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	<title>Arquivos Cinema queer &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Em busca da liberdade, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho alcança o amor</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Jun 2024 16:07:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Marina Iwashita Canelas Imagine a sua adolescência, todos os mil sentimentos juntos e bagunçados, desde ‘Será que eu sou bonito?’ ou ‘Será que ela gosta de mim?’, até os comentários e palpites sobre aquela pessoa que está ‘ficando’ com quem você gosta. O início da vida adulta, junto ao amadurecimento e as descobertas sobre si &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/hoje-eu-quero-voltar-sozinho-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em busca da liberdade, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho alcança o amor"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33641" aria-describedby="caption-attachment-33641" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-33641" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-2-1-800x477.png" alt=" Cena do Filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho&quot;. A imagem mostra três jovens no centro que usam calça jeans e a mesma camiseta manga curta cinza com gola azul e uma coruja como brazão a esquerda. O menino da esquerda é branco, possui cabelos cacheados, castanho escuro e está sorrindo com os olhos fechados. Ele usa uma mochila nas costas, a qual só podemos ver as alças de cor marrom. A menina do meio é branca, usa um relógio lilás no pulso direito, tem cabelos lisos na cor castanho escuro com franjas na altura da sobrancelha. Ela está sorrindo e sua alça de mochila nas costas é cinza claro. O último menino, da direita, é branco, tem cabelo castanho liso e está segurando com a mão direita o braço esquerdo dobrado da menina ao seu lado. Ele está sorrindo e com a sua mão esquerda segura a alça da sua mochila, na cor cinza também. O fundo da imagem é de uma rua, na parte esquerda temos a rua e os jovens andam na calçada, com árvores e grades de casas." width="800" height="477" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-2-1-800x477.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-2-1-768x458.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-2-1.png 862w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-33641" class="wp-caption-text">No Festival de Berlim de 2014, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho foi premiado como Melhor Filme pelo Júri da Crítica na Mostra Panorama e com o Prêmio Teddy de Melhor Filme LGBT (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Marina Iwashita Canelas</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imagine a sua adolescência, todos os mil sentimentos juntos e bagunçados, desde ‘Será que eu sou bonito?’ ou ‘Será que ela gosta de mim?</span><i><span style="font-weight: 400;">’</span></i><span style="font-weight: 400;">, até os comentários e palpites sobre aquela pessoa que está ‘ficando’ com quem você gosta. O início da vida adulta, junto ao amadurecimento e as descobertas sobre si mesmo, não são períodos fáceis. É nessa fase que muitas pessoas passam a experimentar coisas novas, como alguma aventura com amigos ou ser rebelde em casa. Para Leonardo (Ghilherme Lobo) – protagonista do premiado curta-metragem </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI"><i><span style="font-weight: 400;">Eu Não Quero Voltar Sozinho</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que, com seus infames 17 minutos de duração, encantou muita gente –, essa realidade nunca foi fácil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Léo é um adolescente cego que descobre a sua sexualidade com a chegada de um novo aluno no colégio. Quatro anos depois, em 2014, o longa-metragem </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/brasileiro-hoje-eu-quero-voltar-sozinho-ganha-dois-premios-no-festival-do-berlim-11607602"><i><span style="font-weight: 400;">Hoje Eu Quero Voltar Sozinho</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> foi lançado ao mundo por </span><a href="https://gq.globo.com/Cultura/noticia/2014/02/daniel-ribeiro-uma-nova-cara-para-o-cinema-brasileiro.html"><span style="font-weight: 400;">Daniel Ribeiro</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretor de ambas as obras. Sem perder a leveza da primeira obra, o filme pôde aumentar sua riqueza de detalhes, dando mais foco às personagens e suas particularidades. Ribeiro traz mais discussões referentes ao dia a dia do personagem para a trama, tornando-a muito mais do que apenas um filme com temática LGBTQIA+.</span></p>
