuada. " width="793" height="448" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-1.jpg 793w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-1-768x434.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18845" class="wp-caption-text">“As pessoas são cruéis, elas têm medo de tudo que é diferente porque a gente revela como elas são absurdamente iguais e entediantes” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Júlia Paes de Arruda</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como seria se o nosso folclore se materializasse e convivesse todos os dias conosco, com seus personagens despercebidos e infiltrados na sociedade? Se as histórias de infância fossem realmente verdade? Essa é a proposta de Carlos Saldanha (diretor das franquias </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hNVoO6doPuk"><i><span style="font-weight: 400;">Rio</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=gbipuaW6ncw"><i><span style="font-weight: 400;">A Era do Gelo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) em </span><a href="https://www.netflix.com/br/title/80217517"><i><span style="font-weight: 400;">Cidade Invisível</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Diferentemente do que estamos acostumados, o </span><a href="https://vejario.abril.com.br/programe-se/serie-cidade-invisivel-netflix-sucesso/"><span style="font-weight: 400;">novo sucesso</span></a><span style="font-weight: 400;"> da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/netflix/"><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> ganha um teor adulto ao unir-se com um suspense investigativo. Apesar da narrativa envolvente e provocante, a execução das ideias traz algumas problemáticas que merecem ser destacadas. </span></p>
<p><span id="more-18844"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem espera algo na mesma linha do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SSJeLs3vekE"><i><span style="font-weight: 400;">Sítio do Picapau Amarelo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, está muito enganado. A história é contada na visão de Eric (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1CIdcHAVe3A"><span style="font-weight: 400;">Marco Pigossi</span></a><span style="font-weight: 400;">), um detetive da polícia ambiental que acaba perdendo sua esposa, a antropóloga Gabriela (Julia Konrad) num incêndio na Vila Toré, no Rio de Janeiro, onde ela trabalhava. Em luto e cheio de questionamentos, ele se depara com circunstâncias inusitadas e imprevisíveis que desafiam seus princípios e sua própria identidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resgate das narrativas orais em </span><a href="https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/08/19/comunidades-de-tradicao-oral-vivem-desafio-adicional-com-mortes-por-covid.htm"><span style="font-weight: 400;">risco de extinção</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um ótimo ponto de partida para a criação da série. Porém, a preservação de pontos chaves é fundamental para a autenticidade das histórias. O erro de Saldanha nesse caso é introduzi-las no Rio de Janeiro, sendo que as paisagens nortistas eram o principal cenário das originais. Afinal, é realmente estranho achar um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3v2ZXWF8poo"><span style="font-weight: 400;">boto-cor-de-rosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, natural de águas doces, encalhado numa praia, não é? O que pode ser considerado positivo dessa alteração é que os personagens são colocados numa capital carioca pouco apresentada aos turistas. A situação de vulnerabilidade em que estão os seres folclóricos também alavanca a ideia de &#8220;infiltrados&#8221; dentro da sociedade brasileira, evidenciando uma sensação de deslocamento que uma parte da nossa cultura enfrenta dentro da própria comunidade.</span></p>
