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	<title>Arquivos Direitos Humanos &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Direitos Humanos &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Holy Spider cai em sua própria teia</title>
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		<pubDate>Mon, 08 May 2023 16:21:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Pinheiro “Estarei de volta quando você acordar&#8220;, diz uma mulher ao seu filho horas antes de ser brutalmente assassinada enquanto trabalhava. Ela arrumou-se e o beijou pela última vez sem saber o que aconteceria em mais uma noite nas ruas. Essa é a primeira cena de Holy Spider, a qual elucida tudo o que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/holy-spider-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Holy Spider cai em sua própria teia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30853" aria-describedby="caption-attachment-30853" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-30853" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. Mulher caído ao chão com apenas sua mão e tronco à mostra no take do filme, foco central em sua mão derrubada - tudo acima de um tapete estampado" width="1200" height="501" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-768x321.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30853" class="wp-caption-text">“Cada homem encontrará o que deseja evitar” Imam Ali &#8211; Nahj Al-Balagha &#8211; Sermão 149. (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Pinheiro</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Estarei de volta quando você acordar</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, diz uma mulher ao seu filho horas antes de ser brutalmente assassinada enquanto trabalhava. Ela arrumou-se e o beijou pela última vez sem saber o que aconteceria em mais uma noite nas ruas. Essa é a primeira cena de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iPkE7VT8SOY"><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a qual elucida tudo o que o filme pretende contar durante sua exibição. Nela, uma prostituta iraniana caminha pela cidade de Mashhad enfrentando olhares mal-intencionados e buscando refúgio em drogas para escapar da realidade assombrosa a qual é condenada a viver. </span></p>
<p><span id="more-30849"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À espera de dinheiro em uma viela escura, a personagem é convocada a prestar serviço e surpreende o telespectador quando é sequestrada e, depois, enforcada pelo seu próprio lenço &#8211; ato extremamente simbólico para a construção do enredo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">takes</span></i><span style="font-weight: 400;"> longos de agonia explícita, a mulher havia caído na teia de assassinatos do “matador de aranhas”, caso real que o diretor Ali Abassi faz releitura nesse longa-metragem destaque no Festival de </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/cannes/"><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e pré-selecionado ao</span> <a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indicado e aclamado por grandes premiações de Cinema, </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> promove a representação essencial da orientalidade para o mundo &#8211; pouco valorizada nas academias cinematográficas historicamente </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-157993/"><span style="font-weight: 400;">xenofóbicas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, a obra não resume-se a isso e expõe em detalhe a realidade do Irã. Em análise geral, a proposta do filme demonstra e examina o baque entre a estrutura social política religiosa no País e os atos revoltosos que lutam pela aplicação efetiva dos Direitos Humanos no local. </span></p>
<figure id="attachment_30850" aria-describedby="caption-attachment-30850" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30850" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1.jpg" alt="A fotografia retrata certo centro urbano iraniano em que está sendo realizada uma manifestação popular. O fundo está desfocado e ao ponto médio apresenta-se apenas o recorte superior da cabeça de uma mulher e suas mãos levantadas, essas que carregam uma imagem de Jina Mahsa Amini. É dia durante o mutuado protesto, os manifestantes usam roupas de frio e suas expressões não são possíveis de serem visualizadas devido ao desfoque da câmera" width="1999" height="1333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1200x800.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30850" class="wp-caption-text">Uma mensagem ao Irã é deixada no epitáfio de Amini: &#8220;Querida Jina, você não está morta. Seu nome será um símbolo&#8221; (Foto: Ozan Kose)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.dw.com/pt-br/a-hist%C3%B3ria-de-jina-mahsa-amini-o-rosto-dos-protestos-no-ir%C3%A3/a-64003741"><span style="font-weight: 400;">Jina Mahsa Amini</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sua injusta morte produziram um paralelo significante da realidade para a narrativa fílmica: a jovem foi assassinada pela Polícia Militar sem motivo aparente &#8211; considerada infligidora da lei devido à exposição mínima de seu cabelo publicamente. O evento repercutiu e paralisou as ruas do país inteiro dada a tirania militar e a supremacia religiosa que tirou sua vida em Setembro de 2022. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ali Abassi lançou </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;">, seu segundo longa-metragem, em Maio do mesmo ano, poucos meses antes do caso de Amini, o que confirma o retrato sangrento do diretor acerca da vida no Irã. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A ideia do filme acabou se misturando com a realidade da sociedade. Se você está falando sobre o apartheid contra as mulheres, isso acontece há muito tempo, e não é um sistema sustentável [..], uma hora, ia explodir</span></i><span style="font-weight: 400;">”, </span><a href="https://www.terra.com.br/amp/diversao/entre-telas/filmes/diretor-de-holy-spider-vai-de-misogino-a-feminista-em-poucos-meses,3e41e5057313782140d438652e145fbdjvemcyaf.html"><span style="font-weight: 400;">Abassi</span></a><span style="font-weight: 400;"> reconhece.</span></p>
<figure id="attachment_30851" aria-describedby="caption-attachment-30851" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30851" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. No centro encontram-se a protagonista Arezoo Rahimi, de burca preta longa, e seu parceiro de trabalho, de terno cinzento e uma maleta de couro nas mãos, lado a lado, rodeados de políticos e da família de Saee Hanaei. Cada um que integra a cena está vestido formalmente e olham em direções diferentes com faces sérias. Localizados em um tribunal, em que a parede atrás da protagonista é azul com uma pintura geométrica direcionada ao chão, uma faixa de azul mais escura" width="1200" height="501" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-768x321.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30851" class="wp-caption-text">“Matador de aranhas” foi um apelido dado ao real assassino pelo modo que os crimes eram realizados: estrangulamento com os lenços das próprias vítimas (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Saeed Hanaei (Mehdi Bajestani), um </span><i><span style="font-weight: 400;">serial-killer, </span></i><span style="font-weight: 400;">juntamente com Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), uma jornalista estudando os assassinatos cometidos por ele, estrelam esse terror psicológico inspirado na história real de um dos criminosos mais temidos do Irã entre os anos de 2000 e 2001. Hanei &#8211; nome fictício atribuído a </span><a href="https://www.estadao.com.br/amp/internacional/preso-no-ira-assassino-de-19-prostitutas/"><span style="font-weight: 400;">Saeed Hanali</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo filme &#8211; mata prostitutas porque as vê como “indignas à sociedade”. Ele acredita fazer uma limpeza social ao retirar “pecadoras” das ruas, trazê-las para sua casa e enforcá-las até a morte. Enquanto isso, Rahimi &#8211; personagem criada para auxiliar no desenvolvimento da história &#8211; chega à Mashhad para investigar a massa de homicídios semelhantes que estavam acontecendo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assemelhar a obra a um caso real acarreta na responsabilidade de expor a realidade via linguagem audiovisual. </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider </span></i><span style="font-weight: 400;">apropria-se grandemente de sua fotografia, realizada por Nadim Carlsen, para simbolizar suas temáticas. Pouca iluminação e tons esverdeados ou azuis aludem às próprias luzes da noite na cidade &#8211; seu cenário principal &#8211; e motiva o medo e a aflição na audiência. Essas características são propositalmente postas para se assemelharem aos filmes </span><a href="https://7marte.com/2019/09/o-que-e-filme-noir.html"><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">conhecidos pelos seus jogos de iluminação, enquadramentos inusitados e cenários urbanos criminais.</span></p>
<figure id="attachment_30855" aria-describedby="caption-attachment-30855" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30855" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. À esquerda, no fundo desfocado, encontra-se um carro e caixas que estão iluminados por uma luz verde. A localização é a rua vazia e escura, nela está a atriz Zar Amir Ebrahimi - à direita da imagem - interpretando Arezoo Rahimi quando liga em um telefone público, retratada em certa cena da obra cinematográfica, seu rosto é de surpresa e está vestindo uma burca preta com uma jaqueta da mesma cor sobreposta" width="1200" height="686" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-800x457.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-1024x585.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-768x439.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30855" class="wp-caption-text">Ali Abbasi também foi responsável pela direção dos dois últimos episódios de The Last of Us (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Abassi tece sua cinematografia com focos frequentes nos rostos do elenco, a fim de demonstrar claramente os sentimentos dos personagens diante das desconfortáveis situações em que atuam. Tal técnica, por exemplo, submete o público a enxergar verdadeiramente as </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60780061"><span style="font-weight: 400;">prostitutas</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresentadas, com o objetivo de humanizá-las, empatia esquecida por grande parte da população. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interpretação dos artistas foi explorada profundamente como peça essencial na qualidade do filme, o que resultou em elogios por parte dos críticos. Uma atuação medíocre tornaria </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> detestável à plateia: por possuir uma narrativa cruel, performances ruins tornariam a obra uma piada de mau gosto ou em uma produção sem nexo e vazia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre os atores, Zar Amir Ebrahimi, intérprete de Rahimi, foi destaque em sua categoria. Não por menos, ela recebeu uma indicação à Melhor Atriz no Festival de Cannes e no Prêmio Robert da Academia de Cinema Irlandês. Neste último, levou o troféu para casa. O talento e duro esforço da atriz foram realçados pela vivência pessoal, da qual ela soube utilizar como ferramenta para representar seu emblemático papel. A artista fugiu do Irã no começo de sua carreira após ter conteúdo íntimo vazado. Com medo de ser proibida de trabalhar ou até presa, ela </span><a href="https://istoe.com.br/atriz-zar-amir-ebrahimi/"><span style="font-weight: 400;">escapa</span></a><span style="font-weight: 400;"> do País e contrapõe a imagem idealizada da mulher iraniana, experiência próxima à de sua personagem.</span></p>
