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	<title>Arquivos Crônica &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Crônica &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Third, do Portishead, foi escrito para mim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Apr 2018 18:59:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Adriano Arrigo]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[trip-hop]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Adriano Arrigo O trio inglês Portishead foi achado em um momento de transição quando eu tinha, mais ou menos, 18 anos. Minha transição foi religiosa. A típica frase “minha religião não permite” era bem clara para mim, mas isso não deixava que eu tivesse no meu Winamp hits como “Glory Box”, “It Could be Sweet” &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/portishead-third-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Third, do Portishead, foi escrito para mim"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-9896" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2018/04/capa-300x300.png" alt="" width="445" height="445" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2018/04/capa-300x300.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2018/04/capa-150x150.png 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2018/04/capa-768x768.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2018/04/capa.png 1000w" sizes="(max-width: 445px) 85vw, 445px" /></p>
<p><strong>Adriano Arrigo</strong></p>
<p>O trio inglês Portishead foi achado em um momento de transição quando eu tinha, mais ou menos, 18 anos. Minha transição foi religiosa. A típica frase “minha religião não permite” era bem clara para mim, mas isso não deixava que eu tivesse no meu Winamp hits como “Glory Box”, “It Could be Sweet” e “Roads”. Por incrível que pareça, esta última me foi apresentada por um menino neopentecostal. Os primeiros toques pesados e melancólicos de Beth Gibbons cantando <i>“</i><i>Oh, can&#8217;t anybody see?” </i>já eram o suficiente para cultivar uma melancolia que eu fazia ligação com o que me acontecia naquele momento. Mas ao final, eu nem sabia exatamente sobre que ela estava falando.</p>
<p><span id="more-9893"></span></p>
<p>E isso realmente importa? Quantas músicas fazem sentido para nós e não temos ideia do que elas estão dizendo? Talvez isso seja música, afinal. Talvez ainda, isso seja fundamentalmente a <i>minha </i>compreensão de música. Mas eu nunca ouvi Portishead pelo seu peso lírico. Para mim, é como se não houvessem letras. Como você pode separar o agudo da voz de Gibbons dos violinos em “Roads”? Mas se as letras existem no trio inglês, eu nunca fui procurar o que eles tinham a dizer exatamente. Até o terceiro álbum do trio, o <i>Third.</i></p>
<p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/Vg1jyL3cr60" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<blockquote><p>Esteja alerta para a regra dos três<br />
O que você dá retornará para você<br />
Essa lição você tem que aprender<br />
Você só ganha o que você merece</p></blockquote>
<p>Para quem já escutou o <i>Third</i>, esse verso é famoso. Para quem não, é o verso que abre o disco em “Silence“, proferido por Claudio Campos, mestre de capoeira que mora em Bristol, a mesma cidade da banda. Para mim, que não se importava com as letras, bem, parecia que Beth tinha colocado essa fala na boca do capoeirista para me atingir. E não que justifique, mas chegando na casa dos 20 anos de idade, a parte escrita de <i>Third</i> fazia muito sentido para mim.</p>
<p>Aliás, quando ouvi “Machine Gun” era sobre aquilo que eu sentia. “Eu vejo um salvador, um salvador vem na minha direção”. Minha mudança era espiritual, se é que posso dizer. Estava saindo de uma religião da qual fazia parte de criança. Um salvador – que aqui não é com letra maiúscula – cairia bem naquele momento. “Assustado de mais para sacrificar uma escolha escolhida por mim”. É, era isso.</p>
<p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/kbJeiWYFrio" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Sempre achei que “Machine Gun” era a música da minha vida. “Sempre”, quero dizer, nas primeiras vezes que ouvi. Sei que é um exagero, e também sei que eu nunca tinha ouvidos tantas músicas para saber de cara que era essa a música da minha vida. Uma voz presa falando sobre coisas que eu sentia, e que se misturavam com uma parte repetitiva e, ao fundo, um som artificial de destruição.</p>
<p>Aliás, esse “som de destruição” permeia o <i>Third </i>por inteiro. Em “Nylon Smile” ele está ali ruminando, tramando, se fingindo de sonso, mas Gibbons sabe que ele é ardiloso (e eu também). “Eu não consigo ver nada bom, e nada é tão mal. Eu nunca tive a chance de explicar o que exatamente quero dizer”. Bem sugestivo. Em “The Rip” – talvez a faixa mais representativa do disco – as frases iniciais são dignas de um excerto qualquer de Virginia Woolf.</p>
<blockquote><p>Enquanto ela caminha pelo quarto, perfumada e alta,<br />
Hesitando mais uma vez<br />
E enquanto eu me levanto,<br />
E a amargura que sinto, eu percebo que o amor flui</p></blockquote>
<p>O embrolho de “The Rip” nada mais é do que os sintetizadores e mais toda a aparelhagem eletrônica que Adrian Utley e Geoff Barrow, os companheiros de longa data de Gibbons, conseguem, há tempos, codificar no Portishead. Mas aqui no <i>Third</i>, eles largaram um pouco o romântico e <a href="http://personaunesp.com.br/20-anos-endtroducing/">bagunçado Trip-hop</a> de “Only You”, por exemplo, e se aventuraram em um caminho ainda mais obscuro, mas nunca deixando o peso das relações humanas se tornarem obsoletas dentro da marca que criaram dentro desse estilo musical.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/kBOaLjtR4mw" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p align="left">Em <i>Third</i>, não há uma música como “Glory Box” para servir de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=_6obos6sz8E">música </a><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_6obos6sz8E">de striptease</a>. Seus versos não são fáceis, e seus sons, muito menos. “Small” é, talvez, a única música que remeta aos discos anteriores da banda. É Gibbons falando de algum relacionamento e vinho sob violinos pesados. Mais Portishead pré <i>Third</i>, impossível. Porém, “ele” está lá, esse som dissimulado que faz as melodias serem destruídas e se transformarem em algo novo, ao passo que suja as composições de Gibbons (ele atropela Gibbons ao final de “Threads”).</p>
<p align="left">Isso transforma o <i>Third</i> em um mal-estar. Certos pedaços do disco – porque é quase impossível ouvi-lo pensando que são faixas separadas – são sufocantes. Não se assuste se ao final de “Threads” você estiver torcendo para a faixa se esgotar logo. Todos os solos de ruídos opressivos fazem esse disco ser tecnicamente impecável.</p>
<p align="left">Durante esses anos, fui prestando atenção em cada barulho ou em cada edição que as músicas têm. Por exemplo, eu achei por muito tempo que o meu arquivo de “Silence” estava corrompido, pois ela termina abruptamente. Após ouvir outras versões – em especial, a do Spotify – eu descobri que não, a música é produzida daquela forma, ela termina em seu ápice. Isso quer dizer muito sobre <i>Third</i> e o porque dele ser tão representativo, em especial, para mim. É como se Gibbons e seus comparsas usasse o mal-estar presente em todo o disco para codificar meu espírito de 20 anos.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/5g7_rbwUy0U" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p align="left">E talvez isso faça este disco ser, polemicamente, o meu favorito do Portishead. Ele me acompanha desde então, nesses 10 anos, mas que, devido ao recomeço de trajetória que tive naquela época, parece que ele sempre esteve comigo. Passei 10 anos ouvindo-o nas mais diversas ocasiões, desde a preparação de uma janta com amigos até momentos em que eu estava sozinho. Ele sempre me intrigou e sempre me pareceu possível descobrir algo novo nele.</p>
<p align="left">Fiquei surpreso em descobrir ano passado que o disco da Gal Costa de 2011, <i>Recanto</i>, tem estritas semelhanças com<em> Third</em>. Não era muito do fã da artista, mas desde os recentes anos,<a href="http://personaunesp.com.br/daniela-mercury-bauru/"> tenho aberto meu gosto para música legitimamente brasileira</a>. Porém, o que se vê em <i>Recanto </i>é algo que extrapola a MPB, pois trata-se da extinção de instrumentos de cordas e produções grandiosas para uma roupagem completamente contemporânea e minimalista, tal qual <i>Third</i> representou em 2008.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/yAdTj68hIko" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p align="left">Talvez não seja uma referência direta, mas mostra como <i>Third</i> é tecnicamente visionário nas produções que incorporam somente voz e sintetizadores. Esse conjunto parece uma fórmula infalível para despertar o desassossego que há no íntimo dos que se aventuram pelo terreno desse trip-hop quase industrial. A camada metálica sobreposta à voz de Gibbons parece mostrar que esse ente que paira as músicas não permite que as coisas terminem bem, o que faz ser uma tarefa difícil manter o bom humor neste último disco do Portishead.</p>
<p>Se “Machine Gun” não é mais a “música da minha vida”, isso não faz eu estar menos alinhado ao disco. Em determinada estrofe de “The Rip”, Gibbons questiona se, caso a ternura que ela sente for puxada para baixo, ela deve sucumbir e segui-la. Para mim é uma opção que Gibbons deixa. Em 10 anos, não achei outras pistas que dessem essa resposta, mas religiosamente aprendi a lição proposta ali na faixa 1, afinal de contas, elas foram escritas para mim.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/18JyZd2XLdT2rmekw6EwoS%3Fsi%3DMDeP3XqCQeaDIOJIjXH9cA" width="300" height="380" frameborder="0" allowtransparency="true" allow="encrypted-media"></iframe></p>
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		<title>Slipknot: o horror cotidiano, de Iowa a Botucatu</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Nov 2017 22:07:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Heavy Metal]]></category>
		<category><![CDATA[Nilo Vieira]]></category>