<p><span id="more-33640"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Podemos conhecer melhor o protagonista à medida que entendemos a sua rotina e como a criação que tem o sufoca. Sua mãe, </span><a href="https://personaunesp.com.br/thelma-filme-critica/"><span style="font-weight: 400;">superprotetora</span></a><span style="font-weight: 400;">, muitas vezes impede Léo de viver coisas normais de um adolescente. Giovana (Tess Amorim) é a sua melhor amiga desde a infância, e Amorim consegue dar voz ao papel da sua personagem de forma muito clara e fluida. Por vezes ficamos estressados com ela por ter a mesma ideia de que a deficiência visual, de alguma forma, define-o. </span></p>
<figure id="attachment_33643" aria-describedby="caption-attachment-33643" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-33643" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-800x422.png" alt="" width="800" height="422" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-800x422.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-1024x540.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-768x405.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-1536x810.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3-1200x633.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-3.png 1600w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-33643" class="wp-caption-text">O filme foi escolhido para representar o Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014 (Foto: Pyramide Distribution)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso, porém, muda com a chegada de Gabriel, interpretado por </span><a href="https://www.fabioaudi.com/about"><span style="font-weight: 400;">Fabio Audi</span></a><span style="font-weight: 400;">, um aluno novo de outra cidade e que, por estar alheio à bolha, desperta mais a curiosidade do garoto, além de apoiá-lo em decisões que o mesmo gostaria de tomar. Audi consegue trazer para o seu papel uma alma viva, ele interpreta um jovem livre e cheio de desejos, que conhece bem a si mesmo e também deseja que o protagonista se conheça mais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação dos personagens é construída aos poucos, sendo possível acompanhar os </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=MELHORES+AMIGOS#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">melhores amigos</span></a><span style="font-weight: 400;"> se afastarem por ciúmes, devido a sensação de liberdade que Léo tem com Gabriel. Nesse período, é possível observar alguém, que não tinha contato algum com pessoas com deficiência visual, sendo a chave principal para dar mais confiança ao protagonista e entendê-lo como apenas um garoto querendo viver a vida de um jovem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pensando nisso, em alguns momentos, podemos ver a Fotografia de </span><a href="https://pierrekerchove.com/"><span style="font-weight: 400;">Pierre de Kerchove</span></a><span style="font-weight: 400;"> voltada para a perspectiva do Léo, ou seja, </span><a href="https://personaunesp.com.br/perlimps-critica/"><span style="font-weight: 400;">muito sensorial</span></a><span style="font-weight: 400;">. Temos cenas desfocadas com apenas o barulho de conversas e risos, momentos de liberdade e tensão, além de momentos íntimos, à exemplo, os beijos no vidro do box. No quesito tensão, com o decorrer da narrativa, vemos o quão difícil é para o protagonista viver os múltiplos aspectos de seu cotidiano. </span></p>
<figure id="attachment_33642" aria-describedby="caption-attachment-33642" style="width: 630px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33642" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/unnamed-1-1.png" alt="" width="630" height="247" /><figcaption id="caption-attachment-33642" class="wp-caption-text">O título original provisório do filme foi Todas as coisas mais simples (Foto: Pyramide Distribution)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além da sua família e amiga mais próxima, têm os meninos da sala que fazem </span><a href="https://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/jornal/paginas/ju_561_paginacor_04_web.pdf"><i><span style="font-weight: 400;">bullying</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">com ele, tirando sarro e planejando algo sacana. Essas infames brincadeiras são muito mais voltadas à cegueira do protagonista do que ao fato dele estar se descobrindo sexualmente. O longa traz consigo uma visão muito leve e delicada sobre a vida, mas principalmente sobre o amor, então, por mais que fiquemos com raiva das falas e gestos errados, isso não pesa na narrativa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É incrível como o filme consegue criar um cenário de cotidiano muito forte. Acompanhamos toda rotina do Léo, sabemos da dinâmica da casa dele, as suas frustrações e algo interessante é a </span><a href="https://personaunesp.com.br/jury-duty-critica/"><span style="font-weight: 400;">naturalidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> com que a personagem trata a sua cegueira com Gabriel. Apesar de o recém chegado na escola, às vezes, fazer comentários indesejados como &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">já viu aquele vídeo famoso?