<figure id="attachment_30854" aria-describedby="caption-attachment-30854" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30854" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2.jpg" alt="Cena do filme Holy Spider. Em uma moto, está Saeed, interpretado por Mehdi Bajestani, e uma mulher de burca, esta tem seu rosto encostado aos ombros dele durante a viagem, então não é possível ver seu rosto claramente. O homem usa uma jaqueta cinza e uma camisa social por baixo, não tem expressões, está sério. Durante a noite, os dois estão em uma avenida escura e as luzes da cidade refletem na câmera como pontos iluminados, o tom da imagem é quente esverdeado, assim como o restante do filme. A posição de filmagem mostra apenas diante a cintura para cima dos atores, estão de lado para o público e bem centralizados" width="1500" height="620" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-800x331.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1024x423.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-768x317.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1200x496.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30854" class="wp-caption-text">“Meu tipo de Cinema é aquele que expõe as coisas” rebate Abassi diante críticas às mortes gráficas do filme (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A aranha, contudo, cai em sua própria armadilha: a crítica que o roteiro &#8211; escrito por Ali Abassi e Afshin Kamran &#8211; propõe para o machismo estrutural iraniano é camuflada pela violência gráfica e protagonização do assassino, ocasionando em um desenvolvimento insuficiente que o eixo </span><a href="https://midianinja.org/news/mulheres-denunciam-feminicidio-em-protesto-no-festival-de-cannes/"><span style="font-weight: 400;">feminino</span></a><span style="font-weight: 400;"> não poderia ter no </span><i><span style="font-weight: 400;">script</span></i><span style="font-weight: 400;">. A hipocrisia se sobrepõe ao que é originalmente proposto. As mulheres de </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> são apresentadas superficialmente, como acontece com a própria co-protagonista, Arezoo Rahimi, cujas tramas foram abandonadas durante o longa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos os pontos levantados pela equipe de roteiristas são válidos e bem postos, mas não evoluem posteriormente. A relação de trabalho entre a jornalista e um agente local que estava na investigação serve como exemplo disso. O homem a assedia ao prometer ajudá-la em seu caso fora do horário de expediente. Então, comete </span><a href="https://www.estadao.com.br/amp/politica/blog-do-fausto-macedo/slutshaming-dois-crimes-em-um-ato-so/?type=post"><i><span style="font-weight: 400;">slutshamming</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> às custas de uma denúncia feita por ela no cargo anterior, em que sofreu outro abuso de autoridade. Apesar de contar uma situação comum e de abordagem necessária &#8211; ainda mais no Irã, onde tais temas são completamente omitidos -, a cena apenas é lançada como se para preencher uma pauta temática sobre feminismo, sem retomada futura. Isso se repete em vários eventos e ocasiões durante o filme. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo de criação não teve o intuito de transmitir uma mensagem sobre a situação de gênero no País, mas sua preocupação geral soa como uma exposição panorâmica das problemáticas sociais e religiosas. Com isso, a obra prefigura uma abordagem esvaziada da trama principal: um caso de assassinato em massa de prostitutas pelo machismo sacro do Estado iraniano. Ali Abbasi, aliás, </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2023/01/19/interna_cultura,1446455/amp.html"><span style="font-weight: 400;">admite</span></a><span style="font-weight: 400;"> não estar centrado no ponto de vista feminino, já que ele acredita ser uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">história com muitas camadas</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><figure id="attachment_30852" aria-describedby="caption-attachment-30852" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30852" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.jpg" alt="Texto alternativo: cena do filme Holy Spider. Essa, foi narrada no parágrafo 12 da matéria, Saee Hanaei tem seu rosto coberto pela grade de segurança perolada do templo religioso que está, apenas seu olho é nítido na imagem. A iluminação é esverdeada com um tom vermelho de luz apenas no olhar do ator" width="1500" height="626" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-1024x427.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-768x321.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-1200x501.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30852" class="wp-caption-text">&#8220;[&#8230;] Os assassinatos em si não têm nada de especial, há certa banalidade neles. Mas o que está no entorno do assassino e o respeito que ele inspirou, isso, sim, é fascinante&#8221; (Foto: MUBI)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, o longa-metragem sucede em outros objetivos, como a perspectiva sobre </span><a href="https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/56441/56441_5.PDF"><span style="font-weight: 400;">religiosidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, família e </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51048426"><span style="font-weight: 400;">política</span></a><span style="font-weight: 400;">, exibidos com uma linguagem visual chocante. O fechamento demonstra em precisão tais aspectos, já que metáforas são muito bem utilizadas durante a situação final do protagonista Saee Hanaei: a arma de crime da qual abatia suas “presas” é utilizada contra o “predador”. Porém, a simbologia já está presente anteriormente dentro da cinematografia. Em certa cena, grades de segurança em um templo aparentam ser de uma cadeia, devido ao enquadramento fotográfico, o que revela uma interpretação de aprisionamento mental que a devoção pode causar, além do sentido literal de um criminoso pertencer ao presídio.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em face de problemáticas e sucessos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> ocupa um espaço importante no Cinema internacional, mas que poderia reproduzir com mais apreço a mulher iraniana por meio do desenvolvimento das personagens e seus merecidos enfoques. O inconveniente da produção não é a crueza retratada durante os dias no Irã, característica intrigante do diretor em seus filmes, mas sim o esquecimento do caso real que relata e seu profundo transtorno societário implícito. Esse, do qual o sexo feminino sofre regularmente e é de conhecimento geral no País. </span></p>
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		<title>Circuito Cineclube Sesc &#8211; Infiltrado na Klan e as veias abertas da América racista</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Apr 2023 15:47:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Veiga Em 2017, quando aconteceu a passeata de Charlottesville, Infiltrado na Klan provavelmente estava finalizando seu processo de pesquisa e escrita ou começando suas filmagens. Talvez Spike Lee não esperasse que sua história, apesar de latente na sociedade contemporânea, se manteria tão atual. Muito além de apenas tocar na ferida do racismo, a obra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/infiltrado-na-klan-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Circuito Cineclube Sesc &#8211; Infiltrado na Klan e as veias abertas da América racista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30631" aria-describedby="caption-attachment-30631" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30631 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-1.jpg" alt="Cena de Infiltrado na Klan. Nela vemos os personagens Ron, um homem negro de cabelo black power e barba cheia e Patrice, uma mulher negra de cabelo black power. Ron veste uma camisa vermelha e um relógio na mão direita. Patrice veste uma espécie de poncho, com algumas pedrarias em seus dois punhos. Os dois apontam uma arma para a câmera. Eles estão em um corredor de apartamentos e a fotografia está granulada." width="1200" height="503" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-1-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-1-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-1-768x322.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30631" class="wp-caption-text">A exibição do longa no Sesc Bauru encerrou a Mostra “Cinema é Direito”, e contou com a participação do Prof. Dr. Juarez Xavier, referência no ativismo antirracista, no debate após a apresentação do filme (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Veiga</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2017, quando aconteceu a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40913908"><span style="font-weight: 400;">passeata de Charlottesville</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan</span></i><span style="font-weight: 400;"> provavelmente estava finalizando seu processo de pesquisa e escrita ou começando suas filmagens. Talvez Spike Lee não esperasse que sua história, apesar de latente na sociedade contemporânea, se manteria tão atual. Muito além de apenas tocar na ferida do racismo, a obra também assumiu o papel de estancar um sangramento que, em sua esmagadora maioria, continua derramando sangue negro. De acordo com a mensagem que antecede o logo do filme, “</span><i><span style="font-weight: 400;">essa parada é baseada em merdas reais pra caralho</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa, que no seu aniversário de cinco anos encerrou a Mostra </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-cinema-e-direito/"><i><span style="font-weight: 400;">Cinema é Direito</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><a href="https://www.instagram.com/p/CpN2Cb7uTur/"><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> no Sesc Bauru</span></a><span style="font-weight: 400;">, conta a história de </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-ron-stallworth-o-policial-negro-se-que-infiltrou-na-ku-klux-klan.phtml"><span style="font-weight: 400;">Ron Stallworth</span></a><span style="font-weight: 400;"> (John David Washington), um policial negro da extremamente branca cidade de Colorado Springs. No local, em um momento de ebulição social americana, ele descobre uma célula da Ku Klux Klan ativa na cidade e decide se infiltrar na organização, dividindo sua identidade com o detetive branco ‘Flip’ Zimmerman (Adam Driver). Mas é no teor dessa mesma mensagem que está escondida a intenção de </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/spike-lee"><span style="font-weight: 400;">Spike Lee</span></a><span style="font-weight: 400;"> de, na verdade, trazer um meio termo entre fato e ficção para transmitir a ótica do diretor para o público. Tal aspecto transforma </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan</span></i><span style="font-weight: 400;"> em uma das obras mais conscientes e contundentes da extensa carreira do cineasta.</span></p>
<p><span id="more-30628"></span></p>
<figure id="attachment_30632" aria-describedby="caption-attachment-30632" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30632 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-2.jpg" alt="Cena de Infiltrado na Klan. Nela vemos um discurso feito em uma associação de estudantes negros. Nela temos o personagem Stokely Carmichael, um homem negro de cabelo curto. Ele veste um terno preto uma camisa branca e um óculos preto. Ao seu lado direito, está Patrice, uma mulher negra de cabelo black power. Ela veste uma jaqueta de couro preta, um vestido preto e um óculos. Ao lado dos dois, há mais duas pessoas negras, mas somente uma é visível: um homem que veste uma jaqueta verde e uma camiseta preta. No palco, há um púlpito com os dizeres “POWER” e ao fundo, um cartaz escrito “COLORADO COLLEGE BLACK STUDENT UNION”. Todos estão com o punho erguido." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-2.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30632" class="wp-caption-text">“Todo o poder para todas as pessoas” (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra, ao mesmo tempo que retoma as raízes do idealizador, que levou referências do Cinema </span><a href="https://darkside.blog.br/o-que-e-blaxploitation-veja-5-exemplos-de-filmes-do-genero/"><i><span style="font-weight: 400;">blaxploitation</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">para Hollywood com </span><a href="https://ultraverso.com.br/garimpo-faca-a-coisa-certa/"><i><span style="font-weight: 400;">Faça a Coisa Certa</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1989), revitaliza o diretor. A ideia é de Jordan Peele, que um ano antes despontava como o novo e excelente nome do Cinema negro, mas que, diante de uma absurda história real, repleta de meandros factíveis com a atualidade, só via um nome capaz de traduzir essa crítica para as telas: Spike Lee.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Stallworth, de fato, existiu, assim como o execrável </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45874344"><span style="font-weight: 400;">simpatizante de certos políticos</span></a><span style="font-weight: 400;"> brasileiros, David Duke. ‘Flip’ Zimmerman, detetive parceiro de Ron nas telas, na verdade é Chuck. Não se tem noção se ele realmente era judeu, mas nessa história fazia total sentido atribuir ao personagem cético de Adam Driver à parcela étnico-religiosa que também era odiada pelo grupo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história também tem um choque de datas: Ron só se infiltrou na organização seis anos após se tornar policial, em 1978, diferente de </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan </span></i><span style="font-weight: 400;">(<em>BlacKkKlansman</em>, no original)</span><span style="font-weight: 400;">, em que toda a narrativa se passa em 1972. Porém, era essencial atribuir um período que tanto a Ku Klux Klan como o Movimento Negro Americano estavam marginalizados, para, assim, traçar um paralelo de origem e suas ressonâncias atualmente. Por tais aspectos, a obra é uma pérola de adaptação, que não a toa rendeu o </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=oscar"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de Melhor Roteiro Adaptado, sendo também um respiro de esperança na lamentável edição da premiação em 2019, que premiou o &#8211; antirracista até a página dois &#8211; </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2019/02/por-que-green-book-e-criticado-por-ativistas-e-familiares-de-don-shirley.html"><i><span style="font-weight: 400;">Green Book</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como Melhor Filme.</span></p>
