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	<title>Arquivos Drik Barbosa &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Ao fim de Chegamos Sozinhos em Casa, Tuyo encontra lar no outro</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Nov 2021 15:47:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto Não há medo mais apavorante do que o da solidão. Construímos nosso entendimento de mundo baseado em nossas conexões afetivas e, logo com a chegada da vida adulta, nos deparamos com a instância de trilhar um caminho tortuoso por conta própria. Nesse temor pelo desconhecido e por não pertencer, Machado, Lay e Lio &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/chegamos-sozinhos-em-casa-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Ao fim de Chegamos Sozinhos em Casa, Tuyo encontra lar no outro"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_24765" aria-describedby="caption-attachment-24765" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-24765" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1.webp" alt="Texto alternativo: Capa do CD “Chegamos Sozinhos em Casa”, da banda Tuyo. Fotografia quadrada e colorida. Nela, vemos três pessoas em frente a um grande rancho, com telhados marrom e pintura branca. O céu é limpo e azul, e eles se apresentam em pé, num gramado verde-escuro. Os três olham para a câmera, com um semblante sério. Primeiro, à esquerda, está Jean. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos crespos da cor preta, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, que se divide em dois. Ele veste um sobretudo azul escuro, uma camiseta branca, uma calça azul-escuro e tênis brancos. Ao seu lado, no centro, está Lay. Uma mulher negra, de cabelos crespos raspados e tingidos em loiro. Ela veste uma espécie de quimono azul-escuro, com grandes ombreiras nos braços, e com uma saia que se estende apenas até as coxas. Além disso, ela também veste meias de cano longo brancas e tênis brancos. Por fim, ao lado direito, está Lio. Uma mulher negra, de cabelos crespos volumosos da cor preta. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em botões fechados. Nos pés, ela também usa tênis brancos." width="1000" height="1000" /><figcaption id="caption-attachment-24765" class="wp-caption-text">Depois dos magnânimos Pra Doer (2017) e Pra Curar (2018), Tuyo retorna com um projeto extraordinário, cuja ousadia foi contemplada por uma indicação ao Grammy Latino de 2021 [Foto: Tuyo]</figcaption></figure><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há medo mais apavorante do que o da solidão. Construímos nosso entendimento de mundo baseado em nossas conexões afetivas e, logo com a chegada da vida adulta, nos deparamos com a instância de trilhar um caminho tortuoso por conta própria. Nesse temor pelo desconhecido e por não pertencer, Machado, Lay e Lio – ou Tuyo, como os conhecemos juntos – </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=400s"><span style="font-weight: 400;">encheram sua casa</span></a><span style="font-weight: 400;"> de gente, para não se sentirem sozinhos. Diante disso, </span><a href="https://open.spotify.com/album/0mYYhNhBOsSkL7zYyvOmVg?si=4b0ySSZVQoaX9PDMQMoqLw"><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o novo projeto artístico da banda, imerge na psique de seus integrantes, explorando o instante em que essas pessoas voltam para onde vieram, ou criam seus novos espaços, e o que sobra da gente quando, enfim, estamos sós. </span></p>
<p><span id="more-24764"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma aposta ambiciosa por parte da Tuyo, que distingue-se de qualquer coisa que já fizeram, ainda que continue respirando a personalidade artística que os formaram até o presente. Um projeto </span><a href="https://www.take.net/blog/inovacao/o-que-e-transmidia/"><span style="font-weight: 400;">transmidiático</span></a><span style="font-weight: 400;">, construído no entorno de quase dois anos, e lançado pelo período de pelo menos um semestre. Consistindo em </span><a href="https://open.spotify.com/album/1MDUUXOOqEuB4opvlHISpe?si=1O9Hcp7mT_K6aunCRkKbwQ"><span style="font-weight: 400;">dois álbuns</span></a><span style="font-weight: 400;">, que se unem em uma versão </span><a href="https://open.spotify.com/album/0mYYhNhBOsSkL7zYyvOmVg?si=NEKFWWH3QjKX6Ebxpwz2ZA"><i><span style="font-weight: 400;">Deluxe</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de 19 faixas, lançada em conjunto com </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa &#8211; Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma </span><a href="https://www.papelpop.com/2021/09/tuyo-estreia-chegamos-sozinhos-em-casa-fragmentos-serie-documental-musicada/"><span style="font-weight: 400;">série documental</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://www.youtube.com/playlist?list=PLR4rrOEEvQHtvdw9twbR40GDkFm4t0mZt"><span style="font-weight: 400;">oito episódios</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicada no </span><i><span style="font-weight: 400;">YouTube</span></i><span style="font-weight: 400;">. Havia muita história para ser contada, e não é de se surpreender que a banda, que jamais poderia ser reduzida a um nicho musical, chamou a atenção no mundo inteiro. O ápice disso foi em setembro deste ano, quando eles receberam sua </span><a href="https://gshow.globo.com/RPC/noticia/banda-tuyo-comenta-sobre-indicacao-ao-grammy-latino-estamos-no-processo-de-entender-aceitar-e-comemorar.ghtml"><span style="font-weight: 400;">primeira indicação</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Grammy Latino</span></i><span style="font-weight: 400;">, pelo </span><a href="https://open.spotify.com/album/3RAsslo5W29pWGYf3lxLO1?si=GqVJy2XrTIqAwskQxO_rYQ"><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do disco, em Melhor Álbum de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pop </span></i><span style="font-weight: 400;">Contemporâneo em Língua Portuguesa.</span></p>
<figure id="attachment_24766" aria-describedby="caption-attachment-24766" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24766" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6.jpg" alt="Texto alternativo: Imagem de divulgação do Volume 1 do álbum “Chegamos Sozinhos em Casa”, da banda Tuyo. Nela, vemos três pessoas presentes em uma sala fechada, iluminada por uma luz difusa, com vários quadros pela parede e um grande sofá azul no centro. Os três olham para a câmera, sérios. Primeiro, à esquerda, está Jean. Um homem negro, de barba por fazer, com cabelos crespos, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, tingidos em loiro. Ele usa brincos prateados nas orelhas, veste uma jaqueta azul-escuro, uma calça azul-escuro e, nos pés, meias brancas de cano longo e um tênis branco. Ele senta na ponta esquerda do sofá, com as pernas cruzadas e as mãos sobre a coxa. Também sentada no sofá, à direita, está Lio. Uma mulher negra, com cabelos escuros trançados em longas box-braids com mechas da cor bege. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em um botão fechado. Nos pés, ela veste tênis brancos, e apoia seus braços no sofá, o esquerdo no encosto, e o direito no meio do móvel. Por fim, no meio deles, posicionada atrás do sofá, está Lay. Uma mulher negra, com cabelos raspados tingidos em roxo. Ela veste um blazer azul-escuro, preso em sua cintura por um laço da mesma cor. Ela também usa um top azul-escuro no dorso, e apoia os dois braços sobre o sofá." width="2560" height="1444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-800x451.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1024x578.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-768x433.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1536x866.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-2048x1155.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-6-1200x677.