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	<title>Arquivos Cia das Letras &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O Mapeador de Ausências e a memória como preenchimento do vazio</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Nov 2021 15:41:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade “Nestes dias, caminhei pelos lugares da minha infância como quem passeia num pântano: pisando o chão com as pontas dos pés. Um passo em falso e corria o risco de me afundar em escuros abismos. Eis a minha doença: não me restam lembranças, tenho apenas sonhos. Sou um inventor de esquecimentos.” Na icônica &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-mapeador-de-ausencias-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Mapeador de Ausências e a memória como preenchimento do vazio"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24300" aria-describedby="caption-attachment-24300" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-24300 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/MIACOUTO_WP.jpg" alt="Arte da capa do livro O Mapeador de Ausências. Na imagem, há um fundo vermelho, com a capa do livro ao centro da imagem, possuindo uma sombra de cor amarela. Na capa, há o desenho de uma mulher negra com diversos tecidos coloridos. Esses tecidos são de cor vermelha, azul, amarela, branca, rosa e verde. Ao centro, está escrito Mia Couto em fonte de cor branca, com a grafia do próprio autor, e abaixo escrito O Mapeador de ausências, também em fonte de cor branca. Acima do seu nome está o logo da editora Companhia das Letras. Na parte superior esquerda da imagem, há a ilustração de um olho com a íris de cor azul. Na parte inferior direita, está o símbolo do Time de Leitores da editora Companhia das Letras, composto por um círculo de cor azul escrito Grupo companhia das letras em fonte de cor branca, envolto de um círculo branco com os escritos Time de leitores 2021, em fonte de cor azul." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/MIACOUTO_WP.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/MIACOUTO_WP-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/MIACOUTO_WP-768x404.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24300" class="wp-caption-text">O Mapeador de Ausências, 11º romance de Mia Couto, traz o autor revisitando o próprio passado em meio aos paradoxos da colonização de Moçambique (Foto: Companhia das Letras/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Nestes dias, caminhei pelos lugares da minha infância como quem passeia num pântano: pisando o chão com as pontas dos pés. Um passo em falso e corria o risco de me afundar em escuros abismos. Eis a minha doença: não me restam lembranças, tenho apenas sonhos. Sou um inventor de esquecimentos.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Na icônica cena de </span><a href="https://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/5326965"><i><span style="font-weight: 400;">Um bonde chamado Desejo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1947), escrita pelo dramaturgo norte-americano </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/10/peca-discute-opressao-e-machismo-de-personagens-de-um-bonde-chamado-desejo.shtml"><span style="font-weight: 400;">Tennessee Williams</span></a><span style="font-weight: 400;">, a personagem Blanche DuBois entoa: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não quero realidade. Eu quero magia”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Parece que essa afirmação espelha a carreira literária de Mia Couto, cuja diferença consiste em enxergar na existência toda a magia necessária para encarar a vida. Segundo o próprio escritor, </span><i><span style="font-weight: 400;">“não há somente uma realidade, mas várias”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Como fruto da parceria com a editora </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><b>Persona </b><span style="font-weight: 400;">teve acesso a seu novo romance, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/mia-couto-volta-a-sua-prosa-poetica-em-o-mapeador-de-ausencias.shtml?origin=folha"><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, participando de um </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1433871654967554048"><span style="font-weight: 400;">evento exclusivo</span></a><span style="font-weight: 400;"> com o autor. A obra, publicada no início de setembro de 2021, traz como protagonista Diogo Santiago, poeta e professor universitário na cidade de Maputo, que parte em uma viagem física e metafísica à Beira, sua cidade natal. </span></p>
<p><span id="more-23893"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma mistura de reportagem, romance e memórias, o livro carrega a típica voz poética do autor, apresentando a realidade como algo sempre questionável, na qual amigos tornam-se inimigos em uma guerra sem vencedores. Segundo Mia Couto, o livro partiu de uma ideia “</span><i><span style="font-weight: 400;">muito sólida de regresso</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e aborda ao longo das páginas o paradoxo da colonização, questões de homofobia e problemas de infância e identidade. No primeiro capítulo, estamos situados em </span><i><span style="font-weight: 400;">“Beira, 6 de março de 2019”</span></i><span style="font-weight: 400;">. A cidade moçambicana, local em que Couto nasceu e viveu até seus dezoito anos, estava na iminência de um desastre. No dia 15 de março de 2019, o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/20/internacional/1553042239_772596.html"><span style="font-weight: 400;">Ciclone Idai passou pela região</span></a><span style="font-weight: 400;"> e destruiu 90% da cidade, neste que ficou marcado como o maior desastre natural de Moçambique, deixando centenas de mortos e feridos. Através desse marco temporal, Diogo Santiago está, sem saber, correndo contra o tempo para reconstruir a história do seu passado.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Quando me afasto, sinto os seus passos </span><span style="font-weight: 400;">perseguindo-me e, já perto do elevador, a sua voz ecoa no corredor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Chama-se Idai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Quem? — pergunto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— O ciclone — responde o porteiro. — Dizem que chega à cidade daqui a pouco mais de uma semana.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O homem anuncia o desastre com inesperado entusiasmo. Entendo a sua excitação. Aquele anônimo porteiro era, naquele momento, o mensageiro que Deus escolhera para anunciar o apocalipse.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro mescla passagens em primeira pessoa de Diogo Santiago com excertos de diários da juventude e papéis da repressão política do país. Esses documentos servem para mapear a história de seus antepassados, principalmente de seu pai. Aos que já conhecem os trabalhos do escritor moçambicano, essa característica é muito bem explorada em seu romance de 1992, </span><a href="https://www.todamateria.com.br/terra-sonambula/"><i><span style="font-weight: 400;">Terra Sonâmbula</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no qual lemos de forma intercalada a travessia do velho Tuahir e do jovem Muidinga — em uma Moçambique despedaçada depois da guerra, e por esse motivo uma </span><i><span style="font-weight: 400;">‘terra sonâmbula’</span></i><span style="font-weight: 400;"> — com as leituras dos cadernos de Kindzu. Novamente, percebemos a visão de Couto sobre as diversas realidades expostas de forma clara em sua própria obra, considerando que esse jogo literário pretende mostrar as diferentes verdades possíveis sobre o mesmo fato.