</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, o protagonista ainda assim se sente confortável perto dele, por vezes, o ‘zomba’, mas existe a vontade de ter experiências novas junto a ele, como ir ao cinema,  sair de casa no meio da madrugada sem avisar ou andar de bicicleta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A criação desse cenário de intimidade que temos com as personagens se dá também pelos seus estilos musicais, que compõem a trilha sonora (</span><a href="https://arthurdecloedt.com/"><span style="font-weight: 400;">Arthur Decloedt</span></a><span style="font-weight: 400;">). Para diferenciar quem está ligando, o celular do protagonista conta com um toque diferente para cada pessoa. A única semelhança entre todos é o estilo musical que ele consome: clássico. Fazendo um paralelo a isso, Gabriel chega na sua vida com </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/7kkDvoGvoVPtLD3Ef61E62?si=2e05010c0484462b"><i><span style="font-weight: 400;">There &#8216;s Too Much Love</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Belle and Sebastian. Chega a ser engraçado como ambos, por mais diferentes que sejam, se completam. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Trailer Oficial - Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (The Way He Looks) English Subtitles" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/lpHKXyko358?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Léo segue uma vida regrada, porém, cheia de desejos e vontades a serem realizadas, Gabriel é o tipo do adolescente ‘livre’, com pais tranquilos, e poderia ser considerado o ‘alternativo’ da turma, que vira DJ nas festas. </span><span style="font-weight: 400;">O longa trata todas essas questões de uma forma muito leve e delicada. Percebemos, no final, que o amor sentido pelo casal é um </span><a href="https://personaunesp.com.br/feels-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">misto de sentimentos</span></a><span style="font-weight: 400;">; a mistura de algo novo, romântico, sensível e carregado de muito companheirismo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Hoje Eu Quero Voltar Sozinho</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre como o amor não encontra barreiras para existir. Em momento algum precisamos ver para sentir ou saber que aquela pessoa é realmente a destinada para você. A obra não é tratada a partir da </span><a href="https://personaunesp.com.br/com-amor-simon-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">aceitação</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos jovens no mundo LGBTQIA+, na verdade, ela retrata uma visão muito romântica e ingênua sobre esse aspecto, o que pode frustrar parte da audiência. Mas, ver a evolução da amizade das personagens, se imaginar no lugar do Léo e refletir sobre as questões trazidas na produção fazem dele um lindo filme de romance.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Dec 2021 15:01:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori 1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em Le départ d’Arlequin et de Pierrette (1900), da pioneira mãe do Cinema, Alice Guy-Blaché, ou do sex appeal de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/senhoritas-em-uniforme-90-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_25392" aria-describedby="caption-attachment-25392" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25392" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas e se encaram. Fräulein von Bernburg segura o rosto de Manuela com as mãos, inclinando-o para cima. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1600" height="1353" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-800x677.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1024x866.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-768x649.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1536x1299.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1200x1015.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25392" class="wp-caption-text">Precursor do Cinema queer, Mädchen in Uniform (título original de Senhoritas em Uniforme) foi a estreia da curta filmografia de Leontine Sagan [Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft]</figcaption></figure><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em </span><a href="https://www.splicetoday.com/moving-pictures/dancing-with-alice-guy-blache"><i><span style="font-weight: 400;">Le départ d’Arlequin et de Pierrette</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1900), da pioneira mãe do Cinema, </span><a href="https://mulhernocinema.com/entrevistas/documentario-recupera-trajetoria-de-alice-guy-blache-a-primeira-cineasta-da-historia/"><span style="font-weight: 400;">Alice Guy-Blaché</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou do </span><i><span style="font-weight: 400;">sex appeal</span></i><span style="font-weight: 400;"> de um beijo sáfico roubado por uma Marlene Dietrich andrógina em </span><a href="http://www.contracampo.com.br/85/dvdmarrocos.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Marrocos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1930), mas sim, por direito, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1931). Marco do audiovisual LGBTQIA+, a produção alemã determinou os destinos da ficção </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo de seus 90 anos, revelando com sensibilidade o florescer do desejo lésbico. E realizado por uma equipe de mulheres, na desobediência, é alcançada a libertação.</span></p>
