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	<title>Arquivos Don DeLillo &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Estante do Persona – Agosto de 2023</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 21:33:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Voltando a rotina depois de uma pausa merecida, os integrantes do Clube do Livro do Persona repousaram os olhares para o vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2022, O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk. Adentrado em uma narrativa que devolve o protagonismo às verdadeiras vítimas da colonização, o texto &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/estante-do-persona-agosto-de-2023/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Estante do Persona – Agosto de 2023"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<figure id="attachment_31381" aria-describedby="caption-attachment-31381" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31381" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ESTANTE_WP_2023_1-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ESTANTE_WP_2023_1-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ESTANTE_WP_2023_1-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ESTANTE_WP_2023_1.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31381" class="wp-caption-text">Apoiado em sentimentalismo, O som do rugido da onça foi a leitura escolhida para o Clube do Livro de Agosto (Foto: Companhia das Letras/ Arte: Raíra Tieng0/ Texto de abertura: Jamily Rigonatto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando a rotina depois de uma pausa merecida, os integrantes do <a href="https://personaunesp.com.br/tag/clube-do-livro/">Clube do Livro</a> do Persona repousaram os olhares para o vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2022, </span><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido da onça</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Micheliny Verunschk. Adentrado em uma narrativa que devolve o protagonismo às verdadeiras vítimas da colonização, o texto caminha através da histórias das crianças indígenas Iñe-e e Juri. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escritora e historiadora já é figurinha marcada no <a href="https://j.pucsp.br/noticia/mestre-e-doutora-pela-puc-sp-e-uma-das-vencedoras-do-premio-jabuti-2022">universo literário nacional</a>, e conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2015, com </span><i><span style="font-weight: 400;">Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Micheliny também foi duas vezes finalista do Prêmio Rio de Literatura e no último ano, com </span><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido da onça,</span></i><span style="font-weight: 400;"> representou o Brasil no Prêmio Oceanos – uma das premiações literárias mais importantes dos países de língua portuguesa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra escolhida da vez, somos levados de forma poética, mas avassaladora, a trágica história das crianças raptadas pelos exploradores Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius. Em um misto de medo, separação, saudade e vidas interrompidas, o foco se entrega completamente às faces da dor, enquanto as entrelinhas se envolvem com os mistérios da <a href="https://personaunesp.com.br/chuva-e-cantoria-na-aldeia-dos-mortos-critica/">espiritualidade</a>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura das 168 páginas se desfaz em uma densidade quase versada e resta nos que a acompanham as milhares de incertezas sobre a construção de um país que se revela tão bem na ficção quanto o faria nos pedaços ocultados pela versão dos opressores. E para não perder o costume, o</span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/estante-do-persona/"> Estante do Persona</a> de Agosto de 2022</b><span style="font-weight: 400;"> deixa suas indicações dedicadas a todos os que optam por ver o mundo entre os múltiplos pontos de vista. </span></p>
<p><span id="more-31368"></span></p>
<h3>Livro do Mês</h3>
<figure id="attachment_31377" aria-describedby="caption-attachment-31377" style="width: 534px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31377" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg" alt="" width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/81Fh2tD58L._AC_UF10001000_QL80_.jpg 667w" sizes="(max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-31377" class="wp-caption-text">O primeiro título da autora a ser publicado pela Companhia das Letras foi vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><strong>Micheliny  Verunschk &#8211; O som do rugido da onça (168 páginas) </strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha de situar </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559210213/o-som-do-rugido-da-onca-vencedor-jabuti-2022"><i><span style="font-weight: 400;">O som do rugido da onça</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> entre os cânones literários do </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/o-som-do-rugido-da-onca-fica-entre-a-fabula-e-o-realismo-fantastico.shtml"><span style="font-weight: 400;">realismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e da fábula talvez seja equivocada para dimensionar a grandiosidade de um novo parâmetro nas narrativas sobre colonialidade na Literatura brasileira. Entre tempos e entre lugares, o basilar romance de Micheliny Verunschk apresenta uma tecnologia de resistência contra a historicidade violenta de discursos indigenistas produzidos pela Ciência e pelo saber que, essencialmente, foi responsável pela retirada de pessoas de seus lugares nativos e de suas subjetividades. A alternância da narrativa de Josefa, suscitada a uma investigação de sua própria ancestralidade, e das crianças indígenas Iñe-e e Juri, raptadas por uma missão científica de naturalistas alemães, compõe um retrato sensível das violências coloniais a partir de uma prosa poética.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O compromisso de Verunschk em se ater a uma transcriação da perspectiva indígena a partir de citações de diversas origens e procedências, como um documentário sobre a construção de Belo Monte, excertos de diários e de artigos de periódicos alemães e franceses do século XIX. Para a autora, o acesso e a capacidade de constituir uma </span><a href="https://www.scielo.br/j/alea/a/bLNjPK47XLGx47nX7NBXWgj/"><span style="font-weight: 400;">fabulação crítica da História</span></a><span style="font-weight: 400;"> cria uma perspectiva única e intrincada que relaciona a visão do colonizador e as variadas cosmogonias dessas crianças como tentativa de acessar o mundo interno de suas personagens. </span></p>
<h3>Dicas do Mês</h3>
<figure id="attachment_31369" aria-describedby="caption-attachment-31369" style="width: 540px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31369" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/angela-davis-1-540x800.jpg" alt="Capa do livro Mulheres, Raça e Classe. A capa mostra, ao fundo, a silhueta do rosto de Angela Davis em vermelho e preto. Ela é uma mulher negra, aparentando cerca de 30 anos. À frente, lê-se “ANGELA” na parte superior central, ocupando boa parte da extensão da capa, em uma letra branca estilizada como se fosse escrita com giz, em caixa alta. Abaixo, ao centro da imagem, ocupando boa parte da extensão da capa, lê-se “DAVIS” na mesma fonte. Na parte inferior, lê-se “MULHERES, RAÇA E CLASSE” na mesma fonte, em caixa alta. Na parte inferior à direita, há o logotipo da editora Boitempo." width="540" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/angela-davis-1-540x800.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/angela-davis-1.jpg 675w" sizes="(max-width: 540px) 85vw, 540px" /><figcaption id="caption-attachment-31369" class="wp-caption-text">O prefácio de Djamila Ribeiro introduz a figura de Angela Davis, nos lembrando da trajetória e da importância da pensadora (Foto: Editora Boitempo)</figcaption></figure>
<p><b>Angela Davis &#8211; Mulheres, Raça e Classe (248 páginas, Boitempo Editorial)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das maiores militantes vivas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r0qCNFmIn2Q"><span style="font-weight: 400;">Angela Davis</span></a><span style="font-weight: 400;"> virou sinônimo de ativismo. Não por menos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres, Raça e Classe</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma de suas obras mais famosas, é considerada não só uma chave de entrada para a literatura da autora, mas também um livro de formação social e política. Misturando referenciais teóricos e aplicação prática, Davis parte do período da escravidão estadunidense para, ao longo de 12 capítulos, propor </span><a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/06/05/djamila-ribeiro-sobre-racismo-no-brasil-todo-mundo-sabe-que-existe-mas-ninguem-acha-que-e-racista.htm"><span style="font-weight: 400;">reflexões raciais</span></a><span style="font-weight: 400;">, de gênero e de classe e suas influências nas dinâmicas na estruturação social ao longo da história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 1981, a obra chegou ao Brasil 35 anos depois. Apesar dos esforços brasileiros de nacionalizar a literatura de uma das grandes pensadoras da contemporaneidade mais cedo, a edição da Editora Boitempo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres, Raça e Classe </span></i><span style="font-weight: 400;">não chegou em 2016 datada. Mesmo tratando de um recorte histórico que vai de quase dois séculos atrás, passando pela industrialização e ascensão do capitalismo até chegar às dinâmicas sociais da década de 1980, as reflexões de Angela Davis são fundamentais para entender a essência da sociedade a partir de sua formação e aplicá-la em </span><a href="https://www.fecomercio.com.br/noticia/raca-e-genero-na-sociedade-brasileira-por-djamila-ribeiro-e-amara-moira"><span style="font-weight: 400;">diferentes contextos e nações</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31370" aria-describedby="caption-attachment-31370" style="width: 557px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31370" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-557x800.jpg" alt="" width="557" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-557x800.jpg 557w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-713x1024.jpg 713w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-768x1103.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-1069x1536.jpg 1069w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1-1200x1724.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/flores-matinais-1.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 557px) 85vw, 557px" /><figcaption id="caption-attachment-31370" class="wp-caption-text">Com tradução de Yu Pin Feng, a edição brasileira é bilíngue, apresentando também o texto original em chinês (Foto: Editora da Unicamp)</figcaption></figure>
<p><b>Lu Xun &#8211; Flores Matinais Colhidas ao Entardecer (240 páginas, Editora da Unicamp) </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro escritor do <a href="https://www.ibrachina.com.br/livro-do-pai-do-modernismo-chines-e-lancado-no-brasil-em-edicao-bilingue/">modernismo chinês</a>, Lu Xun – considerado pai do gênero oriental – é a figura perfeita para inaugurar a parceria Brasil-China idealizada pelo Instituto Confúcio da Unicamp. </span><i><span style="font-weight: 400;">Flores Matinais Colhidas ao Entardecer </span></i><span style="font-weight: 400;">é um conjunto de 10 contos em formato de prosa que narram a infância e adolescência do autor em meio a um período de mudanças no culturalmente rico território chinês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O autor, que viveu de 1881 a 1936, passou pelo processo de transição do último império chinês, a <a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2019/10/conheca-historia-da-dinastia-qing-ultima-da-china-imperial.html">dinastia Qing</a>, e o início da República somados com uma tímida aproximação ao ocidente. Dessa forma, através do resgate de suas memórias, ele faz um balanço muito sincero e pessoal do embate entre tradição e modernidade. Lu Xun conscientemente faz de </span><i><span style="font-weight: 400;">Flores Matinais Colhidas ao Entardecer</span></i><span style="font-weight: 400;"> sua própria metonímia, em que de forma muito singela e melancólica, explica o todo de uma nação em um período singular de sua história, através de parte de sua vivência </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31371" aria-describedby="caption-attachment-31371" style="width: 433px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31371" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ponto-omega.jpg" alt="Capa do livro Ponto Ômega. A capa do livro é composta por uma fotografia retangular que mostra uma paisagem sendo vista através de uma janela de ferro, a paisagem é composta por um campo gramado com montanhas ao fundo e o céu azul." width="433" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-31371" class="wp-caption-text">Don Delillo possui uma obra extensa, em atividade desde a década de 1970, e sempre refletiu