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diogo Santiago decide retornar à Beira depois de muitos anos, a conselho de seu médico, que recomenda a viagem para </span><i><span style="font-weight: 400;">“te libertares dos fantasmas da infância”</span></i><span style="font-weight: 400;">. O personagem vem sofrendo com </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;"> e insônia, e, segundo o diagnóstico, talvez a viagem pudesse acalmar os motivos que levavam à tristeza e inquietação. Dessa forma, o regresso à cidade natal é também o regresso à infância e as marcas de uma ausência permanente — do pai e dos amigos mortos na ditadura —, cujas lembranças foram dominadas pelo colonialismo, visto que, na época de juventude de Santiago, Moçambique ainda era colônia de Portugal. Talvez uma das obras mais metalinguísticas de Mia Couto, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências</span></i><span style="font-weight: 400;"> brinca com o leitor desde o início, deixando o escritor facilmente reconhecível nas falas do personagem, como no trecho em que recebe a documentação sobre seu avô, e sentencia: </span><i><span style="font-weight: 400;">“esses papéis vão fazer parte do meu próximo livro”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_23894" aria-describedby="caption-attachment-23894" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-23894 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1-800x800.jpg" alt="Fotografia do escritor moçambicano Mia Couto. Ele é um homem branco, veste camiseta de cor cinza, possui cabelos e barba grisalha, olhos azuis e utiliza um óculos com lentes transparentes e hastes de cor preta. Ele está olhando diretamente para a câmera, com o braço direito apoiado em uma estante de cor marrom, repleta de livros enfileirados." width="800" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-23894" class="wp-caption-text">Mia Couto é biólogo de formação, mas iniciou sua carreira oficialmente como jornalista; seu primeiro livro, uma coleção de poemas intitulada Raiz de Orvalho, foi publicado em 1983 (Foto: Rafael Arbex)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em decorrência do desastre natural, que destruiu a cidade natal de Couto, a ideia de que a infância poderia ser perdida torna-se presente, e é retratada na obra. Como uma rápida comparação, se pensarmos em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/03/a-peste-de-albert-camus-e-metafora-para-epidemias-e-opressoes.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">A Peste</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Albert Camus, enxergamos a epidemia de cólera como coadjuvante, ou, melhor, como um pano de fundo para a história. Contudo, o romance do moçambicano aponta a catástrofe como uma espécie de personagem, auxiliando no desenrolar da trama — e isso não ocorre por acaso, visto que o autor começou a escrever o livro em 2018, sob a perspectiva da memória e do regresso, e então teve a notícia do Ciclone, que atravessou a obra já iniciada. Tanto </span><i><span style="font-weight: 400;">A Peste </span></i><span style="font-weight: 400;">quanto </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências </span></i><span style="font-weight: 400;">mantém a alegoria presente, pois ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">a peste</span></i><span style="font-weight: 400;">’ ditada por Camus é uma referência à Europa sitiada por nazistas, enquanto a obra do moçambicano</span> <span style="font-weight: 400;">trata-se da busca pelo passado, através da procura de algo fragmentado e possivelmente inexistente, em um país que também estava sob domínio de um regime ditatorial, sendo essa, justamente, a herança colonial que o fragmentou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, a figura central do romance é o pai de Diogo (ou o </span><a href="http://www.fflc.org.mz/index.php/por/Fundacao/Fernando-Leite-Couto"><span style="font-weight: 400;">pai de Couto</span></a><span style="font-weight: 400;">), Adriano Santiago, um jornalista e também poeta, falecido há pouco tempo. Ele se torna inimigo do Estado quando reporta um assassinato em massa cometido pelo regime, que ficou conhecido como </span><a href="https://www.abrilabril.pt/cultura/massacre-de-inhaminga-foi-o-pior-dos-pesadelos"><span style="font-weight: 400;">Massacre de Inhaminga</span></a><span style="font-weight: 400;">. A presença dos ancestrais de Adriano servem como elementos para entender esse personagem misterioso, auxiliando no quebra-cabeças que é o seu passado. Com a própria vida atravessada por repressões políticas — o pai de Mia Couto foi detido pela PIDE, polícia política da ditadura portuguesa —, o escritor constrói por meio de simbologias e metáforas fantasiosas as pegadas desse indivíduo silencioso. Como qualquer reconstrução que parta da memória, essa é uma guerra perdida desde o início, mas nem por isso menos poética. </span></p>
<figure id="attachment_23895" aria-describedby="caption-attachment-23895" style="width: 1170px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-23895" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de Fernando Couto, Mário Machungo e Joaquim Chiassano. À esquerda, há a fotografia de Fernando Couto olhando para o seu lado esquerdo. Ele é um homem branco, possui cabelos pretos penteados para trás. Ele veste camisa branca e utiliza óculos com lentes transparentes e hastes de cor preta. À direita, há uma outra foto em que Mário Machungo está sentado, com Joaquim Chissano sentado à sua esquerda, que está conversando com Fernando Couto, também sentado à esquerda de Joaquim. Mário é um homem negro, possui cabelos pretos e veste camisa xadrez branca e cinza e um casaco de cor cinza. Joaquim é também um homem negro, possui cabelos pretos e um cavanhaque de cor preta. Ele veste uma camisa branca, com listras cinzas, e uma gravata de cor preta com quadrados de cor cinza. Nessa foto, Fernando Couto está com a mesma roupa que a anterior, porém virado à direita e conversando com Joaquim Chissano." width="1170" height="547" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-2.jpg 1170w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-2-800x374.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-2-1024x479.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-2-768x359.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23895" class="wp-caption-text">Fernando Couto, o pai de Mia, foi uma personalidade influente em Moçambique, atuando como poeta e jornalista; na foto, ele entrevista Mário Machungo e Joaquim Chissano (Foto: Fundação Fernando Leite Couto)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Dividido por capítulos intercalados, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências </span></i><span style="font-weight: 400;">possui pelo menos cinco camadas. A primeira refere-se a Diogo Santiago em 2019, caminhando por uma Moçambique que ainda tentar consolidar seus laços como nação; a segunda são os documentos sobre seu pai, que datam de 1973 e auxiliam na composição do imaginário sobre o passado violento do país, marcado pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">ditadura militar</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/09/02/interna_internacional,1081795/o-caminho-de-mocambique-da-guerra-civil-a-uma-paz-ainda-fragil.shtml"><span style="font-weight: 400;">Guerra Civil</span></a><span style="font-weight: 400;">; a terceira retrata o Ciclone Idai e os seus efeitos imediatos no imaginário social, visto por uma parcela da população como um castigo divino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A quarta história é a da personagem