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24766" class="wp-caption-text">Além disso, a Tuyo também angariou uma indicação no Prêmio Multishow 2021 pela música Sonho da Lay, na categoria Canção do Ano, acurada pelo Superjúri do evento (Foto: Juh Almeida)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3J9Ua_FU73Y"><span style="font-weight: 400;">Performances</span></a><span style="font-weight: 400;"> em eventos estrangeiros, reconhecimento em </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/03/22/arts/music/sxsw-music-festival.html"><span style="font-weight: 400;">grandes veículos</span></a><span style="font-weight: 400;"> da imprensa internacional, indicações em </span><a href="https://portalpopline.com.br/premio-multishow-confira-a-lista-completa-de-indicados/"><span style="font-weight: 400;">premiações enormes</span></a><span style="font-weight: 400;">; Tuyo já é </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;">, furou a bolha da cena independente, e agora passa a ocupar espaços que não poderia alcançar antes. Porém, ao mesmo tempo que se </span><a href="https://www.instagram.com/p/CUYkyqFLQl3/?utm_medium=copy_link"><span style="font-weight: 400;">permitem celebrar</span></a><span style="font-weight: 400;"> tais conquistas, elas não são fáceis de lidar para os membros da banda. </span><i><span style="font-weight: 400;">“[Eu tenho a impressão que] nenhum de nós, nem os nossos iguais, foram autorizados por alguém”</span></i><span style="font-weight: 400;">, diz Lio, no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">primeiro episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> da série </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Parece que tinha uma parte da cerca que estava aberta, e a gente começou a passar”</span></i><span style="font-weight: 400;">. E isso torna-se evidente quando, por exemplo, percebe-se que, na categoria em que foram indicados no </span><i><span style="font-weight: 400;">Latin Grammy Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, Lio, Lay e Machado são os únicos artistas pretos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Devido a isso, o álbum passa, em várias ocasiões, por um lugar de questionamento e hesitação, do receio que dele surge, na necessidade de confrontar um trajeto ainda inaugural e o seu destino final. Neste caso, trata-se da individualidade, do olhar para dentro, que, para a Tuyo, também é uma vivência muito nova. Usufruir da solidão e do prazer de estar só é um privilégio e uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YCF3f81pDIE"><span style="font-weight: 400;">condição elitizada</span></a><span style="font-weight: 400;">. Afinal, para quem precisa constantemente se preocupar em sobreviver, pouco espaço sobra para pensar sobre o que isso significa. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i> <span style="font-weight: 400;">reflete sobre o momento em que, após muita construção, essa experiência passa a atravessá-los, e como ela os afeta, eles vindo de onde vieram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso, portanto, que um projeto que comenta tanto sobre um processo individual e particular também seja o primeiro que a banda </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">compõe em conjunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, em um espaço compartilhado, ao invés de seus discos anteriores, em que as faixas nasciam a partir de construções mais individualizadas. O resultado disso é um processo que nasce de fora para dentro. Uma </span><a href="https://harpersbazaar.uol.com.br/cultura/trio-curitibano-tuyo-lanca-album-chegamos-sozinhos-em-casa/"><span style="font-weight: 400;">produção coletiva</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas que, por fim, se reduz a um estudo íntimo e um mergulho nas singularidades de cada uma das partes que compõem o que conhecemos como Tuyo. Cria-se um processo de desvencilhamento, para que, finalmente, eles possam se reencontrar em seu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=769s"><span style="font-weight: 400;">estado cru e pleno</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="Tuyo - Abismo (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/TI522R3g99I?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Posto isso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna uma ferramenta de enriquecimento desse processo. A série documental apresenta diferentes interpretações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">. Primeiro, sobre o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">conceito geral</span></a><span style="font-weight: 400;"> do disco e, mais tarde, sobre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7fKkAezFMEs"><span style="font-weight: 400;">canções específicas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Contudo, de jeito algum eles pretendem explicar sua obra e </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-babadook-critica/"><span style="font-weight: 400;">restringi-la</span></a><span style="font-weight: 400;"> a apenas uma leitura. Pelo contrário, os três constroem identidades únicas, separadas uns dos outros, e trazem suas perspectivas individuais sobre o trabalho, que se chocam e entram em divergência o tempo todo. E eles estão cientes disso. Não só cientes, como também prezam por essa dissonância. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Tá tudo dito lá, dentro do disco. Mas às vezes as pessoas querem entender os desdobramentos das metáforas, porque hoje parece que não basta a metáfora. Ou talvez ela nunca tenha bastado.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">– Lio</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso se comprova na </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando, apesar de partirem de uma composição coletiva, várias músicas irão focar em vivências e relatos próprios de cada um dos integrantes. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Pg3k_F5m7nA"><i><span style="font-weight: 400;">Vitória Vila Velha</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> trata sobre a cidade natal de Machado e a saudades que ele guarda daquelas memórias, e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ObSzUlXaO5s"><i><span style="font-weight: 400;">O Que Você Diria Agora</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> comenta </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t2UNySZwWNM"><span style="font-weight: 400;">o ressentimento e a raiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ele construiu pelo pai. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=aISS_jZXPSs"><i><span style="font-weight: 400;">Pronta Pra Cair</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qsGuJc_kMRM"><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> versam sobre a autoestima da Lay, e como isso reverbera em sua </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=05TLKf0O3LE"><span style="font-weight: 400;">autoimagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, ganhando camadas ainda mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0"><span style="font-weight: 400;">profundas e multiformes</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">. Enquanto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ITAgOK4Fnz0"><i><span style="font-weight: 400;">O Jeito É Ir Embora</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WtNgq-2mNnc"><i><span style="font-weight: 400;">Tem Dias</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> abordam experiências muito pessoais de Lio sobre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7fKkAezFMEs"><span style="font-weight: 400;">amor e desvencilhamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, em suas mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YCF3f81pDIE"><span style="font-weight: 400;">variadas formas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24767" aria-describedby="caption-attachment-24767" style="width: 1078px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24767" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5.jpg" alt="Texto alternativo: Capa do primeiro episódio da série documental “Chegamos Sozinhos em Casa - Fragmentos”, da banda Tuyo. Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos três pessoas em pé, atrás de um carro azul. As três olham seriamente para a câmera. Primeiro, do lado esquerdo, está Lio. Uma mulher negra, de cabelos crespos volumosos da cor preta. Ela veste um grande vestido azul-escuro de mangas longas, que se estende até seus pés, e que se divide no meio em botões fechados. Ela se apoia no capô do carro pelo cotovelo direito. Do lado dela, no centro, está Jean. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos crespos da cor preta, raspados nas laterais e com um grande volume no topo, que se divide em dois. Ele veste um sobretudo azul escuro, uma camiseta branca e uma calça azul-escuro. Além disso, ele também usa um brinco prateado na orelha direita. Por fim, do lado direito, está Lay. Uma mulher negra, de cabelos crespos raspados e tingidos em loiro. Ela veste uma espécie de quimono azul-escuro, com grandes ombreiras nos braços, e com uma saia que se estende apenas até as coxas. Além disso, ela também veste meias de cano longo brancas e se apoia no capô do carro com sua mão direita. O fundo é o de uma floresta com várias árvores, e o cenário é dia." width="1078" height="765" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5.jpg 1078w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-800x568.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-1024x727.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-5-768x545.