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	<title>Arquivos Ditadura Militar &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A nevasca que cobre Buenos Aires em O Eternauta só não é mais densa que a história que ela simboliza</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2025 13:00:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Dias Siqueira Quando se fala em adaptações de quadrinhos logo nos vem à cabeça grandes produções de Hollywood sobre super-heróis vestidos em roupas coloridas e muita ação. Mas isso é uma fração da verdadeira diversidade dos quadrinhos, que não só cobrem uma variedade de temas e estilos, como também de culturas e subtextos regionais. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-o-eternauta/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A nevasca que cobre Buenos Aires em O Eternauta só não é mais densa que a história que ela simboliza"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_35638" aria-describedby="caption-attachment-35638" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-35638 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/Eter1.jpg" alt="Cena da série O Eternauta, da Netflix. A cena mostra a silueta de Juan Bolsa (Ricardo Darín) caminhando por uma rua coberta de neve, a sua esquerda é possível ver um ônibus abandonado e a sua direita dois carros em estado semelhante, às margens da via existem prédios altos também cobertos de neve, toda paisagem está envolta em um espesso nevoeiro." width="650" height="366" /><figcaption id="caption-attachment-35638" class="wp-caption-text">O Eternauta reflete uma história de violência e opressão comum à toda América do Sul (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Dias Siqueira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando se fala em adaptações de quadrinhos logo nos vem à cabeça grandes produções de Hollywood sobre </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mcu/"><span style="font-weight: 400;">super-heróis</span></a><span style="font-weight: 400;"> vestidos em roupas coloridas e muita ação. Mas isso é uma fração da verdadeira diversidade dos quadrinhos, que não só cobrem uma variedade de temas e estilos, como também de culturas e subtextos regionais. No contexto latino-americano, uma riqueza de obras permanece vastamente inexplorada pela maior parte do público. Um desses materiais, talvez o mais importante de todos, foi retirado dessa semi-escuridão pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;"> este ano: </span><i><span style="font-weight: 400;">O Eternauta</span></i><span style="font-weight: 400;">, a obra-prima de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano Lopes.</span></p>
<p><span id="more-35637"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio ao verão argentino, um grupo de amigos se encontram para jogar baralho em uma casa de Buenos Aires. A tradição que eles cultivam a anos tem sua monotonia quebrada por um evento climático inesperado, uma nevasca chega sorrateiramente e começa a matar instantaneamente qualquer um que a toque. Liderados por Juan Salvo (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=00jvmItGSBI"><span style="font-weight: 400;">Ricardo Darín</span></a><span style="font-weight: 400;">), o grupo precisa se livrar das desconfianças vindas de uma amizade antiga, porém não tão profunda, para sobreviver e descobrir o real contexto desse apocalipse.</span></p>
<figure id="attachment_35639" aria-describedby="caption-attachment-35639" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-35639 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter2-800x450.jpg" alt="cena da série O Eternauta. A cena mostra em primeiro plano um jipe das forças armadas argentinas com um soldado posicionado acima do veículo, portando um rifle longo. Ao fundo, a parte inferior de um viaduto está fechado com uma pilha de carros destruídos formando uma barricada. A rua está coberta de neve e a paisagem está envolta em névoa, com um céu acinzentado" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter2.jpg 912w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35639" class="wp-caption-text">O militarismo na América Latina é um tema recorrente em O Eternauta (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A fonte da qual se adapta a série não vem de um subgênero extremamente alternativo e revolucionário. Na verdade, o cenário base para </span><i><span style="font-weight: 400;">O Eternauta</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma invasão alienígena, se insere nos contextos basilares da ficção científica desde o século XIX. Mesmo com obras como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3sjodEDyhXU"><i><span style="font-weight: 400;">A Guerra Dos Mundos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de H.G. Wells existindo no cânone do gênero desde os anos 1890, Oesterheld fundou em seu trabalho conceitos antes inéditos ou não tão presentes nesse tipo de quadrinho. Talvez o mais importante desses conceitos, ‘o herói coletivo’, se mantém como pedra fundamental na versão da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os </span><a href="https://outraspalavras.net/descolonizacoes/oeternauta-propoe-a-volta-do-heroi-coletivo/"><span style="font-weight: 400;">protagonistas</span></a><span style="font-weight: 400;"> da série não possuem nenhuma habilidade especial de fato. Nenhum deles tem, individualmente, qualquer controle ou poder sobre a situação, como é comum em histórias clássicas de heróis. Somente como grupo eles encontram as soluções das quais precisam. O roteiro é muito ágil em demonstrar diversas situações em que um ou mais personagens se encontram em situações intransponíveis, inclusive de quase morte, que só são superadas com a ajuda de outros.</span></p>
<figure id="attachment_35640" aria-describedby="caption-attachment-35640" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35640" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter3-800x533.jpg" alt="Página do quadrinho O Eternauta. A arte mostra Juan Salvo, um homem branco de meia idade, de olhos azuis, ele olha fixamente para frente e usa uma máscara de gás com um visor no rosto e um filtro de respiração na altura do pescoço" width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter3-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter3-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter3.jpg 1170w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35640" class="wp-caption-text">O estilo artístico da série reflete muito bem os desenhos sombrios de Solano Lopes (Foto: Pipoca e Nanquim)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto que a série traz a vida com maestria é a atmosfera gráfica. A direção de Bruno Stagnaro consegue adaptar a arte do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3rxzR5bElhc"><span style="font-weight: 400;">desenhista</span></a><span style="font-weight: 400;"> Francisco Solano Lopes de forma fria e seca. O cenário de desolação do mundo exterior contrasta com a sensação de claustrofobia sempre constante nos refúgios em que os personagens se protegem da neve. Isso também impacta em algo fundamental para qualquer obra pós-apocalíptica: a transformação de ambientes cotidianos nas ruínas da civilização que colapsou. Igrejas, escolas, farmácias, vagões de trem, formas comuns do dia-a-dia de qualquer pessoa, são transformados em escombros e vestígios do que um dia foram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro é mais discreto nos comentários políticos. Oesterheld carrega uma das </span><a href="https://blogdaboitempo.com.br/2015/10/23/os-ultimos-passos-de-hector-oesterheld/"><span style="font-weight: 400;">histórias</span></a><span style="font-weight: 400;"> mais trágicas oriundas da violentíssima ditadura militar argentina, suas dores, medos e indignações permeiam sua obra constantemente. Entre junho de 1976 e dezembro de 1977 suas quatro filhas, Beatriz, Diana, Marina e Estela, foram sequestradas, desaparecidas e assassinadas pelo regime sanguinário, do qual o próprio HGO seria vítima. Oesterheld desapareceu no mesmo período, de sua família só sobreviveram sua esposa e seus dois netos, que se tornaram órfãos antes de completarem 4 anos.</span></p>
<figure id="attachment_35641" aria-describedby="caption-attachment-35641" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-35641" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/09/eter4.jpg" alt="Cena da série O Eternauta, a cena mostra Juan Bolsa, um homem branco de meia idade. Ele olha para frente, empunhando um fuzil, ele veste um casaco marrom e uma máscara de gás azul" width="600" height="390" /><figcaption id="caption-attachment-35641" class="wp-caption-text">Os traumas de guerra acompanham os personagens em sua jornada no mundo destruído (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde sua primeira versão, o quadrinho tinha tons explícitos de crítica ao imperialismo, ao capitalismo e ao autoritarismo presentes nas sociedades latino-americanas. A série, por sua vez, é mais sutil, mas usa como artifício algo mais contemporâneo — a guerra das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=pZmtP2UdGoI"><span style="font-weight: 400;">Malvinas</span></a><span style="font-weight: 400;"> — não só para reforçar o tom sócio-político, como também um desenvolvimento pessoal fundamental aos personagens já que vários deles são veteranos do conflito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses traumas se tornam ainda mais vividos graças ao elenco estrelado, o Juan Salvo de Ricardo Darín tem todas as notas certas. O ator não decepciona a expectativa criada em torno do seu nível de astro internacional, conquistado após filmes como </span><a href="https://personaunesp.com.br/argentina-1985-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Argentina, 1985</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2022). Outro destaque é o uruguaio César Troncoso, seu personagem Tano tem um papel fundamental na trama como uma pessoa egoísta que aos poucos precisa se livrar do individualismo para garantir que todos sobrevivam.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Eternauta</span></i><span style="font-weight: 400;"> é mais uma adaptação literária de grande qualidade da </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;">, depois de </span><i><span style="font-weight: 400;">Cem Anos de Solidão </span></i><span style="font-weight: 400;">(2024), baseada no livro homônimo de Gabriel Garcia Márquez e de </span><a href="https://personaunesp.com.br/ripley-1a-temp-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Ripley</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2024), baseada na obra de Patricia Highsmith. O seriado revela que, mesmo com toda a disputa pela atenção e concentração dos telespectadores, ainda há espaço para produções densas e deslocadas do eixo América do Norte/Europa nos serviços de streaming. </span></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=95V9sqY80K8"><span style="font-weight: 400;">https://www.youtube.com/watch?v=95V9sqY80K8</span></a></p>
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		<title>5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Nov 2024 20:01:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Clara Alves Tão emblemática quanto polêmica, Marighella, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/5-anos-de-marighella-e-a-contestacao-de-uma-narrativa-unica-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_34479" aria-describedby="caption-attachment-34479" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-34479" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg" alt="[Texto alternativo: O ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, está localizado no centro da foto, olhando para seu filho Carlinhos, à esquerda. Ao fundo, há um céu nublado e acinzentado.]" width="800" height="444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-768x426.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34479" class="wp-caption-text">A produção passa por quatro dos 58 anos vividos por aquele que era o ‘inimigo número um do Brasil’ (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><b>Maria Clara Alves</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tão emblemática quanto polêmica, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo,</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras e, sobretudo, emocionantes. A partir do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MEKNun7N9ns"><span style="font-weight: 400;">fascínio</span></a><span style="font-weight: 400;"> do cineasta por movimentos populares de resistência, fica claro que o longa-metragem</span> <span style="font-weight: 400;">foi pensado a partir da necessidade de recontar a história da Ditadura Militar por um ponto de vista mais </span><a href="https://www.significados.com.br/foice-e-o-martelo/"><span style="font-weight: 400;">vermelho</span></a><span style="font-weight: 400;"> e visceral.</span></p>
<p><span id="more-34474"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Carlos Marighella da história nasceu em Salvador e foi o mais velho de oito irmãos. Seu pai, Augusto Marighella, era um imigrante italiano que veio para o Brasil em uma das </span><a href="https://www.todamateria.com.br/imigracao-no-brasil/#:~:text=Com%20a%20proibi%C3%A7%C3%A3o%20do%20tr%C3%A1fico,de%20imigrantes%20europeus%20no%20pa%C3%ADs."><span style="font-weight: 400;">ondas de incentivo à imigração</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a abolição. No século XIX, sua mãe, Maria Rita dos Santos, era filha de escravos e tinha origem sudanesa, da etnia </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mvCzydN5kak"><span style="font-weight: 400;">haussá</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desde cedo, o menino se destacava pela </span><a href="https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/desventuras/e-ruim-em-exatas-faca-como-marighella-e-use-poesia-seu-favor.phtml"><span style="font-weight: 400;">habilidade com as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> na escola. Anos mais tarde, ele teria se radicalizado e passado a militar como deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual </span><a href="https://memorialdademocracia.com.br/card/pcb-fecha-questao-contra-luta-armada"><span style="font-weight: 400;">rompeu</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a renúncia de João Goulart. Depois, juntou-se à Aliança Nacional Libertadora (ANL), pela qual lutou até o ano da sua morte (1969).</span></p>
<p><figure id="attachment_34478" aria-describedby="caption-attachment-34478" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-34478" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg" alt="[Texto alternativo: Na foto, há quatro pessoas enumeradas da esquerda para a direita, sendo elas Seu Jorge, Wagner Moura, Bruno Gagliasso e Bella Camero, segurando uma camiseta vermelha de tom vibrante com o rosto de Carlos Marighella. O fundo atrás é de cor azul e é do Festival Internacional de Cinema de Berlim.]" width="800" height="481" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1200x721.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1.jpg 1265w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34478" class="wp-caption-text">Marighella teve sua primeira aparição em terras estrangeiras frente a conflitos com a Ancine em 2019 (Foto: John Macdougall/AFP)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desde a sua idealização, o filme enfrentou </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/wagner-moura-o-que-aconteceu-com-lancamento-de-marighella-foi-censura/"><span style="font-weight: 400;">grandes dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> relacionadas à  propagação de conteúdos falsos, ameaças e falta de apoio financeiro. A carreira consolidada de Wagner Moura no ramo da atuação pouco serviu como fator de convencimento para muitas das grandes e tradicionais produtoras cinematográficas do país, que buscavam não se associar com a figura do guerrilheiro – tido como </span><a href="https://pcb.org.br/portal2/31046"><span style="font-weight: 400;">revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> para algumas pessoas e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/saiba-quem-foi-carlos-marighella-guerrilheiro-comunista-adepto-do-terror-na-luta-contra-a-ditadura,d2f152d4cf43cc8c3b17372f52f5d20cskntyhar.html"><span style="font-weight: 400;">terrorista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma parcela muito maior dessas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A </span></i><span style="font-weight: 400;">obra</span> <span style="font-weight: 400;">se desenrolou, de fato, sob o selo da produtora independente </span><i><span style="font-weight: 400;">O2 Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> e foi exibida, pela primeira vez, em Fevereiro de 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">69° Festival Internacional de Cinema de Berlim</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, embora tenha estreado oficialmente nos cinemas brasileiros apenas em 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2019, o longa tinha sido cancelado pela </span><a href="https://www.politize.com.br/ancine/#"><i><span style="font-weight: 400;">Agência Nacional de Cinema</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Ancine)</span></i><span style="font-weight: 400;"> devido à produtora não ter entregue a documentação sobre os investimentos que custearam o filme dentro do prazo. Ao mesmo tempo, a agência era </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ameaçada de extinção</span></a><span style="font-weight: 400;"> caso o seu catálogo não fosse revisto. Isso foi mais uma adição à </span><a href="https://youtu.be/tnW3ErkJtO0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">lista de dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> que quase custaram a estreia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><figure id="attachment_34477" aria-describedby="caption-attachment-34477" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-34477" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg" alt="[Texto alternativo: Ao centro da foto, nota-se Carlos Marighella (Seu Jorge) vestindo uma regata branca com uma blusa azul claro de manga por cima. Ele aparenta estar conversando, dada a abertura da boca e a direção dos seus olhos. No fundo, há uma parede de tom esverdeado, devido à iluminação, com alguns objetos encostados nela, como um lampião, dois bastões e um vaso de planta.]" width="800" height="487" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1024x623.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-768x468.