<p><span id="more-25391"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do roteiro à execução, a perspectiva do filme é inteiramente feminina. Baseado na peça teatral </span><i><span style="font-weight: 400;">Gestern und Heute</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1930), escrita por </span><a href="https://legacyprojectchicago.org/person/christa-winsloe"><span style="font-weight: 400;">Christa Winsloe</span></a><span style="font-weight: 400;"> – ex-Baronesa assumidamente lésbica –, a história relata a experiência pessoal da dramaturga ao viver sobre a austeridade de um colégio interno em Postdam, ainda na adolescência. O sucesso da trama levou à adaptação de </span><a href="https://feitoporelas.com.br/feito-por-elas-155-senhoritas-em-uniforme/"><span style="font-weight: 400;">Leontine Sagan</span></a><span style="font-weight: 400;"> no ano seguinte e outra em 1958, uma refilmagem quase idêntica da original, dirigida por </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/senhoritas-em-uniforme-madchen-in-uniform/"><span style="font-weight: 400;">Géza von Radványi</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em ambos, o elenco é todo composto por mulheres. A única presença masculina se manifesta simbolicamente através da imobilidade dos heróis de guerra imortalizados no mármore das esculturas que cercam a arquitetura sóbria do internato.</span></p>
<figure id="attachment_25393" aria-describedby="caption-attachment-25393" style="width: 1061px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25393" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está em fileira um grupo de colegiais que cantam de frente para a câmera. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1061" height="887" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg 1061w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-800x669.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-1024x856.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-768x642.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25393" class="wp-caption-text">O filme venceu a categoria de Melhor Perfeição Técnica na primeira edição do Festival de Veneza em 1932 (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos primeiros minutos do filme, somos introduzidos à protagonista. Ela é Manuela (Hertha Thiele), uma adolescente de 14 anos, enviada de malgrado para um internato destinado </span><a href="https://thehotpinkpen.com/2020/09/02/leontine-sagans-german-cult-classic-madchen-in-uniform-hails-a-ground-breaking-all-female-cast-filmed-in-1931/"><span style="font-weight: 400;">somente à moças</span></a><span style="font-weight: 400;">. Praticamente órfã, ela perdeu precocemente a mãe, enquanto o pai, como um “bom” soldado prussiano, ausenta-se do papel de educar a filha. Uma menina especialmente sensível, Manuela se depara de imediato com o autoritarismo da diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden (Emilia Unda). Por consequência, entra em conflito a irreverência da aliança fraterna entre as colegiais contra a tirania da instituição patriarcal representada pelas professoras. Bom, </span><a href="https://www.tcm.com/video/1578953/madchen-in-uniform-1931-movie-clip-why-are-you-shaking"><span style="font-weight: 400;">nem toda professora</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Cuidado para não se apaixonar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Porque todas as garotas têm uma queda pela Srta. Fräulein von Bernburg.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi o conselho oferecido à recém-chegada pelas novas colegas, não como um aviso moral, mas como um subtexto brincalhão, mandando-a entrar na longa fila de admiradoras. Atravessando as paredes frias dos dormitórios compartilhados, dos vestiários confessionais ou, ainda, das cortinas que separam cada cabine do banheiro, a </span><a href="https://kiradeshler.substack.com/p/madchen-in-uniforms-revolutionary"><span style="font-weight: 400;">admiração pela professora</span></a><span style="font-weight: 400;"> Fräulein von Bernburg (Dorothea Wieck) é consenso entre as garotas – e com Manuela, não foi diferente. A professora é culta, elegante e incrivelmente bela. Diferente das matriarcas mais tradicionais, Fräulein von Bernburg é compreensiva, valorizando o afeto no aprendizado, tanto quanto na disciplina. Não há como não se encantar por uma mulher tão fascinante quanto ela.</span></p>