<figure id="attachment_30629" aria-describedby="caption-attachment-30629" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30629 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3.jpg" alt="Cena de Infiltrado na Klan. Nela vemos Ron Stallworth, interpretado por John David Washington, um homem negro,d e cabelo black power e barba cheia. Ele veste uma jaqueta marrom em couro e uma camisa listrada branca. Ao seu fundo,há uma parede de madeira e um mapas cidade de Colorado Springs" width="1400" height="787" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30629" class="wp-caption-text">O longa venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2018 (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Parece que a sensação que </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan</span></i><span style="font-weight: 400;"> quer provocar é aquela de quando rimos de algo questionável e o riso, a princípio de alegria, se transforma em nervosismo. Ele começa flertando com a comédia sarcástica e termina na crítica, justamente para evidenciar que esses formatos de ódio, assim como as fantasias brancas e pontudas, são tão repugnantes que passam por períodos em disfarces. Quando os indivíduos ali sentirem-se seguros, se exibem sem pudor. E com o cineasta tendo mesclado esses dois gêneros durante toda sua filmografia, nesse longa, mais uma vez ele se sente em casa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade tanto do diretor como do roteiro, encabeçado por Lee e acompanhado de Kevin Willmott, David Rabinowitz e Charlie Wachtel, são traduzidos em tela através de uma montagem espetacular, guiadas por </span><a href="https://www.instagram.com/barryalexanderbrown/"><span style="font-weight: 400;">Barry Alexander Brown</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ela abusa do </span><i><span style="font-weight: 400;">blaxploitation</span></i><span style="font-weight: 400;"> para dar vida à ideia das mentes criadoras e desenvolver um ritmo delicioso de se acompanhar, intercalando passagens mais calmas com o desenvolvimento dos personagens, de cortes rápidos e cheios de invencionismos como telas divididas ou inserção de pôsteres. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses aspectos nos presenteiam com cenas lindas, como a da Associação de Estudantes Negro do Colorado, na qual o discurso sobre a beleza negra é sobreposto com </span><i><span style="font-weight: 400;">closes</span></i><span style="font-weight: 400;"> da plateia atenta acompanhando. Mas a passagem que resume o primor da montagem é o momento em que Jerome, interpretado por Harry Belafonte (</span><a href="https://personaunesp.com.br/destacamento-blood-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Destacamento Blood</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) conta a história do </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51657141"><span style="font-weight: 400;">Linchamento de Waco</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1916. Nesse momento, a cena é divida com a Ku Klux Klan se preparando para assistir uma sessão de </span><a href="https://incinerrante.com/textos/o-nascimento-de-uma-nacao-estetica-ideologia-mascaras/"><i><span style="font-weight: 400;">O Nascimento de uma Nação</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme de 1915 (um ano antes da tragédia) que é uma das bases simbólicas da KKK e do movimento supremacista americano.</span></p>
<figure id="attachment_30633" aria-describedby="caption-attachment-30633" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30633 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4.jpg" alt="Cena de Infiltrado na Klan. Nela vemos, da esquerda para a direita, David Duke, um homem branco de cabelos e bigode castanho claro e olhos azuis. Ele veste um terno marrom, um colete preto, uma camisa branca e uma gravata listrada em preto. Ele segura uma taça de espumante. Ron Stallworth, um homem branco de cabelo black power e barba cheia está abraçado em Duke. Ele veste uma camisa jeans e uma camiseta preta. Ao seu lado há um homem branco de cabelos castanhos. Ele veste um suéter preto e uma camisa marrom. Os três posam para uma foto, de forma que os dois brancos estão visivelmente incomodados pelo abraço do homem negro." width="1280" height="536" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-4-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30633" class="wp-caption-text">A cena em que o verdadeiro Ron Stallworth é designado para fazer a segurança de David Duke realmente aconteceu (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo o primor do longa por trás das câmeras consegue ser replicado à frente delas. O grande nome que carregava o longa era do próprio Spike Lee, porém o elenco entrou afiadíssimo no projeto. John David Washington (</span><a href="https://personaunesp.com.br/tenet-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Tenet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Malcolm &amp; Marie</span></i><span style="font-weight: 400;">), filho de Denzel Washington, emula perfeitamente o deslocamento de uma figura que não é bem-vinda em seus espaços, seja a polícia da época (uma espécie de Klan) ou a Ku Klux Klan. Já Adam Driver, que ganhava relevância com a nova trilogia de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-despertar-da-forca-5-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Star Wars</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, faz de </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan</span></i><span style="font-weight: 400;"> mais um na sua sequência de escolhas acertadas. Ele é um retrato preciso da branquitude que, por muito tempo, escanteou o problema da propagação de ódio por acreditar não ser afetada, e sutilmente demonstra um ódio genuíno por fazer parte daquele grupo e perceber sua negligência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do lado da organização nefasta, Topher Grace (</span><i><span style="font-weight: 400;">That ‘70s Show</span></i><span style="font-weight: 400;">) impressiona pela semelhança com David Duke, desde sua postura assustadoramente serena e até mesmo pela </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6Yx3c0i5Fyk&amp;ab_channel=APArchive"><span style="font-weight: 400;">voz</span></a><span style="font-weight: 400;"> do supremacista ter timbres de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=65p80XAMxhw&amp;ab_channel=That%2770sShow"><span style="font-weight: 400;">Eric Forman</span></a><span style="font-weight: 400;">. Jasper Pääkkönen (</span><a href="https://personaunesp.com.br/vikings-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Vikings</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) e Ryan Eggold (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hjw_QTKr2rc&amp;ab_channel=FocusFeatures"><i><span style="font-weight: 400;">Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) também são extremamente convincentes e cada um atribui uma persona típica desse tipo de grupo: o primeiro, um lunático imprevisível, enquanto o segundo, uma figura “boa pinta” que pontualmente destila ódio.</span></p>
<figure id="attachment_30630" aria-describedby="caption-attachment-30630" style="width: 1440px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30630 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5.jpg" alt="Cena de Infiltrado na Klan. Nela vemos uma reunião da Ku Kux Klan. Há um certo número de homens sentados com a fantasia do grupo: uma túnica branca e um chapéu branco pontudo. Todos estão sentados e seguram uma vela. No meio deles. de costas para a câmera, há seu líder, com a roupa branca, sem o chapéu e com uma túnica azul nas costas. Há também uma espécie de altar, com velas e cálices dourados." width="1440" height="596" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5.jpg 1440w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5-800x331.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5-1024x424.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5-768x318.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Infiltrado-na-Klan-Imagem-5-1200x497.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30630" class="wp-caption-text">No Brasil, grupos neonazistas e simpatizantes da Ku Klux Klan tiveram um crescimento de <a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/01/16/grupos-neonazistas-crescem-270percent-no-brasil-em-3-anos-estudiosos-temem-que-presenca-online-transborde-para-ataques-violentos.ghtml">270%</a> nos últimos anos (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse museu de grandes novidades, </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan</span></i><span style="font-weight: 400;"> constata que, mais uma vez, o futuro está repetindo o passado, sem deixar de explicitar que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VYOjWnS4cMY&amp;ab_channel=ChildishGambinoVEVO"><span style="font-weight: 400;">essa é a América</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma nação arrebatadora que expropria de qualquer minoria para estabelecer seu conceito de supremacia, nos sentidos mais asquerosos da palavra. Por isso Spike Lee, conhecido pelo Cinema crítico, inverte os papéis, e mesmo assim consegue abordar as dores do povo negro. Mas aqui, a queima de cruzes troca lugar com uma reflexão que cauteriza à força uma ferida que insistimos em deixar aberta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra renova os estudos de </span><a href="https://www.palmares.gov.br/?p=49121"><span style="font-weight: 400;">W. E. B. Du Bois</span></a><span style="font-weight: 400;">, primeiro negro a se tornar PhD em Harvard. Du Bois, através de seu livro </span><i><span style="font-weight: 400;">As Almas da Gente Negra </span></i><span style="font-weight: 400;">(1903), discutiu a dificuldade existencial das minorias, desenvolvendo o conceito de “dupla consciência”, ou a necessidade de entender como tais grupos se enxergam e como o mundo os enxerga; o longa tem êxito ao tratar essa dualidade. Além disso, </span><i><span style="font-weight: 400;">Infiltrado na Klan </span></i><span style="font-weight: 400;">é um grito de ‘não’ e ‘basta’: NÃO podemos aceitar essa formas de ódio, e BASTA de racismo. Mais do que isso, o filme é um lembrete de que somente não ser racista, não basta.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Infiltrado Na Klan - Trailer 1 (Universal Pictures) HD" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/bbOJwWSEUmo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/infiltrado-na-klan-critica/">Circuito Cineclube Sesc &#8211; Infiltrado na Klan e as veias abertas da América racista</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Onde está Ana?</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Mar 2023 19:57:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Clara Sganzerla Viajamos, todos os dias, do passado ao futuro. Seja por meio de memórias, lembranças, fatos históricos ou até mesmo dentro de nossos planejamentos; desaparecemos em uma inércia pendular difícil de desvencilhar &#8211; nunca vivemos propriamente no presente. No entanto, a atriz brasileira Stella Rabello consegue parar por alguns momentos em algumas dessas duas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ana-sem-titulo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Onde está Ana?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30593" aria-describedby="caption-attachment-30593" style="width: 2160px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30593 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.png" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na imagem, há seis fotografias de uma mulher negra. As fotos trabalham de forma documental, registrando as mudanças físicas da personagem em uma organização linear - três fotografias em cima e mais três fotografias em baixo. As mudanças físicas são principalmente no cabelo: na primeira imagem, ele permanece preso em um coque alto, e acompanhamos sua transformação até o penteado em estilo afro" width="2160" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.png 2160w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1536x768.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-2048x1024.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1-1200x600.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30593" class="wp-caption-text">Em Ana. Sem título, exibido na Mostra “Cinema é Direito” no Sesc Bauru, entramos em uma jornada sobre governos totalitários, o feminismo nos anos 70 e 80 e sobre a Arte como forma de denúncia (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Clara Sganzerla</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Viajamos, todos os dias, do passado ao futuro. Seja por meio de memórias, lembranças, fatos históricos ou até mesmo dentro de nossos planejamentos; desaparecemos em uma inércia pendular difícil de desvencilhar &#8211; nunca vivemos propriamente no presente. No entanto, a atriz brasileira Stella Rabello consegue parar por alguns momentos em algumas dessas duas realidades para ir em uma jornada que ultrapassa as </span><a href="https://personaunesp.com.br/argentina-1985-critica/"><span style="font-weight: 400;">fronteiras</span></a><span style="font-weight: 400;"> de nosso país, esbarrando em uma história sangrenta que, infelizmente, também nos pertence. Em </span><a href="http://taigafilmes.com/ana/"><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2020), longa que integrou a Mostra </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-cinema-e-direito/"><i><span style="font-weight: 400;">Cinema é Direito</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> no Sesc Bauru, a cineasta Lúcia Murat nos transporta para o passado latino-americano marcado pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-tio-jose-critica/"><span style="font-weight: 400;">ditadura militar</span></a><span style="font-weight: 400;">, atrás, apenas, de uma resposta: onde está Ana? </span></p>