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1200x730.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1.jpg 1237w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34477" class="wp-caption-text">Os ideais de Marighella não morrem com ele, mas perseveram na rejeição (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Apesar da sua minutagem não comercial, o longa-metragem – distribuído em conjunto pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Paris Filmes e Downtown Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ganhou as salas de cinema por todo o Brasil e se consagrou como a </span><a href="https://blogdacidadania.com.br/2021/12/marighella-teve-1-16-do-publico-do-homem-aranha/"><span style="font-weight: 400;">maior bilheteria nacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 2021. O roteiro, escrito por Wagner Moura em conjunto com o produtor Felipe Braga, trabalha com dois extremos do baiano: a afetuosidade com o filho e o desgosto, visível no olhar, com a figura dos militares. A expressividade do protagonista é, inclusive, um dos pontos de destaque da trama. Os olhos profundos e penetrantes de Seu Jorge se destacam nas cenas em que o ator está presente e conferem camadas de sensibilidade à personagem, cativando o público e instigando a afinidade dele com Marighella.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sucessão rápida e violenta das cenas fomenta sensações de ansiedade e tensão no espectador, com o objetivo de transmitir a adrenalina, o amor pelo próprio país e o medo das personagens. As câmeras são rápidas para acompanhar os momentos de embate e fuga dos combatentes, mas também conseguem </span><a href="https://youtu.be/OIxAan_abLw?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">captar fielmente a essência</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cenas mais paradas de diálogo, com sombreados sempre presentes e que se tornam responsáveis pela carga de seriedade. A narrativa progride com a execução de membros da ALN: primeiro Maria (Ana Paula Bouzas), depois Guilherme (Guilherme Ferraz), Rafael (Rafael Lozano), Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz) e Jorge Salles (Herson Capri).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Era questão de tempo para que as autoridades chegassem até o protagonista e a ambientação, marcada pelo maior contraste das cores e iluminação escurecida, também incita essa agonia. O </span><a href="https://youtu.be/PK8bJq4Qcx0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">trabalho com as câmeras</span></a><span style="font-weight: 400;"> – com direção de Adrian Teijido – e o uso dos diferentes tipos de luz foram essenciais para acompanhar toda a dinamicidade da luta armada no ambiente urbano. Além disso, o trabalho de produção, coordenado por Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck, contou com muitas cenas gravadas no período da noite, quando a penumbra intensifica as expressões das personagens e as sensações incitadas no público.</span></p>
<p><figure id="attachment_34476" aria-describedby="caption-attachment-34476" style="width: 480px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34476" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-4.gif" alt="[Texto alternativo: O GIF mostra um recorte do trailer oficial do filme Marighella, em que o guerrilheiro (Seu Jorge) está olhando fixamente para a câmera e se aproxima enquanto ela o grava. Há um fundo amarronzado, borrado e escuro por trás da personagem. Em seguida, os nomes do diretor e do longa são exibidos.]" width="480" height="254" /><figcaption id="caption-attachment-34476" class="wp-caption-text">Os olhos de Seu Jorge interpelam o espectador a não desviar o seu olhar nem por um segundo (GIF: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">A cinebiografia trabalha com a ideia de contrastes que vai sendo retomada sucessivamente ao decorrer do filme, a exemplo da representação do baiano, que levava a frase ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">olho por olho</span></i><span style="font-weight: 400;">’ como um mantra para tomar decisões, até a memória dos momentos que a personagem compartilha com Carlinhos, seu único filho. A </span><a href="https://youtu.be/f-Ahp2_1Gcs?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">conexão</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre pai e filho – mesmo com a distância e a perseguição política – é frequentemente retomada na trama, sendo fundamental para mostrar o </span><a href="https://revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/wagner-moura-e-seu-jorge-falam-sobre--marighella-"><span style="font-weight: 400;">lado humano</span></a><span style="font-weight: 400;">, muitas vezes, negado de Carlos Marighella, que se contrapõe à sua representação depreciativa no imaginário coletivo brasileiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fardo da morte, em</span><i><span style="font-weight: 400;"> Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, é tratado da forma mais fria possível. O lado amargo da luta armada é retratado a todo momento ao mostrar a </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/repressao-e-violacao-de-direitos-humanos/"><span style="font-weight: 400;">discrepância</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre guerrilheiros e militares, esses que tinham todo o aparato bélico e midiático a seu favor. A ambientação sombria das cenas evidencia a solidão e desumanização dos combatentes que, enquanto questionadores, não eram vistos e nem tratados como brasileiros. A angústia e melancolia tomam conta do enredo e de quem o assiste como uma neblina, dificultando a digestão de cenas mais leves, que se tornam cada vez mais escassas frente às diversas cenas gráficas de violência.</span></p>
<p><figure id="attachment_34475" aria-describedby="caption-attachment-34475" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34475" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg" alt="[Texto alternativo: À direita da fotografia, o ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, carrega seu filho nos braços, que os envolvem no pescoço. O adulto está de cabeça baixa, enquanto a criança observa a passagem de militares pelas ruas do Rio de Janeiro.]" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34475" class="wp-caption-text">A produção tem grande carga emocional por explorar os lados de um Carlos Marighella guerrilheiro, marido e pai (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">O lado humano de Marighella é explicitado, principalmente, nas trocas que ele tem com </span><a href="https://www.metro1.com.br/noticias/bahia/147837,tive-a-sorte-de-ser-filho-de-marighella-e-nao-pude-desfrutar-dele-diz-filho-do-guerrilheiro-morto-durante-a-ditadura-militar"><span style="font-weight: 400;">Carlinhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, levando-o no peito e no pensamento. Ainda que vivesse como fugitivo, o guerrilheiro fez do amor de seu filho o seu norte, direção que seguiu até o final de sua vida. A narrativa não linear faz um trabalho excepcional ao retratar os acontecimentos com alguns pensamentos e comentários do protagonista, possibilitando a compreensão aprofundada das múltiplas faces de uma das figuras mais polêmicas do Brasil até hoje.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;"> passa obrigatoriamente pelo campo de debate político e dialoga com aqueles que têm interesse em conhecer os valores de uma das pessoas mais </span><a href="https://diplomatique.org.br/marighella-entre-o-fato-a-fake-news-e-a-ficcao/"><span style="font-weight: 400;">controversas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país, seja para questioná-la ou admirá-la. Apesar do salto temporal do enredo para os dias atuais, muitas questões permanecem as mesmas, especialmente a distorção dos fatos sobre o revolucionário. A obra conseguiu entregar uma cinebiografia condizente com a história conturbada e mal interpretada de Carlos, permanecendo como uma crítica ácida à sociedade brasileira.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Marighella | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fd8oX1u8gRA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>O Oscar é passageiro e Ainda Estou Aqui é eterno</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Nov 2024 20:06:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: o texto contém spoiler e aborda temas sensíveis. Davi Marcelgo e Guilherme Machado Leal  O Cinema de Walter Salles se concentra em temáticas semelhantes, principalmente em Terra Estrangeira (1995) e Central do Brasil (1998), histórias sobre memória, esquecimento e a relação de suas personagens com o Brasil. No primeiro, Fernanda Torres interpreta Alex e, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ainda-estou-aqui-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Oscar é passageiro e Ainda Estou Aqui é eterno"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em><b>Aviso</b>: o texto contém spoiler e aborda temas sensíveis.</em></p>
<figure id="attachment_34409" aria-describedby="caption-attachment-34409" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34409" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image5.png" alt="Na imagem, Eunice olha para frente com expressão de tristeza e olhos marejados. A cena possui tons de azul e verde, cores melancólicas. O cenário é de um restaurante, ao fundo há mesas e um homem em desfoque à esquerda. Eunice é uma mulher na faixa dos 60 anos, de pele clara, cabelos escuros e lisos na altura do pescoço. Ela usa brincos grandes, pretos e arredondados. Ela está vestindo uma camisa de botões, com a gola aberta. A roupa é na cor verde escura e estampas de flores. " width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-34409" class="wp-caption-text">O filme levou 350 mil pessoas aos cinemas no fim de semana de estreia (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><b>Davi Marcelgo e Guilherme Machado Leal</b><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema de Walter Salles se concentra em temáticas semelhantes, principalmente em </span><i><span style="font-weight: 400;">Terra Estrangeira</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1995) e </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/central-do-brasil-relembre-a-historia-do-filme-brasileiro-indicado-ao-oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Central do Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1998), histórias sobre memória, esquecimento e a relação de suas personagens com o Brasil. No primeiro, Fernanda Torres interpreta Alex e, no segundo, é a sua mãe, Fernanda Montenegro, quem dá vida à professora Dora. Em 2024, com </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">, adaptação de livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o diretor retoma a parceria com as atrizes para abordar um outro período da história: a Ditadura Militar brasileira. Ambientado no Rio de Janeiro da década de 1970, o longa-metragem acompanha a vida de Eunice Paiva (</span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-e-sorte-critica/"><span style="font-weight: 400;">Fernanda Torres</span></a><span style="font-weight: 400;">) e seus filhos após o desaparecimento de Rubens Paiva (Selton Mello), ex-deputado engajado na luta contra o regime ditatorial. </span></p>
<p><span id="more-34404"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre tantos trunfos de Salles, o maior é universalizar os sentimentos de alguém vítima de um período específico da história brasileira. Embora o período seja importante e doloroso, é particular na vida de Eunice e de outras pessoas que sofrem com a </span><a href="https://www.pucsp.br/comissaodaverdade/mortos-e-desaparecidos-contextualizacao.html"><span style="font-weight: 400;">ausência de respostas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a incerteza deixada pela ditadura. O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorena conseguem transmitir o acontecimento em uma experiência que perpassa a necessidade de ter vivido aquilo e transforma a tragédia em um sentimento coletivo. Até porque, como fazer com que ‘eu’ compadeça com a dor alheia? O retrato de Rubens Paiva, nos primeiros minutos do filme, aproxima e apresenta o espectador ao personagem; um pai amoroso, marido devoto e amigo querido. A presença de </span><a href="https://personaunesp.com.br/enterre-seus-mortos-critica/"><span style="font-weight: 400;">Selton Mello</span></a><span style="font-weight: 400;"> em tela é tão onipotente que, sem ele em cena, a ausência é avassaladora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Elemento excelente, afinal, é a importância de um pai na família e o que seu desaparecimento causou em todos que moravam naquela casa. A encenação que configura o antes e depois do decesso de Rubens Paiva, personificada nas mudanças que ocorrem no lar, espaços e iluminação, também é um mérito imbatível para te fazer sentir. Os tons de amarelo são substituídos pelo azul ou pela sombra, enquanto as músicas agitadas do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> libertino britânico ou da </span><a href="https://personaunesp.com.br/samba-esquema-novo-aniversario/"><span style="font-weight: 400;">bossa nova</span></a><span style="font-weight: 400;"> são abafadas pelo ensurdecedor silêncio. </span></p>
<figure id="attachment_34406" aria-describedby="caption-attachment-34406" style="width: 420px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34406" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image2-12.png" alt="Na imagem, Rubens Paiva está olhando para a direita, com expressão séria. Ele veste uma camiseta vermelha e está sentado em uma poltrona. Ele é um homem na faixa dos 50 anos, de pele clara, bigode e cabelos grisalhos e lisos. Atrás dele e em volta há cortinas vermelhas. " width="420" height="240" /><figcaption id="caption-attachment-34406" class="wp-caption-text">Ainda Estou Aqui fez parte 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/01/20/rubens-paiva-50-anos-depois-de-sua-prisao-politica-e-de-seu-assassinato"><span style="font-weight: 400;">A casa carioca</span></a><span style="font-weight: 400;"> se torna uma personagem modificada assim como os humanos dessa história, vazia e silenciosa, sem precisar, como um dia necessitou, que uma câmera tenha de correr para acompanhar a agitação das danças e das crianças. Se a vida dessa família possui um antes e depois extremamente delimitado, o filme também possui duas partes. A partir disso, o longa constrói uma aproximação forte, sobretudo porque todo mundo já perdeu alguém, parou de frequentar os mesmos lugares que ia na infância ou viu o familiar ficar irreconhecível. Ao compreender essa natureza humana, Walter Salles, a direção artística de Gabriel García e a Fotografia de Adrian Teijido  transformam a história da família Paiva em uma experiência coletiva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro ato do longa se preocupa em mostrar o dia a dia dos Paiva. O tradicional almoço de domingo, com a presença de amigos próximos e agregados do círculo social, contribui para caracterizar a família. Veroca (</span><a href="https://revistaquem.globo.com/entrevistas/quem-disse/noticia/2024/11/valentina-herszage-o-cinema-tem-o-poder-de-dar-nome-e-rosto-as-vitimas-da-ditadura.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Valentina Herszage</span></a><span style="font-weight: 400;">), filha mais velha de Eunice e Rubens, não vive longe de sua câmera. Com o objeto, os costumes daquela casa são eternizados em </span><i><span style="font-weight: 400;">polaroids</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ilustram o lar. A partir do sumiço do patriarca, a repressão, sutilmente representada por sons e frases ambíguas de que algo está acontecendo no país, ganha um tom de denúncia e se concentra no sentimento de revolta de uma mãe e filhos desamparados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na vida, fotografias servem para registrar momentos, sejam eles agradáveis ou tensos. A </span><a href="https://www.instagram.com/p/DCLIF0JpBhn/?igsh=MTd0aDh3N2o5cXYy"><span style="font-weight: 400;">memória</span></a><span style="font-weight: 400;"> nem sempre é um atestado de que o momento recortado foi bom. Na verdade, ela relembra as sensações que foram experienciadas no dia em que tudo aconteceu. Paralelamente a isso, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">, as fotos marcam o estado de uma época definida pela censura. Um olhar mais à esquerda, um sorriso mais contido e expressões mais sisudas também funcionam como evidências do terror vivido pelos brasileiros nos 21 anos do regime.</span></p>
<figure id="attachment_34407" aria-describedby="caption-attachment-34407" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34407" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image3-4.png" alt="Na imagem, Eunice Paiva, mulher branca de cabelo curto castanho, olha para Rubens Paiva, homem branco de cabelo curto e com bigode, enquanto ambos posam para uma fotografia na praia. Ela veste um conjunto preto e está sorrindo para o homem. Ele está sem camiseta e também sorri em direção à câmera. " width="984" height="531" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image3-4.png 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image3-4-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image3-4-768x414.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34407" class="wp-caption-text">No longa de Salles, as fotos também funcionam como fio-condutor da narrativa (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As representações fotográficas, então, apontam o medo no olhar dos personagens. Mostrar os dentes, em 1970, não é simplesmente uma expressão facial de que está tudo bem. Pelo contrário, é o reconhecimento da dor de uma família que permaneceu sem respostas de seu ente querido após as táticas de </span><a href="https://www.politize.com.br/tortura-ferramenta-regime-militar/"><span style="font-weight: 400;">tortura</span></a><span style="font-weight: 400;"> realizadas pelos militares. Apesar de tudo, nesse contexto, sorrir é um atestado da confirmação de que algo bruto, como a morte do ex-deputado, é melhor recebido do que  uma falsa sensação de esperança. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Maneirismos, características e hábitos evidenciam a personalidade dos seres humanos. Ir à sorveteria regularmente, ouvir os discos de um artista da MPB, como </span><a href="https://oglobo.globo.com/blogs/blog-do-acervo/post/2022/11/medo-nao-faz-parte-da-minha-vida-a-rebeldia-de-gal-costa-nos-anos-de-chumbo.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Gal Costa</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou fazer suflê como prato principal são apenas alguns dos costumes do lar carioca. Por exemplo, Nalu Paiva (</span><a href="https://www.em.com.br/cultura/2024/08/6924341-atriz-mineira-comenta-papel-no-longa-de-walter-salles-que-disputara-veneza.html"><span style="font-weight: 400;">Bárbara Luz</span></a><span style="font-weight: 400;">), a filha do meio, tem uma relação próxima com o pai. O terno, seu cigarro e a maneira de se portar atuam para a jovem como uma aproximação mínima do que, um dia, Rubens foi quando preenchia física e sentimentalmente o lar. Com a partida, aquilo que era cotidiano ganhou um novo significado: a percepção de que objetos materiais podem, de fato, ser extensões daqueles que amamos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É através de objetos e apelidos carinhosos que o filme compõe a atmosfera de saudades; ao desaparecerem do cotidiano, convergem com o propósito de marcação das fases da casa e o sentimento de mudanças pungentes. O papel de Eunice como mulher dentro daquele núcleo e as </span><a href="https://gente.globo.com/donas-da-casa-o-papel-da-mulher-na-organizacao-familiar/"><span style="font-weight: 400;">novas posições</span></a><span style="font-weight: 400;"> que precisa assumir também é afetado nesta dinâmica: agora, ela quem está à frente dos negócios da casa e nem sempre consegue acessar o que é de direito, por exemplo, o dinheiro no banco. Para além de elementos em cena ou texto – como os militares enclausurados nas sombras –, a câmera incorpora a ausência do pai, como a cena em que senta na mesa, ocupando uma cadeira vazia. </span></p>
