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	<title>Arquivos Diamond Films &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Segredos de Um Escândalo prova que a Arte não passa a história a limpo</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Feb 2024 21:27:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Pode a Arte imitar a realidade sem se basear nela? Pode a vida de alguém virar arte se não houver autorização? Todd Haynes prova que sim. Tão melodramático quanto bem-humorado, Segredos de Um Escândalo, inspirado em uma história real, mostra que o papel da arte não é necessariamente passar as coisas a limpo. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/segredos-de-um-escandalo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Segredos de Um Escândalo prova que a Arte não passa a história a limpo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32492" aria-describedby="caption-attachment-32492" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-32492" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3.png" alt="" width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-768x432.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32492" class="wp-caption-text">No Oscar 2024, May December concorre à categoria de Melhor Roteiro Original (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode a Arte imitar a realidade sem se basear nela? Pode a vida de alguém virar arte se não houver autorização? Todd Haynes prova que sim. Tão melodramático quanto bem-humorado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">, inspirado em uma </span><a href="https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/mary-kay-letourneau-may-december-true-story-1234918355/#:~:text=May%20December%20is%20loosely%20based,in%20a%20car%20with%20Fualaau."><span style="font-weight: 400;">história real</span></a><span style="font-weight: 400;">, mostra que o papel da arte não é necessariamente passar as coisas a limpo. Do contrário, a obra disseca os restos do que um dia foi um escândalo, reimaginando os ecos reais dele muito tempo depois que os noticiários se esqueceram. </span></p>
<p><span id="more-32489"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tarefa de encarar o dramalhão é de Julianne Moore, Charles Melton e Natalie Portman. Os dois primeiros são um casal aparentemente feliz, mas que escondem mais do que a superfície mostra. Ela, Gracie, e ele, Joe, tem uma diferença de idade de praticamente 30 anos e começaram a se relacionar quando o menino tinha apenas 13. Já a última é Elizabeth Berry, uma atriz que passa a conviver com a dupla para estudar Gracie e interpretá-la fielmente em um filme independente. Quando o equilíbrio perfeito da casa é abalado pela convivência com a atriz, o </span><a href="https://variety.com/2023/film/news/may-december-true-story-mary-kay-letourneau-1235757908/"><span style="font-weight: 400;">passado volta à tona</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; dessa vez, para ser questionado e não endossado.</span></p>
<figure id="attachment_32494" aria-describedby="caption-attachment-32494" style="width: 728px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32494" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-5.png" alt="" width="728" height="385" /><figcaption id="caption-attachment-32494" class="wp-caption-text">Gracie e Elizabeth travam uma guerra de narcisismo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo começa com a falta de cachorros quentes na geladeira. Longe de se autointitular </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">ou </span><a href="https://www.vulture.com/2024/01/vili-fualaau-mary-kay-letourneau-may-december.html"><span style="font-weight: 400;">fazer justiça com as próprias mãos</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">May December </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original) come pelas beiradas. Isso porque o caso por trás do escândalo-título é digno de tabloides, mas não requer uma nova exposição. Pelo contrário, a Elizabeth de Portman conhece as nuances da história na mesma ordem que o espectador: primeiro de fora, quando observa trechos de revistas e jornais sobre o julgamento do “</span><i><span style="font-weight: 400;">pet-shop romance</span></i><span style="font-weight: 400;">” ou fotos de Gracie tendo a primeira filha com Joe na prisão, ainda vestindo a tornozeleira eletrônica. Depois, de dentro, quando é confrontada com um casal calmo, com uma casa grande em um bairro familiar, uma churrasqueira com cachorros quentes, cervejas geladas, bolos de abacaxi, amigos preocupados, dois filhos adolescentes prestes a partir para a faculdade e uma encomenda com fezes dentro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a conta não fecha, é aí que Elizabeth Berry entra. A </span><a href="https://slate.com/culture/2023/12/natalie-portman-may-december-movie-netflix-black-swan-jackie.html"><span style="font-weight: 400;">atriz</span></a><span style="font-weight: 400;"> assegura que só quer fazer jus à Gracie no filme, conhecer as zonas cinzas de onde o suposto romance nasceu. Aqui, não há opinião formada: ela está aberta para escutar o que seus objetos de estudo têm a dizer, não imputar suas próprias conclusões sobre eles. </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">funciona justamente nessas áreas cinzas. Enquanto Gracie alega uma paixão avassaladora e um relacionamento feliz &#8211; e Joe acredita -, o dia a dia mostra uma dinâmica controladora, em que a mulher manda tão comumente quanto o marido obedece. Os anos de diferença evocam algo maternal. Você já está na segunda cerveja, desacelera. Não deixe suas coisas espalhadas na sala. Vá tomar banho antes de dormir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, tanto Julianne Moore quanto Gracie se mostram uma raposa. Sempre que o assunto da diferença de idade vem à tona, a personagem declara o amor dos dois e lembra o quanto Joe a seduziu. Ela infla seu ego com comentários cortantes em direção a ele e às crianças, reitera o quanto sempre foi ingênua, reforça sua feminilidade e, quando precisa, chora desamparada como se não tivesse o dobro de maturidade do que qualquer um em cena. Na pele dela, Moore calibra seus gestos, ora se portando com inocência, ora com um ar de quem calcula cada movimento para ser percebida como quer. Modulando a voz, Gracie é </span><a href="https://deadline.com/2023/12/may-december-julianne-moore-interview-1235677359/"><span style="font-weight: 400;">incisiva e firme</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas rapidamente muda e soa como uma criança que não sabe as consequências de seus atos, enganando a vizinhança e o próprio marido. Ou quem sabe ela é assim e realmente acredita na própria infantilidade?</span></p>
