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	<title>Arquivos Contos &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Estante do Persona &#8211; Outubro de 2023</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Oct 2023 19:49:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“(&#8230;) Às vezes, me assusta pensar que os problemas cotidianos podem ser para mim um pouco mais terríveis do que para o resto das pessoas.”  — Samanta Schweblin O que mais assombra é o desconhecido. A aproximação do indivíduo a algo nebuloso, que remete ao comum, mas, de certa forma, possui uma aura em desalinho. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-outubro-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona &#8211; Outubro de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31735" aria-describedby="caption-attachment-31735" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31735" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/estanteoctwp-800x420.jpg" alt="O fundo é roxo. No canto superior direito e no canto inferior esquerdo, há duas teias de aranha pretas em menor opacidade. No centro, acima, está o logo do persona, um olho com íris vermelha e um pupila no formato de um play. Abaixo está um livro laranja, apoiado sobre três livros; o primeiro diz “estante do”, o segundo “persona” e o terceiro está o mês, Outubro de 2023. Apoiados ao lado do livro laranja, há um pequeno gatinho de olhos amarelos arregalados e um abóbora decorada na temática de Halloween." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/estanteoctwp-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/estanteoctwp-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/estanteoctwp.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31735" class="wp-caption-text">Em clima de mês do horror, o Estante do Persona de Outubro brinca de assombração (Arte: Raíra Tiengo/ Texto de abertura: Enzo Caramori e Marcela Lavorato)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“(&#8230;) Às vezes, me assusta pensar que os problemas cotidianos podem ser para mim um pouco mais terríveis do que para o resto das pessoas.”</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"> — <em>Samanta Schweblin</em></span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O que mais assombra é o desconhecido. A aproximação do indivíduo a algo nebuloso, que remete ao comum, mas, de certa forma, possui uma aura em desalinho. Algo no fundo do horizonte, coberto de escuridão e fumaça se faz presente, mesmo que não se possa ver com olhos ainda humanos. O terror e o horror, que nasce não somente de grandes escritores e realizadores do gênero, mas do desenterrar das sensibilidades do inconsciente, e da explicitação do desconhecido não somente enquanto o outro, mas o que não sabemos de nós mesmos. No mês de Outubro de 2023, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/estante-do-persona/"><span style="font-weight: 400;">Estante do Persona</span></a><span style="font-weight: 400;"> permite se adentrar ao colapso do corpo e do cotidiano pelo grotesco e pela violência, explicitada nas discussões do Mês do Horror, que tomou a Literatura da autora Mariana Enriquez como ponto central de reflexão.</span></p>
<p><span id="more-31734"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra da escritora, jornalista e professora argentina foi escolhida para o entendimento do que é, em uma perspectiva que constrói, do horror social das desigualdades e violências das </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/espectros-no-rio-da-prata"><span style="font-weight: 400;">ditaduras</span></a><span style="font-weight: 400;"> latino-americanas, da misoginia e do preconceito racial, o Terror enquanto um gênero literário contemporâneo. O gótico moderno e político de Enriquez, também explorado por autoras como Samanta Schweblin, Selva Almada e Monica Ojeda, é a sua maneira de transformar o que abisma em um percurso narrativo de deslumbramentos e mistérios, além de, socialmente, explorar a opressão e subverter protagonismos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seu diálogo do terror com o realismo cria riscos à </span><a href="https://www.fg2021.eventos.dype.com.br/trabalho/view?ID_TRABALHO=5306"><span style="font-weight: 400;">unidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> da matéria ontológica dos corpos de suas personagens, tornando os sujeitos, com suas próprias individualidades, em uma massa de seres supérfluos, amorfos e apenas aterrorizados pelo temor e pelo trauma social. Nisso, Enriquez denuncia as violências dos corpos sobre outros corpos como alegorias políticas, construindo uma literatura que, além de subverter o padrão canônico e </span><a href="https://www.revistas.usp.br/novosolhares/article/view/204052/196852"><span style="font-weight: 400;">racista</span></a><span style="font-weight: 400;"> de H.P Lovecraft, não se faz por figuras irreais e sobrenaturais, mas pela indicação de algo anti-natural e em incongruência com o real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, </span><a href="https://intrinseca.com.br/livro/os-perigos-de-fumar-na-cama/#:~:text=Um%20homem%20marginalizado%20semeia%20desgra%C3%A7as,um%20sacrif%C3%ADcio%20em%20um%20balne%C3%A1rio."><i><span style="font-weight: 400;">Os perigos de fumar na cama</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> se traduz em todo esse horror social que é explorado pela autora argentina. O livro, lançado em 2023 pela Intrínseca, nos guia pelos 12 contos de uma maneira bem descritivista e esse ponto é essencial para entender o que Enriquez quer nos fazer sentir: raiva, angústia, melancolia, ódio e tristeza. Ao relatar acontecimentos tão palpáveis, mas ao mesmo tempo construídos de formas fantasiosas, percebemos que as sequelas e as próprias violências sociais e os preconceitos se materializam em um texto brutal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É digno dizer que Mariana Enriquez traz para a obra algo muito visceral em todos os sentidos, seja nos conteúdos das histórias, nos seus desenvolvimentos ou nas histórias sem um final definido – o que leva o leitor a utilizar a imaginação para dar continuidade ao horror. Com isso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os perigos de fumar na cama, </span></i><span style="font-weight: 400;">cujo título</span> <span style="font-weight: 400;">inspirado em um </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2023/10/07/interna_pensar,1572859/mariana-enriquez-e-as-primeiras-licoes-de-pavor.shtml"><span style="font-weight: 400;">cancioneiro estadunidense</span></a><span style="font-weight: 400;">, anuncia suas maldições de quem se atrever aos seus apuros dá abertura ao Estante do Persona de Outubro 2023 e as suas aterrorizantes indicações para o mês mais macabro do ano.  </span></p>
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_31740" aria-describedby="caption-attachment-31740" style="width: 348px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31740" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Misery-1.png" alt="A capa é do livro Misery: Louca Obsessão. O seu plano de fundo é uma floresta ao entardecer. O chão é coberto de neve e o primeiro plano é uma máquina de escrever antiga e enferrujada com neve em cima. Na parte superior central da imagem, temos o nome do autor Stephen King em letras brancas e finas. Abaixo, o título “Misery” em uma letra blocada vermelha e na folha saindo da máquina de escrever, a outra parte do título: “Louca Obsessão.”" width="348" height="500" /><figcaption id="caption-attachment-31740" class="wp-caption-text">A adaptação rendeu à Kathy Bates uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Atriz (Foto: Editora Suma)</figcaption></figure>
<p><b>Stephen King &#8211; Misery: Louca Obsessão (328 páginas, Editora Suma) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode estourar o </span><i><span style="font-weight: 400;">Chandon</span></i><span style="font-weight: 400;">, você acabou de escrever o último livro de uma longa série que, no fundo, sempre odiou um pouquinho. Com o manuscrito em mãos, segue com seus planos de comemorar e respira, finalmente, os ares da liberdade. No entanto, não contava com a previsão do tempo e um acidente acontece. A boa notícia: você é salvo. A má notícia é por Annie Wilkes. Ao acordar depois de dez dias, as primeiras informações que Paul Sheldon recebe são péssimas: ele não sente seus pés e está preso com sua fã número 1. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Misery: Louca Obsessão</span></i><span style="font-weight: 400;">, um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">best-sellers</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Stephen King, prende pela completa agonia, que chega a ser paralisante. Nos sentimos na pele do protagonista, vivendo as angústias que apenas um prisioneiro consegue sentir. A ansiedade de ser pego, a desesperança de uma salvação e os planos de fuga que embalam a narrativa, além da assombrosa Annie, nos acompanham pelas páginas muito bem construídas de King &#8211; tão bem construídas que foram adaptadas para as telas pelo diretor Rob Neider. No cinema ou na literatura. Cuidado: há risco de você enlouquecer junto com Paul Sheldon.</span><b> &#8211;</b> <b>Clara Sganzerla</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31736" aria-describedby="caption-attachment-31736" style="width: 533px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31736" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/A-causa-secreta-1-533x800.jpg" alt="Capa do livro A causa secreta. A capa possui um preto com bolinhas brancas. Ao centro superior, há o título do livro A Causa Secreta na cor laranja. Logo abaixo, como se fosse um rasgo no meio da capa, uma pessoa, em preto e branco, aparece ao fundo do rasgo em um plano branco. A continuação da pessoa, por cima do rasgo, é um esqueleto. Sua mão tenta sair pelo rasgo. No centro do crânio da caveira aparece o nome do autor, Machado de Assis, em laranja. No canto inferior direito, há a logo da Editora Itapura." width="533" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/A-causa-secreta-1-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/A-causa-secreta-1-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/A-causa-secreta-1-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/A-causa-secreta-1.jpg 1000w" sizes="(max-width: 533px) 85vw, 533px" /><figcaption id="caption-attachment-31736" class="wp-caption-text">Todas as obras de Machado de Assis estão em domínio público (Foto: Editora Itapuca)</figcaption></figure>