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24767" class="wp-caption-text">As canções em que Machado canta continuam marcando presença, mais memoráveis do que nunca, incluindo a faixa-título do projeto, o ápice emocional do final do disco (Foto: Vitor Augusto/Petrobras Cultural)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhamos o trajeto emocional de Tuyo. Porém, o que encontra-se no final dessa estrada? Eles chegam aonde? Para quem foi definido a vida inteira por uma falta de identidade, pelo não-pertencimento, esse lugar não existe. A alternativa, nesse caso, é munir-se dessa designação, ressignificá-la e torná-la tangível. Aqui, Tuyo transforma o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-20-anos/"><span style="font-weight: 400;">não-lugar</span></a><span style="font-weight: 400;"> em conceito, e se apropria dele como uma identidade totalmente nova. Se lhes foi negado o direito de pertencimento, o que restou a eles foi pavimentar essa estrada </span><a href="https://personaunesp.com.br/dolores-dala-guardiao-do-alivio-critica/"><span style="font-weight: 400;">do zero</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um exemplo é </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/Musica/noticia/2021/09/tuyo-acompanhe-o-making-e-relato-exclusivo-do-visual-album-chegamos-sozinhos-em-casa-fragmentos.html"><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que está na limiar de inúmeros gêneros do audiovisual. É documentário? É drama? É performance ao vivo? A série não se preocupa em definir isso, e a direção de </span><a href="https://laisdantas.46graus.com/"><span style="font-weight: 400;">Laís Dantas</span></a><span style="font-weight: 400;"> brinca o tempo todo com os formatos que dispõe. Ora ela irá usar uma proporção de câmera cinematográfica, com planos longos e contemplativos, ora ela irá explorar uma estética nostálgica de </span><i><span style="font-weight: 400;">videotapes</span></i><span style="font-weight: 400;"> noventistas, com as imagens de bastidores. Não há limites criativos para a produção, o que torna assistí-la uma experiência envolvente e nunca monótona.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para isso, a banda procura no passado as inspirações e influências que os moldaram no passado, a fim de compreender o presente e vislumbrar o futuro. Toda a discografia do projeto é uma amálgama das referências que formaram a sonoridade do que é hoje sua música. A Tuyo nunca se limitou pelas restrições de um gênero musical específico. Seja </span><i><span style="font-weight: 400;">folk</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">hip-hop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">indie</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou MPB, eles sempre souberam bem como apanhar os melhores elementos de cada estilo e transformá-los em um som novo, mais próximo de como se </span><a href="https://noize.com.br/entrevista-conheca-o-afrofolk-futurista-da-tuyo/"><span style="font-weight: 400;">enxergam</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do que almejam comunicar </span><a href="https://noize.com.br/entrevista-conheca-o-afrofolk-futurista-da-tuyo/"><span style="font-weight: 400;">artisticamente</span></a><span style="font-weight: 400;">. Então, misturando </span><i><span style="font-weight: 400;">beats</span></i><span style="font-weight: 400;"> com instrumentos acústicos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> extrapola esse experimento estético como nunca antes.</span></p>
<figure id="attachment_24768" aria-describedby="caption-attachment-24768" style="width: 2500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24768" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3.jpg" alt="Imagem de bastidores da produção da série documental “Chegamos Sozinhos em Casa - Fragmentos”, da banda Tuyo. Nela, vemos um grupo de cinco pessoas dentro do sótão de madeira no andar de cima de um casarão, durante o dia. Eles se reúnem sentados no chão em roda, com diversos fios e equipamentos musicais no centro. Primeiro, no centro, está Jean. Um homem negro, de cabelos crespos escuros, com as laterais raspadas e volumoso no topo, que veste uma camisa branca. Ele está de costas para a câmera, de maneira que não podemos ver seu rosto, e segura um baixo em mãos. Todos os outros ao seu redor estão virados para a câmera, e riem enquanto olham para ele. Primeiramente, à esquerda da roda, vemos Lucas Romero. Um homem branco, de barba feita, com cabelos curtos tingidos de louro, que veste um suéter azul e uma calça branca. Ele veste óculos de armação redonda no rosto, fones de cabeça nos ouvidos e tem os joelhos apoiados no chão. Depois, seguindo o sentido horário, está Lay. Uma mulher negra de cabelos crespos escuros e raspados. Ela usa dois grandes brincos nas orelhas e um forte batom vermelho nos lábios, vestindo também uma regata branca e uma calça azul-escura. Ela senta no chão, com as duas mãos fechadas e coladas sobre suas coxas. Ao lado dela, também está Lio. Uma mulher negra, com cabelos escuros trançados sobre a raíz de seu couro cabeludo. Ela veste um top branco e um grande saia azul-escura, e se senta sobre o chão, enquanto coloca sua mão esquerda sobre a orelha. E, por fim, ao lado de Lio e Jean, fechando a roda, está Luís Fernando Diogo. Um homem negro, de barba cheia, com cabelos escuros trançados em longos dreads, presos em um coque no topo de sua cabeça. Ele usa fones de cabeça nos ouvidos, vestindo uma blusa branca e calça branca." width="2500" height="1667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3.jpg 2500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-2048x1366.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-4-3-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24768" class="wp-caption-text">“A ideia da série foi muito pautada nessa questão do espetáculo, de como é que a gente consegue replicar, de alguma forma, um pouco do que sentimos quando tá ao vivo”, diz Lio, a respeito de Chegamos Sozinhos em Casa &#8211; Fragmentos (Foto: Vitor Augusto/Petrobras Cultural)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em diversos momentos, parece haver um exercício ativo da banda de sair da sua zona de conforto. É o caso de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TbOco3aDRj8"><i><span style="font-weight: 400;">Sonho da Lay</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">singles</span></i><span style="font-weight: 400;"> de divulgação do </span><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i><span style="font-weight: 400;">. Trata-se de uma viagem cinematográfica entre os devaneios emergidos na mente de Lay, refletindo sua inquietude e vontade de desaparecer. A estrutura da faixa é de uma legítima música eletrônica, com uma construção de ambiente minuciosa no verso, para então elevar-se à uma grande catarse instrumental. É uma faixa marcante, com uma identidade própria, totalmente diferente de tudo que a Tuyo já fez, mas que ainda carrega em si a essência do trio. Já entre as referências que citam </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">terem sido</span></a><span style="font-weight: 400;"> cruciais para a concepção do disco, estão </span><a href="https://extra.globo.com/famosos/legado-marilia-mendonca-deixa-mais-de-300-musicas-projetos-serem-lancados-inspiracao-para-nova-leva-do-feminejo-25274714.html"><span style="font-weight: 400;">Marília Mendonça</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/kamasi-washington-e-rara-celebridade-no-jazz-e-refuta-a-ideia-de-crise-do-genero.shtml"><span style="font-weight: 400;">Kamasi</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NB3gWkhLkxM"><span style="font-weight: 400;">The Internet</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.omelete.com.br/linkin-park/como-hybrid-theory-mudou-apos-a-morte-de-chester-bennington"><span style="font-weight: 400;">Linkin Park</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wRwId2RfmfA"><span style="font-weight: 400;">Kirk Franklin</span></a><span style="font-weight: 400;"> e outros artistas que, à primeira vista, jamais poderiam ser fundidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, essas inspirações ultrapassam o plano das ideias e se manifestam nas colaborações vocais, que não eram do feitio da banda em projetos </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Desde os versos melodiosos e envolventes de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WISpREAkEO0"><span style="font-weight: 400;">Luccas Carlos</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2014/03/16/interna_diversao_arte,417672/cantor-lenine-conta-ao-correio-em-entrevista-detalhes-sobre-a-vida.shtml"><span style="font-weight: 400;">Lenine</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://todosnegrosdomundo.com.br/drik-barbosa/"><span style="font-weight: 400;">Drik Barbosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, os </span><i><span style="font-weight: 400;">backing vocals</span></i><span style="font-weight: 400;"> leves, mas poderosos de </span><a href="https://culturadoria.com.br/jaloo/"><span style="font-weight: 400;">Jaloo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/sua-alegria-foi-cancelada-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lucas Silveira</span></a><span style="font-weight: 400;"> – que também é creditado na </span><a href="https://revistabalaclava.com/lucas-silveira-feliz-divas-pop/"><span style="font-weight: 400;">produção</span></a><span style="font-weight: 400;"> do projeto –, e as rimas fortes e contundentes da lenda </span><a href="https://www.bocadaforte.com.br/materias/entrevistas/kamau-respeitar-e-meu-compromisso"><span style="font-weight: 400;">Kamau</span></a><span style="font-weight: 400;">, até os arranjos únicos que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0SJ76fOXaPg"><span style="font-weight: 400;">RDD</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/quem-e-jonathan-ferr-o-pianista-de-madureira-que-quer-tirar-o-elitismo-do-jazz.shtml"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Ferr</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Shuna (da </span><a href="https://veja.abril.com.br/blog/veja-gente/na-rua-voce-precisa-conquistar-seu-espaco-diz-dupla-youn/"><span style="font-weight: 400;">Yoùn</span></a><span style="font-weight: 400;">) oferecem, nas respectivas faixas que assinam. Todos são pessoas </span><a href="https://www.instagram.com/p/CPHUgTPLu9U/"><span style="font-weight: 400;">abertamente presentes</span></a><span style="font-weight: 400;"> na vida dos três integrantes, e os auxiliam a pincelar as arestas de sua Música.