<figure id="attachment_25394" aria-describedby="caption-attachment-25394" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25394" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img3.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Fräulein von Bernburg é uma mulher branca. De cabelo preso em coque, ela veste um vestido escuro. Já Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. Ambas se encaram. Manuela está de costas para a câmera, levantando-se da cama de encontro com Fräulein von Bernburg. O fundo é um dormitório compartilhado com camas metálicas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="700" height="586" /><figcaption id="caption-attachment-25394" class="wp-caption-text">Fenômeno do Cinema LGBTQIA+, a naturalização do lesbianismo de Senhoritas em Uniforme ressoa nos 90 anos de sua história, desde os experimentalismos vanguardistas de Chantal Akerman aos retratos homoeróticos de Céline Sciamma (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As garotas adoram Fräulein von Bernburg, dançam juntas, bordam dentro de um coração as iniciais de seus nomes combinados com a da professora e confessam naturalmente a paixão pela mulher mais velha. </span><a href="https://personaunesp.com.br/retrato-jovem-chamas-critica/"><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">queerness </span></i><span style="font-weight: 400;">é normalizado</span></a><span style="font-weight: 400;">, abrindo-se as portas de um universo íntimo emancipado das amarras compulsórias da sociedade heterossexual, celebrando o amor em suas muitas formas – maternal (Fräulein von Bernburg), fraternal (Ilse) ou, mesmo, homossexual (Manuela). O erotismo lésbico se apresenta com inocência, não como algo sujo. E Manuela fica completamente hipnotizada pela professora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><a href="https://youtu.be/mBrAsTARANY"><span style="font-weight: 400;">cena mais memorável do filme</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma fileira de colegiais em camisolas brancas, esperam ansiosamente o beijo de boa noite de Fräulein von Bernburg. A professora caminha de cama em cama, beijando testa por testa como num </span><i><span style="font-weight: 400;">eros </span></i><span style="font-weight: 400;">ritualístico. A última é Manuela, que espera ansiosamente pela sua vez, observando a professora cruzar, sem pressa, o dormitório. Seguida por </span><i><span style="font-weight: 400;">close-ups</span></i><span style="font-weight: 400;"> de olhares cheios de desejo, a antecipação é inquietante. Cresce em Manuela um sentimento inebriante, confundindo, despertando. Quando chega a sua vez, ela abraça a mulher mais velha, quase implorando por um beijo nos lábios, que lhe é concedido.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Quando você diz boa noite e fecha a porta do quarto, encaro-a na escuridão. Eu quero me levantar e ir até você, mas sei que não posso. Penso que quando eu sair da escola, você ainda estará aqui. E toda noite, você beijará novas garotas.</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_25395" aria-describedby="caption-attachment-25395" style="width: 1353px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25395" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. A imagem é close-up do rosto de Manuela, inclinado para a esquerda. Ela aparenta estar triste. O fundo é cinza. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1353" height="1121" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg 1353w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-800x663.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1024x848.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-768x636.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1200x994.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25395" class="wp-caption-text">Hertha Thiele viveu à altura da bravura de Manuela, assumindo postura contrária ao regime totalitário e tornando-se febre entre as adolescentes que enviavam cartas de adoração à atriz (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do </span><a href="http://www.mnemocine.com.br/index.php/cinema-categoria/24-histcinema/89-notas-para-uma-historia-do-cinema-homossexual-na-era-dos-regimes-totalitarios"><span style="font-weight: 400;">clima propício para explorar questões de gênero e sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Alemanha, que se tornou uma espécie de meca LGBTQIA+ nas décadas anteriores, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi feito no auge da decadência progressista de Weimar. Avançava o ativismo </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">no país, graças à </span><i><span style="font-weight: 400;">Liga Mundial pela Reforma Sexual</span></i><span style="font-weight: 400;"> do sexólogo gay </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/12/magnus-hirschfeld-o-medico-gay-e-judeu-que-defendia-lgbts-do-nazismo/"><span style="font-weight: 400;">Magnus Hirschfeld</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, acredite se quiser, havia mais de cinquenta bares lésbicos (</span><i><span style="font-weight: 400;">Damenklub</span></i><span style="font-weight: 400;">) somente em Berlim. Ninguém diria que em dois anos </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/19/a-perseguicao-contra-mulheres-queer-durante-o-holocausto/"><span style="font-weight: 400;">tudo mudaria</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As únicas três produções dirigidas por Sagan davam sinais de um movimento nascente que transcendia a dramaticidade do </span><a href="https://www.aicinema.com.br/expressionismo-alemao-movimentos-cinematograficos/"><span style="font-weight: 400;">expressionismo alemão</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em </span><a href="https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-depois-o-gabinete-do-dr-caligari-reflete-panico-atual/"><i><span style="font-weight: 400;">O Gabinete do Dr. Caligari</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1920), de Robert Wiene. O claro-escuro não buscava mais acentuar as distorções psicológicas de um personagem masculino perturbado, pelo contrário, a cineasta sutilmente combinava elementos estilísticos expressionistas com a performance orgânica de suas atrizes, evocando a subjetividade da psique feminina. O preto se ilumina, o branco cintila. Sobre a tela prateada as emoções se derramam calorosamente entre os encontros de olhares perdidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos detalhes, a direção de Sagan se excede. Cada toque, cada carícia, cada vislumbre são enquadrados por uma soberba câmera que irradia deslumbrantemente o rosto das adolescentes. Os retratos são sutis, simplistas, cândidos e angelicalmente lindos. Romântico em sua narrativa, em sua forma, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> enfatiza o indizível acima do dito. A expressividade do olhar de uma Manuela desolada é suficiente para compreender todas as dores da garota, carregando consigo as reminiscências das agonias dilacerantes de uma Joana d’Arc (Renée Jeanne Falconetti) em julgamento, no clássico </span><a href="https://personacinema.com.br/a-paixao-de-joana-darc-dreyer-dc97377c87ef"><i><span style="font-weight: 400;">A Paixão de Joana d’Arc</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1928).</span></p>
<figure id="attachment_25396" aria-describedby="caption-attachment-25396" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25396" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está um grupo de colegiais que conversam sobre uma escada. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. No centro está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, que olha para o além com as mãos cruzadas acima do peito. No fundo é possível ver as paredes do internato, além da continuação do guarda-corpo da escada que está à frente das garotas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1000" height="750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25396" class="wp-caption-text">“Apenas a imagine pelada” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, com a tomada do poder pelo partido nazista, esse brilho se apagou quando a propaganda militar assumiu o controle da produção cultural alemã. Fato é que dentro do fascismo, não há espaço para a expansão do eu. O individualismo de Sagan foi comprimido na vida e na Arte. Além de ter sido proibido nos Estados Unidos perante o </span><a href="http://obviousmag.org/archives/2013/05/hollywood_os_anos_da_censura.html"><i><span style="font-weight: 400;">Código Hays</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – a censura foi retirada somente devido à moções conduzidas por uma </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2018/06/12-figuras-lgbt-historicas-que-mudaram-o-mundo#:~:text=A%20antiga%20primeira,que%20n%C3%B3s%20dizemos.%E2%80%9D"><span style="font-weight: 400;">influente aliada</span></a><span style="font-weight: 400;">, a primeira dama Eleanor Roosevelt –, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi visto como perigo pelo então ministro da Cultura, Joseph Goebbels, que ordenou que todas as cópias do filme fossem queimadas. Mas, por sorte, uma das cópias existentes fora da Alemanha sobreviveu, junto com o legado de Sagan.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, o filme carrega em suas veias um evidente caráter político. Era uma Europa entreguerras, devastada pela fome e ameaçada pelo nascente partido nazista. A despótica diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden é a personificação de toda a perversidade do regime autoritário de Hitler. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós, prussianos, conhecemos a fome. Elas são filhas de soldados e, se Deus quiser, mães de soldados</span></i><span style="font-weight: 400;">”, declara a superiora, que sujeita as garotas à privação intencional de comida. Para ela, o sofrimento as dignifica, como verdadeiras </span><a href="https://open.spotify.com/track/6VIgGcxTOjPpvFUrFzM2TO?si=74eab7e2a384491d"><span style="font-weight: 400;">mulheres de Atenas</span></a><span style="font-weight: 400;">, instruídas aos bons costumes da Prússia, ao casamento e à fé.</span></p>