<figure id="attachment_32496" aria-describedby="caption-attachment-32496" style="width: 1503px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32496" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december.png" alt="" width="1503" height="741" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december.png 1503w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-800x394.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-1024x505.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-768x379.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-1200x592.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32496" class="wp-caption-text">Todd Haynes e Segredos de um Escândalo concorreram ao Palma de Ouro no Festival de Cannes 2023; o prêmio foi para Justine Triet e Anatomia de uma Queda (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O cinismo é a chave de </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ao contrário de Moore, que nunca deixa transparecer a verdade por trás de suas intenções, Natalie Portman é ótima atriz em interpretar uma atriz mediana. Por mais que tente, Elizabeth Berry preenche a tela em branco com suas opiniões e intenções, mas, no caminho, rende cenas tensas ao lado de Joe e Gracie. A frente de um espelho ou em um consultório médico, o desconforto surge ao passo que ela cruza a linha entre </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/natalie-portman-film-decline-social-media-influencers-1235833116/"><span style="font-weight: 400;">observação e intromissão</span></a><span style="font-weight: 400;">, se aproveitando dos maneirismos de uma Moore brilhante para incorporar Gracie o máximo que pode &#8211; até de forma cômica, intencionalmente ou não.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No meio disso está Joe. Como uma criança perdida, ele não cria conflito, assiste TV, cuida de suas lagartas e apazigua os ânimos quando convém. É na presença de </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-news/charles-melton-riverdale-juilliard-may-december-1235766201/"><span style="font-weight: 400;">Charles Melton</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o trio protagonista se eleva: introvertido e retraído, o personagem é resultado do “escândalo pet-shop”, um adolescente para sempre preso no corpo de um homem adulto, que nunca teve a chance de amadurecer sozinho. Até a relação com os filhos, com pouco mais da metade da idade dele, é desigual, já que as crianças viveram experiências que o próprio nunca pôde. A mera constatação de que adultos fazem coisas de adulto o abala, como se ele não soubesse como agir como um.</span></p>
<figure id="attachment_32491" aria-describedby="caption-attachment-32491" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32491" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2.png" alt="" width="770" height="416" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2.png 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2-768x415.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32491" class="wp-caption-text">Injustiçado, May December não levou nada no Globo de Ouro e no Critics Choice Awards (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das performances, a direção novelesca de Todd Haynes cria a atmosfera inquietante que move as incertezas de </span><i><span style="font-weight: 400;">May December</span></i><span style="font-weight: 400;">. A condução simples, mas eficiente, as metáforas escancaradas, composições visuais geniais e uma boa dose de humor fazem o filme passear entre um drama voraz e uma </span><a href="https://variety.com/2024/film/columns/may-december-comedy-camp-todd-haynes-julianne-moore-natalie-portman-1235860085/"><span style="font-weight: 400;">sátira</span></a><span style="font-weight: 400;"> à própria indústria do Cinema que pouco o reconheceu. Apesar de superar outras obras nomeadas, seu nome não foi mencionado o suficiente nas grandes premiações norte-americanas, como o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span><i><span style="font-weight: 400;"> SAG Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou outros prêmios de sindicatos hollywoodianos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os poucos reconhecimentos foram os nomes de Melton, Moore e Portman em eventos como </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choic Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> e Globo de Ouro, mas, ainda assim, sem receber os devidos louros. Um alívio foi a indicação certeira da roteirista Samy Burch, que dois domingos antes do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">consagrou seu nome junto de Alex Mechanik (responsável pela história, junto dela) no </span><a href="https://x.com/filmindependent/status/1761882269772660922?s=20"><i><span style="font-weight: 400;">Spirit Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, premiação de filmes independentes. Com um tato para desconcertar o espectador e não dar de bandeja se </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">é </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">ou não, a novata aproveitou uma polêmica real para criar algo maior do que uma cinebiografia não autorizada e mergulhou nas vulnerabilidades de seus personagens. A torcida é para que Burch continue sua caminhada representando o longa e faça uma competição grandiosa com </span><a href="https://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://personaunesp.com.br/past-lives-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Vidas Passadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, deixando </span><i><span style="font-weight: 400;">Maestro </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Rejeitados </span></i><span style="font-weight: 400;">para trás.</span></p>
<figure id="attachment_32493" aria-describedby="caption-attachment-32493" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32493" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-4.png" alt="" width="640" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-32493" class="wp-caption-text">Natalie Portman é uma das produtoras de May December e escolheu Todd Haynes a dedo para dirigi-lo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem previsão para chegar na </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix </span></i><span style="font-weight: 400;">Brasil (nos Estados Unidos, o longa foi lançado direto na plataforma de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming</span></i><span style="font-weight: 400;">), </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">adentra as entranhas do imaginário popular e ainda cutuca os adeptos ao método de atuação e às produções </span><a href="https://personaunesp.com.br/pacto-brutal-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">true crime</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O segredo é não se levar a sério demais e render boas risadas proibidas no caminho, sem acreditar se a canalhice das </span><a href="https://x.com/Variety/status/1733263918565576833?s=20"><span style="font-weight: 400;">protagonistas são reais</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou elas estão cegas na própria desonestidade que nos fazem acreditar junto. Ao final, quem sai ferido é Joe e quem sai curado é Charles Melton, que alça seu nome à </span><i><span style="font-weight: 400;">A-List </span></i><span style="font-weight: 400;">de Hollywood.</span></p>