		<category><![CDATA[Satã]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nilo Vieira O segundo disco do Slipknot é uma audição dolorosa (já comecei o texto dando piada de graça pra detratores). Urros quase ininterruptos, linhas percussivas marretadas, guitarras de afinação baixa com timbres que beiram o nojento, intervenções eletrônicas barulhentas. Pra coroar, a masterização, vítima da loudness war, joga todos os níveis no vermelho. 14 &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/slipknot-iowa-resenha-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Slipknot: o horror cotidiano, de Iowa a Botucatu"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_8829" aria-describedby="caption-attachment-8829" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8829 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-1024x1024.jpg" alt="" width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK-1200x1200.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-GOAT-2001-COVER-ARTWORK.jpg 1500w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-8829" class="wp-caption-text">Adote animais e louve o Cramunhão</figcaption></figure>
<p><strong>Nilo Vieira</strong></p>
<p>O segundo disco do Slipknot é uma audição dolorosa (já comecei o texto dando piada de graça pra detratores). Urros quase ininterruptos, linhas percussivas marretadas, guitarras de afinação baixa com timbres que beiram o nojento, intervenções eletrônicas barulhentas. Pra coroar, a masterização, vítima da <em>loudness war,</em> joga todos os níveis no vermelho. 14 faixas, 66 minutos de duração.<span id="more-8828"></span></p>
<p>A sonoridade punitiva traduz o <em>background</em> tenso. Após o sucesso inesperado da estreia homônima em 1999, a pressão da indústria cresceu. Mesmo com a banda dividida &#8211; <a href="https://www.altpress.com/features/entry/slipknot_contemplated_breaking_up_after_first_album_called_it_a_fck_you_to" target="_blank" rel="noopener">a ponto de uma separação ter sido cogitada como protesto</a> -, os trabalhos começaram pouco tempo após o término das turnês anteriores. <a href="http://loudwire.com/slipknot-iowa-anniversary/" target="_blank" rel="noopener">O abuso de drogas era pesado</a>.</p>
<p>Além do caos da vida pessoal dos nove integrantes, o produtor Ross Robinson sofreu um acidente de moto durante o processo. Ele, <a href="https://tapeop.com/interviews/79/ross-robinson/" target="_blank" rel="noopener">que já era conhecido por usar de táticas psicológicas</a>, engrossou o caldo. Para a faixa-título, disse para Corey Taylor que gostaria que ele entrasse na parte mais insólita de sua mente; o vocalista gravou a canção nu e se cortando com vidro. Outro caso conhecido é o da intro &#8220;(515)&#8221;, cujos gritos são resultado do DJ Sid Wilson extravasando a morte de seu avô.</p>
<figure id="attachment_8833" aria-describedby="caption-attachment-8833" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-8833" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY-1024x576.jpeg" alt="" width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY-300x169.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/11/SLIPKNOT-IOWA-MAX-CAVALERA-SOULFLY.jpeg 1278w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-8833" class="wp-caption-text">Halloween levado a sério: estileira muito mais foda ainda</figcaption></figure>
<p><strong><em>I&#8217;M ALWAYS READY TO DIE BUT YOU&#8217;RE KILLING ME<br />
</em></strong></p>
<p>Análises intelectualizadas de <em>Iowa</em> (2001), ainda que válidas, acabam por romantizar uma obra cujo potencial reside em sua visceralidade. O negócio começa com a afirmação de que pessoas são uma merda, afinal. Acompanhando as letras no encarte, não demora para perceber que os versos tem teor contraditório. &#8220;Everything Ends&#8221; inicia acusando terceiros em tom de voz cínico, mas é óbvio que a raiva do eu lírico é absurdamente interna.</p>
<blockquote><p>Shallow skin, I can paint with pain<br />
I mark the trails on my arms with your disdain<br />
Everyday it&#8217;s the same &#8211; I love, you hate<br />
But I guess I don&#8217;t care any more&#8230;<br />
Fix my problems with the blade<br />
While my eyes turn from blue to gray<br />
God, the worst thing happened to me today<br />
But I guess I don&#8217;t care anymore&#8230;</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>My flaws are the only thing left that&#8217;s pure<br />
Can&#8217;t really live, can&#8217;t really endure<br />
Everything I see reminds me of her<br />
God I wish I didn&#8217;t care anymore<br />
The more I touch, the less I feel<br />
I&#8217;m lying to myself that it&#8217;s not real<br />
Why is everybody making such a big fucking deal?<br />
I&#8217;m never gonna care anymore</p></blockquote>
<p>Com exceção da didática &#8220;Gently&#8221;, assinada por Michael &#8220;Clown&#8221; Crahan, essa narrativa explosiva e inconsequente permeia o disco inteiro. A constante crítica da fúria expressada aqui como juvenil e gritaria sem sentido ignora o básico: a proposta aqui não é pensar a raiva, é liberá-la do modo mais direto possível. A raiva pode não ter razões coerentes e ainda incomodar em níveis absurdos.</p>
<p>O alívio de blasfemar contra o vento pode ser mais eficaz e imediato do que sobrepensar e remoer sentimentos ruins &#8211; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=av-scRPkdKM" target="_blank" rel="noopener">cá um surto recente que não me deixa mentir. </a>&#8220;The Heretic Anthem&#8221; é um exemplo peculiar em <em>Iowa</em>: o dedo do meio mais direto pra mídia possui o refrão mais marcante e pegajoso do álbum. Além do Iron Maiden, qual outra banda conseguiu emplacar um clássico de estádios envolvendo o número da besta? É a prova de que, apesar da pose, o Slipknot sabe se divertir. E convida o público na empreitada &#8211; &#8220;<em>se você é 555, eu sou 666</em>&#8221; virou um mantra nos shows do grupo.</p>
<p><strong><em>MY LIFE WAS ALWAYS SHIT, AND I DON&#8217;T THINK I NEED THIS ANYMORE</em></strong></p>
<p>É curioso. O especial de Halloween deste ano começou com <a href="http://personaunesp.com.br/critica-principe-das-sombras/" target="_blank" rel="noopener">um <em>crássico trash</em> do mestre John Carpenter</a>, no texto com nostalgia aflorada do camarada Adriano Arrigo. Antes de vir escrever no Persona, falei muito sobre <em>Iowa</em> (spammei, praticamente) na internet. Não foram poucas as pessoas que sugeriram que meu apreço pelo LP se dava por pura nostalgia. Divertido ver que o ambiente crítico conserva suas picuinhas, em plena era de reavaliação cultural de gêneros antes renegados.</p>
<p>E pior que percebi não ser o caso. O começo do então vício coincidiu com os primeiros sinais de depressão, ainda em 2009. Minha <em>crush </em>detestava Slipknot, e no meu mundo mental fantasioso entendia isso como um sinal fatalista. Caçoava um colega por achar o noneto &#8220;pesado demais&#8221;, e no ano seguinte tiraria sarro por ele considerá-los o suprassumo do peso. Adquiri o cd físico em 2010, na transição penosa pro ensino médio. Nada que mereça saudades.</p>
<p>Em entrevista ao<a href="https://www.altpress.com/features/entry/slipknot_contemplated_breaking_up_after_first_album_called_it_a_fck_you_to" target="_blank" rel="noopener"> Alternative Press</a>, Corey Taylor sugere: &#8220;<em>(&#8230;) já disse antes, mas aquele álbum soa tão espesso que você pode vesti-lo. Ele tem uma certa qualidade que eu só consigo comparar, de certa forma, com o que você ouve nos discos do Big Black (&#8230;)</em>&#8220;. Pode não ser uma comparação precisa em termos sonoros, mas há uma semelhança notável entre<em> Iowa</em> e <em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=03cDvRl3edo" target="_blank" rel="noopener">Atomizer</a> </em>(1986): a fúria jovem resultante do tédio de municípios pacatos. Embora aprecie minha cidade natal, reconheço que Botucatu se encaixaria no retrato oferecido pelo clipe de &#8220;Left Behind&#8221;.</p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Slipknot - Left Behind [OFFICIAL VIDEO] [HD]" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/D1jQKpse7Yw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>Minhas revisões de <em>Iowa</em> forneceram várias descobertas proveitosas. Percebi que nunca havia ouvido com fones, e qual não foi a surpresa ao constatar os timbres muito mais definidos e bem equalizados? O baixo do finado Paul Gray, que julgava inexistente, agora tomava conta do <em>headset</em>. As contribuições de Sid Wilson e Craig Jones apareceram mais nítidas e situadas.</p>
<p>A influência de <a href="http://personaunesp.com.br/neurosis-brasil-show/" target="_blank" rel="noopener">Neurosis</a> na longa faixa-título rendeu replays constantes madrugada afora. Reparei que vários trechos palhetados não fariam feio em algo do <a href="http://personaunesp.com.br/slayer-epidemico-sangrento/" target="_blank" rel="noopener">Slayer</a> ou até bandas mais extremas, e confirmei que as músicas pinçadas da demo <em>Mate. Feed. Kill. Repeat.</em> (1996) ganharam mais peso e detalhes. &#8220;Gently&#8221; e &#8220;Skin Ticket&#8221;, que costumava pular, davam dinâmica ao <em>tracklist</em> agora. Se <em>Slipknot</em> (1999) soava como a lenda urbana de uma criatura escrota nascendo em um porão, em <em>Iowa</em> esse bicho toma corpo e sai pra rua.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/7yQmrL4bms0JIWamjA2ok1" width="300" height="380" frameborder="0" allowtransparency="true"></iframe></p>
<p><em><strong>I SEE THE FUTURE, THE FUTURE IS BLEEDING</strong></em></p>
<p>Bauru, 2017. Madrugada. Lendo e ansioso quanto ao trabalho de conclusão de curso. Música com vocais não é escolha comum pra ocasião, mas de <em>Iowa </em>consegue me manter focado e empolga a tarefa. Não vivo mais em uma cidade quieta. Julgo ter evoluído o mínimo não ser mais o pirralho de anos atrás. As agonias não são iguais. Sequer odeio as pessoas ao meu redor.</p>