<p><b>Machado de Assis &#8211; A Causa Secreta (8 páginas, Domínio Público)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como um ótimo romancista, Machado de Assis também era um brilhante contista. Ao ler </span><i><span style="font-weight: 400;">A Causa Secreta</span></i><span style="font-weight: 400;"> não espere um terror fantasmagórico, porque está longe disso. Muitos dos contos do autor trabalham o terror a partir do real e, nesse conto, não seria diferente. Na obra, são expostos os terrores presentes no mundo material, sendo eles, muitas das vezes, ocasionados pelo próprio ser humano. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Construindo o texto através de uma escrita com bastante detalhes dos acontecimentos,  a história nos apresenta três personagens principais: Garcia, Fortunato e Maria Luísa, que já começam mortos. A partir disso, Machado de Assis nos leva pela narrativa para sabermos o porquê isso aconteceu, como aconteceu e qual seria a ligação entre os três e o terror que assombra cada um deles.</span><b> &#8211; Marcela Lavorato</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31739" aria-describedby="caption-attachment-31739" style="width: 527px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31739" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Dracula1-527x800.jpg" alt="Reprodução da capa original da primeira versão do livro Drácula. Capa amarela, com uma linha vermelha fina que acompanha a borda do livro. O nome da obra no topo, em uma fonte grande o suficiente para ocupar toda a horizontal, logo acima do nome do autor, ambos em letras vermelhas, no mesmo tom da linha" width="527" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Dracula1-527x800.jpg 527w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Dracula1-675x1024.jpg 675w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Dracula1-768x1165.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Dracula1.jpg 989w" sizes="auto, (max-width: 527px) 85vw, 527px" /><figcaption id="caption-attachment-31739" class="wp-caption-text">O romance já foi adaptado para o cinema mais de 30 vezes (Foto: Editora DarkSide)</figcaption></figure>
<p><b>Bram Stoker &#8211; Drácula (580 páginas, Editora DarkSide)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Drácula </span></i><span style="font-weight: 400;">é o clássico dos clássicos quando se fala em terror. Em 1897, o autor irlandês Bram Stoker se inspirou nas histórias do folclore da Transilvânia e imortalizou o personagem do Conde Drácula, que vive isolado em seu castelo na terra romena. Após mais de um século desde a sua publicação, o romance ainda se sustenta como uma das histórias mais assustadoras e eficazes do gênero, e está entre as que consolidaram a estética do horror gótico. Além disso, se mantém fresca enquanto retrato da era vitoriana e suas ansiedades, servindo como objeto de análise para os dias de hoje. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É por esses e outros motivos que, ao entrar em qualquer loja de fantasias ou festa de Halloween, as chances de você esbarrar com um Drácula são muito altas. Isso além de suas aparições em filmes e nas mais diversas obras culturais, tendo suas incontáveis versões, sejam eróticas ou grotescas, aproveitando das muitas facetas que coexistem na versão original. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dos clássicos do cinema mudo, com Nosferatu, ao universo infantil, com Hotel Transilvânia, o vampiro se tornou um dos personagens mais replicados de todos os tempos. Mas, não é só o protagonista que ganhou o </span><i><span style="font-weight: 400;">status </span></i><span style="font-weight: 400;">de ícone do terror, outros personagens também se tornaram inesquecíveis, como Van Helsing, o mais famoso caçador de vampiros, com suas flores de alho e estaca de madeira. </span><b>&#8211; Giovanna Freisinger</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31737" aria-describedby="caption-attachment-31737" style="width: 553px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/contos-de-amor-553x800.jpg" alt="Capa do livro “Contos de amor, de loucura e de morte”, do escritor uruguaio Horacio Quiroga e publicado pela Editora Iluminuras. Sobre um fundo bege claro, há os escritos em caixa alta e com serifa “Contos de amor, de loucura e de morte” em letras pretas, e “Horacio Quiroga” em vermelho. Abaixo, há o desenho de uma mão, em preto e branco, e do topo de um vidro, tampado por uma rolha." width="553" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/contos-de-amor-553x800.jpg 553w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/contos-de-amor.jpg 691w" sizes="auto, (max-width: 553px) 85vw, 553px" /><figcaption id="caption-attachment-31737" class="wp-caption-text">O que um travesseiro de plumas, uma galinha degolada e um solitário têm em comum? As palavras sangrentas de Horacio Quiroga! (Foto: Editora Iluminuras)</figcaption></figure>
<p><b>Horacio Quiroga &#8211; Contos de amor, de loucura e de morte (192 páginas, Editora Iluminuras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Andando em uma linha tênue entre a realidade e a imaginação, o uruguaio Horácio Quiroga mostra como o amor, a loucura e a morte se conectam. Passional e sangrenta, a coletânea possui histórias que beiram o delírio, o trauma e a dor. Regados pela angústia e pela inquietude, os contos são aterrorizantes, e trazem detalhes perturbadores, que assustam qualquer leitor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No livro, Quiroga escancara a violência, a instabilidade e o sofrimento presentes na vida humana, e apresenta – de forma nua, crua e descritiva – os mais insanos atos de paixão e de perecimento. Publicado originalmente em 1917, </span><i><span style="font-weight: 400;">Contos de amor, de loucura e de morte</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Horacio Quiroga é um retrato do Horror e do Terror latino-americano, que – por meio de seus finais inesperados, e detalhes ditos e não ditos – consegue desestabilizar e amedrontar quem quer que esteja lendo. </span><b>&#8211; Laura Hirata-Vale</b></p>
<hr />
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-31738" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/salem-1-558x800.jpg" alt="" width="558" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/salem-1-558x800.jpg 558w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/salem-1.jpg 697w" sizes="auto, (max-width: 558px) 85vw, 558px" /></p>
<p><b>Stephen King &#8211; Salem (464 páginas, Editora Suma)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nada como vampiros para animar um Dia das Bruxas &#8211; e disso Stephen King sabe bem. Para esconder o mistério, a versão brasileira do segundo romance da carreira do Rei do Horror mudou de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Hora do Vampiro </span></i><span style="font-weight: 400;">para </span><i><span style="font-weight: 400;">Salem</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas a fama que persegue o autor e o imaginário popular não o deixam esconder do que se trata. Isso porque uma casa misteriosa, pessoas doentes do dia para a noite com marcas no pescoço e corpos sumindo na calada da madrugada só podem indicar uma coisa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, King homenageia o </span><i><span style="font-weight: 400;">Drácula </span></i><span style="font-weight: 400;">de Bram Stoker como o mestre que é, unindo elementos comuns de história desse subgênero para criar um livro denso, mas que em nenhum momento deixa o leitor relaxar diante do mistério não confirmado. A aura cinzenta e sobrenatural da cidade de Jerusalem’s Lot &#8211; a Salem do título &#8211; se une à mitologia assombrosa da Casa Marsden e do quarteto diverso de personagens principais: um vampiro centenário, um padre atormentado, um escritor traumatizado pela infância na cidade e uma criança com uma mente fértil e mais coragem que os outros três juntos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 464 páginas, Stephen King &#8211; na época, ainda no começo da carreira &#8211; mostra o porquê se tornou a lenda do terror que é hoje, prendendo a atenção do início ao fim no suspense do desconhecido e no apego por personagens cativantes. </span><i><span style="font-weight: 400;">Salem </span></i><span style="font-weight: 400;">virou um clássico por um motivo, mas leia de dia, com as janelas fechadas e um crucifixo a tiracolo. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31742" aria-describedby="caption-attachment-31742" style="width: 416px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31742" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/killers-1.jpg" alt=" Capa do livro Lady Killers. A obra possui uma capa de fundo cor-de-rosa pink com o título “Lady Killers” em grandes letras brancas no centro. Abaixo, há o texto “Assassinas em série” no mesmo tom de branco em letras menores e inscrito em um fundo oval preto. Nos quatro cantos da capa há ilustrações de cobras na cor preta e ,na parte central inferior, uma tesoura aberta sobre o logo da editora. Na porção superior, há o desenho de um olho dentro de um círculo branco, ele derrama uma lágrima preta. Acima da ilustração está o texto “Entre na mente das psicopatas”. O nome da autora está acima do título. " width="416" height="598" /><figcaption id="caption-attachment-31742" class="wp-caption-text">Entrando no mundo do true crime, o terror de Lady Killers é absolutamente real (Foto: Editora Darkiside)</figcaption></figure>
<p><b>Lady Killers &#8211; Assassinas em série (384 páginas, Editora Darkside) </b></p>
<p>Violência e sede de sangue sempre foram tônicas ligadas ao masculino e, se desde os primórdios da sociedade a mulher é traduzida pela delicadeza, esperar que elas também sejam autoras de assassinatos cruéis parece fora dos trilhos. É aí que <em>Lady Killers &#8211; Assassinas em série</em> entra para provar, em relatos reais, que a lembrança popular não contempla como os maiores crimes da história vem assinados pelas <em>ladys</em>.</p>
<p>Fugindo do lado comum do terror e suas criaturas fantásticas, a obra de Tori Telfer – traduzida no Brasil por Marcus Santana e Daniel Alvez da Cruz – é cruelmente verdadeira. Com uma escrita perspicaz e páginas recheadas de ilustrações feitas cirurgicamente por Jennifer Dahbura, a obra nos dá uma nova perspectiva da mente de grandes assassinas. Assustador em sua própria interpretação,<em> Lady Killers</em> vai pegar você também. <strong>&#8211; Jamily Rigonatto</strong></p>
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		<title>Em Noite no paraíso, a vida se celebra na genuinidade do existir</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2022 19:29:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Ela foi embora. Eu me deitei na terra úmida. Estava cansada. Só queria ficar ali deitada, para sempre, e não fazer absolutamente nada.” Jamily Rigonatto&#160; Algumas palavras são capazes de encantar com a sonoridade aconchegante que têm, às vezes – se você souber usá-las – pode transformar o mundo real, cheio de sua concretude bruta, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/noite-no-paraiso-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Noite no paraíso, a vida se celebra na genuinidade do existir"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29559" aria-describedby="caption-attachment-29559" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress.jpg" class="size-full wp-image-29559" alt="" width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/noitenoparaiso_wordpress-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29559" class="wp-caption-text">Recebido do Persona na parceria da Companhia das Letras, Noite no paraíso: Mais contos reafirma o senso de humor da contista Lucia Berlin (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“Ela foi embora. Eu me deitei na terra úmida. Estava cansada. Só queria ficar ali deitada, para sempre, e não fazer absolutamente nada.”</span></p>
</blockquote>
<p><b>Jamily Rigonatto&nbsp;</b></p>
