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	<title>Arquivos Palma de Ouro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Palma de Ouro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Você pagaria o preço para ter A Substância?</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Oct 2024 18:10:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Borges Você já imaginou uma versão melhor de si? E se você soubesse que existe um produto que pode te mostrar uma parte mais jovem, bonita e perfeita? A Substância (The Substance, no original) pode te dar isso e um pouco mais. A produção, que promete revirar o estômago, é uma diversão exageradamente nojenta &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-substancia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Você pagaria o preço para ter A Substância?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_34139" aria-describedby="caption-attachment-34139" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-34139" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-3.png" alt="Cena do filme A Substância. Na imagem vemos Elizabeth, mulher branca com cabelos pretos, falando ao telefone. Ela veste um vestido na cor preta e usa brincos de prata. Com sua mão direita, segura um telefone vermelho e sua expressão parece preocupada. Ela está sentada em uma cama com lençol rosado. Ao fundo é possível ver uma parede na cor vermelha." width="1200" height="734" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-3.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-3-800x489.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-3-1024x626.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-3-768x470.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34139" class="wp-caption-text">Demi Moore volta às telas do Cinema após 30 anos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Borges</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Você já imaginou uma versão melhor de si? E se você soubesse que existe um produto que pode te mostrar uma parte mais jovem, bonita e perfeita? </span><i><span style="font-weight: 400;">A Substância</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/the-substance-festival-de-cannes-2024-demi-moore"><i><span style="font-weight: 400;">The Substance</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no original) pode te dar isso e um pouco mais. A produção, que promete revirar o estômago, é uma diversão exageradamente nojenta e bizarra sobre o espetáculo visual do Cinema e o gênero de horror corporal.</span></p>
<p><span id="more-34137"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aclamado durante o Festival de Cannes, o longa dirigido e roteirizado por Coralie Fargeat conta a história de Elizabeth Sparkle (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tV51izuiR0I"><span style="font-weight: 400;">Demi Moore</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma atriz ‘cinquentona’ que está prestes a perder seu ‘prazo de validade’ no mundo do </span><i><span style="font-weight: 400;">showbiz</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que, ao se ver nessa situação, resolve usar a substância que promete criar “</span><i><span style="font-weight: 400;">uma versão melhor de si</span></i><span style="font-weight: 400;">”. É, então, que sua nova personalidade, Sue (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WWZtB13vsJI"><span style="font-weight: 400;">Margaret Qualley</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma bela jovem com vinte anos de idade que tem o que quer na palma de sua mão, entra em cena. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fadada ao sucesso ao viver a vida de Sue, Elizabeth se vê na obrigação de sobreviver em cima do </span><i><span style="font-weight: 400;">status </span></i><span style="font-weight: 400;">da personagem de Qualley. Como uma espécie de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/webstories/entretenimento/2020/06/o-que-sao-doppelgangers/"><i><span style="font-weight: 400;">doppelganger</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, as personagens dividem uma vida dupla, são sete dias para cada corpo e, caso desrespeite essa regra vital, as coisas começam a desandar e causam circunstâncias brutais. Afinal, elas são apenas uma.</span></p>
<figure id="attachment_34140" aria-describedby="caption-attachment-34140" style="width: 1130px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-34140" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image3-3.png" alt="Cena do filme A Substância. Na imagem vemos as mãos de uma pessoa branca segurando um papel branco com a frase “REMEMBER YOU ARE ONE” escrita em preto. Atrás do papel encontra-se uma caixa de papelão com uma fita transparente escrita “ACTIVATOR” em preto. O carpete do chão está na cor cinza." width="1130" height="590" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image3-3.png 1130w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image3-3-800x418.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image3-3-1024x535.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image3-3-768x401.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34140" class="wp-caption-text">A produção foi indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2024 (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A beleza de Margaret Qualley, igualada a perfeição de Moore, elevam o nível de atuação do longa. A eloquência entre as atrizes é, de certa forma, </span><a href="https://variety.com/2024/film/reviews/the-substance-review-margaret-qualley-demi-moore-dennis-quaid-1236009235/"><span style="font-weight: 400;">visionária</span></a><span style="font-weight: 400;">. A talentosa atriz de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Pobres Criaturas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2023) atua de forma fresca e legítima, já Demi Moore mantém sua relevância cumprindo um papel excepcional. Colocar a veterana para interpretar uma personagem ‘acabada’ e sem rumo, talvez, possa ter sido forçado, mas podemos concordar que esse foi, de longe, um de seus melhores papéis em anos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo que se preocupa em revelar e reciclar imagens de horror, ao estilo </span><a href="https://personaunesp.com.br/carrie-a-estranha-45-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Carrie, a Estranha</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1976), a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Substância</span></i><span style="font-weight: 400;"> foca em apresentar um horror ácido que faz uma severa crítica à sociedade e à busca desenfreada pela beleza. A posição de Fargeat ao abordar a cultura ocidental hollywoodiana é sutil e perceptível; seu temor por mostrar o apelo pela ‘velhice’ no Cinema acaba se transformando em algo torturante e disfórico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de parecer bem desenvolvido, o filme necessita de certo cuidado ao abordar o retrato de um sistema tão delicado quanto este. A linguagem do </span><a href="https://contextojornalismo.com/2022/12/20/male-gaze-entenda-o-termo-queridinho-das-redes-sociais-e-como-voce-tambem-e-afetada-por-ele/"><i><span style="font-weight: 400;">male gaze</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, acrescida do viés do olhar perturbador, é evidente durante todo o período do longa. A valorização pelo grotesco é como uma consequência direta da obsessão pela juventude e perfeição.</span></p>
<figure id="attachment_34141" aria-describedby="caption-attachment-34141" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-34141" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image4-3.png" alt="Cena do filme A Substância. Na imagem vemos Elizabeth, mulher branca de cabelos pretos, tirando sua maquiagem. Ela usa um vestido na cor vermelha e luvas pretas. Enquanto se olha no espelho, com sua mão direita Elizabeth está tirando o batom vermelho de sua boca. Ao fundo é possível ver as paredes com azulejos brancos." width="800" height="445" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image4-3.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image4-3-768x427.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34141" class="wp-caption-text">Por explorar a obsessão por corpos femininos, A Substância é totalmente diferente dos demais filmes lançados em 2024 (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A necessidade da produção em deixar os diálogos em segundo plano mostra a falta de sagacidade para explorar temas delicados. Ao mesmo tempo, é excitante ver a forma como Coralie Fargeat reproduz ideias escandalosas com linguagens vulgares e, até mesmo, grosseiras em determinados momentos do longa. A grande metáfora da </span><a href="https://www.cinematorio.com.br/2024/05/critica-filme-the-substance-o-contrario-da-critica-cannes-2024/"><span style="font-weight: 400;">substância</span></a><span style="font-weight: 400;">, que se resume a cirurgias plásticas e procedimentos estéticos, é antiquada e desagradável aos olhos femininos, sua crítica se baseia nos mesmos vícios que captam a obsessão pela juventude. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ritmo de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Substância</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode parecer, em alguns momentos, </span><a href="https://www.bbc.com/culture/article/20240519-the-substance-demi-moore-margaret-qualley-cannes-film-festival"><span style="font-weight: 400;">lento e repetitivo</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém, é considerável dizer que a trama funciona como uma grande bomba relógio prestes a explodir. O terror bruto é insensível, não oscila e muito menos foge de suas sequências que estão perturbadoramente interligadas. A crise de conflito interno busca despertar uma reação sensorial no espectador a cada singela cena, causando certo interesse nessa produção sangrenta.</span></p>
<figure id="attachment_34138" aria-describedby="caption-attachment-34138" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34138" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-2.png" alt="Cena do filme A Substância. Na imagem vemos Sue, mulher branca com cabelos castanhos escuros, olhando fixamente para a frente. Ela veste um baby doll na cor rosê. Sue encontra-se deitada com seus braços abertos e sua boca e nariz estão sangrando. Ao fundo, o tapete em que está deitada é bege." width="640" height="332" /><figcaption id="caption-attachment-34138" class="wp-caption-text">Margaret Qualley dá show de atuação no longa (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Substância</span></i><span style="font-weight: 400;"> é tudo que se pode esperar de um filme no estilo </span><i><span style="font-weight: 400;">body horror</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com um toque extremamente físico e visceral, o longa promete e cumpre seu papel com uma trama feroz e </span><a href="https://tangerina.uol.com.br/filmes-series/a-substancia-melhor-filme-2024-critica/"><span style="font-weight: 400;">intensa</span></a><span style="font-weight: 400;">. A produção tem tudo para deixar o espectador desconfortável e tirá-lo de sua zona de conforto. Com seu olhar afiado para o bizarro e sede pela monstruosidade, a obra expõe o desejo pela beleza ao limite. Afinal, qual é o preço da substância que o público procura? Você pode pagar para ver.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="A Substância | Trailer Legendado" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/AAIUQJrpc2M?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Quanto custa uma noite no Motel Destino?</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Aug 2024 18:38:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Giovanna Freisinger Efervescente, colorido e quente, Motel Destino propõe um noir no calor do Ceará. O novo longa do diretor Karim Aïnouz chega aos cinemas após celebrada estreia no Festival de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro. Aïnouz repete a parceria com a diretora de Fotografia francesa Hélène Louvart, que também trabalhou ao seu &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/motel-destino-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quanto custa uma noite no Motel Destino?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33838" aria-describedby="caption-attachment-33838" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33838" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image3-1.png" alt="Cena do filme Motel Destino. À esquerda, uma mulher está de lado, virada para Heraldo. Ela está com um cigarro entre os dedos na altura da boca dele e eles estão se olhando." width="1024" height="682" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image3-1.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image3-1-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image3-1-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33838" class="wp-caption-text">Motel Destino é o primeiro filme de Aïnouz rodado inteiramente no Ceará desde O Céu de Suely, de 2006 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Efervescente, colorido e quente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Motel Destino </span></i><span style="font-weight: 400;">propõe um </span><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i><span style="font-weight: 400;"> no calor do Ceará. O novo longa do diretor Karim Aïnouz chega aos cinemas após celebrada estreia no </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/tv-e-famosos/noticia/estreia-de-motel-destino-reune-famosos-em-cannes.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Festival de Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">, onde concorreu à </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/estadao-conteudo/2024/05/25/festival-de-cannes-anora-de-sean-baker-ganha-palma-de-ouro.htm"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aïnouz repete a parceria com a diretora de Fotografia francesa </span><a href="https://personaunesp.com.br/nezouh-critica/"><span style="font-weight: 400;">Hélène Louvart</span></a><span style="font-weight: 400;">, que também trabalhou ao seu lado em </span><a href="https://cinefestivais.com.br/formas-de-voltar-para-casa-karim-ainouz-fala-sobre-a-vida-invisivel/"><i><span style="font-weight: 400;">A Vida Invisível</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. É o olhar dela que define o tom da história, através das cores saturadas e texturas granuladas que levam ao visual frenético.</span></p>