as ansiedades de seu tempo; aqui, o faz através dos diálogos, os personagens refletem sobre os traumas e as marcas deixados pela guerra. (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Don DeLillo &#8211; Ponto Ômega (104 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ponto Ômega</span></i><span style="font-weight: 400;"> de <a href="https://personaunesp.com.br/ruido-branco-critica/">Don DeLillo</a> propõe em seu prólogo e epílogo uma narrativa sensorial, na qual os personagens se encontram em uma exibição de </span><i><span style="font-weight: 400;">Psicose,</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Alfred Hitchcock, que estende a duração do filme em 24 horas completas. Ou seja, cada plano é prolongado por muito mais tempo do que normalmente dura, o que permite, a partir das imagens, uma gama de reflexões sobre o valor das expressões artísticas e sobre a consciência humana. Esse prólogo serve não como uma introdução narrativa, mas como uma introdução temática e estética ao livro, e nos mostra o que e como será abordado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo dos quatro capítulos, acompanhamos Jin Finley, um jovem cineasta que busca um intelectual de uma idade mais avançada para ser seu personagem em um <a href="https://personaunesp.com.br/category/documentario/">documentário</a> sobre a guerra no Iraque. O filme que ele deseja produzir é desprovido de qualquer aparato estético, a fim de focar nas experiências do homem que as vivenciou. A trama se constrói nas conversas entre os duas figuras e a filha do veterano de guerra, que, situados nesse ambiente desértico e isolado, enxergam um pouco de si nos outros à sua volta e encontram o ponto ômega. </span><b>&#8211; Francisco Tigre</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31372" aria-describedby="caption-attachment-31372" style="width: 347px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31372" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capitaes-da-areia-1.jpg" alt="Capa do livro Capitães da Areia. Em todo o fundo há pinceladas horizontais intercaladas de azul e amarelo. Em azul e em letras maiúsculas está o nome do autor. Abaixo o título da obra na mesma cor. Também em azul há três ilustrações de jogadores de capoeira e logo abaixo o logo da editora, na mesma cor" width="347" height="499" /><figcaption id="caption-attachment-31372" class="wp-caption-text">Esquecidos pelo sistema, os capitães da areia são obrigados a fazer de tudo para sobreviver (Foto: Companhia de Bolso)</figcaption></figure>
<p><b>Jorge Amado &#8211; Capitães da Areia (246 páginas, Companhia de Bolso)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado pela primeira vez em 1937, </span><a href="https://www.amazon.com.br/Capit%C3%A3es-areia-Jorge-Amado/dp/8535911693"><i><span style="font-weight: 400;">Capitães da Areia</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um grupo de crianças em situação de vulnerabilidade social na cidade de Salvador. A comunidade é liderada por Pedro Bala, o menino mais velho é a única figura próxima de paterna que os menores têm e ele se vê na obrigação de fazer de tudo para protegê-los e ajudá-los a sobreviver. Infelizmente, a única alternativa que encontrou para fazer isso foi guiá-los em pequenos e grandes furtos ao redor da cidade baiana. O livro mostra perfeitamente os altos e baixos de pessoas perdidas que no fundo só querem ser crianças comuns.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra faz o leitor lidar de maneira dura com a história fictícia que é a verdade de muitas crianças do país. A sociedade e o governo não se importam em dar ao grupo uma chance, fazendo com que sejam submetidos a situações traumáticas e comportamentos problemáticos sem ninguém para ampará-los. A leitura desse clássico é extremamente importante por debater questões de estupro, pedofilia e uso de drogas, assim evitando que ocorram no futuro. Apesar de ter sido lançado há décadas, </span><i><span style="font-weight: 400;">Capitães de Areia</span></i><span style="font-weight: 400;"> ainda abre portas para discussões atemporais sobre a necessidade de proteger os <a href="https://personaunesp.com.br/pixote-a-lei-do-mais-fraco-critica/">menores à deriva</a>.  </span><b>&#8211; Gabrielli Natividade</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31373" aria-describedby="caption-attachment-31373" style="width: 524px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31373" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/o-mar-sem-estrelas-1-524x800.png" alt="Capa do livro O Mar Sem Estrelas. O fundo é inteiramente pintado em um preto fosco. A parte superior da capa possui a gravura de três chaves douradas, com alguns detalhes e símbolos singulares, uma detém o desenho de um livro estampado, outra de uma abelha e a última dispõe um formato de coração. Algumas fitas em tons de cinza claro e escuro e linhas brancas pontilhadas, contornam as três chaves. Ao meio do livro está o título da obra em branco, ao lado do nome, estão ilustradas mais duas chaves douradas, uma com um símbolo de estrela e a figura da outra chave foi cortada pelo fim da capa. Na parte inferior do livro, está grafado o nome da autora em branco e também o logo da editora da obra em laranja. Além disso, outras fitas acinzentadas percorrem ao redor das escrituras." width="524" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/o-mar-sem-estrelas-1-524x800.png 524w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/o-mar-sem-estrelas-1-670x1024.png 670w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/o-mar-sem-estrelas-1-768x1174.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/o-mar-sem-estrelas-1.png 1000w" sizes="auto, (max-width: 524px) 85vw, 524px" /><figcaption id="caption-attachment-31373" class="wp-caption-text">“É um santuário para contadores de histórias e guardiões de histórias e amantes de histórias. Eles comem e dormem e sonham cercados por crônicas e memórias e mitos” (Foto: Morro Branco)</figcaption></figure>
<p><b>Erin Morgenstern &#8211; O Mar Sem Estrelas (544 páginas, Morro Branco)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.amazon.com.br/mar-sem-estrelas-Erin-Morgenstern/dp/6586015227"><i><span style="font-weight: 400;">O Mar Sem Estrelas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Zachary Ezra Rawlings sobe as escadarias revestidas por neve da universidade, até reencontrar a comodidade das prateleiras de livros da biblioteca. Antes das aulas do ano letivo começarem, Zachary permanecia no campus essencialmente para ler, encontrar novas histórias e as deixarem tomar conta de seu pensamento no decorrer dos dias gélidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A rotina literária de Zachary muda drasticamente, após o jovem encontrar um episódio de sua infância, na qual manteve em segredo por anos, narrado nas escrituras de um livro desmemoriado na biblioteca da universidade. Contaminado pela incompreensão e pelo desejo de saber mais, o protagonista percorre um caminho desconexo para desvendar como o seu passado pode estar ligado com os contos descritos em </span><i><span style="font-weight: 400;">Doces Dores</span></i><span style="font-weight: 400;"> e com o <a href="https://www.momentumsaga.com/2021/06/resenha-o-mar-sem-estrelas-de-erin-morgenstern.html">universo utópico</a> de seus personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama do livro é uma incógnita, um mistério que merece ser acompanhado com atenção. A riqueza de elementos e de complexidade trazidos por Erin Morgenstern, é superior ao de determinados livros no <a href="https://quindim.com.br/blog/literatura-fantastica/">gênero da fantasia</a>. Compondo livros dentro de livros, narrativas sobre acólitos guardiões de histórias e amores atemporais, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mar Sem Estrelas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma dedicatória escrita com graciosidade para a literatura. </span><b>&#8211; Ludmila Henrique</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31378" aria-describedby="caption-attachment-31378" style="width: 534px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31378" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/916TnVR3amL._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg" alt="" width="534" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/916TnVR3amL._AC_UF10001000_QL80_-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/916TnVR3amL._AC_UF10001000_QL80_.jpg 667w" sizes="auto, (max-width: 534px) 85vw, 534px" /><figcaption id="caption-attachment-31378" class="wp-caption-text">O primeiro volume da coleção de livros foi adaptado às telas em uma série pela Amazon Prime Video (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Virginie Despentes &#8211; A Vida de Vernon Subutex &#8211; Volume I (336 páginas, Companhia das Letras)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São em ruas cinzentas de uma cidade mutilada de suas tradições, afligida pelo novo porém sempre presente espectro do capitalismo globalizado, que Vernon Subutex, o protagonista da série de romances </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535932492/a-vida-de-vernon-subutex-volume-1"><i><span style="font-weight: 400;">A Vida de Vernon Subutex</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">vagueia à procura de um lugar para fumar cigarros, beber compulsivamente, dormir sem precisar gastar em quartos de hotel e não largar a memória do que um dia já foi. A cidade é Paris e Subutex é um desempregado com muitos contatos – oriundos de quando era dono de uma famosa loja de discos de vinil –, que transparecem na prosa caleidoscópica, </span><i><span style="font-weight: 400;">rockeira</span></i><span style="font-weight: 400;"> e frenética da pensadora Virginie Despentes. O trabalho teórico da escritora – sempre </span><a href="https://impressoesdemaria.com.br/2021/10/o-feminismo-punk-de-virginie-despentes-em-teoria-king-kong/"><i><span style="font-weight: 400;">punk</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, reaça e político – não deixa de estar presente em seus personagens: em sua maioria, quase todos desprezíveis. Por eles, Despentes desenvolve uma crítica generalizada à </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/l/ilusoes-perdidas"><span style="font-weight: 400;">sociedade francesa</span></a><span style="font-weight: 400;">, assombrada pelo desemprego estrutural e pelo envelhecimento de uma geração.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A autora, cuja prosa – desde o arrebatador e autoficcional </span><a href="https://n-1edicoes.myportfolio.com/teoria-king-kong"><i><span style="font-weight: 400;">Teoria King-Kong</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> – </span></i><span style="font-weight: 400;">é tomada de agressividade, humor e crueza, que aqui se dilacera em inúmeras personagens em suas mais absurdas diferenças. De ex-atrizes pornô, </span><i><span style="font-weight: 400;">groupies </span></i><span style="font-weight: 400;">recuperadas de obsessões e homens transgênero garotos propaganda de lojas de cigarros eletrônicos a pais de família recuperados da cocaína, </span><i><span style="font-weight: 400;">rockstars </span></i><span style="font-weight: 400;">de uma geração e</span><i><span style="font-weight: 400;"> hackers </span></i><span style="font-weight: 400;">lésbicas; todos unem-se em saudosa rebeldia ou em uma deliciosa antipatia a suas próprias vidas. Acompanhando a trajetória de </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2018/may/02/vernon-subutex-1-by-virginie-despentes-review"><span style="font-weight: 400;">Subutex</span></a><span style="font-weight: 400;"> por diferentes lentes, os capítulos parecem estar contaminados pela quantidade de drogas utilizadas pelos artistas presentes nas músicas citadas na narrativa e pelo seu protagonista, que parece ser um arquétipo complexo, à Despentes, do que toda a geração da música </span><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">resumiu: um paradoxo entre a liberdade total e um iminente moralismo que apenas o envelhecimento é capaz de proporcionar. &#8211; </span><b>Enzo Caramori</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_31374" aria-describedby="caption-attachment-31374" style="width: 586px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31374" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Crush-1-586x800.jpg" alt="Texto alternativo: Capa do livro Crush. Fotografia em preto e branco que enquadra a parte inferior do rosto de um homem - do nariz para baixo - com a boca semi aberta contra as costas da sua mão. No canto superior esquerdo, o nome da editora; à direita - abaixo da boca na imagem - o nome do autor e os créditos do prefácio para Louise Glück; na parte inferior da imagem, o título do livro." width="586" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Crush-1-586x800.jpg 586w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/Crush-1.jpg 733w" sizes="auto, (max-width: 586px) 85vw, 586px" /><figcaption id="caption-attachment-31374" class="wp-caption-text">Crush é a obra de estreia de Richard Siken, o que não o impede de compartilhar as suas vulnerabilidades mais cruas com o leitor (Foto: Yale University Press)</figcaption></figure>