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - Sonho da Lay feat. Luccas Carlos (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/TbOco3aDRj8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Tuyo também olha para o passado de maneira mais prática. </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> versa sobre os trabalhos passados da banda, reinterpretando sua mensagem. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dPqKsoTUKkU"><i><span style="font-weight: 400;">Pra Curar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o exemplo mais explícito, recebe o nome do </span><a href="https://open.spotify.com/album/3HjKk0aYQYuMFWDBS40amc"><span style="font-weight: 400;">primeiro disco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de estúdio do trio. Porém, ao contrário do que se imaginaria, a música se coloca quase como uma sátira de seu antecessor. Se o álbum de 2018 procura encontrar esperança em um ambiente de dor, compreendendo que o caminho para alcançar a cura não é fácil, a canção de 2021 se posiciona em um </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-09/pfizer-pesquisa-revela-impacto-da-pandemia-na-saude-mental-de-jovens"><span style="font-weight: 400;">contexto catastrófico</span></a><span style="font-weight: 400;">, de completa desilusão, e abraça essa angústia. O refrão, que repete o mantra </span><i><span style="font-weight: 400;">“nenhuma dor é pra curar”</span></i><span style="font-weight: 400;">, atesta o que Lio afirmou para a </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/tuyo-propoe-novos-dialogos-e-desdobramentos-em-chegamos-sozinhos-em-casa-e-um-experimento-de-popularizacao-da-nossa-linguagem-entrevista/"><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stone</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, logo depois do lançamento do primeiro volume: </span><i><span style="font-weight: 400;">“às vezes tem processo que dói e só dói, é dor pela dor mesmo”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O movimento de revisitação proposto aqui passa, igualmente, por um território metalinguístico. Em todo episódio de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">, a banda apresenta um </span><i><span style="font-weight: 400;">setlist</span></i><span style="font-weight: 400;"> diferente das músicas do disco, reinterpretadas e rearranjadas. O </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CG4eTP7l6T0"><span style="font-weight: 400;">primeiro episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> chega com os dois pés na porta, entregando uma versão refrescante das principais faixas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">, em uma estética escancaradamente </span><a href="https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/afrofuturismo"><span style="font-weight: 400;">afrofuturista</span></a><span style="font-weight: 400;">, bebendo do </span><i><span style="font-weight: 400;">house</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">dance hall </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">EDM</span></i><span style="font-weight: 400;"> no melhor estilo </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/grammy-2021-conheca-kaytranada-dj-indicado-na-categoria-artista-revelacao/"><span style="font-weight: 400;">KAYTRANADA</span></a><span style="font-weight: 400;">. Outros episódios também retomam momentos anteriores da carreira da Tuyo, como no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t2UNySZwWNM"><span style="font-weight: 400;">sétimo</span></a><span style="font-weight: 400;">, quando eles performam as canções inolvidáveis da </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/acordes-locais/simonami-e-a-dor-de-uma-cancao-307sx88uiwl0tqwg19sj5aq1a/"><span style="font-weight: 400;">Simonami</span></a><span style="font-weight: 400;">, projeto musical anterior que Lay, Lio e Machado fizeram parte, ou no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0"><span style="font-weight: 400;">sexto</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que o trio interpreta </span><i><span style="font-weight: 400;">remixes</span></i><span style="font-weight: 400;"> de algumas de suas músicas, dando outra cara a elas e uma autenticidade ímpar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Compreender o lançamento dividido em dois volumes também é fundamental para assimilar o que aspira o projeto. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O primeiro volume está condensando uma demarcação bastante territorial. A gente abre o disco falando de memória, de origem, com ‘Vitória Vila Velha’, cidade natal do Machado. E, seguimos falando sobre retornos, partidas, chegadas, reencontros… o segundo volume concentra um outro aspecto menos pragmático desses ritos contemporâneos”</span></i><span style="font-weight: 400;">, comenta a banda, </span><a href="https://br.nacaodamusica.com/posts/entrevista-tuyo-chegamos-sozinhos-em-casa/"><span style="font-weight: 400;">em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o </span><i><span style="font-weight: 400;">site Nação da Música</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que ambos os volumes se oponham e inclusive se contentem sozinhos, quando se unem, alcançam a proporção exata que esse trabalho pedia.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - O Jeito É Ir Embora (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ITAgOK4Fnz0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Visto isso, em questão de temática, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é repleto de contrastes. O exemplar mais forte musicalmente são as duas colaborações de Jonathan Ferr no álbum. Ambas finalizam os dois volumes e são essencialmente instrumentais. Ao passo que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=oBo4kD4VSnQ"><i><span style="font-weight: 400;">Toda Vez Que Eu Chego Em Casa</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é de longe a mais longa da </span><i><span style="font-weight: 400;">tracklist</span></i><span style="font-weight: 400;">, introduzindo pacientemente cada um de seus elementos e transmitindo uma energia lúdica e doce, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=etGHkE3Ykqg"><i><span style="font-weight: 400;">Pouco Espaço</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> exala uma sensação constante de claustrofobia. Ela é frenética, urgente, e grita uma necessidade de se libertar, ainda que essas amarras não tenham uma definição clara.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa oposição também se manifesta em nível emocional. Ao relatar seu processo agridoce de amadurecimento, a Tuyo não tem medo de expor essas emoções da maneira mais sincera e verdadeira possível, seja em suas boas ou más fases. Se </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WtNgq-2mNnc"><i><span style="font-weight: 400;">Tem Dias</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RGB5uHXaF-s"><i><span style="font-weight: 400;">Do Lado de Dentro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> compreendem uma perspectiva mais positiva, reafirmando o amor e o autoamor, e entendendo como tal amor molda nossa percepção do outro, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TI522R3g99I"><i><span style="font-weight: 400;">Abismo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – faixa extra da versão </span><i><span style="font-weight: 400;">Deluxe</span></i><span style="font-weight: 400;"> –, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g7TCfhVX_bQ"><i><span style="font-weight: 400;">Fracasso</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=H4LdeC5kbYg"><i><span style="font-weight: 400;">Hoje Eu Quero Chorar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> aceitam a melancolia, se fundem à dor e a assumem como parte de si. O projeto nunca confina esses pontos de vista em ideias superficiais de bem e mal, apenas os entende como sentimentos complexos e parte de um processo que muitas vezes vai muito além da nossa compreensão.</span></p>