<p><span id="more-33832"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na beira da estrada, o motel é o personagem principal. Sob as luzes </span><i><span style="font-weight: 400;">neon</span></i><span style="font-weight: 400;">, ele respira, pulsa, fala, geme e dita as regras. Do portão para dentro, os protagonistas se entregam ao prazer e ao instinto. O suor que cai sobre os lençóis emaranhados do </span><i><span style="font-weight: 400;">Motel Destino</span></i><span style="font-weight: 400;"> é de calor, desejo e tensão, e todos se misturam. Há um magnetismo perigoso ali dentro, Karim Aïnouz definiu o local como “</span><i><span style="font-weight: 400;">um vórtex do inconsciente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que engole e prende quem entra, durante coletiva de imprensa em que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/"><span style="font-weight: 400;">Persona</span></a><span style="font-weight: 400;"> esteve presente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se nos quartos é onde as fantasias têm lugar, nos corredores de manutenção acontece a vida que ninguém vê. Conforme a narrativa progride, o ambiente compõe o cenário de um pesadelo, como se as paredes se estreitassem a cada minuto ao passo que as tensões vão chegando mais perto do ponto de ebulição. As cores, a luz, a música e toda a composição levam a intensidade ao máximo e te fazem pensar: qual foi, um dia, a graça de um </span><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem calor e sem suor? Como já  aceitamos, no passado, qualquer demonstração do relacionamento dos personagens que  não era coreografada ao som de </span><a href="https://www.instagram.com/reel/C9vVLSivqrv/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA=="><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Pega o Guanabara e vem</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></a><span style="font-weight: 400;">?</span></p>
<figure id="attachment_33836" aria-describedby="caption-attachment-33836" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33836" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image1-1.png" alt="Cena do filme Motel Destino. Da esquerda para a direita: Elias, Dayana e Heraldo. Os homens estão de sunga e shorts e a mulher com um conjunto curto verde. Eles estão dançando no sol na frente de uma piscina." width="800" height="445" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image1-1.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image1-1-768x427.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-33836" class="wp-caption-text">Motel Destino foi eleito o filme mais sexy de Cannes pela revista estadunidense Vanity Fair (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A história é clássica, pode-se dizer que já está batida, mas a execução única garante uma experiência deliciosa na audiência. Nesse caso, a forma salva o conteúdo. O potencial criado pela obra comportava mais ambição do que o enredo, escrito por Aïnouz em parceria com Wislan Esmeraldo e </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/a-mentira/"><span style="font-weight: 400;">Mauricio Zacharias</span></a><span style="font-weight: 400;">, entrega. Por maior que seja a contradição com as ideias do filme, ele é engessado, e depende do seu jogo de cintura para não cair em mais do mesmo que já vimos antes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme provoca: o que acontece quando os arquétipos da sociedade brasileira se encontram entre quatro paredes? </span><a href="https://youtu.be/3I9Y4Salk1o?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">Iago Xavier</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem seu papel de estreia interpretando Heraldo, um jovem desprivilegiado que vive em fuga. Já </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/erotismo-e-ocio-atriz-conta-bastidores-do-filme-motel-destino/"><span style="font-weight: 400;">Nataly Rocha</span></a><span style="font-weight: 400;"> merece destaque por sua performance intensa de uma mulher bem resolvida consigo mesma, porém presa em um relacionamento abusivo com o personagem de </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/pop/noticia/fabio-assuncao-avalia-motel-destino-historia-de-amor-mas-com-camadas-de-crueldade.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Fábio Assunção</span></a><span style="font-weight: 400;">, que incorpora um ex-policial sudestino em toda a sua glória; bigodudo, bêbado, agressivo e sem noção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A inserção dessa tríade no universo do filme tece comentários interessantes sobre as </span><a href="https://revistatrip.uol.com.br/tpm/nataly-rocha-a-protagonista-de-motel-destino"><span style="font-weight: 400;">dinâmicas de poder</span></a><span style="font-weight: 400;"> que estão em jogo e a extensão da moralidade ambígua de cada um. Todos os personagens estão tentando escapar do destino que espreita. Eles se reconhecem no primeiro olhar, sabem imediatamente quem o outro é, e seguem em um jogo de provocações fingindo desconhecer as intenções por baixo dos panos. Heraldo e Dayana (personagem de Rocha) constroem a relação central do filme, baseada, principalmente, no encontro da busca comum por uma liberdade da qual são privados. </span></p>
<figure id="attachment_33837" aria-describedby="caption-attachment-33837" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33837" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/08/image2-2.png" alt="Cena do filme Motel Destino. À esquerda e ao fundo da imagem, Elias está deitado na cama, de sunga, e com as mãos sobre o rosto. No centro, sentado na cama, Heraldo olha para o rosto de Dayana, que está sentada mais para a beirada da cama, no canto direito da imagem, olhando para baixo." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-33837" class="wp-caption-text">Aïnouz anunciou que pretende iniciar uma trilogia de filmes cearenses com Motel Destino (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O sexo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Motel Destino</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é coberto por qualquer véu do pudor, muito pelo contrário, é nu (literalmente) e cru, o que permite que a audiência e os personagens entre si conheçam exatamente quem eles são, despidos de tudo que usam de fachada. É uma história física, os corpos – como a câmera de </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/o-destino-de-um-filme-e-de-uma-geracao-num-brasil-em-transe/"><span style="font-weight: 400;">Aïnouz</span></a><span style="font-weight: 400;"> os revela –  comunicam tanto quanto, senão mais que, o texto do roteiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em resposta ao Persona, durante a coletiva realizada no </span><a href="https://www.cinebelasartes.com.br/"><span style="font-weight: 400;">Reag Belas Artes</span></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor compartilhou que faz passagens em silêncio durante as gravações, removendo por completo o diálogo das cenas. Contou também que pegou a ideia de uma entrevista do </span><a href="https://www.nytimes.com/2020/11/19/magazine/david-fincher-mank-interview.html"><span style="font-weight: 400;">David Fincher</span></a><span style="font-weight: 400;">: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Obviamente os planos que mais ficam no filme são essas passagens. As trocas de olhares e a sinergia dos corpos no espaço são muito fortes</span></i><span style="font-weight: 400;">.” Ele ressaltou ainda que, nesse filme, foi muito importante que “</span><i><span style="font-weight: 400;">os corpos estivessem à frente da palavra</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O trio protagonista passa quase o tempo todo junto em um ambiente claustrofóbico.  Eles se esbarram, agarram, seguram, evitam, empurram, dançam e parecem estar sempre a um movimento brusco de tudo escalar rapidamente. A faísca da violência iminente pode acender com qualquer passo errado nos jogos de insinuação e intenções implícitas entre o motel e a </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/videos/2024/05/23/motel-destino-leva-liberdade-brasileira-a-cannes-com-fabio-assuncao-nalaty-rocha-e-iago-xavier.htm"><span style="font-weight: 400;">liberdade</span></a><span style="font-weight: 400;">. O hedonismo desenfreado cobra um preço e </span><i><span style="font-weight: 400;">Motel Destino</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz a audiência pagar com gosto. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Motel Destino - Trailer oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/718qf7ESdUc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Até que ponto Po-Wing e Lai Yiu-Fai estão Felizes Juntos?</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Jun 2024 19:14:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eloah Kaway Felizes Juntos, dirigido por Wong Kar-Wai, é um retrato fascinante e complicado sobre relacionamentos e descoberta pessoal. O filme mostra a relação tumultuada entre Ho Po-Wing (Leslie Cheung) e Lai Yiu-Fai (Tony Leung), um casal gay de Hong Kong perdido na melancolia de Buenos Aires. Com suas cenas ambientadas nas ruas da cidade &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/felizes-juntos-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Até que ponto Po-Wing e Lai Yiu-Fai estão Felizes Juntos?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33587" aria-describedby="caption-attachment-33587" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33587" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image4-5.png" alt="Dois homens abraçados dançam ao som de tango na cozinha de casa, em um momento íntimo. Leslie Cheung, à esquerda, veste uma camisa neutra e calças bege, enquanto Tony Leung, à direita, usa camisa neutra com calças jeans azuis." width="700" height="350" /><figcaption id="caption-attachment-33587" class="wp-caption-text">Tony Leung e Leslie Cheung protagonizam uma icônica cena de tango (Foto: Golden Harvest Company)</figcaption></figure>
<p><b>Eloah Kaway</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Felizes Juntos</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por </span><a href="https://youtu.be/wDkTPT-cgvk?si=jTIWmpnLhD0HC9-o"><span style="font-weight: 400;">Wong Kar-Wai</span></a><span style="font-weight: 400;">, é um retrato fascinante e complicado sobre relacionamentos e descoberta pessoal. O filme mostra a relação tumultuada entre Ho Po-Wing (Leslie Cheung) e Lai Yiu-Fai (Tony Leung), um casal gay de Hong Kong perdido na melancolia de Buenos Aires. Com suas cenas ambientadas nas ruas da cidade e nas impressionantes </span><a href="https://www.visitefoz.com.br/pontos-turisticos/cataratas-do-iguacu/"><span style="font-weight: 400;">Cataratas do Iguaçu</span></a><span style="font-weight: 400;">, Kar-Wai cria uma história visualmente incrível que nos faz pensar no amor em todas suas formas.</span></p>
<p><span id="more-33584"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No longa, os protagonistas são retratados em um relacionamento tumultuado, marcado por intensas oscilações. Em uma tentativa desesperada de reviver o amor que compartilham, decidem viajar para a </span><a href="https://www.britannica.com/place/Argentina"><span style="font-weight: 400;">Argentina</span></a><span style="font-weight: 400;">, buscando um afastamento radical de suas vidas anteriores. O objetivo deles é visitar as Cataratas do Iguaçu, uma jornada que adquire uma dimensão simbólica à medida que o longa avança e o vínculo entre eles se desfaz mais uma vez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha da música </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=xVggBkYKGsQ"><i><span style="font-weight: 400;">Cucurrucucu Paloma</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Caetano Veloso, como pano de fundo para a cena no Patrimônio Natural da Humanidade, não apenas complementa as imagens panorâmicas como também estabelece a abertura do filme de maneira poética. O uso das cores e da canção funciona como uma metáfora das emoções turbulentas dos protagonistas. Inicialmente imersa em cores saturadas que refletem a intensidade do amor entre Po-Wing e Yiu-Fai, a obra transita para tons mais sombrios de preto e branco à medida em que o relacionamento se desintegra, capturando habilmente os altos e baixos emocionais do casal.</span></p>
<figure id="attachment_33589" aria-describedby="caption-attachment-33589" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33589" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6.png" alt="Em uma imagem em preto e branco, Leslie Cheung e Tony Leung se abraçam, seus olhares revelando confusão diante das adversidades do relacionamento." width="1280" height="690" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-6-1200x647.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33589" class="wp-caption-text">Leslie Cheung e Tony Leung vivem um amor conturbado e belo (Foto: Golden Harvest Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Através das performances de </span><a href="https://youtu.be/gr01rovvIfU?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">Leslie Cheung</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Tony Leung, </span><i><span style="font-weight: 400;">Felizes Juntos</span></i><span style="font-weight: 400;"> oferece uma exploração crua e honesta da complexidade humana, tecendo um retrato comovente de um amor apaixonado, porém, turbulento, que desafia as definições convencionais. Cheung e Leung capturam com maestria a dinâmica destrutiva entre Ho Po-Wing, impulsivo e errático, e Lai Yiu-Fai, mais reservado e contemplativo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A reflexão sobre o título do filme ganha mais sentido conforme a história se desenvolve. </span><a href="https://youtu.be/j-Qum-HQVM4?si=gkPNepVLSyWgtwN5"><i><span style="font-weight: 400;">Chun Gwong Cha Sit</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no original) vai além da relação complicada entre dois indivíduos que, claramente, não estão felizes, explorando também a reconciliação interior e a aceitação do passado de cada um. Essa jornada emocional ressoa profundamente, oferecendo uma nova visão sobre o que realmente significa amar e se separar. O futuro é incerto; pode haver mais noites solitárias e desesperadoras pela frente mas, agora, eles estão livres das amarras que os prendiam. É um novo começo, mesmo que não seja juntos lado a lado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Wong Kar-Wai utiliza Buenos Aires como um contraponto ao seu habitual cenário em Hong Kong, explorando semelhanças e contrastes entre essas duas metrópoles. A cidade se torna um cenário simbólico para a desorientação e a busca por identidade dos personagens, evocando uma sensação de exílio emocional e físico. A transição gradual do filme, passando do preto e branco para cores vivas, reflete não apenas a evolução do relacionamento de </span><a href="https://youtu.be/d8po9qolv7Y?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">Po-Wing e Yiu-Fai</span></a><span style="font-weight: 400;">, como também o próprio processo de crescimento pessoal deles.</span></p>