<figure id="attachment_18848" aria-describedby="caption-attachment-18848" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18848" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cidade-inv.jpg" alt="Cena da série Cidade Invisível. Fotografia retangular de uma praia do Rio de Janeiro com os morros do Pão de Açúcar e da Urca ao fundo, no canto superior esquerdo. Mais abaixo dos morros, há uma praça arborizada com dois postes de iluminação, um mais afastado que o outro. No canto inferior direito, mais próximo a câmera, está o ator Marco Pigossi agachado na areia da praia. Ele é um homem de cabelos castanhos com barba e bigode. Ele veste uma camisa azul marinho com as mangas em azul mais escuro e uma bermuda preta. Ele usa um tênis de corrida preto com três faixas verticais e brancas na lateral. Possui uma pulseira no pulso direito e um relógio no pulso esquerdo. A mão direita está apoiada em suas coxas com a mão entre suas pernas. Com a mão esquerda, ele fala ao telefone. Próximo a ele, está um boto-cor-de-rosa morto estirado na areia. " width="768" height="512" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cidade-inv.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cidade-inv-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18848" class="wp-caption-text">“Eu tô com um boto na caçamba do meu carro!” “Mas hoje é jogo do Flamengo. Eu tenho que ir” (Foto: Alisson Louback)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;"> policial é o que prende a atenção do público e o instiga a pular para o próximo episódio. Isso se deve à atuação de Pigossi, que traduz com sinceridade a carga dramática do personagem. Mas apesar do suspense instigante, incomoda a falta de aprofundamento nas entidades. Enquanto a </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/cidade-invisivel-por-que-cuca-aparece-diferente-na-serie-da-netflix.phtml"><span style="font-weight: 400;">Cuca</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Alessandra Negrini) vai e vem de uma forma que é possível compreender sua história, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=923nsj_V2Q4"><span style="font-weight: 400;">Saci</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Wesley Guimarães) serve apenas de porta de entrada para o universo folclórico, sendo deixado de lado em grande parte da narrativa. Uma boa sacada para seu disfarce entre as pessoas é a utilização de uma prótese em uma das pernas. Aliás, talvez seja um pouco óbvio, mas o roteiro deixa implícito sua verdadeira identidade ao batizá-lo de Isac &#8211; um anagrama para Saci.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de, claro, ter a função comercial, a história original de </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2015/08/18/carolina-munhoz-e-raphael-draccon-conheca-o-casal-da-literatura-fantastica.htm"><span style="font-weight: 400;">Raphael Draccon e Carolina Munhóz</span></a><span style="font-weight: 400;"> promove uma mensagem importante a respeito de prioridades. </span><i><span style="font-weight: 400;">Cidade Invisível</span></i><span style="font-weight: 400;"> entrega uma oposição entre a falsa ideia de </span><a href="https://correiodoestado.com.br//opiniao/alysson-moreira-e-josilene-di-pietro-progresso-e-meio-ambiente-um/327060"><span style="font-weight: 400;">progresso</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a preservação do que é </span><a href="http://www.revistacapitolina.com.br/tradicao-oral-e-a-preservacao-de-culturas/"><span style="font-weight: 400;">ancestral</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isso é válido tanto para as narrativas orais, que acabam </span><a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142005000300027"><span style="font-weight: 400;">se perdendo</span></a><span style="font-weight: 400;"> no volátil mundo </span><i><span style="font-weight: 400;">online</span></i><span style="font-weight: 400;">, quanto para as de preservação da natureza. No enredo, a construção de um novo empreendimento (obviamente, extremamente lucrativo) é motivo suficiente para destruir a biodiversidade nativa, obrigando os moradores da Vila Toré, até mesmo os mais persistentes, a se mudarem da região para sobreviver. Esse tópico poderia até ser uma farpa para o <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2020/09/4876493-governo-espalha-cortina-de-fumaca.html">descaso</a> com as <a href="https://www.dw.com/pt-br/brasil-encerra-2020-com-maior-n%C3%BAmero-de-focos-de-queimadas-em-uma-d%C3%A9cada/a-56119157#:~:text=Brasil%20encerra%202020%20com%20maior%20n%C3%BAmero%20de%20focos%20de%20queimadas%20em%20uma%20d%C3%A9cada,-Pantanal%20registrou%20maior&amp;text=O%20Brasil%20encerrou%202020%20com,aumento%20de%2012%2C7%25.">queimadas</a> que ocorreram em nosso país nos últimos meses.