<p><span style="font-weight: 400">Algumas palavras são capazes de encantar com a sonoridade aconchegante que têm, </span>às<span style="font-weight: 400"> vezes – se você souber usá-las – pode transformar o mundo real, cheio de sua concretude bruta, em algo curioso e burlesco. É assim que Lucia Berlin desenvolve os vocábulos em </span><span style="font-weight: 400"><i>Noite no paraíso: Mais contos</i></span><span style="font-weight: 400">, livro publicado pela </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://personaunesp.com.br/tag/companhia-das-letras/">Companhia das Letras</a></i></span><span style="font-weight: 400"> em Agosto de 2022. No texto, a autora explora os aspectos da vida sob seu olhar singular e lança luz à vida – mesmo quando esta parece encoberta por trevas inebriantes.&nbsp;</span></p>
<p><span id="more-29552"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Os personagens de </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.publico.pt/2016/04/04/culturaipsilon/noticia/quem-e-lucia-berlin-uma-autora-que-nao-mente-1727426">Lucia</a></span><span style="font-weight: 400"> são plurais, mas visivelmente retirados de contextos reais dos quais ela fez parte. Em sua jornada de 68 anos, iniciados em 1936 e terminados em 2004, a escritora estadunidense, nascida no Alasca, repousou suas vivências no Chile, México e Estados Unidos, o que fica marcado em cada uma das grafias de suas obras. Além de passar por vários lugares, ser mãe de três filhos, ter três casamentos mal sucedidos, uma leva de empregos diversos e ainda lutar contra o alcoolismo, fazem seu olhar sobre o mundo transgredir a linha do comum.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400"><i>Noite no paraíso</i></span><span style="font-weight: 400">, assim como </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/27/cultura/1448651122_702487.html">Manual da faxineira</a></i></span><span style="font-weight: 400"> – que ganhou sua versão no Brasil em 2013 – foi publicado postumamente. Em tons irreverentes e sinceros a sua forma, o texto extrai de pessoas comuns uma individualidade apaixonante. A tradução de Sonia Moreira reafirma os aspectos boleados da linguagem e transfigura as possibilidades alvoroçadas do inglês para o português com excelência.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“Anos depois às vezes você olha para trás e diz que aquele foi o começo de… ou nós estávamos tão felizes na época… antes… depois… Ou você pensa eu vou ficar feliz quando… assim que conseguir… se nós…”&nbsp;</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">Caso pessoas comuns possam – e podem – protagonizar momentos em que a singularidade encontra o acaso, Berlin constata isso com uma força ímpar. Desde garotinhas vendendo rifas a uma moça visitando pontos turísticos de Paris, tudo tem fundo em rebuliços internos ou externos. A diferenciação entre a obra e a escrita de outros cronistas e </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/as-convidadas-critica/">contistas</a></span><span style="font-weight: 400"> é que tudo é construído de maneira suave, como se mesmo o dramático estivesse em completo consentimento com as personalidades plurais.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Muito do </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Lucia-Berlin-Quando-a-historia-precisa-ser-ela-mesma87">contexto social</a></span><span style="font-weight: 400"> e político compõem as significações desses cenários, como os reflexos da Segunda Guerra Mundial desenrolando-se nos contos em que Lucha é protagonista e vive no Texas. Mesmo que de forma indireta, os elementos conseguem denunciar o contexto histórico nas narrativas sem deixar as datas explícitas. Ao fundo dos enredos centrais, existem pedaços do espaço geográfico e temporal em que as cenas ocorrem enquanto envolvem as interações entre imigrantes, a diferença econômica nos bairros centrais e os reflexos coloniais. Esse aspecto se mostra em detalhes como o programa passando na televisão, os soldados morando nas extremidades da cidade ou as mulheres de chapéu na alta sociedade.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Para além das circunstâncias, preconceitos e discriminação são expostos de forma clara. Isso é feito com total naturalidade, já que os absurdos se inserem com o peso de uma pena caindo de um prédio. Quando aborda essas ocorrências, Lucia sempre trata de introduzir um comentário </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/a-pediatra-critica/">ácido</a></span><span style="font-weight: 400"> ou uma atitude desaforada em algum dos sujeitos para desviar ao equilíbrio que mantém a leitura fluida e bem-humorada.&nbsp;</span></p>
<figure id="attachment_29554" aria-describedby="caption-attachment-29554" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/Imagem-2-9.jpg" class="size-full wp-image-29554" alt="Foto da autora Lucia Berlin. A escritora é uma mulher branca de cabelos curtos castanhos. Ela tem olhos claros e usa uma franja na testa. Seu rosto está voltado para frente e a foto é em preto e branco." width="434" height="650"><figcaption id="caption-attachment-29554" class="wp-caption-text">Lucia Berlin é considerada uma das maiores contistas de língua inglesa (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400">No </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/">conto</a></span><span style="font-weight: 400"> que dá nome ao livro se encontram os contrapontos. Ali, com celebridades na mesa de um bar e discussões acaloradas, as coisas se tornam mais próximas da extravagância. Entre alcoólicos e ilícitos, diversão e melancolia se misturam para expor fragilidades nas figuras de Elizabeth Taylor, Richard Burton e Ava Gardner. O mistério da contradição em afetos e desafetos, fins e recomeços, sobriedade e embriaguez.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Apesar de espelhada nos personagens, </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://lithub.com/lucia-berlin-writing-advice-and-more-in-this-never-before-published-interview/">Berlin</a></span><span style="font-weight: 400"> é praticamente a protagonista fixa da coletânea. Sua existência ubíqua controla as margens e linhas acessadas em cada uma das histórias, trazendo para a ponta do lápis o que esteve em sua essência. Sem precisar de linearidade ou ligação entre os contos, a autora faz do pífio um espectro da fascinação: ato de existir modulado por uma unicidade deslumbrante.&nbsp;&nbsp;</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400">“A cidade inteira estava louca pra ver quem era a pobre da trouxa que tinha comprado a casa. Era impossível não ficar com pena dela, apesar de a entrada ter sido só mil dólares. Claro que ela estaria rica agora se tivesse ficado com a propriedade. Qualquer um podia ter dito que a bomba estava nas últimas, avisando dos cupins da fiação. Mas nunca passou pela cabeça de ninguém que me telhado ia desabar. Era um telhado bom a beça.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400">A leitura de </span><span style="font-weight: 400"><i><a href="https://www.google.com/aclk?sa=l&#038;ai=DChcSEwjvorXbsYj8AhUC7pEKHYyLCdIYABAIGgJjZQ&#038;sig=AOD64_32G6GUunytcR8FFqDpdHW0O2za-g&#038;ctype=5&#038;q=&#038;ved=2ahUKEwjKq67bsYj8AhX1uJUCHcpdAVMQ9aACKAB6BAgGEBc&#038;adurl=">Noite no paraíso</a></i></span><span style="font-weight: 400">: </span><span style="font-weight: 400"><i>Mais Contos </i></span><span style="font-weight: 400">poderia ser definida como um afago misturado a uma sacada irônica. Quase como aquela amiga que a gente ama, mas sempre tem verdades demais para nos dizer. Aqui isso se amplifica na voz da autora, fazendo da sinceridade um universo particular. Tudo se encaixa de forma cristalina e cria narrativas – que têm fundo autobiográfico ou não – absolutamente reais.&nbsp;</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Ler Lucia Berlin é simplesmente literal. Através de palavras muito características, o texto tem a face da escritora: franca e excepcional. Sua consagração pela crítica é tão conveniente quanto um par de patins para duas meninas explorarem caminhos curiosos em </span><span style="font-weight: 400"><a href="https://personaunesp.com.br/notturno-critica/">1943</a></span><span style="font-weight: 400">. No viés da autenticidade, a contista dizia que o que importa é a história. Sinceramente, vale a pena ser uma observadora desta.&nbsp;</span></p>
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		<title>As convidadas de Silvina Ocampo são as reviravoltas</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2022 22:09:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto  “Poucas pessoas vão acreditar neste relato. Às vezes seria preciso mentir para que as pessoas admitissem a verdade; esta triste reflexão eu fazia na infância por razões fúteis; agora as faço por questões transcendentais.” O que delimita a linha do absurdo? Em que momento fomos ensinados a ler algo e dizer o quanto &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-convidadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "As convidadas de Silvina Ocampo são as reviravoltas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29491" aria-describedby="caption-attachment-29491" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29491 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/ASCONVIDADAS_JAMILYRIGONATTO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29491" class="wp-caption-text">As convidadas foi um dos livros recebidos pelo Persona na parceria com a Companhia das Letras, e foi a leitura do Clube do Livro em Outubro (Foto: Companhia Das Letras/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto </b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Poucas pessoas vão acreditar neste relato. Às vezes seria preciso mentir para que as pessoas admitissem a verdade; esta triste reflexão eu fazia na infância por razões fúteis; agora as faço por questões transcendentais.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O que delimita a linha do absurdo? Em que momento fomos ensinados a ler algo e dizer o quanto aquilo é distante do lógico? São respostas presas ao inconsciente, o tipo de habilidade praticamente instintiva na mentalidade humana. Mas é lendo Silvina Ocampo e sua audácia singular que essas fronteiras parecem se diluir sem precisar de muitas páginas. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> – livro publicado pela </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559212057/as-convidadas"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em Maio de 2022 –, a mente e o mundo são peripécias capazes de causar desconforto arrebatador e crença no irreal. </span></p>
<p><span id="more-29488"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura-estrangeira/silvina-ocampo-sai-das-sombras#:~:text=Nascida%20em%2028%20de%20julho,filhas%20em%20casa%2C%20com%20tutoras."><span style="font-weight: 400;">autora argentina</span></a><span style="font-weight: 400;"> teve sua obra publicada postumamente no Brasil, sob a tradução de Livia Deorsola, e, se em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Fúria e outros contos</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2019, as coisas de seu universo particular já tomavam rumos curiosos, dessa vez isso se intensifica. Nos 44 contos que compõem a obra, somos apresentados ao rotineiro metamorfoseado, como se aquela ida diária à padaria te levasse diretamente para Marte e a diferença fosse notada tarde demais. Os personagens são diversos, partindo de crianças a casais que protagonizam situações absolutamente inusitadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É na escrita que tudo se mistura. O leitor se sente chocado, mas ao mesmo tempo é apresentado a isso com uma narrativa trabalhada com naturalidade. A estranheza das coisas nunca são destacadas no texto, pois no mundo de </span><a href="http://www.blogletras.com/2018/09/silvina-ocampo-o-et-cetera-da-familia.html"><span style="font-weight: 400;">Ocampo</span></a><span style="font-weight: 400;"> o extraordinário é tão comum que nos faz sentir culpados pelas reações escandalizadas. Mesmo trabalhando com histórias não complementares de pouco mais de uma página, o fantástico vive em linhas tênues.</span></p>