<figure id="attachment_33586" aria-describedby="caption-attachment-33586" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33586" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6.png" alt="Ao fundo da agitada Buenos Aires, as luzes neon iluminam a cidade enquanto um relógio marca 20h43" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-6-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33586" class="wp-caption-text">O Fotógrafo Christopher Doyle transita drasticamente entre o preto e branco, e um colorido extremamente saturado (Foto: Golden Harvest Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um método notável do jogo de câmera é o deslocamento de foco entre os personagens, que é efetivamente utilizado pelo diretor de Fotografia, </span><a href="https://x.com/dukefeng52"><span style="font-weight: 400;">Christopher Doyle</span></a><span style="font-weight: 400;">, para enfatizar a distância emocional e desconexão entre eles. Por exemplo, em uma cena em que Lai Yiu-Fai trabalha como porteiro e Ho Po-Wing ostenta seus novos relacionamentos, a lente se afasta de Yiu-Fai para focar em Po-Wing, o deixando desfocado e em segundo plano; à medida que ele se afasta da vida do parceiro tanto de forma literal quanto metaforicamente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra técnica é o uso de movimentos circulares da câmera, que espelham a natureza cíclica do relacionamento dos personagens. Durante um passeio de táxi, que simboliza mais uma reconciliação, a máquina se move em padrões giratórios, ecoando o padrão repetitivo e vertiginoso de suas separações e retornos. Este movimento circular não apenas aprimora a </span><a href="https://youtu.be/j-Qum-HQVM4?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">experiência visual</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas também aprofunda a compreensão do espectador sobre os estados emocionais estagnados e repetitivos dos personagens.</span></p>
<figure id="attachment_33585" aria-describedby="caption-attachment-33585" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33585" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-6.png" alt="Ho Po-Wing e Lai Yiu-Fai dentro do carro, com expressões magoadas após uma discussão." width="600" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-33585" class="wp-caption-text">O filme rendeu ao diretor o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes (Foto: Golden Harvest Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos aspectos notáveis em </span><i><span style="font-weight: 400;">Felizes Juntos</span></i><span style="font-weight: 400;"> é Chang, interpretado por </span><a href="https://mydramalist.com/people/678-chang-chen"><span style="font-weight: 400;">Chang Chen</span></a><span style="font-weight: 400;">, que surge de maneira discreta e gradualmente se torna amigo de Lai Yiu-fai, que estava enfrentando a solidão. Ele é como uma luz radiante em meio às dificuldades e sua personalidade curiosa, às vezes, intrometida, traz um humor peculiar ao filme, ao mesmo tempo em que revela uma tristeza subjacente, como se houvesse um vazio difícil de preencher.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chang aspira viajar por diversos lugares antes de retornar a </span><a href="https://oglobo.globo.com/tudo-sobre/pais/taiwan/"><span style="font-weight: 400;">Taiwan</span></a><span style="font-weight: 400;">, sua terra natal. Em uma jornada em busca pela felicidade, revela-se um homem cujas motivações são desconhecidas, mas que a breve passagem pela vida de Yiu-fai é suficiente para conectar o público profundamente a esse indivíduo simples, acolhedor e repleto de histórias por descobrir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas cenas finais, Lai Yiu-fai finalmente consegue sair de Buenos Aires e viaja não para </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/tudo-sobre/hong-kong/"><span style="font-weight: 400;">Hong Kong</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas para Taipei. Ele vai ao mercado noturno onde a família de Chang Chen tem uma barraca de comida. Contudo, ele não está lá por viajar pelo mundo. &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Finalmente entendi como ele poderia ser feliz correndo livre assim</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, diz Yiu-fai em seu tom de voz narrativo, baixo e triste. &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">É porque ele tem um lugar para onde sempre pode voltar</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;. </span><span style="font-weight: 400;">É um momento de introspecção, onde Yiu-fai reconhece a dificuldade de encontrar um sentido de pertencimento e liberdade verdadeiros, mesmo em meio às descobertas pessoais e às mudanças de cenário.</span></p>
<figure id="attachment_33588" aria-describedby="caption-attachment-33588" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-33588" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2.png" alt="À esquerda, Chang, um homem asiático com um boné cinza e jaqueta jeans, está ao lado de Yiu-fai, outro homem asiático vestindo uma blusa branca de algodão. O ambiente ao redor deles é preenchido por garrafas de cerveja." width="1280" height="690" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image5-2-1200x647.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33588" class="wp-caption-text">A trilha sonora melancólica de Felizes Juntos, composta por Zhang Hongzhi, complementa perfeitamente a narrativa, intensificando as emoções do filme (Foto: Golden Harvest Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A crítica internacional elogia </span><i><span style="font-weight: 400;">Felizes Juntos</span></i><span style="font-weight: 400;"> como uma obra-prima do Cinema contemporâneo. O filme recebeu aclamação em importantes festivais ao redor do mundo, incluindo uma indicação à Palma de Ouro e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de</span> <a href="https://www.festival-cannes.com/en/"><i><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de 1997. Esse reconhecimento não só celebra a habilidade de Wong Kar-Wai como um cineasta inovador, mas também destaca como o longa continua relevante ao explorar profundamente temas de identidade e busca por conexão humana.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um ponto forte do filme é como ele trata a sexualidade e a identidade de seus personagens sem clichês ou simplificações. Kar-Wai mostra um grande respeito pela complexidade e singularidade das jornadas pessoais de </span><a href="https://youtu.be/eEzHOmSTYDY?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">Ho Po-Wing e Lai Yiu-Fai</span></a><span style="font-weight: 400;">, retratando suas lutas e vitórias de maneira genuína e humana. </span><i><span style="font-weight: 400;">Felizes Juntos</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma obra em que o cineasta ressoa além das fronteiras culturais e sexuais. É um lembrete de que, em de todas as lutas e triunfos, está a busca incansável pela felicidade e pela compreensão de nós mesmos e dos outros.</span></p>
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		<title>Zona de Interesse: o mal mora ao lado</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Mar 2024 13:42:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Uma tela preta com um som grave ao fundo inicia e encerra Zona de Interesse. A introdução subversiva dá o tom provocante da obra de Jonathan Glazer, que, ao invés de filmar os horrores dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, aposta no senso ético dos espectadores para interpretar a dissonância entre &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/zona-de-interesse-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Zona de Interesse: o mal mora ao lado"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32630" aria-describedby="caption-attachment-32630" style="width: 860px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32630" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1.webp" alt="Cena de Zona de Interesse." width="860" height="526" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1.webp 860w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1-800x489.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1-768x470.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32630" class="wp-caption-text">Além da indicação à Palma de Ouro, Zona de Interesse saiu vencedor do Grande Prêmio no Festival de Cannes (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma tela preta com um som grave ao fundo inicia e encerra </span><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse</span></i><span style="font-weight: 400;">. A introdução subversiva dá o tom provocante da obra de Jonathan Glazer, que, ao invés de filmar os horrores dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, aposta no senso ético dos espectadores para interpretar a dissonância entre o que se vê e o que se escuta. Curiosamente, a </span><a href="https://www.termometrooscar.com/melhor-ediccedilatildeo-de-som.html"><span style="font-weight: 400;">melhor aposta</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o longa-metragem no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no qual foi indicado em cinco categorias, não é Melhor Som.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse ponto, a aparição de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Zone of Interest</span></i><span style="font-weight: 400;"> escancara algo ainda mais perturbador. Junto de outras produções nomeadas este ano, como o iminente vencedor </span><a href="https://personaunesp.com.br/oppenheimer-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Oppenheimer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (também sobre a Segunda Guerra) e o merecedor </span><i><span style="font-weight: 400;">Assassinos da Lua das Flores</span></i><span style="font-weight: 400;">, a premiação parece ter uma predileção por passar a limpo tragédias movidas pelo dedo humano (coincidentemente, em que o dedo é estadunidense). No entanto, a preferência é seletiva: enquanto homenageia documentários propagandísticos, como aconteceu no ano passado com </span><a href="https://personaunesp.com.br/navalny-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Navalny</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e pode se repetir esse ano com o manipulador </span><i><span style="font-weight: 400;">20 Dias em Mariupol </span></i><span style="font-weight: 400;">(sobre a guerra na Ucrânia), o país berço do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">não só nega um genocídio em andamento, como </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/senado-dos-eua-aprova-pacote-de-ajuda-de-us-95-bilhoes-para-ucrania-e-israel/#:~:text=Israel%20%7C%20CNN%20Brasil-,Senado%20dos%20EUA%20aprova%20pacote%20de%20ajuda%20de%20US,bilh%C3%B5es%20para%20Ucr%C3%A2nia%20e%20Israel&amp;text=O%20Senado%20dos%20Estados%20Unidos,um%20confronto%20com%20a%20C%C3%A2mara."><span style="font-weight: 400;">o financia</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-32629"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É diante de tamanha hostilidade que </span><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse </span></i><span style="font-weight: 400;">cresce. A reflexão sobre a conivência com uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/assassinos-da-lua-das-flores-critica/"><span style="font-weight: 400;">limpeza étnica</span></a><span style="font-weight: 400;">, ignorando os gritos e tiros do outro lado do muro em prol de um suposto bem-estar social, tem o potencial para cutucar a ferida daqueles que permanecem omissos e, sem mau-caratismo, veem para além do que o filme opta por mostrar.</span></p>
<figure id="attachment_32631" aria-describedby="caption-attachment-32631" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32631" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4.webp" alt="Cena de Zona de Interesse." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4.webp 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4-800x450.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4-1024x576.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4-768x432.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4-1536x864.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-4-1200x675.webp 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32631" class="wp-caption-text">Steven Spielberg comparou Zona de Interesse com A Lista de Schindler, mas, ao contrário do segundo, o primeiro pressupõe que o espectador tenha conhecimento prévio do que foi o Holocausto (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><a href="https://letterboxd.com/kmf/film/the-zone-of-interest/"><span style="font-weight: 400;">obra</span></a><span style="font-weight: 400;">, adaptada livremente do livro homônimo de Martin Amis, de 2014, uma família alemã vive ao lado do campo de concentração Auschwitz. O patriarca é Rudolf Höss (Christian Friedel), que encabeça a administração do campo em sua fase inicial e, na vida real, o tornou uma máquina de ceifar vidas. Ele passa a maior parte do tempo se dedicando ao regime nazista e às ordens de Adolf Hitler, mas a esposa Hedwig (Sandra Hüller) e os filhos vivem uma vida tranquila e pacata no casarão, aproveitando os jardins e a horta, os amplos quartos e salas, estufa e a piscina. O </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2023/11/sandra-huller-steps-cautiously-into-the-spotlight"><span style="font-weight: 400;">cachorro</span></a><span style="font-weight: 400;"> corre pelo quintal enquanto os mais novos brincam, a mulher caminha com o bebê no colo e sente o aroma das flores, o filho mais velho dá possivelmente seu primeiro beijo nos fundos da casa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cotidiano seria pacífico e até normal de se assistir, se não fosse o que mora ao lado. O </span><a href="https://www.polygon.com/24055667/zone-of-interest-sound-design-interview-oscar-home-release"><span style="font-weight: 400;">trabalho de som</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Johnie Burn e Tarn Willers faz soar tiros, sirenes, gritos de pessoas amedrontadas e de militares raivosos do outro lado do muro. Algumas noites, as crianças imitam os ruídos que alcançam sua vida tranquila e as tiram o sono. O cachorro nem se incomoda com os estrondos, tamanho o costume. A mãe de Hedwig (Imogen Kogge), que visita a residência, reforça o quanto a filha venceu na vida, mas é a única que se incomoda e deixa o lugar depois de ver as labaredas de fogo vindas do quintal vizinho. Para a família, a crueldade e o desprezo pela vida humana é algo rotineiro, beirando a cegueira. Para quem assiste, um lembrete de que o preço a pagar pela resistência é muito maior do que pela ignorância.</span></p>