<p><b>Richard Siken &#8211; Crush (62 páginas, Yale University Press)</b></p>
<p><a href="https://www.amazon.com.br/Crush-Louise-Glueck/dp/0300107897"><i><span style="font-weight: 400;">Crush</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, selecionado como o vencedor do prêmio Yale Series of Younger Poets de 2004, é uma coleção de poesias do poeta americano Richard Siken. Nele, Siken explora emoções humanas complexas e conflitantes, principalmente em torno da obsessão, pânico e culpa que acompanham o amor em um mundo em que a sua sexualidade representa perigo. Sua poesia advém muito de suas experiências pessoais enquanto homem gay. O livro comenta, de modo poderoso e confessional,  a dualidade desse amor que é uma sina e uma salvação ao mesmo tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O autor desenvolve um estilo distinto conforme escreve sobre situações cotidianas para articular em seu texto sentimentos abstratos. O autor domina a construção de cenas que o leitor pode visualizar enquanto lê, tornando a leitura uma experiência imersiva. Ele sabe traduzir com sinceridade as ansiedades da natureza humana, de modo que conforta quem lê. Os sentimentos são familiares, mesmo que as cenas não sejam. Ao expressar seus desejos e impulsos mais íntimos, <a href="https://tinhouse.com/the-doubling-of-self-an-interview-with-richard-siken/">Siken</a> faz o leitor se sentir tão exposto quanto ele. É esse elemento que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">Crush</span></i><span style="font-weight: 400;"> tão brutal e gentil, simultaneamente.</span><b> &#8211; Giovanna Freisinger </b></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Em Ruído Branco, o mundo real é uma simulação</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2023 14:27:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Consumista” já foi a palavra de ordem de uma geração que, em um passo ousado, julgava os relativos perigos de uma sociedade descontrolada – talvez como consequência direta da mudança social dos anos 1960, cuja virada cultural permanente se estabeleceu e desembocou no mal-estar das décadas seguintes. Mas o fato é que o &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ruido-branco-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Ruído Branco, o mundo real é uma simulação"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29572" aria-describedby="caption-attachment-29572" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29572" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1072" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-1536x643.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-2048x858.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/1-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29572" class="wp-caption-text">Em parceria com a A24, Ruído Branco estreou no Festival de Veneza e chegou à Netflix no penúltimo dia de 2022 (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Consumista” já foi a palavra de ordem de uma geração que, em um passo ousado, julgava os relativos perigos de uma sociedade descontrolada – talvez como consequência direta da mudança social dos anos 1960, cuja virada cultural permanente se estabeleceu e desembocou no mal-estar das décadas seguintes. Mas o fato é que o julgamento parecia resfriar-se em um sólido cenário teórico, e ironicamente se perpetuava, muitas vezes, por aqueles que o apontavam. O consumo estava em toda parte. Em </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.indiewire.com/2022/08/white-noise-movie-review-netflix-noah-baumbach-1234755914/">Ruído Branco</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, adaptação dirigida por </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://about.netflix.com/pt_br/news/academy-award-nominated-filmmaker-noah-baumbach-signs-exclusive-partnership">Noah Baumbach</a></span><span style="font-weight: 400;"> do clássico homônimo de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788585095109/ruido-branco">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;"> publicado em 1985, outras facetas do consumo – para além da alienação – ganham espaço: o entretenimento vulgar, o delírio e a paranoia.</span></p>
<p><span id="more-29568"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>White Noise </i></span><span style="font-weight: 400;">(no original) traz a dependência televisiva logo no título. Originalmente, DeLillo pretendia chamar o livro de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Panasonic</i></span><span style="font-weight: 400;">, mas a empresa vetou a utilização do nome. Mantendo a ideia de fazer alusão à TV, o autor cunhou “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco</i></span><span style="font-weight: 400;">”, expressão técnica para o que se convencionou a chamar de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-40679798">chiado na televisão</a></span><span style="font-weight: 400;">”, a imagem obstruída pelo som agonizante da falta de sinal. Todavia, na trama, o ruído branco pode muito bem ser, de forma alegórica, o medo da morte, que paira pela vida das personagens silenciosamente, obstruindo suas consciências. Seguindo a história do protagonista Jack Gladney (Adam Driver), tanto o livro como o filme traçam um paralelo quase perfeito entre o consumismo e o medo da morte.</span></p>
<p><figure id="attachment_29570" aria-describedby="caption-attachment-29570" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29570" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-2048x1365.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/7-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29570" class="wp-caption-text">“Por que pensamos que essas coisas já aconteceram? É simples. Elas já aconteceram mesmo, em nossas mentes” (DeLILLO, 2017, p. 189)¹ [Foto: Netflix]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">O personagem principal, pai dos jovens </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/erguei-bem-alto-a-viga-carpinteiros-seymour-uma-introducao">salingeranamente</a></span><span style="font-weight: 400;"> inteligentes Heinrich (Sam Nivola), Steffie (May Nivola), Wilder (Dean/Henry Moore) e padrasto de Denise (Raffey Cassidy), é também professor de “hitlerologia”</span> <span style="font-weight: 400;">– disciplina criada por ele na fictícia universidade College-on-the-Hill para se debruçar sobre a aura de Hitler –, vivendo sob o cerco de campanhas publicitárias e aprendendo às escondidas a língua alemã para um colóquio. Ele vê sua vida alterar-se significativamente com a chegada de uma nuvem tóxica, em decorrência de um acidente industrial próximo a sua residência. Diferente do livro, porém – e por razões razoáveis –, o longa tem sua primeira parte mais acelerada que as demais (embora o poder de síntese do diretor seja surpreendente, o filme ainda totaliza mais de duas horas de duração).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez pelas implicações que um novo formato pede, e mesmo mantendo-se fiel à trama, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco </i></span><span style="font-weight: 400;">não tem o mesmo peso que o romance – mas não se trata, aqui, da velha dicotomia livro-é-melhor-que-o-filme. Baumbach, que além da direção, assina o roteiro adaptado, opta por não retratar alguns momentos da história original. Na obra literária de 1985, a filha mais jovem de Gladney participa de uma simulação do governo, na qual situações de vazamentos tóxicos são treinados por civis e policiais, aumentando o ar conspiratório de que tudo, na verdade, pode ser um truque estatal para manter a sociedade funcionando pelo medo. Mesmo que a cena não ocorra no longa, a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.shmoop.com/study-guides/literature/white-noise/analysis/simuvac-short-for-simulated-evacuation">SIMUVAC</a></span><span style="font-weight: 400;">, órgão ficcional do Estado cuja abreviação significa “evacuação simulada”, aparece na segunda parte do filme.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;"><em>“</em></span><span style="font-weight: 400;">Murray diz que somos criaturas frágeis cercadas por um mundo de fatos hostis. Os fatos ameaçam a nossa felicidade e segurança. Quanto mais nos aprofundamos na natureza das coisas, mais frouxa a nossa estrutura nos parece. O processo da família visa ao isolamento em relação ao mundo exterior</span><span style="font-weight: 400;"><em>”</em></span><em> <span style="font-weight: 400;">(DeLILLO, 2017, p. 102).¹</span></em></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de cortar “</span><span style="font-weight: 400;"><i>o celeiro mais fotografado da América</i></span><span style="font-weight: 400;">”, o cineasta também decidiu ocultar Vernon Dickey, pai de Babette (</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://cinepop.com.br/greta-gerwig-diretora-de-barbie-e-lady-bird-vai-comandar-um-novo-filme-pela-netflix-383431/?amp">Greta Gerwig</a></span><span style="font-weight: 400;">), que na obra original é o responsável por entregar a pequena pistola ao protagonista, utilizada no clímax da história. No estilo conservador armamentista, esse personagem o presenteia com os dizeres “</span><span style="font-weight: 400;"><i>existem dois tipos de pessoas no mundo: as que morrem e as que matam</i></span><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ausente no longa, a cena e a fala são inseridas na boca de Murray Siskind (Don Cheadle), o eloquente amigo de Jack que pesquisa sobre a televisão e cobiça repetir seu feito e iniciar os “</span><span style="font-weight: 400;"><i>estudos sobre Elvis</i></span><span style="font-weight: 400;">” na universidade. Mas, à medida que o roteiro avança, percebe-se que o foco são os </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/plano-75-critica/">costumes contemporâneos</a></span><span style="font-weight: 400;"> – mesmo retratando a sociedade norte-americana dos anos 1980 –, tomando isso como um norte, enquanto alguns vícios esquisitos, como o delírio coletivo pela violência ou a inexplicável dificuldade em lidar com a realidade, são representados pela visão do protagonista.</span></p>
<figure id="attachment_29574" aria-describedby="caption-attachment-29574" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29574" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29574" class="wp-caption-text">Duas vezes indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, Noah Baumbach disse que White Noise é seu projeto “mais diferente”, sendo esse o primeiro longa que dirige com roteiro adaptado (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A essência da trama remonta à clara afeição que o cineasta mantém em relação ao livro. Em obras anteriores, Baumbach retratou grupos disfuncionais em suas falsidades, que, comumente, rompem no limiar entre o falso moralismo e o mal-estar – como em </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/">História de um Casamento</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2019)</span><span style="font-weight: 400;"><i>,</i></span> <span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/os-meyerowitz-familia-nao-se-escolhe-critica">Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2017) e </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zaZhnD69vl0&amp;ab_channel=TrailersTeasersClips">A Lula e a Baleia</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2005). Nesse aspecto, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco</i></span><span style="font-weight: 400;"> não está tão longe do campo que o autor estadunidense domina, visto que segue uma família particularmente diferente, na qual todos são demasiadamente autoconscientes, principalmente os filhos. A adaptação ainda é “</span><span style="font-weight: 400;"><i>mais diferente</i></span><span style="font-weight: 400;">” que os longas anteriores, como o próprio </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.indiewire.com/2022/09/noah-baumbach-interview-white-noise-1234768260/">diretor declarou</a></span><span style="font-weight: 400;">, porque preocupa-se principalmente com uma atmosfera paranoica e espetacularizada da realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, em diversos momentos o filme deixa pontas soltas que são explicadas apenas no livro. Há uma enorme complexidade na tentativa de reduzir as dezenas de frases impactantes de Don DeLillo em cenas rápidas, e Baumbach tenta sintetizá-las nos diálogos. Apesar disso, principalmente </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.esquire.com/uk/culture/a42396264/white-noise-ending-explained/">no final</a></span><span style="font-weight: 400;">, é praticamente impossível entendê-lo em sua totalidade sem ter lido a obra original. Mesmo que permaneça na Comédia Dramática – inclusive com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://pitchfork.com/news/andre-3000-joins-noah-baumbach-new-white-noise-film-adaptation-for-netflix/">André 3000</a></span><span style="font-weight: 400;"> integrando o elenco –, seu mote sustenta-se em assuntos existencialistas e filosóficos, que idealmente devem ser transmitidos ao espectador sem exigir conhecimento prévio. Por reivindicar implicitamente a pesquisa, é um filme que dificilmente consegue o consenso.</span></p>