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, é importante falar que a produção nacional da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netlfix</span></i><span style="font-weight: 400;"> gerou </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/televisao/cidade-invisivel-gera-polemica-por-ausencia-de-indigenas-no-elenco"><span style="font-weight: 400;">polêmicas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Entre os pontos abordados, o mais discutido foi a falta de </span><a href="https://twitter.com/alice_pataxo/status/1361391841158004738?s=20"><span style="font-weight: 400;">representatividade indígena</span></a><span style="font-weight: 400;"> dentro e fora das gravações. Além disso, surgiram também críticas sobre a forma tratada de uma </span><a href="https://twitter.com/PataxoThyara/status/1361736504343748610?s=20"><span style="font-weight: 400;">religião não-cristã</span></a><span style="font-weight: 400;">, como se suas crenças fossem mera fantasia. Nas </span><a href="https://twitter.com/Tdetravesti/status/1362456311288496130"><span style="font-weight: 400;">repercussões</span></a><span style="font-weight: 400;">, muitos salientaram a importância de consultar os povos originários para frisar as suas versões e não as folclóricas dentro do roteiro. Isso os daria visibilidade suficiente para evitar julgamentos incoerentes e distorcidos que apenas reforçam estereótipos.</span></p>
<figure id="attachment_18849" aria-describedby="caption-attachment-18849" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-18849" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-3-1024x576.jpg" alt="Cena da série Cidade Invisível. Fotografia retangular dos atores Alessandra Negrini, Marco Pigossi e Áurea Maranhão, respectivamente. Eles estão numa sala de interrogatório, com três janelas com persianas. Alessandra é uma mulher de cabelos cacheados pretos soltos com tererês nas mechas frontais. Ela veste um vestido preto com renda nas mangas e no colo. Ela está sentada numa cadeira preta com as mãos entrelaçadas sobre a mesa verde. Ela usa uma luva preta de renda que não cobre os dedos, unhas pintadas e pulseiras na mão direita. Ela possui olhos escuros e olha diretamente para a câmera. Marco é um homem de cabelos castanhos com barba e bigode. Sua expressão facial está enfurecida. Ele veste uma blusa cinza, uma camiseta de botões cinza por cima e calça jeans preta. Pendurado em seu pescoço, está um distintivo. Ele está ao lado de Alessandra, em pé com o corpo à frente e a mão esquerda apoiada na cadeira de Alessandra e a direita na mesa. No pulso direito, há um relógio preto. Áurea é uma mulher de cabelos castanhos escuros presos em um rabo. Ela está de perfil, virado para a esquerda. Ela veste uma camisa cinza de manga curta, possui um brinco prateado na orelha esquerda e um relógio preto no pulso esquerdo. Com a mão direita, ela segura uma caneta bic azul. Ela está sentada na mesa interrogando Alessandra. Na frente de Áurea, existem papéis presos por um clips e um caderno com espiral pequeno aberto embaixo da sua mão direita. Ao fundo, pendurado na parede amarela, um cartaz com uma foto de um cachorro malhado, faixa preta na parte inferior com o texto “Maltratar animais é” em vermelho e letras maiúsculas seguido de um retângulo vermelho entortado para a esquerda com “crime” escrito em letras brancas e maiúsculas. Abaixo, parênteses brancos em tamanho decrescente seguido de “DENUNCIE” em letras maiúsculas e brancas e o telefone 456 9989 em vermelho. " width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-3-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Foto-3.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18849" class="wp-caption-text">A série foi renovada para sua segunda temporada e o serviço de streaming <a href="https://twitter.com/lauromanoel/status/1366744155108618240">afirmou</a> ter noção da responsabilidades que tem nas mãos (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A atuação do elenco de </span><i><span style="font-weight: 400;">Cidade Invisível</span></i><span style="font-weight: 400;"> é impecável. Marco Pigossi pode até ser o protagonista, mas não supera o desempenho de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=97SinB7Cw4k"><span style="font-weight: 400;">Alessandra Negrini</span></a><span style="font-weight: 400;"> como a Cuca. A sensualidade da atriz transita com a da personagem e entrega uma caracterização poderosa e intensa. O jogo de câmeras, juntamente com a iluminação dos espaços, faz com que o público tenha dúvida do lado em que ela está, o que torna a bruxa