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		<title>Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 21:05:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A verdade, como a luz, cega. Albert Camus, A queda (1956) Bruno Andrade Ao parafrasear Luis Buñuel, a renomada crítica Pauline Kael faz uma reflexão interessante: “Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31705" aria-describedby="caption-attachment-31705" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31705" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, um homem está à esquerda, deitado no chão branco da neve com um ferimento na cabeça, repleto de sangue. À direita, uma mulher loira fala ao telefone e o filho do casal se esconde nos braços da mulher, para não olhar o corpo. A imagem apresenta uma imagem aérea da cena." width="2400" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-800x533.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1024x683.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-768x512.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1536x1024.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-2048x1365.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1200x800.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31705" class="wp-caption-text">Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o longa de Justine Triet integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">A verdade, como a luz, cega.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Albert Camus, </span><i><span style="font-weight: 400;">A queda </span></i><span style="font-weight: 400;">(1956)</span></p></blockquote>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao parafrasear </span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/un-chien-andalou"><span style="font-weight: 400;">Luis Buñuel</span></a><span style="font-weight: 400;">, a renomada crítica </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/documentario-sobre-pauline-kael-e-carta-de-amor-a-figura-apaixonada-pelo-cinema.shtml"><span style="font-weight: 400;">Pauline Kael</span></a><span style="font-weight: 400;"> faz uma reflexão interessante: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do subconsciente</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> As narrativas nunca se limitam apenas à superfície – mergulham nas entranhas do pensamento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa que integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, tem domínio dessa sensação, e trabalha em sintonia às verdades ocultas e dilemas da interpretação.</span></p>
<p><span id="more-31701"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/anatomia-de-uma-queda-abre-a-mostra-com-retrato-da-morte-de-um-casamento.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomie d&#8217;une Chute</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no título original em francês), cuja direção é assinada por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/05/justine-triet-emociona-cannes-com-julgamento-hipnotico-de-uma-escritora.shtml"><span style="font-weight: 400;">Justine Triet</span></a><span style="font-weight: 400;">, com roteiro original de Arthur Harari, Clémentine Schaeffer e da própria diretora, somos convidados a uma experiência cinematográfica que desafia as expectativas convencionais do gênero que se propôs a trabalhar. Logo no início, numa manhã de inverno nos Alpes franceses, Samuel é encontrado morto no chão em frente à sua casa, com um ferimento profundo na cabeça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante suas duas horas e meia de duração, o drama evita o terreno seguro dos clichês sobre a vida, caminhos trilhados ou da relação entre o casamento e dois contadores de histórias (neste caso, uma escritora em alta e um escritor que não consegue escrever) – possibilidades quase irresistíveis nos dramas de tribunal e nas </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><span style="font-weight: 400;">histórias de casamento</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, Triet encontra uma forma mais cerebral e original de insistir nessa última ideia, buscando a realidade através das histórias de Sandra (Sandra Hüller) e Samuel (</span><a href="https://c7nema.net/entrevistas/item/107465-softie-realismo-social-de-samuel-theis-deixa-a-sua-marca-no-festival-do-cairo.html"><span style="font-weight: 400;">Samuel Theis</span></a><span style="font-weight: 400;">), mas, principalmente, da relação complexa entre a representação da verdade e aquilo que realmente aconteceu.</span></p>
<figure id="attachment_31703" aria-describedby="caption-attachment-31703" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31703" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, o ator Milo Machado Graner está com uma blusa de cor cinza, com a mão apoiada em uma parede de madeira. Ele olha de maneira assustada para a frente. Ele é um menino branco, de 11 anos, com cabelo liso preto e olhos azuis." width="2560" height="1384" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1536x830.jpeg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31703" class="wp-caption-text">O personagem de Milo Machado Graner torna-se o principal com o passar do filme (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um salto temporal intrigante acontece na metade do longa, arremessando a história para um ano depois. A princípio, essa intervenção parece desconectada do clímax, deixando uma sensação estranha conforme as cenas avançam – nada muda, e o </span><a href="https://personaunesp.com.br/dark-critica/"><span style="font-weight: 400;">salto temporal</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece completamente descartável. No entanto, uma análise mais aproximada pode indicar essa mudança – para além do avanço das investigações no tribunal – como uma espécie de ‘lupa’ para o desenvolvimento de Daniel (Milo Machado Graner), o filho de 11 anos do casal e parcialmente cego, no piano. Trata-se da primeira cena imediatamente depois da passagem: o menino frente às teclas, repetindo as melodias de cenas anteriores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela verdade parece novamente uma metáfora poética possível para a condição de Daniel. Ele possui a capacidade de ouvir e falar, mas não pode enxergar. Em contraste, Snoop, o cão da família (interpretado pelo simpático border collie Messi, que ganhou o prêmio </span><a href="https://rpet.r7.com/fotos/border-collie-messi-leva-palm-dog-premio-do-festival-de-cannes-para-animais-que-aparecem-nos-filmes-26052023"><i><span style="font-weight: 400;">Palm Dog</span></i><span style="font-weight: 400;"> em Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">), consegue ver, mas não pode falar. Sandra vê, ouve e fala, mas afirma não ter presenciado o momento da morte de Samuel, tornando seus sentidos inúteis. O mistério central permanece sem resposta: o pai caiu da janela, pulou intencionalmente ou foi empurrado? A intensidade com que Daniel se dedica ao piano, a ponto de transpirar intensamente tocando sempre a mesma melodia, revela seu desconforto diante dessa questão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem a capacidade de ler partituras, ele se apoia no som e na experimentação, demonstrando que os ruídos podem revelar verdades profundas. Durante as investigações sobre a morte de Samuel, quando o primeiro juiz (Pierre-François Garel) realiza a reconstituição do ocorrido, Daniel – que sente todo o processo como um divórcio tardio dos pais – revela ter se enganado quanto ao local onde sentiu o couro preso à parede (uma maneira que seu pai desenvolveu de dar autonomia ao filho com deficiência visual, espalhando pedaços de couro por toda a região da casa para que pudesse se </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">guiar com o cachorro</span></a><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<figure id="attachment_31706" aria-describedby="caption-attachment-31706" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31706" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg" alt="Fotografia colorida da diretora Justine Triet. Na imagem, ela está com uma estatueta de folha, o prêmio recebido no Festival de Cannes, apoiado à sua frente, com o seu queixo inclinado sobre ele. Ela é uma mulher branca, de cabelos loiros, veste uma roupa inteiramente preta e usa batom vermelho." width="1600" height="1117" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-800x559.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1024x715.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-768x536.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1536x1072.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1200x838.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31706" class="wp-caption-text">Justine Triet foi a terceira mulher a vencer a Palma de Ouro como diretora (Foto: Sipa/Chine Nouvelle)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a impaciência do juiz, Daniel não estava onde disse, dias antes, que estava – o tato, um de seus principais sentidos, foi incapaz de trazer a verdade. Essa mesma metáfora indica a importância que </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> dá a outros elementos cinematográficos: o som, a fotografia interessante de Simon Beaufils, o roteiro complexo e inteligente e as atuações brilhantes, que são coroadas numa direção precisa. Esses elementos, em conjunto, fizeram do longa o vencedor da </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2023/05/27/francesa-justine-triet-vence-a-palma-de-ouro-em-cannes-com-anatomia-de-uma-queda.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro no Festival de Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de Justine Triet apenas a terceira mulher a levar o prêmio, após ter sido indicada em 2019 por</span> <a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/cultura-e-lazer/noticia/2021/11/literatura-cinema-e-memorias-se-entrelacam-no-frances-sibyl-que-estreia-em-caxias-ckvtxp45e000c017f2evcwlpl.html"><i><span style="font-weight: 400;">Sibyl</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas perder para </span><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Bong Joon-ho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na atuação, é </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/sandra-huller-interview-anatomy-of-a-fall-zone-of-interest-star-1235579238/"><span style="font-weight: 400;">Sandra Hüller</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se destaca, dando a força emocional do filme – “Sandra Hüller”, guarde este nome. A substância dramática do longa parece ser encapsulada na sua atuação em harmonia com a fotografia de Beaufils, que acrescenta nuances de documentário por meio de um jogo de câmeras revelador. Hüller compreende a necessidade de manter a ambiguidade, particularmente em relação a sua personagem, acusada de matar o marido – o mesmo homem que, de maneira trágica e desintencional, causou a cegueira do filho. Essa ambiguidade paira sobre a narrativa, e ela e Triet trabalham em conjunto dentro desse limiar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos atrás, a atriz surgiu como uma estrela em ascensão em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jnkCzL62QjQ"><i><span style="font-weight: 400;">Toni Erdmann</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016), drama de </span><a href="https://www.scielo.br/j/pg/a/tJKGQrWBk4KcCWG78bytn6S/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">Maren Ade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que, para muitos, deveria ter levado a Palma de Ouro quando concorreu. Hüller, agora, desempenha papéis de destaque em dois dos principais filmes do ano: o próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925821/a-zona-de-interesse"><span style="font-weight: 400;">adaptação do romance</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Martin Amis, </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/zona-de-interesse-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, dirigida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1uYWYWPc9HU"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Glazer</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que também integra a 47ª Mostra Internacional de São Paulo.</span></p>