<figure id="attachment_29489" aria-describedby="caption-attachment-29489" style="width: 434px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29489" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/2.jpg" alt="" width="434" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-29489" class="wp-caption-text">Silvina e sua Literatura única chegaram às terras brasileiras apenas em 2019, 26 anos após sua morte em 1993, pela Companhia das Letras (Foto: Companhia Das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As histórias de </span><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> não precisam se ligar para ter pontos em comum. Tudo caminha em linhas retas, mas se desenrola em redemoinhos. Os inícios comuns culminam em facetas trágicas e conflitantes. Em muitos momentos, a autora brinca com as reações psicológicas a ponto de criar medo. É o caso do conto </span><i><span style="font-weight: 400;">Carta debaixo da cama</span></i><span style="font-weight: 400;">, no qual, conforme as palavras vão sendo escritas, somos capazes de experimentar o desespero da protagonista; o corte brusco dispensa detalhes do fatal para ser </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cemiterio-stephen-king-enterra-receios-autor-ressuscita-historia-sobria-intensa-muito-assustadora/"><span style="font-weight: 400;">assustador</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de brincar com nossos cérebros, Silvina nos dá acesso ao dela. Os períodos longos e pouco pontuados integram narrativa ao pensamento. Por isso, as histórias perdem contexto de tempo ou momento. É como se tudo estivesse sendo noticiado no jornal da noite e a ambientação temporal ficasse meramente em segundo plano. O </span><a href="http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/04/gabriel-garcia-marquez-revelou-para-o-mundo-o-realismo-fantastico.html#:~:text=Gabriel%20Garc%C3%ADa%20M%C3%A1rquez%20deu%20forma,N%C3%A3o%20invento%20nada."><span style="font-weight: 400;">fantástico</span></a><span style="font-weight: 400;"> é o verdadeiro protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, tudo nos é suscitado, como elementos inseridos com o propósito de causar impacto enquanto criam questionamentos e reflexões. É a construção do absurdo se tornando razoável. Aqui, a </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/colunas/pagina-cinco/2022/11/18/silvina-ocampo-literatura-argentina-fantastica-livia-deorsola-a-furia.htm"><span style="font-weight: 400;">escritora</span></a><span style="font-weight: 400;"> atua como uma telespectadora esperando as reações ao seu redor. E ela é muito bem sucedida em tirar expressões ímpares dos rostos que a leem. Afinal, é impossível ser blasé diante de construções tão simbólicas e excepcionais.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Não foi senão depois de um tempo e de um detalhado estudo que distingui, na famosa fotografia, o quarto, os móveis, a cara borrada de Valentín. A figura central, nítida, terrivelmente nítida, era a de uma mulher coberta de véus e de escapulários, já um pouco velha e com grandes olhos famintos, que se revelou ser Pola Negri.” </span></p></blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> nunca se propôs a fechar ciclos; é direito de quem contempla a obra acreditar ou não no que está sendo exposto. A </span><a href="https://personaunesp.com.br/comemoracao-de-20-anos-de-harry-potter-de-volta-a-hogwarts-critica/"><span style="font-weight: 400;">magia</span></a><span style="font-weight: 400;"> mora exatamente na falta dos limites de início, meio e fim. O próprio conto que dá nome ao livro deixa espaço para interpretações, visto que é difícil definir se as convidadas são apenas fruto de traquinagem infantil ou figuras de um plano metafísico. Isso no caso de se tratar de uma criança, pois as idades nunca são claramente definidas e cabe a nós entender da forma que nos for adequada.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante consumir o texto e ver como os tons assustadores e emblemáticos cabem em espaços tão curtos. Alguns </span><a href="https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/10/18/silvina-ocampo-um-dos-maiores-misterios-da-literatura-latino-americana.ghtml"><span style="font-weight: 400;">contos</span></a><span style="font-weight: 400;"> têm menos de duas páginas e conseguem estabelecer a linearidade invadida pela surpresa perfeitamente. Personagens que nem sequer tem nome, mas entregam pedaços de suas essências em nossas mãos. Uma conexão curiosa perpassando as fronteiras físicas. </span></p>
<figure id="attachment_29490" aria-describedby="caption-attachment-29490" style="width: 685px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29490 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-685x1024.jpg" alt="" width="685" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-685x1024.jpg 685w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-535x800.jpg 535w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1028x1536.jpg 1028w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL-1200x1793.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/12/71UIXZq7FbL.jpg 1405w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29490" class="wp-caption-text">A Fúria traz 34 contos com temáticas principais focadas na infância (Foto: Companhia Das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo foge do comum, mas ainda mantém como temática principal o ser </span><a href="https://personaunesp.com.br/inventario-critica/"><span style="font-weight: 400;">humano</span></a><span style="font-weight: 400;">. A escrita trabalha com elementos da espiritualidade e transgride também na Cultura. Muitos contos envolvem questões religiosas, cultos, crendices e simpatias em sua composição. Esse tipo de citação contribui para que o hiperbólico faça tanto sentido quanto a religião e seu valor concreto na sociedade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda na ideia de explorar camadas da humanidade, os acontecimentos do cenário incomum levam as pessoas a mostrarem suas verdadeiras faces, já que muitas das histórias tem fundo na </span><a href="https://personaunesp.com.br/lucifer-5a-temp-parte-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">perversidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das motivações. Desejos por doenças, mortes, acidentes e outras tragédias são figuras recorrentes nos enredos, à forma com a qual esse contexto sincero também molda uma reflexão sobre as partes desconcertantes que todos tem, mas escondem a qualquer custo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Talvez eu tenha me arrependido. O Pata de Cão não pertencia a minha família. Para que o sacrificar? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quisemos tirar o boneco de dentro da panela. Queimamos as mãos no vapor. Quando conseguimos tirá-lo, não sobravam nem pernas, nem pés, nem cabelo, nem rabo de centauro.” </span></p></blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">As convidadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> diz muito sem precisar ser claro. Entre eventos completamente </span><a href="https://personaunesp.com.br/stranger-things-4-critica/"><span style="font-weight: 400;">insólitos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e pessoas absolutamente comuns, a vida é testemunhada sob tantas formas que isso sim parece genuinamente mágico. Silvina nos prende em seu locus literário e essa falta de liberdade nos dá asas para voar distantes de uma rotina mediana; talvez sejamos como as crianças que voaram antes da queda soturna. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Somos entregues a muito mais do que as 261 páginas são capazes de contar. O mundo aos olhos da autora é tão especial que foge de quaisquer comparações palpáveis. Do </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-estrategia-do-charme-critica/"><span style="font-weight: 400;">amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> à morte há um número infinito de possibilidades e ter a chave da porta de entrada para acessá-las sob os olhos da escritora é uma experiência inominável. Restam agradecimentos: ser convidada nunca foi tão esplêndido. </span></p>
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		<title>O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jun 2022 19:34:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathalia Tetzner O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo físico que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-estrutura-da-bolha-de-sabao-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O mergulho subversivo de Lygia Fagundes Telles em A Estrutura da Bolha de Sabão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27818" aria-describedby="caption-attachment-27818" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27818 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg" alt="Arte em rosa claro com a imagem do livro A Estrutura da Bolha de Sabão no centro. Capa do livro A Estrutura da Bolha de Sabão da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. Na imagem, há uma arte com diversas texturas e formatos, entre eles, contornos de flores. A arte vibra nas cores azul, vermelho, verde, marrom, roxo e rosa. No canto inferior esquerdo, um quadro branco com o nome da autora escrito em preto, o nome do livro escrito em roxo e o nome da editora, Companhia das Letras, escrito em azul. No topo à esquerda, vemos o olho do Persona com a íris rosa e no canto inferior direito está o logo do Clube do Livro do Persona." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/AESTRUTURADABOLHADESABAO_WORDPRESS-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27818" class="wp-caption-text">A Estrutura da Bolha de Sabão foi a leitura do <a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-abril-de-2022/">Clube do Livro do Persona</a> durante o mês de abril de 2022 (Foto: Companhia das Letras/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<p><b>Nathalia Tetzner</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário é um café-da-manhã entre esposa e marido. Ele conta de um amigo </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,jean-oury-fala-sobre-jean-vigo,431566"><span style="font-weight: 400;">físico</span></a><span style="font-weight: 400;"> que mora nas construções góticas de Paris e estuda a estrutura da bolha de sabão. Ela se espanta com a possibilidade de alguém se dedicar em investigar algo que conhece desde seus primeiros anos de vida e que, por isso, sabe que não possui estrutura alguma. O tempo passa e quando o gato do casal sobe na mesa dela, finalmente há uma resposta para sussurrar: </span><i><span style="font-weight: 400;">“a bolha de sabão é o amor”. </span></i><span style="font-weight: 400;">Nascia nesse momento </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma coletânea de contos escrita pela dama da Literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles. </span></p>