Liana Campos, coadjuvante nessa trama e </span><i><span style="font-weight: 400;">“neta de um fascista”</span></i><span style="font-weight: 400;">, sendo o elo que conecta a documentação dos ancestrais de Santiago com o próprio. A personagem também está tentando resgatar um passado, cujo objetivo é </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><span style="font-weight: 400;">encontrar sua mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por fim, a quinta camada é a da autoficção, pois, de forma ficcionalizada (como descrito na nota do autor), Couto reconstrói o seu próprio passado, transmitindo nas páginas a falta de seu pai — o nome do livro é uma homenagem a esse </span><i><span style="font-weight: 400;">“personagem ausente”</span></i><span style="font-weight: 400;"> —, e os traços fantásticos acompanham toda a história, trazendo referências místicas às </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-pai-critica/"><span style="font-weight: 400;">memórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, às vontades divinas e ao </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14188"><span style="font-weight: 400;">mar</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos personagens mais belos construídos na obra é Sandro Santiago, apresentado inicialmente como o primo de Diogo. Ele é um combatente militar e, por ser homossexual, recebe diversas ofensas e violências durante seu período no exército, demonstrando sua enorme complexidade quando tenta entender os </span><a href="https://personaunesp.com.br/destacamento-blood-critica/"><span style="font-weight: 400;">motivos da guerra</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para ele, os soldados são </span><i><span style="font-weight: 400;">“apenas o gatilho vivo de mandadores sem rosto”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sandro possui um passado ofuscado, e suas origens são também um mistério até a metade do livro. Mas, o que Diogo Santiago desconfia, e acaba por receber a confirmação, é que ambos eram irmãos de mães diferentes. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Sandro era do meu sangue. E como não existem parentescos por metade, ele era meu irmão, o meu único irmão.”</span></i></p>
<figure id="attachment_23896" aria-describedby="caption-attachment-23896" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23896 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-3-683x1024.jpg" alt="Capa do livro O Mapeador de Ausências. Na imagem, Há o desenho de uma mulher negra com diversos tecidos coloridos. Esses tecidos são de cor vermelha, azul, amarela, branca, rosa e verde. Ao centro, está escrito Mia Couto em fonte de cor branca, com a grafia do próprio autor, e abaixo escrito O Mapeador de ausências, também em fonte de cor branca. Acima do seu nome está o logo da editora Companhia das Letras." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-3-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-3-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-3-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-3.jpg 827w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-23896" class="wp-caption-text">A arte da capa faz alusão às diversas camadas no enredo do livro (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Virginia Santiago, mãe de Diogo e esposa de Adriano, é também memorável. Ela demonstra a força e a inteligência, lidando com maestria com os devaneios do marido, da mesma forma que consegue driblar os questionamentos dos agentes da PIDE. Todavia, através dos trechos do diário de Diogo, vemos a maneira como Virginia foi sendo deixada de lado, e, lentamente, entregue à </span><a href="https://personaunesp.com.br/utopia-da-realidade-horrenda-ainda-nos-restam-50-anos-de-solidao/"><span style="font-weight: 400;">solidão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mas, como é recorrente na obra de Mia Couto, nada é de fato assertivo, apenas sugerido para que nossa imaginação complete o contexto. Apesar de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências </span></i><span style="font-weight: 400;">apresentar o protagonista como um ser empático, colocando-se, desde a infância, no lugar dos outros, percebemos sua dificuldade em enxergar através dos olhos do pai, justamente por suas posições machistas e homofóbicas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Lembras-te de o teu pai proibir que tu e o Sandro dormissem no mesmo quarto?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Não metas o Diogo nesse assunto — apressou-se a</span><span style="font-weight: 400;"> ordenar o meu pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Deixa falar, Adriano — proclamou a mãe. — Esse teu pai, que se diz todo moderno, nunca aceitou que o nosso Sandro fosse diferente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Apenas disse que o rapaz era doente — interrompeu o meu pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Doente és tu, Adriano Santiago. E eu estou cansada de ser a tua cura.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Algo extremamente poderoso em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a enorme facilidade com que o moçambicano constrói diálogos fidedignos e convincentes. Particularmente, um dos problemas em se ler obras literárias é encontrar diálogos rasos e entreguistas, que dizem exatamente aquilo que o autor precisa para prosseguir a história, e não o que caberia na boca do personagem. Como um dos herdeiros mais ricos da obra de </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/grande-sertao-veredas-aos-65-anos-obra-segue-repleta-de-enigmas/"><span style="font-weight: 400;">João Guimarães Rosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, Mia Couto estabelece diálogos poéticos e ainda assim verdadeiros, que mantêm a oralidade como o ponto alto de suas obras. </span><a href="https://www.fflch.usp.br/1772"><span style="font-weight: 400;">Segundo o próprio escritor</span></a><span style="font-weight: 400;">, seus trabalhos são iniciados com a construção dos personagens, e somente depois pensa-se na construção da trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na epígrafe do livro, lemos um </span><a href="https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/poemas-poesias/o-que-haikai.htm"><i><span style="font-weight: 400;">haikai</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">Jorge Luis Borges</span></a><span style="font-weight: 400;">, no qual o autor escreve: </span><i><span style="font-weight: 400;">“É um império/aquela luz que se apaga/ou é um vagalume?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Essas três sentenças elucidam o percurso de Diogo Santiago, em que qualquer vestígio do passado ganha proporções gigantescas em decorrência do tempo. A magia dos textos literários de Couto é compreender a realidade como algo fantástico, passível de paradoxos e caminhos conflitantes. </span></p>