<p><span id="more-30590"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Definida como livre, talentosa, bonita e até mesmo perigosa, o grande mistério acerca da artista brasileira é o que nos envolve na trama. Através de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-curtas-do-oscar-2023/"><span style="font-weight: 400;">metalinguagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> muito bem feita, a sensação do telespectador é similar a estar fisicamente presente com a equipe de filmagem, apurando as poucas pistas que Ana nos deixou, na tentativa de montar um quebra-cabeça em que faltam muitas peças. Durante essa viagem, temos o prazer de conhecer a beleza de Cuba, México, Argentina e </span><a href="https://personaunesp.com.br/la-francisca-uma-juventude-chilena-critica/"><span style="font-weight: 400;">Chile</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelos olhos do diretor de fotografia </span><span style="font-weight: 400;">Léo Bittencourt, e ouvir até mesmo o som dos passarinhos através do trabalho da técnica de som Andressa Clain Neves.</span></p>
<figure id="attachment_30591" aria-describedby="caption-attachment-30591" style="width: 1313px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30591 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.jpg" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na imagem temos, à esquerda, a atriz brasileira Stella Rabello. Ela tem cabelos loiros um pouco acima do busto, usa uma jaqueta na cor cinza e uma blusa vermelha. Do lado direito, temos a cineasta Lúcia Murat. Ela tem cabelos grisalhos e curtos e usa uma blusa de manga longa azul. O cenário da foto é em uma arquibancada à luz do dia. Ambas estão com expressões concentradas, com olhares atentos ao horizonte." width="1313" height="758" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.jpg 1313w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-800x462.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1024x591.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-768x443.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2-1200x693.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30591" class="wp-caption-text">Lúcia e Stella buscam respostas em nossos vizinhos latinos através de um road-movie (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inspirado na exposição </span><a href="https://pinacoteca.org.br/programacao/exposicoes/mulheres-radicais-arte-latino-americana-1960-1985/"><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, realizada na Pinacoteca de São Paulo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título </span></i><span style="font-weight: 400;">é um mergulho em muitas questões, como o racismo, a opressão e o feminismo como forma revolucionária, mas destaca-se na maneira de retratar as cicatrizes ainda abertas que as </span><a href="https://www.politize.com.br/operacao-condor/"><span style="font-weight: 400;">ditaduras militares latinas</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixaram. O olhar de </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/entrevistas/ana-sem-titulo-se-nao-fosse-a-existencia-dos-movimentos-feminista-e-negro-esse-filme-nao-existiria-diz-lucia-murat/"><span style="font-weight: 400;">Lúcia Murat</span></a><span style="font-weight: 400;">, nesse contexto, é mais do que simbólico, principalmente pela sua trágica experiência como ex-presa política durante o regime militar brasileiro. O longa é, acima de tudo, um lembrete da importância de não nos esquecermos sobre um passado ainda tão recente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E Ana? Criada para ser uma representação da mulher latino-americana artista das </span><a href="https://conversacomelas.com/2021/03/02/movimentos-feministas-na-decada-de-70-e-80-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">décadas de 1970 e 1980</span></a><span style="font-weight: 400;">, através do roteiro da escritora Tatiana Salem Levy e da própria Murat, com atuação de Roberta Estrela D&#8217;Alva, a beleza da personagem mora exatamente no fato de que ela não é real. A narrativa criada em cima de seu desaparecimento, as cartas trocadas com outras artistas, a busca da equipe em solos estrangeiros para o documentário e todas as conversas sobre resistência, irmandade, liberdade e direitos, deixam a sensação de que Ana, mesmo com provas contrárias, existiu. O longa a eleva como uma entidade, aproveita-se do interesse natural do ser humano ao desconhecido para captar nossa atenção e nos enriquece com trocas reais sobre uma cultura tão complexa, rica e triste.</span></p>
<figure id="attachment_30592" aria-describedby="caption-attachment-30592" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30592 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3.png" alt="Cena do filme Ana. Sem Título. Na fotografia, há uma mulher negra, de cabelo crespo. Ela usa uma blusa de gola alta. A mulher sorri e olha para o horizonte à sua esquerda. A foto tem tons sépia." width="600" height="315" /><figcaption id="caption-attachment-30592" class="wp-caption-text">Ana é algo maior que o plano físico e transforma-se na representação de milhares de mulheres do nosso passado (Foto: Imovision/Taiga Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de filmagens em câmeras analógicas, fotografias em preto e branco e relatos em espanhol, conhecemos por meio de Ana a história de milhares de mulheres que gostariam de ter sido ouvidas mas que, infelizmente, já caíram no esquecimento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ana. Sem Título</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um resgate da importância de ouvir as gerações passadas, de valorizar nossa história, de apreciar a </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Arte nacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de não nos esquecermos de, às vezes, olhar para trás.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ana. Sem Título - Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/IRtjlcD_0qI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Circuito Cineclubes Sesc – Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos ecoa sua voz na espiritualidade</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Mar 2023 18:11:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto  Por muito tempo, o Cinema retratou os povos indígenas moldados por óticas brancas, completamente envoltas de estigmas e equívocos. Essas imagens se fixaram no imaginário popular e, muitas vezes, a descrição que temos dos nativos é animalizada, preconceituosa e intolerante. Fugindo desse movimento, os diretores Renné Messora e João Salaviza trouxeram às telas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/chuva-e-cantoria-na-aldeia-dos-mortos-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Circuito Cineclubes Sesc – Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos ecoa sua voz na espiritualidade"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30528" aria-describedby="caption-attachment-30528" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30528 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1..jpg" alt="Cena do filme Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Na imagem está o protagonista, Inhac Krahô. Ele é um homem indígena de cabelos pretos lisos na altura dos ombros. Ao fundo há uma cachoeira. A imagem é azulada e se passa a noite." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1..jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/1.-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30528" class="wp-caption-text">Apresentado no Festival de Cannes em 2018 e vencedor do Prêmio Especial do Júri, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos dá protagonismo ao povo Krahô (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por muito tempo, o </span><a href="https://tribunadepetropolis.com.br/noticias/a-figura-do-indigena-no-cinema-de-objeto-a-sujeito-das-telas/"><span style="font-weight: 400;">Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> retratou os povos indígenas moldados por óticas brancas, completamente envoltas de estigmas e equívocos. Essas imagens se fixaram no imaginário popular e, muitas vezes, a descrição que temos dos nativos é animalizada, preconceituosa e intolerante. Fugindo desse movimento, os diretores Renné Messora e João Salaviza trouxeram às telas </span><i><span style="font-weight: 400;">Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos </span></i><span style="font-weight: 400;">(2018). O filme, gravado na Aldeia da Pedra Branca em Tocantins, é um registro contemplativo e profundo dos Krahô e sua grandeza espiritual, e integrou a Mostra </span><a href="https://www.sescsp.org.br/circuito-cineclubes-na-tela-do-sesc-bauru/"><i><span style="font-weight: 400;">Cinema é Direito</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;">Sesc Bauru</span><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-30526"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na produção, somos guiados por Inhãc </span><a href="https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2015/09/povo-kraho-mantem-grande-parte-da-cultura-preservada-no-tocantins.html"><span style="font-weight: 400;">Krahô</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Henrique Inhãc Krahô), que acaba de perder o pai e enfrenta um dilema sobre despedida e futuro. Vitimado pelo próprio sentir, ele acaba saindo da linha definida pela obrigação e passando por uma jornada em busca da cura. Como filho mais velho, é seu dever realizar a festa de fim de luto do patriarca e permitir que a alma se encaminhe para a Aldeia dos Mortos; no entanto, os sentimentos do jovem contrariam os caminhos da própria ancestralidade e dos costumes tradicionais.</span></p>
<figure id="attachment_30529" aria-describedby="caption-attachment-30529" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30529 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2..jpg" alt="Cena do filme Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Na imagem está Inhac Krahô. Ele é um homem indígena de cabelos pretos lisos na altura dos ombros e está vestindo uma camiseta bege. O personagem está na caçamba de um carro e ao fundo há uma estrada de terra e árvores." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2..jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/2.-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30529" class="wp-caption-text">Messora faz trabalhos de registro na Aldeia da Pedra Branca desde 2009, e Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é seu primeiro trabalho de direção (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de ter um roteiro – também escrito pelos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iveKAVD2xpA"><span style="font-weight: 400;">diretores</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, o que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos </span></i><span style="font-weight: 400;">especial é a forma como a narrativa mistura o mundo ficcional e documental. Enquanto somos levados pela jornada do protagonista, também acompanhamos o ritmo natural da vida na Aldeia da Pedra Branca. As cenas carregam consigo uma autonomia gerada pela própria existência das pessoas naquele espaço. As plantações, casas, ritos e brincadeiras são honestas e em nenhum momento parecem invadidas pela filmagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse ponto tem muito a ver com a forma escolhida por Renné no </span><a href="https://www.esquinadacultura.com.br/post/diretores-falam-sobre-desafios-de-chuva-e-cantoria-na-aldeia-dos-mortos"><span style="font-weight: 400;">processo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinegrafia. Captadas por uma só câmera ao longo de nove meses, as imagens não são apressadas e carregam um ar de observação. O formato nos coloca em um papel literal de telespectadores; não nos é e nem deve ser permitido interferir no que acontece na aldeia. Assim, a natureza e o envolvimento espiritual dos indivíduos com aquele universo são retratados com respeito e fidelidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Natureza essa que poderia muito bem ser classificada como uma personagem. Entre pássaros e vegetação, a fauna e a flora representam grande parte dos componentes da produção. A cultura de </span><a href="https://akatu.org.br/povos-indigenas-muito-mais-que-guardioes-das-florestas/"><span style="font-weight: 400;">plantação familiar</span></a><span style="font-weight: 400;"> e outras questões do gênero se mostram essenciais, mesmo que os diálogos não se pautem nisso. Em um aspecto geral, a conversação quase sempre é secundária e deixa o primordial para o imagético.</span></p>