<p><span id="more-27768"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançada originalmente em 1978 sob o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filhos Pródigos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra foi reeditada na década de 90 quando passou a carregar o nome do texto de maior sucesso. Em 2010, ela ganhou uma nova roupagem para uma série especial da editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, em meio às infinitas edições disponíveis no mercado, é o conteúdo que destaca a sua singularidade perante toda a bibliografia de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tgaX90Fo3YU"><span style="font-weight: 400;">Telles</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa vez, a autora conhecida por banhar os seus romances com o realismo convida o leitor para um mergulho na fantasia onde ele é sempre o último a desvendar as nuances.</span></p>
<blockquote><p>“Inclinou-se para apanhar a bolsa que caiu. Catou vacilante o pente e o espelho, quis ainda alcançar o lápis que rolou no assoalho, desistiu do lápis, Ih!&#8230;Levantou-se apertando a bolsa contra o peito, a outra mão apoiada na maçaneta da porta. Respirou penosamente, a boca aberta.</p>
<p>Encarou a mulher. Tudo bem?</p>
<p>— Tudo bem. Adriana. Tenho é muita pena desse moço. Seu noivo. Casar com uma coisa dessas, imagine.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Repleta de fluxos de consciências e ambientada com uma dose de tensão constante, a leitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é nem um pouco confortável, consequência natural da abordagem esférica da temática feminina, fator sempre presente nos escritos da autora. Banhados por uma atmosfera misteriosa, os oito contos remetem de alguma forma ao </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-4-licoes-da-obra-da-dama-da-literatura-as-mulheres.htm"><span style="font-weight: 400;">papel da mulher</span></a><span style="font-weight: 400;"> na sociedade. Seja na materialização de uma jovem cheia de rebeldia para a sua época ou na subjetividade presente em um diálogo entre dois homens, Lygia Fagundes Telles explora todos os tons da feminilidade com a genialidade de quem está acostumada a ser uma força em sua caminhada pessoal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terceira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras estudou Direito e Educação Física porque acreditava que não seria capaz de viver da </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/colunas/natalia-timerman/2022/04/03/lygia-fagundes-telles-era-uma-mulher-escrevendo-sobre-e-como-mulher.htm"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e se negava a depender financeiramente de um matrimônio. Ela e todo o seu lirismo foram exceção em relação ao pós-modernismo, movimento literário que se deu início na década de 70, período em que a figura masculina ainda era a maioria entre os autores de grande apelo. Assim como Adriana em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XyIRQJgY3a8"><i><span style="font-weight: 400;">A Medalha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a filha subversiva à mãe e ao seu tempo farto de conservadorismos, Telles é também dona de uma trajetória transgressora e parece ter bebido da sua própria fonte para retratar com tanta fidelidade a angústia da personagem.</span></p>
<figure id="attachment_27769" aria-describedby="caption-attachment-27769" style="width: 964px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg" alt="Fotografia de Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles em preto e branco. Hilst, à esquerda, segura um cigarro com a mão enquanto sorri olhando para o lado. Telles, à direita, sorri olhando para o lado oposto. As duas são mulheres brancas de cabelos escuros." width="964" height="806" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1.jpeg 964w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-800x669.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-1-1-768x642.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27769" class="wp-caption-text">Escritora do movimento pós-modernista e amiga pessoal de <a href="https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/04/03/morte-de-lygia-fagundes-telles-lembre-amizade-da-escritora-com-hilda-hilst.html">Hilda Hilst</a>, Telles abordou a feminilidade como tema central de suas obras (Foto: Acervo Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Encarregado de ser o texto mais perturbador da coletânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espartilho</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz com que o leitor se sinta sufocado pelo ambiente regrado da década de 40. Ana Luíza é o nome da protagonista que causa uma inquietação digna de filmes de terror como </span><a href="https://personaunesp.com.br/mae-filme-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Mãe!</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2017)</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que o suspense psicológico reina. O olhar de despertencimento dela ao encarar o álbum de fotos de sua família, após finalmente descobrir a verdade brutal por trás das faces pálidas apertadas por espartilhos, é estarrecedor. A experiência é um ponto fora da curva do que a escritora costuma produzir e provoca uma metáfora sensível sobre o uso de cintas modeladoras e a prisão emocional que acarreta a trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quase mitológicos, os contos </span><i><span style="font-weight: 400;">A Testemunha</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">A Fuga</span></i><span style="font-weight: 400;"> começam e permanecem um mistério. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vgMn9NjYYT8"><span style="font-weight: 400;">Lygia Fagundes Telles</span></a><span style="font-weight: 400;"> nitidamente não se importou em deixar explícito o que cada figura de linguagem significa, há de se explorar as páginas para encontrar os sentidos do livro. De fato, a confusão mental de Miguel em busca de respostas e a insistência de Rolf em afirmar não saber de nada é, por si só, uma interessante bagunça de diálogos que acorrentam em um eterno ciclo não só os dois amigos, mas qualquer um que entra em contato com as linhas de Telles. Já no segundo texto, o clima de névoa é descrito com um intenso detalhismo que tem o poder de cegar e confundir Rafael e todo o público leitor.</span></p>
<blockquote><p>“— Não vai me dizer, Rolf?</p>
<p>— Dizer o quê rapaz?</p>
<p>— O que aconteceu ontem.</p>
<p>— Ora, o que aconteceu! Mas então você não sabe?</p>
<p>— Não, não sei. Não me lembro de nada, nada.</p>
<p>— Mas como não se lembra?</p>
<p>— Não me lembro, simplesmente não lembro — repetiu Miguel torcendo as mãos muito brancas. Fechou-as contra o peito.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há nada tão hipocritamente perfeito quanto uma coleção de páginas em que a existência de conjuntos geniais diminuem a sagacidade de outros. Esse é o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Missa do Galo </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Gaby</span></i><span style="font-weight: 400;">, a releitura do clássico de Machado de Assis e a incoerente falta de ritmo em uma conversa de bar colocam os dois contos em uma posição menos inspirada em relação aos outros momentos de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ambos são um exagero passional e, para o bem e para o mal, somente permitem concluir que não há conclusão. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vVTpCDG7LuY"><span style="font-weight: 400;">dama da Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixa neles o dito pelo não dito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Confissão de Leontina</span></i><span style="font-weight: 400;"> se consagra como o maior ato da obra. Longo e profundo, a narração em primeira pessoa relata o </span><a href="https://favodomellone.com.br/a-confissao-de-leontina-de-volta-o-conto-de-lygia-fagundes-telles/"><span style="font-weight: 400;">drama</span></a><span style="font-weight: 400;"> vivido por quem deixa uma cidade pequena em busca de oportunidades nas grandes capitais do país. Sempre incompreendida, a personagem principal do conto atrai todos os olhares para o seu infortúnio, o que consequentemente resulta no sentimento de identificação com o leitor. É fácil se emocionar com as palavras certeiras escolhidas pela autora, especialista em captar com excelência os aspectos do cotidiano urbano com o papel e a caneta na mão.</span></p>
<figure id="attachment_27770" aria-describedby="caption-attachment-27770" style="width: 940px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27770" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg" alt="Fotografia de Lygia Fagundes Telles. Na imagem, os cabelos grisalhos de Telles contam que o tempo passou para a escritora. Ela, uma mulher branca de olhos claros, direciona o seu olhar para a lente de quem a fotografa. Ao fundo, o que parece ser um ambiente aconchegante, mas desfocado" width="940" height="504" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1.jpg 940w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-800x429.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem-2-1-768x412.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27770" class="wp-caption-text">A dama da Literatura nacional vive em seu <a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/04/08/interna_pensar,1358573/escritoras-brasileiras-ressaltam-o-legado-de-lygia-fagundes-telles.shtml">legado</a> (Foto: Renato Parada)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, como uma coletânea de contos, a expressão artística de Lygia Fagundes Telles mais complexa e brilhante desde o lançamento de </span><a href="https://istoe.com.br/lygia-fagundes-telles-driblou-a-censura-militar-no-romance-as-meninas/"><i><span style="font-weight: 400;">As meninas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 1973. Os recursos linguísticos utilizados no romance certamente continuaram a inspirá-la até a criação do conjunto de textos. Já, como um conto, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou maior do que si mesmo. Afinal, a quem interessa estudar a estrutura de uma bolha de sabão? A falta de explicações uma vez questionada ganha sentido com o término pungente da obra de Telles.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dama da Literatura brasileira descobriu em vida que a bolha de sabão é o amor e estudá-la é fundamental. Ela, incoerentemente gentil e caridosa como as ondas do mar, compartilhou a descoberta com o mundo depois de um mergulho nas profundezas do fantasioso. Lygia Fagundes Telles faleceu em </span><a href="https://jornal.unesp.br/2022/04/04/dona-de-uma-carreira-premiada-lygia-fagundes-telles-deixa-solido-legado-literario-diz-diretor-da-editora-unesp/"><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, assim como fez em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Estrutura da Bolha de Sabão</span></i><span style="font-weight: 400;">, a sua partida do mundo material somente pode significar que ela resolveu permanecer de vez ao lado da subjetividade da vida. </span></p>