<p><figure id="attachment_23897" aria-describedby="caption-attachment-23897" style="width: 940px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23897" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-4.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de Mia Couto no ano de 1974. Na foto, Couto está de braços cruzados conversando com outro homem, cercado por outros dois homens brancos e outros dois homens negros. Couto é um homem branco e possui cabelos lisos à altura do ombro. Ele veste uma jaqueta de cor cinza e está utilizando um óculos com lentes transparentes e hastes de cor preta. O homem à sua frente é branco, possui cabelos ralos de cor preta e barba de cor preta. Ele veste uma calça branca e uma camisa com bolsos frontais, de cor cinza." width="940" height="854" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-4.jpg 940w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-4-800x727.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/mia-couto-4-768x698.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23897" class="wp-caption-text">Como jornalista, Mia Couto (à esquerda) cobriu, em 1974, a viagem de Samora Machel, líder da revolução moçambicana e ex-presidente de Moçambique [Foto: Jornal Expresso]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Mas aqui, agora, vamos supor que chegamos ao final. Que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=nZzsXoF7Dzw&amp;ab_channel=CompanhiadasLetras"><i><span style="font-weight: 400;">O Mapeador de Ausências</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">tenha sido resenhado, que todos os elementos pertinentes foram abordados e que você compreendeu os pontos altos deste ambicioso projeto. Como as várias camadas do livro, esse texto também possui diversas interpretações, bem como as diversas realidades possíveis de leitura. Em algumas você leu e gostou, em outras você sequer chegou ao final dele. O importante, de qualquer modo, é saber que o texto estará aqui, e que, principalmente, muitos não chegarão até ele. Fomos construídos através de faltas permanentes, e, ao fechar o livro, só podemos ter a certeza de que todas as ausências se tornam presenças.</span></p>
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		<title>Pequena coreografia do adeus e o que fazemos com nossos corações destroçados</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2021 10:46:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos para todos aquele que procuram uma  Casa dentro de casa em especial aos que procuram desesperadamente. Absorver Pequena coreografia do adeus não é um trabalho fácil. Publicado pela Companhia das Letras em 2021, o novo livro de Aline Bei é como voar bem alto, bater no teto da existência e espiar o que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Pequena coreografia do adeus e o que fazemos com nossos corações destroçados"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21399" aria-describedby="caption-attachment-21399" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21399 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11.png" alt="Arte com a capa do livro &quot;Pequena coreografia do adeus&quot;. No centro, está a capa do livro, O fundo é rosa e roxo com pétalas rosas. No canto superior esquerdo, está o olho do Persona. No canto inferior direito, está o símbolo azul da Cia das Letras." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21399" class="wp-caption-text">A figura que ilustra capa é &#8220;Etats modifiés&#8221;, de autoria de Louise Bourgeois (Foto: Companhia das Letras/Arte: Caroline Campos)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">para todos aquele que procuram uma </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Casa dentro de casa</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">em especial aos que procuram</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">desesperadamente.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Absorver </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-06-11/aline-bei-faz-do-abandono-uma-danca-poetica-em-pequena-coreografia-do-adeus.html"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não é um trabalho fácil. Publicado pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2021, o novo livro de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/como-aline-bei-virou-autora-best-seller-vendendo-seus-livros-no-instagram.shtml"><span style="font-weight: 400;">Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> é como voar bem alto, bater no teto da existência e espiar o que há além. Mais um </span><a href="https://personaunesp.com.br/depois-stephen-king-critica/"><span style="font-weight: 400;">fruto</span></a><span style="font-weight: 400;"> da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/parceria-cia-das-letras/"><span style="font-weight: 400;">parceria</span></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><b>Persona </b><span style="font-weight: 400;">com o grupo editorial, a autora vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura derrama sua ternura e seu carinho pelas próprias criaturas, se transmutando a cada página a fim de se tornar algo tão único que só o leitor perfeitamente quebrado é capaz de dançar em sua companhia.</span></p>
<p><span id="more-21397"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">palavras de Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> dão voz a Júlia Terra, uma jovem escritora nascida do solo rachado que um dia foi amor entre Vera e Sérgio. Em três ciclos de vida, Júlia despeja suas cicatrizes e devaneios de forma tão íntima que nos sentimos invasores, roubando confidências que não possuem esperanças de florescer na infertilidade de sua casa. No entanto, a história da personagem não carrega o desprazer da espetacularização da dor, já que Bei respeita, acima de tudo, a Júlia que se construiu em meio a tanta demolição – não apenas apesar da dor, como também em razão dela.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Querido diário,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu me chamo Júlia Manjuba Terra e não acredito no amor. Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar em uma música, porque além de bonita ela desaparece quando alguém desliga o rádio. (&#8230;)</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 282 páginas que correm tão rápido como se estivessem em fuga de sua plateia, a prosa em ondas da autora de </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/02/16/aline-bei-autora-de-o-peso-do-passaro-morto-dor-da-mulher-e-maior.htm"><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é o que garante que os manifestos da jovem sejam tão intensos. Assim como sua criadora, Júlia também se descobre uma domadora das palavras, na tentativa de exorcizar a violência a que foi exposta desde cedo. Sua mãe, Vera, uma mulher amargurada pelo abandono, a surrava constantemente, como </span><i><span style="font-weight: 400;">uma verdadeira Rainha de um pequeno país em guerra (&#8230;)</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resultado desse relacionamento é um jardim de culpas e ódios que se enrola por dentro da protagonista durante grande parte da sua vida. Sérgio, sua distante figura paterna, não demora para abandonar o campo de batalha e se torna um conhecido de visitas semanais e olhares perdidos, arrancando um dos poucos alicerces que mantinham aquela criança violentada de pé. Mesmo com o passar do tempo, Júlia não consegue se desprender dos buracos no peito e continua tropeçando nos próprios cacos, que ganham novos contornos conforme a idade e a independência vão batendo na porta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A performance narrativa de Aline Bei em </span><a href="https://idris.com.br/blog/2021/05/18/resenha-pequena-coreografia-do-adeus-aline-bei/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é dolorosamente bela, capaz de nos fazer reinterpretar a forma com que percebemos a realidade ao nosso redor. A Júlia-criança e a Júlia-quase-adulta se deparam com os mesmos becos sem saída nas ruas dos amores da vida, sejam elas possíveis sementes românticas ou futuros laços fraternos – quantas versões de Júlia deterioraram para que essa pudesse se apresentar a nós?</span></p>