<figure id="attachment_32634" aria-describedby="caption-attachment-32634" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32634" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse.jpg" alt="Cena de Zona de Interesse." width="2500" height="1340" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-800x429.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1024x549.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-768x412.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1536x823.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-2048x1098.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-1200x643.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32634" class="wp-caption-text">A experiência de escutar Zona de Interesse nos cinemas é perturbadora, mas, felizmente, o design de som fez adaptações para as TVs caseiras (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de retratar o descaso, Glazer não cede a ele. O diretor e roteirista mantém seus personagens longe das câmeras e, se por um lado evita aproximações e uma possível romantização, por outro se afasta o suficiente dos seus objetos a ponto de quase eximi-los de responsabilidade pela apatia frente à sombra da morte. O conceito da “</span><a href="https://www.vox.com/culture/23733985/zone-interest-arendt-banality-review-canes-jonathan-glazer"><span style="font-weight: 400;">banalidade do mal</span></a><span style="font-weight: 400;">” que virou jargão para definir as intenções por trás de </span><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse </span></i><span style="font-weight: 400;">não chega a esvaziar o tema, mas corre o risco de negligenciar que, por trás da tragédia, há pessoas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É no retrato dessas pessoas que o longa-metragem opõem a realidade proposta pelo som. A esposa vivida por Sandra Hüller, em sua segunda </span><a href="https://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/"><span style="font-weight: 400;">aparição grandiosa</span></a><span style="font-weight: 400;"> nessa temporada de premiação, se ocupa de criar os filhos enquanto o marido está no trabalho sujo, visto por ela como algo honroso, e se vangloria da vida perfeita que construiu. Ela cuida das crianças e da horta, recebe as amigas para um café da tarde e sofre com a possível mudança de lar. Em alguns dos momentos mais simbólicos para mostrar o que há por trás de tanta paz, Hedwig prova roupas novas que vieram diretamente de judeus aprisionados vivendo ao lado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o marido interpretado por Christian Friedel se mantém distante e frio. Assim como a esposa, ele exemplifica o conflito do </span><a href="https://tesouracomponta.com/zona-de-interesse-prioriza-sua-forma-e-mostra-dualidade-do-horror/"><span style="font-weight: 400;">filme</span></a><span style="font-weight: 400;">: o mal não dá gargalhadas, mas vive ao lado de forma comum. Ele recebe companheiros de trabalho, tem ambições profissionais, se frustra com planos que dão errado e igualmente têm seus dilemas em deixar a família. Ainda assim, a rigidez do regime nazista está ali: ele não treme quando revela estar pensando em como matar todos no ambiente e sua única demonstração de carinho é um “eu te amo” para o cavalo de estimação. Mesmo as falas mais cruéis não se comparam à indiferença da família Höss.</span></p>
<figure id="attachment_32632" aria-describedby="caption-attachment-32632" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32632" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-2.jpg" alt="" width="1000" height="563" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-2.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/03/zona-de-interesse-2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32632" class="wp-caption-text">Zona de Interesse foi indicado nas categorias de Trilha Sonora, Melhor Filme e Melhor Filme em Língua Não Inglesa no Globo de Ouro, e venceu como Melhor Filme Britânico e Melhor Filme em Língua Não Inglesa no BAFTA (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na lista de Melhor Filme no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse </span></i><span style="font-weight: 400;">pode ficar atrás dos seus concorrentes, mas é uma vitória quase certeira em Melhor Filme Internacional para o </span><a href="https://variety.com/2023/film/awards/zone-of-interest-country-oscars-international-feature-1235624029/"><span style="font-weight: 400;">Reino Unido</span></a><span style="font-weight: 400;"> (já que a </span><a href="https://variety.com/2024/film/global/france-dysfunctional-oscar-committee-anatomy-of-a-fall-1235880857/"><span style="font-weight: 400;">França desistiu de submeter</span></a><span style="font-weight: 400;"> seu </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de Uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">). O longa ainda trava certa concorrência em Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção, ambos para Jonathan Glazer. No </span><i><span style="font-weight: 400;">line-up </span></i><span style="font-weight: 400;">da premiação, a mensagem que fica é que, enquanto reflete sobre tragédias passadas, o</span> <a href="https://www.poder360.com.br/internacional/guerra-em-gaza-e-pior-do-que-o-holocausto-diz-embaixador-palestino/"><span style="font-weight: 400;">genocídio em andamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> ainda não é digno da mesma comoção norte-americana.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não por isso o longa deixa de refletir sobre si mesmo. Em uma das cenas finais mais impactantes da categoria principal, o comandante de Auschwitz fica enjoado e </span><a href="https://www.vulture.com/article/the-zone-of-interests-vomit-inducing-ending-explained.html"><span style="font-weight: 400;">vomita</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao descer as escadas, saindo de uma reunião da organização nazista. A ruptura é temática, violando a perspectiva e rigidez proposta até ali, mas também é na forma estilística. A montagem de Paul Watts viaja no tempo para depois do </span><a href="https://screenrant.com/zone-of-interest-steven-spielberg-review/"><span style="font-weight: 400;">Holocausto</span></a><span style="font-weight: 400;">, mostrando o saldo do que se tornou o campo de concentração, um lembrete da crueldade humana que ceifou milhões de vidas. Também abre possibilidades para interpretação – há um resquício de humanidade, uma luz no fim do túnel da brutalidade? A história tomou seu próprio rumo, mas se repete e </span><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse </span></i><span style="font-weight: 400;">tem o potencial para oferecer um momento de reflexão.</span></p>
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		<title>Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 21:05:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A verdade, como a luz, cega. Albert Camus, A queda (1956) Bruno Andrade Ao parafrasear Luis Buñuel, a renomada crítica Pauline Kael faz uma reflexão interessante: “Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31705" aria-describedby="caption-attachment-31705" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31705" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, um homem está à esquerda, deitado no chão branco da neve com um ferimento na cabeça, repleto de sangue. À direita, uma mulher loira fala ao telefone e o filho do casal se esconde nos braços da mulher, para não olhar o corpo. A imagem apresenta uma imagem aérea da cena." width="2400" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-800x533.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1024x683.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-768x512.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1536x1024.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-2048x1365.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1200x800.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31705" class="wp-caption-text">Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o longa de Justine Triet integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">A verdade, como a luz, cega.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Albert Camus, </span><i><span style="font-weight: 400;">A queda </span></i><span style="font-weight: 400;">(1956)</span></p></blockquote>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao parafrasear </span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/un-chien-andalou"><span style="font-weight: 400;">Luis Buñuel</span></a><span style="font-weight: 400;">, a renomada crítica </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/documentario-sobre-pauline-kael-e-carta-de-amor-a-figura-apaixonada-pelo-cinema.shtml"><span style="font-weight: 400;">Pauline Kael</span></a><span style="font-weight: 400;"> faz uma reflexão interessante: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do subconsciente</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> As narrativas nunca se limitam apenas à superfície – mergulham nas entranhas do pensamento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa que integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, tem domínio dessa sensação, e trabalha em sintonia às verdades ocultas e dilemas da interpretação.</span></p>
<p><span id="more-31701"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/anatomia-de-uma-queda-abre-a-mostra-com-retrato-da-morte-de-um-casamento.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomie d&#8217;une Chute</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no título original em francês), cuja direção é assinada por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/05/justine-triet-emociona-cannes-com-julgamento-hipnotico-de-uma-escritora.shtml"><span style="font-weight: 400;">Justine Triet</span></a><span style="font-weight: 400;">, com roteiro original de Arthur Harari, Clémentine Schaeffer e da própria diretora, somos convidados a uma experiência cinematográfica que desafia as expectativas convencionais do gênero que se propôs a trabalhar. Logo no início, numa manhã de inverno nos Alpes franceses, Samuel é encontrado morto no chão em frente à sua casa, com um ferimento profundo na cabeça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante suas duas horas e meia de duração, o drama evita o terreno seguro dos clichês sobre a vida, caminhos trilhados ou da relação entre o casamento e dois contadores de histórias (neste caso, uma escritora em alta e um escritor que não consegue escrever) – possibilidades quase irresistíveis nos dramas de tribunal e nas </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><span style="font-weight: 400;">histórias de casamento</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, Triet encontra uma forma mais cerebral e original de insistir nessa última ideia, buscando a realidade através das histórias de Sandra (Sandra Hüller) e Samuel (</span><a href="https://c7nema.net/entrevistas/item/107465-softie-realismo-social-de-samuel-theis-deixa-a-sua-marca-no-festival-do-cairo.html"><span style="font-weight: 400;">Samuel Theis</span></a><span style="font-weight: 400;">), mas, principalmente, da relação complexa entre a representação da verdade e aquilo que realmente aconteceu.</span></p>
<figure id="attachment_31703" aria-describedby="caption-attachment-31703" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31703" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, o ator Milo Machado Graner está com uma blusa de cor cinza, com a mão apoiada em uma parede de madeira. Ele olha de maneira assustada para a frente. Ele é um menino branco, de 11 anos, com cabelo liso preto e olhos azuis." width="2560" height="1384" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1536x830.jpeg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31703" class="wp-caption-text">O personagem de Milo Machado Graner torna-se o principal com o passar do filme (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um salto temporal intrigante acontece na metade do longa, arremessando a história para um ano depois. A princípio, essa intervenção parece desconectada do clímax, deixando uma sensação estranha conforme as cenas avançam – nada muda, e o </span><a href="https://personaunesp.com.br/dark-critica/"><span style="font-weight: 400;">salto temporal</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece completamente descartável. No entanto, uma análise mais aproximada pode indicar essa mudança – para além do avanço das investigações no tribunal – como uma espécie de ‘lupa’ para o desenvolvimento de Daniel (Milo Machado Graner), o filho de 11 anos do casal e parcialmente cego, no piano. Trata-se da primeira cena imediatamente depois da passagem: o menino frente às teclas, repetindo as melodias de cenas anteriores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela verdade parece novamente uma metáfora poética possível para a condição de Daniel. Ele possui a capacidade de ouvir e falar, mas não pode enxergar. Em contraste, Snoop, o cão da família (interpretado pelo simpático border collie Messi, que ganhou o prêmio </span><a href="https://rpet.r7.com/fotos/border-collie-messi-leva-palm-dog-premio-do-festival-de-cannes-para-animais-que-aparecem-nos-filmes-26052023"><i><span style="font-weight: 400;">Palm Dog</span></i><span style="font-weight: 400;"> em Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">), consegue ver, mas não pode falar. Sandra vê, ouve e fala, mas afirma não ter presenciado o momento da morte de Samuel, tornando seus sentidos inúteis. O mistério central permanece sem resposta: o pai caiu da janela, pulou intencionalmente ou foi empurrado? A intensidade com que Daniel se dedica ao piano, a ponto de transpirar intensamente tocando sempre a mesma melodia, revela seu desconforto diante dessa questão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem a capacidade de ler partituras, ele se apoia no som e na experimentação, demonstrando que os ruídos podem revelar verdades profundas. Durante as investigações sobre a morte de Samuel, quando o primeiro juiz (Pierre-François Garel) realiza a reconstituição do ocorrido, Daniel – que sente todo o processo como um divórcio tardio dos pais – revela ter se enganado quanto ao local onde sentiu o couro preso à parede (uma maneira que seu pai desenvolveu de dar autonomia ao filho com deficiência visual, espalhando pedaços de couro por toda a região da casa para que pudesse se </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">guiar com o cachorro</span></a><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<figure id="attachment_31706" aria-describedby="caption-attachment-31706" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31706" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg" alt="Fotografia colorida da diretora Justine Triet. Na imagem, ela está com uma estatueta de folha, o prêmio recebido no Festival de Cannes, apoiado à sua frente, com o seu queixo inclinado sobre ele. Ela é uma mulher branca, de cabelos loiros, veste uma roupa inteiramente preta e usa batom vermelho." width="1600" height="1117" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-800x559.