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		<title>Vitorianas Macabras: histórias de medo sempre foram coisa de mulher</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Mar 2022 23:23:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez “Se ser mulher na era Vitoriana já era uma tarefa difícil, tornava-se ainda mais penosa para as que desafiavam o status quo. Um dos traços marcantes do período vitoriano é a luta pela emancipação das mulheres e pelo voto feminino”. É assim que Vitorianas Macabras, coletânea de contos de autoras de suspense &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/autoras-horror-era-vitoriana-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Vitorianas Macabras: histórias de medo sempre foram coisa de mulher"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27110" aria-describedby="caption-attachment-27110" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27110 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/era_vitoriana_capa_wordpress-800x420.jpg" alt="A imagem é uma colagem de imagens em preto e branco contornadas por rosa, em frente a um fundo preto. A foto da esquerda é uma mulher branca, aparentando cerca de 50 anos, vestindo um casaco. A foto do meio é uma mulher branca, aparentando cerca de 50 anos, usando uma coroa de rainha, jóias no pescoço e um traje de rainha. A foto da direita é uma mulher branca, de cerca de 30 anos, vestindo um vestido de manga longa preto, e com uma coruja branca apoiada sob seu ombro esquerdo." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/era_vitoriana_capa_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/era_vitoriana_capa_wordpress-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/era_vitoriana_capa_wordpress.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27110" class="wp-caption-text">Vitorianas Macabras foi publicado pela Darkside Books em 2020, e é o primeiro de três livros do selo Macabra (Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Se ser mulher na era Vitoriana já era uma tarefa difícil, tornava-se ainda mais penosa para as que desafiavam o status quo. Um dos traços marcantes do período vitoriano é a luta pela emancipação das mulheres e pelo voto feminino”</span></i><span style="font-weight: 400;">. É assim que </span><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i><span style="font-weight: 400;">, coletânea de contos de autoras de suspense e terror da era vitoriana,</span> <span style="font-weight: 400;">lembra de suas inspirações. Em uma época marcada pelo fantasmagórico e pelo mórbido, pela precariedade da qualidade de vida e por uma predileção pelo macabro, as escritoras representaram o “</span><i><span style="font-weight: 400;">entusiasmo pelo </span></i><a href="https://gizmodo.uol.com.br/ciencia-falsa-salva-vidas-londres-vitoriana/"><i><span style="font-weight: 400;">progresso</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, com contribuições marcantes para a época, desde a literatura até a luta pela emancipação feminina, inclusive com o movimento sufragista.</span></p>
<p><span id="more-27101"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No livro, publicado pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Darkside</span></i><span style="font-weight: 400;">, a organização e a tradução de Marcia Heloisa é peça chave para nos levar de volta aos assombros e às peculiaridades da Era Vitoriana. Em uma introdução, também dela, a apresentadora fornece o panorama necessário para contextualizar a época e nos lembra do porquê devemos exaltar as autoras, destaques em um período &#8211; e em um </span><a href="https://www.nacabeceira.com.br/2020/10/monster-she-wrote.html"><span style="font-weight: 400;">gênero literário</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; marcados pela </span><a href="https://www.ultius.com/ultius-blog/entry/the-7-most-epic-literary-writers-of-the-victorian-era.html"><span style="font-weight: 400;">presença masculina</span></a><span style="font-weight: 400;">. Como ela justifica, o volume busca reparar uma injustiça histórica, dando visibilidade às mulheres que “</span><i><span style="font-weight: 400;">desafiaram convenções, batalharam contra todo tipo de diversidade e combateram os mais arraigados preconceitos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Então, Heloisa nos faz mergulhar na antologia de contos de Horror das treze escritoras escolhidas.</span></p>
<figure id="attachment_27102" aria-describedby="caption-attachment-27102" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27102 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-1-800x480.jpg" alt="Na foto, em frente a uma cortina vermelha, vemos um livro vermelho, ao centro. A capa do livro tem o desenho contornado de uma mulher em preto, cobras e uma cabra preta, e letras brancas estilizadas. Ao redor do livro, na parte direita e esquerda da imagem, vemos fotografias impressas em preto e branco, mostrando retratos pintados de mulheres." width="800" height="480" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-1-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-1-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-1-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27102" class="wp-caption-text">Como em outras obras da editora Darkside, as ilustrações e a diagramação do livro são um show à parte (Foto: Darkside Books)</figcaption></figure>
<p><b>A Rainha Vitória e sua Era Vitoriana</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem dá o nome a uma das eras mais </span><a href="https://macabra.tv/13-filmes-assustadores-era-vitoriana/"><span style="font-weight: 400;">famosas do meio cultural</span></a><span style="font-weight: 400;"> é a Rainha Vitória. A quinta da linha de sucessão, era improvável que a candidata a monarca de fato vestisse a coroa, mas seu tio, o Rei, apesar de ter tido filhos, nunca foi oficialmente casado e não possuía herdeiros legítimos. Assim, ela, que perdeu o pai quando ainda era bebê, assumiu o trono da Inglaterra aos 18 anos, rodeada de homens desconhecidos por ela e sem o devido preparo para seu novo posto. Antes, a mãe de Vitória até chegou a tentar prepará-la para ocupar o cargo, com uma criação rigorosa pautada pelo Sistema de Kensington, um conjunto de regras para educá-la. O que aconteceu, porém, foi que a </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/personagens/rainha-vitoria.html"><span style="font-weight: 400;">Rainha</span></a><span style="font-weight: 400;"> permaneceu vigiada e isolada pela maior parte de sua vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desamparada, após uma sucessão de governantes homens e com uma </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2021/04/familia-real-rainha-vitoria-monarquia-britanica-era-vitoriana-reino-unido"><span style="font-weight: 400;">monarquia enfraquecida</span></a><span style="font-weight: 400;">, a Rainha Vitória começou seu reinado em 1837. Rapidamente, ela se casou com o príncipe Albert, que morreu subitamente de febre tifóide não muitos anos depois. Ela, profundamente apaixonada e previamente marcada pelas perdas em sua vida, mergulhou no luto pelo resto de seus dias, levando a Inglaterra junto dela. Foi nessa época e contexto que o país viu sua curiosidade e </span><a href="https://www.historyextra.com/period/victorian/the-weird-and-wonderful-world-of-victorian-entertainment/"><span style="font-weight: 400;">predileção pelo macabro</span></a><span style="font-weight: 400;"> aflorar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde a morte do marido, a Rainha passou a vestir preto o tempo todo e seguiu com seus rituais de luto. Vitória mantinha os funcionários do palácio agindo como se Albert ainda estivesse vivo, diariamente levando água e sua bengala ao antigo cômodo do príncipe, e mandava pintar e pendurar quadros com o retrato dele. Mas a atmosfera sinistra ia além das paredes do castelo: nas ruas da Inglaterra, a obsessão pela morte, o culto aos falecidos e a curiosidade pelo além tornava o país assombroso. Assim, apesar de por definição compreender somente os anos em que esteve no poder, a Era Vitoriana transpassou o período de reinado da Rainha, de 1837 a 1901, mas ficou marcado por seu hábitos e </span><a href="https://darkside.blog.br/o-fascinio-da-era-vitoriana-pelo-macabro/"><span style="font-weight: 400;">características destacáveis</span></a><span style="font-weight: 400;">, que ressoam até hoje no imaginário popular.</span></p>
<figure id="attachment_27103" aria-describedby="caption-attachment-27103" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27103 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-2.jpg" alt="Retrato em preto e branco da Rainha Vitória. Em frente a uma sala de um palácio, ao centro, vemos a Rainha Vitória de perfil, sentada sob uma cadeira posando. Rainha Vitória é uma mulher branca, de cabelos escuros lisos, presos por um véu branco, aparentando cerca de 40 anos, usando brincos e colares de pérolas, e vestindo um traje de Rainha, um vestido de manga longa." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-2.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/vitorianas-macabras-2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27103" class="wp-caption-text">No Reinado de Vitória, a colonização britânica e industrialização prosperaram até sua morte, em 1901 com 81 anos (Retrato: Alexandre Bassano)</figcaption></figure>
<p><b>A Era Vitoriana nas ruas da Inglaterra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não bastasse sua monarca mergulhada em uma aura fantasmagórica própria, a população da Inglaterra teve outros incentivos para embarcar na sombria Era Vitoriana. Em uma onda de espiritualismo, os médiuns, cartomantes e pessoas que supostamente encarnavam mortos viram um </span><a href="https://www.cultura930.com.br/freak-show-um-entretenimento-na-era-vitoriana/"><span style="font-weight: 400;">cenário propício</span></a><span style="font-weight: 400;"> para prosperarem, inclusive dentro do palácio real. Nisso, os fenômenos paranormais também se juntaram à lista de </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2016/apr/30/penny-dreadfuls-victorian-equivalent-video-games-kate-summerscale-wicked-boy"><span style="font-weight: 400;">interesses dos ingleses:</span></a><span style="font-weight: 400;"> gabinetes de curiosidade, com artefatos assombrados em exposição, demonstrações mesméricas, casas de crueldades, </span><a href="https://the-line-up.com/freak-show-peculiar-attraction-victorian-era"><i><span style="font-weight: 400;">freak shows</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e sessões de espiritismo e reencarnação faziam sucesso no país, onde que os cidadãos alimentavam a curiosidade pelo bizarro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As precárias condições de vida justificavam o fascínio inglês pela morte. </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/em-1892-pandemia-matou-neto-da-rainha-vitoria.phtml"><span style="font-weight: 400;">Epidemias</span></a><span style="font-weight: 400;">, acidentes, falta de assistência médica, péssimas condições sanitárias e de higiene contribuíram para que a expectativa média de vida de um homem não passasse dos 45 anos. Mulheres e crianças sequer chegavam a isso. O cenário era tão </span><a href="https://www.historyextra.com/period/victorian/the-surprising-history-of-victorian-dog-shows/"><span style="font-weight: 400;">deplorável</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o </span><a href="https://www.megacurioso.com.br/misterios/114891-o-grande-fedor-de-1858-que-quase-intoxicou-londres.htm"><span style="font-weight: 400;">Grande Fedor</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Rio Tâmisa virou um evento, com um dos rios mais famosos do país virando um esgoto a céu aberto &#8211; inclusive, em uma </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/retrato-falado-jack-o-estripador-o-pai-dos-serial-killers/"><span style="font-weight: 400;">leva de crimes</span></a><span style="font-weight: 400;"> na época, até corpos decapitados chegaram a boiar por lá. A morte rondava a Inglaterra.</span></p>