<figure id="attachment_24769" aria-describedby="caption-attachment-24769" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5.jpeg" alt="Imagem retirada do videoclipe da música “O Jeito É Ir Embora”, da banda Tuyo. Fotografia retangular e preto e branco. Nela, vemos três pessoas rodeando um carro rústico, enquanto olham sérios para a câmera. Primeiro, apoiando seu braço sobre o capô, está Lio. Uma mulher negra, com cabelos trançados em longas box braids escuras, vestindo um largo macacão e saltos brancos nos pés. Ao seu lado, apoiando um dos braços sobre a porta aberta do carro e o outro sobre o teto, está Lay. Uma mulher negra, com cabelos curtos tingidos de uma cor clara, vestindo uma camisa de botões com manga curta, uma calça escura e tênis brancos. Por fim, ao lado dela, agachado sobre suas pernas, está Jean. Um homem negro, de barba cheia e cabelos crespos escuros, raspados nas laterais, e com um grande volume no topo, divido ao meio. Ele tem brincos de argola nas orelhas e veste uma camisa branca, uma bermuda clara e tênis brancos nos pés. Além disso, ele ainda usa um moletom escuro preso no seu torso pelas mangas longas, cruzando do seu torso até seu ombro. O cenário é uma rua arborizada, com muros pichados e árvores crescendo sobre o chão de concreto." width="2560" height="1753" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-800x548.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1024x701.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-768x526.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1536x1052.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-2048x1402.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-5-1200x822.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24769" class="wp-caption-text">Diferente do que se esperaria de uma colaboração com Lenine, Fracasso é um R&amp;B denso com retoques de trap, evidenciando também o interesse da banda em tirar seus colaboradores de sua zona de conforto (Foto: Felipe Mazzucatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste nasce não só na ambiguidade do sentir, mas também na necessidade de se diferenciar do outro. Lio aborda isso mais assertivamente no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc"><span style="font-weight: 400;">quarto episódio</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Parece que, não importa o que a gente tava escrevendo, a gente tava falando sobre isso. Sobre a vontade de desenhar na gente um contraste entre nós e o que acontecia ao nosso redor”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">O apogeu disso é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qsGuJc_kMRM"><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, provavelmente a peça de maior impacto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;">. O ‘turvo’ do título parece se referir ao momento em que você cria uma dependência tão grande sobre quem te rodeia, que o limite entre o ‘ego’ e o ‘outro’ se confunde, ao ponto de que encontrar o ‘eu’ ali torna-se quase inconcebível. Dessa forma, a faixa – e todo o álbum, em certa medida – retrata o desespero para, nesse cenário, se localizar em si e encontrar autossuficiência.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre várias coisas, e delimitar seus significados é uma tarefa impossível. A própria Tuyo não conseguiu, ainda menos uma crítica como essa. Contudo, no fim das contas, esse é o atestado da grandiosidade do projeto. O trabalho que a banda construiu é mutável, se molda ao prisma de quem ouve e se imortaliza no coração de quem o sente. E isso também afeta a percepção de quem deu vida à obra. </span><i><span style="font-weight: 400;">Fragmentos</span></i><span style="font-weight: 400;"> narra várias situações em que algum dos três membros tiveram uma epifania sobre o sentido íntimo de uma canção, geralmente despertado por um elemento externo. É o caso de Lay com </span><i><span style="font-weight: 400;">Turvo</span></i><span style="font-weight: 400;">, quando </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JEzySdBB7G0&amp;t=545s"><span style="font-weight: 400;">uma amiga</span></a><span style="font-weight: 400;"> traz à tona a questão da </span><a href="https://claudia.abril.com.br/sua-vida/a-mulher-negra-nao-e-vista-como-um-sujeito-para-ser-amado/"><span style="font-weight: 400;">solidão da mulher negra</span></a><span style="font-weight: 400;">, alterando completamente a ótica com que ela enxergava a música. E, agora, com essa perspectiva sendo exposta em tela, alterando a nossa também.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tuyo - Sem Mentir (Videoclipe Oficial)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/4-ZfX3PvnVM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Um tópico que sempre foi </span><a href="https://br.nacaodamusica.com/posts/tuyo-sonho-da-lay-luccas-carlos/"><span style="font-weight: 400;">reforçado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela banda, desde o anúncio do </span><i><span style="font-weight: 400;">Volume 1</span></i><span style="font-weight: 400;">, foi a busca por democratizar a sua linguagem e expressão artística. De tornar acessível temáticas densas e difíceis, sem que elas percam sua dimensão e profundidade. E pode-se dizer que, nesse projeto, ela a alcançou. Desta vez, eles partem de uma premissa resoluta – discutir crise de identidade, e o amadurecimento que vêm com a fase adulta – ao mesmo tempo que é hermética e tridimensional. Não abandona seus floreios e lírica poética, mas sempre trata seus temas com firmeza e ternura. A Tuyo já </span><a href="https://gq.globo.com/Cultura/noticia/2019/08/conheca-tuyo-banda-curitibana-que-traduz-em-musica-um-manifesto-afrofuturista-pop.html"><span style="font-weight: 400;">conquistou o coração</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos ouvidos que passou, e sua mensagem se expandirá cada vez mais e mais, com a validação de uma </span><a href="https://www.terra.com.br/diversao/musica/grammy-latino-expoe-antigos-dilemas-culturais-entre-brasil-e-seus-vizinhos,3d7ae725e9ce1ae79dfb8891995d8406fkqtg21l.html"><span style="font-weight: 400;">premiação internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> – já conhecida pelo </span><a href="https://tracklist.com.br/racismo-xenofobia-grammy/93117"><span style="font-weight: 400;">histórico problemático</span></a><span style="font-weight: 400;"> de suas decisões – ou não.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De todo modo, pode-se dizer que </span><i><span style="font-weight: 400;">Chegamos Sozinhos em Casa</span></i><span style="font-weight: 400;"> procura beleza na solidão. Entende que amadurecer implica que certos laços sejam desatados, para que espaços novos sejam abertos. Que é necessária a construção de um espaço particular, para que possamos nos entender como indivíduo único, dotado de autoestima, que se ama e que se basta. Mas também compreende a importância de quem nos acompanha para que esse processo de autoconhecimento ocorra – de quem segura nossas pontas até que possamos levantar voo sozinhos. Para a construção de um </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2021/06/01/interna_cultura,1272172/banda-tuyo-transforma-as-dificuldades-de-convivencia-em-disco.shtml"><span style="font-weight: 400;">vínculo saudável</span></a><span style="font-weight: 400;">, distinguir-se do outro é primordial, pois é apenas se encontrando que podemos encontrar a quem nos cerca. E é assim que Lio </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=K8yJ8710OGc&amp;t=748s"><span style="font-weight: 400;">parafraseia</span></a><span style="font-weight: 400;"> Machado, na frase que sintetiza o núcleo emocional do disco: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu acredito que a casa onde a gente chegou foi um no outro”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>AmarElo: tudo o que ‘nóis’ tem é ‘nóis’</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2021 16:31:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gomes Santana O recente documentário AmarElo &#8211; É Tudo Pra Ontem foi aclamado quase por unanimidade. A produção original da Netflix exibe o evento de estreia do mais recente álbum do rapper Emicida, AmarElo. O artista reúne todas as pessoas que, durante muito tempo, não tiveram a oportunidade de sequer pisar no Theatro Municipal, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/amarelo-emicida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "AmarElo: tudo o que ‘nóis’ tem é ‘nóis’"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_18423" aria-describedby="caption-attachment-18423" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18423" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/amarelo-emicida-netflix-e1607441009328.jpg" alt="Parte do pôster do documentário AmarElo - É Tudo Pra Ontem. A imagem exibe o rosto de Emicida de perfil, virado para o lado esquerdo da imagem. O artista é negro e tem cabelos cacheados soltos, mas curtos. Emicida também usa um óculos de grau redondo e fino e uma blusa, mas é fotografado apenas do ombro para cima. Atrás dele, existe um fundo cinza e no meio um coração amarelo iluminado gigante. A foto está em tons preto e cinza e somente o coração amarelo ilumina e colore a imagem." width="1200" height="858" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/amarelo-emicida-netflix-e1607441009328.