<figure id="attachment_30530" aria-describedby="caption-attachment-30530" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30530 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3..jpg" alt="Cena do filme Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Na imagem estão Kôtô e Tepto. Ela é uma mulher indígena de cabelos lisos pretos longos. Ele é uma criança indígena de cabelos pretos lisos na altura dos ombros. Os dois estão na caçamba de um caminhão. Ao fundo há uma estrada de terra e árvores." width="1024" height="613" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3..jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3.-800x479.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/3.-768x460.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30530" class="wp-caption-text">Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos ganhou força no cenário internacional com o nome de The Dead and The Others (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Inhãc, a morte também representa um novo início. Com o devido adeus, ele deve se tornar Pajé. O título não o agrada e essa insatisfação gera sintomas físicos, a ponto de serem sentidos como uma doença. Em sua percepção, é possível fugir disso, mesmo com essas dores indo muito além do plano físico. Nessa movimentação, acontece a mudança de cenário da </span><a href="https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4172"><span style="font-weight: 400;">aldeia</span></a><span style="font-weight: 400;"> para a cidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No mundo urbano, o racismo da população e a indiferença do Estado em relação aos indígenas ficam escancarados. A busca por ajuda não é levada a sério e o despreparo dos </span><a href="https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/212610"><span style="font-weight: 400;">profissionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> para receber um Krahô causam um incômodo ímpar. Os </span><i><span style="font-weight: 400;">frames</span></i><span style="font-weight: 400;"> ganham um tom muito diferente do que tinham até então, dando lugar a uma violência velada. Ainda assim, os autores do desprezo não ganham destaque e seus rostos nunca aparecem com clareza, como se a branquitude fosse apagada pela própria hostilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da tentativa, a fuga é falha e o </span><a href="https://personaunesp.com.br/japanese-breakfast-jubilee-critica/"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;"> vence a corrida contra Inhãc, que retorna para casa. A cantoria, esperada por todo o longa-metragem, se concretiza e olhar não pode mais se direcionar ao passado. Ao não conseguir deixar o apego pelo pai em páginas anteriores, o jovem não tem escolha a não ser se encaminhar para a Aldeia dos Mortos. O destino se mostra implacável e escapar das forças guias não é uma escolha.</span></p>
<figure id="attachment_30527" aria-describedby="caption-attachment-30527" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30527 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4..jpg" alt="Cena do filme Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos. Na imagem estão Inhac, Kôtô e Tepto. Os três estão deitados no chão, Inhac é o único acordado e encara o céu. A imagem é escura e se passa à noite." width="1920" height="1151" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4..jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4.-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4.-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4.-768x460.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4.-1536x921.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/4.-1200x719.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30527" class="wp-caption-text">O elenco de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é formado por indígenas Krahô e o filme é uma coprodução luso brasileira (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme trata de muitos assuntos, partindo do universo da espiritualidade e chegando até a influência branca na vivência indígena. Entre a dor da perda e os </span><a href="https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/6521"><span style="font-weight: 400;">fantasmas</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixados pela colonização, os que da terra são pioneiros performam a pluralidade em suas muitas significações. Talvez a produção não agrade todos os públicos, mas é inegavelmente um tesouro do Audiovisual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um mundo onde a importância da </span><a href="https://cimi.org.br/terras-indigenas/demarcacao/"><span style="font-weight: 400;">demarcação</span></a><span style="font-weight: 400;"> territorial é negada e os povos nativos são despersonalizados, </span><i><span style="font-weight: 400;">Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos</span></i><span style="font-weight: 400;"> retoma uma resistência que nunca perdeu força e tem suas raízes firmadas em espaços além dos carnais. Sob os pingos de chuva, a cantoria nunca pôde ser silenciada.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos | Trailer Legendado" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/WeZp8_BX0Jk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Desamparados, os mais fracos fazem a própria lei no Brasil de Pixote</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Mar 2023 19:34:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathan Nunes Em 25 de Agosto de 1987, morreu Pixote. Fernando Ramos da Silva tinha 19 anos, era casado e pai de uma filha pequena quando foi morto por policiais militares, após ter supostamente assaltado uma empresa em Piraporinha, na região de São Bernardo do Campo. A família viveu para contestar a versão dos agentes, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pixote-a-lei-do-mais-fraco-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Desamparados, os mais fracos fazem a própria lei no Brasil de Pixote"</span></a></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/pixote-a-lei-do-mais-fraco-critica/">Circuito Cineclubes Sesc &#8211; Desamparados, os mais fracos fazem a própria lei no Brasil de Pixote</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30110" aria-describedby="caption-attachment-30110" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30110 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30110" class="wp-caption-text">O longa figurou em 12º na lista dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Abraccine, e abriu a Mostra “Cinema é Direito” no Sesc Bauru (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><b>Nathan Nunes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 25 de Agosto de 1987, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t5NCOuSEJSU"><span style="font-weight: 400;">morreu</span></a><span style="font-weight: 400;"> Pixote. Fernando Ramos da Silva tinha 19 anos, era casado e pai de uma filha pequena quando foi morto por policiais militares, após ter supostamente assaltado uma empresa em Piraporinha, na região de São Bernardo do Campo. A família viveu para contestar a versão dos agentes, que foram apenas demitidos, mas nunca condenados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos antes, em 26 de Setembro de 1980, Fernando estava alcançando fama e reconhecimento pelo seu desempenho no papel que dá título a </span><i><span style="font-weight: 400;">Pixote, a Lei do Mais fraco, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Hector Babenco (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BdLvrNz9tUk"><i><span style="font-weight: 400;">Carandiru</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, 2003). O longa, que abriu a </span><a href="https://www.sescsp.org.br/circuito-cineclubes-na-tela-do-sesc-bauru/"><span style="font-weight: 400;">Mostra </span><i><span style="font-weight: 400;">Cinema é Direito</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> em parceria com o Sesc Bauru na quinta-feira, dia 2 de Março, não poderia ter se misturado à realidade de forma mais trágica, pois o que aconteceu com o intérprete de seu protagonista pouco se difere do descaso do Estado com a vulnerabilidade social denunciada pelos realizadores. </span></p>
<p><span id="more-30106"></span></p>
<figure id="attachment_30108" aria-describedby="caption-attachment-30108" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30108 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-2-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30108" class="wp-caption-text">Para Fernando Ramos da Silva, a vida imitou a Arte da pior forma possível (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde os minutos iniciais da rodagem, Pixote está imerso na difícil realidade das crianças moradoras das ruas de São Paulo, presas por transgressão juvenil e enviadas para se reajustar a sociedade em um reformatório nos moldes da antiga FEBEM. Logo em sua primeira noite no local, ele presencia o estupro de um de seus colegas de quarto. Quando o frio inspetor Sapatos Brancos (Jardel Filho, de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hkITr_eK9Vc"><i><span style="font-weight: 400;">Terra em Transe</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, 1967) lhe pergunta se viu alguma coisa do ocorrido, o menino se cala, ciente das escolhas que deve tomar para sobreviver em um ambiente tão hostil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Babenco, juntamente com o roteirista Jorge Durán (</span><i><span style="font-weight: 400;">Não Se Pode Viver Sem Amor</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2011</span><i><span style="font-weight: 400;">)</span></i><span style="font-weight: 400;">, posiciona Pixote inicialmente sozinho, mas logo o coloca para dividir cena com outros detentos, como Fumaça (Zenildo Oliveira Santos) e Lilica (Jorge Julião). Ecos do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g0uClqmKU28&amp;t=1s"><span style="font-weight: 400;">neorrealismo italiano</span></a><span style="font-weight: 400;"> podem ser sentidos na captura da realidade nua e crua dessas pessoas, com a câmera sempre muito próxima e a iluminação sombria da fotografia de Rodolfo Sanchez, que também trabalhou com Babenco em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Beijo da Mulher-Aranha </span></i><span style="font-weight: 400;">(1985).  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, há espaço para pontas de poesia e ternura que também eclodem vez ou outra. Notoriamente, temos um belíssimo momento em que Pixote olha para uma figura de Nossa Senhora Aparecida, iluminada por luzes em neon. Poderia a santa lhe tirar dessa situação tão cruel? Poderia ela ser a mãe da qual o garoto sente tanta falta? Poderia ela dar esperança de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YkJU6BoGgWk"><span style="font-weight: 400;">uma vida melhor</span></a><span style="font-weight: 400;">?</span></p>