<figure id="attachment_34405" aria-describedby="caption-attachment-34405" style="width: 738px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34405" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image1-3.jpg" alt="Cena do filme Ainda Estou Aqui Na imagem, Eunice Paiva, mulher branca de cabelo curto castanho, na faixa dos 60 anos, está sentada e olhando para cima com uma expressão de susto enquanto está dentro de uma dela. Ela veste uma camisa azul e uma calça bege. " width="738" height="415" /><figcaption id="caption-attachment-34405" class="wp-caption-text">Torres, em entrevista para a Elle Brasil, disse que prioriza tons sóbrios nas roupas para o tapete vermelho, uma demonstração de fidelidade à personagem (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, embora pequenos, há momentos em que o filme perde a força, principalmente quando muda de década ou deseja denunciar a ditadura. Quando ocorre a passagem de tempo da década de 1970 para 1996 e, depois, </span><a href="https://veja.abril.com.br/saude/foi-angustiante-ve-la-sumir-diz-marcelo-rubens-paiva-sobre-a-mae"><span style="font-weight: 400;">2014</span></a><span style="font-weight: 400;">, o enredo dá saltos grandes e não permite que o espectador acompanhe a trajetória da família com a mesma aproximação e lentidão como grande parte do longa, deixando a sensação de ter algo faltando. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto ao caráter de manifestação direta, o momento de Eunice falando com repórteres sobre a importância da memória e da resistência soa como um texto pronto para viralizar nas redes sociais e abandona o lado íntimo, destoando das duas horas anteriores. Inclusive, a </span><a href="https://cbn.globo.com/cultura/entrevista/2024/11/13/ailton-krenak-e-impossivel-contar-historia-do-movimento-indigena-na-ditadura-sem-falar-de-eunice-paiva.ghtml"><span style="font-weight: 400;">advogada</span></a><span style="font-weight: 400;"> colando o atestado de óbito do marido em seu álbum de memórias é um elemento mais latente quando trata-se de denúncia, porque parte de um discurso </span><a href="https://www.scielo.br/j/rlpf/a/gqK3tgmPMGDcD3r5xFZnKXH/?format=pdf&amp;lang=pt"><i><span style="font-weight: 400;">pathos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mais eficaz e que mantém o tom estabelecido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Resistir, lembrar, persistir são, para </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">atos pautados no silêncio e emoção transmitidos por enquadramentos, cores e encenação, quase pouco por diálogos, em sinfonia de </span><a href="https://youtu.be/wBxBUKuFcI8?si=Bilsf7XkSQCHSSvl"><span style="font-weight: 400;">forma</span></a><span style="font-weight: 400;"> e conteúdo com sua protagonista, que não permite demonstrar os sentimentos, deixando até seus filhos de fora da situação familiar. Portanto, quando o longa decide ‘falar’, destoa.</span></p>
<figure id="attachment_34408" aria-describedby="caption-attachment-34408" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34408" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image4-1.png" alt="Cena do filme Ainda Estou Aqui Na imagem, Eunice Paiva, mulher branca de cabelo curto castanho, está com uma expressão séria. Ela veste uma blusa regata da cor azul. " width="1200" height="630" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image4-1.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image4-1-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image4-1-1024x538.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image4-1-768x403.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34408" class="wp-caption-text">Fernanda Torres foi uma das homenageadas da 4ª edição da Celebração do Cinema e Televisão Latinos do Critics Choice Awards (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando um filme brasileiro é aclamado, surge a tradicional pergunta ‘será que vai ser indicado ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">?’. Com </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">, a conversa não seria diferente, ainda mais levando em conta o circuito internacional da produção. No Festival de Veneza, Murilo Hauser e Heitor Lorena levaram o prêmio de </span><a href="https://exame.com/pop/ainda-estou-aqui-vence-premio-de-melhor-roteiro-no-festival-de-cinema-de-v"><span style="font-weight: 400;">Melhor Roteiro</span></a><span style="font-weight: 400;">. Após as primeiras exibições, Fernanda Torres foi elogiada pela imprensa estrangeira, como o </span><a href="https://deadline.com/2024/09/im-still-here-review-walter-salles-love-letter-to-brazil-is-a-warning-from-history-venice-film-festival-1236075262/"><i><span style="font-weight: 400;">Deadline</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://variety.com/2024/film/reviews/im-still-here-review-walter-salles-1236121390/"><i><span style="font-weight: 400;">Variety</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Caso seja indicada à maior premiação do Cinema, a artista se juntará a sua mãe, Fernanda Montenegro, como as únicas brasileiras já cotadas para a estatueta de Melhor Atriz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora premiações possam servir como um atestado de que uma obra é criticamente competente, o longa de Salles por si só já ganhou o mais importante: a adesão dos </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/primeira-exibicao-de-ainda-estou-aqui-no-brasil-tem-palmas-choro-e-grito-de-ditadura-nunca-mais/?srsltid=AfmBOopQ4jOc5TODefJbAr8U54frT9B9vHsq0BXfOJc9f4xYtFa8LF2G"><span style="font-weight: 400;">brasileiros</span></a><span style="font-weight: 400;">. Salas lotadas, discussões nas redes sociais depois da experiência e a exaltação do nosso Cinema valem muito mais que uma possível – e merecida – nomeação. A conversa em volta de tudo que foi sentido e relembrado com essa história é, no fim das contas, o que amplia sua relevância. No entanto, há uma força motriz que sustenta os momentos de maior tensão e ela se chama Fernanda Torres. </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Normais </span></i><span style="font-weight: 400;">(2001-2003) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Tapas e Beijos </span></i><span style="font-weight: 400;">(2011-2015) mostram o traquejo da veterana com a Comédia, enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Terra Estrangeira</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1995) exige um tom melodramático pela história contada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em ambos os gêneros, ela domina com maestria as competências necessárias para as personagens que interpreta. Com a </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/e-tudo-historia/as-poucas-diferencas-entre-realidade-e-ficcao-em-ainda-estou-aqui"><span style="font-weight: 400;">adaptação</span></a><span style="font-weight: 400;"> do livro de Marcelo Rubens Paiva, a atriz carrega a dor de cinco filhos em um trabalho corporal. A forma como a matriarca precisa guiar os jovens, desamparados devido ao sumiço de Rubens, concentra todo o tom melancólico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">. O fato é que Eunice não está, mas precisa, realmente, segurar tudo dentro de si, por ela, pelos seus e, principalmente, pelo marido.</span></p>
<figure id="attachment_34410" aria-describedby="caption-attachment-34410" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34410" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image6.png" alt="Cena do filme Ainda Estou Aqui Na imagem, Eunice Paiva, mulher branca na faixa dos 95 anos, de cabelo curto branco, está olhando para frente com expressão de desorientação. Ela veste uma roupa marrom e usa um colar de bolinhas. Usa óculos redondos. Ao fundo há uma mesa, desafogada, com garrafas, copos e pratos. " width="1024" height="567" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image6.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image6-800x443.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image6-768x425.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34410" class="wp-caption-text">Em <a href="https://personaunesp.com.br/lobby-oscar-artigo/">1999</a>, Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, mas quem levou foi Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É ‘chavão’ que o Cinema é memória, registro e até objeto para denúncia. Mas não existe forma melhor de definir </span><i><span style="font-weight: 400;">Ainda Estou Aqui</span></i><span style="font-weight: 400;">. Contar a história dos Paiva nas telonas é reforçar o quão devastador aqueles 21 anos foram para os brasileiros. Dessa forma, Walter Salles novamente demonstra um domínio em impactar seu público de forma sútil, mas brutal, através de personagens que serão eternizados na </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/se-o-cinema-e-a-setima-arte-quais-sao-as-outras"><span style="font-weight: 400;">Sétima Arte</span></a><span style="font-weight: 400;"> do nosso país.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ainda Estou Aqui | Trailer Oficial | 7 de novembro nos cinemas" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/_NzqP0jmk3o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Entre passado e futuro, o presente em Sem Vergonha é a Arte</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 17:56:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<category><![CDATA[48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Censura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto O que faz um artista ser reconhecido como transgressor? Caso seu pensamento tenha sido direcionado a elementos como roupas, maquiagens e outros compositores estéticos, repense todas as suas certezas, pois Sem Vergonha te mostra que o segredo está na alma livre. Estrelado por Maria Alcina, o musical biográfico fez parte da 48ª Mostra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/sem-vergonha-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Entre passado e futuro, o presente em Sem Vergonha é a Arte"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_34247" aria-describedby="caption-attachment-34247" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-34247 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-800x296.jpg" alt="Cena de Sem Vergonha. Na imagem, a cantora Maria Alcina aparece com o rosto pintado de branco, sombra preta e batom vermelho. Ela veste uma roupa vermelha cheia de babados. Está se apresentando em um palco em frente a uma cortina azul." width="800" height="296" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-800x296.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-1024x378.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-768x284.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-1536x567.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1-1200x443.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/1.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34247" class="wp-caption-text">Pertencente à seção Mostra Brasil da 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Sem Vergonha é musical, biografia e saldo positivo para o Cinema brasileiro (Foto: Dilúvio Produções)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><b></b><span style="font-weight: 400;">O que faz um artista ser reconhecido como transgressor? Caso seu pensamento tenha sido direcionado a elementos como roupas, maquiagens e outros compositores estéticos, repense todas as suas certezas, pois</span><i><span style="font-weight: 400;"> Sem Vergonha </span></i><span style="font-weight: 400;">te mostra que o segredo está na alma livre. Estrelado por Maria Alcina, o musical biográfico fez parte da <a href="https://personaunesp.com.br/tag/48a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/">48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</a>, na seção Mostra Brasil, e, como a artista que o protagoniza, estabeleceu que limites não são uma opção válida. Afinal, se não for para ultrapassar as barreiras, de que vale fazer qualquer coisa nessa vida?</span></p>
<p><span id="more-34246"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Operária de nascença e com todos os ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">nãos</span></i><span style="font-weight: 400;">’</span> <span style="font-weight: 400;">apontados para o seu rosto, a cantora nadou contra a corrente para crescer no meio musical nacional. Agora, seguindo o fluxo de uma vida, ousa entregar algo único na produção de 79 minutos que se classifica oficialmente como documentário, mas tem um formato tão singular que, novamente, se amplifica em possibilidades. Performático, teatral, sonoplasta e cenográfico são alguns dos vocábulos que definem a deliciosa narrativa roteirizada por <a href="https://mubi.com/pt/cast/thiago-brito">Thiago Brito</a>. </span></p>
<figure id="attachment_34248" aria-describedby="caption-attachment-34248" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-34248" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2-800x533.jpg" alt="Cena de Sem Vergonha. Na imagem, a cantora Maria Alcina está com o rosto pintado de branco, sombra azul e verde e um batom vermelho. Ela veste um casaco verde florescente com plumas e um chapéu de bobo da corte roxo. Ao fundo, há uma cortina vermelha e luzes amarelas." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2-1200x800.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/2.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34248" class="wp-caption-text">Maria Alcina estourou na Música ao se apresentar no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro em 1972 com a interpretação de Fio Maravilha, de Jorge Ben Jor (Foto: Dilúvio Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na obra, duas versões de Maria Alcina se encontram: a jovem sonhadora, representada ficcionalmente, e a própria, em carne e osso, que invade as cenas com relatos e cantoria à la brasileira – representando, com propriedade, a cultura que sempre se orgulhou de ter.  Apesar de inspiradora, essa história não ficcional remonta a dificuldade de ascensão quando se trata de Arte no país e não deixa de destacar uma das grandes vilãs do cenário: a <a href="https://www.gov.br/memoriasreveladas/pt-br/assuntos/destaques/a-ditadura-as-artes-e-a-cultura#:~:text=Em%20seu%20primeiro%20governo%20a,e%20denunciavam%20o%20terrorismo%20cultural%20.">Ditadura Militar</a>. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Na levada enérgica, bem humorada e, como o nome da obra diz, sem vergonha, da cantora, as denúncias nunca ficam de lado, nem que seja para se inserirem de maneira ácida ou ilustrada, à exemplo da performance atrevida com <a href="https://www.youtube.com/watch?v=kFmIgdzKRPQ">Ney Matogrosso</a>. Na década de 1970, esses comportamentos eram fortemente repreendidos e chegaram a ser punidos com a voz da personalidade sendo calada pela censura por 20 dias, o que fez com que ela voltasse ainda mais focada em ser autêntica. As músicas com duplo sentido e grandes doses de conotação sexual são interpretadas durante a obra, relembrando um Brasil quente, sensual e, acima de tudo, vivo.  </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Essa dificuldade de ser Arte em um país de pão e circo, reverbera na decaída de Alcina dos holofotes, algo que afeta diretamente o reconhecimento da persona como um marco da história até hoje. Em reflexo, o orçamento do longa-metragem é visivelmente baixo, mas com o ‘jeitinho’ brasileiro, tecidos variados e coloridos se tornam parte da cenografia assinada pelo diretor de arte <a href="https://www.instagram.com/uiraclemente/">Uirá Clemente</a>. A saída entra como uma jogada de mestre, fazendo com que mais uma linguagem, o Teatro, entre em cena. A sensação é de que tudo se consolida em cima de um palco, uma verdade quando se trata de Maria Alcina. </span></p>