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1024x715.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-768x536.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1536x1072.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1200x838.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31706" class="wp-caption-text">Justine Triet foi a terceira mulher a vencer a Palma de Ouro como diretora (Foto: Sipa/Chine Nouvelle)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a impaciência do juiz, Daniel não estava onde disse, dias antes, que estava – o tato, um de seus principais sentidos, foi incapaz de trazer a verdade. Essa mesma metáfora indica a importância que </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> dá a outros elementos cinematográficos: o som, a fotografia interessante de Simon Beaufils, o roteiro complexo e inteligente e as atuações brilhantes, que são coroadas numa direção precisa. Esses elementos, em conjunto, fizeram do longa o vencedor da </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2023/05/27/francesa-justine-triet-vence-a-palma-de-ouro-em-cannes-com-anatomia-de-uma-queda.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro no Festival de Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de Justine Triet apenas a terceira mulher a levar o prêmio, após ter sido indicada em 2019 por</span> <a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/cultura-e-lazer/noticia/2021/11/literatura-cinema-e-memorias-se-entrelacam-no-frances-sibyl-que-estreia-em-caxias-ckvtxp45e000c017f2evcwlpl.html"><i><span style="font-weight: 400;">Sibyl</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas perder para </span><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Bong Joon-ho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na atuação, é </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/sandra-huller-interview-anatomy-of-a-fall-zone-of-interest-star-1235579238/"><span style="font-weight: 400;">Sandra Hüller</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se destaca, dando a força emocional do filme – “Sandra Hüller”, guarde este nome. A substância dramática do longa parece ser encapsulada na sua atuação em harmonia com a fotografia de Beaufils, que acrescenta nuances de documentário por meio de um jogo de câmeras revelador. Hüller compreende a necessidade de manter a ambiguidade, particularmente em relação a sua personagem, acusada de matar o marido – o mesmo homem que, de maneira trágica e desintencional, causou a cegueira do filho. Essa ambiguidade paira sobre a narrativa, e ela e Triet trabalham em conjunto dentro desse limiar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos atrás, a atriz surgiu como uma estrela em ascensão em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jnkCzL62QjQ"><i><span style="font-weight: 400;">Toni Erdmann</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016), drama de </span><a href="https://www.scielo.br/j/pg/a/tJKGQrWBk4KcCWG78bytn6S/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">Maren Ade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que, para muitos, deveria ter levado a Palma de Ouro quando concorreu. Hüller, agora, desempenha papéis de destaque em dois dos principais filmes do ano: o próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925821/a-zona-de-interesse"><span style="font-weight: 400;">adaptação do romance</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Martin Amis, </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/zona-de-interesse-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, dirigida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1uYWYWPc9HU"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Glazer</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que também integra a 47ª Mostra Internacional de São Paulo.</span></p>
<figure id="attachment_31704" aria-describedby="caption-attachment-31704" style="width: 2165px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31704" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller veste um suéter de cor amarela. Ela está sentada numa mesa na cozinha, com a mão esquerda levemente levantada. Ela é uma mulher branca, loira e de olhos azuis." width="2165" height="1170" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png 2165w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1024x553.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1536x830.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-2048x1107.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1200x648.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31704" class="wp-caption-text">Por Toni Erdmann, Sandra Hüller foi vencedora do Prêmio de Cinema Alemão na categoria de Melhor Atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um elemento intrigante no filme é a recorrência da versão instrumental de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BaNSuQxD_cI"><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 50 Cent, cuja letra é notória por sua profundidade misógina. Essa música se repete ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, tornando-se uma trilha sonora não oficial que, de maneira cômica e sinistra, parece projetada para perturbar Sandra. O som está presente desde a cena inicial, na qual acompanhamos a entrevista entre ela e Zoe (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/mary-queen-of-scots-2013"><span style="font-weight: 400;">Camille Rutherford</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma estudante de pós-graduação interessada na sua escrita, trabalhos de tradução e literatura em geral. Essa entrevista, contudo, se converte em um encontro sedutor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma renomada autora alemã que, a exemplo de boa parte dos escritores contemporâneos, utiliza a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">autoficção para conceber seus trabalhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, Sandra faz carreira em Londres e se muda para uma casa nos Alpes franceses para realizar um desejo do marido, um homem francês de origem. Ela tem o alemão como língua materna, mas utiliza o inglês para se comunicar – embora às vezes, num esforço, fale o francês – e vive num país de língua francesa. Sandra não parece estar definitivamente em lugar algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela e Zoe, então, tomam taças de vinho e a conversa sorrateiramente muda de foco – não se trata mais dela, mas sim </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-essencial-de-perigosas-sapatas-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">delas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i><span style="font-weight: 400;"> começa a tocar do alto das escadas, e a entrevista precisa ser encerrada – nenhuma das duas consegue mais se ouvir, atrapalhadas pela melodia de uma canção que, na sua versão original, repete “</span><i><span style="font-weight: 400;">she feed them foolish fantasies</span></i><span style="font-weight: 400;">” (</span><i><span style="font-weight: 400;">ela alimenta o sonho dos tolos</span></i><span style="font-weight: 400;">). O marido sabia que Sandra estava flertando lá embaixo?</span></p>
<figure id="attachment_31707" aria-describedby="caption-attachment-31707" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31707" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller está num tribunal, vestindo um terno feminino. Ela é uma mulher loira e está com as duas mãos juntas e cruzadas próximo a barriga. Ela está de pé." width="2048" height="1107" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1536x830.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1200x649.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31707" class="wp-caption-text">Justine Triet revelou em entrevista à CBC que escreveu a personagem de Sandra Hüller pensando nela como atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A confusão inicial, na mistura entre biografia e ficção, é o motivo que leva a estudante de pós-graduação a entrevistar Sandra inicialmente, a fim de recolher informações para a tese que vem escrevendo. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nos faz querer descobrir qual é qual</span></i><span style="font-weight: 400;">”, insiste. A protagonista, ao sorrir, revela que sua liberdade dependerá da forma como o júri, logo menos, analisará suas afirmações – sempre interpretativas, num jogo de verdade-mentira e dos limites da interpretação. Antes do julgamento, é isso que o advogado e melhor amigo, Vincent  (</span><a href="https://45.mostra.org/filmes/eu-quero-falar-sobre-duras"><span style="font-weight: 400;">Swann Arlaud</span></a><span style="font-weight: 400;">), diz: não importa se ela matou Samuel ou não, “</span><i><span style="font-weight: 400;">esse não é o ponto</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na metade do filme, o promotor (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/softie-2021"><span style="font-weight: 400;">Antoine Reinartz</span></a><span style="font-weight: 400;">) questiona se Zoe sabia da bissexualidade de Sandra, mesmo sem a necessidade de afirmar nada além do que vimos. A revelação – que mais parece uma constatação – traz outras informações: existia um acordo tácito entre Sandra e Samuel, ou pelo menos parecia existir, no qual se relacionar com outras pessoas não seria um problema – uma tentativa de aliviar as tensões conjugais após o acidente que acabou parcialmente com a visão do filho, quando ele tinha 4 anos. Mas fica evidente que esse acordo tácito tornou-se uma fonte de conflito para o marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao evocar diretamente </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/anatomia-de-um-crime-anatomy-of-a-murder/"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de um Crime</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1959), de Otto Preminger, e </span><a href="https://www.record.com.br/produto/a-queda-3/"><i><span style="font-weight: 400;">A queda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1956), de </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/noticias/listao-da-semana/a-pena-de-morte-segundo-camus-e-mais-6-lancamentos"><span style="font-weight: 400;">Albert Camus</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra de Triet parece dar ênfase à exploração de elementos do comportamento humano e da moral, utilizando a ‘queda’ como metáfora ou ponto de partida. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, não é apenas o corpo do marido que cai da janela: o casamento de Sandra e Samuel tomba de maneira constante, cujos motivos da queda são esmiuçados nas sessões do tribunal.</span></p>
<figure id="attachment_31702" aria-describedby="caption-attachment-31702" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31702" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, veste um tribunal repleto de pessoas. À esquerda está a protagonista, Sandra Huller, sendo questionada por um advogado que veste roupa preta. À direita há um homem de cabelos pretos, com os braços cruzados, ouvindo. Ao fundo diversas pessoas estão sentadas." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1536x864.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31702" class="wp-caption-text">&#8220;O tribunal é sempre o espaço que passa a funcionar como espelho moral da imposição social&#8221;, disse Justine Triet (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em essência, </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/luiz-zanin/mostra-2023-1-o-caso-goldman-mais-um-eletrizante-drama-de-tribunal-frances/"><span style="font-weight: 400;">drama de tribunal</span></a><span style="font-weight: 400;">, embora apresente uma abordagem fresca e original dentro desse sub-gênero. Sendo possível dividir o filme em partes iguais sob o idioma inglês e o francês, o núcleo da narrativa gira em torno das revelações feitas perante o júri, e os momentos de vulnerabilidade de Sandra são compartilhados com Vincent, seu melhor amigo, mas também seu advogado, que revela ter se apaixonado por ela no passado. Esses aspectos da vida pessoal da protagonista ganham destaque nos dilemas do julgamento, revelando que as expectativas sociais, personificadas pelo júri, têm mais influência em sua condenação e redenção do que os detalhes específicos que cercam a morte do marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa narrativa complexa e emocional nos lembra como a verdade, muitas vezes, é subjetiva e multifacetada, e que o Cinema, como expressão artística, tem o poder de revelar as profundezas do </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/"><span style="font-weight: 400;">subconsciente humano</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com as situações aparentemente resolvidas, mas longe de serem definitivas. Sob um estado de incerteza, talvez o filho de Sandra, Daniel, saiba mais do que foi expressamente revelado. Não há forma mais clara de se alienar do que alimentar a sensação de que se sabe de tudo. Assim, a verdade permanece elusiva, e aceitar a versão apresentada parece ser a única opção.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Anatomy of a Fall - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fTrsp5BMloA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Boy From Heaven desnuda a política por trás da religião</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 20:22:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade Há sempre um suspense em torno de tramas políticas. Talvez o mistério seja o formato mais funcional em atrair a atenção do público para o assunto – mais do que serena, a política é sempre mortalmente séria. Ainda assim, é através das eleições que os indivíduos percebem sua importância social; é a manifestação &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/boy-from-heaven-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Boy From Heaven desnuda a política por trás da religião"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29173" aria-describedby="caption-attachment-29173" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29173" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29173" class="wp-caption-text">Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, Boy From Heaven integrou a seção Perspectiva Internacional da 46ª Mostra SP (Foto: Pandora)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há sempre um suspense em torno de tramas políticas. Talvez o mistério seja o formato mais funcional em atrair a atenção do público para o assunto – mais do que serena, a política é sempre mortalmente séria. Ainda assim, é através das eleições que os indivíduos percebem sua importância social; é a manifestação contemporânea que, apesar dos ataques, mais tem resistido às mudanças pós-modernas, mesmo que a maneira e os motivos pelos quais se vote sejam diametralmente outros. Em períodos normais, se vota pelo futuro; em momentos perigosos, se vota para cessar a destruição. Sob essa perspectiva, </span><a href="https://www.screendaily.com/reviews/boy-from-heaven-cannes-review/5170901.article"><span style="font-weight: 400;">Tarik Saleh</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretor e roteirista do premiado </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/may/20/boy-from-heaven-review-cannes-2022"><i><span style="font-weight: 400;">Boy From Heaven</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, longa que integrou a seção Perspectiva Internacional da 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, vislumbra como o mundo está constantemente inventando maneiras de garantir o resultado desejado.</span></p>