<figure id="attachment_27104" aria-describedby="caption-attachment-27104" style="width: 425px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27104 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/a.png" alt="Quadrinho em preto e branco da Era Vitoriana. Na parte superior, vemos a frase “Boys murder their murder” e “Revolting crime at plaistow-shocking details” em fontes pretas serifadas. Abaixo, vemos a página divida em 6 quadrinhos, 3 na parte superior e 3 na parte inferior. O primeiro quadrinho mostra um menino esfaqueando uma mulher em cima de uma cama, em um quarto. O segundo quadrinho, redondo, mostra um homem parado em pé em frente a uma casa. O terceiro quadrinho mostra uma mulher inclinada sobre dois meninos em uma mesa. Nos quadrinhos de baixo, o primeiro mostra duas mulheres observando uma terceira mulher morta deitada em uma cama. O segundo quadrinho mostra dois meninos de terno em um tribunal de julgamento. O terceiro quadrinho mostra dois meninos de cabeça baixa ao lado de um homem, aparentemente um guarda." width="425" height="497" /><figcaption id="caption-attachment-27104" class="wp-caption-text">Além dos freak shows e penny dreadfuls, entretenimentos da época, a sociedade vitoriana também frequentava casas de ópio, que apareceram em outras obras do período &#8211; personagens como Sherlock Holmes e Dorian Gray já passaram por nesses lugares (Foto: The British Library)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O corpo humano também era tópico de interesse dos ingleses da época. Nem as insalubres condições de higiene e vida impediram os cidadãos da Era Vitoriana de realizarem experimentos e atingirem avanços na ciência. O fascínio era tamanho que ladrões de covas e gangues que sequestravam pessoas para roubar órgãos se tornaram comuns, alguns até ganhando fama, como os </span><a href="https://www.geriwalton.com/the-london-burkers-body-snatchers-of-the-1830s/"><span style="font-weight: 400;">London Burkers</span></a><span style="font-weight: 400;">. Hospitais psiquiátricos &#8211; na época, chamados de hospícios &#8211; e </span><a href="https://www.viator.com/pt-BR/tours/London/The-Madness-and-Marvels-of-Victorian-London-with-Highgate-Cemetery/d737-62043P5"><span style="font-weight: 400;">cemitérios</span></a><span style="font-weight: 400;"> também se popularizaram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar das estranhezas que cativavam os vitorianos, a Era não foi só conservadorismo e repressão, mas um período propício para descobertas e progresso no campo da Ciência, da Literatura, das Artes e das reivindicações sociais. O movimento sufragista é um exemplo de pauta em alta na época, inclusive com autoras e outras personalidades conhecidas somando à luta. As características daqueles 74 anos de reinado também marcaram a produção literária, com o gênero do Horror, as influências góticas e a popularização dos </span><a href="https://www.estantediagonal.com.br/2020/10/o-que-foram-as-penny-dreadfuls.html"><i><span style="font-weight: 400;">penny dreadfuls</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, os contos e histórias marcadas pela violência e pelo aumento dos </span><a href="https://www.bbc.com/news/uk-england-berkshire-39330793#:~:text=%22Baby%20farming%22%20was%20a%20practice,get%20rid%22%20of%20their%20baby."><span style="font-weight: 400;">crimes</span></a><span style="font-weight: 400;">, e 13 das importantes expoentes dessas influências foram homenageadas em </span><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Este volume busca reparar uma injustiça histórica, trazendo para os leitores brasileiros um pouco da vida e obra de treze mulheres que prestaram uma contribuição extraordinária à literatura. Mulheres que desafiaram as convenções, batalharam contra todo tipo de diversidade e combateram os mais arraigados preconceitos”</span></i></p></blockquote>
<p><b>As Vitorianas Macabras</b></p>
<p><a href="https://www.queridoclassico.com/2020/10/vitorianas-macabras.html"><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">faz jus ao seu nome e, com a devida contextualização, foca nelas: as mulheres da Era Vitoriana movidas pelo medo. Por mais que tenham sido negligenciadas no decorrer da história, as escritoras deixaram sua marca na Literatura de gênero da Era, em produções que serviram de inspiração e pairam sobre nosso imaginário da época até hoje. No livro, Marcia Heloisa organiza uma coletânea (antologia, como ela chama) de contos de cada autora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São 13, de 13 escritoras diferentes. Entre líderes do movimento sufragista e donas de casa que só receberam seu reconhecimento muito tempo depois do que mereciam, cada uma se destaca com seu próprio estilo, tema, ritmo de escrita e narrativa. Ao final, o único elemento em comum entre as mulheres vitorianas é o Horror. E reforçando a proposta da obra, de </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">lembrar as personalidades femininas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que marcaram a Era Vitoriana, cabe aqui citar seus nomes, um por um.</span></p>
<p><b>Charlotte Riddell</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de escritora de mais de 50 livros, foi proprietária e editora da </span><i><span style="font-weight: 400;">St. James’s Magazine</span></i><span style="font-weight: 400;">, importante revista literária da época. Riddell foi uma das poucas que conseguiu viver de seu trabalho como autora e ser reconhecida em vida. Na obra, seu conto </span><i><span style="font-weight: 400;">A Porta Sinistra</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1882, acompanha um rapaz recém-desempregado investigando o </span><a href="https://personaunesp.com.br/historias-extraordinarias-critica/"><span style="font-weight: 400;">mistério</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma porta que não para fechada em uma mansão mal-assombrada.</span></p>
<figure id="attachment_27105" aria-describedby="caption-attachment-27105" style="width: 486px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27105 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aa.png" alt="Foto de um livro aberto. O livro tem páginas pretas. Na parte esquerda do livro aberto, vemos uma moldura vermelha, com um retrato de uma mulher dentro. Na página direita do livro aberto, vemos, na parte superior central, as palavras “vitorianas macabras” em caixa alta, em uma fonte branca, com o logo, um M vermelho, entre as palavras. Logo abaixo, vemos as palavras &quot;Charlotte Riddell” em uma fonte em vermelho, em caixa alta. Abaixo, vemos palavras em uma letra cursiva, em branco. Ao centro, vemos as palavras “A EDITORA”, em uma fonte em vermelho e caixa alta. Abaixo, vemos os número 1832-1906 em vermelho. Na parte inferior, vemos um bloco de texto em uma fonte em branco." width="486" height="488" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aa.png 486w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/aa-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 486px) 85vw, 486px" /><figcaption id="caption-attachment-27105" class="wp-caption-text">&#8220;Vitorianas Macabras comprova que o sangue é cor-de-rosa. Os contos aqui reunidos oferecem uma oportunidade única de descobrir que as histórias de medo sempre foram coisa de mulher.&#8221; &#8211; Gabriela Amaral (Foto: Darkside Books)</figcaption></figure>
<p><b>Louisa Baldwin</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário da sua antecessora no livro, Louisa Baldwin veio de uma família ligada aos negócios do Rei, e seu casamento, assim como o de suas três irmãs, foram destaque na história dela. Pelo menos no que dizem as biografias, já que a autora escreveu diversos poemas, romances e uma coletânea de </span><a href="https://darkside.blog.br/conheca-5-autoras-macabras-que-desafiaram-as-regras-de-seu-tempo/"><span style="font-weight: 400;">contos de horror</span></a><span style="font-weight: 400;">. No livro, a obra escolhida para representá-la foi o conto </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mistério do Elevador</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1895, um dos mais curtos e mais envolventes de toda a coletânea da </span><i><span style="font-weight: 400;">Darkside</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><b>Edith Nesbit</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de ter escrito mais de 60 livros infantis, contos de horror, romances e poemas, foi co-fundadora de um movimento socialista londrino, precursor do Partido Trabalhista. Foi politicamente engajada, frequentando círculos sociais e literários da época, e tornou-se professora convidada da Escola de Economia e Ciência Política em Londres. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i><span style="font-weight: 400;">, é homenageada com a inclusão de seu conto </span><i><span style="font-weight: 400;">Mortos em Mármore</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1887, que mistura o terror sobrenatural ao suspense psicológico.</span></p>
<p><b>Violet Hunt</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filha de personalidades famosas da pintura e da literatura da época, Violet Hunt cresceu em um universo artístico. Foi autora de romances e contos, membro da Liga Sufragista de Autoras e Clube Internacional de Escritores PEN, além de ter participado do movimento sufragista. Se manteve em atividade até morrer e, no livro, tem sua participação com o conto </span><i><span style="font-weight: 400;">A Prece</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1911, em que a protagonista revive um falecido e reforça o fascínio da </span><a href="https://www.gestaoeducacional.com.br/era-vitoriana-o-que-foi/#:~:text=A%20classe%20m%C3%A9dia%20vitoriana,o%20auge%20da%20Revolu%C3%A7%C3%A3o%20Industrial."><span style="font-weight: 400;">Era Vitoriana</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela morte e pelo que existe além.</span></p>
<figure id="attachment_27107" aria-describedby="caption-attachment-27107" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27107 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Louisa-Baldwin-1024x538-1-800x420.png" alt="Ao fundo da foto, vemos papéis espalhados sob uma mesa. Do lado esquerdo da imagem, vemos o desenho de um bode e uma caneta tinteiro vermelha. Ao centro, vemos um cartão postal com o retrato em preto e branco de uma mulher. Na parte inferior direito do retrato, vemos as palavras “LOUISA BALDWIN” em branco, em caixa alta. Do lado direito da mesa, vemos fotos em preto e branco cortadas pelo enquadramento da foto." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Louisa-Baldwin-1024x538-1-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Louisa-Baldwin-1024x538-1-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Louisa-Baldwin-1024x538-1.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27107" class="wp-caption-text">Amelia B. Edwards publicou seu primeiro poema aos sete anos; sua obra O Coche Fantasma permanece um dos contos mais clássicos de terror até hoje (Foto: Darkside Books)</figcaption></figure>