<figure id="attachment_34249" aria-describedby="caption-attachment-34249" style="width: 453px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-34249" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/3.jpg" alt="Cena de Sem Vergonha. Na imagem, Maria Alcina aparece com a pele negra exposta, acompanhada uma sombra roxa e batom vermelho. Ela também usa cabelo colorido de três tons. " width="453" height="238" /><figcaption id="caption-attachment-34249" class="wp-caption-text">&#8220;Naquela época, naquele momento, as pessoas achavam que ser feliz era um insulto&#8221; (Foto: Dilúvio Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em movimentos bastante transitórios e alinhados, a direção de Rafael Saar escolhe passear entre registros reais da época mais jovem de Alcina, cortes de jornal, revistas, gravações, recriações fictícias de cenas, representação de performances e muito mais para amarrar a montagem. Caso </span><i><span style="font-weight: 400;">Sem Vergonha</span></i><span style="font-weight: 400;"> fosse um livro, com certeza entraria no ramo das chamadas <a href="https://www.nostalgiacinza.com.br/2020/05/o-que-e-narrativa-epistolar.html">narrativas epistolares</a>, misturando materiais para chegar a um registro consolidado de mais de 50 anos de carreira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto extremamente presente nos </span><i><span style="font-weight: 400;">frames</span></i><span style="font-weight: 400;"> da <a href="https://48.mostra.org/filmes/48a-sem-vergonha">produção</a> é a dança. Esta, se impõe de maneiras coreografadas, mas também sem nenhuma via de regra, representando a corporeidade solta da artista que relata:  “</span><i><span style="font-weight: 400;">eu só consigo cantar com o corpo todo</span></i><span style="font-weight: 400;">”. O misto de Música e ritmo transforma a coisa toda em um espetáculo de sons, onde os passos e notas criam aquela sensação de satisfação em quem assiste. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez pelo tempo curto de um filme ou pela longa história de <a href="https://jornalopharol.com.br/2022/02/a-mulher-veado-repensando-o-brasil-na-voz-de-maria-alcina-parte-i/">Maria Alcina</a>, alguns </span><i><span style="font-weight: 400;">takes</span></i><span style="font-weight: 400;"> parecem ter mais assunto do que espaço para se encaixarem, algo que deixa o telespectador perdido no viés cronológico da coisa. Não é como se não fosse possível chegar no meio da sessão e aproveitar o carisma, no entanto, se o objetivo for entender a carreira da artista, assistir duas vezes acompanhado de um ‘bloquinho’ de notas e uma aba de pesquisas vai se fazer necessário. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Sem Vergonha" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/EY1nkOu0Bw0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Sem Vergonha</span></i><span style="font-weight: 400;"> é quase uma viagem: psicodélica, engraçada, crítica, ácida e com gosto de chanchada. Sinceramente, relembrar o motivo de Maria Alcina ser uma pedra no sapato do conservadorismo e uma referência musical nesse país é um deleite ou, adentrando a ousadia, um sonho molhado. <a href="https://www.esquerdadiario.com.br/Arte-e-transgressao">Transgressão</a> definitivamente ganha um novo significado depois de vislumbrar a obra. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Nas linhas de uma singularidade ímpar, um filme sobre uma artista nunca foi tão irreverente e esse viés se encaixa como uma luva para retratar alguém tão indimensionável quanto Alcina. Nos antros de pessoas, arte, obras, músicas e performances mornas e repetitivas, não ter vergonha de ser é corajoso e memorável. </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu era o que eu era porque eu nasci assim</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span> <span style="font-weight: 400;"> é mais que uma aspas, uma lição para aqueles que se fogem do inescondível: o eu. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/sem-vergonha-critica/">Entre passado e futuro, o presente em Sem Vergonha é a Arte</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Onda Nova &#8211; Gayvotas Futebol Clube é um hino ao desejo e a juventude</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Oct 2024 19:20:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Davi Marcelgo  O ano de 1983 foi marcado pela regulamentação do futebol feminino no Brasil, prática proibida desde 1941, na Era Vargas. Aquele ano também foi sublinhado por Onda Nova &#8211; Gayvotas Futebol Clube da dupla Ícaro Martins e José Antonio Garcia, filme produzido no polo cinematográfico Boca do Lixo e exibido pela primeira vez &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/onda-nova-gayvotas-futebol-clube-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Onda Nova &#8211; Gayvotas Futebol Clube é um hino ao desejo e a juventude"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_34168" aria-describedby="caption-attachment-34168" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34168" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-4.png" alt=" Cena do filme Onda Nova - Gayvotas Futebol ClubeNa imagem, Marcelo e seu amante estão em um quarto, o quarto tem paredes brancas, chão de madeira, uma janela sem grades aberta, com vasos de planta. Nas paredes há um pôster com a logo do filme Star Wars: O Retorno de Jedi. Outras fotografias e pichações estão presentes. O ponto de vista é de um espelho, Marcelo aponta um revólver para o objeto. Ele veste uma saia curta, preta, de couro. Dá para ver seu pênis sair para fora, ele está sem camisa. Marcelo é um homem na faixa dos 20 anos, de pele clara e cabelos claros. No chão, o amante está deitado no colchão, olhando o espelho. O colchão está coberto com um lençol verde escuro. O amante também está pelado. Ele é um rapaz na faixa dos 20 anos, de pele clara e cabelos claros. " width="900" height="542" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-4.png 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-4-800x482.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-4-768x463.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34168" class="wp-caption-text">Com versão restaurada, pornochanchada brasileira faz parte da 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Olympus Filme)</figcaption></figure>
<p><b>Davi Marcelgo </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ano de 1983 foi marcado pela regulamentação do futebol feminino no Brasil, prática proibida desde 1941, na </span><a href="https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/mulheres-passaram-40-anos-sem-poder-jogar-futebol-no-brasil/#:~:text=Ap%C3%B3s%20quatro%20d%C3%A9cadas%2C%20a%20regulamenta%C3%A7%C3%A3o,e%20a%20falta%20de%20patrocinadores."><span style="font-weight: 400;">Era Vargas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aquele ano também foi sublinhado por </span><i><span style="font-weight: 400;">Onda Nova &#8211; Gayvotas Futebol Clube</span></i><span style="font-weight: 400;"> da dupla Ícaro Martins e José Antonio Garcia, filme produzido no polo cinematográfico </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qBEAjnL3zHs"><span style="font-weight: 400;">Boca do Lixo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e exibido pela primeira vez na 7ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, há 41 anos. Em 2024, o filme ganhou restauração graças à </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/onda-nova-censurado-ditadura-mostra-sp"><span style="font-weight: 400;">seleção</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o Festival de Locarno (Suíça) e à união do trabalho da Cinemateca Brasileira junto à Martins, à família de Garcia e outros artistas e colaboradores. Além disso, teve duas sessões na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/48a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/">48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</a><span style="font-weight: 400;">, na seção Retrospectiva.</span></p>
<p><span id="more-34167"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do gênero </span><a href="https://culturadoria.com.br/entenda-como-os-filmes-da-pornochanchada-marcaram-a-historia-do-cinema-nacional/"><span style="font-weight: 400;">pornochanchada</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa </span><a href="https://telaviva.com.br/16/07/2024/censurado-pela-ditadura-classico-onda-nova-sera-exibido-em-locarno-com-copia-restaurada/"><span style="font-weight: 400;">censurado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela Ditadura Militar é vibrante, seja nas cores ou nas histórias de cada personagem. Em 100 minutos, é possível amá-los, rir com eles e chorar. Mas estes sentimentos só podem ser sentidos porque os diretores dedicam inúmeras cenas – quase o filme todo para além do gramado – ao cotidiano e às relações amorosas do time e seus amantes. É difícil dar uma sinopse; seria uma história sobre emancipação feminina no futebol? Seria a descoberta da sexualidade? Ambos, mas sem dúvidas, se trata das peripécias de um grupo de amigos que se divertem e estão com os hormônios à flor da pele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O corriqueiro é mergulhado em um realismo que apoia e contrasta com o visual berrante. O sexo é natural, seja com homem ou mulher; não tem espaço para gemidos irreais ou qualquer outro estímulo da pornografia </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/08/30/curiosidades-sobre-porno-que-voce-nao-sabia.htm"><i><span style="font-weight: 400;">hard</span></i><i><span style="font-weight: 400;">core</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;">A experiência sensorial é guiada por dedos que passeiam por corpos, línguas que deslizam das costas para as nádegas e, principalmente, pelo vínculo entre público e personagens. É quase </span><a href="https://catracalivre.com.br/entretenimento/7-filmes-sucesso-jamais-seriam-tolerados-hoje-em-dia/"><span style="font-weight: 400;">inacreditável</span></a><span style="font-weight: 400;"> que uma produção da década de 1980 seja dotada de tanto afeto e compreensão de casais homoafetivos. Aliás, bem mais que um entendimento da existência desses pares, é o reconhecimento da trivialidade. </span></p>
<figure id="attachment_34169" aria-describedby="caption-attachment-34169" style="width: 900px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34169" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-5.png" alt="Cena do filme Onda Nova - Gayvotas Futebol ClubeNa imagem, Rita e sua amiga fumam e conversam sentadas nos degraus de uma escada. Rita está do lado direito, ela segura o cigarro com a mão. Ela veste uma camisa branca de botões que está aberta. Ela usa um anel no dedo do meio e uma pulseira de corda, bem fina. Ela é uma mulher branca, na faixa dos vinte anos, de olhos e cabelos claros. Os cabelos são curtos, estilo chanel. A amiga está do lado esquerdo, ela está de perfil, olhando Rita. Ela veste uma jaqueta preta brilhante com detalhes na cor azul marinho nos ombros. Ela é uma mulher de pele clara, na faixa dos vinte anos, também de cabelos claros, mas longos. " width="900" height="542" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-5.png 900w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-5-800x482.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-5-768x463.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34169" class="wp-caption-text">Durante a sessão, Helena Garcia, filha de José Antonio, disse que Onda Nova faz parte do projeto Cinema Desejo (Foto: Olympus Filme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No banco traseiro de um táxi, nua, antes de transar com sua namorada, uma das personagens diz que “</span><i><span style="font-weight: 400;">prefere sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;">”. A frase, por fim, ilustra a dinâmica entre espectador e filme, afinal, Cinema também não é sonho? É vestir a carcaça de vidas que não são suas, que você gostaria de viver e, quem sabe, morrer sendo assim. O contraste das cores, das roupas futuristas e oitentistas, e dos penteados ousados em relação à narrativa real compõem essa visão onírica desses personagens. Eles ‘trepam’, tomam cerveja à tarde, ouvem </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-noite-que-mudou-o-pop-critica/"><span style="font-weight: 400;">Michael Jackson</span></a><span style="font-weight: 400;">, cantam </span><a href="https://personaunesp.com.br/rita-lee-uma-autobiografia-critica/"><span style="font-weight: 400;">Rita Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">, frequentam bares à noite e são </span><i><span style="font-weight: 400;">sexy</span></i><span style="font-weight: 400;">. É uma utopia </span><i><span style="font-weight: 400;">gay</span></i><span style="font-weight: 400;">, ainda mais no contexto que se insere. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora haja uma antítese entre real e ficção, o visual e a forma contribuem para a história, porque, embora a maneira como o sexo é filmado seja ‘banal’, as personagens e o enredo são excêntricos; uma juventude invejável e uma resposta para a opressão da ditadura, que já estava enxergando seu fim. Filmar as relações carnais deste modo, é, sem dúvidas, seguir os códigos do gênero, sobretudo, escancarar para a onda conservadora que nada disso é condenável ou antinatural, mas humano. Helena (</span><a href="https://www.folhape.com.br/cultura/tania-alves-sera-a-homenageada-do-cine-pe-2024/334573/"><span style="font-weight: 400;">Tânia Alves</span></a><span style="font-weight: 400;">) canta que “</span><i><span style="font-weight: 400;">agora vale tudo</span></i><span style="font-weight: 400;">” e, realmente, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Onda Nova</span></i><span style="font-weight: 400;">, tudo vale e nada é julgado ou moralizado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final de </span><i><span style="font-weight: 400;">Onda Nova &#8211; Gayvotas Futebol Clube </span></i><span style="font-weight: 400;">você vai querer fazer parte do time, jogar uma ‘pelada’, praticar adultério e conhecer muito mais dos amigos. Mas também vai lamentar, e muito, porque a pornochanchada teve uma vida curta e o vulgar desapareceu do Cinema popular, seja no Brasil ou no mundo. Atualmente, o sexo – quando tem – é curto, pragmático, sem tesão e as personagens LGBTQIAP+ são unidimensionais ou estereotipadas. A questão é que houve uma higiene nesse tipo de produção, claro que há motivos maiores como denúncia de abuso em </span><i><span style="font-weight: 400;">sets</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém, majoritariamente tudo serve aos padrões de mercado. Felizmente, a história está sendo resgatada, é tempo de vestir o uniforme e hora de</span> <a href="https://papocultura.com.br/7-das-melhores-pornochanchadas/"><i><span style="font-weight: 400;">Gozar Outra Vez</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="ONDA NOVA | Trailer Oficial" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/LpRq9NLrSP0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Onde está Ana?</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Mar 2023 19:57:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Clara Sganzerla Viajamos, todos os dias, do passado ao futuro. Seja por meio de memórias, lembranças, fatos históricos ou até mesmo dentro de nossos planejamentos; desaparecemos em uma inércia pendular difícil de desvencilhar &#8211; nunca vivemos propriamente no presente. No entanto, a atriz brasileira Stella Rabello consegue parar por alguns momentos em algumas dessas duas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ana-sem-titulo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Onde está Ana?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30593" aria-describedby="caption-attachment-30593" style="width: 2160px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30593 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.png" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na imagem, há seis fotografias de uma mulher negra. As fotos trabalham de forma documental, registrando as mudanças físicas da personagem em uma organização linear - três fotografias em cima e mais três fotografias em baixo. As mudanças físicas são principalmente no cabelo: na primeira imagem, ele permanece preso em um coque alto, e acompanhamos sua transformação até o penteado em estilo afro" width="2160" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.png 2160w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1536x768.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-2048x1024.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1200x600.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30593" class="wp-caption-text">Em Ana. Sem título, exibido na Mostra “Cinema é Direito” no Sesc Bauru, entramos em uma jornada sobre governos totalitários, o feminismo nos anos 70 e 80 e sobre a Arte como forma de denúncia (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Clara Sganzerla</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Viajamos, todos os dias, do passado ao futuro. Seja por meio de memórias, lembranças, fatos históricos ou até mesmo dentro de nossos planejamentos; desaparecemos em uma inércia pendular difícil de desvencilhar &#8211; nunca vivemos propriamente no presente. No entanto, a atriz brasileira Stella Rabello consegue parar por alguns momentos em algumas dessas duas realidades para ir em uma jornada que ultrapassa as </span><a href="https://personaunesp.com.br/argentina-1985-critica/"><span style="font-weight: 400;">fronteiras</span></a><span style="font-weight: 400;"> de nosso país, esbarrando em uma história sangrenta que, infelizmente, também nos pertence. Em </span><a href="http://taigafilmes.com/ana/"><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2020), longa que integrou a Mostra </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-cinema-e-direito/"><i><span style="font-weight: 400;">Cinema é Direito</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> no Sesc Bauru, a cineasta Lúcia Murat nos transporta para o passado latino-americano marcado pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-tio-jose-critica/"><span style="font-weight: 400;">ditadura militar</span></a><span style="font-weight: 400;">, atrás, apenas, de uma resposta: onde está Ana? </span></p>
<p><span id="more-30590"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Definida como livre, talentosa, bonita e até mesmo perigosa, o grande mistério acerca da artista brasileira é o que nos envolve na trama. Através de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-curtas-do-oscar-2023/"><span style="font-weight: 400;">metalinguagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> muito bem feita, a sensação do telespectador é similar a estar fisicamente presente com a equipe de filmagem, apurando as poucas pistas que Ana nos deixou, na tentativa de montar um quebra-cabeça em que faltam muitas peças. Durante essa viagem, temos o prazer de conhecer a beleza de Cuba, México, Argentina e </span><a href="https://personaunesp.com.br/la-francisca-uma-juventude-chilena-critica/"><span style="font-weight: 400;">Chile</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelos olhos do diretor de fotografia </span><span style="font-weight: 400;">Léo Bittencourt, e ouvir até mesmo o som dos passarinhos através do trabalho da técnica de som Andressa Clain Neves.</span></p>