<p><span id="more-29172"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adam Tala (Tawfeek Barhom), filho de um pescador, recebe o priviégio de estudar na Universidade de Al-Azhar do Cairo – instituição anexada à mesquita de mesmo nome –, o epicentro político do islamismo sunita. Pouco após sua chegada na cidade, a maior liderança religiosa da universidade, o </span><a href="https://super.abril.com.br/historia/quais-sao-os-principais-cargos-religiosos-e-politicos-do-mundo-islamico/"><span style="font-weight: 400;">Grande Imã</span></a><span style="font-weight: 400;">, morre repentinamente. Entre as figuras religiosas e a elite egípcia, Tala logo se torna uma peça central em torno dessa morte. Contudo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Boy From Heaven</span></i><span style="font-weight: 400;"> aponta que o processo eleitoral no país sequer finge ser democrático: o candidato escolhido é selecionado por um pequeno Conselho Supremo de Acadêmicos, cujas considerações e motivações do voto jamais serão exteriorizadas para o mundo.</span></p>
<figure id="attachment_29177" aria-describedby="caption-attachment-29177" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29177 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-683x1024.jpg" alt="" width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-1365x2048.jpg 1365w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-1200x1800.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-3-scaled.jpg 1707w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29177" class="wp-caption-text">Boy From Heaven, de Tarik Saleh, foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes (Foto: Pandora)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tarik Saleh, que desde de 2017 <a href="https://www.aljazeera.com/news/2022/5/28/boy-from-heaven-cannes-film-festival-tarik-saleh-egypt-al-azhar">não pode entrar no Egito</a> sob risco de ser preso, depois do lançamento de seu penúltimo filme, </span><a href="http://43.mostra.org/br/filme/9392-O-INCIDENTE-NO-NILE-HILTON"><i><span style="font-weight: 400;">O Incidente no Nile Hilton</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – que discute também a corrupção política no país –, dobra a aposta no novo lançamento. Devido a essa restrição pessoal, as gravações do longa precisaram ser feitas em Istambul, na Turquia, e a Universidade de Al-Azhar na verdade é a Mesquita Süleymanye. Ao longo do filme, o diretor amplia sua discussão sobre os desvios governamentais para preencher o cargo religioso mais alto da nação, mostrando os interesses por trás da eleição do candidato escolhido pelo presidente. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A terra não pode sustentar dois faraós</span></i><span style="font-weight: 400;">”, diz o general Al Sakran (Mohammad Bakri), ordenando ao coronel Ibrahim (Fares Fares) que torne o seu concorrente pessoal eleito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o que deixa </span><i><span style="font-weight: 400;">Boy From Heaven</span></i><span style="font-weight: 400;"> ainda mais interessante é que, sob nenhuma perspectiva, Tarik Saleh tenta manchar a fé do </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-noiva-critica/"><span style="font-weight: 400;">Islã</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seu roteiro desenvolto mostra como o perigo reside, sempre, nas apropriações egoístas e delirantes pelo poder, que na prática não obedecem aos ensinamentos dogmáticos. Esse tratamento, por si só, aponta a grande diferença que o mesmo tema vem recebendo de cineastas ocidentais ao longo dos anos. Submissão da Suécia no <em>Oscar</em> 2023, o longa chegou aos cinemas da América do Norte sob o título <em><a href="https://deadline.com/2022/11/samuel-goldwyn-films-acquires-cairo-conspiracy-boy-from-heaven-sweden-oscar-1235161352/">Cairo Conspiracy</a> – </em>talvez numa tentativa de deixá-lo mais comercial. </span></p>
<figure id="attachment_29175" aria-describedby="caption-attachment-29175" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29175" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2.jpg" alt="" width="2048" height="1152" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29175" class="wp-caption-text">Com o título original Walad Min Al Janna, o longa chegou à Mostra SP sob seu título em inglês, Boy From Heaven (Foto: Pandora)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na história, Ibrahim tem um infiltrado dentro da universidade há tempos, que é assassinado logo no início, devido a sua falta de discrição e erros consecutivos. Em busca de um novo “anjo”, o coronel cruza com o protagonista Adam – um calouro nos estudos e também na vida adulta, distante da própria casa. Em muitos aspectos, a trama desse personagem se assemelha à narrativa de </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/the-greatest-american-novel-youve-never-heard-of"><i><span style="font-weight: 400;">Stoner</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1965), romance de </span><a href="https://www.newyorker.com/magazine/2019/03/18/john-williams-and-the-canon-that-might-have-been"><span style="font-weight: 400;">John Williams</span></a><span style="font-weight: 400;"> sobre um jovem de família rural aceito na Universidade do Missouri para estudar Ciências Agrárias (após uma aula de Literatura, ele muda seu curso para se dedicar à escrita, de forma silenciosa e escondida, com medo da reação do pai). No longa, Adam é aceito na universidade e seu progenitor, um indivíduo conservador e abusivo – que bate nos três filhos pelo erro de um –, aceita com ressalvas, apenas porque “</span><i><span style="font-weight: 400;">não se pode ir contra as vontades de Alláh</span></i><span style="font-weight: 400;">”. É nesse contexto que Adam Tala se torna o espião perfeito para o coronel Ibrahim: um indivíduo descartável em todos os aspectos, um simples pescador invisível aos olhos do governo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na verdade, </span><i><span style="font-weight: 400;">Boy From Heaven</span></i><span style="font-weight: 400;"> se desenvolve como um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;"> político funcional e interligado, com o islamismo e as conveções estadistas do país como pano de fundo. Nesse sentido, lembra </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0303201009.htm"><i><span style="font-weight: 400;">O Profeta</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2009) – vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes e que concorreu ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Filme Internacional em 2010 –, sobre o jovem muçulmano Malik El Djebena (Tahar Rahim), que tenta sobreviver em uma prisão francesa. A similaridade entre ambas as produções está no que o longa de 2022 evidencia no seu título: trata-se da construção mítica de um personagem que, oculto, segregado à pobreza e escolhido diante de muitos, é destinado a mudar os rumos de uma nação, como a própria escolha de uma figura divina.</span></p>
<figure id="attachment_29176" aria-describedby="caption-attachment-29176" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29176" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29176" class="wp-caption-text">Boy From Heaven, cuja trama é ambientada no Egito, foi filmado na Turquia e Suécia, e teve produção na França, Finlândia e Dinamarca (Foto: Pandora)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que o suspense em torno da trama seja, em muitos níveis, convencional, o entorno e o tratamento previsto no roteiro – merecidamente premiado – guarda o verdadeiro mérito do filme. Além desse cuidado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Boy From Heaven </span></i><span style="font-weight: 400;">se trata também de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/aftersun-critica/"><span style="font-weight: 400;">história sobre amadurecimento</span></a><span style="font-weight: 400;">, um </span><i><span style="font-weight: 400;">coming of age</span></i><span style="font-weight: 400;"> repaginado que, diferente do que se convencionou a fazer nas produções do gênero, mostra o protagonista entendendo a vida adulta sob a ótica corrupta e perigosa. Não se trata de melancolia ou de sofrimento, propriamente, mas da percepção de que a vida agora é como está, e sua única alternativa é se tornar mais esperto do que aqueles que pretendem te dominar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso Adam Tale perde, paulatinamente, sua inocência. Mais próximo ao fim, no qual todo o clímax da trama está guardado, após negociar com o cego Sheik Negm (Makram Khoury) – evitando, assim, sua morte –, todos, inclusive o general, olham para Adam como se ele próprio fosse o Grande Imã. Iluminado pela sabedoria, ele retorna ao campo e é questionado sobre o que aprendeu na universidade, sem poder jamais dizer tudo o que fez. Talvez a moral seja essa: não é sobre o que se aprende, mas sobre o que se ensina – essa é a nossa marca no mundo.</span></p>
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		<title>Em Triângulo da Tristeza, ricaços escrevem ‘Deus’ com ‘d’ minúsculo e caem em tentação</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2022 20:02:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista Ruben Östlund não se preocupa em soar presunçoso ou em talhar o discurso com o intuito de mastigar a jugular que atinge. O sueco, que levou para casa sua segunda Palma de Ouro meses atrás, chega em Triângulo da Tristeza num patamar de sátira e escárnio para além do já apresentado em seu &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/triangulo-da-tristeza-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Triângulo da Tristeza, ricaços escrevem ‘Deus’ com ‘d’ minúsculo e caem em tentação"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29107" aria-describedby="caption-attachment-29107" style="width: 2015px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29107 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1.jpg" alt="Cena do filme Triângulo da Tristeza, mostra um homem branco, sarado e sem camisa, tirando uma foto com um celular em posição horizontal. Ao fundo, vemos o céu e está de dia. " width="2015" height="842" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1.jpg 2015w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-768x321.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1536x642.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/1-1200x501.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29107" class="wp-caption-text">Depois de vencer Cannes com The Square, Ruben Östlund repete o feito com Triângulo da Tristeza, exibido na Perspectiva Internacional da 46ª Mostra de SP (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitor Evangelista</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ruben Östlund não se preocupa em soar presunçoso ou em talhar o discurso com o intuito de mastigar a jugular que atinge. O sueco, que levou para casa sua </span><a href="https://www.dn.pt/lusa/amp/filme-the-square-do-sueco-ruben-ostlund-vence-palma-de-ouro-em-cannes-8514053.html"><span style="font-weight: 400;">segunda Palma de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;"> meses atrás, chega em </span><i><span style="font-weight: 400;">Triângulo da Tristeza</span></i><span style="font-weight: 400;"> num patamar de sátira e escárnio para além do já apresentado em seu currículo no Cinema. Parte da Perspectiva Internacional da 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, seu premiado filme está interessado em caçoar.</span></p>
<p><span id="more-29106"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma porção de jovens adultos sarados aparecem descamisados, sendo entrevistados por um repórter bem-humorado que os cutuca a respeito dos modelos homens receberem um terço do salário de uma mulher na mesma profissão. O protagonista Carl (</span><a href="https://letterboxd.com/actor/harris-dickinson/"><span style="font-weight: 400;">Harris Dickinson</span></a><span style="font-weight: 400;">) tenta contornar a situação, mas logo é chamado para uma sala, onde um grupo de empregadores ordena que ele desfile, sem sorrir ou parar. Uma simples caminhada se transforma em lição de casa: tudo precisa de um ritmo, uma batida. Carl aceita o conselho, refaz a tarefa, e logo é mandado embora. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Próximo</span></i><span style="font-weight: 400;">”, chama a assistente de elenco.</span></p>
<figure id="attachment_29110" aria-describedby="caption-attachment-29110" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29110 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2.jpg" alt="Cena do filme Triângulo da Tristeza, mostra uma modelo desfilando. Ela é branca, tem cabelos escuros, franja e usa um vestido branco. Ela está numa passarela escura, iluminada em luz vermelha." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29110" class="wp-caption-text">Poucos meses depois de estrelar o filme, a atriz Charlbi Dean faleceu de um mal súbito, aos 32 anos (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário muda. Agora somos espectadores de um jantar caríssimo dos modelos e namorados Carl e Yaya (</span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/08/30/charlbi-dean-atriz-da-serie-raio-negro-morre-aos-32-anos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Charlbi Dean</span></a><span style="font-weight: 400;">). Restaurante grã-fino, talheres de prata, champanhe fresco e uma torta de climão sobre quem vai arcar com a conta. Sendo mulher, ela definitivamente tem mais recursos financeiros que ele, entretanto, insiste em se fazer de desentendida e não paga a comida superfaturada que agora repousa em seu estômago. Ele saca o cartão, mas o bate-boca continua até o elevador, onde Carl, como uma assombração, para na linha da porta, não se importando com o apito do sensor de presença e gesticula enfaticamente contra a amada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando encontram um ponto de paz na intriga, os personagens aparecem em outra zona de luxo, dessa vez um iate que navega por águas cristalinas. Momentaneamente eclipsando o foco do casal, o roteiro de Östlund abraça o elenco de apoio, com grande destaque para um russo capitalista, um casal de idosos dono do império de granadas e o capitão do navio. Interpretado com o balaio de </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/pop/noticia/festival-de-cannes-woody-harrelson-ganha-o-trofeu-figuraca.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Woody Harrelson</span></a><span style="font-weight: 400;">, o homem é um bêbado irrepreensível, marxista de coração e desiludido com a vida de luxúria que leva.</span></p>