<figure id="attachment_21398" aria-describedby="caption-attachment-21398" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21398 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei.jpg" alt="Foto de Alinei Bei, uma mulher branca de 30 anos com cabelos pretos na altura dos ombros. Ela usa um blazer preto e um cropped com listras brancas e vermelhas. Podemos vê-la da cintura para cima, com a mão direita em um corrimão. As sombras do corrimão estão projetadas em toda a imagem. " width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21398" class="wp-caption-text">O primeiro livro de Aline Bei, &#8220;O peso do pássaro morto&#8221;, foi publicado pela editora independente &#8220;Nós&#8221; (Foto: Edilson Dantas/O Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nunca vamos, nem devemos, saber. A </span><a href="https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/05/14/com-pequena-coreografia-do-adeus-aline-bei-fortalece-discurso-feminista.ghtml"><span style="font-weight: 400;">protagonista de Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma força da natureza embalada na própria tempestade e, apesar de não conseguir compreender o próprio papel nessa jornada em que foi colocada, possui uma profundidade tão latente que nos é impossível visualizar seu fundo. Júlia, privada de se comunicar com os seus, passa a desejar de tudo – ser música, viver o balé, nadar com as palavras. E é no diário que seus gritos um dia silenciados pelas chineladas da mãe passam a transbordar. </span><i><span style="font-weight: 400;">Júlia Terra Escritora</span></i><span style="font-weight: 400;">, dizem os capítulos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há como Júlia ser Júlia sem a destreza da estrutura textual de </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/02/16/aline-bei-autora-de-o-peso-do-passaro-morto-dor-da-mulher-e-maior.htm"><span style="font-weight: 400;">Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;">. A paulistana brinca com a elaboração de frases e transita entre fontes e parágrafos de forma com que o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanhe seus passos vagarosamente, temendo perder alguma nuance mínima de sua narrativa. Depois de concluída, a leitura ainda flutua viva pelo ambiente, desafiando a pobre plateia a esquecê-la, superá-la. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">(&#8230;) já naquela época eu sabia que mentir era um direito</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">básico</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">à fabulação</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">que eu usufruía</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">quase sem</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">culpa</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">pra conseguir ser um pouco mais livre.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Acumulando companheiros de páginas, Júlia colore sua experiência com o abandono e reflete o passado de desamor nos relacionamentos a que é apresentada. Para Vegas, amigo de café, o mistério confortável dos estranhos. Para Maurício, garçom e amante, a paixão falsa dos casamentos. Para Ricardo, parisiense-paulistano, o medo do envolvimento e da ausência. Para Argentina, viúva da pensão, o afeto até então desconhecido. O que sobra para Júlia? Talvez a beleza sofrida da caminhada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com reticências implícitas, </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/noticia/2021/05/saiba-tudo-sobre-o-novo-romance-de-aline-bei-autora-do-premiado-livro-o-peso-do-passaro-morto.html"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> desenha uma atmosfera agridoce no ar. Nem pessimista nem otimista, Aline Bei reconhece os equilíbrios e os paradoxos da vida, fundamentais para que a redenção, em algum momento, venha em nossa direção. Muito do que nós somos é forjado pela imperfeição da música que nossos corações destroçados produzem e, se for para aceitar por inteira a batida, que seja em uma pequena coreografia.</span></p>
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		<title>O passado vem Depois no novo livro de Stephen King</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Jun 2021 16:35:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos Não são necessários floreios de apresentação quando se trata de Stephen King. O autor já passou por palhaços do mal, carros do mal, cachorros do mal, garotas do mal, hotéis do mal e, mesmo assim, parece que sua fonte da criatividade não se cansa de jorrar ideias para serem passadas ao papel. Depois, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/depois-stephen-king-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O passado vem Depois no novo livro de Stephen King"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21176" aria-describedby="caption-attachment-21176" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21176 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5.png" alt="Arte do livro Depois. O fundo é vermelho, com a ilustração de uma mulher e um garoto ao lado de um carro replicada nos cantos direito e esquerdo. No centro, a palavra DEPOIS está escrita em amarela, acima do nome STEPHEN KING em branco. No canto superior esquerdo, está o olho do persona. No canto superior direito, está o símbolo da parceira com a Cia das Letras." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Design-sem-nome-5-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21176" class="wp-caption-text"><a href="https://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/">Apague a luz se for chorar</a> e <a href="https://personaunesp.com.br/uma-familia-quase-perfeita-critica/">Uma família quase perfeita</a> foram os dois primeiros livros resenhados na parceria com a Cia das Letras (Foto: Companhia das Letras/Arte: Caroline Campos)</figcaption></figure>
<p><strong>Caroline Campos</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não são necessários floreios de apresentação quando se trata de </span><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2021/03/stephen-king-por-onde-comecar-a-ler-veja-dicas-de-quem-entende-do-assunto-ckme84p9d00bc016ulsr92m9x.html"><span style="font-weight: 400;">Stephen King</span></a><span style="font-weight: 400;">. O autor já passou por palhaços do mal, carros do mal, cachorros do mal, garotas do mal, hotéis do mal e, mesmo assim, parece que sua fonte da criatividade não se cansa de jorrar ideias para serem passadas ao papel. </span><a href="https://blog.estantevirtual.com.br/2021/04/09/resenha-depois-de-stephen-king/"><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, terceiro livro da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/parceria-cia-das-letras/"><span style="font-weight: 400;">parceria</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, é mais uma de suas empreitadas pelo mundo dos espíritos. Dessa vez, no entanto, pode-se dizer que sua narrativa é mais otimista e divertida do que sombria e aterrorizante para os parâmetros do </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/webstories/cultura/2020/10/o-terror-das-obras-de-stephen-king/"><span style="font-weight: 400;">Mestre do Terror</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-21174"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fácil se ludibriar com as meras 192 páginas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i><span style="font-weight: 400;">, publicado sob o selo da Editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Suma</span></i><span style="font-weight: 400;">. King sabe exatamente o quanto de sua história pretende contar – o suficiente para empolgar e trabalhar em cima de seus personagens e o necessário para esganiçar a curiosidade do leitor e deixar pontas estrategicamente soltas que só ganharão nós na imaginação de cada um. Quando o livro chega ao fim, o equilíbrio entre a finalização perfeita e o desejo por mais informações é a utopia de qualquer escritor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história de Jamie Conklin funciona quase como um </span><a href="https://cinematecando.com.br/importancia-dos-filmes-coming-of-age/"><i><span style="font-weight: 400;">coming-of-age</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> sobrenatural. Desde sempre, o garoto vê gente morta. Com que frequência? Bem, quando elas morrem, claro. Por sua breve experiência conversando com fantasmas, ele sabe dos seguintes fatores: os mortos somem depois de alguns dias, estão sempre do jeito que morreram e eles definitivamente não podem mentir. Diferente dos vivos, que respiram por seus segredos, os mortos não conseguem carregá-los para os túmulos.</span></p>