<figure id="attachment_30112" aria-describedby="caption-attachment-30112" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30112 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-3-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30112" class="wp-caption-text">Uma confusão quanto a tradução da palavra em inglês “preview” desclassificou Pixote da corrida pelo Oscar 1982 de Melhor Filme Estrangeiro, segundo pesquisa do crítico de Cinema e historiador Waldemar Dalenogare Neto (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais adiante, Pixote, Lilica e seus companheiros Chico (Edilson Lino) e Dito (Gilberto Moura) fogem da instituição, e o filme foge junto. A narrativa se distancia da dureza desse Cinema quase documental e busca ares de maior e surpreendente alinhamento com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=uJucZ-NxpN8"><i><span style="font-weight: 400;">coming-of-age</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, isto é, o amadurecimento infanto-juvenil. Babenco e Duran entendem que, antes de serem estigmatizados como criminosos pelo Estado, todas essas pessoas são crianças e adolescentes, sujeitos dignamente ao turbilhão de emoções dessa fase da vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para reforçar esse ponto, o longa explora muito o desenvolvimento da sexualidade desses jovens, seja em sua forma mais bruta ou sutil. No primeiro sentido, destacam-se as suas próprias reações em exposição ao sexo, como na cena em que assistem um filme erótico na casa do traficante Cristal (Tony Tornado, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Carcereiros</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2017). Já no segundo, chama atenção o relacionamento complexo entre </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2RimPQUhVUk"><span style="font-weight: 400;">Lilica e Dito</span></a><span style="font-weight: 400;">, no qual o segundo está quase sempre confuso quanto à própria condição, uma vez que o fato da primeira ser uma mulher trans evidentemente o faz questionar suas compreensões de masculinidade.</span></p>
<figure id="attachment_30107" aria-describedby="caption-attachment-30107" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30107 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-4-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30107" class="wp-caption-text">Recentemente, o longa foi restaurado pela organização World Cinema Project, fundada por ninguém menos que Martin Scorsese (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Lilica, em especial, é uma personagem que se destaca profundamente. Diante do aniversário de 18 anos que marca a sua emancipação e os perigos de sobreviver nas ruas do país mais transfóbico do mundo, ela se pergunta, em um determinado </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OZ-8CPA91dI"><span style="font-weight: 400;">momento</span></a><span style="font-weight: 400;">: </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">O que pode uma bicha esperar do mundo?</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;">. A cena acontece em um estado de pausa do filme, que troca a sujeira e a criminalidade da noite pelo pôr-do-sol ensolarado da praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que a sucede é um daqueles milagres da cinematografia nacional, pois, durante as gravações, Julião estava escalado para cantar </span><i><span style="font-weight: 400;">Debaixo dos caracóis de seus cabelos</span></i><span style="font-weight: 400;">, música escrita por Caetano Veloso para Roberto Carlos. Ele sentiu que a canção não encaixava na cena e optou por cantar </span><i><span style="font-weight: 400;">Força estranha</span></i><span style="font-weight: 400;">, também de Veloso. Logo, o ator foi surpreendido com um abraço de Fernando, que permaneceu no corte final. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Ficou tão bonito, tão terno</span></i><span style="font-weight: 400;">”, lembrou o ator, em entrevista à reportagem do </span><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/27/pixote-um-filme-que-nao-acaba-ha-40-anos-longa-de-babenco-segue-atual.htm"><span style="font-weight: 400;"><em>TAB UOL</em></span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30111" aria-describedby="caption-attachment-30111" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30111 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-5-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30111" class="wp-caption-text">Anos antes de Fernanda Montenegro e Central do Brasil, Marília Pêra quase adentrou a corrida pelo Oscar de Melhor Atriz em 1982, com reconhecimento em importantes prêmios da crítica americana (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O terço final apresenta ao público a prostituta Sueli, interpretada por Marília Pêra (</span><i><span style="font-weight: 400;">Dias Melhores Virão</span></i><span style="font-weight: 400;">, 1989), em performance tão impactante que lhe rendeu prêmios </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TeSVIOiDocU&amp;t=22s"><span style="font-weight: 400;">internacionais</span></a><span style="font-weight: 400;">, como o estadunidense </span><i><span style="font-weight: 400;">National Society of Film Critics Awards </span></i><span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">NSFC</span></i><span style="font-weight: 400;">), em 1982. Logo em sua primeira cena, a atriz prova os motivos de tanto reconhecimento, ao contracenar com Pixote dentro de um banheiro onde, horas antes, realizou um procedimento de aborto. A desilusão de seu olhar, o peso em sua cabeça e o cansaço de seu corpo são sentidos na rejeição que ela pratica de imediato com o garoto, apenas para lhe pedir desculpas depois e, posteriormente, construir laços com ele e seus amigos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Pixote, estar próximo de Sueli equivale a estar o mais perto possível em sua vida de uma figura materna, por mais estranha que essa relação possa parecer. Nessa linha, o momento mais representativo acontece quando o menino passa mal e ela o coloca em seu colo, numa imagem que evoca a </span><i><span style="font-weight: 400;">Pietà</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Michelangelo, mas apenas na superfície. Alguns minutos depois, a prostituta o desprende de seu seio e o manda embora de sua casa, sob constatação repentina de que não quer ser </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_bz1DB6gSxQ"><span style="font-weight: 400;">mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30109" aria-describedby="caption-attachment-30109" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30109 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6.jpg" alt="" width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Imagem-6-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30109" class="wp-caption-text">Ao redor do mundo, Pixote é reverenciado por grandes diretores, como Spike Lee e Quentin Tarantino (Foto: Embrafilme)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, Pixote </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Oasmf_5K8qQ"><span style="font-weight: 400;">termina</span></a><span style="font-weight: 400;"> o filme novamente sozinho, depois de ter visto tantas pessoas cruzarem sua jornada, apenas para que a vida as tirasse depois. Seu último registro em cena o encontra andando sob um trilho de trem rumo ao desconhecido. Como única certeza, está sozinho e abandonado à própria sorte, não apenas pelos antigos amigos e colegas, mas também pelo Estado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A vida de seu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HXxfYSqQ5sk"><span style="font-weight: 400;">intérprete</span></a><span style="font-weight: 400;"> não teve um caminho tão diferente. Fernando tentou ser ator depois do sucesso do filme, com participações em </span><i><span style="font-weight: 400;">Eles Não Usam Black-Tie </span></i><span style="font-weight: 400;">(1981) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Gabriela, Cravo e Canela </span></i><span style="font-weight: 400;">(1983), mas não conseguiu progredir na carreira, obrigado a abandonar a atuação devido a pressão de um mercado que não aceita profissionais pouco instruídos. Com amparo do Estado, educação e qualidade de vida bem estruturada, as possibilidades de futuro para Fernando teriam outras portas, mas, sem qualquer previsão, só é fato que seu caminho seria mais justo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, vale lembrar que, 42 anos depois do lançamento de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pixote</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2022/08/02/numero-de-criancas-e-adolescentes-em-situacao-de-rua-em-sao-paulo-dobra-em-15-anos"><span style="font-weight: 400;">pouco mudou</span></a><span style="font-weight: 400;">. Segundo o Censo de Crianças e Adolescentes em Situação de Rua, realizado em São Paulo em Maio de 2022, há mais de 3 mil crianças vivendo nas mesmas condições que o protagonista. Seja no passado ou no presente, o Brasil continua sendo um país que, por meio do desamparo, obriga os mais fracos a fazerem a própria lei.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="1981 Pixote Official Trailer 1 Embrafilme" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/t6VqAOaWZD8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2022 20:01:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.” &#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França. Raquel Dutra Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28782" aria-describedby="caption-attachment-28782" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-28782" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28782" class="wp-caption-text">O mês de Julho foi marcado pela discussão acerca dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil e no mundo, e o Clube do Livro do Persona acompanhou o movimento com a escolha de leitura de O Acontecimento, de Annie Ernaux (Foto: Fósforo/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França.</span></em></p>
</blockquote>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao mundo a sua experiência com uma gravidez indesejada e um aborto clandestino na França de 1960, ela com certeza estava ciente da referência filosófica que marcaria a sua obra, mas não imaginava com a mesma intensidade a dimensão da sua representação – e, por consequência, o rompimento que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> provocaria com suas próprias conceituações. É que, enquanto o termo do título evoca a ideia de uma experiência de individuação (como o próprio detentor da “<a href="http://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/ricultsociedade/article/view/12998">filosofia do acontecimento</a>”definiu</span><span style="font-weight: 400;">), todo o desenvolvimento do livro trata de uma história particular vivida a nível universal (mais precisamente, presente em </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/quase-metade-das-gravidezes-no-mundo-%C3%A9-indesejada-aponta-onu/a-61322325#:~:text=A%20cada%20ano%2C%20cerca%20de,de%20acordo%20com%20o%20UNFPA."><span style="font-weight: 400;">quase metade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das vivências em questão do mundo).</span></p>
<p><span id="more-28766"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício de desenvolver as referências filosóficas e leituras sociais de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, são ocorrências restritas ao lugar do leitor. Na linguagem da escritora e professora francesa nascida em 1940 e vista como uma das </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/conheca-annie-ernaux-que-escreveu-para-apagar-uma-traicao-e-se-tornou-best-seller.shtml"><span style="font-weight: 400;">principais vozes feministas</span></a><span style="font-weight: 400;"> da contemporaneidade, não existe nenhuma pretensão. Seu instrumento como literata é a palavra direta e substantiva (como bem traduzem os títulos de seus livros), cujo objetivo é “</span><i><span style="font-weight: 400;">resistir ao lirismo da cólera ou da dor”</span></i><span style="font-weight: 400;"> a fim de construir a verossimilhança da sua experiência, que ela transforma em livro quarenta anos depois. A partir de suas memórias do período registradas em seus diários, Ernaux retorna aos seus 23 anos, quando, depois de deixar um contexto familiar marcado pelo cotidiano interiorano da classe operária francesa do século XX, engravidou contra a sua vontade em meio aos seus estudos sobre Literatura Moderna na Universidade de Rouen, no auge de sua juventude. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas palavras da autora, uma das mais importantes da França na atualidade, a história cria o pano de fundo para um texto que se aproxima de um ensaio, tratando sobre a onipresença da lei e os imperativos que regem o corpo das mulheres ao longo dos anos. Essa prática singular em analisar as relações que existem entre o público e o privado, o concreto e o abstrato, é só o primeiro dos muitos méritos do décimo livro de Annie, que como característica principal da sua Literatura, agraciada com o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Marguerite Duras</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2008, já tem até o seu nome próprio cunhado pelos estudiosos de sua obra: </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">autosociobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em julho de 2022, cinco meses depois da publicação do livro no Brasil pela tradução de Isadora de Araújo Pontes, e quando o Clube do Livro Persona o escolheu como a sua décima leitura, nada se mostrou tão socialmente atual quanto as experiências de Ernaux em 1963.</span></p>