<p>Mas de alguma forma, esse disco faz sentido pra mim. Talvez seja pela noção de que, se você se considerar odiado, fica mais alerta no mundo ainda me sirva. Bauru me faz sentir assim ou ainda tenho paranoias a resolver? Quiçá gostar do álbum com outros ouvidos dê certa sensação de paz com o passado, orgulhoso dele ou não. Tem o fato de que gostar de Slipknot irrita as pessoas próximas, agora por outros motivos &#8211; como assim, você que é super conceitual! Crítico! Vai ver eu só não levo tudo tão a sério e literalmente como antes.</p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Slipknot - My Plague [OFFICIAL VIDEO]" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/lRNYp1IiUuE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>Ou os riffs e o trampo do Joey Jordison na bateria são maneiros, e a abordagem vocal é repleta de nuances. Como eles cantam é quase mais relevante do que as letras em si &#8211; a melodia do refrão de &#8220;My Plague&#8221;, ou a impressão de que o &#8220;<em>no one is safe</em>&#8221; de &#8220;Disasterpiece&#8221; parece ter sido gravado com o Chris Fehn trajando sua máscara. Ah sim, tem as máscaras. São legais, especialmente a de cabeça com espetos e expressão vaga. O encarte é bem feito também.</p>
<p>É aquele trecho situado entre a vontade de querer trocar ideias com o universo e só aceitar que é uma sensação pessoal, impossível de se traduzir. Sentir alguma coisa nova, por mais boçal que seja. Sair do terror claustrofóbico que é a rotina por alguns minutos &#8211; ou aprender a conviver com ele com uma trilha condizente.</p>
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		<title>Nirvana e Philip Glass: o popular no Ibirapuera</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Sep 2017 20:48:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Exposição]]></category>
		<category><![CDATA[Nilo Vieira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nilo Vieira A popularidade talvez seja o único aspecto inquestionável nas discussões sobre o Nirvana, a banda que uniu todas as tribos, em 2017. Apesar do status de clássico, Nevermind (1991) permanece um álbum mais discutido do que ouvido: revolucionou o rock ou é um plágio superestimado de antecessoras menos conhecidas? E o tal grunge, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/nirvana-samsung-philip-glass-ibirapuera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Nirvana e Philip Glass: o popular no Ibirapuera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_8541" aria-describedby="caption-attachment-8541" style="width: 506px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8541" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_160048-e1505758419807-768x1024.jpg" alt="Nirvana Taking Punk to the Masses Samsung Exposição Ibirapuera" width="506" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_160048-e1505758419807-768x1024.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_160048-e1505758419807-225x300.jpg 225w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_160048-e1505758419807-1200x1600.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 506px) 85vw, 506px" /><figcaption id="caption-attachment-8541" class="wp-caption-text">Come as You Are: entrada da exposição sobre a banda no Ibirapuera (foto: Jesus Cristo)</figcaption></figure>
<p><strong>Nilo Vieira</strong></p>
<p>A popularidade talvez seja o único aspecto inquestionável nas discussões sobre o Nirvana, a banda que uniu todas as tribos, em 2017. Apesar do status de clássico, <a href="http://personaunesp.com.br/nirvana-25-anos-depois-espirito-adolescente-prevalece-mais-forte-nunca/" target="_blank" rel="noopener"><em>Nevermind</em></a> (1991) permanece um álbum mais discutido do que ouvido: revolucionou o rock ou é um plágio superestimado de antecessoras menos conhecidas? E o tal <em>grunge</em>, foi movimento ou só rótulo da MTV?<span id="more-8539"></span></p>
<p>No centro dessas discussões &#8211; carregadas de dicotomias fatalistas &#8211; está a figura de Kurt Cobain. Mesmo falecido há décadas, a figura do loiro canhoto de voz rouca ainda se mostra bastante vendável; e tome <a href="https://www.discogs.com/Kurt-Cobain-Montage-Of-Heck-The-Home-Recordings/master/912104" target="_blank" rel="noopener">registros caça-níquel, </a><a href="http://time.com/4106514/kurt-cobain-sweater-auction/" target="_blank" rel="noopener">leilões mórbidos</a> e o que mais pintar pra sugar o defunto. Um artista que morreu agonizado com a fama messiânica, diga-se de passagem. Nada mais natural, então, do que desconfiar que a exposição <em>Nirvana: Taking Punk to The Masses </em>pudesse ser só mais um item de luxo nesse cenário sanguessuga.</p>
<p>Uma visita ao parque do Ibirapuera em São Paulo (<a href="https://www.ingressorapido.com.br/compra/?id=58743#!/tickets" target="_blank" rel="noopener">onde a mostra permanece até o dia 12 de dezembro deste ano</a>) provou não ser o caso. É provável que Cobain não gostasse da ideia de ter roupas suas expostas como algo histórico, mas a seleção de outros itens como fitas demo, <em>setlists </em>e destroços de instrumentos quiçá fosse de seu agrado. Em tempos de debates inflamados sobre o que é ou deixa de ser arte, relembrar que até sucata pode fazer parte da história é uma ode contra o elitismo. É popular, raíz. <em>Punk</em>, acima de tudo &#8211; como o próprio Kurt.</p>
<figure id="attachment_8543" aria-describedby="caption-attachment-8543" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-8543" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_163229-e1505761889143-768x1024.jpg" alt="" width="768" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_163229-e1505761889143-768x1024.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_163229-e1505761889143-225x300.jpg 225w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_163229-e1505761889143-1200x1600.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-8543" class="wp-caption-text">Nazi Punks Fuck Off: camiseta do acervo pessoal de Krist Novoselic e lembrete do teor político da arte do Nirvana (foto: Eu Mesmo)</figcaption></figure>
<p>O maior acerto da curadoria, porém, é recordar que Nirvana não se resumiu a &#8220;Smells Like Teen Spirit&#8221;, <em>Nevermind</em> ou dramas da família Cobain. Fazendo jus ao nome, a exposição recorda o próprio surgimento da estética <em>do it yourself </em>do rock <em>underground </em>em murais e vídeos, com comentários de nomes seminais de diferentes cenas nos Estados Unidos. <a href="https://i2.wp.com/coisosonthego.com/wp-content/uploads/2017/09/Exposicao-Nirvana-Taking-Punk-to-the-Masses-Mural-com-20-discos-da-colecao-pessoa-de-Krist-Novoselic-que-mais-o-inspiraram.jpg?ssl=1" target="_blank" rel="noopener">Os painéis com discos</a> merecem destaque especial, com amplos panoramas ilustrados por seleções precisas de canções.</p>
<p>Apenas uma hora de duração não bastou para desfrutar tudo ali &#8211; como resistir à tentação de passar dez minutos só no cenário do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AhcttcXcRYY" target="_blank" rel="noopener">clássico Acústico MTV</a>? -, mas o investimento se mostrou correto. Mais do que guia da história do trio de Aberdeen ou uma chance de ouvir bandas diferentes, <em>Taking Punk to the Masses </em>serve como jornada ao centro de um fenômeno popular. E não falo do próprio Nirvana. Eles podem ter sido a explosão perfeita para uma era mas, acima de tudo, souberam catalisar ensinamentos de um movimento muito amplo e traduzi-los maneira criativa, sem perder o apelo às raízes. As palavras do baixista Krist Novoselic não poderiam ser mais precisas: acima de revoluções, tratava-se de uma banda evolutiva.</p>
<figure id="attachment_8542" aria-describedby="caption-attachment-8542" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-8542" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_164552-e1505760825710-768x1024.jpg" alt="" width="768" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_164552-e1505760825710-768x1024.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_164552-e1505760825710-225x300.jpg 225w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_164552-e1505760825710-1200x1600.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-8542" class="wp-caption-text">Seção dedicada à era In Utero: entre as poucas guitarras inteiras expostas (Foto: Igor Piaga)</figcaption></figure>
<p><strong>Philip Glass&#8230; on the grass?</strong></p>
<p>Agora restava esperar pela segunda parte da programação daquele domingo, o show <em>Philip Glass 80 + Piano. </em>Um dos principais nomes da música erudita contemporânea, Glass se consolidou como expoente do gênero minimalismo ao lado de nomes como Steve Reich e Arvo Pärt. Sua carreira inclui colaborações com <a href="http://personaunesp.com.br/?s=david+bowie" target="_blank" rel="noopener">David Bowie</a>, <a href="http://personaunesp.com.br/baladinha-top-persona/" target="_blank" rel="noopener">Aphex Twin</a> e <a href="https://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/marisa-monte-nao-me-preocupo-em-ser-pop-mas-em-ser-propria-96241" target="_blank" rel="noopener">Marisa Monte</a>, dentre incontáveis outros, além de trilhas sonoras conceituadas.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/5eqszU2O7a1XCf6NOrvd9K" width="300" height="380" frameborder="0" allowtransparency="true"></iframe></p>
<p>Popular não me parecia uma palavra aplicável a Glass, embora o músico desfrute de maior fama em relação a contemporâneos. Talvez o teor canônico que envolve tudo acerca da famigerada música clássica tenha transformado o adjetivo em uma ofensa &#8211; o velho papo de Bordieu sobre a construção social dos gosto.</p>
<p>Essa impressão foi embora no momento em que, após a insistência do camarada <a href="http://personaunesp.com.br/?s=lucas+marques" target="_blank" rel="noopener">Lucas Marques,</a> aceitei assistir ao concerto sentado na grama. Oras, como assim, ver um pianista renomado de pé deveria ser pré-requisito&#8230;</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-8544" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/Philip-Glass-Ibirapuera-80-piano.png" alt="" width="970" height="508" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/Philip-Glass-Ibirapuera-80-piano.png 970w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/Philip-Glass-Ibirapuera-80-piano-300x157.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/Philip-Glass-Ibirapuera-80-piano-768x402.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p>Ao nível do chão, percebi que havia feito confusão semântica. Philip Glass pode não ser <em>mainstream</em>, mas sua música não deixa de ter forte apelo popular. A começar pelo formato do show que, além do próprio, incluiu apresentações de quatro pianistas (Ricardo Castro, Heloísa Fernandes, Jenny Lin e Maki Namekawa) interpretando suas obras. Juntar nomes fortes dos dois lados do oceano &#8211; pra tocar piano em um espetáculo gratuito! &#8211; não podia ser resultado de apenas bons contatos.</p>