<figure id="attachment_31704" aria-describedby="caption-attachment-31704" style="width: 2165px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31704" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller veste um suéter de cor amarela. Ela está sentada numa mesa na cozinha, com a mão esquerda levemente levantada. Ela é uma mulher branca, loira e de olhos azuis." width="2165" height="1170" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png 2165w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1024x553.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1536x830.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-2048x1107.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1200x648.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31704" class="wp-caption-text">Por Toni Erdmann, Sandra Hüller foi vencedora do Prêmio de Cinema Alemão na categoria de Melhor Atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um elemento intrigante no filme é a recorrência da versão instrumental de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BaNSuQxD_cI"><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 50 Cent, cuja letra é notória por sua profundidade misógina. Essa música se repete ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, tornando-se uma trilha sonora não oficial que, de maneira cômica e sinistra, parece projetada para perturbar Sandra. O som está presente desde a cena inicial, na qual acompanhamos a entrevista entre ela e Zoe (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/mary-queen-of-scots-2013"><span style="font-weight: 400;">Camille Rutherford</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma estudante de pós-graduação interessada na sua escrita, trabalhos de tradução e literatura em geral. Essa entrevista, contudo, se converte em um encontro sedutor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma renomada autora alemã que, a exemplo de boa parte dos escritores contemporâneos, utiliza a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">autoficção para conceber seus trabalhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, Sandra faz carreira em Londres e se muda para uma casa nos Alpes franceses para realizar um desejo do marido, um homem francês de origem. Ela tem o alemão como língua materna, mas utiliza o inglês para se comunicar – embora às vezes, num esforço, fale o francês – e vive num país de língua francesa. Sandra não parece estar definitivamente em lugar algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela e Zoe, então, tomam taças de vinho e a conversa sorrateiramente muda de foco – não se trata mais dela, mas sim </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-essencial-de-perigosas-sapatas-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">delas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i><span style="font-weight: 400;"> começa a tocar do alto das escadas, e a entrevista precisa ser encerrada – nenhuma das duas consegue mais se ouvir, atrapalhadas pela melodia de uma canção que, na sua versão original, repete “</span><i><span style="font-weight: 400;">she feed them foolish fantasies</span></i><span style="font-weight: 400;">” (</span><i><span style="font-weight: 400;">ela alimenta o sonho dos tolos</span></i><span style="font-weight: 400;">). O marido sabia que Sandra estava flertando lá embaixo?</span></p>
<figure id="attachment_31707" aria-describedby="caption-attachment-31707" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31707" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller está num tribunal, vestindo um terno feminino. Ela é uma mulher loira e está com as duas mãos juntas e cruzadas próximo a barriga. Ela está de pé." width="2048" height="1107" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1536x830.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1200x649.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31707" class="wp-caption-text">Justine Triet revelou em entrevista à CBC que escreveu a personagem de Sandra Hüller pensando nela como atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A confusão inicial, na mistura entre biografia e ficção, é o motivo que leva a estudante de pós-graduação a entrevistar Sandra inicialmente, a fim de recolher informações para a tese que vem escrevendo. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nos faz querer descobrir qual é qual</span></i><span style="font-weight: 400;">”, insiste. A protagonista, ao sorrir, revela que sua liberdade dependerá da forma como o júri, logo menos, analisará suas afirmações – sempre interpretativas, num jogo de verdade-mentira e dos limites da interpretação. Antes do julgamento, é isso que o advogado e melhor amigo, Vincent  (</span><a href="https://45.mostra.org/filmes/eu-quero-falar-sobre-duras"><span style="font-weight: 400;">Swann Arlaud</span></a><span style="font-weight: 400;">), diz: não importa se ela matou Samuel ou não, “</span><i><span style="font-weight: 400;">esse não é o ponto</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na metade do filme, o promotor (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/softie-2021"><span style="font-weight: 400;">Antoine Reinartz</span></a><span style="font-weight: 400;">) questiona se Zoe sabia da bissexualidade de Sandra, mesmo sem a necessidade de afirmar nada além do que vimos. A revelação – que mais parece uma constatação – traz outras informações: existia um acordo tácito entre Sandra e Samuel, ou pelo menos parecia existir, no qual se relacionar com outras pessoas não seria um problema – uma tentativa de aliviar as tensões conjugais após o acidente que acabou parcialmente com a visão do filho, quando ele tinha 4 anos. Mas fica evidente que esse acordo tácito tornou-se uma fonte de conflito para o marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao evocar diretamente </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/anatomia-de-um-crime-anatomy-of-a-murder/"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de um Crime</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1959), de Otto Preminger, e </span><a href="https://www.record.com.br/produto/a-queda-3/"><i><span style="font-weight: 400;">A queda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1956), de </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/noticias/listao-da-semana/a-pena-de-morte-segundo-camus-e-mais-6-lancamentos"><span style="font-weight: 400;">Albert Camus</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra de Triet parece dar ênfase à exploração de elementos do comportamento humano e da moral, utilizando a ‘queda’ como metáfora ou ponto de partida. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, não é apenas o corpo do marido que cai da janela: o casamento de Sandra e Samuel tomba de maneira constante, cujos motivos da queda são esmiuçados nas sessões do tribunal.</span></p>