<figure id="attachment_21175" aria-describedby="caption-attachment-21175" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21175 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021.jpg" alt="Foto do autor Stephen King. Stephen é um homem branco de 73 anos, com os cabelos levemente grisalhos. Ele usa um moletom cinza com uma camiseta preta por baixo. Possui óculos retangulares. " width="2000" height="1270" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021-800x508.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021-1024x650.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021-768x488.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021-1536x975.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/StephenKing2021-1200x762.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21175" class="wp-caption-text">Stephen King ainda é Stephen King: a revelação final de Depois, seu mais novo livro, é marca registrada da cabeça fora de série do autor (Foto: Stephen King)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem conduz a narrativa é um Jamie de 22 anos que não hesita em afirmar: </span><a href="https://super.abril.com.br/blog/turma-do-fundao/os-5-livros-mais-assustadores-de-stephen-king/"><i><span style="font-weight: 400;">“essa história é de terror”</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Fomos avisados, mas a ficha demora bons capítulos para cair. Os fantasmas estão longe de serem os maiores contratempos do garoto, que passa por perrengues financeiros durante o colapso econômico de 2008 e lida com o relacionamento instável da mãe com Liz Dutton, a policial que, </span><i><span style="font-weight: 400;">depois</span></i><span style="font-weight: 400;">, vira o centro de todos os seus problemas. O advérbio-título, inclusive, se torna a palavra preferida do personagem, afinal, ele só resolve refletir sobre a tumultuada infância e adolescência </span><i><span style="font-weight: 400;">depois</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><a href="https://www.stephenking.com.br/feliz-aniversario-king-73-curiosidades-sobre-o-autor/"><span style="font-weight: 400;">Stephen King</span></a><span style="font-weight: 400;"> se desvincula de sua <em>persona</em> para dar lugar aos vícios de escrita de um jovem adulto que ainda tem dificuldades em traçar uma linha de raciocínio pelo período mais </span><i><span style="font-weight: 400;">punk rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> de sua vida até agora. Jamie gosta (e muito) de brincar com o uso de parênteses (todos os seus pensamentos atravessados se limitam a ficar dentro das curvas) e King, seu mestre-criador, dá liberdade total ao novato para navegar pelo mar de suas memórias (um mar bem agitado, diga-se de passagem).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i><span style="font-weight: 400;">, não há espaço para questionamentos profundos e existenciais acerca do pós-vida. King, como faz durante todo o livro, apenas planta sementes esperando que seu leitor as colha – o que acontece com espíritos tomados pelo ódio? E àqueles que viveram cercados de amor? O paradoxo é cutucado, mas bem pouco manuseado pelo escritor. O bicho-papão de Jamie, que encarna no corpo já morto de um terrorista, poderia muito bem estrelar o próximo </span><a href="https://noset.com.br/atividade-paranormal-2007-2015/"><i><span style="font-weight: 400;">Atividade Paranormal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">; ele é mau, sem explicações, sem </span><i><span style="font-weight: 400;">background</span></i><span style="font-weight: 400;">, sem aprofundamento. O leitor que decida o que fazer com essa informação.</span></p>
<figure id="attachment_21177" aria-describedby="caption-attachment-21177" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21177 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephen-king-depois-pre-venda-brindes-livro-800x800.jpg" alt="Imagem do livro Depois. O livro está de pé, inclinado para a esquerda. A capa é vermelha e possui DEPOIS escrito em amarelo e STEPHEN KING em branco. No canto direito, há a ilustração de uma mulher e um garoto. A mulher está encostada em um carro. A lombada é branca, assim como o fundo." width="800" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephen-king-depois-pre-venda-brindes-livro-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephen-king-depois-pre-venda-brindes-livro-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephen-king-depois-pre-venda-brindes-livro-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/stephen-king-depois-pre-venda-brindes-livro.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-21177" class="wp-caption-text">“Nós mudamos, mas não mudamos. Não sei explicar. É um mistério” (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dos aspectos sobrenaturais, não falta humanidade na vida de Jaime. A história flutua entre os seis e os quinze anos de idade do jovem e, por incrível que pareça, os espectros são meros coadjuvantes entre todas as suas preocupações, que envolvem desde o desenho infantil de um peru verde até as borboletas do primeiro beijo. Seu relacionamento com Thia, sua mãe, e com o professor Burkett, antigo vizinho, mantém Jamie com os pés no chão. </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-outsider-critica/"><span style="font-weight: 400;">Stephen King</span></a><span style="font-weight: 400;"> quase reforça: uma boa base familiar evita que até mesmo crianças traumatizadas com gente morta fiquem doidas. Na medida do possível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As contradições que envolvem Liz dão o pontapé final para o mais próximo de um clímax que </span><a href="http://www.coisasdemineira.com/depois-stephen-king/"><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> possui. Bem, digamos que é muito pior lidar com uma mulher armada chapada de cocaína do que com um espírito com a cabeça estourada. Nada, no entanto, é exagerado. Jamie possui apenas 15 anos e ainda vai enfrentar muitos clímax pela frente. King não só sabe disso como também acredita que seu leitor fiel vai entendê-lo. Quanto ao garoto, bem, ele pode pensar nisso </span><i><span style="font-weight: 400;">depois</span></i><span style="font-weight: 400;">, não é?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tradução de Regiane Winarski, que transformou </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/03/02/books/review/stephen-king-later.html"><i><span style="font-weight: 400;">Later</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">em </span><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i><span style="font-weight: 400;">, dialoga com a empolgação do texto original, e as palavras de Jaime cativam mesmo escritas no nosso idioma tropical. O protagonista não cansa a paciência de quem o acompanha – é um adolescente curioso e decidido, mas sem pender para as chatices estereotipadas e pedantes que muitos autores tendem a associar com a faixa etária. Jamie é o sinônimo de </span><i><span style="font-weight: 400;">herói</span></i><span style="font-weight: 400;">, aquele que faz a gente torcer e se identificar, independente da diferença entre realidades.