<p>Valia a pena dividir a atenção ente o palco e o público. Ali perto de onde estávamos, um casal brincava com seu bebê no ritmo das teclas, uma moça só abria os olhos na hora de aplaudir e um rapaz ficou com as pernas dormentes, buscando a melhor posição para enxergar os músicos. Enquanto trocava piadas e perguntas com o senhor Marques, reparei que meu celular era dos mais ativos na região; e isso porque só o ligava para tirar uma foto ao fim de cada ato, mais pelo registro do que qualquer coisa.</p>
<figure id="attachment_8545" aria-describedby="caption-attachment-8545" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-8545" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_195407-1024x768.jpg" alt="" width="840" height="630" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_195407-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_195407-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_195407-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/09/20170917_195407-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-8545" class="wp-caption-text">A patota teclera completa no palco: quando a existência da foto é mais relevante que a qualidade (Foto: Eu mesmo)</figcaption></figure>
<p>De modos distintos, todos os presentes pareciam estar em comunhão com o que saía das caixas de som. Os nomes dos intérpretes ou das peças pouco importavam: ao tom da primeira nota, o silêncio se tornava quase lei no auditório externo do Ibirapuera. Discutir a trajetória de Glass ou tentar explicar as nuances dos subgêneros atribuídos à sua música não era prioridade. A experiência única ali proposta, sim.</p>
<p>Na corrida de volta para o metrô (que incluiu a perda de duas viagens no Uber), o público pareceu triplicar. Dentre os comentários que pesquei, nenhuma crítica foi detectada. A ideia de que apenas uma elite era capaz de fruir o que havia sido oferecido na programação daquele dia foi ralo abaixo, e lembrei de um comentário de Hugo Wilcken em seu livro sobre <a href="http://personaunesp.com.br/bowie-o-homem-que-caiu-em-berlim/" target="_blank" rel="noopener"><em>Low</em></a> (1977): quando artistas dão acento pop a vanguardas complexas, eles as legitimam para um público maior. Fica a esperança de que a crença de que popular não é, por natureza, pasteurizado ou banal caia por terra cada vez mais. Punk ou erudito, tudo é possível e passível de criatividade acentuada &#8211; mesmo em um domingo qualquer no parque.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>20 anos depois, Dominatrix mostra que o riot grrrl não morreu</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jul 2017 23:28:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Alcântara]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bárbara Alcântara “Depois eles falam que as mulheres não são unidas”, ironizou a vocalista da banda paulistana Dominatrix, Elisa Gargiulo, no último sábado (22). Ela disse isso no camarim da Associação Cultural Cecília, logo após se apresentar na 3ª edição do Distúrbio Feminino Fest – em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/dominatrix-cronica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "20 anos depois, Dominatrix mostra que o riot grrrl não morreu"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_8340" aria-describedby="caption-attachment-8340" style="width: 598px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8340 " src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/dominatrix-1.jpg" alt="dominatrix-1" width="598" height="445" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/dominatrix-1.jpg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/dominatrix-1-300x223.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 598px) 85vw, 598px" /><figcaption id="caption-attachment-8340" class="wp-caption-text">old is cool</figcaption></figure>
<p><strong>Bárbara Alcântara</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Depois eles falam que as mulheres não são unidas”, ironizou a vocalista da banda paulistana Dominatrix, Elisa Gargiulo, no último sábado (22). Ela disse isso no camarim da </span><a href="https://www.facebook.com/associacaocecilia/"><span style="font-weight: 400;">Associação Cultural Cecília</span></a><span style="font-weight: 400;">, logo após se apresentar na </span><a href="https://www.facebook.com/events/1084458198322035/"><span style="font-weight: 400;">3ª edição do Distúrbio Feminino Fest</span></a><span style="font-weight: 400;"> – em comemoração aos 20 anos de lançamento do álbum de estreia da banda, </span><i><span style="font-weight: 400;">Girl Gathering</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1997). </span><span id="more-8332"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Elisa falou sobre união, referia-se a dois momentos específicos do evento: quando todas as mulheres subiram no palco para cantar, primeiro ao lado da </span><a href="https://charlottematouumcara.bandcamp.com/"><span style="font-weight: 400;">Charlotte Matou um Cara</span></a><span style="font-weight: 400;">, o cover do clássico </span><a href="http://personaunesp.com.br/punk-rock-nao-e-so-pro-seu-namorado/"><span style="font-weight: 400;">riot grrrl</span></a><span style="font-weight: 400;"> brasileiro “Punk rock não é só pro seu namorado”, da Bulimia; e depois “Patriarchal Laws”, terceira faixa do álbum aniversariante.</span></p>
<figure id="attachment_8336" aria-describedby="caption-attachment-8336" style="width: 599px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8336 " src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20246198_1412663968847706_1370560135101853279_n.jpg" alt="charlotte matou um cara" width="599" height="399" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20246198_1412663968847706_1370560135101853279_n.jpg 960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20246198_1412663968847706_1370560135101853279_n-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20246198_1412663968847706_1370560135101853279_n-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 599px) 85vw, 599px" /><figcaption id="caption-attachment-8336" class="wp-caption-text">O que te impede de gritar? O que te impede de falar? Pare de se esconder! Você não é pior que ninguém!</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com certeza, quem não costuma frequentar “rolê punk” vai estranhar a naturalidade com que relatei ter conversado com a vocalista de uma das bandas mais importantes para a cena feminista brasileira (e para a minha vida também) após o show. Mas é que no punk é assim: a hierarquia palco plateia simplesmente não existe. E acho que, desde o início, foi isso que sempre me fascinou nele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Distúrbio Feminino, </span><span style="font-weight: 400;">podcast, festival e blog, também </span><span style="font-weight: 400;">segue a linha punk do faça-você-mesmo e autogestão: a idealizadora, Mariângela Carvalho, </span><span style="font-weight: 400;">tenta unir e empoderar mulheres apoiando os seus trabalhos, dando espaço para divulgá-los. A 3ª edição do fest</span><span style="font-weight: 400;"> contou com a presença de três bandas – duas já citadas e também a </span><a href="https://www.facebook.com/sororidade/"><span style="font-weight: 400;">Soror</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretamente de Brasília – e o trabalho solo da curitibana </span><a href="https://www.facebook.com/katzesoundz/"><span style="font-weight: 400;">Katze</span></a><span style="font-weight: 400;"> (que eu, infelizmente, não consegui chegar a tempo para ver). Entre as apresentações, rolou uma roda de conversa sobre mídia feminista. </span></p>
<figure id="attachment_8335" aria-describedby="caption-attachment-8335" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8335" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/debate.jpg" alt="disturbio feminino" width="600" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/debate.jpg 960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/debate-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/debate-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-8335" class="wp-caption-text">A mensagem principal do debate era: independentemente do canal, o importante é que as mulheres estejam produzindo e comunicando algo. Por: Menu da Música</figcaption></figure>
<p><b></b><span style="font-weight: 400;">Confesso que fiquei levemente receosa antes de chegar no evento. Saí de Bauru, no interior paulista, para ir até lá por dois motivos: fazer um trabalho sobre o movimento punk em São Paulo – eu insisti para que falássemos da cena “das mina” – e também porque estava ansiosíssima para ver, mais uma vez, Dominatrix ao vivo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O motivo exato deste receio, eu desconheço. Podia ser porque fazia tempo que não aparecia em rolês punk feministas, e não sabia nem se ia conhecer mais alguém lá. Ou então porque tudo aquilo era muito íntimo para mim e, como o trabalho era em grupo, mais dois amigos foram comigo – e eu não sabia o que eles achariam de lá.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fosse qual fosse a razão, o negócio é que esse sentimento surgiu logo na viagem. Nas 3h de estrada, que foram coroadas por mais 2h de engarrafamento na entrada da cidade (acelera São Paulo!), fui ouvindo a discografia da banda. Quando apertei o play no </span><i><span style="font-weight: 400;">Girl Gathering</span></i><span style="font-weight: 400;">, um mix de emoções tomou conta de mim. Retornei à minha adolescência, no momento em que, recém havia descoberto Bikini Kill – e ainda deslumbrada com o movimento riot grrrl estadounidense –, resolvi procurar sobre as bandas de terras tupiniquins. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Topei de cara com Dominatrix pela importância que elas têm na cena local – considerada a banda responsável por trazer o riot grrrl para o Brasil, e que já deu entrevistas para publicações como <a href="https://www.advocate.com/">The Advocate</a>, <a href="http://www.maximumrocknroll.com/">Maximum Rock &#8216;N&#8217; Roll</a> e <a href="http://www.punkplanet.com/">Punk Planet</a>. Lembro que a capa já me chamou a atenção; uma foto &#8211; meio desfocada, numa estética </span><a href="http://www.bigodela.com/2016/10/desculpem-o-transtorno-precisamos-falar.html"><span style="font-weight: 400;">emo anos 90</span></a><span style="font-weight: 400;"> – de duas meninas tocando instrumentos. O intrigante era que o rosto delas não aparecia e isso dava margem para a interpretação de que ali poderia ser qualquer uma, até mesmo eu. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Dominatrix - Girl Gathering [1997] - Álbum Completo / Full Album" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/8QQ9tERw2mE?start=640&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b></b><span style="font-weight: 400;">Enquanto as faixas iam rolando, eu percebia o quanto cada uma das letras se encaixava em momentos distintos da minha vida. Era um ritmo rápido, agressivo e com letras contestatórias (afinal de contas é punk, né?), somado a um “tiquinho assim” de melódico (fazendo jus à estética da capa). Vi que mesmo escritas 20 anos atrás, ao contrário de datadas, as músicas continuavam atuais. E quanto mais eu me envolvia com essa cena punk e underground de SP, novos sentidos elas iam ganhando para mim. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Exemplo disso é a de abertura do álbum, “My New Gun”:</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Why are you girl sitting there so angry?</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Por que você, garota, está sentada aí tão brava?</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Some stupid boy called me a fucking fascist.</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Um garoto estúpido me chamou de fascista.</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">He’s just a middle class jerk.</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Ele é só um babaca da classe média.</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Are they so good to give us a fucking note?</span><span style="font-weight: 400;"> |<em> Eles são assim tão bons pra nos dar satisfação?</em></span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Este trecho específico me lembrou do período de nascimento da, agora quase-extinta, </span><a href="https://www.facebook.com/coletivonongratxs/"><span style="font-weight: 400;">Coletiva Feminista Non Gratas</span></a><span style="font-weight: 400;"> – e das críticas constantes que recebíamos, principalmente dos caras. Questionavam os nossos pensamentos e posicionamentos políticos. Eles até achavam bacana mulheres lutando por seus direitos. O problema era quando as críticas caíam sobre eles – aí era demais, né?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também me fez recordar </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Jwe3FGB387A"><span style="font-weight: 400;">do show da banda RVIVR, em 2012</span></a><span style="font-weight: 400;">, no evento Verdurada, em SP. Nesse dia, a Erica Freas, vocalista, pediu para que todas as mulheres fossem para a frente do palco e os homens para trás – postura que foi amplamente criticada… pelos caras. Em ambos os casos, o argumento foi o mesmo:  as mulheres são muito radicais; que igualdade é essa que segrega?; “feminazis”. Isso porque em todos os outros shows no festival, só tinha homem na frente (risos nervosos). </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Dominatrix - My New Gun (Verdurada 20/01/2008)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/T34toCKp9LI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b> </b><span style="font-weight: 400;">A 6ª faixa, “Close Enough to Jump”, também é bem representativa de algo comum na cena: </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">You say we wanna be a part of it</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Você diz que queremos ser parte disso</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">But I&#8217;m that &#8220;lifeless thing&#8221; you thought it would never move</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Mas eu sou uma coisa inanimada que Você pensou que nunca se moveria</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">But I did it and now crucify me cuz I didn&#8217;t &#8220;behave&#8221;.</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Mas eu me movi, e agora você me crucifica porque eu não me comportei</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">It was the first time I saw that stereotyped hate stamped in your face.</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Foi a primeira vez que vi o ódio Estereotipado estampado em sua face</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">This scene thing I just don&#8217;t believe </span><span style="font-weight: 400;">| <em>Essa coisa de cena, eu simplesmente não acredito</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">All we want is girl unity.</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Tudo o que eu quero é união feminina</em></span></p></blockquote>
<p>É difícil encontrar banda “de mina” em line up de show. E isso não acontece por falta de demanda; a procura é que é escassa. É só pegar os flyers dos eventos dos últimos anos: quantas bandas de mulheres estão sendo anunciadas? Quantas de homens? Não é proporcional. Os eventos feministas, no entanto, continuam acontecendo, novos projetos surgem, e elas continuam de fora do circuito “tradicional”. Eles dizem que nós é que não produzimos. Só que quando produzimos, ou o  resultado não é bom o suficiente, ou ele é exagerado – e não colocam a gente para tocar.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não precisa nem estar em banda para presenciar o machismo em uma cena dita libertária – que é uma das interpretações pras letras de </span><i><span style="font-weight: 400;">Girl Gathering</span></i><span style="font-weight: 400;">. Eu mesma nunca fiz música. No entanto, só de estar na platéia, uma gama extensa de situações me veio à cabeça enquanto ouvia os gritos de desabafo em cada faixa, em especial “For the Sake” e “Powerplay Kite”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acredito que, assim como eu, </span><a href="http://nadapop.com.br/por-que-tem-tanto-punk-machista-homofobico-racista-babaca/"><span style="font-weight: 400;">toda menina que foi a um show punk já se deparou com o clássico macho antifascista</span></a><span style="font-weight: 400;">: aquele que canta sobre desmascarar o fascista que é você, mas chega em casa e… Minha divagação foi interrompida quando, enfim, chegamos ao metrô.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Trama Virtual - Dominatrix (pgm 33)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/HHXS3Ye7xSg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia do evento, o receio que sentia se misturou à ansiedade – e ambos se intensificaram durante o longo percurso (que fica ainda mais distante depois que você se muda para o interior) entre a minha casa-metrô-local do show. Perguntas ecoavam na minha cabeça: “Será que vamos ser bem recebidos?”, “Meus amigos vão gostar do evento?” e “O show vai ser bom?”. Chegando lá, a resposta para ambas a perguntas foi a mesma: um belíssimo “sim”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Logo na entrada, revi rostinhos familiares &#8211; daquelas pessoas pelas quais cultivamos carinho, mas por razões distintas (leia-se: vida adulta) encontramos esporadicamente. Andamos um pouco pelas banquinhas e demos uma olhada em tudo o que estava exposto: fanzines (presentes no movimento punk desde os primórdios), camisetas com estampas feministas (amém </span><a href="https://www.facebook.com/empoderadistramor"><span style="font-weight: 400;">Empodera Distra</span></a><span style="font-weight: 400;">), bijouterias, </span><i><span style="font-weight: 400;">merch</span></i><span style="font-weight: 400;"> de bandas e deliciosas comidas veganas (saudades, inclusive). </span></p>
<figure id="attachment_8339" aria-describedby="caption-attachment-8339" style="width: 320px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8339 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20270117_1477664912280472_416166226_n.jpg" alt="20270117_1477664912280472_416166226_n" width="320" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20270117_1477664912280472_416166226_n.jpg 320w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/20270117_1477664912280472_416166226_n-167x300.jpg 167w" sizes="auto, (max-width: 320px) 85vw, 320px" /><figcaption id="caption-attachment-8339" class="wp-caption-text">DIY é isso aí: várias pinturas e zines lindíssimos &#8211; tudo feito por mulher</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A própria associação Cecília é um lugar interessante: uma casa, no centro, que mantém as portas abertas para ocupações culturais. Quando entramos lá, ouvimos o barulho de uma maquininha – tinha gente tatuando. Dentro, era bem espaçoso e bonito, com muitas pinturas na parede; de fora, uma porção de plantas e banquinhos. Pena que estava frio, se não teríamos aproveitado um pouco mais o lugar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando as garotas da Soror chegaram com seu doom metal cru, todos ficaram impressionados. Principalmente, a minha amiga Elisa – uma das que eu arrastei para São Paulo comigo –, que até comprou camiseta e virou fã de carteirinha. Então foi a hora de uma roda de conversa sobre mídia feminista. Participaram do debate “zineiras”, youtubers, quadrinistas, </span><a href="http://womensmusicevent.com.br/"><span style="font-weight: 400;">produtoras</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://deliriumnerd.com/"><span style="font-weight: 400;">jornalistas</span></a><span style="font-weight: 400;"> culturais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Charlotte Matou um Cara fez uma apresentação especialmente emocionante: elas tocaram cover além de Bulimia, também de Bikini Kill e Sonic Youth. Os minutos em cima do palco em “Punk rock não é só pro seu namorado” foram libertadores. É que cantar aquela música significava mais do que demonstrar apreço por ela; era externalizar a sua identificação com o que está sendo dito. E olhar para os lados e ver outras pessoas fazendo o mesmo, confesso que foi reconfortante – e me fez perceber que não estou sozinha. </span></p>