<figure id="attachment_29114" aria-describedby="caption-attachment-29114" style="width: 3620px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29114 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1.png" alt="Cena dos bastidores do filme Triângulo da Tristeza, mostra o ator Woody Harrelson e o diretor Ruben Ostlund conversando no cenário do restaurante do iate. Ao fundo, vemos as câmeras e aparelhos usando nas filmagens. " width="3620" height="2139" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1.png 3620w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1-800x473.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1-1024x605.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1-768x454.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/3-1-1536x908.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29114" class="wp-caption-text">Nada de um local real, o tal Triângulo da Tristeza que batiza o filme é um expressão que diz respeito à área entre as sobrancelhas, geralmente preenchida com botox pelos modelos (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na construção de cenários, o filme encontra com eficiência o meio-termo entre os </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TnsWeoZfxlM"><span style="font-weight: 400;">diversos potenciais</span></a><span style="font-weight: 400;"> que um iate proporciona. O </span><i><span style="font-weight: 400;">design </span></i><span style="font-weight: 400;">de produção, departamento sob o comando de Josefin Åsberg, junto da fotografia de Fredrik Wenzel, brinca com as locações. Uma hora assumindo o caráter claustrofóbico dos corredores entre quartos, para depois se refrescar no deque e em suas cadeiras de sol, viajar para a metalizada e minúscula cozinha e finalmente atracar no refeitório onde </span><i><span style="font-weight: 400;">Triangle of Sadness</span></i><span style="font-weight: 400;"> é catalisador de enjoo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Prato vai, prato vem, a maré não dá trégua e o sistema digestivo dos endinheirados se vira do avesso, </span><a href="https://variety.com/2022/artisans/awards/how-triangle-of-sadness-pulled-off-15-minute-vomiting-diarrhea-sequence-1235412313/"><span style="font-weight: 400;">botando para fora</span></a><span style="font-weight: 400;"> cada gota de vinho branco e colherada de caviar. No limite do humor escatológico, o desenho de som de Andreas Franck e Bent Holm espreme e aperta cada nota e sinfonia de terror, causando gargalhadas em uma plateia de cinema que não parou de comprimir o bucho até as sequências da ilha perdida.</span></p>
<figure id="attachment_29112" aria-describedby="caption-attachment-29112" style="width: 718px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29112 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4.jpg" alt="Pôster do filme Triângulo da Tristeza, mostra uma mulher idosa branca e loira vomitando um líquido dourado. " width="718" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4.jpg 718w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/4-561x800.jpg 561w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29112" class="wp-caption-text">Co-produção entre Suécia, Alemanha, França e Reino Unido, o filme é dono de um dos melhores e mais marcantes pôsteres de 2022 (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Território metafórico para a selvageria, a praia apresenta a enunciação do diretor em aplicação e traz à tona a figura messiânica de </span><a href="https://awardswatch.com/interview-dolly-de-leon-on-her-triangle-of-sadness-breakout-her-must-have-stranded-island-snack-and-what-she-wants-to-do-next/"><span style="font-weight: 400;">Dolly De Leon</span></a><span style="font-weight: 400;">, membro do elenco que mais recebeu atenção do público depois da vitória do filme em Cannes. Sua Abigail sacode a dinâmica da obra, e por mais que seu reinado de poder nasça com os dias contados, a atriz filipina saboreia cada pedaço de diálogo, criado especialmente para seu calibre, autoconsciente da ironia que a cerca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, a discussão levantada pelo </span><a href="https://www.publico.pt/2017/11/23/culturaipsilon/entrevista/o-terreno-armadilhado-de-ruben-ostlund-1793184"><span style="font-weight: 400;">roteiro original de Ruben Östlund</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma tese de sua ideia de desigualdade e cisão entre o mundo dos ricos e o mundo real. A briga no restaurante apresenta o conflito de renda e classes, o iate dialoga com a teoria que cerca a discussão e a ilha é a prova viva e prática das equações desenhadas. A escolha de canalizar a energia protagonista em dois </span><i><span style="font-weight: 400;">influencers</span></i><span style="font-weight: 400;">, profissão esvaziada de propósito, condensa </span><i><span style="font-weight: 400;">Triângulo da Tristeza</span></i><span style="font-weight: 400;"> na forma de um filme idealizado para pessoas cultas darem boas risadas e satisfazer sua ambição de mudar a realidade.</span></p>
<figure id="attachment_29113" aria-describedby="caption-attachment-29113" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29113 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5.jpg" alt="Cena do filme Triângulo da Tristeza, mostra a atriz Dolly De Leon arqueada para a frente e segurando algo com as mãos, nas costas e escondida da câmera. Ela tem a maquiagem borrada e os cabelos na frente do rosto, e veste roupas pretas com um colar brilhante no pescoço." width="2000" height="1333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/5-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29113" class="wp-caption-text">Com a recente atenção da Academia para filmes de Cannes, não seria impossível imaginar um reconhecimento em 2023 nas disputas de Roteiro Original e Atriz Coadjuvante, para Dolly De Leon (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Ruben, a solução é simples: tirar sarro e </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-white-lotus-critica/"><span style="font-weight: 400;">construir seu </span><i><span style="font-weight: 400;">White Lotus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> à beira-mar, povoá-lo com leitores de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ulysses </span></i><span style="font-weight: 400;">e infectá-lo de moscas zombeteiras, posicionar personagens numa batalha de rimas política e não hesitar em mostrar uma senhora capitalista de idade expelindo fluidos por cima e por baixo. A receita está pronta para divertir audiências, </span><a href="https://observador.pt/2022/05/28/triangle-of-sadness-de-ruben-ostlund-vence-palma-de-ouro-no-festival-de-cannes/#:~:text=%E2%80%9CTriangle%20of%20Sadness%E2%80%9D%2C%20de%20Ruben%20%C3%96stlund%2C%20venceu%20a,pelo%20filme%20%E2%80%9CFor%C3%A7a%20Maior%E2%80%9D."><span style="font-weight: 400;">vencer a Palma de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela segunda vez em 5 anos e sair de cena com a fama de um cineasta de grife.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TRIANGLE OF SADNESS - Official Trailer - In Theaters October 7" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/VDvfFIZQIuQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Não tem como se blindar de Titane</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2021 22:16:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Lopes Gomez Opte por separar o artista da Arte ou não, Julia Ducournau já cravou seu nome em suas produções. Titane, a mais nova empreitada da cineasta francesa, estreou no Festival de Cannes, onde fez história ao levar a honraria máxima da premiação, a Palma de Ouro, e chegou ao Brasil na 45ª Mostra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/titane-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não tem como se blindar de Titane"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24488" aria-describedby="caption-attachment-24488" style="width: 1100px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24488" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-1.png" alt="Cena do filme Titane. Na imagem, vemos a protagonista, Alexia, uma mulher branca, de cabeça raspada, aparentando cerca de 30 anos, de ponta cabeça, com o corpo nu arqueado e com uma expressão de dor no rosto." width="1100" height="464" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-1.png 1100w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-1-800x337.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-1-1024x432.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-1-768x324.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24488" class="wp-caption-text">Comprado pela plataforma de streaming MUBI e com data de estreia marcada para 28/01/2022, Titane foi exibido no Brasil primeiro na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, onde participa como Apresentação Especial (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Opte por separar o artista da Arte ou não, Julia Ducournau já cravou seu nome em suas produções. </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;">, a mais nova empreitada da cineasta francesa, estreou no Festival de Cannes, onde fez história ao levar a honraria máxima da premiação, a </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/titane-leva-palma-de-ouro-em-cannes/"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;">, e chegou ao Brasil na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo. O segundo projeto veio antecipado depois do sucesso do polêmico </span><a href="https://personaunesp.com.br/grave-5-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Grave</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas a sangrenta e canibalesca estreia da diretora vira só a porta de entrada para os horrores que vem depois. E não adianta, nem </span><a href="https://newsbeezer.com/franceeng/panic-in-cannes-fainting-vomiting-the-screening-of-the-film-with-vincent-lindon-goes-wrong/"><span style="font-weight: 400;">Cannes conseguiu</span></a><span style="font-weight: 400;">: não tem como se blindar de </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-24487"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também não vale a pena destrinchar a trama do longa, a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=T975nUk_uNA"><span style="font-weight: 400;">experiência completa</span></a><span style="font-weight: 400;"> requer o inesperado. Basicamente: Alexia (aqui, Adèle Guigue) sofreu um acidente de carro na infância e teve uma placa de titânio implantada na cabeça. Anos depois, já adulta (agora, </span><a href="https://www.interviewmagazine.com/film/agathe-rousselle-will-blow-your-mind"><span style="font-weight: 400;">Agathe Rousselle</span></a><span style="font-weight: 400;">), ela dança em cima de carros, transa com eles e mata pessoas. Quando precisa desaparecer depois de uma série de assassinatos, ela assume a identidade de Adrien Legrand, um menino há muito tido como desaparecido.</span></p>
<figure id="attachment_24489" aria-describedby="caption-attachment-24489" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24489" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2.png" alt="Cena do filme Titane. Na imagem, no que aparenta ser um quarto e em uma cama de hospital, vemos, ao centro, uma menina branca, aparentando cerca de 8 anos, vestindo um traje hospitalar branco, com a cabeça raspada e uma estrutura metálica ao redor de sua cabeça e pescoço. Do lado direito, de costas para a câmera, vemos uma mulher branca, de cabelos loiros lisos, encarando a menina." width="1536" height="641" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2-800x334.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2-1024x427.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2-768x321.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-2-1200x501.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24489" class="wp-caption-text">A vitória do Palma de Ouro em Cannes fez de Julia Ducournau a segunda mulher premiada com o troféu máximo em 74 anos (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma montanha-russa. Os caminhos imprevisíveis que o roteiro toma, também cortesia de </span><a href="https://news.letterboxd.com/post/664717986077229057/driven-to-love-julia-ducournau"><span style="font-weight: 400;">Ducournau</span></a><span style="font-weight: 400;">, vem acompanhados dos cruzamentos entre gêneros cinematográficos. O filme constantemente troca as marchas entre o terror, o suspense e o drama, em uma mistura que une e existe nos três, ao mesmo tempo que se empenha em quebrar as convenções de todos. Se o longa oferece sequências brutais e sanguinolentas, outras </span><a href="https://www.vulture.com/2021/07/titanes-julia-ducournau-doesnt-think-shes-a-provocateur.html"><span style="font-weight: 400;">provocativas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e traumatizantes, a violência vem acompanhada de uma surpreendente ternura, profundidade emocional e, por vezes, até humor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora não se atém a um rótulo cinematográfico, nem a um limite, mas se encoraja a ir além em sua obsessão pelo corpo humano e pelos extremos que este pode atingir. Ou não pode, mas ela os empurra até o máximo mesmo assim. Se uma Alexia transando com o carro não fosse </span><a href="https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2021-10-05/titane-explained-julia-ducournau"><span style="font-weight: 400;">bizarro e abstrato</span></a><span style="font-weight: 400;"> o suficiente, uma Alexia grávida dele (sim, do veículo) contra sua vontade e lactando graxa leva a predileção da cineasta pelos absurdos corporais a outro nível, ao mesmo tempo que a barbaridade se torna cômica pelo seu fator inacreditável. Na visão alucinante da francesa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">pode se enquadrar como uma comédia </span><i><span style="font-weight: 400;">dark </span></i><span style="font-weight: 400;">surrealista ou um horror chocante em sua forma mais pura. Provavelmente, ele se encaixa nos dois ao mesmo tempo.</span></p>