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/amarelo-emicida-netflix-e1607441009328-300x215.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/amarelo-emicida-netflix-e1607441009328-1024x732.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/amarelo-emicida-netflix-e1607441009328-768x549.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18423" class="wp-caption-text">O documentário AmarElo &#8211; É Tudo Pra Ontem estreou no catálogo da Netflix no dia 8 de dezembro de 2020 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gomes Santana</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O recente documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo &#8211; É Tudo Pra Ontem </span></i><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/jornal-ingles-guardian-enaltece-emicida-rapper-com-missao-de-resgatar-historia-negra-do-brasil/"><span style="font-weight: 400;">foi aclamado</span></a><span style="font-weight: 400;"> quase por unanimidade. A produção original da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix </span></i><span style="font-weight: 400;">exibe o evento de estreia do mais recente álbum do </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper </span></i><span style="font-weight: 400;">Emicida, </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;">. O artista reúne todas as pessoas que, durante muito tempo, não tiveram a oportunidade de </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/amarelo-10-motivos-para-assistir-o-documentario-do-emicida-na-netflix/"><span style="font-weight: 400;">sequer pisar no Theatro Municipal</span></a><span style="font-weight: 400;">, principal símbolo da cultura erudita do país. Emicida nos revela o porquê de suas letras, mensagens, parcerias e missões. Mais do que isso, o show traz um profundo sentimento de esperança aos seus espectadores. Ao mesmo tempo que evidencia os diferentes males que assolam nosso país, também constrói um forte apelo à esperança de tentar mudar esse cenário. </span></p>
<p><span id="more-18422"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Divida em três atos (</span><i><span style="font-weight: 400;">Plantar, Regar e Colher</span></i><span style="font-weight: 400;">), a obra de Emicida junto à direção de Fred Ouro Preto consegue instigar a atenção do espectador para um lindo processo de reflexão análogo à germinação das plantas e árvores. Como se tudo o que produzimos atualmente fossem frutos colhidos das raízes do passado. Neste texto, eu procuro elucidar algumas reflexões de cada faixa do disco, de acordo com as explicações fornecidas pelo autor ao longo do documentário. Em seu amplo processo de composição e pesquisa, Emicida elaborou didaticamente o porquê de cada canção pertencer a uma simbiose perfeita do enredo que é narrado. Me acompanha nessa viagem?</span></p>
<p><strong> <i>“Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”</i>.</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para os </span><a href="https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/ER/article/view/6100"><span style="font-weight: 400;">iorubás</span></a> <span style="font-weight: 400;">antigos, nada é recente. Tudo faz parte de um motivo maior e por isso, podemos aprender com o passado. O modo como lidamos com o presente é o que realmente importa, pois apenas com ele e através dele, enxergamos o mundo à nossa volta. Isso serve para criar releituras, superar traumas e se desafiar a interpretar a vida de um jeito mais harmônico. O documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo &#8211; É Tudo Pra Ontem</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um suspiro aos desacreditados, um guia para os perdidos, um gás para aqueles que já se encontram sem fôlego. Já que o foco do artista é tratar sobre brasilidades, então este é o </span><i><span style="font-weight: 400;">hit </span></i><span style="font-weight: 400;">certo para quem tanto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YMJOmIuUwiM"><span style="font-weight: 400;">lembra dos esquecidos</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Emicida - É tudo pra ontem part. Gilberto Gil" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/qbQC60p5eZk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;">, além de ser uma ponte entre radicais que se completam, também é a cor que nos ilumina a enxergar o caráter cíclico da natureza. Mergulhado em um incrível passeio sobre a história da arte popular brasileira e o passado dos protagonistas que alavancaram a cultura nacional mas que, infelizmente, são frutos do esquecimento marcado pelo racismo estruturante em nossa sociedade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pixinguinha (precursor do samba e da música genuinamente brasileira) é uma referência artística pouco lembrada pelo cenário cultural e musical. Além disso, sua fama repercutiu internacionalmente junto com o grupo Oito Batutas, mas será que ele é pouco lembrado por conta da cor da sua pele?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mediante a contextualização de um Brasil </span><a href="http://www2.eca.usp.br/njsaoremo/?p=4427#:~:text=Durante%20mais%20de%20300%20anos,do%20negro%3A%20ele%20permaneceu%20marginalizado."><span style="font-weight: 400;">pós-abolicionista</span></a><span style="font-weight: 400;">, o filme registra as raízes que ajudaram a fortalecer o protagonismo dos movimentos negros, mesmo com condições totalmente adversas. O curioso é que, para cada figura que é retratada na obra, há uma menção, inspiração ou homenagem nas suas músicas. Este é o elemento surpresa de Emicida. Como se não bastasse a reflexão de suas letras, entendemos quais foram as inspirações pelas quais teriam sido produzidas.</span></p>
<figure id="attachment_18424" aria-describedby="caption-attachment-18424" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18424" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-1-1.png" alt="Cena do documentário Amarelo - É Tudo Pra Ontem. Na imagem, Emicida está de costas para a câmera, que fotografa o público de frente para ele. O artista está dançando, e veste um conjunto de moletom bege claro e um tênis amarelo e preto e segura um microfone em sua mão direita. Ele está em cima do palco do Theatro Municipal, sendo ovacionado pela platéia, que canta e dança junto com o artista. A sala do teatro está lotada e é iluminada em tons de vermelho." width="1200" height="750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-1-1.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-1-1-300x188.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-1-1-1024x640.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-2-1-1-768x480.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18424" class="wp-caption-text">AmarElo conseguiu lotar uma plateia de sorrisos, interagir com centenas de olhares esperançosos e apontar a luz necessária para refletir em todos os prismas presentes no Theatro Municipal, que foram celebrar a vitória do talentoso rapper Emicida (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A essência do disco orienta o filme. De início, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kjggvv0xM8Q"><i><span style="font-weight: 400;">Principia</span></i> </a><span style="font-weight: 400;">traz em sua estrutura narrativa um sonho. Nele, somos convidados a amar uns aos outros, em sintonia firmada com a sonoridade do vento. É um som etéreo e convidativo que nos remete, de imediato, a canções de ninar, as mesmas que armazenamos em nossa memória infantil e, em um piscar de olhos, são resgatadas através de uma conexão. Essa chave que liga “o eu” com “o outro” constrói um elo, e é aí que a lembrança amorosa traz a seguinte mensagem em meio a escuridão:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “tudo que nóis tem é nóis.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As duas próximas faixas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4cXOAqWOIcM"><i><span style="font-weight: 400;">A Ordem Natural das Coisas </span></i></a><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RVZCB3_011c&amp;t=8s"><i><span style="font-weight: 400;">Pequenas Alegrias da Vida Adulta</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, endossam um olhar ao poder da simplicidade presente no cotidiano. Já parou pra pensar sobre a riqueza dos detalhes? O quão difícil é ser </span><a href="http://renatalapetina.com/pequenas-alegrias-da-vida-adulta/"><span style="font-weight: 400;">adulto</span></a><span style="font-weight: 400;">? Se por um lado presenciamos diariamente o milagre do amanhecer, não há porque deixar de lado as pequenas alegrias da vida adulta. As batidas de ambas canções carregam sintonia através de ritmos do </span><i><span style="font-weight: 400;">samba-rock</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">MPB</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Qual é a verdadeira “</span><i><span style="font-weight: 400;">Ordem Natural das Coisas</span></i><span style="font-weight: 400;">”? É ter medo? Sentir-se infeliz e com ódio? Não. Emicida, diferente do estereótipo do que muitos imaginam, não quis demonstrar o seu lado revoltoso e agressivo perante as injustiças que vem ocorrendo. O que há de mais natural é sermos nós mesmos. Sermos gratos pela vida, pela natureza e principalmente por termos o privilégio de nos conectarmos uns aos outros. É como o </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper</span></i><span style="font-weight: 400;"> mesmo diz: “</span><i><span style="font-weight: 400;">O maior ato de rebeldia contra o sistema é eu estar aqui sorrindo com vocês</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Emicida - Pequenas alegrias da vida adulta part. Marcos Valle" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/RVZCB3_011c?