<div style="width: 640px;" class="wp-video"><video class="wp-video-shortcode" id="video-8332-1" width="640" height="368" preload="metadata" controls="controls"><source type="video/mp4" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500835166.mp4?_=1" /><a href="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500835166.mp4">http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500835166.mp4</a></video></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi então que chegou a tão aguardada hora. Elisa Gargiulo (vocal e guitarra), Marina Takahashi (guitarra), Fernanda Horvath (baixo) e Nina Pará (bateria) entraram no palco, e abriram o show com as duas primeiras faixas do álbum aniversariante, “My New Gun” e “No Make Up Tips”. Foi uma explosão: todas, mesmo as que se mostraram mais acanhadas no início do festival, cantavam em coro enquanto “pogavam” e se batiam na frente do palco; no maior estilo hardcore possível. Os homens presentes no recinto apenas observavam. Era a hora deles não serem o assunto central. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelas palavras de meu amigo </span><a href="http://personaunesp.com.br/?s=gabriel+leite+ferreira"><span style="font-weight: 400;">Gabriel</span></a><span style="font-weight: 400;">, que conhecia o riot grrrl só de textos pela internet, eles lidaram bem com isso: “eu sabia que aquele evento não era sobre mim, e mesmo de espectador eu me senti confortável no local”. </span></p>
<figure id="attachment_8337" aria-describedby="caption-attachment-8337" style="width: 597px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-8337 " src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/plateia.jpg" alt="plateia" width="597" height="336" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/plateia.jpg 576w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/plateia-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 597px) 85vw, 597px" /><figcaption id="caption-attachment-8337" class="wp-caption-text">Foto tirada do palco só para constatar: quanta mina na frente!! Por: Elisa Dias</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que tenham dando ênfase para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Girl Gathering</span></i><span style="font-weight: 400;">, elas conseguiram passar por toda a carreira. “Homophobia on a Tray”, do </span><i><span style="font-weight: 400;">Self Delight </span></i><span style="font-weight: 400;">(1998), “Broken Glass Candy”, do </span><i><span style="font-weight: 400;">Beauville</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2002) e “Vai lá”, do <em>Quem Defende pra Calar</em> (2009) foram algumas das tocadas. O hit foi guardado para o final. Antes de tocar “Patriarchal Laws”, pediram para quem soubesse a letra se apoderar dos microfones. Com o palco cheio, foram entoados os três ensinamentos proféticos da Dominatrix:</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Three things you should learn: </span><span style="font-weight: 400;">| <em>Três coisas que você deve aprender:</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Riot grrrl will never die; </span><span style="font-weight: 400;">| <em>O riot grrrl nunca vai morrer;</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Every girl is a riot grrrl;</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Toda garota é uma riot grrrl;</em></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Stop boys violence!</span><span style="font-weight: 400;"> | <em>Parem com a violência dos caras!</em></span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Elisa Gargiulo terminou o show no meio da plateia, depois de um stage dive – mas sem soltar a guitarra. Eu, por minha vez, terminei sem voz – sem me arrepender nenhum minuto de cada grito.</span></p>
<div style="width: 640px;" class="wp-video"><video class="wp-video-shortcode" id="video-8332-2" width="640" height="368" preload="metadata" controls="controls"><source type="video/mp4" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500834497.mp4?_=2" /><a href="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500834497.mp4">http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/video-1500834497.mp4</a></video></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre o “riot grrrl will never die”: até então, elas acertaram em cheio. Ao menos para mim. Acho que por isso optei por uma crônica para falar de </span><i><span style="font-weight: 400;">Girl Gathering. </span></i><span style="font-weight: 400;">Até porque,</span> <span style="font-weight: 400;">no meu texto de estreia no Persona sobre riot grrrl, falei, em primeira pessoa, do primeiro show de punk feminista que eu fui na minha vida – e esse show era da Dominatrix.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como</span><a href="http://personaunesp.com.br/tribalistas-cronica/"> <span style="font-weight: 400;">as outras duas crônicas escritas aqui antes</span></a><span style="font-weight: 400;">, endosso o coro de que “</span><a href="http://personaunesp.com.br/pavement-cronica/"><span style="font-weight: 400;">discutir música é um negócio complicado</span></a><span style="font-weight: 400;">”. Pego esse gancho e acrescento: com recorte feminista, é duplamente difícil. Isso porque a importância simbólica, nesses casos, muitas vezes se sobrepõe à qualidade estética. E desqualificar essa emoção em detrimento de acordes mal elaborados seria desonesto. Por isso escrevo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se teve algo que constatei neste fim de semana, no Distúrbio Feminino Fest, é que quem pensa que “as mina” desistiram de tomar conta do rolê – ou mesmo que o punk feminista esteja capengando, respirando por aparelhos – está profundamente enganado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O riot grrrl brasileiro passa muito bem, obrigada.</span></p>
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		<title>Tribalistas e a minha velha infância</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jul 2017 18:43:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Elisa Dias A possibilidade de escrever crítica musical foi anulada automaticamente do meu plano de ideias no momento em que a cogitei. Simplesmente porque, em segundos, um pequeno fluxo de pensamentos a respeito me mostrou quão complexa é a minha relação com a música. Complexa porque, a meu ver, a minha visão a respeito é &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/tribalistas-cronica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Tribalistas e a minha velha infância"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-large wp-image-8255" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-1-928x1024.jpg" alt="tribalistas capa 15 anos já sei namorar" width="840" height="927" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-1-928x1024.jpg 928w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-1-272x300.jpg 272w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-1-768x847.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-1.jpg 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p><strong>Elisa Dias</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A possibilidade de escrever crítica musical foi anulada automaticamente do meu plano de ideias no momento em que a cogitei. Simplesmente porque, em segundos, um pequeno fluxo de pensamentos a respeito me mostrou quão complexa é a minha relação com a música. Complexa porque, a meu ver, a minha visão a respeito é a mais <a href="https://revistacult.uol.com.br/home/o-critico-e-o-poeta-baudelaire/">baudelairiana</a></span><span style="font-weight: 400;"> possível, sem indícios de qualquer análise técnica que comprove de alguma forma o que eu quero dizer. Um texto crítico sem embasamento é mais um achismo pro mundo – e o mundo já está bem cheio disso, convenhamos.</span><span id="more-8254"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas eis que descubro que meu disco brasileiro preferido completará 15 anos esse ano. “Discutir música é um negócio complicado”, <a href="http://personaunesp.com.br/pavement-cronica/" target="_blank">já dizia Nilo, em seu texto da última quinta-feira sobre </a></span><a href="http://personaunesp.com.br/pavement-slanted-and-enchanted/">Pavement</a><span style="font-weight: 400;">, e eu concordo e assino embaixo. Porém, sob o argumento de que </span><i>Tribalistas</i><span style="font-weight: 400;"> é interessante demais para passar seu aniversário em <em>off</em> (e com ajuda de certa pressão externa dos amigos editores), decido enfim dar um jeito na vida e me arriscar no meio musical por, no mínimo, bons motivos.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na minha pré-adolescência, minha mãe costumava me acordar com música alta nos finais de semana de vez em quando. Eu levantava da cama com olhos fulminantes, estressada mesmo antes de perceber que estava acordada de fato &#8211; d</span><i><span style="font-weight: 400;">isco</span></i><span style="font-weight: 400;"> e músicas sessentistas definitivamente não me animavam nas manhãs de sábado. Raras eram as vezes em que eu abria os olhos e não queria quebrar o aparelho de som, e em todas elas o mesmo disco ecoava da sala para meu quarto.  Meus ombros se relaxavam aliviados quando escutava a voz de Carlinhos Brown anunciando o começo dos Tribalistas- e do meu dia. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<figure id="attachment_8256" aria-describedby="caption-attachment-8256" style="width: 586px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-8256" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-2.jpg" alt="tribalistas prêmio marisa monte carlinhos brown arnaldo antunes" width="586" height="385" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-2.jpg 840w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-2-300x197.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/Imagem-2-768x504.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 586px) 85vw, 586px" /><figcaption id="caption-attachment-8256" class="wp-caption-text">Cool shades: Aquele estilo dos anos 2000 que todos gostam mas ninguém admite</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje, percebo que “b</span>om dia comunidade<span style="font-weight: 400;">” anunciava mais do que o simples início do único álbum do grupo – ele significava um nascimento, o surgimento de algo novo e de uma experiência amplamente brasileira. Com o passar das músicas, é perceptível a mistura experimental e bem feita de brasilidades, indo de elementos do samba à MPB, com <em>backgrounds</em> cheios de ruídos bem colocados e um posicionamento de músicas intrigante.