<p><figure id="attachment_29575" aria-describedby="caption-attachment-29575" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29575" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/4-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29575" class="wp-caption-text">“O supermercado está cheio de velhos que parecem perdidos no meio de tantas mercadorias de cores vivas” (DeLILLO, 2017, p. 207)¹ [Foto: Netflix]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">O enredo ecoa a discussão </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">pós-moderna</a></span><span style="font-weight: 400;"> do espetáculo, que massivamente afasta os indivíduos da compreensão de “fim”. Na verdade, o consumo desenfreado – por vezes imperceptível a nós – é apenas uma reação ritualística ao medo ancestral da morte; é o preenchimento material da ausência completa de sentido. Não por acaso o supermercado ascende na trama como um espaço transcendental: é um cenário repleto de marcas, cujo zumbido ínfimo das luzes claras dos refrigeradores ressoa em nossos ouvidos junto às músicas do ambiente, que servem, basicamente, para afastar a frieza dos nossos pensamentos. Ao mesmo tempo que a morte “de verdade” é distanciada pelo entretenimento, a própria realidade é ela mesma assassinada, ampliando a estranha sensação de não pertencimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Paradoxalmente, enxergar o mundo em sua extensão é remetê-lo à noção de compreensão humana. Por isso, ao trazer sua complexidade ao espectro de nossos sentidos, nos esforçamos para alcançar a distância correta entre o que somos e o que pensamos ser – tudo ganha um ar de familiaridade. Como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.scielo.br/j/raeel/a/XLCG9KDtPBPK8YSqmk6bDrq/?lang=pt">Jean Baudrillard</a></span><span style="font-weight: 400;"> escreve, a interconexão entre o consumo e a vida cotidiana deixa de ser questionada pelos indivíduos, “</span><span style="font-weight: 400;"><i>praticamente inconscientes, na vida de todo dia, da realidade tecnológica dos objetos</i></span><span style="font-weight: 400;">”.² No mundo onde a simulação é gerada por um real sem origem nem realidade – chamado pelo filósofo de “</span><span style="font-weight: 400;"><i>hiper-real</i></span><span style="font-weight: 400;">”³ –, os objetos multiplicam-se ao infinito, pois precisam preencher uma “</span><span style="font-weight: 400;"><i>realidade ausente</i></span><span style="font-weight: 400;">”. O consumo e a solidão são inseparáveis.</span></p>
<figure id="attachment_29576" aria-describedby="caption-attachment-29576" style="width: 735px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-29576" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/5.1-735x1024.jpg" alt="" width="735" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/5.1-735x1024.jpg 735w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/5.1-574x800.jpg 574w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/5.1-768x1070.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/5.1.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29576" class="wp-caption-text">Don DeLillo é um dos poucos autores contemporâneos a revestir a aura do romancista como visionário (Foto: Joyce Ravid)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Historicamente, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco</i></span><span style="font-weight: 400;"> teve três tentativas fracassadas de adaptação, antes da finalizada por Noah Baumbach. Desde os anos 1990, James L. Brooks (</span><span style="font-weight: 400;"><i>Laços de Ternura</i></span><span style="font-weight: 400;">, 1983), Barry Sonnenfeld (</span><span style="font-weight: 400;"><i>MIB &#8211; Homens de Preto</i></span><span style="font-weight: 400;">, 1997) e Michael Almereyda (</span><span style="font-weight: 400;"><i>Hamlet</i></span><span style="font-weight: 400;">, 2000) tentaram a empreitada, mas abandonaram o projeto. Seguindo a linhagem dos “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.gq-magazine.co.uk/culture/article/systems-novel-future-of-fiction">romances de sistema</a></span><span style="font-weight: 400;">” – que se preocupam principalmente com o desenvolvimento dos mecanismos de poder sobre os personagens –, o livro e o estilo de Don DeLillo (extremamente sugestivo e, por vezes, até mesmo minimalista) dificultam qualquer roteiro cinematográfico, que precisa “mostrar” ao espectador situações que não são explicadas – e nem precisam ser – na Literatura. Esse tom sugestivo abre janela às interpretações “distópicas”, algo que, acertadamente, o diretor não explora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, mesmo que </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535903768/cosmopolis">Cosmópolis</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2003) tenha sido adaptado de forma interessante por </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/estante-do-persona-maio-de-2022/">David Cronenberg</a></span><span style="font-weight: 400;"> em 2012 (com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/batman-critica/">Robert Pattinson</a></span><span style="font-weight: 400;"> no papel principal), </span><span style="font-weight: 400;"><i>White Noise</i></span><span style="font-weight: 400;"> tem um peso ainda maior: trata-se – ao lado de </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788571648838/submundo?idtag=9574a89e-f004-4536-99a9-de5691cab400&amp;gclid=Cj0KCQiAzeSdBhC4ARIsACj36uHe8wZ1zYJCf8r5meKiZxYF6taTvnMPbYYVlYfJ3x2oZeQ1ylp3H1waAt3jEALw_wcB">Submundo</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(1997) – da obra fundamental do autor, um clássico da Literatura norte-americana analisado em universidades e vencedor do </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.nationalbook.org/books/white-noise/">National Book Awards</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, cujo impacto foi tão grande que projetou DeLillo como um dos melhores observadores da vida no capitalismo tardio. A simples trama do livro já parte de uma premissa complexa: a existência é indistinguível da “imitação” da realidade e do espetáculo das relações sociais.</span></p>
<figure id="attachment_29569" aria-describedby="caption-attachment-29569" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29569" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159.jpg" alt="" width="1920" height="787" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159-800x328.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159-1024x420.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159-768x315.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159-1536x630.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/6-e1673640103159-1200x492.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29569" class="wp-caption-text">Repetindo os movimentos de História de um Casamento, o diretor deixa em primeiro plano, durante o clímax, a cabeça do interlocutor, no que pode acenar para a perspectiva de integrar outra consciência (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora existam comparações, também é interessante observar que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco </i></span><span style="font-weight: 400;">não é o novo </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/nao-olhe-para-cima-critica/">Não Olhe para Cima</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2021) – e isso é bom, para Baumbach. É sempre importante entender as dificuldades na adaptação de uma obra cinematográfica cujo roteiro surge de um livro clássico, mas, diferente do filme de Adam McKay, mesmo que algumas pontas permaneçam soltas, o texto original fornece um material impecável de discussão, que se sustenta nas atuações e permanece distante do debate conformista. É nesse ambiente que Adam Driver ascende como o grande destaque de atuação, segurando as nuances entre Comédia e Drama com habilidade. Pelo papel de Jack Gladney, Driver concorreu ao </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.goldenglobes.com/person/adam-driver">Globo de Ouro</a></span><span style="font-weight: 400;"> pela terceira vez, na categoria de Melhor Ator em Comédia ou Musical, mas perdeu para </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/afp/2023/01/10/colin-farrell-ganha-globo-de-ouro-de-melhor-ator-de-musical-ou-comedia.htm">Colin Farrell</a></span><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trilha sonora de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2022/12/12/phoebe-bridgers-estranho-mundo-jack/">Danny Elfman</a></span><span style="font-weight: 400;">, porém, é apenas curiosa. Misturando elementos da Música Eletrônica com a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/heitor-villa-lobos-e-a-musica-modernista-artigo/">Clássica</a></span><span style="font-weight: 400;">, ele auxilia na ambientação cultural de um Estados Unidos pós-industrial, a um nível quase distópico. O grande mérito musical fica a cargo da canção original de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://pitchfork.com/reviews/tracks/lcd-soundsystem-new-body-rhumba/">LCD Soundsystem</a></span><span style="font-weight: 400;"> – uma faixa </span><span style="font-weight: 400;"><i>dance punk</i></span><span style="font-weight: 400;"> que serve como melodia para a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.nme.com/news/music/watch-the-surreal-lcd-soundsystem-dance-scene-from-netflixs-white-noise-3373481">dança ensaiada</a></span><span style="font-weight: 400;"> dos créditos no fim –, vocalizada pelo líder do grupo, James Murphy, que colaborou com o diretor nas trilhas originais de </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cwdliqOGTLw&amp;ab_channel=FocusFeatures">Greenberg</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2010) e </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NRUcm9Qw9io&amp;ab_channel=A24">Enquanto Somos Jovens</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2014).</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="LCD Soundsystem - new body rhumba (from the film White Noise) (Official Audio)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/JG17jiPdbb0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">De forma vertiginosa, o longa explora a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/estado-eletrico-critica/">expectativa social pela catástrofe</a></span><span style="font-weight: 400;">. Em alguns trechos, quando o acidente tóxico já ocorreu e dominou o imaginário conspiratório da população, o diretor dá piscadelas no roteiro à recente situação da pandemia de covid-19, jogando luz aos comentários negacionistas que são aplaudidos por Jack Gladney. Na verdade, o coronavírus revitaliza, de maneira incômoda, a obra original, apresentando o desastre como um fenômeno cíclico nas sociedades contemporâneas. O cineasta também se recusa a atualizar a história em seus figurinos e panorama social, mantendo a ambientação original de DeLillo – com todas as conspirações da Guerra Fria às quais o país estava submetido – e apontando para o caráter premonitório da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ânsia de Baumbach em presentear os espectadores com as melhores partes do romance faz com que diversos trechos de desenvolvimento de personagens sejam deixados de lado. Repentinamente, a partir da segunda parte, a trama muda para um cenário que beira o </span><span style="font-weight: 400;"><i>sci-fi</i></span><span style="font-weight: 400;">, e volta a se pacificar próximo ao fim, quando as melhores sequências de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco</i></span><span style="font-weight: 400;"> são protagonizadas por Greta Gerwig e Adam Driver na revelação sobre o “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Dylar</i></span><span style="font-weight: 400;">” e, logo em seguida, no diálogo entre o protagonista e o Sr. Gray (</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/minha-irma-critica/">Lars Eidinger</a></span><span style="font-weight: 400;">). A crueza com que Baumbach grava o embate, os tiros e a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.smh.com.au/entertainment/books/don-delillo-the-great-american-novelist-on-paranoia-prescience-and-immortality-20160419-go9mfo.html">paranoia</a></span><span style="font-weight: 400;"> humanizada no papel de Eidinger registra uma perda da capacidade da linguagem para discernir ou até mesmo entender o mundo, que está </span><span style="font-weight: 400;"><i>“repleto de fatos hostis</i></span><span style="font-weight: 400;">” a nós.</span></p>