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“A gente se acostuma com as coisas extraordinárias. Aceita como normais. Podemos até tentar não nos acostumar, mas é o que acontece. Tem coisa extraordinária demais no mundo, só isso. Em toda parte.”</span></p></blockquote>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Depois</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode não entrar no </span><i><span style="font-weight: 400;">hall</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://www.taglivros.com/blog/os-10-melhores-livros-de-stephen-king-segundo-seus-fas/"><span style="font-weight: 400;">obras inesquecíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Stephen King, mas é a prova de que o escritor não tem problemas em lidar com histórias comuns, mesmo que de pessoas extraordinárias. Esqueça os rituais demoníacos e os </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cemiterio-stephen-king-enterra-receios-autor-ressuscita-historia-sobria-intensa-muito-assustadora/"><i><span style="font-weight: 400;">simitérios</span></i><span style="font-weight: 400;"> de animais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aqui, os mortos se elevam à altura da vida que viveram, sem tirar nem pôr (não espere um além-vida divertido se você curte botar bombas em orelhões). A história de Jamie Conklin não acaba; ela fica para </span><i><span style="font-weight: 400;">depois</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Uma família quase perfeita subverte a justiça sueca</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2021 16:42:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos Pai pastor, mãe advogada e filha prodígio. Essa é a fórmula infalível para produzir uma família bem vista, amigável e exemplar, certo? O autor sueco M.T. Edvardsson parece discordar. Parte da parceria com a Companhia das Letras e publicado sob o selo da Suma, Uma família quase perfeita é um thriller intenso e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/uma-familia-quase-perfeita-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Uma família quase perfeita subverte a justiça sueca"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_20676" aria-describedby="caption-attachment-20676" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20676 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4.png" alt="Arte com a capa do livro Uma família quase perfeita. No canto esquerdo superior, vemos o símbolo do persona: o olho com íris vermelha. Abaixo dele, há uma silhueta em vinho do rosto de uma mulher. No centro da imagem, a capa do livro cinza, com duas siilhuetas em vinho nas laterais e uma em preto no centro. Dentro dela, há a imagem de uma garota andando de bicleta e o título do livro em branco. No alto, o nome M.T. EDVARDSSON está em vinho. A direita, outra silhueta, dessa vez do rosto de um homem, também está em vinho. Abaixo, o selo da parceria com a Cia das Letras em azul." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20676" class="wp-caption-text">A resenha anterior da parceria foi o goiano Apague a luz se for chorar, de Fabiane Guimarães (Foto: Guilherme Xavier/Suma; Arte: Caroline Campos)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pai pastor, mãe advogada e filha prodígio. Essa é a fórmula infalível para produzir uma família bem vista, amigável e exemplar, certo? O autor sueco M.T. Edvardsson parece discordar. Parte da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/parceria-cia-das-letras/"><span style="font-weight: 400;">parceria</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e publicado sob o selo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Suma</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=woqf-Ug9Gdk"><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;"> intenso e envolvente sobre a verdadeira face da justiça e as situações extremas que podemos nos colocar para proteger aquilo que nos é mais sagrado. Mas, </span><b>atenção</b><span style="font-weight: 400;">: o livro possui gatilhos relacionados à violência sexual e psicológica. A narrativa pode causar perturbações em leitores mais sensíveis aos temas. </span></p>
<p><span id="more-20674"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através das 376 páginas traduzidas por Natalie Gerhardt, Edvardsson se diverte às custas da curiosidade de seu leitor para tentar responder: quem matou Christopher Olsen? A principal suspeita, já detida e investigada, é Stella Sandell. Aquela Stella, filha do benevolente pastor Adam e da talentosa advogada Ulrika. O choque atravessa os quatro cantos da pequena cidade de Lund, abalada com o fato de que uma garota de 18 anos possa ter matado brutalmente com golpes de faca um empresário de sucesso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, passada a tempestade, os sussurros começam &#8211; Stella era uma garota problemática, agressiva e incapaz de resistir aos seus impulsos. O tribunal público já havia dado sua sentença, todos conheciam sua reputação, e a família intocável dos Sandell começava a desabar. O primeiro testemunho é dele, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pai</span></i><span style="font-weight: 400;">. A história nos é contada sob o ponto de vista de Adam na parte um do livro, e o que se inicia com o relato de um homem cristão passando por dilemas éticos e se lamentando com metáforas bíblicas, se transforma em uma narrativa paranoica acerca de um moralismo falido e hipócrita vindo de um pastor que a todos julgava.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Do fruto de sua boca o homem se beneficia, e o </span></i><i><span style="font-weight: 400;">trabalho de suas mãos será recompensado.</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Provérbios 12:14</span></i></p>
<figure id="attachment_20679" aria-describedby="caption-attachment-20679" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20679 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1024x686.jpg" alt="Fotografia de M.T. Edvardsson. O sueco está enquadrado na direita da imagem, na região do peito para cima. Ele é um homem branco, de meia idade e careca. M.T. usa uma jaqueta azul e um cachecol cinza." width="840" height="563" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1024x686.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-300x201.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-768x514.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1200x803.