extremamente instigante. O destaque também vai para Fábio Lago como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2-W2LmqjHSI"><span style="font-weight: 400;">Curupira</span></a><span style="font-weight: 400;">. O amadurecimento do guerreiro é realmente magnífico na tela e (literalmente) pega fogo com a </span><a href="https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/fabio-lago-fala-sobre-personagem-nick-cabeleireiro-gay-em-o-outro-lado-do-paraiso-exibe-seu-lado-humano"><span style="font-weight: 400;">dedicação</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://www.purepeople.com.br/famosos/fabio-lago_p356881"><span style="font-weight: 400;">destreza</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Lago em incorporar com garra seus papéis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A menção honrosa é de Jessica Cores como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=teeGNR2hr14"><span style="font-weight: 400;">Iara</span></a><span style="font-weight: 400;">, que soube encarnar com aptidão as características mais marcantes da conhecida sereia. O encanto da personagem é perceptível tanto pelos seus traços físicos quanto pelos trejeitos, especialmente pelo olhar hipnotizante. Obviamente, não poderia deixar de lado a voz sedutora. Ao cantar </span><i><span style="font-weight: 400;">Sangue Latino</span></i><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bloco-na-rua-critica/"><span style="font-weight: 400;">Secos &amp; Molhados</span></a><span style="font-weight: 400;">, a atriz mostra sua versatilidade e fascina os ouvintes, tanto do bar quanto dos que assistem a cena. Além disso, a canção ilustra o sentimento da entidade, que é obrigada a levar os homens ao mar para matá-los. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trilha sonora de <em>Cidade Invisível</em> é essencial para construir a narrativa. Já no primeiro episódio, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3ABe9q_gB6M"><i><span style="font-weight: 400;">Tu Tá na Gaiola</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Kevin O Chris é utilizada para projetar o Saci, demarcando a vivência de Isac. A própria </span><i><span style="font-weight: 400;">Nana Neném </span></i><span style="font-weight: 400;">traça os poderes da Cuca que, juntamente com uma fotografia predominantemente de cores escuras, carrega o ar de mistério que as cenas exigem. Para definir Manaus (Victor Sparapane), o boto, os clássicos </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/samba/"><span style="font-weight: 400;">sambas brasileiros</span></a><span style="font-weight: 400;"> delineiam a malícia e a malandragem que o personagem tem, ainda mais quando está agregada ao chapéu característico e às doses de bebida.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Sangue Latino - O canto da Sereia | Cidade Invisível" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/OEYLZtOzsEI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Cidade Invisível</span></i><span style="font-weight: 400;"> não começou totalmente com o pé direito, mas o enredo atrativo e emocionante conquistou o coração do público. Além disso, trata-se de uma produção nacional, mérito que, recentemente, vem sendo </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml"><span style="font-weight: 400;">alvo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de ataques e desmanches, mesmo tendo grande impacto </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2019-12-27/sob-ataque-de-bolsonaro-cultura-defende-seu-impacto-na-economia-com-receita-de-170-bilhoes-de-reais.html"><span style="font-weight: 400;">econômico</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://jornaljr.com.br/2018/06/19/escrito-precisamos-falar-sobre-o-cinema-brasileiro/"><span style="font-weight: 400;">cultural</span></a><span style="font-weight: 400;"> no país. Em tempos sombrios, apreciar o resgate às </span><a href="https://educacaointegral.org.br/reportagens/a-importancia-da-tradicao-oral-para-o-multiletramento/"><span style="font-weight: 400;">tradições orais nacionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a tentativa de engrandecer as nossas produções dá aquela ponta de esperança que não é tão ruim ser brasileiro. E se ela abranger nossos povos de maneira a eliminar estereótipos e a trazer visibilidade, melhor ainda! </span></p>
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