<p><figure id="attachment_29571" aria-describedby="caption-attachment-29571" style="width: 738px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-29571" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-738x1024.jpg" alt="" width="738" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-738x1024.jpg 738w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-577x800.jpg 577w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-768x1066.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-1107x1536.jpg 1107w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-1476x2048.jpg 1476w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL-1200x1665.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/01/71YrNpT5aJL.jpg 1651w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-29571" class="wp-caption-text">“A morte é que torna a vida incompleta” (DeLILLO, 2017, p. 345)¹ [Foto: Companhia das Letras]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Talvez preocupado demais em “parecer” a obra original, o longa inevitavelmente cai na armadilha prevista na própria trama. A representação de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Ruído Branco</i></span><span style="font-weight: 400;"> torna-se o próprio “</span><span style="font-weight: 400;"><i>celeiro mais fotografado da América</i></span><span style="font-weight: 400;">”, e por isso sua presença é desnecessária, mesmo que frequentemente ganhe importância no livro. O </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/aug/31/white-noise-review-venice-opener-is-a-blackly-comic-blast">filme</a></span><span style="font-weight: 400;"> erra quando acerta demais, tentando emular os sentimentos e a velocidade do próprio romance de 1985 (o que explica a sensação de lentidão ou a estranheza que algumas partes podem causar).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao deixar de lado as potencialidades criativas de um novo formato, a obra convence e se sustenta pela história: há um pavor ecológico, há universitários espetacularizando o ensino (</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://cenasdecinema.com/o-guia-pervertido-da-ideologia/">Slavoj Žižek</a></span><span style="font-weight: 400;"> poderia ser um personagem), há negacionismo e há ironia – tudo tão longe e tão perto de nós. No fim, ainda podemos sublimar nossos desejos e ir às compras, enganando a nós mesmos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ruído Branco | Teaser oficial | Netflix" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Ltjepb-zCmc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<hr />
<p><span style="font-weight: 400;">¹ DeLILLO, Don. </span><b>Ruído Branco</b><span style="font-weight: 400;">. 2ª ed. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">² BAUDRILLARD, Jean. </span><b>O sistema dos objetos. </b><span style="font-weight: 400;">5ª ed. Tradução de Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Perspectiva, 2015, p. 11.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">³ BAUDRILLARD, Jean. </span><b>Simulacros e simulação.</b><span style="font-weight: 400;"> Tradução de Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’Água, 1991, p. 8.</span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Daniel Galera</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 20:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022 Bruno Andrade  No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-daniel-galera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Daniel Galera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"><i>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022</i></span></p>
<figure id="attachment_28717" aria-describedby="caption-attachment-28717" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg" alt="Arte quadrada de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto " width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28717" class="wp-caption-text">“Minha carreira de escritor não foi exatamente uma coisa planejada desde cedo”, diz Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho e Companhia das Letras/Arte: Henrique Marinhos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni virtualmente com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://danielgalera.info/">Daniel Galera</a></span><span style="font-weight: 400;"> para bater um papo sobre sua trajetória literária e os 10 anos de lançamento de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;">, romance que ganha uma </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.amazon.com.br/Barba-ensopada-sangue-Edi%C3%A7%C3%A3o-especial/dp/6559211282/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&amp;qid=1663270910&amp;sr=8-22">edição especial comemorativa</a></span><span style="font-weight: 400;"> com lançamento previsto para 4 de Novembro de 2022. Vencedor do Prêmio Machado de Assis, duas vezes 3º colocado no Prêmio Jabuti e já publicado na prestigiosa revista </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2021/12/22/the-god-of-ferns/">The Paris Review</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, Galera desponta como um dos grandes nomes da Literatura brasileira contemporânea, relacionado a uma “nova geração de escritores”, mesmo que “nova” já não seja bem a palavra que defina sua carreira. Escrevendo e publicando desde os anos 1990, o escritor paulistano radicado em Porto Alegre construiu um sólido percurso em torno da Literatura, e veio ao </span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/">Persona Entrevista</a></b><span style="font-weight: 400;"> compartilhar suas experiências, visões de futuro e revelar mais sobre suas obras.</span></p>
<p><span id="more-28680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535921878/barba-ensopada-de-sangue">Barba ensopada de sangue</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um protagonista sem nome – por vezes chamado de “nadador” –, um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. Esse personagem possui uma condição peculiar (porém existente além da ficção): não é capaz de memorizar rostos. Sob esse contexto, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, supostamente assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. A verdade é que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba</i></span><span style="font-weight: 400;"> é um livro distinto, potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade dos indivíduos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição comemorativa do romance foi uma sugestão que o próprio autor fez à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sugeri que a editora fizesse uma edição especial, que sai em Setembro</i></span><span style="font-weight: 400;">”, revela Galera. O livro já está em </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211289/barba-ensopada-de-sangue-edicao-especial-de-10-anos">pré-venda</a></span><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;"><em>site</em></span><span style="font-weight: 400;"> da editora. Em Janeiro e Fevereiro o escritor ministrou um curso, promovido pela </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/literatura/livraria-baleia-promove-oficinas-com-daniel-galera-e-marilia-f-kosby/">Livraria Baleia</a></span><span style="font-weight: 400;">, no qual revisitou a obra em uma espécie de leitura guiada junto à companhia do autor. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Também foi uma releitura minha – a primeira vez que eu próprio reli o livro inteiro assim, atentamente, desde a época da publicação</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foi uma forma de revisitar o livro e perceber o que ele significa pra mim dez anos depois, ver o que eu penso sobre ele e compartilhar essa leitura com o grupo de participantes que se inscreveu. É um ano de comemoração desses dez anos</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete. Após uma década, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue </i></span><span style="font-weight: 400;">segue como referência na Literatura brasileira pós virada do milênio.</span></p>
<figure id="attachment_28682" aria-describedby="caption-attachment-28682" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28682" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue foi eleito o Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Em 2022, <i>Barba ensopada de sangue</i> completa 10 anos de lançamento. Qual a importância dele na sua trajetória? Considera esse livro um marco na sua carreira?</b></p>
<p><b>Daniel Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sem dúvidas. Ele foi um marco no sentido de que foi meu livro mais bem recebido, desde o início. É o livro que mais vendeu, ganhou um prêmio importante, o </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/daniel-galera-e-o-grande-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-2013/">Prêmio São Paulo de Literatura</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, em 2013, e foi um livro que também foi publicado no exterior muito rapidamente, traduzido para 15 idiomas… Então, sim, no contexto da carreira de qualquer autor, é um fenômeno. Foi de longe o livro mais bem sucedido e me colocou num outro patamar de reconhecimento. Até hoje, dez anos depois, é a obra mais comentada e mais lida. A que mais é referenciada quando as pessoas falam de mim, inclusive novos leitores. Continua vendendo aos pouquinhos, mas constantemente. O primeiro capítulo do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> saiu antes do livro ficar pronto, na revista </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://granta.com/">Granta</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, na edição dos </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2012/07/06/69286-granta-divulga-selecao-de-20-escritores-brasileiros#:~:text=S%C3%A3o%20eles%20(com%20os%20respectivos,na%20pra%C3%A7a%E2%80%9D)%2C%20Emilio%20Fraia">20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2012)</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que tem fãs, pessoas que gostam muito, que entram em contato às vezes em eventos literários ou pela </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>; sei que essas pessoas existem. Tem muita gente nova que começa a me ler por causa dele, porque é um livro que as pessoas indicam umas pras outras no boca a boca também. Já os livros que eu publiquei depois do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> vão em direções diferentes; não é que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span> <span style="font-weight: 400;">ensopada de sangue </span><span style="font-weight: 400;"><i>tenha marcado o meu trabalho no sentido de eu continuar escrevendo livros como ele. Os meus livros posteriores são diferentes. É um marco, mas também não sei se em termos de estilo, de escrita, ele estabeleça um ‘antes e depois’.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28683" aria-describedby="caption-attachment-28683" style="width: 1750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma jaqueta de frio com capuz, em cor preta. " width="1750" height="1750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg 1750w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28683" class="wp-caption-text">Como tradutor, Daniel Galera já verteu para o português obras de <a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">David Foster Wallace</a>, Simon Stalenhag e Chris Ware (Foto: Tonatiuh Ambrosetti/Fondation Jan Michalski)</figcaption></figure>
<p><b>Como surgiu a ideia para o enredo do <i>Barba</i>? A condição do protagonista, por exemplo, de não reconhecer rostos, me parece algo bastante singular, algo que torna as descrições dos ambientes muito relevantes na obra. Parece haver também uma certa influência do Cormac McCarthy.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Um romance como o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>, com a extensão que ele tem, com a quantidade de assuntos, temas e elementos que estão incluídos nele, sempre tem múltiplas origens e influências; dificilmente é uma coisa só. Nesse caso, tem algumas que podem ser destacadas como as mais importantes. Talvez a maior de todas seja o fato de que, em 2008, eu fui viver em Garopaba, e isso foi determinante. Me mudei pra lá e fui morar sozinho, assim como o protagonista do livro. Quando eu me mudei, já tinha alguns dos elementos que eu estava planejando incluir no próximo romance, mas ainda não estava formado.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i> </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Antes de me mudar pra lá, ainda em 2007, eu tinha lido um livro do neurocientista português António Damásio, chamado </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925906/o-misterio-da-consciencia">O mistério da consciência</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1999)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu pela </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Nesse livro, ele trata de casos de </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/entenda-o-que-e-a-cegueira-facial-ou-prosopagnosia-que-afeta-o-ator-brad-pitt/#:~:text=A%20prosopagnosia%20%C3%A9%20um%20dist%C3%BArbio,como%20focar%20em%20sua%20voz.">prosopagnosia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que são indivíduos com uma lesão cerebral que, como resultado, não conseguem reconhecer ou gravar bem o rosto das outras pessoas e, às vezes, em casos muito severos, o próprio rosto. Eu fiquei fascinado com essa ideia. Guardei isso de um dia colocar como uma característica de algum personagem de livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ao mesmo tempo, antes de me mudar pra Garopaba, eu tinha começado a ler os livros do </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/apos-longo-hiato-cormac-mccarthy-publica-dois-romances-em-2022/">Cormac McCarthy</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, um escritor que fez muito a minha cabeça, fiquei realmente obcecado pela obra dele. Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro dele que eu li, mas foi ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556520463/todos-os-belos-cavalos">Todos os belos cavalos</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1992)</span><span style="font-weight: 400;"><i> ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788560281268/a-estrada">A estrada</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2006)</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Em Garopaba, li todos os livros dele – comprei todos em sebos e livrarias. A obra completa. O que não tinha em português, comprei em inglês. Foi uma influência muito forte, principalmente </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://open.spotify.com/episode/0dcQPLfu3FnNRyEYxukzMk?si=vePR85MDQuK0Ud0WzAST5A">A Travessia</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1994)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o segundo livro da </i></span><span style="font-weight: 400;">Trilogia da Fronteira</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://blogdoims.com.br/lost-in-translation-por-daniel-galera/">Suttree</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1979)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é um romance que não foi traduzido pro português e que, inclusive, </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://danielgalera.info/#traducoes">eu vou traduzir</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, mas no segundo semestre deste ano. Já estou em tratativas com uma editora. Esses livros foram bastante importantes também pra definir um pouco o estilo de narração do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> – o tipo de ambientação, de estilo narrativo e de linguagem. A obra do Cormac McCarthy influenciou bastante.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><figure id="attachment_28684" aria-describedby="caption-attachment-28684" style="width: 1257px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28684" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/The-Passenger-by-Cormac-McCarthy-cover.webp" alt="Foto colorida dos livros The Passenger e Stella Maris, respectivamente. Na primeira imagem vemos um céu laranja e, à borda, um rosto de criança em cor azul, com os olhos fechados. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito The Passenger. Na imagem seguinte, está em destaque o rosto em cor azul da criança, o mesmo da imagem anterior, enquanto à borda esquerda está um pedaço do céu laranja também da imagem anterior. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Stella Maris. " width="1257" height="900" /><figcaption id="caption-attachment-28684" class="wp-caption-text">Após 16 anos de hiato, Cormac McCarthy lançará em 2022 dois romances inéditos (<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521590/o-passageiro">O Passageiro</a> e <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521620/stella-maris">Stella Maris</a>), que chegarão às prateleiras brasileiras no final do ano pelo selo <a href="https://www.instagram.com/p/Ca40MAYtuCY/?igshid=YmMyMTA2M2Y=">Alfaguara</a>, do Grupo Companhia das Letras [Foto: Penguin Random House]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Um dos principais elementos que marcaram a concepção do romance – além das referências literárias e vivência do autor na cidade – foi o fato de que, embora tenha se mudado para Garopaba em 2008, Daniel Galera já conhecia o município como visitante. Seus pais, no período de juventude dos anos 1970, também frequentaram a região, e relataram experiências relacionadas às viagens. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Uma das histórias que eu me lembrava do meu pai ter falado foi que, uma vez, contaram a eles sobre uma figura da cidade que tinha causado problemas e assassinaram essa pessoa num baile dominical</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Galera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A história diz que, com todos os habitantes da pequena cidade no baile, apagaram-se as luzes e esfaquearam o indivíduo; somente depois a iluminação foi restabelecida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Isso foi uma espécie de justiçamento da comunidade</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Daniel. Não é absurdo pensar que a aura mítica em torno do protagonista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhe forma além da ficção, embora a veracidade da narrativa se perca no emaranhado de meias-verdades que constituem todas as tramas da vida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>É uma história que contaram aos meus pais, e meu pai contou pra mim – nem dá pra saber se isso realmente aconteceu ou não, pode ser um causo sem fundamento. Mas o fato é que eu guardei essa história, e quando me mudei pra Garopaba eu me lembrei dela. Comecei a imaginar, se essa história fosse real, quem teria sido a pessoa que foi morta, e o motivo de terem matado</i></span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Daniel Galera responde perguntas dos leitores" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/w65nfdv6Nkk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Juntei todos esses elementos que eu te contei e começou a vir a história desse professor de Educação Física que se muda pra cidade depois que o pai dele se mata, só que antes o pai dele conta sobre a morte do avô, morto em circunstâncias misteriosas em Garopaba, nos anos 1960. Todo esse embrião do romance, da história propriamente dita, vem dessa combinação de coisas. Aí entra o Cormac McCarthy, como um elemento de estilo, entra a prosopagnosia como uma característica definidora desse protagonista, que afeta a história tanto no nível do enredo como no nível da linguagem, do estilo como a história é contada. Como tu falou, essa atenção quase excessiva mesmo pros detalhes tem a ver com a forma desse personagem enxergar o mundo, relacionada também com a prosopagnosia.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu voltei para Porto Alegre, no final de 2009, comecei de fato a escrever o livro. Eu escrevi só o primeiro capítulo lá em Garopaba – que foi o capítulo que saiu na revista </i></span><span style="font-weight: 400;">Granta</span><span style="font-weight: 400;"><i> –, o restante do romance eu escrevi já em Porto Alegre. O resto é junção de várias histórias, coisas que eu inventei e outros interesses como questões filosóficas sobre o determinismo; meu interesse, na época, pela filosofia da religião budista; meu interesse pela natação – esse aspecto do protagonista do livro, de ser apaixonado por nadar no oceano, é uma coisa minha. Eu sempre gostei muito de fazer isso, participava de travessias e tinha uma paixão por nadar no mar… Então, é um livro que, como uma esponja, absorve dúzias e dúzias de influências, leituras, relatos de coisas que eu ouvi falar, experiências pessoais. Um romance dessa magnitude – digo de extensão, complexidade – acaba pegando elementos dos mais variados tipos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28688" aria-describedby="caption-attachment-28688" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28688" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa de cor verde com botões pretos. O fundo da imagem é cinza." width="1400" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-597x800.jpeg 597w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-765x1024.jpeg 765w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-768x1029.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1147x1536.jpeg 1147w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1200x1607.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28688" class="wp-caption-text">“Os personagens não vêm assim de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos” (Foto: Suhrkamp Verlag/The Paris Review)</figcaption></figure>
<p><b><i>Barba ensopada de sangue </i>está sendo adaptado para o Cinema pelo diretor <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/08/barba-ensopada-de-sangue-livro-de-daniel-galera-vai-ganhar-adaptacao-para-o-cinema.ghtml">Aly Muritiba</a>. No filme mais recente dele, <a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><i>Deserto Particular</i></a>, chama atenção a existência de uma certa importância das paisagens, enquanto se mantém uma violência implícita, um fundo de mistério e um tom mítico que cerca a reconstrução de histórias comuns – características que eu consigo relacionar com o <i>Barba</i>. Queria que você comentasse um pouco sobre isso e essas relações.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu não vejo muita ligação entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o trabalho anterior do Muritiba num nível de tema, de enredo, necessariamente. Mas eu acho que tem outras ligações muito interessantes de se pensar. A maneira como ele trata os personagens, e a construção de espaço que ele faz nos filmes dele, eu acho que tem muito a ver com o que acontece no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>. É algo muito interessado nessa textura da vida real e numa psicologia dos personagens que não é maniqueísta, que não busca ninguém exatamente bom ou mau. As pessoas são complicadas, e tem aspectos iluminados e bacanas, mas aspectos também sombrios e, às vezes, desagradáveis. Ele é muito bom em construir personagens desse tipo e eu fiz muito esforço pra que no romance os personagens fossem assim.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O livro tem um protagonista que não é um cara legal, em todos os aspectos. Ele é muito estranho, complicado e às vezes uma pessoa que não necessariamente causa coisas boas aos outros. Acho que o Aly tem muita sensibilidade pra ver isso. E esse aspecto do romance que tem a ver com o retrato de um lugar e dos efeitos do progresso contemporâneo, das mudanças políticas e econômicas na vida de uma comunidade pequena, é uma coisa muito importante e eu acho que o Aly é muito bom também em olhar pra isso.” </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“O que as pessoas fazem? Como elas vivem? À medida em que uma mudança ecológica, uma mudança política ou uma história do passado, uma superstição, afeta, de fato, o que as pessoas precisam fazer pra viver no seu dia a dia, pra tocar suas vidas. Eu acho que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> é muito feito dessas perguntas e desse olhar pra esses elementos da vida prática das pessoas, e acho que o Aly é muito bom nisso. Eu sou um grande fã do trabalho dele, então estou com expectativa de que ele vai produzir um ótimo filme.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28686" aria-describedby="caption-attachment-28686" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28686" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg" alt="Cena do filme Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba. Na imagem, à direita, vemos um homem branco de costas, com uma faixa branca enrolada no braço direito, vestindo camiseta e calça de cor preta. Ele está num lugar que se parece com um deserto, repleto por terra, galhos e pequenos arbustos. O céu está acizentado, e ao longe é possível ver postes de luz e fios que os interligam." width="1024" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-800x449.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-768x431.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28686" class="wp-caption-text">Exibido na <a href="https://personaunesp.com.br/tag/45-mostra/">45ª Mostra</a> Internacional de Cinema em São Paulo, Deserto Particular foi a submissão do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Tem algum trecho do <i>Barba </i>que é o seu favorito? Ou alguma característica desse romance que, como autor e escritor, você considera mais importante?</b></p>