<figure id="attachment_30591" aria-describedby="caption-attachment-30591" style="width: 1313px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30591 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.jpg" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na imagem temos, à esquerda, a atriz brasileira Stella Rabello. Ela tem cabelos loiros um pouco acima do busto, usa uma jaqueta na cor cinza e uma blusa vermelha. Do lado direito, temos a cineasta Lúcia Murat. Ela tem cabelos grisalhos e curtos e usa uma blusa de manga longa azul. O cenário da foto é em uma arquibancada à luz do dia. Ambas estão com expressões concentradas, com olhares atentos ao horizonte." width="1313" height="758" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.jpg 1313w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-800x462.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1024x591.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-768x443.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1200x693.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30591" class="wp-caption-text">Lúcia e Stella buscam respostas em nossos vizinhos latinos através de um road-movie (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspirado na exposição </span><a href="https://pinacoteca.org.br/programacao/exposicoes/mulheres-radicais-arte-latino-americana-1960-1985/"><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, realizada na Pinacoteca de São Paulo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título </span></i><span style="font-weight: 400;">é um mergulho em muitas questões, como o racismo, a opressão e o feminismo como forma revolucionária, mas destaca-se na maneira de retratar as cicatrizes ainda abertas que as </span><a href="https://www.politize.com.br/operacao-condor/"><span style="font-weight: 400;">ditaduras militares latinas</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixaram. O olhar de </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/entrevistas/ana-sem-titulo-se-nao-fosse-a-existencia-dos-movimentos-feminista-e-negro-esse-filme-nao-existiria-diz-lucia-murat/"><span style="font-weight: 400;">Lúcia Murat</span></a><span style="font-weight: 400;">, nesse contexto, é mais do que simbólico, principalmente pela sua trágica experiência como ex-presa política durante o regime militar brasileiro. O longa é, acima de tudo, um lembrete da importância de não nos esquecermos sobre um passado ainda tão recente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E Ana? Criada para ser uma representação da mulher latino-americana artista das </span><a href="https://conversacomelas.com/2021/03/02/movimentos-feministas-na-decada-de-70-e-80-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">décadas de 1970 e 1980</span></a><span style="font-weight: 400;">, através do roteiro da escritora Tatiana Salem Levy e da própria Murat, com atuação de Roberta Estrela D&#8217;Alva, a beleza da personagem mora exatamente no fato de que ela não é real. A narrativa criada em cima de seu desaparecimento, as cartas trocadas com outras artistas, a busca da equipe em solos estrangeiros para o documentário e todas as conversas sobre resistência, irmandade, liberdade e direitos, deixam a sensação de que Ana, mesmo com provas contrárias, existiu. O longa a eleva como uma entidade, aproveita-se do interesse natural do ser humano ao desconhecido para captar nossa atenção e nos enriquece com trocas reais sobre uma cultura tão complexa, rica e triste.</span></p>
<figure id="attachment_30592" aria-describedby="caption-attachment-30592" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30592 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3.png" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na fotografia, há uma mulher negra, de cabelo crespo. Ela usa uma blusa de gola alta. A mulher sorri e olha para o horizonte à sua esquerda. A foto tem tons sépia." width="600" height="315" /><figcaption id="caption-attachment-30592" class="wp-caption-text">Ana é algo maior que o plano físico e transforma-se na representação de milhares de mulheres do nosso passado (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de filmagens em câmeras analógicas, fotografias em preto e branco e relatos em espanhol, conhecemos por meio de Ana a história de milhares de mulheres que gostariam de ter sido ouvidas mas que, infelizmente, já caíram no esquecimento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um resgate da importância de ouvir as gerações passadas, de valorizar nossa história, de apreciar a </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Arte nacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de não nos esquecermos de, às vezes, olhar para trás.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ana. Sem Título - Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/IRtjlcD_0qI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 16:36:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista 52 anos se passaram desde que Carlos Marighella foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/marighella-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24928" aria-describedby="caption-attachment-24928" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24928" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge, um homem negro e adulto, com o filho no colo, uma criança que usa camisa branca e se abraça ao pescoço do pai. A cena é de dia e ao fundo vemos árvores e carros." width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24928" class="wp-caption-text">A coletiva de imprensa de Marighella ocorreu no Cine Marquise, na Avenida Paulista, à duas quadras de distância do local onde o Guerrilheiro foi assassinado em 1969 (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">52 anos se passaram desde que </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/11/04/marighella-historia-quem-foi.htm"><span style="font-weight: 400;">Carlos Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, na dolorosa constatação de que o Brasil de 1969 dialoga com eloquência e pesar com o país de 2021. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia do </span><a href="https://traduagindo.com/2021/05/08/entrevista-com-carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Guerrilheiro que Incendiou o Mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aposta no Cinema de ação e revolta para, em meio ao banho de sangue e lágrimas, exprimir esperança.</span></p>
<p><span id="more-24927"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A árdua tarefa de transformar a vida e a morte de Carlos Marighella em Arte não é recente. Na verdade, a ideia surgiu em 2013, como revelou o diretor Wagner Moura no evento de pré-estreia que aconteceu em São Paulo, no Cine Marquise da Avenida Paulista, no fim de outubro. Quando entrou em contato com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BsmGBsfrVEU"><span style="font-weight: 400;">livro de Mário Magalhães</span></a><span style="font-weight: 400;">, a decisão de ter alguém de esquerda e baiano no comando da produção pareceu uma combinação mágica para o ator, que sempre teve vontade de assumir o posto da direção, mas achou que o faria com uma obra menor, focada em poucos personagens e em uma história mais simples.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E simples não é nem de longe sinônimo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">. A publicação de Magalhães se estende por centenas e centenas de páginas, mas o recorte de Moura foi astuto o bastante para entender o recado. Ele queria, a princípio, devolver ao imaginário popular essa figura que foi amaldiçoada, e, fascinado por histórias de revolta, encontrou nesse filme o veículo ideal para unir o útil ao agradável. É certo que sua escolha inicial para viver o protagonista acabou não indo para frente e, após a saída de Mano Brown, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8"><span style="font-weight: 400;">poeta lutador</span></a><span style="font-weight: 400;"> que não fazia concessões, chegou Seu Jorge.</span></p>
<figure id="attachment_24929" aria-describedby="caption-attachment-24929" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24929" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o protagonista Seu Jorge usando terno e sentado, olhando para a frente com a cara fechada. Ele é um homem adulto, de pele negra e cabelos pretos." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24929" class="wp-caption-text">O filme dilui os posicionamentos comunistas de Carlos Marighella, pintando uma imagem mais forte de patriota e nacionalista do militante (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Também presente na coletiva, o artista não poupou elogios ao trabalho do diretor e foi muito sincero na hora de colocar em palavras o que atuar em </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significava para sua própria jornada de reconexão com o Brasil, país pelo qual é apaixonado e se encontrava distante. Esse fogo de ardência é sentido em cada uma de suas preciosas e carregadas cenas. Quando banha seu filho Carlinhos no mar, numa construção que brinca com o </span><a href="https://personaunesp.com.br/moonlight-kendrick-lamar/"><span style="font-weight: 400;">batismo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Moonlight</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Seu Jorge já anuncia que as próximas duas horas e quarenta serão constituídas de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f8tXFV_bkPU"><span style="font-weight: 400;">fortes emoções</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história se divide em duas. Mesclando momentos em 1964, após a instauração do golpe apoiado pelos EUA, e em 1968, logo depois de Marighella cofundar a Ação Libertadora Nacional (ALN). Dessa forma, a direção de Moura, em conjunto ao roteiro escrito por ele e </span><a href="https://vimeo.com/225578736"><span style="font-weight: 400;">Felipe Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, se priva de perpassar cada momento da criação e amadurecimento do protagonista, dando fôlego e tempo de tela para os dilemas de um Marighella envelhecendo, além de manejar com destreza o desenvolvimento de alguns coadjuvantes. Em 64, Seu Jorge é eufórico e a preocupação de revolta floresce por seus expressivos olhos. A maior qualidade dessa atuação, entretanto, se reserva aos momentos de calmaria, quando o ator abaixa a guarda.</span></p>
<figure id="attachment_24930" aria-describedby="caption-attachment-24930" style="width: 1046px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24930" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge em foco, de lado, e Humberto Carrão, branco e de barba preta. ao fundo desfocado." width="1046" height="638" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg 1046w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-800x488.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-1024x625.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24930" class="wp-caption-text">Wagner Moura ilumina a figura da Religião e a importância dos freis dominicanos na luta contra a Ditadura Militar, ressaltando a coragem dos homens e a crueldade a que foram submetidos (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para viver um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/seu-jorge-diz-que-ataques-a-marighella-sao-racistas-e-pais-nao-sabe-lidar-com-isso.shtml"><span style="font-weight: 400;">homem negro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pele clara, a escalação de Seu Jorge causou um rebuliço na mídia, visto que o ator tem a pele retinta. Na exibição para a imprensa, Wagner Moura detalhou o processo de </span><i><span style="font-weight: 400;">casting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que o objetivo era</span><i><span style="font-weight: 400;"> “empretecer”</span></i><span style="font-weight: 400;"> Marighella, neto de escravos sudaneses e filho de uma mãe nascida no ano da abolição. A </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/como-homem-negro-de-50-anos-tenho-questoes-diz-seu-jorge-interprete-de-marighella-pixinguinha-no-cinema-25255500"><span style="font-weight: 400;">questão racial</span></a><span style="font-weight: 400;"> era intrínseca à vivência e a luta do baiano, e enquanto a produção enfatiza esse ponto de tensão, ela acaba também diluindo outra de suas características de formação: o </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">comunismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais que o roteiro deixe de escanteio os ideais do protagonista, quem conhece a História tem noção de sua posição marxista-leninista, e dos objetivos do combate à Ditadura Militar. Além da busca por igualdade e justiça, a ALN enxergava a necessidade da luta armada como caminho para a instalação de um governo popular revolucionário no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No contraste, </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/entrevista-bruno-gagliasso-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Bruno Gagliasso</span></a><span style="font-weight: 400;"> encarna a escória do mundo na figura de Lúcio, policial que vai à caça dos militantes e guerrilheiros. O personagem, embora tenha outro nome, é a representação de </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-ditadura/delegado-fleury/"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Fleury</span></a><span style="font-weight: 400;">, delegado responsável por arquitetar a morte de Marighella. Quando perguntado na coletiva de que maneira deu nuances ao mal absoluto, o global revelou a dificuldade de se preparar para o papel. Pai de crianças negras, ele interpreta um racista e fascista desmedido, raivoso e violento. Gagliasso não opta pelo óbvio quando vocifera cada uma das ofensas cuspidas em tela, ele abraça o lado político da empreitada, contornando sua atuação ao redor da denúncia e do imediatismo do </span><a href="https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/10/19/bolsonaro-nega-ter-culpa-pela-crise-ache-um-cara-melhor.htm"><span style="font-weight: 400;">Brasil de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24931" aria-describedby="caption-attachment-24931" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24931" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg" alt="Cena noturna do filme Marighella, mostra vários homens com armas apontadas para um mesmo lugar, atirando." width="2560" height="1404" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-800x439.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1024x562.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-768x421.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1536x842.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-2048x1123.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1200x658.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24931" class="wp-caption-text">Embora demore a mostrar em tela as torturas da Ditadura, quando o filme dedica uma longa sequência ao momento, ele não poupa o teor da brutalidade e da violência (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/01/14/marighella-nao-e-caso-isolado-cultura-esta-sob-censura-diz-wagner-moura.htm"><span style="font-weight: 400;">censura</span></a><span style="font-weight: 400;"> que atingiu o filme não foi acaso do destino. Como efeito cascata, Wagner Moura insistiu em catalogar esse bolsão de caos político entre os anos 13 e 21, desde as </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2018/06/manifestacoes-de-junho-de-2013-completam-cinco-anos-o-que-mudou.html"><span style="font-weight: 400;">Manifestações de Junho</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/democracia-em-vertigem-critica/"><span style="font-weight: 400;">Golpe de 2016</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a eleição de Bolsonaro dois anos mais tarde, até chegar ao hoje, </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-16/inacao-e-desinformacao-do-governo-bolsonaro-agravam-a-pandemia-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">pandêmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, enclausurado, natimorto. Quando subiu ao poder, o presidente não demorou a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml"><span style="font-weight: 400;">cortar verbas da Cultura</span></a><span style="font-weight: 400;">, e a Ancine, agência responsável pela retomada e pela frutífera colheita do </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-lirio-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">Cinema nacional pós-anos 90</span></a><span style="font-weight: 400;">, acabou inerte, dormente, sangrando. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">estreou em 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Festival de Berlim</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas só pôde prestigiar uma exibição na terra que o concebeu dois anos depois.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A projeção no Cine Marquise foi a segunda coletiva do longa, depois daquela inaugural na </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/14/marighella-e-aplaudido-pelo-publico-em-1-exibicao-no-festival-de-berlim.htm"><span style="font-weight: 400;">Alemanha</span></a><span style="font-weight: 400;">. A produtora Andrea Barata Ribeiro foi enfática quando detalhou os percalços enfrentados pelo filme, desde pedidos negados pela Ancine (em um momento onde Bolsonaro enfatizava que </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">filtraria o que achasse necessário</span></a><span style="font-weight: 400;">) até a dificuldade de entrar em cartaz. Ano passado, a ideia era um lançamento no Dia da Consciência Negra, que acabou não ocorrendo. Esse ano, eles conseguiram chegar em Novembro, mês simbólico para tudo que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significa. </span></p>