<p><figure id="attachment_28767" aria-describedby="caption-attachment-28767" style="width: 1640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28767 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco da autora Annie Ernaux. Ela é uma mulher de meia idade, branca, tem cabelos lisos claros. Annie está alinhada à esquerda e olha para a câmera. Sua mão direita está apoiada no rosto e ela veste uma camisa em tom médio. Ao fundo, existe uma sala desfocada." width="1640" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg 1640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1024x687.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-768x515.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1536x1030.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1200x805.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28767" class="wp-caption-text">“(&#8230;) A única escrita correta me pareceu ser a recusa de toda ficção, mais tarde chamada de ‘autosociobiografia’, porque quase sempre me baseio numa relação de mim mesma com a realidade sócio-histórica”, refletiu Annie sobre seu quarto livro, O Lugar [Foto: Babelio]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">No dia 24 de Junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos votou de maneira contrária à manutenção do entendimento do aborto como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/entenda-o-que-muda-apos-a-decisao-da-suprema-corte-dos-eua-sobre-aborto.shtml"><span style="font-weight: 400;">direito fundamental</span></a><span style="font-weight: 400;">, até então definido pela lei nacional desde 1973. Na prática, isso quer dizer que o país não tem mais o compromisso de fornecer o método como serviço de saúde pública de maneira universal, o que significa que cada estado fica livre para criar sua própria legislação e entendimento para a questão – e segundo estudos, pelo menos metade deles deve retroceder no que diz respeito à legalização do aborto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que as decisões na chamada “</span><i><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade”</span></i><span style="font-weight: 400;"> impactam os debates dos demais países do globo, mas no Brasil o assunto surgiu de maneira ainda mais urgente: por meio do jornal </span><a href="https://theintercept.com/2022/06/20/video-juiza-sc-menina-11-anos-estupro-aborto/"><i><span style="font-weight: 400;">The Intercept Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tornou-se público um caso de uma menina grávida em decorrência de um estupro aos 11 anos, que foi não só impedida de realizar um aborto legal (embora a atual legislação do país esteja sempre ameaçada), como também orientada pela juíza de seu próprio processo a desistir do procedimento.</span></p>
<p><figure id="attachment_28768" aria-describedby="caption-attachment-28768" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28768 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg" alt="Fotografia de um protesto pela legalização do aborto na Colômbia. A imagem mostra uma mulher em segundo plano segurando uma bandeira verde, que em espanhol, diz “poder decidir”" width="984" height="656" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28768" class="wp-caption-text">Na América Latina, o debate se amplia, com destaque para a recente descriminalização do aborto até a 24ª semana de gestação na Colômbia, em Janeiro deste ano, além das legislações já consolidadas da Argentina (2020) e Uruguai (2012) [Foto: Luisa Gonzalez/Reuters]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desta forma, quando a obra da autora foi colocada em foco diante do mundo novamente, especialmente por conta do sucesso da </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/premiado-em-veneza-o-acontecimento-retrata-solidao-do-aborto/"><span style="font-weight: 400;">adaptação cinematográfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigida por Audrey Diwan, o intervalo de tempo e espaço entre a experiência particular de Ernaux e o aqui e agora não apresentava diferença. Mas antes de qualquer ocorrência de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> se reproduzir na vida real, a voz do livro já identificava o tal fenômeno da atemporalidade através da permanência de suas próprias palavras.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Acabo de achar entre meus papéis essa cena, escrita há vários meses. Percebo que eu tinha usado as mesmas palavras (&#8230;). Essa impossibilidade de dizer as coisas com palavras diferentes, essa união definitiva da realidade passada e de uma imagem que exclui qualquer outra, me parecem a prova de que realmente vivi assim o acontecimento.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Como evidência da importância que a experiência tem para a história e obra autosociobiográfica de Annie Ernaux, existe a própria </span><a href="https://www.livrariamegafauna.com.br/colunistas/rita-palmeira/um-peso-no-ventre/"><span style="font-weight: 400;">presença do assunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é debatido desde a primeira vez que a autora assinou um livro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Armoires Vides</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Os Armários Vazios</span></i><span style="font-weight: 400;">, numa tradução livre), seu romance de estreia publicado na França em 1974, já trazia uma narrativa autobiográfica que introduziu os temas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> com uma conjuração temporal impressionante: um ano antes da interrupção voluntária da gravidez ser legalizada no país.</span></p>
<figure id="attachment_28769" aria-describedby="caption-attachment-28769" style="width: 1881px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28769 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg" alt="Cena do filme O Acontecimento. A imagem mostra a personagem principal esterilizando uma longa agulha com o fogo de um isqueiro. Está de noite e a chama ilumina a foto, capturada por cima do ombro da personagem. O cenário é um quarto." width="1881" height="1382" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg 1881w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-800x588.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1024x752.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-768x564.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1536x1129.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1200x882.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28769" class="wp-caption-text">Em 2021, a adaptação cinematográfica dirigida e roteirizada por Audrey Diwan foi apreciada com o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza (Foto: Zeta Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a História e a biografia já são esferas inicialmente distintas aproximadas pela Literatura de Ernaux, não é desafio nenhum para a autora mesclar um </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/annie-ernaux-escreve-autobiografia-impessoal-em-os-anos/"><span style="font-weight: 400;">caráter metalinguístico</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao livro a fim de refletir sobre seu ofício. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> parte de maneira nada linear de um lugar de observação das relações que as mulheres mantêm sobre si mesmas para analisar a dimensão de poder que a escritora constrói com seu próprio texto – pois essa é a identidade singular de Annie Ernaux, muito influenciada pelas suas formadoras francesas: observar a si mesma para melhor observar o mundo ao seu redor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A consciência direta disso vem junto das suas tomadas de conclusão mais profundas. No nível radical que o texto de Ernaux atinge com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora não só relembra com criticidade a terrível prática da Arte de seguir o hábito da sociedade de não ver valor de representação e legitimidade em determinadas histórias, como coloca toda a relevância de seu ofício justamente nesse lugar. A personagem principal </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">é ela mesma</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jovem em um processo de exercício profundo de suas liberdades, que vive em um embate com as restrições impostas a ela no mundo externo. Assim, Annie toma como trabalho o reportar essa vida de uma mulher que não corresponde aos padrões socialmente impostos ao seu gênero, desde suas motivações até seus arrependimentos.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento &#8211; que ele tenha acontecido e que eu não tenha feito nada dele. (&#8230;) Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28772" aria-describedby="caption-attachment-28772" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28772 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia de Annie Ernaux. A autora está ao centro, num sofá azul. Ela usa uma camisa preta, seus cabelos são claros e lisos. Annie sorri levemente para a foto. Ao fundo, existe uma estante de livros. " width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28772" class="wp-caption-text">No Brasil, apenas outras duas obras de Annie Ernaux foram publicadas: Os Anos e O Lugar, ambas de 2021 (Foto: Ulf Andersen/AFP)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É no ínterim de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Ernaux verbaliza e nomeia de maneira objetiva a sua própria identidade literária, mas foi em seu quarto livro que a autora consolidou sua órbita ao redor de ideais de emancipação e rompimento. </span><a href="https://www.plural.jor.br/colunas/papel-maquina/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O Lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra vencedora do prêmio Renaudot em 1983, que traz sua família para o centro da história, firmou o nome de Annie em seu lugar de relevância para a Literatura contemporânea com uma narrativa firme de distanciamento de suas raízes, um processo realizado em prol de se tornar quem se almeja ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, nenhum símbolo pode dizer mais sobre emancipação e liberdade do que o que marca a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> – não à toa, ele é nomeado assim, de maneira um pouco mais subjetiva do que os títulos costumeiros de Annie Ernaux. Muito mais do que um processo concreto que confere a uma mulher o poder sobre o seu próprio corpo, a autora insere mais uma camada à sua mistura de biografia, história e sociologia, entendo o aborto a partir de uma </span><a href="https://www.revistas.usp.br/nonplus/article/view/149189"><span style="font-weight: 400;">ótica quase filosófica</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma experiência plenamente humana, que permite acesso ao ciclo e aos extremos completo da vida, desde seu início, até o seu fim. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Sei que hoje eu precisava dessa provação e desse sacrifício para desejar ter filhos. Para aceitar essa violência da reprodução no meu corpo e me tornar, por minha vez, lugar de passagem das gerações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei de pôr em palavras isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo, da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre aspirações, significações e conclusões tão amplas sobre a sua experiência, a autora não deixa de sentir o que lhe foi particularmente marcante daquela época: </span><a href="https://revistarosa.com/5/a-dor-da-clandestinidade"><span style="font-weight: 400;">a solidão e o desamparo</span></a><span style="font-weight: 400;">, em nível legal, social, institucional e cultural. O choque vem da simples dificuldade da jovem Annie em enxergar as diferenças de gênero através de seu olhar tão livre e independente, que não vê outro lugar para si mesma se não aquele de completa igualdade com os demais. Nada disso, no entanto, define </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma vez que a obra não existe de maneira a transformar a vida de Annie Ernaux em – literalmente – um livro aberto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, é o que acontece, mas seus relatos íntimos, reflexões metalinguísticas e críticas sociais estão na obra com um objetivo bem definido: destacar a maneira como, além de tudo, essa experiência universal de desapropriação de si mesma causa uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">uniformização violenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> das nossas identidades – o que vai na direção contrária do nosso movimento de emancipação individual e coletivo. No mundo em que vivemos, nenhuma história sobre aborto é só uma história sobre aborto, e nenhuma experiência de violência de gênero </span><a href="https://diplomatique.org.br/quem-sao-elas-o-perfil-das-mulheres-que-abortam-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">é individualizada</span></a><span style="font-weight: 400;"> em seu alvo da vez. E as palavras de Annie Ernaux parecem ser as únicas possíveis para compreender que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> dela nunca foi – e nunca será – só dela.</span></p>