<p><b>Galera:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu certamente tenho vários trechinhos que eu gosto muito até hoje, mas lembro de dois que consigo compartilhar assim, no calor da hora. Um deles é toda sequência da caminhada do protagonista pelos morros, quando ele ouve falar que o avô dele pode talvez estar vivo, como um ermitão meio louco que é visto, às vezes, nos morros da região de Garopaba, e resolve sair caminhando pra ver se por acaso encontra o avô ou pelo menos pra se sentir um pouco na pele dele. Gosto de toda a sequência dessa caminhada, que é justamente no mês de outubro de 2008, período em que houve chuvas muito fortes na região de Santa Catarina. Ele faz a caminhada bem nessa época.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>E existe um parágrafo bem curtinho do livro, não sei dizer em que página, mas que comenta sobre as matilhas de cachorros de raça, cachorros grandes, que vivem soltas em Garopaba e ficam meio que circulando à noite, como cachorros meio espectrais. É só um parágrafo curtinho e é baseado um pouco em uma coisa real também. Muitos desses cachorros grandes, de raça, estão abandonados naquela região, e deve ser uma coisa que acontece em muitas praias e locais de férias. As pessoas levam cachorros pras férias e, às vezes, aproveitam pra se livrar deles, quando não aguentam mais cuidar. Fazem a crueldade de simplesmente deixar o cachorro e ir embora.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O resultado disso é que a gente vê </i></span><span style="font-weight: 400;">rottweilers </span><span style="font-weight: 400;"><i>e pastores alemães transformados nesses cachorros meio magros, andando em matilhas. É um parágrafo só, que quem ler o livro ou procurar talvez encontre, mas é um trecho curtinho que me chamou atenção, e tem vários outros. Gosto da maioria das partes do livro. Eu mudaria algumas coisinhas pequenas, se eu fosse escrever ele hoje, mas não muito. Sou muito feliz com o resultado dele.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28687" aria-describedby="caption-attachment-28687" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28687" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg" alt="Capa da edição inglesa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem colorida, está escrito Blood drenched beard, a novel, de forma centralizada. Blood e Beard estão escritos em cor preta, e Drenched e A novel em cor vermelha. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Daniel Galera em fonte de cor branca. À direita, está o logo da editora Penguin Books, que consiste em um penguim branco e preto dentro de uma forma oval em cor laranja. O fundo da imagem é um borrão de cores cinza, azul e sépia. " width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1200x1841.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28687" class="wp-caption-text">A edição em inglês de Barba ensopada de sangue foi saudada pelo jornal <a href="https://www.nytimes.com/2015/01/20/arts/daniel-galeras-blood-drenched-beard.html">The New York Times</a> (Foto: Penguin Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As incursões literárias de Daniel Galera se iniciaram ainda nos anos 1990, como editor e colunista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines</i></span><span style="font-weight: 400;"> literários. Ele se formou em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – não porque se interessava em propaganda, mas porque, à época, era o curso que concentrava as pessoas interessadas em “</span><span style="font-weight: 400;"><i>trabalhar com Cinema, com Artes Visuais, com Design, e acabavam indo parar no curso de Publicidade porque havia menos cursos especializados nessas áreas mais artísticas ou técnicas</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Interessado em computação, o autor acreditava que seria </span><span style="font-weight: 400;"><i>web designer</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu mexia com computador, sabia usar programas de </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> gráfico, de programação de </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>, achava que seria o que na época se chamava </i></span><span style="font-weight: 400;">web designer</span><span style="font-weight: 400;"><i>, ou que trabalharia com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> de produto ou com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> visual. Era isso que eu achava que iria fazer quando prestei vestibular</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi durante o período universitário que Galera começou a lapidar seu interesse pela Literatura. Ainda na graduação, uma disciplina chamada “Criação em Língua Portuguesa” foi, na prática, uma oficina literária dada pelos professores de Letras. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Me interessei imediatamente por escrever ficção – até pra conseguir os créditos, inicialmente, mas porque era uma coisa que eu gostava. Acho que foi ali que, conhecendo esses professores e conhecendo outros alunos da faculdade que também estavam interessados por escrever ficção – mas sobretudo escrevendo e mostrando os meus textos pra colegas e professores –, percebi que achava que tinha uma vocação e um interesse muito grande em escrever Literatura</i></span><span style="font-weight: 400;">”, conta o autor.</span></p>
<div class="tumblr-post" data-href="https://embed.tumblr.com/embed/post/t:woNz66R949rnURLENv3ruQ/666662303877496832/v2" data-did="8996aefe2a1826db5133ad43955c266792b43f9b"  ><a href="https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas">https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas</a></div>
<p><script async src="https://assets.tumblr.com/post.js?_v=38df9a6ca7436e6ca1b851b0543b9f51"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meados de 1997 – momento de popularização da </span><span style="font-weight: 400;"><i>internet</i></span><span style="font-weight: 400;"> no Brasil –, Daniel Galera começou efetivamente a participar como colaborador e editor de uma série de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines </i></span><span style="font-weight: 400;">eletrônicos e revistas digitais. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“Teve uma que eu editei, chamada </i></span><span style="font-weight: 400;">Proa da Palavra</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que era só de Literatura. Pra mim, a escrita veio junto com essa prática de publicar os outros e se auto-publicar na </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span><span style="font-weight: 400;">, compartilha Galera. Então, em parceria com colegas de faculdade, criou o </span><span style="font-weight: 400;"><i>mail-zine </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://cabrapreta.org/COL/">CardosOnline</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(COL), que foi um pequeno fenômeno. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“O </i></span><span style="font-weight: 400;">CardosOnline</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi famoso na época, a gente tinha milhares de assinantes no Brasil inteiro e isso me deu um público inicial. Tinha um pessoal que acompanhava esse </i></span><span style="font-weight: 400;">fanzine</span><span style="font-weight: 400;"><i> e acompanhava o meu trabalho desde o início. Foi um incentivo grande”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco tempo depois, em 2001, em parceria com Guilherme Pilla e com o também escritor </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535922899/digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido">Daniel Pellizzari</a></span><span style="font-weight: 400;">, Galera criou a editora </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422">Livros do Mal</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. A ideia era publicar em livro “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns autores dessa nova geração que estavam surgindo na época</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Além de publicar nomes como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/o-riso-dos-ratos">Joca Reiners Terron</a></span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/paulo-scott-e-indicado-ao-international-booker-prize-por-marrom-e-amarelo.shtml">Paulo Scott</a></span><span style="font-weight: 400;">, os seus primeiros livros também saíram pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Livros do Mal</i></span><span style="font-weight: 400;">: a estreante coleção de contos </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/">Dentes Guardados</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2001) e o romance </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535909876/ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu">Até o Dia em que o Cão Morreu</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2003), que foi posteriormente relançado pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;"> e adaptado para o Cinema. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foram livros que eu publiquei de maneira independente; minha carreira começou assim. Não foi planejado, foi acontecendo organicamente. Vários caminhos e encontros que me fizeram perceber que era isso que eu queria fazer. Senti que eu tinha talento pra isso e comecei a vislumbrar que era uma profissão também</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<figure id="attachment_28685" aria-describedby="caption-attachment-28685" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28685" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-1024x1024.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera, com as duas mãos no bolso de trás de sua calça. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa xadrez em cores rosa e branco. Ao fundo vemos diversas plantas de cor verde espalhadas em vasos. " width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28685" class="wp-caption-text">“A Literatura é uma coisa da minha vida. Um gosto, um hobby, uma coisa muito importante”, compartilha Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho)</figcaption></figure>
<p><b>Como funciona o seu processo de escrita?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Em geral, envolve um período bastante longo em que eu fico só pensando e tomando notas esporádicas dos assuntos que eu acho que podem virar ficção, um período muito longo de pensar no que escrever. Isso envolve, claro, um pouco de pesquisa, procurar leituras que tenham a ver com assuntos ou com estilos que estão me interessando, mas envolve, também, dar um tempo pra imaginação ficar gestando histórias e personagens. Os personagens não vêm de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu começo a escrever, em geral, já sei bastante bem o que eu quero fazer. A escrita do livro em si não costuma ser muito demorada, eu levo em torno de um ano pra fazer um romance. É o período que envolve escrever bastante mesmo, diariamente, e fazer bastante pesquisa que ainda não foi feita, ler muita coisa. Conversar com pessoas, visitar lugares. A gente precisa de subsídios pra aprender sobre um tema ou vivenciar algumas coisas que vão ser úteis pro processo criativo e pra composição da trama.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Digamos que, entre um livro e outro, tem um tempo médio de três, quatro anos, dos quais metade, pelo menos, eu não estou trabalhando no manuscrito, estou procurando a minha história por meio de exercício de imaginação, de anotações, de leitura, de pesquisa. É o momento que eu me encontro agora, por exemplo. Eu publiquei meu último livro </i></span><span style="font-weight: 400;">[O Deus das Avencas] </span><span style="font-weight: 400;"><i>em junho do ano passado. Desde então, não escrevi quase nada, mas estou no processo de procurar o meu próximo trabalho. Estou sempre pensando na direção de um próximo romance ou de um próximo conjunto de histórias.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28689" aria-describedby="caption-attachment-28689" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28689" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg" alt="Foto em preto e branco da escritora Hilda Hilst. Na imagem, Hilda está inclinada em uma mesa, olhando para a câmera e segurando na mão direita um cigarro aceso. Ela veste uma camisa social branca e uma calça preta. Possui cabelos loiros. Ao fundo, há uma parede branca com quadros acizentados, além de uma estante com livros." width="1200" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-768x513.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28689" class="wp-caption-text">Daniel Galera elenca Hilda Hilst como uma de suas principais referências literárias (Foto: Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><b>Você tem um livro brasileiro favorito?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Não acho que seja possível responder isso categoricamente, mas eu sou muito fã da obra da </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535930863/da-prosa">Hilda Hilst</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>. Talvez os livros de ficção dela – seus textos de ficção em prosa – estejam entre as minhas coisas favoritas escritas por uma autora ou um autor brasileiro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>A </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>, recentemente, editou a </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535928853/da-poesia">obra completa</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i> dela, em dois volumes: um de poesia e um de prosa; são duas caixas, na verdade, com dois volumes. E talvez seja o meu livro favorito. Se eu tivesse que escolher um só pra poder reler no futuro, acho que seria esse </i></span><span style="font-weight: 400;">[com toda a prosa dela]</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Já reli várias vezes os textos dela, inclusive essa edição nova tem um posfácio meu. Só me dei conta disso agora, mas fica mais um motivo aí pra quem se interessar.