<figure id="attachment_25397" aria-describedby="caption-attachment-25397" style="width: 915px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25397" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas. Fräulein von Bernburg segura em seus braços Manuela, essa que está de cabeça baixa. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="915" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg 915w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-768x645.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25397" class="wp-caption-text">Com a tomada de Hitler sobre a Alemanha, Leontine Sagan fugiu para a Inglaterra e Christa Winsloe foi assassinada por um agente da Gestapo em 1944, enquanto exilava-se na Riviera Francesa (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, embora seja uma obstinada declaração antifacista, no âmago de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma-se, antes de mais nada, uma história de amadurecimento. Sagan emparelha a consciência sociopolítica de seu tempo à representação hormonal dos primeiros amores, refletindo na narrativa uma experiência universal sob a especificidade de uma </span><a href="http://www.fiepbulletin.net/index.php/fiepbulletin/article/view/86.a1.38"><span style="font-weight: 400;">lente homoerótica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os corpos se maturam e, por trás das cortinas do internato, </span><a href="https://www.bfi.org.uk/features/madchen-in-uniform-leontine-sagan"><span style="font-weight: 400;">desperta-se silenciosamente o desejo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, uma vez que uma Manuela embriagada declara o seu amor para Fräulein von Bernburg, um limite é transgredido. Até que ponto a afeição homossocial entre as garotas era permitida?</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria pensar nessas coisas, muito menos falar sobre. Você deve voltar aos seus sentidos. Você deve ser curada custe o que custar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Curada? Sobre o quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria me amar… tanto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por que não?</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sentimentos, ora naturalizados pelo companheirismo sáfico das colegas, só eram aceitáveis devido à falta de meninos – não deviam significar nada além disso. Assim, firma-se um contrato taciturno que restringe essas afeições homoeróticas a um determinado estágio da juventude daquelas adolescentes que, com o tempo, sentiriam-se </span><a href="https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309"><span style="font-weight: 400;">compelidas a se entender como heterossexuais</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com a certeza do amor de Manuela que entende, com medo, a influência de seus sentimentos sobre o futuro, enxergando, na morte, a única saída. Mas é na aliança que o último ato se finda.</span></p>
<figure id="attachment_25398" aria-describedby="caption-attachment-25398" style="width: 916px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25398" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são garotas brancas e se encaram. Ilse segura firme o rosto de Manuela com as mãos. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="916" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg 916w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-768x644.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25398" class="wp-caption-text">“Foi estranho. Bernburg não disse uma única palavra. Mas ela te assistiu. Você não pode nem imaginar de quão perto ela te assistiu.” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Rebelando-se contra a tirania de Fräulein von Nordeck zur Nidden, as colegas se unem em solidariedade à Manuela. Proibidas, elas marcham juntas pelos corredores do internato em desobediência ao regime opressivo da superiora. Aqui, o poder é delas, o poder é do povo. Elas salvam a vida de Manuela ao passo que reivindicam a própria autonomia, encontrando a si mesmas apesar das estruturas repressivas. Em todo o seu </span><a href="https://www.criterion.com/current/posts/7429-the-femme-solidarity-and-queer-allyship-of-m-dchen-in-uniform"><span style="font-weight: 400;">potencial revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um hino aos primeiros amores. Aqueles que ainda não estamos preparados para entender, para aceitar, mas que resistem, ainda que no limite de uma memória já desbotada.</span></p>
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