<figure id="attachment_24932" aria-describedby="caption-attachment-24932" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24932" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/cinco.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Adriana Esteves sentada e olhando para a janela. Ela é branca, tem cabelos escuros e é iluminada pela luz do sol que entra pela janela." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24932" class="wp-caption-text">Adriana Esteves teve o prazer de visitar a dona Clara da vida real e relatou que a presença de Marighella na residência da mulher é gigantesca: “a impressão é que ele vai tocar a campainha” (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de ser uma ficção que coloca lentes dramáticas na jornada dos guerrilheiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">precisava funcionar como filme. Por mais que nem todos os acontecimentos tenham de fato acontecido, Wagner Moura enfatiza que eles são plausíveis para aqueles personagens. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DCFttf8ZgfY"><span style="font-weight: 400;">Maria Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;">, atriz e neta de Carlos, é quem simboliza na carne esse elo forte com a realidade. Ela interpreta sua própria avó Elza, a mãe de seu pai, e faz da pequena presença na rodagem um dos corações pulsantes da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua contraparte, e espécie de irmã de alma, é Clara, personagem de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=i33O69m4Ci0"><span style="font-weight: 400;">Adriana Esteves</span></a><span style="font-weight: 400;">, esposa de Marighella. A atriz, que assistiu ao longa pela primeira vez apenas dois dias antes da exibição na Avenida Paulista, tinha emoção no olhar quando ressaltou o poder do amor de um filme como esse, o poder de empatia e de esperança manufaturado pela visão do diretor. O exemplo mais claro fica perto da conclusão, quando depois de morto, Marighella tem sua foto exibida em uma redação de jornal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, Carlinhos e sua mãe se chocam com o terror da realidade. Na hora em que Moura parece que cortará para o preto e dará por encerrada a experiência de quase 3 horas, o diretor, então aliado à montagem de Lucas Gonzaga, nos transporta para a residência de Clara. Esteves, aflita e absorta, quase que sentindo o momento sem ao menos ter a confirmação do assassinato, abraça o espectador. Ela sofre, chora, se conecta à personagem de Maria Marighella sem a necessidade de compartilhar o espaço físico. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LQeqMMI1m9M"><span style="font-weight: 400;">força</span></a><span style="font-weight: 400;"> dessa decisão de Moura é sentida em segundo plano, correndo pelas beiradas. </span></p>
<figure id="attachment_24933" aria-describedby="caption-attachment-24933" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24933" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra de perfil o ator Bruno Gagliasso urinando na parede. Está de dia e a câmera mostra apenas seu rosto e ombros, mas seus olhos miram o chão. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24933" class="wp-caption-text">No exercício de entregar o filme para as comunidades da qual Marighella fez parte, o longa teve exibições especiais na companhia da Coalizão Negra Por Direitos, além de uma pré-estreia na Bahia, terra natal do protagonista (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste de gerações entre Marighella e os companheiros de luta pode parecer desencaixado à princípio, mas é uma deliberação proposital. Com a Arte acostumada a representar seus militantes jovens demais, o filme coloca esse homem de cinquenta anos para liderar uma galera que mal chegou aos trinta. O </span><a href="https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/index.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1969), como bem relembra Maria Marighella em sua fala sobre a importância da juventude, dá “funções” a cada um dos grupos, dos artistas, aos estudantes e aos cidadãos “comuns”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colocar em cena Seu Jorge ao lado de nomes como Humberto Carrão, Bella Camero e Jorge Paz serve para mostrar que essas pessoas tinham vidas, sonhos felizes, trabalhos ordinários e muito a perder. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/humberto-carrao-nao-sei-jogar-jogo-das-celebridades-nem-quero-1-24209398"><span style="font-weight: 400;">Carrão</span></a><span style="font-weight: 400;">, escondido por uma barba espessa e uma camada de suor que o camufla em cena, vive pela euforia do grito e da rebelião. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HRGyhfZCXGU"><span style="font-weight: 400;">Camero</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem a sensatez aliada ao fogo da inquietação, e </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/ator-da-periferia-do-df-supera-dificuldades-e-e-destaque-em-marighella"><span style="font-weight: 400;">Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, o coadjuvante mais importante do longa, cultiva o medo do amanhã pela família e a destreza do hoje pela verdade e pela justiça. Quando o filme poda cada uma de suas raízes, o sentimento de amargor é sinônimo de melancolia, mas nunca de derrota.</span></p>
<figure id="attachment_24934" aria-describedby="caption-attachment-24934" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24934" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o ator Humberto Carrão com um jornal na mão e fumando na calçada. Ele é branco, tem barbas e cabelos volumosos e escuros e usa uma camisa estampada marrom com o botão de cima aberto." width="1200" height="667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-800x445.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-1024x569.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-768x427.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24934" class="wp-caption-text">Embora tenha sido exibido ao mesmo tempo em que rolava a 45ª Mostra de SP, Wagner Moura disse que o filme “foi evitado” pela organização do Festival, que prezava por longas inéditos em sua programação (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência coletiva que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">aflora mora no debate, na troca de ideias e na propagação do senso de luta. Não cabe apontar o que o filme “adaptou corretamente” a história ou julgar as liberdades tomadas pela Sétima Arte. Tendo como objetivo primário funcionar dentro do gênero da ficção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">não pinta seu protagonista como herói demais, ou vilão de menos. Seu Jorge dá vida a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fd8oX1u8gRA"><span style="font-weight: 400;">homem repleto de falhas e sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, que encontrava na agitação e na manifestação a única maneira de pregar seus ideais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.instagram.com/p/CSSlAR6rKGT/"><span style="font-weight: 400;">Cinema no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em qualquer outro lugar do mundo, vem munido de ideologias e comentários sociais. Mas, se quem assiste acredita que a luta pelos direitos sociais, a igualdade, o antifascismo e o </span><a href="https://www.ecycle.com.br/antirracista/"><span style="font-weight: 400;">antirracismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> são “manobras de esquerda” ou “posições radicais de doutrinação”, o problema não está dentro das quase três horas de realização cinematográfica. </span></p>
<figure id="attachment_24935" aria-describedby="caption-attachment-24935" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24935" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/oito.jpg" alt="Cena do filme Marighella. A foto em preto e branco mostra Seu Jorge em pé e olhando para o lado, usando camisa branca." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24935" class="wp-caption-text">Recentemente, o <a href="https://istoe.com.br/193279_A+FARSA+NA+MORTE+DE+MARIGHELLA+/">fotógrafo Sérgio Jorge</a> realizou uma encenação da pose real de Marighella assassinado no veículo, mostrando uma versão diferente da veiculada pelos militares (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos depois de dar vida a um </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-de-deus-tropa-de-elite/"><span style="font-weight: 400;">Capitão Nascimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se tornou bandeira de uma direita autoritária e violenta e a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LxuIhjvhePA"><span style="font-weight: 400;">Pablo Escobar</span></a><span style="font-weight: 400;"> que caia facilmente na visão norte-americana de gato e rato, hoje Wagner Moura realiza um Cinema de ação com significado e mensagem mais delimitados. Ele não faria um filme deste calibre e com essa pegada se não fosse orgânico ao material base, como ressaltou na coletiva, definindo a obra como um híbrido de gêneros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Extrapolando o meio-termo entre o surreal e o mundano, o filme ensurdece pelo desenho de som altíssimo e que valoriza cada caixinha da sala de cinema. Mas o absurdo tempo do corte final enfraquece uma obra que poderia chegar ao mesmo lugar (ou até a um patamar elevado) com muitos minutos a menos. Como diretor de primeira viagem, Wagner Moura faz o primordial aqui: </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/marighella-ja-filme-brasileiro-mais-assistido-em-2021-apos-quatro-dias-nos-cinemas-25265660"><span style="font-weight: 400;">coloca o filme na boca do povo</span></a><span style="font-weight: 400;">, se estica para além do telão branco e se senta ao lado do espectador, plantando dúvidas, opiniões e fomentando o que o Cinema sempre se prestou a fazer, mudar perspectivas e criar sensações. </span></p>
<figure id="attachment_24936" aria-describedby="caption-attachment-24936" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png" alt="Foto da coletiva de imprensa, mostra os atores, produtores e roteiristas posando para a foto, reunidos e todos de máscara" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24936" class="wp-caption-text">A coletiva de Marighella aconteceu dia 29 de outubro, no Cine Marquise da Avenida Paulista, com a presença do elenco, produtora, roteiristas e do diretor do filme (Foto: <a href="https://almapreta.com/sessao/cultura/marighella-estreia-nos-cinemas-um-filme-sobre-esperanca-diz-wagner-moura">Alma Preta</a>)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">é barulhento, essencialmente violento e tem em sua formação uma mensagem de motim que, sem problemas ou empecilhos, conversa com o Brasil governado por Bolsonaro mas gerido pelo caos. Vai incomodar, </span><a href="https://portalpopline.com.br/imdb-identifica-mutirao-notas-baixas-marighella/"><span style="font-weight: 400;">vai ser incomodado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sinaliza uma marca para o Cinema “popular”, já carregada por produções sem o mesmo alcance ou interesse da audiência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para efeito de comparação, no mesmo mês em que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">preencheu suas cerca de trezentas salas, </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/potente-e-necessario-cabeca-de-nego-estreia-nos-cinemas-nesta-quinta-1.2558528"><i><span style="font-weight: 400;">Cabeça de Nêgo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme que também lida com questões raciais em um Brasil ebulindo, mal chegou a compor notas de rodapé. A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/marighella-cena-pos-creditos"><span style="font-weight: 400;">cena pós-créditos</span></a><span style="font-weight: 400;">, nascida de um improviso do elenco, é o clímax da paixão dos realizadores. Tomando de solavanco o hino nacional, há muito nos surrupiado, os atores colocam para fora o sentimento de nacionalismo apagado quando o assunto é comunismo, o bicho-papão do século XXI. Os guerrilheiros amavam o Brasil, Carlos Marighella amava o Brasil, </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/wagner-moura-esclarece-cena-pos-credito-de-marighella.phtml"><span style="font-weight: 400;">Wagner Moura ama o Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
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		<title>A arte berra em Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2021 17:06:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto “Arte não é um privilégio do artista, é um direito do ser humano”. É com essa e outras contestações que abre-se Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro, parte do acervo da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O ponto de partida é Ziraldo, “o Michelangelo da boemia carioca”, um dos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ziraldo-uma-obra-que-pede-socorro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A arte berra em Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24504" aria-describedby="caption-attachment-24504" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24504" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4.jpg" alt="Imagem retangular e colorida retirada do documentário ‘Ziraldo - Uma Obra que Pede Socorro’. Nela, vemos em foco Ziraldo, um homem de idade avançada, pele parda, cabelos e sobrancelhas brancos, que veste uma camisa branca com um colete bordado bege e preto. Ele olha para cima, pensativo, enquanto coloca o dedo indicador da mão direita sobre a boca, em sinal de reflexão." width="1600" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-800x550.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1024x704.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-768x528.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1536x1056.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-1-4-1200x825.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24504" class="wp-caption-text">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro, exibido pela 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, é a única produção da seção Apresentação Especial disponibilizada online (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Arte não é um privilégio do artista, é um direito do ser humano”</span></i><span style="font-weight: 400;">. É com essa e outras contestações que abre-se </span><a href="https://45.mostra.org/filmes/ziraldo---uma-obra-que-pede-socorro-"><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, parte do acervo da 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo. O ponto de partida é Ziraldo, </span><i><span style="font-weight: 400;">“o Michelangelo da boemia carioca”</span></i><span style="font-weight: 400;">, um dos artistas mais geniais da história contemporânea do Brasil. Aprendemos um pouco mais sobre seu talento e ofício, agora por entre lentes pouco exploradas. Todavia, o documentário vai muito além da pessoa Ziraldo. Além de um panorama singular sobre sua obra, o que se apresenta aqui é um comentário amplo sobre a urgência da atual situação das artes no Brasil e como a cultura do país é constantemente negligenciada em diferentes esferas sociais. O resultado é uma poderosa denúncia e um clamor por socorro.</span></p>
<p><span id="more-24503"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ziraldo ostenta uma </span><a href="https://www.todamateria.com.br/ziraldo/"><span style="font-weight: 400;">pluralidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> de competências, isso todo mundo sabe. Mas alguns de seus trabalhos sempre recebem maior destaque, e com razão. Seja sua atuação como escritor de Literatura infanto-juvenil, com obras como </span><a href="https://culturadoria.com.br/o-menino-maluquinho/"><i><span style="font-weight: 400;">O Menino Maluquinho</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://judao.com.br/a-mata-do-fundao-e-aqui-a-historia-da-turma-do-perere-do-ziraldo-virou-documentario/"><i><span style="font-weight: 400;">A Turma do Pererê</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que se entranharam no inconsciente cultural do país, ou suas contribuições como cartunista n’</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/lancado-ha-50-anos-pasquim-provocou-ditadura-e-costumes.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">O Pasquim</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com seu traço irreverente e humor crítico e contestador, quando também </span><a href="https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ziraldo-e-jaguar-serao-indenizados-por-periodo-militar,151420"><span style="font-weight: 400;">foi preso</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo até então regime militar em 1968. Devido a isso, pouco se discute sobre a riquíssima presença de Ziraldo nas artes plásticas, que está longe de </span><a href="http://www.achabrasilia.com/zerois/"><span style="font-weight: 400;">ser ocasional</span></a><span style="font-weight: 400;">. É, então, sabendo disso que o documentário de </span><a href="https://45.mostra.org/diretores/guga-dannemann-"><span style="font-weight: 400;">Guga Dannemann</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://guia.folha.uol.com.br/teatro/2018/07/musical-zeca-pagodinho-uma-historia-de-amor-ao-samba-narra-vida-do-sambista.shtml"><span style="font-weight: 400;">seu segundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aponta para tal caminho tão atípico.</span></p>
<figure id="attachment_24505" aria-describedby="caption-attachment-24505" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24505" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3.jpg" alt="Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos, da cintura para cima, Ziraldo, um homem de idade avançada, pele parda, cabelos e sobrancelhas brancos, que veste uma camisa amarela, um colete branco e uma calça jeans. Ele olha para frente, enquanto se apoia na parede, sorridente. Na parede, pode-se ver o mural do Canecão, uma das obras mais icônicas de Ziraldo. A imagem de destaque da pintura é um guerreiro em uma armadura medieval e um jacaré brindando com copos de cerveja, em cima de uma lua, com olhos, boca e nariz. O traço da obra é arredondado e geométrico." width="1140" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3.jpg 1140w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-800x487.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-1024x623.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-2-3-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24505" class="wp-caption-text">Ziraldo é também responsável pelo pôster e identidade visual da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, sendo homenageado em dois documentários do evento (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse âmbito, a principal referência do longa é a, considerada por muitos, obra-prima sublime de Ziraldo: a </span><a href="https://artsandculture.google.com/exhibit/mural-do-canec%C3%A3o-ziraldo/rQLimA1XhGDAKw?hl=pt-BR"><i><span style="font-weight: 400;">Santa Ceia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um enorme mural de 32 metros de largura e 6 metros de altura, que o artista pintou nas paredes do que foi uma das maiores casas de </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;"> do Rio de Janeiro: o </span><a href="https://diariodorio.com/historia-do-canecao/"><span style="font-weight: 400;">Canecão</span></a><span style="font-weight: 400;">, em Botafogo. Feito por cerca de 6 meses em 1967, em plena ditadura, o painel pretendia reconstruir e reinterpretar o afresco de Leonardo Da Vinci, </span><a href="https://istoe.com.br/20-curiosidades-sobre-a-ultima-ceia-obra-prima-de-leonardo-da-vinci/"><i><span style="font-weight: 400;">A Última Ceia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, através dos seus traços mais arredondados e cartunizados. A obra oferece uma potente riqueza estética, e bebe essencialmente da fonte do cubismo, especialmente do quadro </span><a href="https://istoe.com.br/16-coisas-que-talvez-voce-nao-saiba-sobre-guernica-obra-prima-de-picasso/"><i><span style="font-weight: 400;">Guernica</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, trabalho de Pablo Picasso, que também é referenciado com frequência durante o filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de Dannemann</span> <span style="font-weight: 400;">monta um quebra-cabeças de entrevistas feitas com especialistas e pessoas próximas de Ziraldo – </span><a href="https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2021/06/01/zuenir-ventura-chega-aos-90-anos-vacinado-celebrando-a-vida-mas-critica-era-do-cinismo-e-do-deboche.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Zuenir Ventura</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://www.revistause.com.br/curitiba-pelas-maos-do-iconico-artista-plastico-juarez-machado/"><span style="font-weight: 400;">Juarez Machado</span></a><span style="font-weight: 400;"> são exemplos de figuras que marcam o filme –, além do próprio. Devido a isso, o apelo visual é mínimo, contudo, a riqueza dos relatos consegue sustentar a obra de maneira formidável. Além disso, o tom encontrado pelo documentário (</span><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo, Lifelong Work of Art Crying for Help</span></i><span style="font-weight: 400;"> em inglês) parece ideal. Geralmente descontraído, transmitindo a alegria, beleza e nostalgia das memórias do mural e do caráter comunitário e coletivo da produção, porém encontrando o perfeito equilíbrio quando demanda seriedade e concebe suas críticas.</span></p>