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na primeira vez em que me dei ao trabalho de escutar </span><i><span style="font-weight: 400;">Tribalistas </span></i><span style="font-weight: 400;">com ouvidos mais atentos, imaginei que o álbum se tratava da narração de uma grande história desenvolvida ao longo de suas 13 músicas; era um romance escrito na minha frente. A transformação dessa história para um livro de ficção não parecia tão difícil: tudo se inicia com o despertar de um interesse amoroso, e a ele se seguem as escolhas, a volta ao passado para reflexão, a impaciência com o passar do tempo por não alcançar o amor desejado, a desilusão, a revelação amorosa, seu desenvolvimento, a inserção do sentimento na rotina e na relação, uma análise momentânea da situação, a necessidade da ardência amorosa novamente, o entendimento do sentimento no presente e, finalmente, o epílogo /”sobre o autor”. Um clichê, digno de best-seller adolescente (</span><i><span style="font-weight: 400;">fun fact</span></i><span style="font-weight: 400;">: as bases de Nicholas Sparks e John Green se encontram no rearranjo dos mesmos fatores).</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tribalistas - Carnavalia" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/xKvpnuUQY0E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois bem, os tempos mudam e as visões de mundo também. Já não entendo todo o otimismo e singeleza com que enxergava o mundo na época, mas admiro minha versão romântica de anos atrás. Com ouvidos exaustivamente mais atentos, sento-me na cama com meu notebook e recomeço a jornada de outra forma, decidida a me concentrar no que as músicas iriam me dizer. Quando cheguei ao último segundo da última faixa, desejei não ter me concentrado tanto assim. A minha ficha caía lentamente, enquanto eu percebia que o romance se esvaíra para dar lugar a um abismo acolhedor. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sociedade parece ter se dado conta da melancolia velada e da confusão que é o disco antes de mim, já que as músicas mais tocadas e conhecidas parecem ser as mais leves e menos subjetivas. Dessa vez, foram as mais desinteressantes para a minha consciência &#8211; não que &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Velha Infância</span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><span style="font-weight: 400;">, &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Já Sei Namorar&#8221;</span><span style="font-weight: 400;"> e &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Carnavalia</span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><span style="font-weight: 400;"> não tenham seus atrativos, mas a atenção estava agora voltada para as geralmente esquecidas.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Tribalistas - Velha Infancia" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/zwqrmEMB0wc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">De cara me encantei com &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Pecado é lhe deixar de molho&#8221;</span><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">primeiramente pela grande margem de interpretação que um simples pronome oblíquo pode gerar. A cada “lhe” imaginado, temos um novo sentido para a música inteira, e sinceramente isso é tão realista que chega a assustar. </span><span style="font-weight: 400;">Flash<i>, </i>personagem da DC comics,</span><span style="font-weight: 400;"> <a href="https://omelete.uol.com.br/series-tv/noticia/the-flash-vai-explorar-o-elemento-de-viagem-no-tempo/">já nos provou que qualquer detalhe da nossa vida que seja modificado altera todo o andar da carruagem</a>. E me vem o pensamento: porque não induzir uma reflexão aprofundada sobre como cada pormenor de nossas vivências tem sua importância e como cada leitura única gera uma interpretação diferente no ouvinte? Louvada seja a língua portuguesa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo vício do álbum veio quando fui confrontada pelo existencialismo de &#8220;</span><span style="font-weight: 400;">Carnalismo</span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Marisa Monte tem o dom de transmitir sentimentos específicos em seu cantar, e isso faz toda a diferença na maneira com que se percebe o que ela tem a dizer emocionalmente. Para melhor compreensão da música, dei-me ao luxo de me colocar no lugar de Marisa enquanto a escutava. Um efeito ímpar: pude sentir a anestesia e confusão de suas palavras, além da perplexidade pela proposta de que o amor não passa de uma relação carnal entre seres humanos. Com a repetição dos mesmos sentimentos na segunda parte da música, sinto a voz de Arnaldo Antunes surgindo e me acompanhando na tentativa de me sustentar, até que a imersão se torna grande o suficiente para que eu mergulhe por completo e fique impossibilitada de continuar. Carlinhos assume os dois últimos versos, e a música termina do mesmo jeito que começou – com chuva e indiferença. Demoro um tempo para me recompor.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Carnalismo - tribalistas" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/eZeUyjxQ13I?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A pré-adolescente rabugenta de anos atrás não se proporia a interpretar as coisas dessa forma. Novamente, me pergunto o que aconteceu com aquele otimismo e lirismo no olhinhos ingênuos de quem achava que entendia muita coisa, mas decido que aceitar o excesso de profundidade e pluralidade das minhas perspectivas é a coisa mais sensata a se fazer, no fim das contas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Decido também que o termo “tribalista” não vai mais remeter apenas a “três” e “tribal” como eu pensava antes. Agora, assumo que se refere a excesso de balismo (doença caracterizada por t</span><span style="font-weight: 400;">remor involuntário, desordenado e de grande amplitude</span><span style="font-weight: 400;">), nesse caso de oscilações e vibrações nos fluxos lógicos da nossa mente. A perturbação às vezes se faz necessária, e não desviar os olhos de tudo o que convém como uma menina de 12 anos também.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Tribalistas</span></i><span style="font-weight: 400;"> me fez assumir a complexidade das coisas e escrever sobre música de alguma forma, o que já o torna um disco memorável para minha pessoa. Não sei mais escutar qualquer música ou ler sequer um poema sem me atentar às minhas próprias entrelinhas, fato não mais desesperador &#8211; apenas inconveniente às vezes, devo dizer, mas ninguém morre de inconveniência. No fim, em meio de tantas incertezas <a href="http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/o-que-voce-precisa-saber-de-verdade-sobre-possivel-volta-dos-tribalistas.html" target="_blank">(que incluem a aguardada </a></span>volta do grupo à ativa<span style="font-weight: 400;">)</span><span style="font-weight: 400;">, uma coisa fica evidente: valeu a pena dar mais uma chance ao disco e à minha nova versão mais obscura e caótica.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/7tkP1p2yTttMg2SY45nB5Y" width="300" height="380" frameborder="0" allowtransparency="true"></iframe></p>
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		<title>Pavement e o impulso para seguir em frente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jul 2017 23:23:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Indie]]></category>
		<category><![CDATA[Nilo Vieira]]></category>
		<category><![CDATA[Pavement]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nilo Vieira Discutir música é um negócio complicado, seja pelo nível de abstração da arte ou pelo quão obsessivo (tradução: mala) você seja em relação ao assunto; “música é difícil de explicar porque ela é muito fácil de se entender”. Não sei se é uma citação real, mas faz sentido o suficiente: às vezes, exercícios &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pavement-cronica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Pavement e o impulso para seguir em frente"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-8248" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee.jpg" alt="screw the RIAA (não fui eu que botei isso aí mas concordo)" width="640" height="640" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee.jpg 640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /></p>
<p><strong>Nilo Vieira</strong></p>
<p>Discutir música é um negócio complicado, seja pelo nível de abstração da arte ou pelo quão obsessivo (tradução: mala) você seja em relação ao assunto; “música é difícil de explicar porque ela é muito fácil de se entender”. Não sei se é uma citação real, mas faz sentido o suficiente: às vezes, exercícios solitários acerca da arte são mais proveitosos do que discussões coletivas. Se divertir com as próprias interpretações é um belo alimento pro ego e divertidíssimo, afinal.<span id="more-8247"></span></p>
<p>Em termos de som, a experiência de encontrar um grande disco talvez só esteja abaixo da redescoberta do poder de obras antes menosprezadas por nós. No meu caso, a bola da vez é <i>Wowee Zowee </i>(1995), terceiro álbum da entidade do indie rock Pavement. Um trambolho com 18 músicas, sucessor do <a href="http://personaunesp.com.br/pavement-slanted-and-enchanted/" target="_blank">seminal <i>Slanted and Enchanted</i> (1992)</a> e do inquestionável <i>Crooked Rain, Crooked Rain</i> (1994); várias músicas ali pareciam inacabadas ou estendidas por nenhuma razão coerente, sem nenhum hit bombástico. O tracklist como um todo é uma montanha-russa desgovernada, sem uma narrativa aparente.</p>
<figure id="attachment_8249" aria-describedby="caption-attachment-8249" style="width: 500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-8249" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-back-cover.jpg" alt="A contracapa do disco e os membros preocupadíssimos em ser o próximo Nirvana" width="500" height="503" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-back-cover.jpg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-back-cover-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/pavement-wowee-zowee-back-cover-298x300.jpg 298w" sizes="auto, (max-width: 500px) 85vw, 500px" /><figcaption id="caption-attachment-8249" class="wp-caption-text">A contracapa do disco e os membros preocupadíssimos em ser o próximo Nirvana</figcaption></figure>