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20679" class="wp-caption-text">M.T., abreviação para Mattias, utiliza citações antes do início de cada parte do livro, explicando, através delas, um pouco da personalidade do personagem que irá assumir a narração (Foto: M.T. Edvardsson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A visão de Adam sobre a própria filha é uma grande disputa por controle. Superprotetor e beirando o abusivo, o pai é nosso primeiro contato com quem, afinal, pode ser Stella. Surpreendemente, percebemos que o pastor não faz a menor ideia da resposta &#8211; tudo que ele vê é quem gostaria que ela fosse, ingênua, passiva e vulnerável. A </span><i><span style="font-weight: 400;">persona</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Adam vai caindo aos pedaços conforme ele se arrisca em suas investigações, e podemos ouvir a reverberação da risada do autor sueco, que escolheu justamente um pastor,</span><i><span style="font-weight: 400;"> símbolo da verdade e da bondade</span></i><span style="font-weight: 400;">, para iniciar sua história conturbada e ser o patriarca de uma família que preza, acima de tudo, pelas aparências. Custe o que custar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo do tom da primeira narrativa se tornar cansativo, M.T. Edvardsson troca os papéis e passa o microfone para a estrela do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;">, Stella. Já confinada em uma cela, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha</span></i><span style="font-weight: 400;"> é assombrada por ações muito anteriores ao assassinato. Apesar da tentativa de simpatizar nem que seja o mínimo com a jovem, cada pensamento e lembrança que ela retoma nos dá vontade de gritar. Mimada, infantil e arrogante, Stella Sandell sofre do mal do </span><i><span style="font-weight: 400;">filho-de-pais-classe-alta-que-não-consegue-se-encontrar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Prepare os olhos para as inevitáveis e automáticas reviradas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que a garota não seja culpada pelas inúmeras situações que cria, ela com certeza sabe piorá-las com suas crises de raiva violentas e birras intensas. Os problemas de Stella, no entanto, não são superficialmente abordados. A necessidade de garantir a fachada da família fez com que seus pais a prendessem em uma cúpula emocional, onde a proibição era clara &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">em casa a gente resolve; não faça um escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua rebeldia adolescente e personalidade explosiva foram o empurrão que faltava para a jovem se afogar dentro do próprio aquário e iniciar uma jornada que, se não fosse por Amina, sua melhor amiga, seria gradualmente autodestrutiva.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Que te parece? Não ficaria apagada a mancha dum só </span></i><i><span style="font-weight: 400;">crime, insignificante, com milhares de boas ações?</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo</span></i></p>
<figure id="attachment_20677" aria-describedby="caption-attachment-20677" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20677 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1024x768.jpg" alt="Fotografia do livro En Helt Vanlig Familj. O livro está no centro da imagem, fotografado de cima para baixo. A capa contém o nome do livro em letras brancas e grandes, formando um bloco de texto. O fundo da capa é preto com símbolos de fumaça. Ele está apoiado em um batente de madeira." width="840" height="630" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1200x900.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20677" class="wp-caption-text">Capa original sueca, com o título En Helt Vanlig Familj (Foto: Västmanbok)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando chega a vez de Ulrika, já estamos levemente aborrecidos. Claro que o objetivo de um suspense é deixar o leitor na expectativa até a conclusão da história, mas as idas e vindas entre passado e presente de </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i><span style="font-weight: 400;"> rendem uma série de momentos anticlimáticos e repetições desnecessárias. Assim, o testemunho d’</span><i><span style="font-weight: 400;">A Mãe </span></i><span style="font-weight: 400;">é o ponto de vista escolhido para as grandes revelações da trama. O julgamento de Stella rouba a cena e aguça os ânimos, mas é quase engolido pelos devaneios entediantes da advogada, que retoma, capítulo sim capítulo não, os mesmos acontecimentos já abordados por Adam e Stella anteriormente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o mais interessante da narrativa de Edvardsson é sua capacidade de diferenciar seus personagens através da escrita. Os Sandell possuem convicções diferentes, idades distantes e um </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi</span></i><span style="font-weight: 400;"> muito próprio de cada personalidade e o autor não só os entende como também os explora decisivamente. As outras duas figuras-chave para solucionar o suspense, Christopher e Amina, são abordados apenas pelos olhos do trio, mas incrementam a carga dramática de uma trama familiar complexa por si só e se encarregam de unir as três pontas soltas da obra sueca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da qualidade de </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i><span style="font-weight: 400;">, que cumpre o mistério que propõe, M.T. Edvardsson utiliza demasiadamente da violência sexual contra suas personagens femininas. São três estupros abordados contra três mulheres diferentes, e a sensação de mal estar é impossível de ser ignorada, mesmo que nenhum deles seja detalhado ou descrito. Em pelo menos duas das situações, as jovens recebem traços neuróticos e quase maníacos em suas características pós-violência para reforçar as consequentes marcas psicológicas e o sistema penal, irrefutavelmente falho em acolher essas garotas, da Suécia.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Não existe justiça &#8211; nem dentro nem fora dos tribunais.</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Clarence Darrow</span></i></p>
<figure id="attachment_20675" aria-describedby="caption-attachment-20675" style="width: 591px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20675 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48.png" alt="Fotografia de M.T. Edvardsson. M.T. está no centro da imagem e segura quatro livros em suas mãos - diversas versões de sua obra Uma família quase perfeita. Ele é um homem branco, de meia idade e careca e usa uma camiseta simples verde. Ao fundo, vemos um grande jardim." width="591" height="587" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48.png 591w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48-300x298.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 591px) 85vw, 591px" /><figcaption id="caption-attachment-20675" class="wp-caption-text">O título “Uma família quase perfeita” poderia ter saído de um filme digno de Sessão da Tarde (Foto: M.T. Edvardsson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O final do livro de Edvardsson não é moldado para ser surpreendente, pois o sueco soube se garantir com seus </span><i><span style="font-weight: 400;">comos </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">porquês </span></i><span style="font-weight: 400;">para não precisar depender, de fato, de um </span><i><span style="font-weight: 400;">quem</span></i><span style="font-weight: 400;">. Quando as conclusões se desenrolam, até esquecemos de nos questionar a identidade do responsável por empunhar a faca que estripou Christopher Olsen. O epílogo responde a dúvida, para o alívio dos curiosos de plantão, mas toda a atmosfera construída nas últimas páginas dispensa considerações óbvias como a face do assassino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o mérito da leitura cativante pertence aos capítulos curtos ou à construção de uma matilha afiada em pele de cordeirinhos assustados que o sueco proporciona, cabe ao leitor decidir. Mas </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000562"><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é uma obra natural para integrar o catálogo de suspenses da </span><i><span style="font-weight: 400;">Suma</span></i><span style="font-weight: 400;">, e, mesmo sem muitas reviravoltas marcantes, o livro consegue jogar de um lado para o outro o principal investigador desse assassinato: você.</span></p>
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