<figure id="attachment_31702" aria-describedby="caption-attachment-31702" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31702" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, veste um tribunal repleto de pessoas. À esquerda está a protagonista, Sandra Huller, sendo questionada por um advogado que veste roupa preta. À direita há um homem de cabelos pretos, com os braços cruzados, ouvindo. Ao fundo diversas pessoas estão sentadas." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1536x864.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31702" class="wp-caption-text">&#8220;O tribunal é sempre o espaço que passa a funcionar como espelho moral da imposição social&#8221;, disse Justine Triet (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em essência, </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/luiz-zanin/mostra-2023-1-o-caso-goldman-mais-um-eletrizante-drama-de-tribunal-frances/"><span style="font-weight: 400;">drama de tribunal</span></a><span style="font-weight: 400;">, embora apresente uma abordagem fresca e original dentro desse sub-gênero. Sendo possível dividir o filme em partes iguais sob o idioma inglês e o francês, o núcleo da narrativa gira em torno das revelações feitas perante o júri, e os momentos de vulnerabilidade de Sandra são compartilhados com Vincent, seu melhor amigo, mas também seu advogado, que revela ter se apaixonado por ela no passado. Esses aspectos da vida pessoal da protagonista ganham destaque nos dilemas do julgamento, revelando que as expectativas sociais, personificadas pelo júri, têm mais influência em sua condenação e redenção do que os detalhes específicos que cercam a morte do marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa narrativa complexa e emocional nos lembra como a verdade, muitas vezes, é subjetiva e multifacetada, e que o Cinema, como expressão artística, tem o poder de revelar as profundezas do </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/"><span style="font-weight: 400;">subconsciente humano</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com as situações aparentemente resolvidas, mas longe de serem definitivas. Sob um estado de incerteza, talvez o filho de Sandra, Daniel, saiba mais do que foi expressamente revelado. Não há forma mais clara de se alienar do que alimentar a sensação de que se sabe de tudo. Assim, a verdade permanece elusiva, e aceitar a versão apresentada parece ser a única opção.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Anatomy of a Fall - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fTrsp5BMloA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Se se sentir sozinho, Fale Comigo</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Aug 2023 18:13:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Vivendo na linha tênue entre mainstream e marginal, o Cinema de Horror encontrou terreno fértil no público nos últimos anos. A A24 é um dos exemplos de produtora e distribuidora independente que, dando liberdade criativa para seus realizadores, lançou sucessos instigantes à audiência e à crítica, e pareceu reacender uma chama que sempre &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/fale-comigo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Se se sentir sozinho, Fale Comigo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31318" aria-describedby="caption-attachment-31318" style="width: 924px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31318" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo-3.jpg" alt="" width="924" height="387" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo-3.jpg 924w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo-3-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo-3-768x322.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31318" class="wp-caption-text">Fale Comigo estreou no Festival de Sundance de 2023, onde foi adquirido pela A24 para ser distribuído nos Estados Unidos, e passou pelo Festival de Berlim (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivendo na linha tênue entre </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream </span></i><span style="font-weight: 400;">e marginal, o Cinema de Horror encontrou terreno fértil no público nos últimos anos. A </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/a24/"><i><span style="font-weight: 400;">A24</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é um dos exemplos de produtora e distribuidora independente que, dando liberdade criativa para seus realizadores, lançou </span><a href="https://personaunesp.com.br/marcel-the-shell-with-shoes-on-critica/"><span style="font-weight: 400;">sucessos instigantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> à audiência e à crítica, e pareceu reacender uma chama que sempre existiu no gênero, geralmente renegada ao lado B. Assim, a produtora assumiu um papel relevante em catapultar ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/aftersun-critica/"><span style="font-weight: 400;">estrelato</span></a><span style="font-weight: 400;"> obras discretas sob o seu merecido selo de qualidade. Foi o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fale Comigo</span></i><span style="font-weight: 400;">: chegando aos cinemas mundiais já sob o título de “</span><a href="https://variety.com/2023/film/news/peter-jackson-praises-talk-to-me-best-horror-movie-1235696154/"><span style="font-weight: 400;">melhor terror de 2023</span></a><span style="font-weight: 400;">”, o longa de estreia dos irmãos RackaRacka saiu da Austrália para ganhar o mundo mostrando tudo que o Horror sempre teve a oferecer.</span></p>
<p><span id="more-31316"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na trama, Mia (Sophie Wilde), que se aproximou da melhor amiga Jade (Alexandra Jensen) após a morte da mãe, busca uma distração para o </span><a href="https://personaunesp.com.br/close-critica/"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em uma festa de adolescentes do subúrbio, elas descobrem um ritual envolvendo uma mão embalsamada que supostamente invocaria espíritos e permitiria a possessão. Os jovens usam e abusam da prática como lazer &#8211; e para se provar uns aos outros -, até que as regras do rito são quebradas.</span></p>
<figure id="attachment_31322" aria-describedby="caption-attachment-31322" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31322" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1708" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1-1536x1025.