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		<title>Bem-vindo à Chechênia: quando vamos parar de matar LGBTs?</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2021 21:02:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: o texto a seguir apresenta conteúdos sensíveis sobre violência, LGBTQIA+fobia e suicídio, que podem servir de gatilho para alguns leitores. Gabriel Gatti A Chechênia é uma das repúblicas da Federação da Rússia, localizada na região do Norte do Cáucaso, onde a maioria da população é muçulmana sunita. Esse ambiente peculiar é governado sob punhos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/bem-vindo-a-chechenia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Bem-vindo à Chechênia: quando vamos parar de matar LGBTs?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><i><span style="font-weight: 400;">Aviso: o texto a seguir apresenta conteúdos sensíveis sobre violência, LGBTQIA+fobia e suicídio, que podem servir de gatilho para alguns leitores.</span></i></p>
<figure id="attachment_22461" aria-describedby="caption-attachment-22461" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22461" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1-2.jpg" alt="Cena do filme Bem-vindo à Chechênia exibe uma pessoa de costas, usando casaco e calça preta e arrastando duas malas. O cenário é de casas e algumas árvores cobertas de neve." width="1000" height="563" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1-2.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1-2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22461" class="wp-caption-text">O indicado ao Emmy 2021 Bem-vindo à Chechênia nos apresenta à realidade daqueles que devem fugir para sobreviver (Foto: Public Square Films)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gatti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Chechênia é uma das repúblicas da Federação da Rússia, localizada na região do Norte do Cáucaso, onde a maioria da população é muçulmana sunita. Esse ambiente peculiar é governado sob punhos de ferro pelo tirano </span><a href="https://www.rferl.org/a/kadyrov-balkan-music-festival/31363411.html"><span style="font-weight: 400;">Ramzan Kadyrov</span></a><span style="font-weight: 400;">, a quem o presidente russo Vladimir Putin apoia. A gestão do governante tornou o local em um triângulo das bermudas dos </span><a href="https://super.abril.com.br/blog/contaoutra/o-que-ha-por-tras-dos-campos-de-concentracao-de-gays-na-chechenia/"><span style="font-weight: 400;">direito</span><span style="font-weight: 400;">s humanos para LGBTs</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que as famílias são incentivadas a matar seus parentes que não sejam heterossexuais. Desse modo, os hábitos doentios dos chechenos serviram de inspiração para o diretor David France no documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;">, indicado ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/emmy-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2021</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de </span><span style="font-weight: 400;">Mérito Excepcional em Documentário</span><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-22460"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a missão de retratar esse massacre, </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia </span></i><span style="font-weight: 400;">constrói sua narrativa seguindo três pilares: depoimentos das vítimas, entrevistas com ativistas que atuam sob as sombras do Estado e imagens perturbadoras de violência contra LGBTs. Utilizando esses fatores, France desenvolve a história do grupo minoritário que recorre a um abrigo, onde os indivíduos são acolhidos até conseguirem </span><a href="https://www.efe.com/efe/brasil/sociedade/ativistas-lgbt-russos-evacuam-43-gays-da-chechenia-e-pedem-asilo-para-eles/50000246-3270516"><span style="font-weight: 400;">emigrar</span></a><span style="font-weight: 400;"> para outro país, geralmente o Canadá. No meio de toda essa trama conturbada, o diretor ainda insere trechos de entrevistas e falas do ditador </span><span style="font-weight: 400;">Kadyrov marcadas por ódio e intolerância para com as pessoas LGBTs.</span></p>
<figure id="attachment_22462" aria-describedby="caption-attachment-22462" style="width: 674px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22462" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2-1-2.jpg" alt="Foto retirada do Instagram apresenta a esquerda Ramzan Kadyrov, um homem branco, de cabelos curtos e loiros, barba, usando um moletom preto e estampado, e a direita Zelim Bakaev, um homem branco, de cabelos curtos e castanhos, barca, usando uma camiseta cinza com estampa de tigre." width="674" height="379" /><figcaption id="caption-attachment-22462" class="wp-caption-text">A foto do Instagram de Zelim Bakaev com o governante da Chechênia mostra que nem tudo nas redes sociais é verdadeiro (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No desenvolver do documentário, vários casos de perseguição e assassinato são apresentados, mas um deles se destaca. </span><a href="https://www.rferl.org/a/kadyrov-bakayev-antigay-honor-killing-singer-chechnya/28983059.html"><span style="font-weight: 400;">Zelim Bakaev</span></a><span style="font-weight: 400;"> era um cantor de música </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">com a carreira em ascensão. No entanto, em 2017, o artista desapareceu após ser, supostamente, torturado pela autoridade da Chechênia. Essa brutalidade ocorreu por suspeita do jovem ser gay. A notícia de seu desaparecimento tomou o globo, mas até hoje, não há indícios de onde foi parar o corpo do rapaz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é apenas um caso que ganhou notoriedade por se tratar de uma estrela da Música, mas há muitas outras de pessoas anônimas massacradas por indivíduos cegados pela LGBTfobia enraizada em sua cultura. Como forma de pôr um holofote nessa realidade abafada pelo Estado, France adota o formato de </span><a href="https://www.escrevendoofuturo.org.br/caderno_virtual/caderno/documentario/oficinas/etapa-1-documentario-expositivo/#:~:text=No%20modo%20expositivo%20de%20representa%C3%A7%C3%A3o,sem%20com%20elas%20se%20envolver."><span style="font-weight: 400;">documentário expositivo</span></a><span style="font-weight: 400;"> para <em>Welcome to Chechnya</em></span><span style="font-weight: 400;">, que é seu  modo de </span><span style="font-weight: 400;">enfatizar os fatos e os argumentos para aquilo que está sendo mostrado. Em diversos momentos, como quando há uma tentativa de suicídio no abrigo, o filme acaba expondo os envolvidos, mas com o ideal de fazer isso em prol da conscientização para aquilo que ocorre nessa região hostil.</span></p>
<figure id="attachment_22463" aria-describedby="caption-attachment-22463" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22463" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1-1.jpg" alt="Cena do filme Bem-vindo à Chechênia mostra três pessoas de costas tentando acudir um homem branco, de cabelo curto e loiro, usando um shorts verde estampado, deitado na cama. O quarto em que eles estão apresenta armários de madeira e roupas espalhadas pelo cômodo. " width="1000" height="563" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1-1.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22463" class="wp-caption-text">Muito infeliz e dolorosamente, a saída que alguns encontram para a realidade da Chechênia é o suicídio (Foto: Public Square Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A imersão do telespectador nesse campo de perseguição de pessoas faz com que o documentário apresente uma atmosfera pesada e amedrontadora, mas ao mesmo tempo, tocante. O longa se apresenta como um pedido de socorro de todos aqueles que se encontram em estado de fragilidade, que, por sua vez, tem sua imagem protegida com a </span><span style="font-weight: 400;">utilização do efeito do </span><em><a href="https://canaltech.com.br/software/O-que-e-CGI-e-computacao-grafica/"><span style="font-weight: 400;">CGI</span></a></em><span style="font-weight: 400;">.</span><span style="font-weight: 400;"> Para reforçar a dramaticidade, </span><span style="font-weight: 400;">o diretor também utiliza alguns recursos para tornar sua história mais potente. Esse evento é perceptível quando se fala dos ativistas que, muitas vezes, são retratados com um tom heroico. A percepção dessa característica de </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;"> não descredibiliza a força da trama, apenas remete, em certos pontos, ao entretenimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, David France consegue despertar o telespectador ao amarrar todos os pilares propostos por </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;">, desenvolvendo a narrativa de forma coesa do começo ao fim. Mas muito antes do cineasta, repórter investigativo e autor produzir o documentário, muitos outros longas passaram por suas mãos. O diretor foi nomeado ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2013 na categoria de Melhor Documentário por </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-como-sobreviver-a-uma-praga/"><i><span style="font-weight: 400;">Como Sobreviver a uma Praga</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, além de assinar </span><a href="https://deliriumnerd.com/2020/05/18/a-morte-e-a-vida-de-marsha-p-johnson-documentario-netflix-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Agora, com </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">France já passou por vários festivais, como a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, o Festival Internacional de Cinema de Berlim, o Festival </span><i><span style="font-weight: 400;">Sundance </span></i><span style="font-weight: 400;">de Cinema, além de concorrer a categoria de </span><span style="font-weight: 400;">Mérito Excepcional em Documentário</span> <span style="font-weight: 400;">no </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy </span></i><span style="font-weight: 400;">2021, por ser um filme da <em>HBO</em>. O longa chegou a ser cotado ao <a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2021/"><em>Oscar </em>2021</a>, mas acabou ficando de fora.</span></p>
<figure id="attachment_22464" aria-describedby="caption-attachment-22464" style="width: 739px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22464" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-1-2.jpg" alt="Cena do filme Bem-vindo à Chechênia em que dois homens, usando casaco e calça, se divertem em uma praia deserta. " width="739" height="415" /><figcaption id="caption-attachment-22464" class="wp-caption-text">O encontro de casais afastados é o ponto mais leve da trama (Foto: Public Square Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">France mostra a potência de </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando nos faz refletir sobre as condições dos LGBTs no nosso país. O Brasil, no caso, é considerado bem sucedido na luta, apresentando </span><a href="https://observatoriog.bol.uol.com.br/listas/as-6-paradas-lgbts-mais-famosas-do-mundo"><span style="font-weight: 400;">a maior parada do mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso, há artistas de grande visibilidade, como <a href="https://personaunesp.com.br/nao-para-pabllo-2018/">Pabllo Vittar</a> e Gloria Groove, que conquistaram um espaço considerável nos últimos anos. Em contrapartida, foram registrados 175 assassinatos de travestis em 2020 (uma morte a cada 2 dias) segundo a </span><a href="https://antrabrasil.org/assassinatos/"><span style="font-weight: 400;">Associação Nacional de Travestis e Transsexuais do Brasil (Antra)</span></a><span style="font-weight: 400;">. Como se não fosse o bastante, o presidente Bolsonaro já fez diversos </span><a href="https://catracalivre.com.br/cidadania/sou-homofobico-sim-com-muito-orgulho-diz-bolsonaro-em-video/"><span style="font-weight: 400;">discursos LGBTfóbicos</span></a><span style="font-weight: 400;"> durante sua carreira na política. Esse fato serve de lembrete de que a democracia é uma luta diária, pois todas as conquistas das minorias podem se esvair sem o mínimo de esforço caso não haja resistência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;"> é daquele tipo de filme que não existiria em uma sociedade democrática e justa, o que comprova que a Chechênia abriga uma comunidade doente devido a gestão de Ramzan Kadyrov. Mas além de ser um documentário, </span><i><span style="font-weight: 400;">Bem-vindo à Chechênia</span></i><span style="font-weight: 400;"> ainda formou uma </span><a href="https://www.welcometochechnya.com/"><span style="font-weight: 400;">instituição</span></a><span style="font-weight: 400;"> que arrecada fundos para salvar LGBTs chechenos que busquem sair do país. Desse modo, pode-se dizer que France produziu uma ferramenta tocante, perturbadora e solidária.</span></p>
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