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><b><i><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103698">Fluxo-floema</a></i></b> <b>foi uma das coisas que fizeram a minha cabeça como leitor também. </b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ah, foi? Então tu conhece bem do que eu estou falando. Eu sou apaixonado por esses livros de prosa dela. Já reli muitas e muitas vezes e nunca perde a força. Então, se a gente entender o livro favorito da Literatura brasileira como ‘se fosse obrigado a guardar só um pra poder reler no futuro’, se ficar dessa maneira, eu colocaria a prosa reunida da Hilda Hilst como esse livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28690" aria-describedby="caption-attachment-28690" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28690" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro o deus das avencas, de Daniel Galera. Na imagem colorida vemos uma arte abstrata, em cores rosa, verde, cinza, branco e roxo, que se assemelha a uma flor. À direta, está escrito em fonte de cor branca, Daniel Galera, o deus das avencas. Acima está o logo da editora companhia das letras, também em cor branca." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28690" class="wp-caption-text">“Eu fui sentindo como o realismo acabou se revelando pra mim apenas mais um gênero, apenas mais uma convenção narrativa”, diz Daniel Galera (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fazendo um paralelo entre seu último livro e o <i>Barba ensopada de sangue</i>, parece que já havia no <i>Barba </i>uma noção de um futuro perdido, algo que paira sobre a vida do protagonista, mesmo que por razões diferentes daquelas presentes no <em>Deus das Avencas</em>. No <em>Barba</em>, parece estar presente de forma mais subjetiva, enquanto no <i>Deus</i> parece surgir, principalmente, através das condições climáticas e políticas. Você consegue enxergar essa ligação? Se sim, como você lida, nos seus escritos, com essa sensação de “<a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/">futuro perdido</a>”, algo que parece ser um horizonte mas que, no capitalismo, nunca se concretiza?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sim, eu acho que dá pra enxergar uma progressão, inclusive colocando nessa progressão o romance que está entre </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>: o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927979/meia-noite-e-vinte">Meia-noite e vinte</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu entre um e outro, em 2016. O </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi concebido pra ser algo mais atemporal, digamos assim. Ele almeja ter uma estrutura e uma concepção um pouco mítica, uma história que representa um tipo de relação humana ou de experiência da condição humana que seria atemporal, uma coisa que viria pra qualquer época – questões de família, de heroísmo, de formação de identidade, de condição humana em geral. Embora se passe num lugar muito específico, numa época muito específica – e seja um romance, em grande medida, realista –, ele busca ter esse efeito. No entanto, se a gente lê com atenção, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> tem vários elementos ali sobre política, economia e, sobretudo, questões ambientais e ecológicas, que surgem como elementos de ambientação e de construção de espaço, de cenário.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que narra, por exemplo, como os pescadores artesanais estão perdendo o seu trabalho pra pesca industrial, e todas as consequências disso pra vida deles e pra economia da cidade. Ele narra como pessoas muito ricas, principalmente, acabam invadindo e ocupando lugares da região que deveriam ser preservados por lei, construindo na cidade e impondo uma urbanização ilegal e esteticamente terrível, e a forma como isso afeta a vida da região. Tem esses elementos ali no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e enquanto eu escrevia esse romance não pensava num livro que fosse sobre esses assuntos, mas eram assuntos importantes pra aquele lugar, naquela época, então eles acabam aparecendo.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Olhando pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é o romance seguinte, que saiu quatro anos depois, já é um livro em que essa questão do fim do mundo e das catástrofes políticas e ecológicas se coloca de uma maneira muito violenta. Ele é um livro sobre isso, sobre como a sensação de que esse mundo construído pelo progresso, pela modernidade, está ruindo no novo milênio, e como isso afeta as expectativas de vida de um grupo de quatro pessoas que eram jovens na virada do milênio e agora são adultos com família, profissão e carreira estabelecida, mas que, assim como todas as expectativas e os sonhos deles pro futuro, estão sendo destruídas pelo rumo político, econômico e cultural da civilização. Então, sim, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i> já é um livro sobre esse tema, das crises contemporâneas e da destruição das noções conhecidas do futuro. Ou da substituição por outras outras visões de futuro que eram muito novas e um pouco ameaçadoras.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28691" aria-describedby="caption-attachment-28691" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Meia-noite e vinte, de Daniel Galera. Na imagem colorida, vemos um fundo borrado, em cor azul, cinza e branco. À direita, escrito em forma de pontilhado e em cor vermelha, está escrito daniel galera. Abaixo, em fonte de cor branca, está escrito Autor de Barba ensopada de sangue, seguido por Meia-noite e vinte. Mais abaixo, à direita, está o logo da editora Companhia das Letras em cor cinza." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28691" class="wp-caption-text">Meia-noite e vinte retrata com maestria a geração que cresceu nos anos 1990 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Desse romance, eu depois fui pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, publicado cinco anos depois, que é essa reunião de três novelas em que a ideia de fim do mundo e as catástrofes contemporâneas são levadas a um outro patamar, mais especulativo – ou seja, já projetando pra um futuro próximo e também não próximo, um futuro distante, no caso da terceira novela, </i></span><span style="font-weight: 400;">Bugônia</span><span style="font-weight: 400;"><i>. São possíveis desenlaces das crises do presente, ou pelo menos situações ficcionais que tentam elaborar o significado das crises do presente por meio de uma imaginação mais fantasiosa, situada num futuro distante.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Se a gente observar, tem uma progressão um pouco coerente entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte </span><span style="font-weight: 400;"><i>e </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Acho que são saltos bem longos entre um livro e outro, na abordagem desse tema das crises contemporâneas e da crise do futuro. Não foi planejada dessa forma, claro. É uma coisa que eu só consigo perceber também como tu e como outros leitores ao olhar pra trás, mas sem dúvida se vê nesses três livros o despertar do meu interesse e da minha preocupação com esses assuntos, e depois o agravamento e a elaboração cada vez mais complexa, em termos de experiência e também de conceito dessas questões, pra mim, e como isso foi se transformando em ficção ao longo desses anos.”</i></span></p>
<p><figure id="attachment_28697" aria-describedby="caption-attachment-28697" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg" alt="Fotografia colorida do rompimento da barragem em Brumadinho. Na imagem, retirada de cima, é possível ver uma área repleta por lama de cor marrom. Ao fundo, é possível ver uma enorme área verde. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28697" class="wp-caption-text">O rompimento da barragem em Brumadinho (MG), controlada pela empresa Vale – antiga Vale do Rio Doce –, caracterizou o maior acidente de trabalho na História do Brasil, e um dos maiores desastres ambientais do país [Foto: Vinícius Mendonça/Ibama]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Poucos meses depois do rompimento da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/">barragem em Brumadinho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu em janeiro de 2019, Daniel Galera teve publicado na revista </span><span style="font-weight: 400;"><i>Serrote </i></span><span style="font-weight: 400;">o ensaio </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.revistaserrote.com.br/2019/10/ondas-catastroficas-por-daniel-galera/">Ondas catastróficas</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, no qual reflete sobre a dificuldade de manter a narração realista em meio às influências das imagens de catástrofe veiculadas diariamente. No texto, o autor analisa o lugar desse “realismo” na Literatura contemporânea. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu acho que o tipo de excesso e de fenômeno complexo que a gente está vivenciando no presente – em escalas globais, planetárias e universais – acaba revelando o quanto aquilo que a gente entende como ‘realismo’ sempre foi uma convenção narrativa também. A realidade mesmo se tornou muito inapreensível, mesmo com as técnicas do realismo. Parece que tudo escapa às convenções do realismo</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhou forma como um resultado dessas reflexões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso pensar que, no mundo frenético e absurdo da contemporaneidade – em que a realidade vem competindo de igual para igual com as </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/11/imbrochavel-new-york-times-incorpora-o-vocabulario-do-governo-bolsonaro.htm">distopias</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ficção especulativa –, a noção de realismo seja colocada em xeque, devido a uma imposição quase silenciosa das interações sociais por meio da tecnologia. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>A gente vive num tempo que, pelas características culturais, tecnológicas – a própria textura do dia a dia, mediado pelas tecnologias digitais –, tudo nos força a reformular um pouco o que merece ser narrado e como merece ser narrado. Porque algumas coisas se tornaram simplesmente redundantes ou sem sentido. As comunicações pessoais, por exemplo, hoje são feitas quase estritamente por meio de </i></span><span style="font-weight: 400;">WhatsApp</span><span style="font-weight: 400;"><i>, de celulares, de computadores, de telas… Como é que a gente narra isso? Como é que a gente escreve realisticamente sobre isso?</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete o escritor.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a fantasia, a ficção científica, o horror, nos dão uma textura e um tipo de emoção e de experiência estética que captura com mais potência a experiência de viver neste presente.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse realismo – para além das convenções de escrita e de gênero literário – encontra ressonâncias no que </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://jacobin.com.br/2020/01/o-legado-anticapitalista-de-mark-fisher/">Mark Fisher</a></span><span style="font-weight: 400;"> chamou de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/">realismo capitalista</a></span><span style="font-weight: 400;">”, em sua obra homônima de 2009 na qual reflete que, sob a nova roupagem neoliberal do sistema econômico, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É sob essa perspectiva que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Tóquio</i></span><span style="font-weight: 400;">, segunda novela da coletânea </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;">, parece ganhar espaço, pois em meio às crises ambientais retratadas na trama, os indivíduos buscam uma transcendência do corpo (nesse aspecto, as similaridades com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535929843/zero-k-romance">Zero K</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> [2016], de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.terra.com.br/diversao/cinema/ruido-branco-abre-festival-de-cinema-de-veneza-com-satira-a-cultura-americana,1606d970759ddd8dfcec6c3b7b095006f6vywbup.html">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;">, também se mostram visíveis). O interessante é perceber que, mesmo retratando histórias sobre fins – de um possível bem-estar social a um mundo pós-apocalíptico –, Daniel Galera jamais recorre a clichês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela que dá título à coletânea, embora em um formato mais realista – que contempla o aspecto do trabalho anterior do autor –, foge de qualquer percepção alienada da realidade dos protagonistas Lucas e Manuela, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por fim, as reflexões sobre a representação não devem se encerrar no novo formato explorado pelo escritor: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Depois de </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, estou num impasse, porque eu não sei se dobro a aposta nesse caminho ou se eu vou pra algum lugar inteiramente novo, que não trabalhei ainda</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bate-papo sobre o livro “O deus das avencas”, com Daniel Galera e Sidarta Ribeiro" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gYZ1X0qANwA?start=2009&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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