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31322" class="wp-caption-text">No Brasil, Talk To Me chegou aos cinemas pela Diamond Films (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os diretores RackaRacka, também conhecidos pelos nomes de batismo Danny e Michael Phillippou, logo indicam o que está acontecendo naquela garagem de casa do subúrbio australiano: adolescentes são idiotas e tomam decisões imbecis &#8211; e, como exemplificou </span><a href="https://personaunesp.com.br/panico-25-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Pânico</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o contexto de uma festa é ainda mais perigoso. O princípio é algo que permeia o terror há décadas e é quase unânime comprar que, sim, jovens são estúpidos e as piores situações acontecerão se depender deles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Talk To Me </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original), o buraco é mais embaixo. O roteiro de Danny Philippou, Bill Hinzman e Daley Pearson escolhe aprofundar a situação de Mia. A protagonista perdeu sua mãe há um ano e, desde então, não sabe exatamente a causa para isso, já que seu pai não revela o que realmente aconteceu. Desconfiada, afastada da família e se sentindo sozinha, a personagem é o alvo perfeito para o que acontece em frente a mão embalsamada: </span><a href="https://personaunesp.com.br/scream-1a-temp-critica/"><span style="font-weight: 400;">jovens</span></a><span style="font-weight: 400;"> acendem uma vela para abrir a porta para o </span><a href="https://personaunesp.com.br/invocacao-do-mal-3-critica/"><span style="font-weight: 400;">além</span></a><span style="font-weight: 400;">, seguram o objeto, entoam “fale comigo” para invocarem os espíritos e “eu te deixo entrar” para serem possuídos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A possessão é controlada, a princípio. Seguindo a regra dos filmes de Horror com um objeto sobrenatural, como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EqO-Az95qRo&amp;pp=ygUNb3VpamEgdHJhaWxlcg%3D%3D"><i><span style="font-weight: 400;">Ouija</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> ou </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WWf6mu03QNM&amp;pp=ygUadmVyZGFkZSBvdSBkZXNhZmlvIHRyYWlsZXI%3D"><i><span style="font-weight: 400;">Verdade ou Desafio</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, os Phillippou criam uma mitologia própria para o ato, que pouco faz sentido e, como toda boa obra do gênero, foi repassada da maneira mais tosca e divertida possível &#8211; um conhecido de um conhecido falou e ninguém nunca ousou discordar. Aqui, as exigências são simples e basta não deixar o espírito no corpo por mais de 90 segundos e apagar a vela no final. Como é de se esperar, na vez de Mia, é tudo isso que não acontece.</span></p>
<figure id="attachment_31321" aria-describedby="caption-attachment-31321" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31321" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1715" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-800x536.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-1024x686.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-768x514.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-2-1536x1029.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31321" class="wp-caption-text">Um dos aspectos que os irmãos RackaRacka não abriram mão foi o sotaque australiano: eles queriam um filme que os representasse até no jeito de falar, mesmo que isso não fosse comercial (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A previsibilidade acaba aí, já que </span><i><span style="font-weight: 400;">Talk To Me </span></i><span style="font-weight: 400;">traz uma nova roupagem às histórias de possessão. Primeiro, nada de um </span><i><span style="font-weight: 400;">flashback</span></i><span style="font-weight: 400;"> sobre como o objeto se tornou amaldiçoado. Segundo, sob hipótese alguma adolescentes em uma festa discutirão algo relacionado a religiosidade &#8211; em que mundo real isso aconteceria? Os Phillippou fogem da obviedade de discutir dilemas místicos do porquê aquilo os aflige e do </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-hereditario/"><span style="font-weight: 400;">didatismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> da situação, encarando as coisas pelo que elas são: apenas um bando de jovens aceitando participar de um desafio perigoso na frente de câmeras e </span><i><span style="font-weight: 400;">lives </span></i><span style="font-weight: 400;">alheias para não serem taxados de frouxos. Afinal, todos querem pertencer e se sentir acolhidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, invocar espíritos e permiti-los tomar conta do corpo, mesmo que por 90 segundos, é consensual e funciona como um droga recreativa. E como toda droga, vicia os personagens e os faz querer ir além. Eles sequer lembram que é possível conversar com os possessores sem deixá-los entrar e o imediatismo e a impulsividade típicos da </span><a href="https://personaunesp.com.br/bodies-bodies-bodies-critica/"><span style="font-weight: 400;">geração Z</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomam conta do elenco, composto quase inteiramente por jovens. Com a exceção da mãe de Jade e Riley, interpretada calorosamente pela veterana Miranda Otto, e do ausente pai de Mia, vivido por Marcus Johnson, os adultos nunca estão por perto e, quando estão, não escutam o que os mais novos têm a dizer. Não é de se estranhar que a brincadeira tenha ido tão longe.</span></p>
<figure id="attachment_31326" aria-describedby="caption-attachment-31326" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31326" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31326" class="wp-caption-text">Os diretores escolheram que o objeto embalsamado fosse uma mão justamente pela simbologia de conexão que os jovens tanto anseiam (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que deixar tudo na mão de adolescentes é um tanto arriscado. Quem vai resolver tudo quando o terceiro ato estiver caminhando para a conclusão? Logo de início, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fale Comigo </span></i><span style="font-weight: 400;">escancara o quanto os </span><a href="https://www.youtube.com/@Therackaracka"><span style="font-weight: 400;">RackaRacka</span></a><span style="font-weight: 400;"> aproveitaram da </span><a href="https://personaunesp.com.br/x-ti-west-critica/"><span style="font-weight: 400;">liberdade criativa</span></a><span style="font-weight: 400;">. Eles, que chegaram a recusar uma proposta de financiamento de um grande estúdio para não terem que limitar suas ideias, abusam do que aprenderam no </span><i><span style="font-weight: 400;">YouTube </span></i><span style="font-weight: 400;">e constroem uma narrativa dinâmica, que equilibra momentos de tensão à profundidade do roteiro &#8211; frequentemente unindo os dois. É quase automático lembrar que Mia é uma pilha de desconfiança e dúvida, que fará de tudo para sentir e acreditar em algo &#8211; ainda que esse algo venha de uma voz do além.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Justamente porque a introdução já vendeu brilhantemente o conceito mais básico do Horror &#8211; jovens são estúpidos! -, a produção equilibra os atos para dar espaço ao luto e ao sentimento de pertencimento que moram na protagonista. Mesmo quando a linha narrativa é desvendada, as </span><a href="https://letterboxd.com/journal/terrifying-twos-talk-to-me-racka-racka-michael-danny-philippou/"><span style="font-weight: 400;">escolhas dos diretores</span></a><span style="font-weight: 400;"> de continuar a empurrando aos extremos, sem seguir fórmulas de </span><i><span style="font-weight: 400;">jumpscare</span></i><span style="font-weight: 400;">, dilemas morais sobre como resolver a situação ou saídas heróicas, mostra uma personalidade que se recusa a aceitar o óbvio, mas sempre procura pelo inesperado.