<p>Spiral Stairs, guitarrista e fundador do grupo, <a href="https://noisey.vice.com/en_au/article/bm4pew/rank-your-records-spiral-stairs-happily-rates-pavements-five-lps" target="_blank">o avaliou como o pior LP da banda recentemente</a>. Bryan Charles, autor do livro sobre o disco para a série 33 ⅓ (Bloomsbury), admitiu que este era o registro da banda que menos havia escutado por anos &#8211; idem <a href="http://personaunesp.com.br/?s=lucas+marques" target="_blank">Lucas Marques</a>, o maior fã de Pavement da Unesp Bauru (e meu primeiro contato nela), dotado de paciência e parcimônia budistas para analisar arte. O esforço das revisões não deve valer a pena. É só um disco bem legal e pronto, não há necessidade de ser uma obra-prima como os antecessores. A essência da estética <i>slacker</i>, da qual o líder Stephen Malkmus é peça-chave, é essa mesmo.</p>
<p>Deleta o disco. Tá, não apaga tudo, deixa só as melhores: <i>Wowee Zowee</i> tem boas ideias, mas, acima disso, MUITAS delas. Bah, mantenha ele onde está, você tem espaço sobrando. Ok, já que você nunca irá comprar o disco físico, passe os arquivos mp3 pro seu celular novo; na pior das hipóteses, 56 minutos de música ajudam a passar o tempo.</p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Pavement - Rattled By The Rush (Official Video)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/dAVLkn-4B9o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><em>&#8220;Eles nem mesmo parecem estar tentando&#8221; &#8211; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=UzKgeD-3rwk" target="_blank">Beavis &amp; Butthead sobre o elaborado clipe para o primeiro single de Wowee Zowee</a></em></p>
<p>Eu teria muito tempo pra passar em uma semana, na minha primeira viagem sozinho fora do país. Ainda no avião, coloquei os fones e dei play: “<i>Nós vamos dançar/ mas ninguém dançará conosco/ nesta cidade boba</i>”, cantava Malkmus em “We Dance”. Diferente dos outros discos, a abertura de <i>Wowee </i>se dá com uma faixa serena, distante das tradicionais guitarras ruidosas que marcaram o Pavement. É como se fosse um bis após o final de <i>Crooked Rain</i>, com a épica “Fillmore Jive”: a calmaria após a tempestade, ou só Stephen voltando ao palco com um violão e dizendo “ok, gente, vamos tentar algo diferente agora”. Como bem aponta Marshall Gu em sua resenha, <a href="https://freecitysounds.com/2014/08/22/pavement-wowee-zowee/">qualquer outra banda teria colocado a faixa como um encerramento dramático para o disco</a>. Bryan Charles é igualmente enfático em seu livro:</p>
<blockquote><p><i>We Dance inicia com uma piada freudiana, e então muda para os anseios silenciosos que ele [Malkmus] faz tão bem. (&#8230;) O apelo para mim, desde o começo, foram as entrelinhas. Onde alguns viram apenas sarcasmo ou distanciamento, eu maliciosamente vi medo mascarado, alegria, tristeza, luxúria.</i></p></blockquote>
<p>Perdido nas ruas de Barcelona, dei play no disco mais uma vez. Não pra me sentir menos sozinho, mas pra ter alguma trilha pra caminhada de uma hora imposta pelo Google Maps. Os slides de guitarra em “Black Out” são executados com uma firmeza que sugere movimento, mas soam leves como uma brisa aleatória num gramado qualquer. “Rattled by the Rush” é Malkmus brincando de guitar hero, em um solo tão bem lapidado quanto espontâneo.</p>
<p>E lá está o imbecil, quase sendo atropelado por carros, na ciclovia, ou mesmo pelas pessoas com pressa na calçada porque se empolgou com as músicas no celular. Maturidade é só um conceito pra alguns tentarem impor superioridade sob outros: como alguém taxa “Brinx Job” como filler? Meu deus, é a melhor interpretação de Can já feita por alguém que não eles! E tem “Grounded” logo depois.</p>
<blockquote><p>Dine by candle light and hold your savings tight</p>
<p>You never, you never know</p>
<p>When the bridge falls apart</p>
<p>We spoke of latent causes sterile gauzes</p>
<p>And the bedside morale</p>
<p>We traipse around the table talking sentences</p>
<p>So incomplete&#8230; plete! please!</p>
<p>Boys are dying on these streets… *bend dramático na guitarra*</p></blockquote>
<p>Aí está. O grande triunfo lírico de Stephen Malkmus não está em criar narrativas lineares: é na forma em que ele amarra fragmentos da realidade, em um fluxo de consciência onde tédio e ansiedade convergem. Não é como se ele não estivesse se esforçando e apenas jogando palavras ao ar; é a urgência em apenas seguir adiante. Meses antes do Oasis estourar com “Wonderwall” em 95, o Pavement já tinha “AT&amp;T”, que inicia com “<i>Maybe someone’s gonna save me</i>”. Ao contrário do romantismo dos Gallagher, Malkmus prega a superação sem dependências de outrém, quase como em um karaokê bêbado. “<i>GO!/ Whenever, when-n-n-n-ever I feel fine, I&#8217;m going to walk away from all this all that</i>”.  A postura desleixada <i>slacker</i> não é perante às composições, e sim aos formatos impostos como regras: observe como a entrega dos vocais se relaciona com o instrumental fragmentado da canção.</p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Pavement - Father To A Sister Of Thought (Official Video)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/ZCecDGriMT4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>É. São muitas ideias colocadas em <i>Wowee Zowee</i>, sucessiva e/ou simultaneamente. No fim, minha cabeça funciona de maneira similar, ainda que sem as boas melodias. É, talvez. Definitivamente: semana passada, uma menina que eu já tinha visto virou pra mim no ônibus em Bauru e só falou.</p>
<p>&#8220;<em>Você sabia que, no topo de uma montanha-russa, a inércia faz com que seus órgãos parem por instantes e então todo seu corpo fica frio?</em>&#8221;</p>
<p>Foi a coisa mais aleatória que alguém me falou na vida, e uma das mais fofas também. Conversamos o resto do trajeto, e eu estava com a cabeça tão centrada em Barcelona que esqueci de perguntar o nome da moça. Ela desceu do ônibus, e então chegou no meu ponto. O “<em>why didn’t I ask? why didn’t i ask?</em>” de “Kennel District” veio imediatamente à mente. Tão simples, tão pegajoso, tão escorregadio. Desci até a sala do Persona.</p>
<p>Semanas antes, tinha entrado pela primeira vez naquele lugar. Coloquei “Fight This Generation”, minha favorita do álbum. O título é certeiro, e se transforma em um mantra na parte central da canção. A mesma música que, tempos atrás, cantei sozinho na rua após ir embora de uma festa modorrenta agora entoava em um lugar que me dava alguma esperança. Lute contra esta geração. Faça alguma coisa da vida.</p>
<figure id="attachment_8250" aria-describedby="caption-attachment-8250" style="width: 420px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-8250" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/9780826429575.jpg" alt="Das melhores coisas do jornalismo musical: financiem a série 33 1/3, pelo amor" width="420" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/9780826429575.jpg 420w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/07/9780826429575-219x300.jpg 219w" sizes="auto, (max-width: 420px) 85vw, 420px" /><figcaption id="caption-attachment-8250" class="wp-caption-text">Das melhores coisas do jornalismo musical: financiem a série 33 1/3, pelo amor</figcaption></figure>
<p>Eu ainda não achava o disco uma obra-prima, mas o magnetismo que ele exercia sobre a minha rotina só expandia. O livro de Bryan Charles não havia me convencido de que este era o melhor registro do Pavement. Porém, a análise poética foi inspiradora como poucas obras na minha vida, ainda mais se tratando de algo tão específico e complexo: crítica musical. Uma leitura tão boa que não me importei de emprestar meu exemplar ao grande Lucas Marques; aquilo ali precisava ser compartilhado, em especial com quem gosta do tema. Jornalistas? Críticos musicais? Balela. Estamos tão perdidos e alienados quanto às pessoas que julgamos estar. Criamos vínculos por gostar das mesmas bandas ou apenas por rir das impressões mirabolantes do outro. O abstrato pessoal se junta no coletivo concreto, por mais cafona que possa soar.</p>
<p>Mas não teve jeito. <i>Wowee Zowee</i> só me atingiu com força plena em uma viagem solitária. Volta de São Paulo, confuso com tantas coisas desaguando naquele fim de semana. A tia retornando pra UTI em São José do Rio Preto, meus pais mudando os planos para visitá-la, eu mantendo os meus e passando o dia com uma pessoa muito querida, com a cabeça nos dois lugares e evitando transparecer um lado para o outro com medo de represália moral. A sensação de não ter falado tudo que devia para nenhuma pessoa.</p>
<p>E tinha Bauru, onde a divertida festa de sábado parecia estar novamente desfarelando perante as brigas de camaradas e a sensação de que talvez estejamos em um caso irreconciliável. A consciência de que não adiantava mais fazer o papel de mediador quando eu mesmo estava irritado com a situação veio à tona, acentuada pelo frio repentino (acentuado pela minha falta de blusas na mochila). Tudo ao mesmo tempo. Só uma opção de trilha sonora em minhas mãos parecia condizer.</p>
<p>“<em>Maybe we could dance. Together, together.</em>”</p>
<p>“<em>I don’t &#8211; need &#8211; this &#8211; corporation attitude!</em>”</p>
<p>“<em>And the laps i swim from lunatics don’t count</em>”</p>
<p>“<em>Your western homes are locked forever, the new frontier is not that near</em>”</p>
<p>Audição encerrada. Nem tudo no disco faz sentido ou é bom. O conjunto, todavia, é uma ilustração pulsante e sincera de toda essa bizarrice que nos cerca, por desleixo ou iniciativa própria. Pra esta semana não temos nenhum texto programado ou pauta em desenvolvimento pra lançar. Vou escrever sobre a minha experiência com <em>Wowee Zowee</em>, sem gancho temporal algum. Talvez irrite alguns, mas dane-se. Dê play no disco, escreva. Siga em frente &#8211; é a única opção.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/725kB44UbE0sMB4wICOton" width="300" height="380" frameborder="0" allowtransparency="true"></iframe></p>
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