<figure id="attachment_24506" aria-describedby="caption-attachment-24506" style="width: 1265px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24506" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3.jpg" alt="Fotografia retangular e preto e branco. Nela está, em cima de um andaime de madeira, Ziraldo, um homem de pele parda e cabelos escuros, que veste uma camisa polo branca e uma bermuda cinza. Ele está com um cigarro na boca, e revira uma cartolina branca. Do lado dele, está uma mulher branca, de cabelos longos e escuros presos, vestindo uma camisa social branca e uma calça preta. Ela segura seu óculos na mão direita, e observa atentamente as ações de Ziraldo. Em cima do andaime, vemos uma cadeira, escada e equipamentos de pintura. Na parede, vemos parte incompleta do mural do Canecão, obra icônica de Ziraldo." width="1265" height="760" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3.jpg 1265w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-800x481.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/IMAGEM-3-3-1200x721.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24506" class="wp-caption-text">O mural, que retratava um jantar regrado por cerveja e por um forte espírito carioca, foi alvo de críticas e considerado transgressor pelo regime militar. (Foto: Antonio Rudge)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Posto isso, nos envolvemos na história que formou o mural do Canecão e, no entanto, logo somos introduzidos ao seu lado sombrio, e a motivação real do documentário. Infelizmente, o painel não resistiu ao teste do tempo. Mas isso não veio por desgastes físicos naturais, quem dera. Visando expandir o estabelecimento, hoje fora de funcionamento, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2015-01/ufrj-cria-laboratorio-para-restaurar-mural-de-ziraldo-no-antigo-canecao"><span style="font-weight: 400;">partes do mural</span></a><span style="font-weight: 400;"> foram cobertas, apagadas ou destruídas, expressando completo desrespeito com uma das obras brasileiras mais importantes da segunda metade do século XX. A UFRJ, atual proprietária do local, aprovou um </span><a href="http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/ziraldo-celebra-restauracao-de-mural-santa-ceia-que-pintou-no-canecao.html"><span style="font-weight: 400;">projeto de restauração</span></a><span style="font-weight: 400;"> da criação de Ziraldo em 2015, mas que nunca foi efetivada por </span><a href="https://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2021/04/educacao-e-a-area-mais-atingida-pelos-cortes-orcamentarios-de-bolsonaro/"><span style="font-weight: 400;">falta de orçamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> no processo. Neste momento, a universidade cogita </span><a href="https://educacao.uol.com.br/noticias/agencia-estado/2019/12/12/ufrj-planeja-conceder-predios-abandonados-para-cobrir-custos-inclusive-o-canecao.htm"><span style="font-weight: 400;">conceder o prédio</span></a><span style="font-weight: 400;"> à iniciativa privada, buscando investimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Investigando um incidente particular com a obra de um dos maiores artistas brasileiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ziraldo &#8211; Uma Obra que Pede Socorro</span></i><span style="font-weight: 400;"> descobre um fenômeno muito, muito mais grave. E que já não é mais novidade. Desde os incêndios anunciados do </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/especialistas-da-usp-avaliam-perda-com-incendio-do-museu-nacional/"><span style="font-weight: 400;">Museu Nacional do Rio de Janeiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e da </span><a href="https://www.instagram.com/p/CR-QIjphwgV/"><span style="font-weight: 400;">Cinemateca Brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;">, até a depravação e descarte de obras artísticas, como é o caso do mural do Canecão e </span><a href="https://www.artequeacontece.com.br/relembre-incendios-que-destruiram-grandes-acervos-de-arte-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">muitos outros</span></a><span style="font-weight: 400;">; são apenas sintomas de um projeto deliberado de </span><a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2021/05/oab-entra-com-acao-contra-desmonte-da-cultura-pelo-governo-bolsonaro/"><span style="font-weight: 400;">desmonte cultural</span></a><span style="font-weight: 400;">, capitaneado pelo </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/09/30/gestao-da-cultura-do-governo-bolsonaro-e-considerada-a-pior-das-ultimas-decadas-dizem-artistas"><span style="font-weight: 400;">governo Bolsonaro</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas cuja raiz surge de uma problemática estrutural. Aprendemos a desvalorizar a nossa cultura do berço, de modo que presenciamos a arte nacional ser apagada, bem diante de nossos olhos, sem que nenhuma providência seja tomada. Porém, a Arte não perece, pelo contrário, passa a berrar cada vez mais alto. E, se ela pede por socorro, talvez devêssemos atendê-lo.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TRAILER - ZIRALDO Uma Obra que pede socorro." width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/zCw40n3QKsY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Meu Tio José lembra que nunca é tarde para dizer &#8220;Ditadura Nunca Mais&#8221;</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Oct 2021 04:43:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, escreve Chico Buarque na canção Roda Viva. Das diversas interpretações possíveis, a mais cruel e — infelizmente — presente diz respeito à vivência na Ditadura Militar brasileira, em especial durante o endurecimento do regime com o AI-5, período também conhecido como &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/meu-tio-jose-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Meu Tio José lembra que nunca é tarde para dizer &#8220;Ditadura Nunca Mais&#8221;"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24283" aria-describedby="caption-attachment-24283" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24283" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1.jpeg" alt="Cena da animação Meu tio José. Na ilustração em preto e branco, vemos o personagem José entrando em uma farmácia, com prateleiras e caixas brancas em seu entorno. Ele é um homem branco, possui cabelos e bigode de cor preta, veste uma camiseta de cor cinza e uma calça e sapatos de cor preta." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1.jpeg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-1-1200x675.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24283" class="wp-caption-text">Exibido na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Meu Tio José retrata a Ditadura Militar brasileira sob o olhar de uma criança (Foto: Fênix Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”</span></i><span style="font-weight: 400;">, escreve</span> <a href="https://personaunesp.com.br/chico-buarque-construcao-50-anos/"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque</span></a><span style="font-weight: 400;"> na canção </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=IzwBVOPu7iM&amp;ab_channel=MPB%3A%3AAsMelhores%21"><i><span style="font-weight: 400;">Roda Viva</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Das diversas interpretações possíveis, a mais cruel e — infelizmente — presente diz respeito à vivência na Ditadura Militar brasileira, em especial durante o endurecimento do regime com o </span><a href="https://www.infoescola.com/historia/anos-de-chumbo/"><span style="font-weight: 400;">AI-5</span></a><span style="font-weight: 400;">, período também conhecido como os </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=15123"><i><span style="font-weight: 400;">Anos de Chumbo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Dentre as histórias manchadas pela repressão política, encontramos José Sebastião Rios de Moura, personagem fundamental em </span><a href="http://artecult.com/longa-meu-tio-jose-mostra-internacional-sp/"><i><span style="font-weight: 400;">Meu Tio José</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, animação dirigida, roteirizada e ilustrada por Ducca Rios, e que integra a 45ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-24282"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa de 89 minutos é baseado em uma história real, cujo desfecho trágico acabou impactando a vida de </span><a href="http://artecult.com/ac-entrevista-ducca-rios/"><span style="font-weight: 400;">Ducca Rios</span></a><span style="font-weight: 400;">. Na infância, durante a Ditadura Militar, seu tio </span><a href="https://cidadeverde.com/noticias/133213/revista-resgata-historia-de-piauiense-que-sequestrou-embaixador-dos-eua"><span style="font-weight: 400;">José Moura</span></a><span style="font-weight: 400;"> — membro do movimento Dissidência da Guanabara, inicialmente chamado de </span><a href="https://www.infoescola.com/historia-do-brasil/movimento-revolucionario-oito-de-outubro-mr-8/"><span style="font-weight: 400;">MR-8</span></a><span style="font-weight: 400;"> — foi morto pelo regime, vítima de uma emboscada. Esse contexto é retratado nas cenas iniciais de </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Tio José</span></i><span style="font-weight: 400;">, nas quais vemos de forma intercalada o jovem Adonias, espécie de alter ego do diretor, sonhando com um jogo da seleção de 1983, enquanto José (que recebe a voz de </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/cinema/marighella-apos-estreia-nos-cinemas-producao-de-wagner-moura-ganhara-minisserie/"><span style="font-weight: 400;">Wagner Moura</span></a><span style="font-weight: 400;">) sofre o atentado dentro de uma farmácia.</span></p>
<figure id="attachment_24284" aria-describedby="caption-attachment-24284" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24284" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2.jpeg" alt="Cena da animação Meu tio José. Na ilustração em preto e branco, vemos uma família sentada à mesa de cor cinza, enquanto comem a refeição. Nela, estão sentados uma senhora de cabelos brancos e vestido branco, que está de costas; um menino de cabelos pretos e camiseta branca; outro menino com camiseta branca e gola de cor preta, também de cabelos pretos; um homem de cabelos pretos a altura do ombro, bigode de cor preta e utilizando óculos de lentes transparentes, camisa social branca e calça branca; e uma mulher de costas, que possui cabelos longos pretos, veste camiseta branca e calça preta. Todos os personagens são brancos e estão sentados em cadeiras de cor cinza." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2.jpeg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-2-1200x675.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24284" class="wp-caption-text">Meu Tio José participou do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, tido como o maior e mais importante evento de animações do mundo (Foto: Fênix Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme aposta na visão inocente de Adonias diante de todo o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tempo-critica/"><span style="font-weight: 400;">horror</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o cerca, caminhando por ruas repletas de pichações e notícias políticas, e marca a estreia de Ducca Rios em longa-metragens, embora este não seja o primeiro trabalho do diretor, que já acumula colaborações em séries da </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney Jr. </span></i><span style="font-weight: 400;">e do canal </span><i><span style="font-weight: 400;">ZooMoo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na trama, enquanto o tio é internado e passa por cirurgias delicadas na tentativa de remoção das balas, o jovem garoto preocupa-se com uma redação da escola que precisa ser entregue. Ao mesmo tempo que a família luta para digerir a situação, tentando esconder a tristeza inerente à situação, também se vê presa ao resguardo da inocência infantil do menino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Porém, não demora para o jovem começar a tomar consciência daquilo que está em torno, tentando justificar suas inquietações e ebulições de sentimentos com o argumento de que seus pais são professores — em alguns momentos, ele imagina os valentões da escola com coturnos e farda, sendo chamado de </span><i><span style="font-weight: 400;">“subversivo” </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">“filho de comunista”</span></i><span style="font-weight: 400;">, além de sonhar com momentos de tortura. Todavia, </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/meu-tio-jose"><i><span style="font-weight: 400;">Meu Tio José</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não se deixa enganar: é uma obra política voltada para o público jovem, e isso não tenta ser suprimido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A técnica </span><a href="http://nafergo.github.io/manual-livre-animacao2d/blender_cutout.html"><i><span style="font-weight: 400;">cut-out</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">— ou simplesmente </span><i><span style="font-weight: 400;">“animação de recortes”</span></i><span style="font-weight: 400;"> — empregada no filme oferece algumas limitações, mas essas são superadas através do roteiro e da direção de Rios, que desde o início aponta para um romance de formação, priorizando a poesia em comparação a forma, mesmo que esta também esteja bem realizada no longa. Essa maneira de fazer animação é antiga, sendo a mesma utilizada em </span><a href="https://personaunesp.com.br/south-park-the-pandemic-special-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">South Park</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e na animação </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3PXHeKuBzPY&amp;ab_channel=SonyPicturesClassics"><i><span style="font-weight: 400;">Persépolis</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme de 2007 baseado no </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-fun-home/"><span style="font-weight: 400;">romance gráfico</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12593"><span style="font-weight: 400;">Marjane Satrapi</span></a><span style="font-weight: 400;">. A composição em preto e branco pode ser interpretada como uma forma de ilustrar o ar pesado da época, considerando que </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Tio José </span></i><span style="font-weight: 400;">ganha cores somente na cena final, momento que ilustra a reabertura política do país.</span></p>