<figure id="attachment_24490" aria-describedby="caption-attachment-24490" style="width: 860px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24490" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-3.jpg" alt="Cena do filme Titane. Na imagem, vemos Alexia, uma mulher branca, de cabelos loiros lisos, aparentando cerca de 30 anos, vestindo trajes de dança rosa claro e verde, inclinada com as costas apoiadas sob um carro, que tem sua lataria pintada com chamas. Do teto, luzes iluminam o ambiente e vemos um homem, em desfoque, ao fundo no canto direito." width="860" height="477" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-3.jpg 860w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-3-800x444.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-3-768x426.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24490" class="wp-caption-text">Para Julia Ducournau, na sociedade, carros são considerados objetos masculinos e representam um status simbólico, que foi incorporado em Titane (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas seria reducionista limitar </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;"> ao seu horror corporal. Enquanto filma as gráficas punições e abusos à </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/news/general-news/toronto-multiple-moviegoers-pass-screening-cannibal-movie-raw-928431/"><span style="font-weight: 400;">carne humana</span></a><span style="font-weight: 400;">, Julia Ducournau parece se divertir em apenas dar dicas dos temas e metáforas que almeja abordar, só para deixá-las por conta da interpretação do próprio espectador. Em oposição ao explícito de algumas cenas, se Alexia transa com um carro porque a criadora pretendia discutir a sexualidade ou a libertação sexual ou se o faz porque ‘por que não?’, a subjetividade que acompanha o nítido é impressionante, intrigante e também perturbadora. Afinal, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um estudo sobre a </span><a href="https://www.indiewire.com/2021/07/vincent-lindon-worked-out-titane-1234651181/"><span style="font-weight: 400;">maleabilidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> humana ou uma reflexão profunda camuflada sob tormentos?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo das quase duas horas de duração, a </span><a href="https://vejasp.abril.com.br/blog/filmes-e-series/na-mostra-sp-titane-e-annette-ressaltam-a-forca-do-cinema-de-autor/"><span style="font-weight: 400;">idealizadora</span></a><span style="font-weight: 400;"> de toda essa loucura não tem vontade nenhuma de responder a questão. Ao contrário, ao invés de explicitar suas intenções, ela deixa à mostra apenas o exterior, a forma carnal que recebe todos os </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2021/07/body-horror-quando-o-corpo-humano-vira-materia-prima-do-medo.html"><span style="font-weight: 400;">desconfortos</span></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto o interior vira o mistério a ser &#8211; ou justamente não ser &#8211; desvendado. Mistério e questionamentos esses que ela levanta para, também, levá-los ao seu máximo. Por exemplo, por que Vincent Legrand (Vincent Lindon), o pai do menino desaparecido incorporado por Alexia, simplesmente aceita que ela é seu filho, sem nem mesmo questionar ou duvidar? </span></p>
<figure id="attachment_24491" aria-describedby="caption-attachment-24491" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24491" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-4-2.jpg" alt="Cena do filme Titane. Na imagem, no que aparenta ser uma garagem, vemos, ao centro, a protagonista Alexia, uma mulher branca, de cabelos loiros lisos na altura do ombro, aparentando cerca de 30 anos, vestindo um casaco e calça preta, encarando o fogo, à sua direita, que é ilumina seu rosto e o ambiente." width="768" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-24491" class="wp-caption-text">Titane foi roteirizado pela diretora Julia Ducournau junto de Jacques Akchoti, Simonetta Greggio e Jean-Christophe Bouzy (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas mãos de Ducournau, o que poderia ser uma falha, uma conveniência relevada somente para mover o restante da narrativa, se reinventa para revelar o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-ghost-story-critica/"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;">, a dependência emocional, a necessidade de afeto e até o amor incondicional. Ao passo que avança, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">adentra camadas da própria existência, forma e identidade humana e se desdobra sempre além do que já era. As transformações do corpo de Alexia, constantemente se escondendo sob o disfarce de Adrien enquanto carrega a </span><a href="https://www.thrillist.com/entertainment/nation/the-year-of-the-creepy-baby-lamb-annette-titane-movie-review"><span style="font-weight: 400;">prole de um carro</span></a><span style="font-weight: 400;">, e também de Vincent, que injeta anabolizantes para manter o corpo envelhecendo em forma, são o que sustentam as mudanças das personagens, principalmente em seu emocional, e abrem caminhos para outras interpretações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já que </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">se vale do exterior carnal e da exploração de suas excruciantes fronteiras para refletir sobre gênero, seus estereótipos e performances, fluidez, sexualidade e laços familiares, o recipiente para a </span><a href="https://news.yahoo.com/titane-director-reveals-she-made-130000042.html?guccounter=1&amp;guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&amp;guce_referrer_sig=AQAAAD16Kr8Ff38LO1oOV-AWxPtRFlSDt86tg_hrvRgwAyuOFeI748x6LNIi9JzH4oJtheg4jNc5auF6tc0Sp6ZHAJeS_IrobAlJCyKPseRBtCxm3labtsiAWmO_Kz-cWA9FqLymsHo81Dcpjb-ZebEGRVJh6cj8xloGPFzA4mLid0jf"><span style="font-weight: 400;">insanidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> do filme tem de fazer jus a sua proposta. Para apresentar a assassina fugitiva grávida de um carro, Alexia, e todas as suas metamorfoses, a mente genial e insana por trás da produção fez questão de preservar a falta de precedentes e a singularidade de sua protagonista. Julia Ducournau optou por uma </span><a href="https://www.thecut.com/2021/10/titanes-agathe-rousselle-is-making-one-hell-of-a-debut.html"><span style="font-weight: 400;">atriz estreante</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Agathe Rousselle ascendeu à tarefa.</span></p>
<figure id="attachment_24492" aria-describedby="caption-attachment-24492" style="width: 887px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24492" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-6.png" alt="Cena do filme Titane. Em uma garagem com carros e estruturas metálicas ao fundo, vemos, à esquerda, um carro com os faróis acesos de frente para a câmera. À direita, de costas para a câmera e em desfoque, vemos a protagonista Alexia, uma mulher branca, encarando o carro, de pé e nua." width="887" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-6.png 887w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-6-800x379.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-6-768x364.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24492" class="wp-caption-text">Momentos antes da cena de sexo que se tornará uma das mais marcantes do Cinema (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem </span><a href="https://www.interviewmagazine.com/film/agathe-rousselle-will-blow-your-mind"><span style="font-weight: 400;">apego a sua casca humana</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como sua personagem, Rousselle se entrega de corpo e alma às transformações de Alexia. A ausência de projeções prévias em cima da intérprete concedeu à diretora o passe livre para explorar as mudanças da personagem e as suas ações pelo que elas são, sem comparações ou interpretações extralinguísticas. A aparência andrógina de Agathe também acrescentou à escolha, que sustenta a base de </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;">: conduzindo Alexia de um mundo estereotipadamente feminino, em que ela dança no topo de carros para o deleite de homens que a sexualizam, para outro masculino, a diretora vai além das tradicionais </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-rocky-horror-picture-show-critica/"><span style="font-weight: 400;">performances e expectativas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de gênero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É sob sua identidade masculina, por exemplo, que Alexia é acolhida por Vincent e forma uma relação com ele, justamente por ser tida como seu protegido. Mesmo quando a personagem desliza e aparece grávida na frente do pai, ele continua a considerá-la como filho, com quem pode se identificar e compartilhar do companheirismo para com outro homem &#8211; e </span><a href="https://www.indiewire.com/2021/07/julia-ducournau-interview-palme-dor-titane-1234652010/"><span style="font-weight: 400;">não com uma mulher</span></a><span style="font-weight: 400;">. As árduas e cruéis violências carnais, que englobam, mas também ultrapassam gênero, funcionam para além da pornografia do horror corporal e externalizam os conflitos interiores, esses que as performances excruciantes de Rousselle e Lindon também encarnam. Por mais duvidoso que sejam, os dois geram até empatia.</span></p>
<figure id="attachment_24493" aria-describedby="caption-attachment-24493" style="width: 1536px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24493" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7.png" alt="Cena do filme Titane. A cena se passa em um banheiro, que tem a parede coberta por ladrilhos rosas. Ao fundo, vemos uma banheira, produtos de higiene, à esquerda, e um chuveiro, ao centro. Do lado direito da imagem, ao lado da banheira, vemos um gabinete rosa claro com produtos de higiene e uma lata de lixo de metal, no chão. Ao centro, sentados no chão em frente à banheira, vemos, à esquerda, Vincent, um homem branco, de cabelos curtos, aparentando cerca de 60 anos, sem camisa e vestindo um short vermelho, deitado em Adrien, à sua direita, um homem braco, com a cabeça raspada, aparentando cerca de 30 anos e vestindo um uniforme de bombeiro." width="1536" height="641" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7-800x334.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7-1024x427.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7-768x321.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/titane-7-1200x501.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24493" class="wp-caption-text">A fotografia de Ruben Impens, que também trabalhou com Julia Ducournau em Grave, amplifica os contrastes e encontra luz até na escuridão de Titane (Foto: Kazak Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No volante da alucinante e delirante viagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;">, a diretora francesa sabia que não seria tão simples fazer se relacionar com os personagens. Pelo menos (e espera-se), não por suas ações. Atingindo </span><a href="https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2021-10-05/titane-explained-julia-ducournau"><span style="font-weight: 400;">suas intenções</span></a><span style="font-weight: 400;"> de que, se a audiência </span><a href="https://deadline.com/2021/10/julia-ducournau-agathe-rousselle-talk-titane-1234847189/"><span style="font-weight: 400;">não pudesse simpatizar</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Alexia por suas morais, que seja pelo seu corpo, este funciona como um “</span><i><span style="font-weight: 400;">cordão umbilical entre a audiência e ela</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Mais uma vez e a cada minuto ao longo dos seus cento e seis, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane</span></i><span style="font-weight: 400;">, assim como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wKYFH0hRpD0"><i><span style="font-weight: 400;">Grave</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, abre a porta da carne para adentrar as manifestações do psicológico humano: se os atos da protagonista não são universais, a sua dor é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, mais do que um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller </span></i><span style="font-weight: 400;">extravagante, do que uma comédia insana, terror corporal primitivo ou de um drama </span><a href="https://c7nema.net/entrevistas/item/105321-vincent-lindon-preciso-fazer-grandes-filmes-e-nao-depender-apenas-de-um-tema-social.html"><span style="font-weight: 400;">complexo</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">é essencialmente a mistura de todos, e também a união de todas as metáforas e simbologias que se pode tirar dele. Acima de tudo, o filme soa como um exercício de humanidade e vulnerabilidade, nem que seja a nossa: </span><a href="https://www.avclub.com/julia-ducournau-is-building-her-own-fierce-fucked-up-c-1847804428"><span style="font-weight: 400;">Julia Ducournau</span></a><span style="font-weight: 400;"> constantemente desafia o público a encontrar o humano no animalesco, mesmo que seus próprios personagens o rejeitem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É com sua visão oblíqua, fantástica, surreal e sedutora que a diretora leva sua obsessão e celebração do corpo ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;">: ainda é cedo para cantar vitória, então, por enquanto, a ousada produção é somente a </span><a href="https://deadline.com/2021/10/oscars-titane-france-international-feature-submission-1234854548/"><span style="font-weight: 400;">submissão oficial</span></a><span style="font-weight: 400;"> da França na categoria Melhor Filme Internacional. Dados os </span><a href="https://www.indiewire.com/feature/best-movies-2021-1234646618/"><span style="font-weight: 400;">devidos créditos</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Titane </span></i><span style="font-weight: 400;">é realmente uma corrida, em que a única certeza é de que o carro que leva a agitada criança Alexia no banco de trás vai bater. E nem nós, nem ela, estamos usando cintos de segurança.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TITANE - Redband Trailer. In Theaters 10.1" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/T975nUk_uNA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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