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante a maneira como o longa possui diversas transições com narrativas representadas na forma de animação. Este trabalho bem feito é de autoria de Alexandre de Maio e Felipe Macedo (direção de animações) e André Juventil (direção de arte). As ilustrações nos auxiliam a compreender a verdadeira face de quem é pouco reverenciado pelo imaginário de boa parte da população. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São ilustradas as narrativas “esquecidas”, a exemplo a do </span><a href="https://casavogue.globo.com/Arquitetura/noticia/2020/01/conheca-historia-de-tebas-o-arquiteto-escravizado-que-esculpiu-icones-de-sao-paulo.html"><span style="font-weight: 400;">arquiteto Tebas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Negro, ele foi responsável por planejar as fachadas do Convento São Bento e da Igreja São Francisco do Carmo, no período da escravatura. Além de ser símbolo de resistência, Tebas contribuiu sendo uma das principais referências no estilo arquitetônico da cidade paulistana. Como ele, diversos outros expoentes pretos puderam agir para que hoje tenhamos um cenário mais rico e representativo do povo negro.</span></p>
<figure id="attachment_18425" aria-describedby="caption-attachment-18425" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18425" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1.png" alt="Ilustração presente no documentário AmarElo - É Tudo Pra Ontem. No centro da imagem, existe uma árvore com raízes profundas em marrom escuro e folhas verdes caindo. Ao redor da árvore, preenchendo o resto da imagem, existem vários nomes de artistas e a data de nascimento dos mesmos." width="650" height="366" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1.png 512w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-3-1-300x169.png 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18425" class="wp-caption-text">A arte popular e suas raízes (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua </span><a href="https://monkeybuzz.com.br/novidades/emicida-homenageia-wilson-das-neves-atraves-da-faixa-o-sorte/"><span style="font-weight: 400;">parceria de anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Wilson das Neves, um dos maiores bateristas e instrumentistas da América Latina, Emicida reconheceu o valor de uma amizade. Ora, existe alguém mais sábio nesse quesito do que o mestre </span><a href="https://personaunesp.com.br/mais-feliz-critica/"><span style="font-weight: 400;">Zeca Pagodinho</span></a><span style="font-weight: 400;">? Uma canção feliz e exuberante: </span><i><span style="font-weight: 400;">Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo).</span></i><span style="font-weight: 400;"> A letra não somente é em homenagem a Das Neves, como também toda sua composição foi criada em cima de harmonias encontradas em suas parcerias com </span><a href="https://personaunesp.com.br/planeta-fome-critica/"><span style="font-weight: 400;">Elza Soares.</span></a></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=etRL3kv5jho"><i><span style="font-weight: 400;">Cananéia, Iguape e Ilha Comprida</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é firmada pela transição de conhecimentos entre gerações distintas. Os diálogos amorosos entre pais e filhos retomam o que há de mais singelo entre o tempo: </span><a href="http://sv2.fabricadofuturo.org.br/sitev1/fabricav4/ear_arquivos/someinteressaoquenaoemeu.pdf"><span style="font-weight: 400;">a troca com o outro</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;">, Emicida transcende as famosas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=06A1Sah3cH4"><span style="font-weight: 400;"><em>“</em>pedradas do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></a><span style="font-weight: 400;"> e em especial nesta faixa, observamos um curioso olhar ao amor, às delicadezas, nuances e, principalmente, ao belo. O </span><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i><span style="font-weight: 400;"> é ritmo e poesia, não precisa carregar estereótipos de maldade, mágoa, rancor e ódio em sua imagem. O artista rompe com essa visão, ironizando aqueles que sustentam essa visão estereotipada, através das gargalhadas de sua filha caçula logo na introdução da canção. Ao final, mensagens fofas e carinhosas transbordam a alegria de sua filha mais velha com as famosas “cartas de amor”.</span></p>
<figure id="attachment_18426" aria-describedby="caption-attachment-18426" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18426" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4.png" alt="Fotografia de Emicida e Zeca Pagodinho. Os dois artistas estão ao centro da imagem, sorrindo juntos sentados em um estúdio de gravação musical. Primeiro, mais à esquerda da imagem, está Zeca Pagodinho, que tem a pele negra clara e cabelos curtos escuros. Zeca veste uma camisa jeans de manga longa azul escura, uma calça jeans cinza escura, tênis branco, um óculos de sol redondo, relógio dourado e uma aliança de compromisso na mão esquerda. Ao lado direito de Zeca, Emicida usa uma camiseta branca com o logo de sua outra empresa, a LAB Fantasma, uma calça de moletom cinza clara, tênis branco e pulseiras no pulso esquerdo. Emicida também tem tranças no cabelo, na altura do ombro, e usa um boné cinza claro e um óculos de sol quadrado. Atrás deles, no fundo da imagem, existe um estúdio de gravação, computadores e aparelhos de som." width="650" height="728" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4.png 457w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-4-268x300.png 268w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18426" class="wp-caption-text">Talvez Emicida tenha lembrado de Zeca Pagodinho não apenas pela admiração, mas também pela autenticidade brasileira que Zeca esbanja quando trata temáticas tão puras sobre a vivência do povo humilde e trabalhador (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A linguagem sutil de um caos instaurado na </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-menino-e-o-mundo-modernidade-pelos-olhos-crianca/"><span style="font-weight: 400;">modernidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> retrata bem os primeiros versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Paisagem</span></i><span style="font-weight: 400;">. A letra trabalha com antagonismos muito marcantes entre aparência e essência do ser. Ela ainda é capaz de gerar incômodos, afinal, mesmo diante da violência, somos treinados a ignorá-la em nosso interior, um modo de sobrevivência do dia a dia. O seu horizonte revela que ódio pode corroer tudo, exceto o nosso coração, caso o mesmo esteja em paz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bSo0Jcux2R0"><i><span style="font-weight: 400;">9nha</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> por outro lado, é contada a história de um amor bandido, estilo Bonnie e Clyde. A música, que foi produzida em parceria com Drik Barbosa, trata-se de um relato apaixonante e ao mesmo tempo perverso, onde a maldade da sexualidade confunde-se com o “lado B” da vida do casal. Uma verdadeira aula de linguagem, mesclando duplos sentidos com gírias jovens que conversam com adolescentes rebeldes e apaixonados. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Ó meu bem, a gente ainda vai sair nos jornais”</span></i><span style="font-weight: 400;"> traduz a fama de jovens sonhadores que almejam ser notados. </span></p>