<figure id="attachment_24285" aria-describedby="caption-attachment-24285" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24285" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-3.jpg" alt="Cena da animação Meu tio José. Na ilustração em preto e branco, vemos um mochila de cor preta e detalhes em cor branca, jogada no chão. Ao fundo vemos a sombra em cor preta de três rapazes agredindo um outro rapaz." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-3.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/jose-3-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24285" class="wp-caption-text">“Meu tio era como um herói para mim”, disse Ducca Rios em entrevista para o Estadão (Foto: Fênix Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez a parte mais cruel abordada na animação seja a esperança depositada por seus pais, dois militantes das </span><a href="https://www.todamateria.com.br/diretas-ja/"><span style="font-weight: 400;">Diretas Já</span></a><span style="font-weight: 400;">, na possibilidade de uma reabertura política, tendo em vista que todos sabem os motivos que levaram ao atentado contra José, mas ficam de mãos atadas. A chegada do filme ganha diferentes proporções no momento atual, visto que uma parcela da população </span><i><span style="font-weight: 400;">“aparenta não saber muito sobre a enorme crueldade que fez parte do regime que afligiu o Brasil durante tantos anos</span></i><span style="font-weight: 400;">”, como disse </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,animacao-meu-tio-jose-conta-a-historia-de-um-ex-guerrilheiro-assassinado-na-ditadura,70003739080"><span style="font-weight: 400;">Rios em uma entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;">, na qual continuou: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Se realmente soubessem, não estariam se manifestando a favor de AI-5 e de outras ideias esdrúxulas”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final da animação, Adonias só confirma aquilo que suspeitava ao longo de toda a trama. Através de sua interpretação do assassinato do tio, o menino decide escrever a redação que o preocupava inicialmente narrando a história do próprio parente — esse que foi um grande amigo de </span><a href="https://www.ebiografia.com/torquato_neto/"><span style="font-weight: 400;">Torquato Neto</span></a><span style="font-weight: 400;">, poeta responsável pelo documento que divulgou o </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/tropicalismo.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Tropicalismo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a quem o cantor </span><a href="https://www.letras.mus.br/blog/historia-da-musica-cajuina/"><span style="font-weight: 400;">Caetano Veloso</span></a><span style="font-weight: 400;"> dedicou a canção </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7-nIMtLql7Y&amp;ab_channel=CaetanoVeloso-Topic"><i><span style="font-weight: 400;">Cajuína</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> —, depois de acumular memórias confidenciadas por seus familiares sobre a trajetória política de José. Como nos versos de Chico, a história recente do país faz perceber que estamos próximos daqueles que partiram e morreram durante a Ditadura, propiciando atualidade e força ao filme de Ducca Rios. Através de uma construção singela e visceral, </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Tio José</span></i><span style="font-weight: 400;"> ganha por seu próprio mérito.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TRAILER OFICIAL &quot;MEU TIO JOSÉ&quot; ANNECY" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ZoLOq7j_3r4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A radicalidade acolhedora de Juçara Marçal em Delta Estácio Blues</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Oct 2021 15:37:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Leite Ferreira No princípio era o beat. O primeiro aperitivo que o público teve da nova fase de Juçara Marçal foi em uma live, no dia 7 de abril de 2021. Como parte de um ciclo de transmissões que o Metá Metá fez naquele mês, Juçara veio à frente só, munida de samplers, percussão, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/delta-estacio-blues-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A radicalidade acolhedora de Juçara Marçal em Delta Estácio Blues"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_23699" aria-describedby="caption-attachment-23699" style="width: 924px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23699" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-1.jpg" alt="Capa do CD Delta Estácio Blues. A cantora Juçara Marçal está no centro da fotografia, sobre um fundo azul. As mãos dela estão dispostas sobre a face de forma que só conseguimos ver um dos olhos, cabelo, parte da boca e orelha." width="924" height="924" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-1.jpg 924w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-1-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-1-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-1-1-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23699" class="wp-caption-text">O segundo disco solo de Juçara Marçal aponta novos caminhos musicais (Foto: Aline Belfort)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Leite Ferreira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No princípio era o </span><i><span style="font-weight: 400;">beat</span></i><span style="font-weight: 400;">. O primeiro aperitivo que o público teve da nova fase de Juçara Marçal foi em uma</span><i><span style="font-weight: 400;"> live</span></i><span style="font-weight: 400;">, no dia 7 de abril de </span><i><span style="font-weight: 400;">2021</span></i><span style="font-weight: 400;">. Como parte de um ciclo de transmissões que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/meta-meta-sesc-bauru/"><span style="font-weight: 400;">Metá Metá</span></a><span style="font-weight: 400;"> fez naquele mês, Juçara veio à frente só, munida de </span><i><span style="font-weight: 400;">samplers</span></i><span style="font-weight: 400;">, percussão, piano e voz. Mais uma ruptura em uma carreira repleta de rupturas. </span><i><span style="font-weight: 400;">Iyalode mbé mbé</span></i><span style="font-weight: 400;">, a última faixa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;">, lançado em 30 de setembro, já marcava presença.</span></p>
<p><span id="more-23698"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Meses depois, o que era expectativa se transformou em assombro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Crash</span></i><span style="font-weight: 400;">, única música divulgada como </span><i><span style="font-weight: 400;">single</span></i><span style="font-weight: 400;">, tem as percussões características da </span><i><span style="font-weight: 400;">live</span></i><span style="font-weight: 400;"> junto de um </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">venenoso assinado por Rodrigo Ogi e cuspido com autoridade por Juçara. É a lógica do </span><i><span style="font-weight: 400;">hip-hop </span></i><span style="font-weight: 400;">interpretada por uma artista que não faz parte do movimento, mas também se nutre dele.</span><i><span style="font-weight: 400;"> “Eu não sou rapper”</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela afirma em </span><a href="https://www.casanaturamusical.com.br/jucara-marcal-delta-estacio-blues-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">entrevista ao </span><i><span style="font-weight: 400;">site</span></i><span style="font-weight: 400;"> da </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa Natura Musical</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. De novo, a ruptura. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Oritá Metá | Juçara Marçal _ SoloMemo" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/91yEqOwNwiY?start=969&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">O que já é de se esperar, em se tratando de Juçara Marçal. </span><i><span style="font-weight: 400;">Encarnado</span></i><span style="font-weight: 400;">, a estreia </span><i><span style="font-weight: 400;">solo </span></i><span style="font-weight: 400;">lançada em 2014, é uma bomba que distorce o formato canção sem usar instrumentos percussivos  —  a guitarra, o cavaquinho e a rabeca se combinam em um quebra-cabeça ruidoso onde a voz se encaixa e destaca. Ao passo que, como bem apontado na </span><a href="https://open.spotify.com/episode/4yPRwUDihF8nEv1o1HDIov?si=45b1a73f440646bf"><span style="font-weight: 400;">entrevista para o </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast </span></i><span style="font-weight: 400;">da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Bravo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues </span></i><span style="font-weight: 400;">é todo </span><i><span style="font-weight: 400;">beat</span></i><span style="font-weight: 400;">, ritmo, graves.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que a cantora tenha participações em álbuns de </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">Nó</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">na Orelha </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Convoque Seu Buda</span></i><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="https://personaunesp.com.br/criolo-espiral-ilusao-critica/"><span style="font-weight: 400;">Criolo</span></a><span style="font-weight: 400;">, e </span><i><span style="font-weight: 400;">RÁ!</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Rodrigo Ogi) e de </span><a href="https://qtvlabel.bandcamp.com/"><span style="font-weight: 400;">outros tipos de Música</span></a><span style="font-weight: 400;"> eletrônica (</span><i><span style="font-weight: 400;">Anganga</span></i><span style="font-weight: 400;">, composto e gravado com Cadu Tenório, e</span><i><span style="font-weight: 400;"> Rocinha</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Mbé), </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;"> representa um novo mergulho em outras possibilidades de composição. Ao lado do parceiro de longa data Kiko Dinucci, que produziu o disco, Juçara entrou de cabeça nos </span><i><span style="font-weight: 400;">samplers </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">softwares </span></i><span style="font-weight: 400;">de edição de áudio para dar forma a um trabalho radicalmente acolhedor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As bases de </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;"> vêm de</span> <a href="https://monkeybuzz.com.br/materias/as-colisoes-e-os-dribles-de-delta-estacio-blues-de-jucara-marcal/"><i><span style="font-weight: 400;">“cacos”</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, termo que Juçara usa para caracterizar os diversos </span><i><span style="font-weight: 400;">samples</span></i><span style="font-weight: 400;"> que ela e Kiko usaram para compor as faixas.</span><i><span style="font-weight: 400;"> Vi de Relance a Coroa</span></i><span style="font-weight: 400;"> abre os caminhos evoluindo a partir de três batidas para uma paisagem sonora ao mesmo tempo familiar e incômoda. Os </span><a href="https://monkeybuzz.com.br/materias/glitch-music-a-ruptura-musical/"><i><span style="font-weight: 400;">glitches</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> se espalham pelo instrumental como a “</span><i><span style="font-weight: 400;">fuligem de brilho tão real</span></i><span style="font-weight: 400;">” do Reis Malunguinho, entidade afroindígena mencionada na letra assinada por Siba.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Juçara Marçal - Delta Estácio Blues (QTV 055)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/e7N5NsRhNdg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">O resto de familiaridade do disco se dissipa no momento em que começa </span><i><span style="font-weight: 400;">Sem Cais</span></i><span style="font-weight: 400;">. Quando o “</span><i><span style="font-weight: 400;">mar agitado nas praias de ultramar</span></i><span style="font-weight: 400;">” toma conta da música, nós, ouvintes, somos impelidos a navegá-lo sem os rótulos e </span><a href="https://personaunesp.com.br/category/musica/"><span style="font-weight: 400;">gêneros musicais</span></a><span style="font-weight: 400;"> como “</span><i><span style="font-weight: 400;">boias para nos salvar</span></i><span style="font-weight: 400;">”. A sequência de faixas possui as bases eletrônicas como fio condutor, mas o que Juçara e Kiko inventam é de uma versatilidade tão distinta que restringir </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;"> a um só fio é desperdício.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A faixa-título, inclusive, talvez seja uma síntese adequada da proposta apresentada aqui. A letra de Rodrigo Campos reimagina a história do mitológico </span><a href="https://veja.abril.com.br/blog/veja-musica/a-morada-do-diabo/"><span style="font-weight: 400;">Robert Johnson</span></a><span style="font-weight: 400;">, figura imprescindível para a história do </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-voz-suprema-do-blues-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">blues</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;">. Segundo a lenda, Johnson era um violonista comum até fazer um pacto com o demônio para adquirir habilidades sobre humanas no instrumento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, nesta terceira canção, Robert Johnson na verdade faz um trato com Bide, Baiaco e Ismael Silva, sambistas do bairro carioca Estácio de Sá, berço da primeira escola de samba do Brasil. Em apenas uma estrofe, </span><a href="https://www.instagram.com/p/CUd7y0iNwav/"><span style="font-weight: 400;">duas tradições musicais</span></a><span style="font-weight: 400;"> são fundidas e a estética onívora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;"> se assume, também, política: é preciso sempre reafirmar o pioneirismo radical das populações negras e periferizadas no samba, no </span><i><span style="font-weight: 400;">blues</span></i><span style="font-weight: 400;">, no </span><a href="https://igormiranda.com.br/2018/11/opiniao-negra-li-elvis-presley-rock-and-roll-negros-apropriacao-cultural-racismo/"><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no </span><a href="https://personaunesp.com.br/djonga-nu-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">rap</span></i></a><span style="font-weight: 400;">; o que não significa responder a apenas uma dessas tradições, mas criar novas possibilidades a partir delas: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Blues Mississippi cultua um novo deus</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Juçara Marçal - Crash (Vertical Video)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/zhgmtLuEJq0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez por isso </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;"> tenha pouco de tradicional. Os instrumentos eletrônicos são manipulados de um jeito que faz com que a desorientação se torne o fundamento da audição inteira. Faz sentido um </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">como </span><i><span style="font-weight: 400;">Crash </span></i><span style="font-weight: 400;">suceder os </span><a href="https://www.laspa.slg.br/2021/04/18/breakbeat-science-a-ciencia-da-batida-quebrada/"><i><span style="font-weight: 400;">breakbeats</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e graves deslizantes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ladra  </span></i><span style="font-weight: 400;">—  e fazer isso sem cerimônia, sem preparo, com o </span><i><span style="font-weight: 400;">sample </span></i><span style="font-weight: 400;">fragmentado já de cara dando contorno a uma nova paisagem sonora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dirigido por </span><a href="https://www.instagram.com/najur__/"><span style="font-weight: 400;">Ana Júlia Theodoro</span></a><span style="font-weight: 400;">, o videoclipe de </span><i><span style="font-weight: 400;">Crash </span></i><span style="font-weight: 400;">traduz essa fragmentação com uma sequência frenética de imagens simultaneamente cotidianas e insólitas: crianças mascaradas correndo, um homem fazendo a sobrancelha ao ar livre, um balão no céu. A velocidade dos cortes da edição se sintoniza com o </span><i><span style="font-weight: 400;">flow </span></i><span style="font-weight: 400;">e a voz ríspida de Juçara e, mais do que isso, passa uma sensação parecida à jornada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_23700" aria-describedby="caption-attachment-23700" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23700" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-1.jpg" alt="Juçara Marçal está sentada em uma cadeira. Ela tem pele morena e cabelos encaracolados e está olhando para a câmera, com a coluna ligeiramente inclinada para baixo. Juçara usa um vestido cinza e está descalça. Ao fundo, vemos uma janela e as paredes de um cômodo aparentemente vazio." width="1200" height="1500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-1-640x800.jpg 640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-1-819x1024.jpg 819w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-1-1-768x960.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23700" class="wp-caption-text">A carreira prolífica de Juçara Marçal ganha novos tons com a experimentação eletrônica de Delta Estácio Blues (Foto: Pablo Saborido)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O acolhimento radical é ainda mais palpável na segunda metade do repertório. Especialmente em </span><i><span style="font-weight: 400;">Baleia</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Lembranças Que Guardei</span></i><span style="font-weight: 400;">, que usam a imagem da profundidade para passar mensagens mais subjetivas, semelhantes às </span><a href="https://genius.com/Jucara-marcal-ciranda-do-aborto-lyrics"><span style="font-weight: 400;">letras de </span><i><span style="font-weight: 400;">Encarnado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. As referências à pós-modernidade (“</span><i><span style="font-weight: 400;">Deixa ela dançar na minha tela</span></i><span style="font-weight: 400;">” em </span><i><span style="font-weight: 400;">Baleia</span></i><span style="font-weight: 400;"> e o uso do </span><i><span style="font-weight: 400;">autotune </span></i><span style="font-weight: 400;">em </span><i><span style="font-weight: 400;">Lembranças Que Guardei</span></i><span style="font-weight: 400;">) dão uma dimensão particular a elas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as duas, </span><i><span style="font-weight: 400;">La Femme à Barbe</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Oi, Cat</span></i><span style="font-weight: 400;">, versões para Brigitte Fontaine e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r-ylzXcHZok"><span style="font-weight: 400;">Tantão e Os Fita</span></a><span style="font-weight: 400;">, respectivamente. A jornada se aprofunda ainda mais, o tom duro de </span><i><span style="font-weight: 400;">Crash </span></i><span style="font-weight: 400;">volta à voz de Juçara Marçal e a sensação é de terra arrasada. Ao final de </span><i><span style="font-weight: 400;">Oi, Cat</span></i><span style="font-weight: 400;">, o </span><i><span style="font-weight: 400;">sample </span></i><span style="font-weight: 400;">do comício da Central do Brasil proferido por </span><a href="https://sul21.com.br/noticias-em-geral/2011/09/discurso-de-joao-goulart-no-comicio-de-13-de-marco-de-1964-na-central-do-brasil-rio-de-janeiro/"><span style="font-weight: 400;">João Goulart</span></a><span style="font-weight: 400;"> às vésperas do golpe militar de 1964 reforça o desconforto.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="JUÇARA MARÇAL - LA FEMME À BARBE/OI, CAT" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/2935MrPSDfU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;">, então, chega ao fim com o samba torto e nostálgico </span><i><span style="font-weight: 400;">Corpus Christi</span></i><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://editoraperspectiva.com.br/produtos/oriki-orixa/"><span style="font-weight: 400;">oriki</span></a><i><span style="font-weight: 400;"> Iyalode Mbé Mbé</span></i><span style="font-weight: 400;">, encerramento-acalanto da fonte inesgotável que é o segundo álbum </span><i><span style="font-weight: 400;">solo</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Juçara Marçal. Um conjunto de faixas que apontam inúmeros caminhos, ao mesmo tempo, dentro e fora de tradições. Uma invenção que só poderia ter sido batizada com um nome próprio, único e peculiar: </span><i><span style="font-weight: 400;">Delta Estácio Blues</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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