<p><b>Amelia B. Edwards</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A lista de cargos de Amelia B. Edwards é longa: escritora, jornalista, pesquisadora e egiptologista. Ao contrário de outras autoras da antologia, que tiveram de conseguir reconhecimento por suas obras como forma de ganharem independência, o sucesso das obras de Edwards a incentivou a deixar a Inglaterra e partir em execuções, se dedicando a relatá-las em outras produções, além de contribuições ao estudo do Egito. Ela foi declaradamente feminista e, muito politizada, foi vice-presidente de uma sociedade sufragista. Amelia B. Edwards também é uma das ícones da </span><a href="https://morningstaronline.co.uk/article/amelia-edwards-lesbian-and-egyptologist"><span style="font-weight: 400;">história LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;"> inglesa: viveu por anos com sua companheira e as duas foram enterradas juntas, em um cemitério considerado patrimônio histórico LGBT no país. Na obra, participa com o conto </span><i><span style="font-weight: 400;">O Coche Fantasma</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1864.</span></p>
<p><b>Charlotte Bronte</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sobrenome de Charlotte é famoso o suficiente para dispensar grandes apresentações: a autora foi uma das irmãs Bronte, as três grandes escritoras da Era Vitoriana. Junto de </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/emily-bronte-a-curiosa-vida-da-autora-de-o-morro-dos-ventos-uivantes/"><span style="font-weight: 400;">Emily</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Anne, financiaram a publicação de uma coletânea de poemas, com pseudônimos masculinos, e a partir daí, conseguiram publicar seus próprios trabalhos. A escrita de Charlotte, inclusive, foi elogiada pela Rainha Vitória. Em três páginas, seu conto </span><i><span style="font-weight: 400;">Napoleão e o Espectro </span></i><span style="font-weight: 400;">consegue ser cômico e sombrio, ao mesmo tempo.</span></p>
<p><b>Elizabeth Gaskell</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Romancista, contista e biógrafa, teve trabalhos publicados e reconhecidos ainda em vida, como o romance </span><i><span style="font-weight: 400;">Mary Barton</span></i><span style="font-weight: 400;">, artigos e a biografia da família Bronte, por ser melhor amiga de Charlotte. Sua casa virou um museu dedicado a sua vida e obra, e, em </span><a href="https://darkside.blog.br/a-macabra-filmes-e-a-darkside-books-apresentam-vitorianas-macabras/"><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Conto da Velha Ama</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1852, aborda o terror psicológico com uma ama recordando acontecimentos sinistros de sua juventude em uma mansão assombrada.</span></p>
<figure id="attachment_27108" aria-describedby="caption-attachment-27108" style="width: 620px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27108 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/bronte.jpg" alt="A imagem é uma pintura. A pintura retrata três mulheres brancas e jovens, lado a lado. À esquerda, vemos, do peito para cima, uma mulher de cabelos castanhos presos, usando um vestido verde e um laço rosa. Ao centro, em pé, vemos uma mulher de cabelos castanhos curtos usando um vestido lilás. À direita, sentada, vemos, da cintura para cima, uma mulher de cabelos loiros usando um vestido bege e um laço azul." width="620" height="356" /><figcaption id="caption-attachment-27108" class="wp-caption-text">Na imagem, as irmãs Bronte: Anne, Emily e Charlotte (Pintura: Edwin Landseer)</figcaption></figure>
<p><b>Mary Elizabeth Brandon</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez a de maior reconhecimento literário na época, Mary Elizabeth Brandon publicou mais de 80 livros e um deles, </span><a href="https://stringfixer.com/pt/Lady_Audley's_Secret"><i><span style="font-weight: 400;">O Segredo de Lady Audley</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1862) se tornou </span><i><span style="font-weight: 400;">best-seller</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com o sucesso, ela conquistou a devida fama e independência financeira para seguir com suas publicações. Posteriormente, a obra foi adaptada para o rádio, para o cinema e para os palcos, alavancando ainda mais o alcance de Brandon na sociedade vitoriana. No livro, seu conto de horror </span><i><span style="font-weight: 400;">A Sombra da Morte</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1879. abusa do terror psicológico.</span></p>
<p><b>Margareth Oliphant</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do restante das personalidades da coletânea, Margareth Oliphant, autora de romances, contos, artigos, ensaios, biografias e críticas literárias, só dedicou-se a seu trabalho de escritora após a morte de seu marido, como uma forma de sustentar os filhos. Casou-se novamente, com um editor de uma prestigiada revista literária da época, e continuou produzindo sem descanso até sua morte. Segundo </span><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i><span style="font-weight: 400;">, “</span><i><span style="font-weight: 400;">a crítica moderna afirma que, se pudesse trabalhar menos e criar mais, Margareth teria sido um dos bastiões da Literatura britânica</span></i><span style="font-weight: 400;">”. No livro, seu conto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=B1b7p5mtX78"><i><span style="font-weight: 400;">A Janela da Biblioteca</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1896, uma jovem de férias na casa de sua família na Escócia descobre um nefasto segredo e uma janela para o desconhecido.</span></p>
<p><b>Rhoda Broughton</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobrinha de um </span><a href="https://www.tor.com/2022/03/30/completely-natural-explanations-j-sheridan-le-fanus-carmilla-part-4/"><span style="font-weight: 400;">grande escritor</span></a><span style="font-weight: 400;"> da época, Rhoda Broughton teve apoio do tio no início da carreira e publicou dois romances na sua prestigiada revista literária. A partir daí, caiu no gosto do público e se tornou uma autora popular no século XIX, com seu romances e contos inventivos e sensacionalista sobre personagens femininas que desafiavam o decoro vitoriana. A coletânea conta que sua popularidade foi tamanha que outros escritores famosos no período, como Oscar Wilde e Lewis Caroll, se sentiram intimidados por ela, e há boatos de que Margareth Oliphant a repudiava por sua ousadia nas histórias. Trabalhou incansavelmente até sua morte e, na antologia, aparece com o conto </span><i><span style="font-weight: 400;">A verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1868.</span></p>
<figure id="attachment_27109" aria-describedby="caption-attachment-27109" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27109 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Vernon-Lee-1024x538-1-800x420.png" alt="Ao fundo da foto, vemos papéis espalhados sob uma mesa. Do lado esquerdo da imagem, vemos o desenho de um bode e uma caneta tinteiro vermelha. Ao centro, vemos um cartão postal com o retrato em preto e branco de uma mulher de perfil, vestindo um terno e olhando para fora de uma janela. Na parte inferior direito do retrato, vemos as palavras “VERNON LEE” em branco, em caixa alta. Do lado direito da mesa, vemos fotos em preto e branco cortadas pelo enquadramento da foto." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Vernon-Lee-1024x538-1-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Vernon-Lee-1024x538-1-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Vernon-Lee-1024x538-1.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27109" class="wp-caption-text">A peça teatral Satanás, o Devastador, em oposição à Primeira Guerra Mundial, é considerada uma obra-prima vanguardista de Vernon Lee (Foto: Darkside Books)</figcaption></figure>
<p><b>H.D. Everett</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente das colegas com que divide as páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Vitorianas Macabras</span></i><span style="font-weight: 400;">, H.D. Everett permaneceu um mistério por boa parte de sua vida. Começou a escrever somente após os 44 anos e publicou seus primeiros livros sob um pseudônimo masculino, o de Theo Douglas. Sua identidade só foi revelada em 1910, pouco mais de uma década antes de morrer, e caiu no esquecimento com o passar dos anos. Suas obras e sua escrita, porém, foram elogiadas por escritores famosos da Literatura de Horror, com suas histórias que mesclam terror e ficção científica, combinando temas vitorianos a toques modernos do início do século XX. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Maldição da Morta</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1920, conto com que marca presença no livro, pode-se notar os </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/vitrine/de-jane-eyre-crimes-vitorianos-e-mais-6-obras-surpreendentes-sobre-era-vitoriana.phtml"><span style="font-weight: 400;">elementos comuns</span></a><span style="font-weight: 400;"> da sua literatura em uma narrativa cheia de terror espiritual, com um viúvo assombrado por sua falecida mulher.</span></p>
<p><b>Vernon Lee</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vernon Lee fez tudo e desafiou tudo. Escritora, dramaturga e ensaísta, ela publicou mais de 50 livros, entre contos, romances, peças e ensaios, e se tornou notável por suas histórias de horror. Ela também ficou famosa por suas contribuições aos estudos de Filosofia e Estética, e por sua luta política &#8211; como uma ávida pacifista e antimilitarista, se opôs à Primeira Guerra Mundial e escreveu uma trilogia teatral de protesto. </span><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2018/04/03/between-me-and-my-real-self-on-vernon-lee/"><span style="font-weight: 400;">Ela</span></a><span style="font-weight: 400;"> também desafiou os costumes da sociedade vitoriana: lésbica, assumia e vivia seu relacionamentos às claras, tendo permanecido com sua companheira até a morte, e se vestia em trajes tipicamente masculinos em provocação. No livro, participa com </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor Dure</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1887, um dos contos mais longos, envolventes e poéticos da coletânea, sobre um jovem historiador que se apaixona por uma jovem italiana morta há séculos.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Somos herdeiros das transformações e contradições vitorianas, adotamos e aperfeiçoamos seus avanços científicos e tecnológicos, exaltamos suas descobertas, apreciamos suas expressões artísticas, reverenciamos suas figuras ilustres</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><b>May Sinclair</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A última, mas não menos importante, das macabras vitorianas lembradas na antologia de contos, May Sinclair foi romancista, contista, poeta, tradutora e crítica literária, com mais de 23 romances e dezenas de outras produções publicadas. Cedo na vida, ela teve de largar seus estudos para cuidar da mãe e dos irmãos, e se tornou autodidata. Ganhou destaque na Liga Sufragista das Autoras e também contribuiu com a psicanálise, em uma sociedade de pesquisa sobre fenômenos psíquicos e paranormais. Suas histórias de terror psicológico e tramas sobrenaturais foram chamativas e, no livro, entra com o conto </span><a href="https://www.stuckinabook.com/uncanny-stories-may-sinclair/"><i><span style="font-weight: 400;">Onde o fogo não se apaga</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1923.</span></p>
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