<figure id="attachment_18427" aria-describedby="caption-attachment-18427" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18427" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5.png" alt="Uma foto colorida mostra detentos sentados em cadeiras azuis, vestidos com uniforme laranja, estampando a seguinte frase: “Interno”. Todos eles estão de costas para a câmera e de frente para o telão que exibe o título do documentário Amarelo - É Tudo Pra Ontem. No campo de visão da foto, aparecem 4 detentos, três deles são pardos e um é branco" width="650" height="867" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5.png 384w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-5-225x300.png 225w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18427" class="wp-caption-text">A mensagem do documentário conseguiu atingir detentos do presídio de Balsas, interior do Maranhão: isso só ilustra o quanto a arte pode ser transformadora e potente sem demonstrar brutalidade e violência (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Eis que surge a nona faixa, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4pBp8hRmynI"><i><span style="font-weight: 400;">Ismália</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a mais poética de </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com a declamação do </span><a href="http://culturafm.cmais.com.br/radiometropolis/lavra/alphonsus-de-guimaraens-ismalia"><span style="font-weight: 400;">poema de Alphonsus Guimarães</span></a><span style="font-weight: 400;">, Fernanda Montenegro e Emicida incorporam uma nova versão para o texto da poesia, lançada no século XIX, para os dias atuais. A música homenageia a luta de mulheres pretas guerreiras como: Ruth de Souza, Lélia González, Leci Brandão, Ivone Lara, Marielle e tantas outras personalidades marcantes para a representatividade da luta feminista antirracista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Preconceito racial, violência policial, estereótipos raciais, ódio e empoderamento são os principais temas abordados em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_zaqRm73GCo"><i><span style="font-weight: 400;">Eminência Parda</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um trabalho conjunto de Emicida, Jé Santiago e Papillon. Nos bastidores da gravação do clipe desta música, o ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">assassino de MC’s</span></i><span style="font-weight: 400;">’ solta a seguinte frase:</span><i><span style="font-weight: 400;">  “Eu não sou o alvo do racista, eu sou o pesadelo dele”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_18428" aria-describedby="caption-attachment-18428" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18428" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6.png" alt="Uma fotografia em preto e branco mostra dois artistas consagrados do samba de raiz em um palco, tocando juntos. Ao lado esquerdo, temos Mestre Candeia sentado em uma cadeira de rodas, enquanto o mesmo segura dois microfones. À direita, Martinho da Vila, em pé, tocando um pandeiro, enquanto canta ao microfone. Ao fundo, percebemos outros instrumentos musicais e outras seis pessoas que também figuram na imagem, porém em segundo plano." width="650" height="435" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6.png 512w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-6-300x201.png 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18428" class="wp-caption-text">Impossível passear por qualquer gênero musical sem reconhecer a importância das batidas do samba no processo de identidade nacional &#8211; Mestre Candeia (esquerda) e Martinho da Vila (direita) (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Então chegamos na penúltima faixa, </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;">, que além de lidar com questões sobre auto aceitação, busca por um ideal, sonhos, fé… Trabalha com maestria sobre o enfrentamento de temáticas delicadas, através de uma mensagem amorosa. No fundo, é o remédio que todos nós precisamos nesse exato momento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ideia de produzir a canção ao lado de </span><a href="https://portalpopline.com.br/quem-e-majur-conheca-artista-nao-binario-que-brilha-no-clipe-amarelo-com-emicida-e-pabllo-vittar/"><span style="font-weight: 400;">Majur</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/nao-para-pabllo-2018/"><span style="font-weight: 400;">Pabllo Vittar</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi excepcional. Além de trazer duas grandes vozes para compartilhar talento, Emicida deu um </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">de diversidade. Até porque, não existe luta que seja separada das demais e mais uma vez, com seu lindo discurso humanista e performance fora da curva, fez questão de nos lembrar da importância da união.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Emicida - AmarElo (Sample: Belchior - Sujeito de Sorte) part. Majur e Pabllo Vittar" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/PTDgP3BDPIU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A frase do refrão</span><i><span style="font-weight: 400;"> “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”</span></i><span style="font-weight: 400;"> vem de um </span><i><span style="font-weight: 400;">sample </span></i><span style="font-weight: 400;">de Belchior (gravado há mais de 40 anos)</span> <span style="font-weight: 400;">que diz muito sobre resistência e se permitir conquistar espaços. Esse é o ideal de querer retratar diferentes lutas em seu clipe. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Você é o maior representante do seu sonho na face da terra”, “Te vejo no pódio”, “Cê vai sair dessa prisão”, “Cê vai atrás desse diploma”, “Faz isso por nóis”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste ciclo que se fecha, somos acordados com a melhor percepção de nós mesmos. Com a autoestima renovada, temos a certeza de que somos </span><i><span style="font-weight: 400;">Libre</span></i><span style="font-weight: 400;"> (a faixa que conclui o disco). Na tentativa de reconstruir o futuro, colhendo os ensinamentos dos erros passados no presente, o artista se coloca como um grande mestre. Ele reconhece a razão de suas letras, mensagens, parcerias e missões. Mais do que isso. Emicida nos desafia a entender a situação de um país profundamente racista como o de hoje, mas que ainda tem a esperança de se erguer.</span></p>
<figure id="attachment_18432" aria-describedby="caption-attachment-18432" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18432" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7.png" alt="Foto colorida mostra Lélia González, no lado esquerdo da imagem, sendo abraçada de lado por Paulinho da Viola, no lado direito. Ambos são negros e aparecem sorrindo. Paulinho está de terno preto, camisa branca e gravata preta, carregando uma medalha no paletó. Lélia está de blazer preto com uma camisa branca e amarela florida por baixo, carregando uma bolsa no ombro direito. Não é possível enxergar o fundo da foto, pois ela foi tirada em um ambiente noturno com pouca luz." width="650" height="453" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7.png 512w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Imagem-7-300x209.png 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-18432" class="wp-caption-text">Lélia González (importante feminista na luta contra o racismo e machismo estruturantes) ao lado do mestre Paulinho da Violo (um dos maiores sambistas da música brasileira) (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O desfecho do filme consegue oferecer esperança aos tempos pandêmicos que ultimamente enfrentamos. Coincidência ou não, todo o medo e desilusão já foram enfrentados mais de </span><a href="https://www.pixinguinha.org.br/perfil/oito-batutas/"><span style="font-weight: 400;">cem anos atrás</span></a><span style="font-weight: 400;"> e somente a arte foi o remédio encontrado para nos tirar deste poço sombrio. Tentaram calar </span><a href="https://medium.com/todxs/marielle-franco-presente-semente-1c3cf46db86c#:~:text=Marielle%20Franco%20era%20vereadora%20do,ter%C3%A7a%2Dfeira%2C%20dia%2012."><span style="font-weight: 400;">Marielle</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas o seu legado permanece cada vez mais forte. O último trecho do documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo &#8211; É Tudo Pra Ontem</span></i><span style="font-weight: 400;"> encerra com o seu depoimento inspirador: </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“É fundamental porque marca o século XXI que é esse momento que a gente vive de impulsionar, de fortalecer, de mais visibilidade para essas mulheres negras. Então o que a Dona Ruth começa lá atrás, é o que está florescendo hoje.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A lição que fica disso tudo está relacionada ao direito de nos permitirmos. Aprendemos um com “o outro”, mas enquanto “ele” não tiver iguais condições para poder ser livre, estaremos privados de conhecer novas cores, presos na escuridão da intolerância e do preconceito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É urgente que o  povo preto, periférico e LGBTQ+ também tenha direito à cultura. Eles não somente têm direito, como também são os responsáveis pela maioria das produções artísticas do país. No fundo, tanto o álbum quanto o documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">AmarElo</span></i><span style="font-weight: 400;"> cumprem sua missão e percebemos que devemos mudar nossas atitudes e olhares “</span><i><span style="font-weight: 400;">para que amanhã não seja só um ontem, com um novo nome”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: AmarElo" width="300" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/5cUY5chmS86cdonhoFdn8h"></iframe></p>
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