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="FALE COMIGO | Trailer Dublado" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/yyKTCyePxZA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além do que se acompanha, o que se vê também eleva os méritos dos realizadores. Seja para contornar a falta de orçamento ou por uma escolha estilística, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fale Comigo </span></i><span style="font-weight: 400;">abusa dos visuais práticos para criar uma identidade marcante entre as inúmeras possibilidades do Horror. A exemplo de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5n9v35xgRpw&amp;pp=ygUmYSBtb3J0ZSBkbyBkZW1vbmlvIGEgYXNjZW5zw6NvIHRyYWlsZXI%3D"><i><span style="font-weight: 400;">A Morte do Demônio: A Ascensão</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que, mesmo com um orçamento menos modesto, optou pela praticidade e conseguiu carimbar cenas na mente do espectador, será difícil esquecer das sequências em que os adolescentes recebem os invasores em seus corpos (dirigidas livremente e aos gritos pelos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6gi0mJvq8S0&amp;pp=ygULcmFja2EgcmFja2E%3D"><span style="font-weight: 400;">irmãos Phillippou</span></a><span style="font-weight: 400;">) ou das que Riley está longe de si.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, o departamento de maquiagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Talk To Me </span></i><span style="font-weight: 400;">mostra </span><a href="https://www.rogerebert.com/interviews/talk-to-me-interview"><span style="font-weight: 400;">a que veio</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">CGI </span></i><span style="font-weight: 400;">não faria melhor nem se tentasse. No entanto, os principais aliados do roteiro e da direção são os próprios atores. Apesar de não ganharem um aprofundamento mínimo, dando a sensação de que são praticamente descartáveis, o grupo de jovens que empurra o longa para frente só o faz pela veracidade com que interpretam personagens com idades semelhantes às deles mesmos.</span></p>
<figure id="attachment_31319" aria-describedby="caption-attachment-31319" style="width: 798px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31319" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo.png" alt="" width="798" height="457" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo.png 798w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/fale-comigo-768x440.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31319" class="wp-caption-text">Zoe Terakes é não-binárie e, mesmo que o nenhum subtexto de identidade ou sexualidade seja explorado em Talk To Me, o filme foi impedido de ser exibido no Kuwait (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto </span><a href="https://www.instagram.com/p/CvlaNm4PF8U/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igshid=MzRlODBiNWFlZA=="><span style="font-weight: 400;">Zoe Terakes</span></a><span style="font-weight: 400;">, intérprete de Hayley, é rebelde (aparentemente) sem causa, Alexandra Jensen vive uma Jade tão sem sal que poderia ser uma típica adolescente de 16 anos com problemas tão importantes como beijar o namorado. Ainda assim, as performances sabem se dosar e crescem para além das personalidades iniciais quando o pior começa a acontecer, assumindo um desespero palpável. Já Joe Bird, na pele de Riley, o irmão mais novo e pré-adolescente de Jade, mescla entre a inocência e a bizarrice, em uma escalada impensável proporcionada pelo roteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o grande nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fale Comigo </span></i><span style="font-weight: 400;">é </span><a href="https://www.russh.com/talk-to-me-sophie-wilde-zoe-terakes-interview/"><span style="font-weight: 400;">Sophie Wilde</span></a><span style="font-weight: 400;">. A menina dos olhos de Danny e Michael Phillippou não deixa espaço para competição no protagonismo da obra e dá uma nova carga dramática e psicológica a toda cena que participa. É na pele da atriz que Mia vira uma personagem identificável, mesmo quando repreensível. A empatia evocada é mérito da própria intérprete, que clama por conexão, respostas ou apenas algum alento em meio à dor a cada novo “</span><a href="https://olhardigital.com.br/2023/08/16/cinema-e-streaming/pouco-susto-e-muita-tensao-veja-o-que-esperar-de-fale-comigo-a24/"><span style="font-weight: 400;">fale comigo</span></a><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<figure id="attachment_31320" aria-describedby="caption-attachment-31320" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31320" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1715" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-800x536.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-1024x686.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-768x514.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Fale-Comigo_Diamond-Films-3-1536x1029.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31320" class="wp-caption-text">A sequência de Fale Comigo foi confirmada pela A24 e deve ser uma prequela sobre o caso anterior da mão amaldiçoada (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Escancarando elementos do Horror que já pipocaram em algumas </span><a href="https://republicadomedo.com.br/a-blumhouse-e-a-nova-forma-de-fazer-horror/"><span style="font-weight: 400;">outras produções</span></a><span style="font-weight: 400;">, o trunfo de Michael e Danny Phillippou é sabê-los incorporar em uma história envolvente, uma visão aterrorizante e marcante em uma condução que não deixa o espectador piscar os olhos. Sobretudo, surpreende ao dar um novo ponto de vista a um subgênero consolidado, o deixando na mão de jovens enlutados, sozinhos e desesperados por afeto, atenção ou um breve momento fora de si. Com uma </span><a href="https://www.instagram.com/reel/CvsH2MRNXfy/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igshid=MzRlODBiNWFlZA=="><span style="font-weight: 400;">história fechada</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fale Comigo </span></i><span style="font-weight: 400;">também se aproveita das pontas soltas que provoca &#8211;  afinal, o didatismo não é o ponto forte dos diretores e cabe ao público pensar por si mesmo. Em caso de dúvidas, basta segurar a mão, acender a vela e entoar “fale comigo” mais uma vez.</span></p>
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